sábado, 17 de janeiro de 2009

Nisargadatta Maharaj - A manifestação total

O que faz você considerar-se uma pessoa? Sua identificação com o corpo. Esta personalidade individual irá durar? Ela durará apenas enquanto a identificação com o corpo permanecer. Mas uma vez que haja uma convicção firme de que você não é o corpo, essa individualidade é perdida. É a coisa mais simples, assim que você tem essa convicção que você não é o corpo, automaticamente, instantaneamente, você se torna o total manifesto. Assim que você abandona sua individualidade, você se torna a totalidade manifesta. Mas seu verdadeiro ser está além até mesmo disso que é a manifestação total. E você assume esta individualidade dentro desta manifestação total enquanto você está identificado com o corpo.
Quando não houver individualidade, o que você irá considerar ser esse que senta para meditar e o que irá considerar a meditação? Quando essa individualidade não está lá, quem medita e sobre o que? As pessoas falam muito livremente sobre meditação, mas o que realmente elas fazem? Elas usam a consciência para concentrarem-se em algo. Dhyana é quando este conhecimento, esta consciência de que eu sou, medita sobre si mesma e não em algo além de si mesma.
Quando você diz que precisa sentar para meditação, a primeira coisa a ser feita é entender é que não é a identificação com o corpo que está sentando para meditação, mas esse conhecimento “eu sou”, esta consciência, que está sentando em meditação e está meditando sobre si mesma. Quando isso for firmemente entendido, então torna-se fácil. Quando esta consciência, esta presença consciente, mergulha em si mesma, o estado de Samadhi surge. Quando esse Mana (o entendimento), Buddhi (inteligência), Chitta (Consciência individual), ou qualquer nome que seja usado, emerge nesse estado, então mesmo o conhecimento “eu estou meditando” se perde, ele também mergulha nesse estado. Esse sentimento conceitual de que eu existo é que desaparece e submerge no próprio Ser. Então essa presença consciente também se funde naquele conhecimento, naquela existência – isso é Samadhi.
Aquele conhecimento revela-se e começa a ter conhecimento sobre tudo móvel e imóvel. E esse conhecimento começa a conhecer a si mesmo. E finalmente o que acontece? A presença consciente apenas permanece. Isto é, há apenas a presença consciente, não “eu” ou “você”, ou qualquer coisa. Eu repito: é a presença total; ou seja, a manifestação total – não eu, você ou nenhum indivíduo.
Esta consciência, que está dentro do corpo e que, portanto, enganosamente assumiu que ela é o corpo, gradualmente realiza sua natureza real, realiza que ela é apenas presença consciente sem nenhum aspecto individual inerente. Finalmente, ela considera-se a presença consciente da manifestação total, e toda individualidade é perdida.
Portanto, o que começa como egoísmo (no sentido individual, como identificação com o indivíduo) finalmente torna-se conhecimento do Ser, como sendo a Presença Consciente.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Jalaluddin Rumi - O louvor assemelha-se ao vapor


Embora a água seja contida num reservatório,
Ainda assim o ar a absorverá, pois é o seu recipiente;
Ele a liberta e a leva até a sua fonte,
Pouco a pouco, sem que vejas o processo.
Da mesma maneira, nossa respiração, pouco a pouco,
Leva nossas almas de sua prisão na terra.
A boa palavra a Ele ascende(Alcorão)
Elevando-se de nós até onde Ele sabe.
Nossa respiração se eleva em temor a Deus,
São oferendas nossas ao trono da eternidade.
Depois descem até nós recompensas por nossos louvores,
Em dobro até, misericórdia do rei da glória.
Portanto, somos compelidos a proferir louvores,
Para que escravos possam atingir a altura das dádivas de Deus.
E assim, esse subir e descer prossegue eternamente,
E não cessa por todo o sempre ou mais.
Falando claramente, esta atração
Vem do mesmo lugar que este doce sabor.

Hazrat Inayat Khan - Raga


Ganhaste meu coração mais de mil vezes;
Vens velado sob muitas aparências, e em todas elas és único.
Quem não é atraído pelo esplendor por Ti produzido tão habilidosamente na face da terra?
Nesta feira da beleza brilhas adornado em inumeráveis vestes.
A Ti próprio pertence toda a beleza, e és tu que brilhas nela, e, no entanto, não és atraído por ela.
Neste palco da vida atuas como amigo e inimigo,
e sozinho vês a peça sendo atuada tão maravilhosamente.
Eu te procurei por tanto tempo, meu amado, e finalmente Te encontrei, oh conquistador do meu coração; e ao encontrar-Te eu me perdi.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Upasni Maharaj - O Escultor

Veja as variadas formas maravilhosas que Deus tem assumido. As diferentes qualidades mostradas por diferentes formas têm dado tantos nomes para Deus. É por isso que existem inumeráveis nomes para Deus. Ele atua em tantos papéis, toma tantas formas! Quem pode compreender o Leela (Jogo) de Deus? Seus Leelas são infinitos, tudo o que você vê é a forma Dele, todas as formas animadas e inanimadas dentro e fora desta criação foram assumidas por Ele. É como milhares de imagens e de formas feitas do mesmo barro e nomeadas de maneiras diferentes e usadas para propósitos diferentes.

Se uma imagem de Ganapati é feita de barro, então aquela massa de barro é chamada de Ganapati. E no momento apropriado, as qualidades de Ganapati aparecem naquela imagem. Se uma forma de uma serpente é dada ao mesmo barro, todos que a vêem realmente sentem a presença de uma serpente. Se o mesmo barro é transformado na imagem de um tigre e colocado na floresta num lugar apropriado, então os viajantes certamente acreditarão ser um tigre real, e se sentirão amedrontados. Portanto, o barro transformado numa forma particular e mantido num determinado lugar está destinado a criar um efeito particular na pessoa que o vê. Mas a pessoa que fez essas formas ou que sabe que todas essas formas são feitas apenas de barro, tem a mente nunca afetada por nenhuma dessas formas.

Kabir - Há uma lua dentro de meu corpo

A Lua brilha no meu corpo,
mas meus olhos cegos não podem vê-la.
A Lua está dentro de mim,
e também está o Sol.
O imutável tambor da eternidade é soado dentro de mim;
mas meus ouvidos surdos não podem ouvi-lo.
Enquanto o homem clamar por ‘eu’ e ‘meu’,
seus trabalhos serão vazios:
Quando todo o amor do ‘eu’ e do ‘meu’ for morto,
então o trabalho do Senhor estará feito.
Pois o trabalho não tem outro objetivo além de adquirir o conhecimento:
quando Ele chega, o trabalho é deixado de lado.

A flor desabrocha pelo fruto:
quando o fruto vem, a flor murcha.
O almíscar está no cervo,
mas ele não procura dentro de si mesmo:
ele vagueia em busca de relva.

Rodney Collin - Corpo, Alma e Espírito


Do que trata nosso trabalho?
Nosso trabalho visa permitir que o homem viva conscientemente em três corpos, em três mundos, e assim, que perceba o plano divino. Um corpo físico foi dado a ele pela Natureza no nascimento. Existe em algum lugar a faísca divina original lançada por Deus e que, quando reencontrada, será seu espírito consciente. Mas o homem ordinário não tem nenhum sentimento por aquele corpo que foi criado para conectar os dois - a alma.
A alma é a ponte entre o corpo e o espírito, entre a terra e o céu. Ela está lá, mas você tem que tornar-se ciente dela, tem que senti-la, tem que viver nela. Você sente a alma abrindo seu coração às pessoas, aceitando aquilo que É. A alma cresce através do coração. O coração é a porta da alma. Mas em todos os homens comuns, esta porta está obstruída pelo medo, pelo preconceito, pela dúvida. Seu coração não está aberto para o mundo. O homem apenas toma do mundo aquilo que quer e da maneira que quer. Se ele pudesse apenas ser ele mesmo, ser seu ‘Ser’ (Self) inteiro, sem medo e sem auto-proteção, ele já viveria da alma. Portanto, aprenda simplesmente a ser, ser seu inteiro ‘si mesmo’ (Self). Primeiramente, você deve viver ciente do seu corpo físico. Então, ciente de sua alma. E depois, ciente de seu espírito.
A alma é a ponte, a conexão, entre o corpo e o espírito. Aqueles que vivem completamente dos impulsos dos corpos e da vaidade - você pode dizer que não têm nenhuma alma, ou que sua alma está adormecida; você sente isso. Aqueles que vivem buscando a verdade, tentando obedecer a consciência - suas almas estão crescendo, suas almas estão despertando; você sente isso também. Realmente todos têm uma alma, mas temos que tornarmos-nos cientes dela, viver nela, fazê-la vibrar. Quando ela vibra realmente, a conexão entre o corpo e o espírito é completa. O que faz a alma vibrar, e assim, permitir que todas as partes do homem atuem como um? Luta, fé, esforço, vontade, dor e alegria, memória, piedade e sacrifício. Todos esses pertencem à vinda da alma à vida.
Nós reconhecemos o espírito pela consciência, que é sua voz; nós reconhecemos o corpo prestando atenção nele; reconhecemos a alma através da vontade; vontade através da qual o homem faz seu corpo obedecer seu espírito, e assim unifica-o. O corpo tem suas emanações e o espírito tem suas emanações. Cada esforço da vontade, pela qual um homem torna sua ação física de acordo com sua consciência, funde um átomo do corpo com um átomo do espírito para dar forma a uma molécula da alma. E da mesma maneira que os átomos de hidrogênio e os átomos do oxigênio podem existir lado a lado para sempre, sem dar forma à água até que sejam fundidos pelo choque da eletrólise, assim, o espírito e o corpo podem existir indefinidamente lado a lado até que o choque da vontade faça da fusão de ambos a nova substância: alma.
O corpo vive no espaço e no tempo, sujeito à matéria, à ilusão e aos sentidos. O espírito vive na eternidade e na verdade. A alma deve unir os dois. Portanto, tudo que é certeza pertence ao espírito, tudo que é esforço pertence à alma. O espírito conhece Deus, a alma tem a fé; o espírito conhece Deus, a alma tem a esperança; o espírito conhece Deus, a alma tem a caridade. É assim que se faz a alma vibrar, e o homem transforma-se em um, torna-se ele mesmo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Meher Baba - Manonash

Deus está em toda parte e faz tudo.
Deus está dentro de nós e sabe tudo.
Deus é sem nós e vê tudo.
Deus está além de nós e É tudo.

Este Todo-penetrante, Todo-compreendedor, Deus todo-poderoso, que é o Ser dentro de nosso próprio ser e sem o qual nada é real, ajudou-me e guiou-me durante este período de Manonash de meu trabalho, e faz-me agora ditar a vocês o seguinte: Tentar compreender com a mente aquilo que a mente jamais pode compreender é inútil. Tentar expressar pelos sons da linguagem e sob a forma de palavras o estado transcendental da alma é ainda mais inútil. Tudo que pode ser dito e que tem sido dito e que será dito por aqueles que vivem e experimentam esse estado, é que quando o falso ser é perdido, o Ser real é encontrado; que o nascimento do real pode somente seguir a morte do falso; e que morrendo para nós mesmos -a morte verdadeira que termina com todo o morrer- é o único caminho para a vida perpétua. Isso significa que quando a mente com seus satélites - desejos, ânsias, vontades - é consumida completamente pelo fogo do amor divino, o Ser infinito, indestrutível, indivisível e eterno é manifestado.
Isso é Manonash, a aniquilação do falso, limitado, miserável, ignorante e destrutível “eu” para ser substituído pelo "Eu” real, o possuidor eterno do conhecimento, do amor, do poder, da paz, da felicidade e da glória infinitos em sua existência imutável. Manonash está destinado a conduzir a esse estado glorioso no qual a pluralidade vai e a unidade vem, a ignorância vai e o conhecimento vem, o aprisionamento vai e a liberdade vem. Nós estamos todos alojados permanentemente neste oceano sem fronteiras do conhecimento infinito, no entanto, somos infinitamente ignorantes dele até que a mente - que é a fonte dessa ignorância - desapareça para sempre; a ignorância cessa de existir quando a mente cessa de existir! A menos, e até que a ignorância seja removida e o conhecimento for ganhado - o conhecimento por meio do qual a vida divina é experimentada e vivida - tudo que pertence ao espiritual parece paradoxal. Deus, o qual não vemos, dizemos que é real; e o mundo, que nós vemos, dizemos que é falso.
Na experiência, o que existe para nós não existe realmente, e o que não existe para nós existe realmente. Nós devemos perder a nós mesmos a fim de encontrar a nós mesmos. Assim, a própria perda é ganho. Devemos morrer para nós mesmos para viver em Deus. Desse modo, morte significa vida. Devemos nos tornar completamente vazios internamente para sermos possuídos completamente por Deus. Assim, o vazio completo significa a totalidade absoluta. Nós devemos nos tornar despidos do sentido de nós mesmos, não possuindo nada, para sermos absorvidos na infinidade de Deus. Assim, nada significa tudo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Nisargadatta Maharaj - Mahadakash, Chidakash e Paramakash

Maharaj: Mahadakash é a natureza, o oceano das existências, o espaço físico com tudo o que pode ser descrito com os sentidos. Chidakash é a extensão da consciência, o espaço mental do tempo, da percepção e da cognição. Paramakash é realidade sem tempo e sem espaço, sem mente, indiferenciada; é a potencialidade infinita, a fonte e a origem, a substância e a essência, a matéria e a consciência, e, contudo, está além de ambos. Não pode ser percebida, mas pode ser experimentada como sempre testemunhando a testemunha, percebendo o percebedor; a origem e o fim de toda a manifestação, a raiz do tempo e o espaço, a causa principal em toda corrente de causas.
Pegunta: Qual é a diferença entre o Vyakta (o manifesto) e o Avyakta (o não manifesto)?
Maharaj: Não há nenhuma diferença. É como a luz e a luz do dia. O Universo está cheio de luz que você não vê; mas a mesma luz você vê na forma de luz do dia. E o que a luz do dia revela é o Vyakti.
A pessoa é sempre o objeto, a testemunha é o sujeito, e sua relação de dependência mútua é um reflexo da identidade absoluta deles. Você imagina que são estados distintos e separados. Não são. São a mesma consciência - em repouso e em movimento, cada estado consciente um do outro. Em Chit (consciência universal) o homem conhece Deus e Deus conhece o homem. Em Chit o homem dá forma ao mundo e o mundo dá forma ao homem. Chit é a ligação, a ponte entre extremos, o fator de equilíbrio e de união em cada experiência. A totalidade de tudo o que é percebido é o que você chama de matéria. A totalidade de todos os percebedores é o que você chama de mente universal. A identidade dos dois, manifestando-se como a perceptibilidade e percepção, harmonia e inteligência, amorosidade e amor, reafirma-se eternamente.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Farid ud-Din Attar


No começo dos séculos Deus usou as montanhas como pregos para fixar a terra; depois lavou-lhe a face com as águas dos oceanos. Colocou a terra sobre o dorso de um touro; o touro sobre um peixe, e o peixe está no ar. Mas sobre o que repousa o ar? Sobre nada. Mas nada é nada, e tudo isso é nada. Admira, pois, a obra desse Rei, ainda que ele mesmo não a considere mais do que puro nada. Visto que existe unicamente a essência Dele, certamente não há nada fora ela. Seu trono está sobre a água, e o mundo está no ar; mas deixa água e ar, pois tudo é Deus: o Trono celeste e o mundo não são mais que um talismã. Deus é tudo, e as coisas têm somente um valor nominal. Saiba que o mundo visível e o mundo invisível são Ele mesmo. Não há nada além Dele, e o que é, é Ele. Porém, ai! Ninguém tem a possibilidade de vê-Lo. Os olhos são cegos, ainda que o mundo esteja iluminado por um sol brilhante. Se chegas a percebê-lo, perdes o juízo; se o vires completamente, perdes a ti mesmo. Coisa admirável !

Gurdjieff - Cristianismo

Pergunta: O senhor é cristão? O que pensa disso? Deveríamos amar o próximo? E quem pode amar como um cristão?
Gurdjieff: O cristianismo implica muitas coisas. Tomemos apenas uma como exemplo: Quem pode amar ou detestar quando quer? Entretanto, o ensinamento cristão diz claramente que se deve amar os homens. Mas é impossível.
Contudo, é uma verdade absoluta que é necessário amar. Primeiro, é preciso ser capaz, só então se pode amar. Infelizmente, com o tempo, os cristãos de hoje só retiveram desse ensinamento a segunda metade, que é: amar, e perderam de vista a primeira - a religião que deveria tê-la precedido. Mas seria totalmente absurdo que Deus exigisse do homem aquilo que ele não tem condições de dar.
A metade do mundo é cristã, a outra metade segue outras religiões. Para mim, que sou um homem sensato, não há nenhuma diferença: elas se assemelham à religião cristã. É possível dizer que o mundo inteiro é cristão. Só diferem os nomes. O mundo foi cristão não desde ontem, mas desde milhares de anos. Havia cristãos bem antes do advento do cristianismo. Assim, o bom senso me faz dizer: há tantos anos que os homens são cristãos! como podem ser tão insensatos para exigir o impossível?
Mas a realidade é completamente diferente. As coisas nem sempre foram como são agora. Foi só há pouco tempo que os homens esqueceram a primeira parte desse ensinamento. Tendo esquecido, eles perderam o meio que tinham de se tornarem capazes. E, na verdade, isso se tornou impossível para eles.
Cada um de vocês se pergunte simplesmente, com franqueza, se pode amar todos os homens. Se bebeu uma xícara de café, ele ama; do contrário, ele não ama. Como se pode chamar isso de cristianismo?
No passado, todos os homens não eram chamados indistintamente de cristãos. Numa mesma família, uns eram chamados de cristãos, outros de pré-cristãos e outros ainda de não-cristãos. Desse modo, no seio de uma só e mesma família, poderia haver membros pertencentes à primeira, segunda e terceira categoria. Hoje, porém, todos se dizem cristãos. É ingênuo, desonesto, irrefletido e mesmo desprezível usar esse nome quando ele não é justificado. Um cristão é um homem capaz de observar os Mandamentos.
Um homem que é capaz de cumprir simultaneamente, com seu pensamento e sua essência, tudo que é pedido de um cristão, é chamado cristão sem aspas. Um homem que em pensamento, tem o desejo de cumprir o que se pede a um cristão, mas que só pode fazê-lo com seu pensamento, e não com sua essência, chama-se pré-cristão. O homem que não pode fazer nada, nem sequer com seu pensamento, chama-se não-cristão.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Meher Baba - Perfeição

A perfeição é alcançada quando o homem se torna Deus ou quando Deus se torna homem. O Ser finito que está consciente de seu ser finito é obviamente desprovido de perfeição; mas quando ele é consciente de ser um com o infinito, ele é perfeito. É isso o que acontece quando o homem abandona a ilusão de ser finito e alcança a Divindade realizando seu aspecto divino. Se por infinito queremos dizer isso que é oposto ao finito ou que está separado do finito e necessariamente oposto do finito, esse infinito já é limitado por ser incapaz de afirmar-se no finito e através do finito. Ou seja, a perfeição não pode pertencer a tal infinito. O infinito tem que, conseqüentemente, descobrir sua vida ilimitada dentro e com o finito sem ser limitado por este processo. A perfeição de Deus é revelada somente quando Ele se manifesta como homem. A descida consciente de Deus na forma limitada de homem é o Avatar. Esse novamente é um caso de perfeição. Assim, temos a perfeição quando o finito transcende seus limites e realiza sua infinidade, ou quando o infinito abandona seu suposto afastamento e torna-se homem. Em ambos os casos o finito e o infinito não estão fora um do outro. Quando há uma mistura feliz e consciente do finito e do infinito, temos a perfeição. Então temos o infinito revelando-se através do finito sem ficar limitado desse modo, e o finito transcendendo seu sentido de limitação no total conhecimento de que ele realmente é a revelação do infinito.

Siddharameshwar Maharaj - Como pode Deus ocupar esse lugar onde está o “eu”?



Sua mente está cativada pelos objetos criados pela ilusão (Maya). Isso inclui também o corpo. Quando sua mente está imersa em Maya, você tem os conceitos de “você” e de “eu”. Todas as lutas devem-se porque você quer que o corpo tenha tudo de melhor. É porque você dedica sua mente a esta luta, que o mundo existe. É porque existem estudantes que existem os professores. Se os estudantes desaparecerem, para quem os professores serão? É porque existe o conhecimento objetivo, que “você” existe. Como o Senhor penetrará o corpo em que você (o ego) estabeleceu sua residência? Como pode uma bainha conter duas espadas? Como pode Deus ocupar esse lugar onde está o “eu”? Podem ser úteis estes objetos sem valor para aquele que aspira alcançar Brahman? Conseqüentemente, você deve sentir que tudo isto não é verdadeiro. Aqueles que querem a ‘Brahmanidade’ devem ter uma dose de Deus (ou seja, devem meditar no Ser-o si mesmo real). De um lado há o ‘Ser’ e do outro, há este exército, este mundo e a regência dos quatorze reinos. Existem duas “realidades" alternas: A Ilusão e Brahman. Não se deve pensar em Maya nem mesmo como sendo boa ou má. Isso se chama “desapego”. Quando, desde o átomo até Brahmadeva, toda esta riqueza e prosperidade são falsas, como podem ser de alguma utilidade? Quando a inclinação mental se separa dos desejos mundanos, de maneira natural ela se volta para 'o Si mesmo real' (o Ser). Mas como pode obter o conhecimento de Brahman aquele que pensa constantemente sobre os objetos do mundo?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ramana Maharshi - Self-enquiry (Atma-Vichara)


O primeiro pensamento a surgir na mente é o pensamento "eu". Todos os outros inumeráveis pensamentos surgem apenas depois do pensamento "eu" e têm nele sua origem. Em outras palavras, apenas depois do pronome de primeira pessoa “eu” surgir, é que os pronomes de segunda e terceira pessoa, “tu” e “ele”, ocorrem para a mente; estes não subsistem sem aquele.
Como todos os outros pensamentos só podem surgir depois do aparecimento do pensamento "eu", e como a mente nada mais é do que um conglomerado de pensamentos, é apenas voltando a atenção para o pensamento "eu", através da inquirição “Quem sou eu?”, que a mente será extinta. Além disso, o pensamento "eu", implícito na investigação “Quem sou eu?”, destruirá todos os outros pensamentos, como uma vareta que quando usada para avivar uma fogueira, é também consumida no final.
Você não precisa eliminar nenhum falso “eu”. Como pode o “eu” eliminar a si mesmo? Tudo o que você precisa fazer é encontrar a Fonte do “eu”, e permanecer lá. O seu esforço só pode levá-lo até esse ponto. A partir daí o Transcendental vai tomar conta de si mesmo. Você não pode fazer mais nada então. Nenhum esforço pode chegar até Ele.
O pensamento “eu” é como um fantasma que, apesar de ser impalpável, surge simultaneamente com o corpo, vive e desaparece junto com ele. A consciência “eu sou o corpo/este é meu corpo” é o falso eu. Abandone-a. Você pode fazer isso buscando a fonte do sentimento “eu”. O corpo não diz “eu sou”. É você que diz “eu sou o corpo”. Descubra o que é esse “eu”; busque sua fonte e ele desaparecerá.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Ramana Maharshi - Um verso


Pode haver espaço, pode haver tempo, exceto para mim mesmo?
O espaço e o tempo me atam apenas se sou o corpo.
Eu não estou em nenhuma parte, eu sou sem tempo.
Eu existo em toda parte e sempre.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Nisargadatta Maharaj - Dia 8 de Novembro de 1980


Pergunta: Por que é que nós naturalmente parecemos pensar em nós mesmos como indivíduos separados?
Maharaj: Seus pensamentos sobre individualidade não são realmente seus próprios pensamentos, são todos pensamentos coletivos. Você pensa que você é a pessoa que tem os pensamentos, mas de fato os pensamentos surgem dentro da consciência. Conforme nosso conhecimento espiritual cresce, nossa identificação com um corpo-mente individual diminui, e nossa consciência expande-se na consciência universal. A força da vida continua a atuar, mas seus pensamentos e ações já não são limitados a um indivíduo. Transformam-se na manifestação total. É como a ação do vento - o vento não sopra para nenhum indivíduo em particular, mas para a manifestação total.
Q: Como um indivíduo, é possível retornar à fonte?
M: Não como um indivíduo, o conhecimento “eu sou” deve retornar à sua própria fonte. Agora, a consciência identificou-se com uma forma. Mais tarde, ela compreende que não é essa forma e segue adiante. Em alguns casos ela pode alcançar o espaço, e muito frequentemente, pára ali. Em pouquíssimos casos ela alcança sua fonte real, além de todo condicionamento.
É difícil abandonar essa inclinação de identificar o corpo como sendo o 'Ser' (Self). Eu não estou falando com um indivíduo, estou falando para a consciência. É a consciência que deve procurar sua fonte. Daquele estado de não-ser surge o sentido de existência. Ele surge tão quietamente quanto o crepúsculo, com apenas uma sensação de “eu sou” e então de repente o espaço está lá. No espaço, o movimento começa com o ar, o fogo, a água, e a terra. Todos estes cinco elementos são justamente você. De sua consciência tudo isto aconteceu. Não há nenhum indivíduo. Há somente você, o funcionamento total é você, a consciência é você. Você é a consciência, todos os títulos dos deuses são os seus nomes, mas identificado ao corpo você se entrega ao tempo e à morte - você está impondo isso a você mesmo. Eu sou o universo total. Quando eu sou o universo total não tenho necessidade de nada porque eu sou todas as coisas. Mas abarrotei eu mesmo em uma coisa pequena, um corpo; fiz de mim um fragmento e tornei-me necessitado de coisas. Eu preciso de tantas coisas sendo um corpo. Na ausência de um corpo, você existe; quando não tinha um corpo você existia? Você estava lá ou não? Alcance esse estado que é e era anterior ao corpo. Sua natureza verdadeira está aberta e livre, mas você a encobre, você dá a ela várias formatações.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Sr. Ouspensky - Cada coisa é atravessada por todas as matérias que existem no universo


Toda a matéria do mundo que nos rodeia, o alimento que comemos, a água que bebemos, o ar que respiramos, as pedras de que são construídas as nossas casas, nossos próprios corpos – cada coisa é atravessada por todas as matérias que existem no universo. Não é necessário estudar cientificamente o Sol para descobrir a matéria do mundo solar, essa matéria existe em nós mesmos e é o resultado da divisão de nossos átomos, do mesmo modo temos em nós mesmos as matérias de todos os mundos. O homem é no sentido pleno dessa palavra, um universo em miniatura. Todas as matérias de que é constituído o Universo estão nele. As mesmas forças, as mesmas leis que governam a vida do universo, agem nele. É por isso que ao estudarmos o homem, podemos estudar o universo inteiro, exatamente do mesmo modo que, estudando o mundo, podemos estudar o homem.

Al Ghazali - O peregrino e a caravana

A alma deveria tomar conta do corpo, assim como o peregrino no seu caminho para Meca toma conta do seu camelo, mas se o peregrino passa todo seu tempo alimentando e adornando seu camelo, a caravana o deixará para trás e ele irá perecer no deserto.

Sr. Ouspensky - Record of meetings

Pergunta: A lembrança de si era uma característica do antigo conhecimento esotérico?
Ouspensky: Sempre, em toda a parte. Apenas algumas vezes, nas escolas religiosas, por exemplo, foi designada por um nome diferente. Isso não é arbitrário. É uma etapa necessária em nosso desenvolvimento, não uma tarefa imposta arbitrariamente. É preciso passar por ela e só se pode passar de uma forma.
Pergunta: Cristo alguma vez falou sobre ela – com quais palavras?
Ouspensky: Em cada página. Palavras diferentes. Por exemplo, ‘Não durmai’, ‘Vigiai’ – todo o tempo.
Pergunta: Se a identificação é uma perturbação emocional, o que causa esta perturbação. Por que é assim?
Ouspensky: Qualquer coisa, qualquer coisa no mundo pode causá-la. É difícil dizer o por quê. Pode ser um número excessivo de ‘eus’, falta de controle se quiser. Mas ‘o por quê’ não é tão interessante. Não estudamos o por quê. Estudamos o 'como'. Não podemos saber por que, ou sabemos apenas algumas vezes. Não temos controle; não sabemos que não temos controle e muitas outras coisas. Isso causa identificação. Nascemos rodeados de pessoas que sempre estão identificadas e por imitação inconsciente, nos tornamos iguais a elas.
Pergunta: Você disse que a Natureza era contrária ao desenvolvimento do homem. O desenvolvimento do homem é antinatural, não é?
Ouspensky: Sim, de certo modo. Os níveis são diferentes. A natureza criou o homem parcialmente desenvolvido, e por assim dizer, o deixou aí. Isso significa que a Natureza, a Natureza mais próxima, por assim dizer, necessita dele como ele é. Ao mesmo tempo a Natureza o criou com uma possibilidade de desenvolvimento, isto significa que ela pode usar o homem desenvolvido para algum propósito. As duas coisas são naturais – o fato de que o homem é parcialmente desenvolvido e o fato de que ele pode se desenvolver.
Pergunta: Você disse há um tempo atrás que vivemos sob 48 leis. Quais são elas?
Ouspensky: A Terra está sob 48 leis. Gravidade, coisas assim. Muitas, muitas leis sob as quais vive a Terra – movimento, leis físicas, leis químicas.
Pergunta: Você disse que à medida que progredimos podemos eliminar algumas delas.
Ouspensky: Eu disse que a Terra vive sob 48 leis. O homem vive sob muito, muito mais do que 48. Algumas conhecemos – leis físicas, biológicas. Depois vêm as leis muito simples – a ignorância, por exemplo. Não conhecemos a nós mesmos, isso é uma lei. Se começamos a conhecer a nós mesmos, ficamos livres de uma lei. Não podemos aprender ‘esta é uma lei, esta outra lei, esta uma terceira lei’. Para muitas delas não temos nomes. Todas as pessoas vivem sob a lei da identificação. Essa é uma lei. Aqueles que começam a lembrar de si mesmos podem se livrar da lei da identificação. Dessa forma podemos conhecer essas leis.

Siddharameshwar Maharaj - Toda aparência é ilusão


Toda a aparência é ilusão (Maya) e o “presenciador” é Brahman. O que é visto, ou seja, a aparência, é falso, e o que vê é Brahman. Há uma declaração nos Vedas que diz que existem somente duas entidades, aquilo é visto e Aquele que vê. O Vedanta declara isso de maneira contundente. Neste mundo não há nada além do observador e do observado. Aquele que reside no coração de cada um é Brahman, e Ele é “Real”.
Quem se refugia no que é visto, perece; e quem se refugia em Brahman, alcança o estado Dele. Se você concentrar a atenção no visto (no mundo objetivo), você será destruído assim como aquilo que é visto (o mundo objetivo). A pergunta é, se aquilo que é visto não é verdadeiro, por que é visível, então? O que é visto é falso, porque tudo o que é visto é a magia criada pelo olho. É por isso que não é verdadeiro. No espelho vemos um rosto, isso implica que parecem existir dois rostos; significa então, que hajam dois “você”? O fato é que “você” é somente um, mas, entretanto, parecem existir dois. Um pintor pinta quadros com tinta e diz: “esta é uma montanha, este é o Sr. Vishnu, esta é a Deusa Laskmi”. Você aceita isso como real? Você é o criador. O que na realidade é madeira (a tela), aceitamos como se fosse carne. É o milagre do olho. Aquele que adorar o ‘Si mesmo Real’ desvendará o próprio ‘Si mesmo Real’. Este mundo mortal é feito de terra e será reduzido a poeira apenas. O corpo humano vem da maternidade e vai para o túmulo. Devemos comer o interior do côco e jogar a casca. Aquele que come a casca, consegue só quebrar os dentes.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Jalaluddin Rumi - Pegue a pérola da concha

Saiba que a forma exterior passa, mas o
Mundo do Significado permanece para sempre.
Quanto tempo te enamorarás do formato do jarro?
Deixe de lado o formato do jarro: Vá buscar água!
Tendo visto a forma, não percebes o significado.
Se és sábio, pega a pérola da concha.

Site - Philosophia Perennis

Site com muitos textos relacionados à verdadeira espiritualidade - Philokalia, Sufismo, Vedanta, Quarto Caminho - em Português e Espanhol

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

La Tzu - Tao Te Ching

O Tao de que se pode falar não é o verdadeiro e eterno Tao.
O nome que pode ser dito não é o verdadeiro nome.
O que não tem nome é a origem do Céu e da Terra
E o nomear é a mãe de todas as coisas.
Sem a intenção de o considerar,
Podemos apreender o mistério e suas sutilezas
Através da sua ausência de forma.
Tentando considerá-lo, só podemos ver sua manifestação
Nas formas que definem o limite das coisas.
Ambos provêm da mesma fonte e são o mesmo.
Diferem devido apenas ao aparecimento dos nomes.
São o mistério mais profundo, a porta para todos os mistérios.

Nisargadatta Maharaj - O Ser permanece além da mente

Pergunta: Quando era criança, com muita frequência eu experimentava estados de felicidade completa, próximos ao êxtase. Mais tarde, esses estados acabaram mas, desde que vim para a Índia, eles reapareceram, particularmente desde que encontrei você. Ainda assim, apesar de serem maravilhosos, esses estados não duram. Chegam e se vão, e não se sabe quando voltarão.

Maharaj: Como pode haver algo estável em uma mente que em si mesma não é estável?

P: Como podemos estabilizar a mente?

M: Como poderia uma mente inconstante fazer-se estável? Certamente não é possível. A natureza da mente é vagar. Tudo o que você pode fazer é colocar o foco da consciência além da mente.

P: Como isso é feito?

M:Evite todos os pensamentos exceto um: o pensamento “eu sou”. A mente irá rebelar-se a princípio, mas, com paciência e perseverança, ela cederá e permanecerá quieta. Uma vez que você esteja quieto, as coisas começarão a acontecer espontaneamente e de forma muito natural, sem nenhuma interferência de sua parte.

P: Posso evitar essa longa batalha com minha mente?

M: Sim, você pode. Simplesmente viva sua vida como vier, mas sempre alerta, vigilante, permitindo que tudo ocorra da maneira que ocorrer, fazendo as coisas naturais de um modo também natural, sofrendo, gozando, como a vida se apresentar. Essa também é uma maneira de viver.

P: Bom, então posso casar-me, ter filhos, levar um negócio, ser feliz ...

M: Claro que sim. Você pode ser feliz ou não; aceite-a calmamente.

P: Mas eu quero felicidade.

M: Não se pode encontrar a verdadeira felicidade nas coisas que mudam e morrem. O prazer e a dor se alternam inexoravelmente. A felicidade procede do Ser e só pode ser encontrada no Ser. Encontre seu Ser Real (swarupa) e tudo chegará com ele.

P: Se meu Ser real é cheio de paz e de amor por que sou tão inquieto?

M: O seu Ser Real não é inquieto, mas o reflexo dele na mente parece assim, já que a própria mente é inquieta. É como o reflexo da lua na água agitada pelo vento. O vento do desejo move a mente, e o “eu”, que não é senão um reflexo do Ser na mente, parece mutável. Mas essas idéias de movimento, de inquietude, de prazer e dor, estão todas na mente. O Ser está além da mente, consciente, mas desapegado.

P: Como alcançá-lo?

M: Você é o Ser, aqui e agora. Deixe a mente em paz, seja consciente e despreocupado e você compreenderá que permanecer alerta, mas desapegado, observando como os fatos vão e vêm, é um aspecto de sua verdadeira natureza.

P: Quais são os outros aspectos?

M: Os aspectos são infinitos em número. Compreenda um e você compreenderá todos.

P: Diga-me algo que possa ajudar-me.

M: Você sabe melhor o que precisa!

P: Estou inquieto. Como posso obter paz?

M: Para que você necessita de paz?

P: Para ser feliz.

M: Você não é feliz agora?

P: Não, não sou.

M: O que o torna infeliz?

P: Tenho o que não quero e quero o que não tenho.

M: Por que não inverter? Queira o que você tem e não se preocupe com o que não tem.

P: Eu quero o que é agradável e não quero o que é doloroso.

M: Como é que você sabe o que é agradável e o que não é?

P: Através de experiências passadas, certamente.

M: Guiado pela memória, você tem perseguido o agradável e tentado escapar do desagradável. Você tem tido êxito?

P: Não, não tenho tido. O agradável não dura. A dor sempre volta.

M: Que dor?

P: O desejo de prazer, o medo da dor, ambos são estados de sofrimento. Existe um estado de puro prazer?

M: Cada prazer, físico ou mental, necessita um instrumento. Os instrumentos físicos e mentais são materiais, portanto, se desgastam e se esgotam. O prazer que proporcionam é, necessariamente, limitado em intensidade e duração. A dor é o pano de fundo de todos os prazeres. Você os deseja porque sofre. Por outro lado, a própria busca do prazer é a causa da dor. É um circulo vicioso.

P: Posso ver o mecanismo de minha confusão, mas não vejo a saída.

M: O próprio exame do mecanismo mostra a saída. Afinal de contas, a confusão está só na mente, a qual nunca se rebelou totalmente contra a confusão nem chegou a combatê-la. Ela só se rebelou contra a dor.

P: Então, tudo o que posso fazer é permanecer confuso?

M: Esteja alerta. Investigue, observe, pergunte, aprenda tudo quanto possa sobre a confusão, como funciona, qual é o seu efeito em você e nos demais. Ao ver claramente a confusão, você se libertará dela.

P: Quando olho para mim mesmo, vejo que meu desejo mais forte é criar um monumento, construir algo que dure mais que eu. Inclusive quando penso em um lar – esposa e filhos – é porque ele é sólido, duradouro, uma prova para mim mesmo.

M: Certo, construa um monumento para si. Como quer fazer isso?

P: Não importa o que eu construa, desde que seja permanente.

M: Certamente, você pode ver por si mesmo que nada dura. Tudo fica gasto, quebra e se dissolve. O próprio alicerce sobre o qual você constrói irá ceder um dia. O que você pode construir que sobreviva a tudo?

P: Intelectualmente, verbalmente, estou ciente de que tudo é transitório. Ainda assim, meu coração quer permanência. Quero criar algo duradouro.

M: Então você deve construir sobre algo duradouro. O que você tem que seja duradouro? Nem seu corpo nem sua mente durarão. Você tem que buscar em outra parte.

P: Desejo permanência, mas não a encontro em nenhum lugar.

M: Não é você mesmo permanente?

P: Eu nasci e morrerei.

M: Você pode dizer verdadeiramente que você não existia antes de nascer, e poderá dizer depois da morte: 'agora já não existo?' Você não pode dizer, pela sua própria experiência, que você não existe. Só pode dizer: “eu sou” (eu existo). Os outros também não podem dizer-lhe que “você não é”.

P: Não há “eu sou” no sono.

M: Antes de fazer afirmações tão incisivas, examine cuidadosamente seu estado desperto. Cedo você descobrirá que ele está cheio de intervalos onde a mente fica em branco. Perceba o quão pouco você se lembra, mesmo quando está totalmente desperto. Você não pode dizer que não estava consciente durante o sono. Você apenas não se lembra. Uma lacuna na memória não é necessariamente uma lacuna na consciência.

P: Posso chegar a recordar meu estado no sono profundo?

M: Certamente! Ao eliminar os intervalos de inadvertência durante as horas de vigília, gradualmente você eliminará o grande intervalo de inadvertência mental que você chama sono. Você estará ciente de estar dormindo.

P: Mas o problema da permanência, da continuidade do ser, não é resolvido.

M: A permanência é uma mera idéia, nascida da ação do tempo. Por sua vez, o tempo depende da memória. Você chama de permanência uma memória contínua através do tempo ilimitado. Você quer eternizar a mente, o que não é possível.

P: Então, que é o eterno?

M: Aquilo que não muda com o tempo. Você não pode eternizar algo transitório, apenas o imutável é eterno.

P: Estou familiarizado com o sentido geral do que você diz. Não anseio mais conhecimento, tudo o que quero é paz.

M: Você pode ter toda a paz que quiser, basta pedir.

P: Estou pedindo.

M: Você deve pedir com um coração não dividido e deve viver uma vida íntegra.

P: Como?

M: Desapegue-se de tudo aquilo que deixa sua mente inquieta. Renuncie tudo que perturbe a paz dela. Se você quer paz, mereça-a.

P: Certamente, todo mundo merece paz.

M: Só a merecem aqueles que não a perturbam.

P: De que modo eu perturbo a paz?

M: Sendo escravo de seus desejos e temores.

P: Inclusive quando são justificados?

M: As reações emocionais nascidas da ignorância ou da inadvertência nunca são justificadas. Busque uma mente clara e um coração limpo. Tudo o que você necessita é permanecer tranqüilamente alerta, investigando a natureza real de si mesmo. Esse é o único caminho para a paz.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Meher Baba - Sparks of the Truth


Deus é a eterna fonte da vida e do poder. As diferentes almas no mundo compartilham dessa vida e poder em vários níveis de acordo com sua proximidade espiritual a Deus. Quanto mais próximos estamos de Deus ou da verdade, menos separados nos sentimos e maior é nossa vida e nosso poder. Aqueles que se tornam um com Deus são o infinito reservatório de todo o poder, vida, sabedoria e felicidade. Mas os outros compartilham igualmente tudo isso em um grau limitado, de acordo com sua estação no universo. Se o mestre que realizou Deus for comparado a uma central de energia elétrica principal onde a eletricidade é gerada, as outras almas podem ser comparadas a centrais secundárias ou a baterias de armazenamento que recebem e conservam um grau limitado de eletricidade e também podem usá-la dentro dos limites de suas respectivas capacidades .

Meher Baba - O começo e o fim da criação

Enquanto a mente humana não experimenta diretamente a realidade final assim como ela é, a mente é frustrada em toda tentativa de explicar a origem do propósito da criação. O passado remoto parece ser carregado de insondável mistério e o futuro parece ser um livro completamente lacrado. A mente humana pode no máximo fazer conjecturas brilhantes sobre o passado e o futuro do universo, pois ela está limitada pelo feitiço de Maya. Ela não pode nem chegar ao conhecimento final desses pontos e nem permanecer satisfeita com a ignorância sobre eles.
“De onde?” e “Para onde?” são os dois questionamentos perpétuos e pungentes que tornam a mente humana divinamente inquieta. A mente humana não pode reconciliar-se ao infinito regresso na sua busca pela origem do mundo, nem pode reconciliar-se às infindáveis mudanças sem objetivo. A evolução é ininteligível se não tem uma causa inicial e é desprovida de qualquer significado se ela como um todo não levar a algum fim.
As próprias questões “De onde?” e “Para onde?” pressupõem o começo e o fim desta criação evolutiva. O começo da evolução é o começo do tempo e o fim da evolução é o fim do tempo. A evolução tem tanto começo quanto fim, porque o tempo também os têm. Entre o começo e o fim deste mundo mutável existem muitos ciclos, mas há, dentro e através desses ciclos, uma continuidade da evolução cósmica. O término real do processo evolucionário é chamado Mahapralaya, ou a grande aniquilação do mundo, quando o mundo torna-se o que ele era no início, digamos, Nada. O Mahapralaya do mundo pode ser comparado ao sono de uma pessoa. Assim como o variado mundo das experiências desaparece completamente para o indivíduo que está em sono profundo, o cosmos objetivo inteiro, que é a criação de Maya, se esvai dentro do nada na hora do Mahapralaya. É como se o universo realmente nunca tivesse existido.
Mesmo durante seu período evolucionário o universo é em si mesmo nada além de imaginação. De fato, há apenas uma realidade indivisível e eterna, e ela não tem começo e nem fim. Está além do tempo. Do ponto de vista dessa realidade atemporal, todo o processo do tempo é puramente imaginário. E os bilhões de anos que passaram e os bilhões que vão passar não tem o valor de nem mesmo um segundo. É como se eles nunca tivessem existido.
Portanto, o múltiplo universo evolutivo não pode ser entendido como sendo um resultado real desta Realidade única. Se ele fosse um resultado dessa realidade única, a Realidade seria ou um termo relativo ou um ser composto, o que ela não é. A realidade única é absoluta.
A Realidade única inclui em si mesma toda a existência. Ela é tudo, mas não tem nada como sua sombra. A idéia da existência que tudo inclui implica que ela não deixa nada fora do seu ser. Quando você analisa a idéia do Ser (da existência), você chega por implicação à idéia do que não existe. Essa idéia da não existência, ou do Nada ajuda você a definir claramente a idéia do Ser. O aspecto complementar do Ser é, portanto o não-ser ou o Nada. Mas o Nada não pode ser olhado como tendo sua própria existência separada e independente. Em si mesmo ele não é nada. Nem pode, em si mesmo, ser a causa de algo. O universo múltiplo e evolutivo não pode ser o resultado do nada tomado por si mesmo, e temos visto que ele também não pode ser o resultado da Realidade Una.
Como, então, o universo múltiplo e evolutivo surge?
O múltiplo e evolutivo universo surge da mistura da Realidade Una e do Nada. Ele brota do Nada, quando esse Nada é colocado contra o plano de fundo da Realidade Una. Mas isso não deve ser considerado como significando que o universo é parcialmente o resultado da Realidade Una, ou que ele tem um elemento de Realidade.
É um resultado do Nada e é nada. Ele só parece ter existência. Sua existência aparente é devido à Realidade Una, que está, nesse caso, atrás do Nada. Quando o Nada é adicionado à Realidade Una, o resultado é o múltiplo e evolutivo universo. A Realidade Una que é infinita é absoluta, não sofre nenhuma modificação, portanto. É absoluta e como tal não é afetada de forma alguma por nenhuma adição ou subtração. A Realidade Una permanece o que ela era, completa e absoluta em si mesma, não preocupada e não conectada com o panorama da criação que brota do Nada. Esse Nada pode ser comparado com o valor do zero na matemática. Em si mesmo não tem valor positivo, mas quando é adicionado aos outros números dá origem a outros valores. Da mesma maneira o múltiplo e evolutivo universo brota do Nada quando ele é combinado com a Realidade Una.
Todo o processo evolucionário está dentro do domínio da imaginação. Quando em imaginação o oceano uno da realidade fica aparentemente perturbado, surge o múltiplo mundo dos centros separados de consciência. Isso implica na divisão básica da vida - no ser e no não-ser, ou no “eu” e seu ambiente. Devido ao falso caráter incompleto desse ser limitado (que é apenas uma parte imaginada de uma totalidade realmente indivisível), a consciência não pode permanecer contente com a identificação eterna com ele. Portanto, a consciência fica presa na armadilha numa inquietude incessante, forçando-se a tentar a identificação com o não-ser. Essa porção de não-ser, ou o meio, com o qual a consciência identifica-se, torna-se afiliada ao ser na forma de “meu”. E essa porção do não-ser com a qual ela não identifica-se, torna-se o meio irredutível que inevitavelmente cria um limite e uma oposição ao ser. Portanto, a consciência não chega ao término da sua dualidade limitante, mas em sua transformação. Enquanto a consciência está sujeita ao trabalho da contaminada imaginação, ela não pode ter sucesso em dar um fim a essa dualidade. Todas as tentativas variadas que ela faz para a assimilação do não-ser (ou dos arredores, ou do meio) resultam meramente na substituição da dualidade inicial por outras inumeráveis formas novas da mesma dualidade. A aceitação e a rejeição de certas porções do meio expressam a si mesmas respectivamente como “querer” e “não querer”, dando assim origem aos opostos do prazer e da dor, do bem e do mal e assim por diante. Mas nem aceitação nem rejeição podem levar à libertação da dualidade, e a consciência encontra-se, portanto, engajada numa oscilação incessante de um oposto ao outro. O processo inteiro da evolução do individuo é caracterizado por essa oscilação entre os opostos.
A evolução do indivíduo limitado está completamente determinada pelos sanskaras acumulados por ele através das eras e embora seja tudo parte da imaginação, o determinismo é completo e automático.
Toda ação e experiência, não importa o quão efêmera, deixa para trás uma impressão no corpo mental. Essa impressão é uma modificação objetiva do corpo mental; e como o corpo mental permanece o mesmo, as impressões acumuladas pelo indivíduo são capazes de persistir por várias vidas.
Quando os sanskaras acumulados começam então a se expressar (em vez de meramente permanecerem latentes no corpo mental), eles são experimentados como desejos, isto é, eles são tomados como sendo subjetivos.
O objetivo e o subjetivo são os dois aspectos dos sanskaras: o primeiro é o estado passivo de latência, e o segundo é um estado ativo de manifestação.
Através da fase ativa, os sanskaras acumulados determinam cada experiência e ação do ser limitado. Assim como vários metros de filme têm de passar no projetor do cinema para mostrar uma ação breve na tela, muitos sanskaras estão frequentemente envolvidos em determinar uma única ação do ser limitado. Através de tais expressões e satsfação em experiências, os sanskaras são gastos. Os sanskaras fracos são gastos mentalmente e os mais fortes são gastos sutilmente na forma de desejos e experiência imaginativa; aqueles sanskaras que são poderosos são gastos fisicamente ao expressarem-se através de ações corporais. Embora esse consumo dos sanskaras prossiga continuamente, ele não resulta na libertação dos sanskaras, porque novos sanskaras estão inevitavelmente sendo criados - não apenas através das ações das pessoas, mas até mesmo pelo próprio processo de consumo. Então, a carga de sanskaras segue aumentando, e o indivíduo encontra-se indefeso diante do problema de se livrar do fardo. Os sanskaras depositados por experiências e ações específicas, tornam a mente suscetível a experiências e ações similares. Porém, depois de alcançado um certo ponto, essa tendência é contraposta e impedida por uma reação natural que consiste numa completa comutação para seu oposto direto, abrindo espaço para a operação dos sanskaras opostos.
Muito frequentemente, os dois opostos formam partes da mesma e única corrente de imaginação. Por exemplo, uma pessoa pode primeiro experimentar que é um escritor famoso – com riqueza, fama, família e todas a coisas agradáveis da vida – e depois na mesma vida, pode experimentar que perdeu sua fortuna, fama, família e todas as coisas agradáveis da vida. As vezes parece que uma corrente de imaginação não contém os dois opostos na mesma vida. Por exemplo, um homem pode experimentar durante sua vida que é um poderoso rei sempre vitorioso nas batalhas. Nesse caso ele tem que balancear essa experiência experimentando derrotas ou algo parecido na próxima vida, vivendo mais uma vida para completar sua corrente de imaginação. A compulsão puramente psicológica dos sanskaras está assim sujeita à necessidade mais profunda da alma em conhecer a si mesma.
Suponha que uma pessoa matou alguém nesta vida. Isso deposita no seu corpo mental os sanskaras de assassinato. Se a consciência viesse a ser determinada simplesmente e apenas por essa tendência inicial criada por esses sanskaras, ele seguiria matando os outros indefinidamente ad infinitum, cada vez reunindo momentuns seguintes dos atos subseqüentes do mesmo tipo. Não haveria escape desse determinismo recorrente, se não fosse pelo fato de que a lógica da experiência provê um impedimento necessário para isso. A pessoa logo percebe o caráter incompleto da experiência de um oposto, e, inconscientemente, busca restaurar o equilíbrio perdido indo para o outro oposto.
Assim, o individuo que teve a experiência de matar desenvolve uma necessidade psicológica e uma susceptibilidade por ser morto. Ao matar outra pessoa ele apreciou apenas uma porção da situação total na qual ele é um partido, ou seja, a parte do matador. A parte complementar da situação total (isto é, o papel de ser morto) permanece para ele não entendida e estranha, embora, tenha se introduzido na sua experiência. Surge assim, a necessidade de completar a experiência atraindo para si mesmo o oposto daquilo que ele experimentou pessoalmente e a consciência tem uma tendência de atender essa nova necessidade urgente. Uma pessoa que matou logo desenvolverá uma tendência a ser morto para cobrir a situação inteira através de experiência pessoal.
A pergunta que surge aqui é: quem aparecerá para matá-lo na próxima vida? Pode ser a mesma pessoa que foi morta na vida anterior, ou pode ser alguma outra pessoa com sanskaras similares. Em conseqüência da ação e da interação entre os indivíduos, entram em ação as ligações ou os laços “sanskaricos” e quando o indivíduo adota um novo corpo físico, pode ser entre aqueles que têm laços sanskaricos anteriores ou entre aqueles que têm sanskaras similares.
Mas o ajuste da vida é tal, que torna possível o jogo livre da dualidade evolutiva. Como o fio do tear do tecelão, a mente humana move-se dentro de dois extremos, desenvolvendo a trama e o tecido do pano da vida. O desenvolvimento da vida espiritual é melhor representado não como uma linha reta, mas como um curso em zigue-zague. Considere a função das duas margens de um rio. Se não houvesse nenhuma margem, as águas do rio iriam se dispersar, tornando impossível que o rio alcançasse seu destino. Da mesma maneira, a força-vida dissipar-se-ia de inumeráveis e infinitas maneiras, se não estivesse confinada entre os dois pólos dos opostos. Essas margens do rio da vida são melhor observadas não como duas linhas paralelas, mas como duas linhas convergentes que se encontram no ponto da Liberação. A quantidade de oscilação torna-se cada vez menor conforme o indivíduo aproxima-se do objetivo e cede completamente quando realiza o objetivo. É como o movimento de uma boneca que tem seu centro de gravidade na base, fazendo com que ela tenha a tendência de ficar parada quando sentada. Se for agitada, ela continua a balançar de um lado para o outro por algum tempo, mas a cada movimento ela cobre uma extensão mais curta, e por fim, a boneca estaciona. No caso da evolução cósmica, tal parada da alternação entre os opostos significa Mahapralaya, e na evolução espiritual do indivíduo, significa a Libertação.
O degrau da dualidade para a não dualidade não é meramente um caso de diferença no estado de consciência. Quando os dois são qualitativamente diferentes, a diferença entre eles é infinita. O primeiro é um estado de não-Deus e o segundo é um estado de Deus. Essa infinita diferença constitui o abismo entre o sexto plano de consciência e o sétimo. Os seis planos inferiores de involução da consciência* estão separados uns dos outros por um tipo de vale. Mas embora a diferença entre eles seja grande, não é infinita pois todos estão igualmente sujeitos à bipolaridade da experiência limitada, consistindo na alternância entre os opostos. A diferença entre o primeiro plano e o segundo, o segundo e o terceiro e assim por diante até o sexto plano, é grande mas não infinita. Segue-se que, estreitamente falando, nenhum dos seis planos da dualidade pode ser entendido como estando realmente mais perto do sétimo plano do que qualquer outro. A diferença entre qualquer um dos seis planos e o sétimo plano é infinita, assim como a diferença entre o sexto e o sétimo plano é infinita. O progresso através dos seis planos é o progresso na imaginação, mas a realização do sétimo plano é a cessação da imaginação e, portanto, o despertar do indivíduo na Consciência-Verdade. O progresso ilusório através dos seis planos não pode, entretanto, ser totalmente evitado. A imaginação tem que ser completamente exaurida antes que uma pessoa possa realizar a Verdade. Quando um discípulo tem um mestre perfeito, ele tem que atravessar todos os seis planos. O mestre pode levar o discípulo através dos planos interiores tanto com os olhos abertos ou sob um véu. Se o discípulo é levado sob a ação de uma venda e não está consciente dos planos que está passando, os desejos persistem até o sétimo plano; mas se é levado com os olhos abertos e está consciente dos planos que está passando, nenhum desejo resta a partir do quinto plano.
Se o mestre vem para trabalhar, ele frequentemente escolhe levar seus discípulos vendados, pois eles tenderão a ser mais ativamente úteis para o trabalho do mestre quando levados vendados do que com os olhos abertos.
O cruzamento através dos planos é caracterizado pelo desembaraçar dos sanskaras. Esse processo deve ser cuidadosamente distinguido daquele do despendimento. No processo de despendimento, os sanskaras tornam-se dinâmicos e liberam-se em ação ou experiência. Isso não leva à emancipação final dos sanskaras, sendo que as incessantes novas acumulações de sanskaras mais do que substituem os que foram despendidos, e o próprio despendimento é responssável pelos sanskaras seguintes. No processo de desembaraçamento, entretanto, os sanskaras são enfraquecidos e aniquilados pela chama do anseio pelo infinito.
O anseio pelo Infinito pode ser a causa de muito sofrimento espiritual. Não há comparação entre a agudez do sofrimento ordinário e a agudez do sofrimento espiritual que uma pessoa tem que passar enquanto cruza os planos. O primeiro é o efeito dos Sanskaras, e o segundo é o efeito do desembaraçamento. Quando o sofrimento físico chega ao seu clímax, a pessoa fica inconsciente e então tem alívio dele, mas não há tal alívio mecânico para o sofrimento espiritual. Sofrimento espiritual, entretanto, não se torna entediante, pois também é misturado com um tipo de prazer. O anseio pelo infinito fica acentuado e agudo até que chega em seu clímax, então gradualmente começa a esfriar. Enquanto esfria, a consciência não desiste de maneira nenhuma do anseio pelo infinito, mas continua buscando seu objetivo de realizar o Infinito. Esse estado de anseio esfriado, porém latente, é preliminar à realização do Infinito. O anseio nesse estágio é o instrumento para aniquilar todos os outros desejos e está pronto para ser minado pela insondável quietude do contentamento infinito. Antes do anseio pelo Infinito ser suprido pela realização do Infinito, a consciência tem que passar do sexto para o sétimo plano. Tem que passar da dualidade para a não-dualidade. Ao invés de vagar em imaginação, ela tem de chegar ao fim da imaginação.
O Mestre entende a realidade una como sendo a única Realidade e o Nada como sendo meramente sua sombra. Para ele, o tempo é engolido na eternidade. Como ele percebeu o aspecto atemporal da Realidade, ele está além do tempo e carrega no seu ser tanto o início como o fim do tempo. Ele permanece não mobilizado pelo processo temporal que consiste na ação e na interação dos muitos. A pessoa ordinária não conhece nem o começo nem o fim da criação. Assim, ela é derrotada pela marcha dos eventos, os quais parecem grandes por causa da falta de perspectiva apropriada enquanto ele está capturado pelo tempo. Ela olha para todas as coisas em termos da possível satisfação ou insatisfação dos seus sanskaras. Ela fica, portanto, profundamente perturbada pelos acontecimentos deste mundo. Todo universo objetivo aparece para ela como sendo uma limitação que não é bem-vinda e que tem que ser superada ou tolerada.
O Mestre, por outro lado, está livre da dualidade e dos sanskaras característicos da dualidade. Ele está livre de toda limitação. A tempestade e stress do universo não afetam o seu Ser. Todo o alvoroço do mundo, com seus processos construtivos e destrutivos, não pode ter importância especial para ele. Ele adentrou no santuário da verdade, que é a morada daquele significado eterno que é refletido apenas fraca e parcialmente nos valores transitórios da criação sempre em mudança. Ele compreende dentro de seu Ser toda existência, e olha para toda a peça da manifestação como meramente um jogo.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Goethe

Segure firme o presente.
Cada situação, não, cada momento é de um valor infinito,
Pois é o representante de toda a eternidade.
J.W. Goethe

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Jalaluddin Rumi - A hora da união

De toda a parte chega o segredo de Deus.
Eis que todos correm, desconcertados
Dele, porque em todas as almas sedentas, chega o grito do aguadeiro.
Todos bebem o leite da generosidade divina
E querem agora conhecer o seio de sua fonte.
Apartados, anseiam por ver o momento do encontro e da união.
A cada nascer do sol oram juntos: muçulmanos, cristãos, judeus.
Abençoado todo aquele em cujo coração ressoa o grito celeste que chama,
'Vem. Limpa bem teus ouvidos e recebe nítida essa voz'.
O som do céu chega como um sussurro.
Não manches teus olhos com a face dos homens.
Vê que chega o imperador da vida eterna.
Se te turvaram os olhos,
Lava-os com lágrimas, pois nelas encontrarás a cura de teus males.
Acaba de chegar do Egito uma caravana de Açúcar.
E já se ouvem os sinos e os passos cansados.
Silêncio. Eis que chega o rei que vai completar o poema.

Gurdjieff - Liberdade


Liberdade leva à liberdade. Isso é verdade. Não verdade entre aspas, mas no sentido real. A verdade não é apenas teoria, nem apenas palavras, ela pode ser realizada, percebida. A liberdade de que falo é o objetivo de todas as escolas, de todas as religiões de todos os tempos. É algo muito grande. Todos consciente ou inconscientemente querem liberdade. Existem dois tipos de liberdade: a maior e a menor. Você não pode atingir a liberdade maior até que tenha atingido a liberdade menor. A liberdade maior é a liberação de nós mesmos das influências externas e a menor, das influências internas.
Para nós iniciantes a liberdade menor é uma coisa muito grande; ela não está ligada à nossa dependência das influências externas. A escravidão interior vem de muitas fontes; depende de muitas coisas independentes; às vezes de uma coisa às vezes de outra. Existem tantas, que se tivéssemos que lutar contra cada uma separadamente para podermos nos livrar delas, metade da vida não seria suficiente. Portanto devemos encontrar meios, um método de trabalho, que nos capacite destruir simultaneamente o maior número possível de inimigos dentro de nós, dos quais vêm essas influências. Dentre esses inimigos, dois dos principais são a vaidade e o amor -próprio ou auto-orgulho. Num certo ensinamento eles são chamados de emissários ou representantes do demônio, e por uma razão ou outra são referidos como Madame Vaidade e Mister Amor-Próprio.

Meher Baba - A Prece do Arrependimento (8 de Novembro de 1952)



Nos arrependemos, ó mais piedoso Deus, por todos os nossos pecados;
Por cada pensamento que foi falso, injusto ou impuro;
Por cada palavra dita que não deveria ter sido dita;
Por cada ação feita que não deveria ter sido feita;
Nos arrependemos por cada ação, palavra e pensamento
Inspirados pelo egoísmo;
E por cada ação, palavra e pensamento inspirados pelo rancor.
Nos arrependemos mais especialmente por cada pensamento luxurioso,
Por cada ação luxuriosa; Por cada mentira, por toda hipocrisia;
Por cada promessa feita mas não cumprida;
E por toda calúnia e insulto.
Mais especialmente também, nos arrependemos por cada ação
Que tenha trazido ruína aos outros;
Por cada palavra e ação que tenha causado dor aos outros;
Ou por cada desejo que os outros sentissem dor.
Em sua piedade ilimitada, pedimos que nos perdoe, ó Deus,
Por todos esses pecados cometidos por nós;
E pedimos para nos perdoar por nossas constantes falhas
Em pensar, falar e agir de acordo com tua vontade.

Meher Baba - O Propósito da Criação

Consciente ou inconscientemente, cada criatura viva procura uma coisa. Nas formas inferiores de vida e nos seres humanos menos avançados, a busca é inconsciente; em seres humanos avançados, é consciente. O objeto da busca é chamado por muitos nomes: felicidade, paz, liberdade, verdade, perfeição, auto-realização, realização de Deus e união com Deus. Essencialmente, é uma busca por tudo isso, mas de uma maneira especial. Todos têm momentos de felicidade, lampejos da verdade, experiências fugazes de união com Deus; o que querem realmente é tornar isso permanente, estabelecer uma realidade imutável no meio da constante mudança. Esse é um desejo natural, baseado fundamentalmente em uma memória (que pode ser ofuscada ou clara, de maneira análoga à evolução da alma individual que pode ser elevada ou não elevada) de sua unidade essencial com Deus. Pois cada coisa viva é uma manifestação parcial de Deus, condicionada somente por sua falta de conhecimento de sua própria natureza verdadeira. O todo da evolução, de fato, é uma evolução da divindade inconsciente para a divindade consciente, em que Deus propriamente dito, essencialmente eterno e imutável, assume uma variedade infinita de formas, aprecia uma variedade infinita de experiências e transcende uma variedade infinita de limitações auto-impostas. A evolução do ponto de vista do criador é um esporte divino, no qual o incondicionado testa a infinitude de seu conhecimento, poder e contentamento absolutos no meio de todas as circunstâncias. Mas a evolução do ponto de vista da criatura, com seu conhecimento limitado, poder limitado, capacidade limitada para apreciar o contentamento, é um épico de descanso e esforço alternados, alegria e tristeza, amor e ódio - até que na pessoa aperfeiçoada Deus equilibra os pares de opostos, e a dualidade é transcendida. Então a criatura e o criador se reconhecem como um; a imutabilidade é estabelecida no meio da mudança e a eternidade é experimentada dentro do tempo. Deus conhece-se como Deus, imutável essencialmente, infinito na manifestação, sempre experimentando o contentamento supremo da auto-realização numa continua ciência fresca de si mesmo por si mesmo. Esta realização deve ocorrer e ocorre somente no meio da vida, pois somente no meio da vida é que a limitação pode ser experimentada e transcendida, e onde a liberdade subseqüente à limitação pode ser apreciada.

Meher Baba - Discursos - Deus e o Indivíduo

Deus é infinito. Ele está além dos opostos do bem e do mal, certo e errado, virtude e vício, nascimento e morte, prazer e sofrimento. Tais aspectos duais não pertencem a Deus. Se você toma Deus como uma entidade separada, Ele se torna um termo na existência das relações.
Assim como o bem é a contraparte do mal, Deus se torna a contraparte de Não-Deus; e o Infinito passa a ser olhado como o oposto do finito. Quando você fala do infinito e do finito, você está se referindo a eles como dois; e assim, o Infinito se torna a segunda parte da dualidade. Mas o infinito pertence à ordem não-dual de ser. Se o infinito é visto como a contraparte do finito, estritamente falando, ele já não é infinito, mas sim, uma espécie de finito; pois está fora do finito como seu oposto, tornando-se assim, limitado. Já que o infinito não pode ser a segunda parte do finito, a existência aparente do finito é falsa. Apenas o infinito existe. Deus não pode ser levado ao nível da dualidade. Há somente um ser na realidade, que é a Alma Universal. A existência do finito ou do limitado é somente aparente ou imaginária.
Você é infinito. Você está realmente em toda a parte. Mas você pensa que você é o corpo, e, portanto, considera-se limitado. Se pensa que é o corpo, você não conhece sua verdadeira natureza. Se olhasse para dentro de si e experimentasse sua própria alma em sua verdadeira natureza, você perceberia que você é infinito e além de toda criação. Entretanto, você se identifica com o corpo. Essa falsa identificação é devida à ignorância, que se torna efetiva por meio da sua mente. Uma pessoa comum pensa que ela é o corpo físico. Um indivíduo espiritualmente avançado pensa que ele é o corpo sutil. O Santo pensa que é o corpo mental. Porém, em nenhum deles a alma tem auto-conhecimento direto. Não é um caso de pensamento puro que está de todo isento de ilusão.
A alma enquanto alma é infinita –independente da mente ou do corpo– porém, devido à ignorância, a alma entra no domínio da mente e torna-se um “pensador”. Às vezes identifica-se com o corpo e às vezes com a mente. Do ponto de vista limitado de uma pessoa que não foi além do domínio de Maya, existem inúmeros indivíduos. Parece que existem tantos indivíduos quanto o número de mentes e corpos. De fato, existe apenas uma alma universal, mas o indivíduo pensa que ele é diferente dos outros indivíduos. A mesma e única alma está definitivamente por trás das mentes dos indivíduos aparentemente diferentes, e através deles, tem as várias experiências da dualidade. O Um dentro dos muitos passa a experimentar a Si mesmo como um dentre muitos. Isso deve-se à imaginação ou ao falso pensar. O pensamento torna-se falso por causa da interferência dos Sanskaras (impressões) acumulados durante o processo da evolução da consciência.

A função da consciência é pervertida pela operação dos Sanskaras, que se manifestam através dos desejos. Por muitas vidas, a consciência está continuamente sendo oprimida pelos efeitos posteriores das experiências. A percepção da alma é limitada por essas consequências.
O pensamento da alma não pode romper a barreira criada pelos sanskaras, e a consciência torna-se uma indefesa prisioneira das ilusões projetadas por seu próprio pensar falso. Essa falsificação do pensamento está presente não apenas em casos onde a consciência está parcialmente desenvolvida, mas também no homem, onde ela está completamente desenvolvida. A evolução progressiva da consciência desde o estágio de pedra culmina no homem. A história da evolução é a história do desenvolvimento gradual da consciência. O fruto da evolução é a consciência completa, que é característica do homem. Porém, mesmo essa consciência completa é como um espelho coberto de poeira. Devido às operações dos sanskaras, ela não fornece conhecimento claro e verdadeiro da natureza da alma. Embora totalmente desenvolvida, ela não produz a verdade, mas uma construção imaginativa, sendo que seu livre funcionamento está impedido pelo peso dos sanskaras. Ademais, ela não pode se estender além da gaiola criada pelos seus desejos, ficando portanto, limitada em seu campo de ação. As fronteiras nas quais a consciência pode mover-se é prescrita pelos sanskaras, e o funcionamento da consciência é também determinado pelos desejos. Como a meta dos desejos é a auto-satisfação, toda consciência torna-se auto-centrada e individualizada. A individualização da consciência pode num certo sentido ser entendida como o efeito do turbilhão de desejos. A alma é capturada pela rede dos desejos e não pode sair da individualidade circunscrita constituída por esses desejos. Ela imagina essas barreiras e torna-se auto-hipnotizada. Ela olha para si mesma como limitada e separada dos outros indivíduos. Fica enredada na existência dualística e imagina um mundo de diversa desunião composto de muitos indivíduos com suas respectivas mentes e corpos.

Quando os raios do sol são passados por um prisma eles se dispersam e tornam-se separados por causa da refração. Se cada um desses raios tivesse consciência, eles iriam considerar a si mesmos como separados dos outros raios, esquecendo inteiramente que na fonte e no outro lado do prisma eles não tinham existência separada. Da mesma maneira, o ser único descende ao domínio de Maya e assume uma multiplicidade que de fato não existe. A desunião dos indivíduos não existe na verdade, apenas na imaginação. A alma universal una imagina desunião em si mesma, e dessa divisão surge o pensamento de “eu” e “meu” como opostos a “você” e “seu.” Embora na verdade a alma seja uma unidade indivisível e absoluta, ela aparece como diversas, dividida devido ao trabalho da sua própria imaginação. Imaginação não é uma realidade. Mesmo no seu vôo mais alto, é um afastamento da verdade. A alma não é nada além da verdade. A experiência que ela acumula em termos do ego individualizado é tudo imaginação. É uma má compreensão da alma. Da imaginação da alma universal nascem muitos indivíduos. Isso é Maya, ou Ignorância. Lado a lado com o nascimento da individualidade limitada e separada, também vem à existência o universo objetivo. Como a individualidade tem uma existência separada não na realidade, mas, apenas na imaginação, o universo objetivo também não tem realidade separada e independente. É o ser universal aparecendo no segundo papel da manifestação através desses atributos.
Quando a alma descende ao domínio de Maya, ela toma para si as limitações da existência múltipla. Essa auto-limitação da alma pode ser vista como seu auto-sacrificio no altar da consciência. Embora ela eternamente permaneça o mesmo absoluto infinito, ela sofre um tipo de contração atemporal através da sua aparente descida ao mundo do tempo, da variedade, e da evolução. O que realmente evolui, entretanto, não é a própria alma, é apenas a consciência que, devido às suas limitações, dá origem à individualidade limitada.
A história da individualidade limitada é uma história do desenvolvimento de um embaraço triplo com a mente, a energia e a matéria (o corpo).
A dualidade prevalece em todos esses domínios e a alma fica presa nisso, embora, em sua essência ela seja além da dualidade. A dualidade implica a existência de opostos limitando-se e equilibrando-se um ao outro através de tensão mútua. Bem e mal, virtude e vício, são exemplos de tais opostos. A alma ignorante capturada na rede da dualidade está nas garras tanto do bem quanto do mal. A dualidade do bem e do mal surge devido à ignorância mas, uma vez presa nela, a alma fica sob seu controle. Durante a evolução de um embaraço triplo com a matéria (corpo), a energia e a mente, a alma ignorante está continuamente nas garras dos desejos. Ela quer o bom e o mau do mundo grosseiro, quer o bom e o mau do mundo sutil e quer o bom e o mau do mundo mental. E devido a essa distinção de bom e mau, o querer torna-se bom e mau. As vontades, portanto vêm a ser inevitavelmente limitadas pela perpétua tensão dos opostos. Isso faz surgir uma infindável oscilação de um estado a outro sem chegar ao estado ilimitado, que pode apenas ser descoberto no aspecto imutável e eterno da vida. O infinito é para ser visto além do domínio da dualidade. Isso se torna possível apenas quando a consciência pode emergir da individualidade limitada ao romper a barreira dos sanskaras.
Temos visto que o campo possível para a consciência é limitado pelos sanskaras. Essa limitação cria uma divisão da psique humana em duas partes. Uma parte cai no campo da consciência e a outra parte além dela. A parte inconsciente, em sua extensão total é idêntica ao poder que existe atrás da matéria. É referida como Deus pelas religiões ortodoxas. A realidade final, que é representada simbolicamente por tais conceitos, pode ser conhecida completamente somente trazendo o inconsciente para a consciência. Uma extensão da consciência consiste em estar consciente daquilo que era anteriormente uma parte do inconsciente. A conquista progressiva do inconsciente pelo consciente culmina na consciência consumada, que é ilimitada no seu campo de ação e livre em sua função. Entre esse estado mais elevado de consciência e a consciência limitada -embora completa- da média da humanidade, existem aproximadamente quarenta e nove graus de consciência iluminada. Eles marcam os estágios importantes da iluminação crescente. A distância entre a consciência nublada da média da humanidade e a consciência inteiramente iluminada de um mestre perfeito é criada pelos sanskaras que causam o egoísmo. Eles podem ser removidos por um caráter perfeito, pela devoção e pelo serviço altruísta, mas os melhores resultados nesse sentido, são alcançados com a ajuda de um mestre perfeito.
O avanço espiritual não consiste no desenvolvimento futuro da consciência (pois ela já está totalmente desenvolvida no homem) mas consiste na Emancipação da consciência das amarras dos sanskaras. Embora em sua essência a consciência seja a mesma em todos os diferentes estados da existência, ela nunca pode ser consumada a menos que reflita o conhecimento do infinito sem a menor sombra da ignorância, e também, que cubra toda a extensão da criação, iluminando desse modo as diferentes esferas da existência.
Toda vez que vai dormir, você fica inconscientemente unido com a realidade infinita. Essa unificação envolve a extensão da inconsciência sobre a consciência. Ela portanto, faz uma ponte sobre o abismo entre a inconsciência e a consciência. Porém, estando inconsciente dessa união,
você não tira nenhum benefício disso conscientemente. É por essa razão que você ao acordar novamente do sono profundo, fica ciente do mesmíssimo indivíduo banal e começa a agir e experimentar exatamente como agia e experimentava antes de dormir. Se sua união com a suprema realidade tivesse sido uma união consciente, você teria despertado dentro de uma vida completamente nova e infinitamente rica.
Um mestre perfeito está conscientemente unido com a realidade infinita. No caso dele, o abismo entre a consciência e a inconsciência é transposto, não por uma extensão da inconsciência sobre a consciência (como numa pessoa que aprecia o sono profundo), mas pela extensão da consciência sobre a inconsciência. O crescimento e a diminuição da consciência é aplicável apenas ao indivíduo limitado. No caso de um mestre perfeito, a conquista do inconsciente pelo consciente é final e permanente, e, portanto, seu estado de Auto-conhecimento é contínuo e inquebrantável e permanece o mesmo todo o tempo sem nenhuma diminuição. A partir daí você pode ver que o mestre perfeito nunca dorme no sentido ordinário da palavra. Quando descansa seu corpo ele não experimenta uma lacuna em sua consciência.

No estado de perfeição, a consciência total torna-se consumada pelo desaparecimento de todos os obstáculos à Iluminação. A conquista do inconsciente pelo consciente é completa, e a pessoa habita continuamente na plena chama da Iluminação ou como que unificada com a Iluminação.
Ela se torna a própria Iluminação. Enquanto uma pessoa permanece sob o domínio da dualidade e olha para as experiências diversas como sendo reais e finais, ela não atravessou o domínio da Ignorância. No estado de compreensão final, uma pessoa percebe que o Infinito, que é um sem um segundo, é a única Realidade. O Infinito penetra e inclui toda existência, não deixando nada como seu rival. Uma pessoa que tem tal realização atingiu o estado mais elevado de consciência. Nesse estado, a consciência total, que é o fruto da evolução, é retida; mas as limitações dos sanskaras e dos desejos são completamente transcendidas. A individualidade limitada, que é criação da Ignorância, é transformada na Individualidade divina, que é ilimitada. A ilimitável consciência da Alma Universal torna-se individualizada nesse foco sem gerar nenhuma forma de ilusão. A pessoa está livre de todos os desejos auto-centrados e torna-se o canal do fluir espontâneo da vontade suprema e universal, que expressa a divindade.
A Individualidade torna-se ilimitada através do desaparecimento da Ignorância. Uma vez que não está prejudicada pela separação de Maya e confundida em sua realidade, ela aprecia o estado de Liberação no qual há consciência sem objeto, Ser puro e uma alegria límpida. Tal pessoa não tem mais nenhuma das ilusões que deixam perplexos e desconcertados os homens. Num certo sentido ela está morta. O ego pessoal, que é a fonte do sentido de separação, foi aniquilado para sempre. Mas num outro sentido, ela está livre para sempre com amor insuperável e contentamento eterno. Tem poder e sabedoria infinitos e o universo inteiro para ela é um campo para seu trabalho espiritual de aperfeiçoar a humanidade.