segunda-feira, 27 de abril de 2009

Nisargadatta Maharaj - 23 de agosto de 1979

Maharaj: Há quanto tempo você tem usado essa vestimenta (um roupão laranja)?
Pergunta: Vinte e cinco anos.
M: Você realizou o seu Ser (Self)?
P: Eu não sou realizado. Estou apenas perambulando por aí, como se diz, na floresta escura, indo aqui e ali.
M: Quem é esse que fala isso?
P: Provavelmente o Ser.
M: Lembre que o que quer que seja chamado Deus ou Ser está no corpo, e enquanto Ele estiver lá, este sentido de ser (beingness) também estará. Quando o sentido de ser (beingness) não estiver lá, não haverá Deus, nem o Ser. Quando uma pessoa morre não é o Ser que é transformado num cadáver, é o corpo.
P: É verdade. Você vê, eu entendo tudo teoricamente, conheço como uma filosofia, mas quanto a experimentar o vácuo, conhecer o Real, estou na medida do possível.
M: O que quer que seja chamado de Deus ou de Ser existe porque existe o sentido de ser, o sentimento de “eu sou”. Esse é o princípio fundamental, a base por trás de todo o seu conhecimento, mas você está identificado com o corpo.
P: Verdade.
M: Quando não há alma não há Deus, e quando você não está, seu sentido de ser não está, não há nada.
P: Entendo a teoria disso. Tenho lido tantos livros... Mas como realizar isso?
M: Quando você entender o significado das palavras, você deve procurar descobrir quem é esse que entende.
P: Você vê, essa é a lacuna, conhecer é muito difícil.
M: Você está chamando isso de “eu”, de “mim”, isso que vai se transformar num cadáver. Esse é o pecado que você está cometendo e o obstáculo entre você e o conhecimento.
P: Essa é a diferença, a lacuna precisa ser ultrapassada.
M: Todas essas palavras são absolutamente desnecessárias. Porque você é, existe a luz, a luz do conhecimento, e quando você se for, a luz do conhecimento será extinta. Seu Guru não lhe falou isso?
P: É exatamente como ao dizer que esta bala é doce, você sente o gosto dela?
M: Seu Guru não lhe falou isso que você está escutando agora?
P: Sim, sim.
M: Isso quer dizer que você não confia nele. Você ainda não confiou nele.
P: Eu concordo, eu confio, mas talvez esteja faltando esforço de minha parte.
M: Não está faltando nada de sua parte! Você tem entendido a si mesmo como sendo um cadáver, um corpo. Você é isso que pode ser extinto?
P: Sei que não sou.
M: Então que tipo de Sadhana (prática espiritual) você vai praticar? Se você não é isso que pode ser extinto, você não vai morrer.
P: Eu entendo essa posição – não é isso que eu não entendo.
M: Então por que você tem viajado por aí ?
P: Estou procurando por algo. Estou tentando encontrar algo que não tenho conseguido encontrar.
M: Você diz que entende e ao mesmo tempo diz que não consegue encontrar; você está contando uma mentira?
P: Eu não conheço a mim mesmo. Você vê, para mim, está tudo lá. Eu sei que você não tem que ficar andando por aí. Você senta em um lugar, na sua casa, por exemplo e descobre; mas eu ainda tenho que encontrar. Então vem o pensamento de andar por aí, aquela impaciência por descobrir é que leva a pessoa de lugar a lugar, até que encontre algo. Bem, eu ainda não encontrei. O dia que eu encontrar, então eu direi, “sim, está dentro de mim”.
M: Quando você fecha seus olhos, internamente você vê Ganesan (a escuridão) com o sentimento “eu sou”, e quando você abre seus olhos, o mesmo lhe mostra o que está no exterior. Você não precisa pensar para realizar essa ação. Tudo apareceu sem a sua contribuição ativa.
P: Essa é a filosofia disso, mas fazer isso é a parte difícil, muito difícil.
M: Por que você não está aceitando esse fato? Qual é a utilidade de ficar indo de um lugar a outro? Você está difamando o roupão laranja.
P: Verdade.
M: Você vê, sua alma é tão maravilhosa, tão grandiosa e tão importante que se você sentar numa terra estéril, ela será coberta por lindos jardins. Você não entende a sua própria grandeza, o conhecimento que você é, o seu sentido de ser (de existir).
P: Não, eu não sou grande. Sou muito humilde, muito pequeno.
M: O que é humilde e o que é pequeno? O que existe sem o seu sentido de ser? Mesmo se você fizesse grandes penitências, você poderia no máximo punir o seu corpo. Você pode punir o seu sentimento de ser?
P: Não
M: Quando mandam um homem para a forca, eles podem enforcar a alma dele, o sentido de ser dele? Este corpo é enforcado. É possível punir o sentido de ser?
P: Não.
M: Portanto, Ele não é humilde e nem pequeno. Ele aprecia todas as maravilhosas qualidades, mas Ele é totalmente desapegado, não é tingido por nenhuma delas. Você vê, sua vestimenta está mostrando que você tem isso. Nós não usamos tais vestimentas. Ninguém irá chamar-me de Mahatma.
P: Eu não sou um Mahatma.
M: Então por que está usando essas roupas? Você não se preocupa com o que você está dizendo aos outros ao usar tais roupas, mas você gosta de sentir “eu sou o grande Mahatma, sou o maior de todos”. Porque você sabe e ainda não desfruta desse conhecimento, isso é um pecado pelo qual você vai ter que sofrer. Se uma grande alma, um Mahatma, chama você de tolo, você tem que sofrer isso. Se o Mahatma chama qualquer um de tolo, ele tem que sofrer, e você está chamando o seu Ser de ainda não conhecido, não compreendido. Esse é o pecado que você comete. Você está insultando sua grande alma.
Eu não quero ensinar nada para ninguém, eu apenas seguro um espelho para aqueles que vêm aqui. Eu farei você ficar diante do espelho e olhar para si mesmo. Você tem que ter a visão de si mesmo na luz que está emanando do seu próprio Ser.
Nos bhajans (práticas devocionais) dizemos, “Feche os olhos e veja que em toda parte Ele está, em todo lugar – dentro, fora, acima, abaixo”, e isso você tem que experimentar. Se Deus não estiver residindo no seu corpo você não estará ali.
P: Verdade. Com essa visão clara Maharaj pode ver e dizer. Eu posso dizer, mas não ver.
M: Se você não O reconhece bem agora neste nascimento, vários milhares de nascimentos não lhe darão a oportunidade de conhecê-Lo. Pelo menos agora você tentaria agarrá-Lo com atenção concentrada?
P: Nós tentamos.
M: Quem é esse que está tentando? Por que você está preocupado com os outros? E você? Estou endereçando isso a você!
P: Isso para mim significa o mesmo que respondi. É endereçado ao Ser e o Ser está respondendo.
M: Não perguntei o que o Ser está fazendo. Estou lhe perguntando o que você está fazendo em relação a você mesmo?
P: Onde está a diferença? Eu e o Atma somos duas coisas diferentes?
M: Está vendo, quando você fala, você se refere à consciência que está limitada ao seu corpo. Se você se refere à consciência universal, essa é Atma ou Deus. Portanto, torne claro se você refere-se a si mesmo como limitado ou ilimitado.
P: Eu sou limitado. De acordo com o que me falaram, entendo que deveria dizer que sou ilimitado. Com o conhecimento que eu tenho, com o que os mestres me disseram, sou ilimitado, e ainda assim sei que sou limitado.
M: Porque você se identifica com o corpo, é por isso que você está condicionando a si mesmo. Pela sua identificação com o corpo manifesto você perdeu de vista sua natureza real. Você deve estar sempre consciente Dela. Esse estado de consciência é a coisa natural, apenas não se separe dele.
Você vê, eu não exponho as acrobacias dos Vedas para as massas aqui. Isso é para outras pessoas fazerem, os que se interessam no corpo-mente.
P: Há tanto conhecimento impresso e disseminado em toda parte, ainda assim eu diria que a maioria das pessoas vive na escuridão, mesmo com esse conhecimento.
M: Eu não peço a ninguém para seguir nenhum caminho particular. Apenas falo para as pessoas serem o que elas são, estarem no seu estado natural, estado espontâneo. Estabilize-se ali, no sentido de ser.
P: Essas são exatamente as mesmas palavras que Baba usa. Apenas seja.
M: Tendo o servido por vinte e cinco anos, por que você negou?
P: Eu não sei.

sábado, 25 de abril de 2009

Hazrat Inayat Khan - A Realização Espiritual com a ajuda da música


Antes de dar início a este assunto, eu gostaria de explicar primeiro o que significa a palavra espiritual. É a bondade que pode ser chamada de espiritual? Ou é um poder de produzir milagres ou um grande poder intelectual? A resposta é: Não. A totalidade da vida em todos os seus aspectos é uma música e afinar-se à harmonia desta música perfeita é a verdadeira realização espiritual. Você pode perguntar: "O que é isso que mantém o homem apartado da realização espiritual?” A resposta é, a densidade desta existência material, e o fato de que o homem está inconsciente do seu ser espiritual - dividido em limitações. Isso impede aquele livre fluir e o movimento livre, que são a natureza e o caráter da vida. O que quero dizer com essa densidade? Há uma pedra e você quer produzir som a partir dela. Ela não dá ressonância, não atende o seu desejo de produzir som, mas a corda ou o arame darão uma resposta para o tom que você quer. Você bate nela e ela responde. Existem objetos que dão ressonância para o som. Você deseja produzir um som neles e eles ressoam, tornam sua música completa.

Assim é com a natureza humana. Uma pessoa é pesada e aborrecida. Você lhe diz algo, ela não pode compreender, você fala com ela e ela não ouvirá. Ela não responderá para a música, à beleza ou à arte. O que é isso? É a densidade. Existe uma outra pessoa que está disposta a apreciar e compreender música e poesia, ou beleza em qualquer forma. No caráter, nas maneiras - em todas as formas - a beleza é apreciada por essa pessoa. É isso que é o despertar da alma, que é a condição de vida do coração, e é essa a verdadeira realização espiritual. A realização espiritual é fazer viver o espírito, é tornar-se consciente. Quando o homem não está consciente da alma e do espírito, e só está consciente do ser material, ele é denso, ele está longe do espírito.
Você pode perguntar: 'O que é espírito e o que é matéria? " A diferença entre espírito e matéria é como a diferença entre a água e a neve. Água congelada é neve e neve derretida é água. É o espírito em sua densidade que chamamos matéria; é a matéria em sua sutileza que pode ser chamada espírito. Uma vez um materialista disse-me: 'Eu não acredito em nenhuma alma ou espírito ou no além. Eu acredito na matéria eterna'. Eu disse a ele: "Sua crença não é muito diferente da minha. Apenas, o que você chama de matéria eterna, eu chamo de espírito. É uma diferença de termos. Isso não é uma coisa para se disputar, pois ambos acreditamos na eternidade. Contanto que nos reunamos na eternidade, que diferença faz se um chama isso de matéria e o outro chama de espírito? É Uma vida do começo ao fim ".
A beleza é nascida da harmonia. O que é harmonia? Harmonia é proporção correta, em outras palavras, ritmo correto. E o que é a vida? A vida é o resultado da harmonia. Por trás de toda a criação está a harmonia e todo o segredo da criação é a harmonia. A inteligência anseia por atingir a perfeição da harmonia. O que o homem chama de felicidade e conforto ou ganho e lucro - tudo aquilo que ele anseia e pretende atingir - é harmonia. Em menor ou maior proporção ele está desejando harmonia; mesmo na realização das coisas mais mundanas ele deseja sempre harmonia. Mas muitas vezes ele não adota métodos corretos. Muitas vezes, seus métodos são errados. O objeto alcançado por ambos, bons e maus métodos, é o mesmo mas a forma como se tenta atingir o objeto torna-o certo ou errado. Não é o objeto que está errado, é o meio adotado para alcançá-lo. Ninguém, seja qual for a sua estação na vida, deseja desarmonia, pois todo sofrimento, dor e problemas são desarmonia.
Atingir a espiritualidade é perceber que todo o universo é uma sinfonia na qual cada indivíduo é uma nota. Sua felicidade reside em tornar-se perfeitamente harmonioso com a sinfonia do universo. Não é seguir uma determinada religião o que torna alguém espiritual, ou ter uma certa crença, ou ser um fanático em relação a uma idéia, ou por se tornar demasiado bom para viver neste mundo. Muitas pessoas boas existem, que nem sequer compreendem o que significa espiritualidade. Elas são muito boas, mas ainda não sabem o que é o verdadeiro bem. O verdadeiro bem é a harmonia em si. Por exemplo, todos os princípios e crenças diferentes das religiões deste mundo, ensinados e proclamados pelos sacerdotes e professores - mas que os homens nem sempre são capazes de seguir e expressar - vêm naturalmente ao coração de um homem sintonizado com o ritmo do universo. Cada ação dele, cada palavra que ele fala, cada sentimento que ele tem, todos os sentimentos que ele exprime, é tudo harmonioso, é tudo virtude, é tudo religião. Não é seguir uma religião o que é necessário, é preciso viver uma religião, é tornar sua vida uma religião, o que é necessário.

A música é a miniatura de toda a harmonia do universo, pois a harmonia do universo é música em si, e o homem, sendo a miniatura do Universo, deve mostrar a mesma harmonia. Na sua pulsação, na batida do seu coração e em sua vibração ele mostra ritmo e tom, acordes harmoniosos ou desarmônicos. Sua saúde ou doença, sua alegria ou desconforto - todos mostram a música ou a falta de música na sua vida.
O que a música nos ensina? A música nos ajuda a nos treinarmos de uma forma ou de outra na harmonia, e é essa que é a mágica ou o segredo por trás da música. Quando escuta uma música que você gosta, ela lhe harmoniza e lhe coloca em harmonia com a vida. Por isso, o homem precisa de música, ele anseia por música. Muitos dizem que eles não ligam para música, mas eles não ouviram música! Se eles realmente tivessem ouvido música, ela tocaria suas almas e então certamente não poderiam evitar amá-la. Se não, apenas significa que eles não ouviram música suficientemente e não tornaram seu coração calmo e sossegado, a fim de ouvi-la, para curtir e apreciá-la. Além disso, a música desenvolve a faculdade pela qual se aprende a apreciar tudo o que é bom e belo. Sob a forma de arte e ciência, em forma de música e poesia, em cada aspecto da beleza pode-se então apreciá-la. O que priva o homem de toda a beleza em volta dele é o peso do seu corpo, ou o peso do coração. Ele é puxado para baixo pela terra, e por isso tudo torna-se limitado. Quando ele se livra desse peso e se sente feliz, ele se sente leve. Todas as boas tendências, tais como a gentileza e a tolerância, o perdão, o amor e o apreço - todas essas belas qualidades – vêm ao estarmos leves, leves na mente, na alma e no corpo.
De onde a música vem? De onde a dança vem? Isso tudo vem da vida espiritual natural que está dentro. Quando essa vida espiritual floresce, ela alivia todos os fardos que o homem tem. Torna sua vida suave, flutuando sobre o oceano da vida. A faculdade de apreciação torna uma pessoa leve. A vida é exatamente como o oceano. Quando não há apreço, não há receptividade, o homem afunda como um pedaço de ferro para o fundo do mar. Ele não pode flutuar como o barco que é oco, que é receptivo.
A dificuldade no caminho espiritual é sempre o que vem de nós mesmos. O homem não gosta de ser um aluno, ele gosta de ser um professor. Se o homem apenas soubesse que a grandeza e perfeição dos grandiosos, que vieram de tempos em tempos a este mundo, residia na sua disponibilidade de aprender, e não em ensinar! Quanto maior for o professor, melhor aluno ele foi. Ele aprendeu de todos, dos grandes e dos inferiores, dos sábios e dos tolos, dos velhos e dos jovens. Ele aprendeu de suas vidas e estudou a natureza humana em todos os seus aspectos. A pessoa que aprende a trilhar o caminho espiritual deve se tornar como um copo vazio, a fim de que o vinho da música e da harmonia possa ser derramado em seu coração. Você pode perguntar: 'Como é possível tornar-se um copo vazio?' Vou dizer-lhe como copos mostram-se cheios em vez de estarem vazios. Muitas vezes uma pessoa chega para mim e diz: "Aqui estou. Poderia ajudar-me espiritualmente?' E eu respondo: 'Sim'. Mas então ele diz: 'Eu quero saber antes de tudo o que você pensa sobre a vida e a morte ou sobre o início e o fim'. E então eu me pergunto qual será a sua atitude se a sua opinião previamente concebida não concordar com a minha. Ele quer aprender e ainda assim não deseja estar vazio. Isso significa ir para o riacho com um copo cheio, querendo água, mas o copo está fechado, cheio de idéias preconcebidas. De onde as idéias preconcebidas vêm? Nenhuma idéia pode ser chamada de uma idéia da própria pessoa! Todas as idéias foram aprendidas de uma fonte ou de outra, mas chega um momento em que a pessoa pensa que são dela mesma. Por essas idéias ela irá discutir e disputar, embora elas não a satisfaçam plenamente. Ao mesmo tempo elas são o campo de batalha da pessoa e todo o tempo ela vai manter a taça coberta.
Os místicos, portanto, têm adotado uma maneira diferente. Eles aprenderam um rumo diferente, e esse rumo é o auto-aniquilamento, ou, em outras palavras, desaprender o que aprenderam. Diz-se no Oriente que a primeira coisa aprendida é compreender o como tornar-se um aluno. Eles não aprendem primeiro o que é Deus ou o que é a vida. A primeira coisa a aprender é como se tornar um aluno. Pode-se pensar que, desta forma a pessoa perde sua individualidade. Mas o que é individualidade? Não é o que é coletado? O que são as idéias e opiniões da pessoa? São apenas conhecimento coletado. Isso deve ser desaprendido.
Como podemos desaprender? Você diria que a natureza da mente é tal que o que a pessoa aprende fica gravado nela, e então como ela pode desaprender isso? Desaprender é completar o conhecimento. Ver uma pessoa e dizer: “Essa pessoa é má"- é aprender. Ver mais longe, e reconhecer algo de bom naquela pessoa - é desaprender. Quando você vê a bondade em alguém que você chamava de mau, você desaprendeu. Você desamarrou aquele nó. Você disse uma vez: "Eu odeio aquela pessoa'- isso é aprender. E então você diz: 'Ah não, eu posso gostar dela ou eu posso ter pena dela”. Quando você diz isso, você viu com os dois olhos. Primeiro você aprende a ver com um olho e, depois, você aprende a ver com os dois olhos. Isso torna a visão completa. Tudo o que nós aprendemos neste mundo é conhecimento parcial e quando esse é arrancado por um outro ponto de vista, então temos conhecimento na sua forma completa. Isso é chamado de misticismo. Por que é chamado de misticismo? Porque não se pode colocar em palavras. Palavras irão nos mostrar um lado disso, mas o outro lado está além das palavras.
Toda a manifestação é dualidade, ela nos torna inteligentes, e por trás da dualidade está a unidade. Se não nos elevarmos além da dualidade e formos na direção da unidade, deixaremos de atingir a perfeição que é chamada de espiritualidade. Isso não significa que o nosso aprendizado não é de utilidade. É de grande utilidade. Ele nos dá o poder de discriminação e discernimento das diferenças. Isso torna a inteligência afiada e a visão apurada, para que compreendamos o valor das coisas e sua utilidade. É tudo parte da evolução humana, e é tudo útil. Portanto, temos de aprender primeiro e depois desaprender. Você não olha primeiro para o céu quando você está de pé na terra. Primeiro olha para a terra e vê o que ela lhe oferece para ser aprendido e observado, mas, ao mesmo tempo, não pense que o objetivo da sua vida é preenchido ao analisar apenas a terra. O cumprimento do propósito da vida está em olhar para o céu.
O que é maravilhoso sobre a música é que ela ajuda o homem a concentrar-se ou meditar independentemente do pensamento. Portanto a música parece ser a ponte sobre o abismo entre a forma e a não forma. Se existe alguma coisa inteligente, eficaz e ao mesmo tempo sem forma, é a música. A poesia sugere forma, linha e cor sugerem forma, mas a música não sugere nenhuma forma. A música também produz ressonância que vibra através de todo o ser. Ela eleva o pensamento acima da densidade da matéria, quase transforma a matéria em espírito, na sua condição original, através da harmonia das vibrações tocando cada átomo de todo o ser da pessoa. A beleza da linha e da cor podem ir até ai, não mais longe! A alegria da fragrância pode ir um pouco mais longe. A música toca nosso ser mais íntimo e dessa forma produz nova vida, uma vida que dá exaltação para todo o ser, elevando-o àquela perfeição na qual reside a plenitude da vida do homem.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

G. I Gurdjieff - O sono desperto

A fim de compreender qual é a diferença entre os estados de consciência, vamos voltar para o primeiro estado de consciência que é o sono. Este é um estado de consciência totalmente subjetivo. Um homem está imerso em sonhos, se ele se lembra dos sonhos ou não, não importa. Mesmo que algumas impressões reais chegarem a ele, como sons, vozes, calor, frio, a sensação de seu próprio corpo, despertam nele apenas imagens subjetivas fantásticas. Então, um homem acorda. À primeira vista esse é um estado de consciência bem diferente. Ele pode mover-se, pode conversar com outras pessoas, pode fazer cálculos futuros, pode ver o perigo e evitá-lo e assim por diante. É óbvio que ele está em uma posição melhor do que quando ele estava dormindo. Mas se formos um pouco mais profundamente nas coisas, se dermos uma olhada para o seu mundo interior, em seus pensamentos, sobre as causas de suas ações, veremos que ele está quase no mesmo estado de quando ele está adormecido. E é ainda pior, porque no sono ele está passivo, isto é, ele não pode fazer nada. No estado desperto, porém, ele pode fazer alguma coisa o tempo todo e os resultados de todas as suas ações refletirão sobre ele ou sobre os que estão em torno dele. E no entanto ele não lembra de si mesmo. Ele é uma máquina, tudo acontece com ele. Ele não pode parar o fluxo de seus pensamentos, ele não consegue controlar sua imaginação, suas emoções, sua atenção. Ele vive em um mundo subjetivo de 'eu amo', 'eu não amo', 'eu gosto' ,'eu não gosto', 'eu quero', 'eu não quero', isto é, do que ele acha que ele gosta, do que ele pensa que não gosta, do que ele pensa que ele quer, do que ele acha que ele não quer. Ele não vê o mundo real. O mundo real está escondido dele pelo muro da imaginação. Ele vive no sono. Ele está adormecido. O que é chamado de "clara consciência" é um sono e um sono muito mais perigoso do que dormir à noite na cama.

Vamos tomar um evento na vida da humanidade. Por exemplo, a guerra. Há uma guerra em curso no momento. O que isso significa? Significa que vários milhões de pessoas adormecidas estão tentando destruir vários milhões de outras pessoas adormecidas. Eles não fariam isso, naturalmente, se viessem a acordar. Tudo o que ocorre é devido a esse sono. Ambos os estados de consciência, o sono e o estado de vigília, são igualmente subjetivos. Apenas ao começar a lembrar de si mesmo um homem realmente desperta. E então tudo que o cerca na vida adquire um aspecto diferente para ele e um significado diferente. Ele vê que é a vida de pessoas adormecidas, uma vida em sono. Tudo o que dizem os homens, tudo o que eles fazem, eles dizem e fazem no sono. Tudo isto não pode ter qualquer valor. Apenas o despertar e o que conduz ao despertar tem um valor na realidade. Quantas vezes tenho sido perguntado aqui se as guerras podem ser interrompidas? Claro que podem. Para isso é necessário apenas que as pessoas despertem. Parece uma coisa pequena. Isso no entanto, é a coisa mais difícil que pode haver, porque este sono é induzido e mantido por todo o entorno da vida, por todas as condições que nos cercam.

Como uma pessoa pode despertar? Como pode escapar deste sono? Essas questões são as mais importantes, as mais vitais com que jamais um homem possa se confrontar. Mas antes disso, é necessário estar convencido do próprio fato do sono. Mas só é possível ser convencido disso quando se tenta despertar. Quando um homem compreende que ele não lembra de si e que lembrar de si significa despertar em certa medida, e quando, ao mesmo tempo vê por experiência como é difícil lembrar de si mesmo, ele compreende que não pode despertar simplesmente por ter o desejo de fazê-lo. Podemos afirmar ainda mais precisamente, que um homem não pode despertar por si mesmo. Mas, digamos, se vinte pessoas fazem um acordo de que aquele que despertar primeiro deve acordar o resto, elas já têm alguma chance. Mesmo isso, porém, é insuficiente, porque todos os vinte podem adormecer ao mesmo tempo e sonharem que estão despertando. Por isso, ainda mais é necessário. Devem ser cuidados por um homem que não esteja dormindo ou que não dorme tão facilmente como eles, ou que dorme conscientemente quando é possível, quando isso não fizer mal nenhum, quer para si ou para outras pessoas. Eles devem encontrar tal homem, contratando-o para acordá-los e não permitindo que adormeçam novamente. Sem isso é impossível despertar. Isso é o que deve ser entendido.

É possível pensar por mil anos, é possível escrever bibliotecas inteiras de livros, criar teorias aos milhões, tudo isso no sono, sem qualquer possibilidade de despertar. Pelo contrário, esses livros e essas teorias, escritos e criados no sono, irão meramente colocar as outras pessoas para dormir e assim por diante. Não há nada de novo na idéia do sono. As pessoas têm sido avisadas praticamente desde a criação do mundo que elas estão dormindo e que devem acordar. Quantas vezes isso é dito nos Evangelhos, por exemplo? "Desperte", "Vigiai", "Não durmais". Os discípulos de Cristo, dormiram mesmo quando ele estava orando no Jardim do Getsêmani pela última vez. Está tudo lá. Mas os homens compreendem? Os homens tomam simplesmente como uma forma de linguagem, como uma expressão, como uma metáfora. Eles falham completamente em entender que isso deve ser interpretado literalmente. E mais uma vez, é fácil perceber por quê. Para entender isso literalmente é necessário despertar um pouco, ou pelo menos tentar despertar. Digo-lhes de verdade que me foram perguntadas várias vezes por que nada é dito sobre o sono nos Evangelhos. Embora isso seja falado ali quase em cada página. Isso mostra simplesmente que as pessoas lêem os Evangelhos no sono. Enquanto um homem dorme profundamente e está inteiramente imerso em sonhos, ele não pode sequer pensar sobre o fato de que ele está dormindo. Se ele pensasse que está dormindo, ele despertaria. Então, tudo continua. E os homens não têm a menor idéia do que estão perdendo por causa deste sono. Como já disse, da maneira que ele está organizado, isto é, sendo como a natureza o criou, o homem pode ser um ser autoconsciente. Assim foi criado e é assim ele nasceu. Mas ele é nascido entre pessoas adormecidas, e, claro, ele adormece entre elas no mesmo momento em que deveria ter começado a ser consciente de si mesmo. Tudo tem uma mão nesta história: a imitação involuntária dos mais velhos por parte da criança, sugestão voluntária e involuntária, e aquilo que é chamado de "educação". Cada tentativa de despertar por parte da criança é imediatamente interrompida. Isso é inevitável. E muitos esforços e uma grande quantidade de ajuda são necessários para despertar mais tarde, quando milhares de hábitos compelidores do sono foram acumulados. E isso acontece muito raramente. Na maioria dos casos, um homem, quando ainda criança já perde a possibilidade de despertar e vive no sono durante toda a sua vida e no sono ele morre. Além disso, muitas pessoas morrem bem antes de sua morte física.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Jalaluddin Rumi - Um homem falando com a sua casa


Eu digo que ninguém nesta caravana está acordado
e que enquanto você dorme, um ladrão está roubando
os sinais e os símbolos que você pensava que
fossem a sua vida.

Agora você está bravo comigo por
lhe falar isso! Preste atenção naqueles que
ferem seus sentimentos lhe falando a verdade.
Dar e receber elogios é como
tentar pintar na água, é insubstancial.


Foi assim que um homem falou uma vez com a sua casa:
“Por favor, se algum dia você estiver para desabar,
me avise”. Uma noite sem dizer nenhuma palavra a
casa caiu. “O que aconteceu com nosso acordo?”
A casa respondeu: “Dia e noite estive falando
para você através de rachaduras e tábuas quebradas e
buracos aparecendo como bocas abertas. Mas você
continuou remendando e tampando os buracos com barro, tão
orgulhoso de seu trabalho de pedreiro. Você não escutou”.


Essa casa é o seu corpo sempre
dizendo: “estou partindo, estou indo logo.” Não
se esconda daquele que conhece o segredo. Beba
o vinho do voltar-se para Deus.

Não examine sua urina. Ao invés,
examine como você louva,
o que que você deseja, este anseio que nos foi dado.

O outono vira amarelo pálido querendo
a primavera e a primavera chega! As sementes florescem.

Venha para o pomar e veja o que vem a você,
uma conversa silenciosa com a sua alma.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Siddharameshwar Maharaj -A cidade de Brahman

O estado do indivíduo, o Jiva, é a ilusão. É a ignorância, o pecado original. Ilusão significa aquilo que não é verdade. O estado do Jiva “não é verdade”. A palavra Jiva é composta de “Ja” mais “Iva”, que significa que é como se ele tivesse nascido, mas não é nascido na verdade. Ele é ilusório. Se esse indivíduo não é verdade, então o que é verdade? A verdade é “eu sou aquilo que não é nascido”. Não é verdade o fato - “eu nasci” e sou chamado por algum nome como Tom, Dick, ou Harry.
Há uma história sobre um leão que estava sob a ilusão de que era um homem. Ele foi até um pastor de ovelhas para ser seu servo. Por algum tempo, o pastor o alimentou com leite e depois começou a dar esterco para ele. Naturalmente, logo o leão estava faminto. Então o guru dele o encontrou. Ele disse para o leão: “você é um leão, que mata e come qualquer animal que escolher. Por que você está comendo esterco?” Quando o leão veio a saber de sua capacidade, ele foi para a floresta e começou a caçar e a alimentar-se adequadamente. Similarmente, o indivíduo é Paramatman, na verdade, mas considerou-se ser o Jiva e teve que tornar-se infeliz. Pare de ser um ser humano e abandone o hábito de comer o esterco, que são estes objetos os sentidos. Comer esterco significa assumir os resultados das ações (Karma). O resultado de qualquer ação que o individuo realiza é o esterco, que a ovelha (a ilusão - Maya), excretou.
Quando você está certo de que você é Shiva, esses resultados do Karma, que são como esterco, são evitados. Para Shiva, nenhum karma é comprometedor. O Ser é Brahman, por Seu consentimento. O corpo imaginário atua com todos os orgão dos sentidos. Com o conhecimento de si, aquele que herda os resultados do Karma é descartado, e não há nenhuma entidade para receber nenhum resultado, portanto, não há ninguém para ser “condenado”.

Quando a ilusão do Jiva se vai, todas as ações também se vão. Ele está livre de todo o Karma, as montanhas dos pecados são queimadas às cinzas, e montanhas de méritos são erguidas. Mérito aqui significa a Verdade, a Realidade. Aquele que realizou o Ser (Self) tornou-se Deus. O autoconhecimento é em si mesmo a montanha de mérito. Não há limite para o mérito daquele que tem autoconhecimento, enquanto que aquele que não tem, ganha montanhas de pecado. Pecado significa pensar que você é o indivíduo. Quando o Jiva é não-existente, o pecado também não está presente. Assim que a ilusão de ser um Jiva estiver lá, erguem-se montanhas de pecados. Através do entendimento da nossa própria “natureza verdadeira” como Brahman, as montanhas de pecados desmoronam. Um homem que era um sacerdote, um Brahmim, pensou ser um homem de uma casta inferior e comeu a carne de um búfalo. Aquele conceito de ser de uma casta inferior foi acompanhando pelo cometimento de pecado para o Brahmin. Se um escravo recebe a bênção de que ele pode viver para sempre, isso significa que ele permanecerá um escravo eternamente. Identificação errada é a criação do pecado. Grande é o ganho no dia em que passamos a saber que não somos o Jiva, mas que somos Brahman. Então, a escravidão se vai, a ilusão de ser um Jiva se vai. Nesse dia, as montanhas dos pecados são afundadas nas profundezas do oceano. O sol do Conhecimento nasce e a pessoa atinge novamente aquele lugar de onde originalmente ela veio. Alcança sua raiz e os quatro corpos se esvaem.

Voltar-se para os objetos dos sentidos é ir para baixo, descender. Voltar-se na direção do Ser é ir para cima. Quando a pessoa realiza o Ser, ela está totalmente livre. Isso é chamado Sayujya Mukti. A aniquilação total de todas as coisas é esse Sayujya Mukti. Onde não há “eu” e não há “você”, quem está lá para querer liberdade? Abençoado é aquele que pela dissolução do “eu” realizou Brahman. Ele é o proprietário dessa liberdade e pode outorgar esse estado às outras pessoas.
É o Jnani quem entendeu que o que quer que seja visível é falso. As coisas são vistas, sem dúvida, mas é apenas Brahman e não há nada separado. Nesta vasta cidade de Mumbai, se você pegar um punhado de terra, é terra ou é Mumbai? As pessoas dão o nome de Mumbai para a terra e agem de acordo com isso. Realmente é apenas terra. Não existe Mumbai. Sem essa terra, Mumbai não tem existência. Similarmente, sem a energia da vida, Chaitanya, o mundo não tem existência. Afinal, você não pode encontrar nada exceto esta energia da vida. Há apenas essa Chaitanya. Se você olhar cuidadosamente e ver de maneira apropriada, não existe mundo visível. Se você vê dessa maneira e realiza todas as ações sabendo totalmente que todas elas são falsas, comportando-se somente com essa atitude, isso é “liberdade enquanto você está no corpo físico”. Aquele que se lembra do aviso dado pelo Guru e coloca isso em prática é intitulado para a liberdade.

É necessário ter decorado o alfabeto inteiro para saber o que significa o pecado? Qual é a necessidade de todas as ciências quando você realizou que você é o Ser? Há um ditado: “Através do sofrimento o caminho do contentamento segue”. O Sadguru diz que isso é verdade, mas significa que o corpo deveria ser abandonado. Esse é o preço que você deve pagar. Não deveríamos viver a vida como sendo um corpo físico, mas como pura energia da vida, Chaitanya. A liberdade está muito perto e facilmente disponível quando você vai ao Guru. Entretanto, a ilusão possui uma arma muito poderosa para ser usada contra o discípulo. Essa arma é a falta de fé no Guru. Deveríamos servir o Guru e trabalhar com devoção para ele até que consiguíssemos o fruto. O devoto deveria esperar pacientemente e fielmente até que a fruta amadurecesse. Aqueles que declaram “eu sou Brahman”, mas não tiveram a realização, tornam-se demônios após a morte. Uma manga tem gosto azedo quando comida antes de amadurecer e você não aprecia o gosto bom. Você não pode obter o benefício real do fruto se ele não estiver totalmente maduro.
O Sadguru nos deu o terceiro olho que é a “Visão Interior da Percepção Direta da Verdade”. Esse é o terceiro olho do “Fogo do Conhecimento do Senhor Shiva”. Esse não é um olho físico. É o “Olho do Conhecimento”. Temos nossos dois olhos físicos e o Guru nos deu este novo olho que é o Sol do Conhecimento. O Senhor de todo o mundo, a Existência sem forma (Purusha) permeando tudo, é esse olho. Quando você vê com esse olho, o mundo todo desaparece. Ele é destruído e nós vemos apenas Brahman. Este mundo visível é o cativeiro da Ilusão e o novo olho dado pelo Sadguru destrói essa ilusão.

O devoto do Guru aprecia o “Contentamento da solidão” enquanto está no corpo. Quando o Senhor Shiva tem autoconhecimento, ele diz: “Eu estou experimentando este sonho do Meu próprio Ser. Agora eu conheci este sonho como sendo eu mesmo”. O sonho é de ser o Ser, a existência como o seu próprio Ser. A experiência é nossa e é assim apenas por causa de nossa existência, portanto, ela é chamada de “Autoexperiência”. Por causa do Ser e por usar o suporte que “Eu” concedo, esta chama da inteligência é acendida. Quando observamos tudo isto com a chama da inteligência, vemos que tudo é nascido apenas do Ser. Não há um “outro” nisso. Sendo que essa é a experiência do Ser, pelo Ser, ela é chamada de “Autoexperiência” (experiência do Ser). Todos os termos, Si mesmo, Brahman, Autoexperiência, significam apenas uma coisa, que tudo isso é o sonho do Ser (swapna). A “Autoexperiência” (Atma-Anubhava) é a Autorealização (realização de si mesmo). É dito que o mundo é a casinha de brinquedos dos adultos. Isso significa que os “adultos” são pessoas de conhecimento. Eles têm o autoconhecimento e são grandes. Para eles o mundo todo é um brinquedo, algo para se brincar. Neste jogo, eles não têm pesares ou exaltação, perdas ou ganhos, tristeza, morte, etc. Para aqueles que vêem este mundo como a “experiência do ser” (autoexperiência) o mundo é um jogo natural de alegria. As pessoas ignorantes tomam o mundo como sendo real. Para eles tristeza, pesar, preocupação e medo são o fardo da vida. O sábio, entretanto, sabe que o mundo não é real e vive felizmente na sua própria “Casa da felicidade”.

Um homem sábio diz, “vivemos naquele país onde ninguém pode ir”. Deveríamos viver em nossa própria cidade. Nossa cidade é aquele lugar de onde ninguém volta. Aquele que realizou Brahman fala sobre coisas naquela cidade e pergunta apenas sobre aquela cidade. Aquela cidade irá apenas falar sobre si mesma. As pessoas ricas irão falar sobre sua própria vida rica e aqueles de conhecimento de Si irão falar sobre Brahman apenas. Se encontrarmos outro homem, saberemos através de sua fala, seu comportamento, etc, qual é a sua casta, qual é sua religião, sua ocupação, etc. O comportamento, a fala e as ações do Jnani são sempre cheias de sabedoria. Uma pessoa sábia irá sempre viver como uma pessoa sábia.

domingo, 19 de abril de 2009

Hafiz - Nós todos permanecemos em fila

Um bilhão de vezes Deus tornou o homem
Nele mesmo.

Você fica na fila para o presente
mais elevado
Pois a generosidade Dele não pode acabar.

Mas é melhor trazer um instrumento com você
Enquanto espera no deserto frio,

E fazer alguns sons suaves
Para acompanhar o balanço dos braços das palmeiras
que devido ao nosso fogo,
estão lançando silhuetas contra
a cortina do céu.

Lembre o Amigo do seu desejo,
E grande paciência.

Um bilhão de vezes Deus tornou o homem
de volta em Si mesmo.

Nós todos permanecemos em fila
Para o mais elevado
presente.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ramesh S. Balsekar - Seja feita a Vossa vontade

Ramesh: As pessoas me perguntam se há algo único em relação ao que estou ensinando. Eu diria que sim. O que é único sobre o que estou falando é que eu começo com o Bhakti e termino com a compreensão. O que é Bhakti? Seja feita a Vossa vontade. O “eu” fala “Você é tudo o que existe – Seja feita Vossa vontade.”
Pergunta: Quando você diz “Seja feita a Vossa vontade”, eu entendo que você quer dizer que a vontade de Deus está, de fato, sendo feita sempre.
Ramesh: Isso está correto. Foi feita, está sendo feita e será feita!
Pergunta:E é impossível que algo além da vontade de Deus seja feito.
Ramesh: Correto. Mas, realmente, essa não é a parte relevante. A parte relevante é, “eu” não sou nada. Essa é a parte relevante. Você (Deus) é tudo o que existe. Sua vontade prevalece o tempo todo. Portanto, pensar, “eu não posso fazer nada, eu posso fazer algo, eu posso alcançar algo” é ridículo. Essa é a parte relevante – o desamparo e a incapacidade do objeto criado. A aceitação, a total aceitação do fato de que um objeto criado é impotente e desamparado, é a parte relevante.
De quem é a vontade que prevalece (e você o chama de Deus) é um conceito que é necessário pois o indivíduo encontra-se muito desamparado. Então, a mente-intelecto cria um objeto que é todo poderoso e diz que tudo acontece de acordo com a Vossa vontade – que significa que não é a “minha” vontade. Desse modo, aceitar que “eu” não sou nada, que “eu” sou meramente um objeto a mercê da vontade de Deus é basicamente nada além de pura devoção, ou Bhakti. Portanto, o que eu digo estritamente começa com Bhakti – Seja feita a Vossa vontade.
Pergunta: Você tem um ensinamento básico?
Ramesh: Sim. Meu ponto básico é que a Consciência é tudo o que há – nenhuma “pessoa” faz nenhuma ação. Nada acontece a menos que seja a vontade de Deus. E quando eu digo “Deus”, eu não quero dizer uma entidade toda poderosa dentro ou fora da manifestação. Por “Deus” eu quero dizer a Fonte, a Consciência refletida, – o Um sem um segundo – dentro do qual a manifestação acontece.
O Buda disse, “Os eventos acontecem. Os feitos são realizados. Portanto, não há um fazedor individual.” Esse é o básico. Ninguém poderia ter colocado isso em termos mais simples ou mais breves. Os eventos acontecem. Os feitos são realizados. Não há realizador individual, portanto. Se não há realizador individual, então “quem” os realiza é irrelevante. Mas se o intelecto faz a pergunta e deve receber uma resposta, então é dito para o intelecto, “De quem são as ações? São as ações de Deus.”
Pergunta:Por que o Ramesh continua falando?
Ramesh: Ó Arthur! O Ramesh não fala. Nem realmente o Arthur escuta. Não existe Ramesh para falar, e não existe Arthur para escutar. Mas enquanto houver um “Arthur” para escutar, o Arthur precisa de conceitos. A consciência provê esses conceitos através deste organismo corpo-mente.
Pergunta: Então fico me perguntando por que Ramesh continua falando com Arthur.
Ramesh: Porque isso é parte do funcionamento da manifestação. Isso é parte daquilo que É no momento. É isso que está suposto a acontecer, e acontece! Nada pode acontecer a menos que esteja suposto a acontecer. Dessa maneira, esta conversa está acontecendo. Que efeito esta conversa tem e em quem, ninguém sabe – apenas a Consciência, Deus, sabe.
Pergunta: Para mim conceitos são conceitos. Já passei por muitas mitologias de diferentes mestres e elas são boas histórias.
Ramesh: Sim! São histórias! Então o que você está perguntando é como você sabe se o que estou dizendo é a verdade. Essa é a sua pergunta, não é?
Pergunta: Exatamente!
Ramesh: Acabei de lhe dar a resposta. Ninguém pode lhe contar a verdade. O que quer que alguém lhe fale é um conceito.
Pergunta:O que está além dos conceitos?
Ramesh: Além dos conceitos está a verdade! A verdade é escondida pelos conceitos e pela conceitualização.

Ramesh: Quando você fala e usa uma analogia, a analogia é baseada apenas em objetos. Portanto, Ramana Maharshi frequentemente dizia, “O único ensinamento é o silêncio”. Qualquer conceito que você utilize, qualquer analogia, qualquer metáfora – todos estarão baseados em objetos.
Pergunta: Existe a transmissão do conhecimento através do silêncio?
Ramesh: Sim. Mas pouquíssimos organismos estão programados para aceitar a verdade através do silêncio. Portanto, compelido pela compaixão por aqueles muitos, muitos que não estão programados para estarem aptos a aceitar a verdade através do silêncio, Ramana Maharshi começou a falar. Ele usava uma analogia como um exemplo para explicar isso: alguns poucos são como pólvora, com uma fagulha eles se vão. Buscadores que são como pólvora, podem não estar aptos a aceitar o silêncio, mas com uma fagulha, uma afirmação – Tudo o que há é a Consciência, nenhuma “pessoa” faz nenhuma coisa, nada acontece a menos que seja a vontade de Deus – e a pólvora é aniquilada. Então, quem está programado para ser pólvora, quem está programado para ser carvão seco e quem está programado para ser carvão molhado é da vontade de Deus. Mas o carvão molhado é que precisa de muito trabalho, Ramana Maharshi novamente deu um consolo – sua cabeça já está na boca do tigre, não há escapatória. Portanto, deixe demorar tantos nascimentos quanto a Fonte quiser.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Meher Baba - O Mistério da Criação

Deus é o criador, o preservador e o destruidor do universo que emana Dele, é sustentado por Ele no próprio ser Dele e também é re-absorvido Nele. Somente Deus é real e o universo está no domínio da ilusão, mesmo sendo a manifestação do próprio Deus.

O mundo ou criação surge do Ser eterno e infinito de Deus através do ponto da criação, que é referido como o ponto "Om". Ninguém pode atingir uma paz duradoura, a menos que entre em contato e transcenda este ponto Om. Portanto, frequentemente encontramos o símbolo sagrado Om aparecendo em justaposição com a palavra "Shantih", que significa paz.

A semelhança fonética entre Om, Amin e Amém é sugestiva de muitas coisas. As palavras sagradas Amin e Amém são frequentemente usadas no final de orações muçulmanas e cristãs. Ambas significam "Assim seja". Vindo de um homem, "Assim seja" é uma benção ou um desejo; mas vindo de Deus é a criação. A criação é o Amin ou Amém de Deus, isto é, um imediato e instantâneo cumprimento de Sua vontade irrompendo em realidade. A palavra árabe Amin vem da raiz Omn, que significa segurança ou paz e, portanto, Amin pode ser considerado como um equivalente, ou pelo menos um parente de Om, que também está associado com a paz.

Todas as orações de diversas religiões tais como o Hinduísmo, o Islamismo e o Cristianismo têm uma referência ao Criador. A criação é o maior mistério com o qual todas as criaturas, incluindo os seres humanos, são confrontadas. O mistério não pode ser desvendado ou realizado a menos e até que o homem conscientemente torne-se unido com o Criador e realize a si mesmo como sendo um com Deus, que é simultaneamente o Criador e a criação em Um, de uma só vez incluindo e transcendendo ambos em Seu Ser infinito.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Farid ud-Din Attar - Uma história em alegoria



Uma criança caiu nas águas de um rio e sua mãe caiu na agitação e na angústia. Em seu terror, a criança debatia os braços e as pernas; porém a água levou-a para perto do barco do moinho. A água arrastava-a, e a bem amada criança afastou-se dali, deslizando pela superfície da água. A mãe vendo aquilo, desejou estar naquele barco. Contudo, ela atirou-se na água e salvou a criança; tomou-a então em seus braços e amamentou-a com seu leite e apertou-a contra seu peito.

Ó Tu cuja ternura é parecida com a das mães! És para mim neste redemoinho, um barco protetor. Quando caí neste abismo de estupefação, encontrei-me ante ao barco no oceano dos suspiros. Tendo sido presa da vertigem como essa criança na água, agitando em meu desconcerto os pés e as mãos.

Ó tu que estás cheio de ternura para com as crianças de Teu caminho! Lança neste momento com benevolência um olhar sob aqueles que submergiram, tem piedade de nossos corações cheios de angústias, vem em nossa ajuda ao ver que as águas nos arrastam, faz-nos saborear o leite do seio de tua graça, não retires de nossa frente a mesa de tua generosidade.

Ó tu que estás além da inteligência e a quem não se pode definir! Tu a quem os relatos dos narradores não saberiam descrever; a mão de nenhum de nós poderá alcançar a brida de teu corcel, e necessariamente não somos mais que a poeira da tua poeira; Teus santos amigos chegaram a ser tua poeira, e os habitantes do mundo não são mais que a poeira de tua poeira.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

G.I. Gurdjieff - Hassin relembrando o que seu avô (Belzebu) acabara de dizer:


Lembre-se: ele acabou de dizer que não devemos opor as forças superiores às nossas, acrescentando que não só não deveríamos nos opor, mas deveríamos até mesmo nos submeter a elas e aceitar todos os seus resultados com reverência, ao mesmo tempo louvando e glorificando as maravilhosas e providenciais obras de nosso Senhor Criador.

Jalaluddin Rumi - Estas palavras são o exército de Deus

Nem a minha vinda, nem o meu discurso são uma indicação do meu amor. Eu digo o que quer que venha a mim. Se for a vontade de Deus, Ele torna estas poucas palavras proveitosas, e desse modo elas crescerão dentro do seu coração trazendo grandes recompensas. Se não for a vontade de Deus, mesmo se uma centena de milhares de palavras forem proferidas, elas não irão se alojar no coração, mas passarão e serão esquecidas. Se uma faísca de fogo cair sobre um trapo queimado e Deus desejar, aquela única faísca pegará fogo e engolirá o pano. Se Deus não quiser, uma centena de faíscas cairão nessa mecha e não deixarão nenhuma marca.
Estas palavras são o exército de Deus. Pela autoridade de Deus elas abrem e tomam posse de fortalezas. Se Deus comanda milhares de cavaleiros para irem e mostrarem seus rostos em tais e tais fortalezas mas para não tomar posse delas, assim será. Se Ele comanda um único cavaleiro para tomar posse daquela fortaleza, aquele mesmo cavaleiro solitário abrirá os portões da fortaleza e a dominará.
Deus enviou um mosquito contra Nimrod e ele destruiu Nimrod. "Aos olhos de um Gnóstico são iguais um centavo e cem centavos, um leão e um gato." Se Deus dá sua bênção, um centavo faz o trabalho de uma quantia milionária, e mais. Se Deus não abençoar uma quantia milionária, ela não pode fazer o trabalho de um centavo. Assim também, se Deus autorizar o gato, ele destrói o leão, assim como o mosquito destruiu Nimrod.

Em suma, quando percebemos que todas as coisas são de Deus, todas as coisas tornam-se uma e a mesma aos nossos olhos. Espero, também, que você ouça estas palavras dentro do seu coração, pois isso seria muito benéfico. Mas se mil ladrões vêm de fora, eles não podem abrir a porta sem a ajuda de algum colega ladrão do lado de dentro que pode desbloquear a porta. Fale mil palavras de fora, ainda assim, enquanto não houver alguém para responder lá de dentro, a porta nunca se abrirá. Assim também é com uma árvore, enquanto não haja sede por umidade em suas raízes, mesmo que você derrame mil torrentes de água sobre ela, não resultará em nada. Primeiro deve haver uma sede em suas raízes para que a água a nutra. Apesar de todo o mundo ser abrasado pela luz do sol, a menos que haja uma faísca de luz dentro do olho, ninguém pode observar aquela luz. A raiz em questão é a receptividade dentro da alma. A alma é uma coisa e o espírito é outra. Você não vê durante o sono como a alma viaja amplamente? O espírito permanece no corpo, mantendo-o vivo, mas a alma vagueia e é transformada. Quando Maomé disse, "Aquele que conhece o seu próprio Ser conhece seu Senhor", ele estava falando sobre conhecer a alma.
Se dizemos que ele estava falando desta alma ou daquela alma, isso é algo muito diferente. Por outro lado, se explicarmos como significando a própria Alma, o ouvinte pode ainda achar que queremos dizer uma alma, uma vez que eles ainda não conhecem a Alma, por si mesma. Meras palavras não podem transmitir esta compreensão espiritual. Palavras só revelam o que o coração tem ouvido para ouvir.
Além deste mundo, há um outro mundo para nós. Este mundo e seus prazeres suprem o animal dentro de nós. Esses prazeres todos enchem nossa natureza animal, enquanto que nosso Ser real morre lentamente. Eles dizem, "O ser humano é um animal racional", ainda assim, consistimos de duas coisas: lascívia e desejos alimentam nossa animalidade neste mundo material. Mas, para a nossa verdadeira essência, seu alimento é o conhecimento, a sabedoria e a visão de Deus. A animalidade dentro de nós foge de Deus, enquanto que nosso Ser espiritual foge deste mundo.

"Um de vocês é um infiel,

E um de vocês um crente".

Duas pessoas estão em guerra dentro de você.

Quem vai suceder?

Aquele cuja sorte fizer dela um amigo.

Este mundo é um mundo de inverno. Não é o nome "sólido" dado às coisas inanimadas? Estas pedras e montanhas, e as roupas usadas por este mundo, estão solidificados. A essência interior deste mundo pode ser conhecida por seus efeitos: é o vento e o frio amargo. É como a época de inverno, quando todas as coisas estão congeladas. Que forma de inverno é esta? Um inverno da mente. Quando esse zefir divino vier, estas montanhas começarão a derreter e a solidez deste mundo irá dissolver-se assim como quando o calor do verão vem, toda neve e todo gelo tornam-se água. No dia da ressurreição, quando aquela brisa soprar, todas as coisas vão derreter. Deus faz essas palavras um exército para cercar você e protegê-lo contra o inimigo, e para serem o meio de subjugar o inimigo. Pois existem inimigos internos e inimigos externos. Mesmos assim eles realmente não são nada; o que poderiam ser?

Não vê como mil pessoas sem Deus submetem-se a um líder que se torna seu governante, e aquele líder é prisioneiro de seus próprios pensamentos? A partir disto, é fácil ver o efeito dos pensamentos, uma vez que através de um pensamento fraco e confuso milhares de pessoas e mundos são feitos prisioneiros. Considere, então, aqueles cujos pensamentos são sem limitações, que grandeza e esplendor eles possuem, quão facilmente eles derrotam o inimigo e que mundos eles subjugam! Quando vejo a sabedoria ilimitada que existe, enquanto exércitos intermináveis alargam-se deixando ruínas sob ruínas, todos prisioneiros de uma pessoa, e aquela pessoa prisioneira de um desprezível pensamento pequeno; onde todos ficam em comparação com os pensamentos de poderosa profundidade, luz infinita, sagrados e sublimes? Portanto, os pensamentos têm efeitos reais. Neste mundo físico todas as coisas vivas apenas seguem e atuam como instrumentos do pensamento. Sem o pensamento elas são inanimadas e sólidas. Da mesma forma, aqueles que entendem apenas a forma exterior também são sólidos. Eles não podem penetrar o significado. São espiritualmente crianças e imaturos mesmo se forem Xeiques Sufis de cem anos de idade.

"Regressamos da guerra santa menor

Para lutar a Grande Guerra Santa ".

Todos vemos a batalha com as coisas e pessoas externas e movemos nossas forças contra esses adversários formais. Devemos também reunir as nossas forças contra os exércitos de pensamentos, de modo que os pensamentos desejáveis derrotem os pensamentos destrutivos e conduzam-nos para fora do reino de nossos corpos. Essa, portanto, é realmente a maior luta e a maior guerra.
Os pensamentos têm seus efeitos. Eles trabalham além da influência do corpo, como as leis da natureza que sem qualquer instrumento mantêm os céus girando. Filósofos, portanto, dizem que os pensamentos não necessitam de um corpo. Afinal, o corpo é apenas um acidente. Porque é que alguém deveria residir sobre um acidente? A realidade é como uma almiscareira e este mundo material e seus prazeres são apenas o perfume daquele almíscar. Esse perfume é apenas transitório, um mero acidente. O indivíduo que busca o próprio almíscar, não contente só com o cheiro, é a pessoa sábia. Mas quem quer que esteja satisfeito em possuir apenas o cheiro é um tolo. Eles têm perseguido algo que sua mão não pode agarrar, pois o perfume é apenas um atributo do almíscar. Enquanto o almíscar está presente neste mundo, o seu cheiro vem às narinas. No entanto, quando ele deixa este mundo e atravessa aquele véu invisível, todos aqueles que viveram pelo seu perfume morrem. O aroma segue o almíscar e vai para onde o almíscar vai.
Afortunada é a pessoa que encontra o almíscar por ter seguido o seu perfume e então, torna-se uma com o almíscar. Ela nunca morre, mas torna-se uma parte eterna da essência do almíscar, imbuída com as qualidades do almíscar. Ela vai levar o seu perfume ao mundo e o mundo é reavivado por ela. Daquilo que a pessoa costumava ser, sobrevive apenas o nome, tal como acontece com um cavalo ou qualquer outro animal que tenha virado sal no deserto, apenas o nome cavalo lhe resta. Com efeito e na verdade, ele tornou-se agora uma parte daquele grande oceano de sal.
Que bem ou mal um nome pode fazer? Ele não vai trazê-lo de volta de seu estado salino. E se você der algum outro nome para essa mina de sal, isso não vai alterar o seu sabor. Por isso, convém-nos afastar-nos dos prazeres e deleites deste mundo, que são os raios e os reflexos de Deus. Não devemos nos contentar com esse tanto, mesmo que esse tanto exista através da graça de Deus e da radiância da beleza Dele. Ainda assim, não é eterno. Do ponto de vista de Deus é eterno, mas do nosso não é. É como os raios do sol que brilham em nossa casa, pois, embora sejam raios do sol e sejam luz, ainda assim pertencem ao sol. Quando o sol se põe, a luz desaparece também. Por isso, compete a nós tornarmo-nos o Sol, para que assim o medo da separação não possa anuviar nossa vida.
Existe a doação e a sabedoria. Alguns têm generosidade e compaixão, mas não o verdadeiro conhecimento. Alguns têm o conhecimento, mas não têm o autosacrifício. Quando ambos estão presentes, essa pessoa é abençoada e próspera. Tal ser é realmente incomparável.
Um estranho está seguindo ao longo de uma estrada, mas não sabe aonde a estrada começa ou termina, ou se ele vagou pelo caminho errado. Ele segue cegamente, esperando que talvez um galo cante, ou algum outro sinal de habitação apareça. Como pode um tal estranho ser comparado com aqueles que conhecem a estrada e viajam com facilidade, sem precisar de sinais ou marcas no caminho? Eles têm a sua tarefa atribuída claramente diante de si. Portanto, conhecer ultrapassa tudo mais.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Bhagavan Ramana Maharshi - Tudo o que existe é apenas uma manifestação do Supremo

Devoto: O ensinamento do Bhagavan é o mesmo do que o do Shankara?
Bhagavan: O ensinamento do Bhagavan é uma expressão da própria experiência e realização dele. Os outros acham que ele coincide com o do Sri Shankaracharya.
Devoto: Quando os Upanishads dizem que tudo é Brahman, como podemos concordar com Shankara que diz que este mundo é ilusório?
Bhagavan: Shankara disse também que este mundo é Brahman ou o Ser (Self). Ele se opunha ao pensamento de que o Ser está limitado pelos nomes e formas que constituem o mundo. Ele apenas disse que o mundo não tem qualquer realidade a parte Brahman. Brahman ou o Ser é como uma tela de cinema e o mundo como as imagens nela. Você pode ver a imagem apenas enquanto exista uma tela. Mas quando o próprio observador torna-se a tela, apenas o Ser permanece. As pessoas têm criticado Shankara por sua filosofia de Maya (ilusão) sem compreenderem seu significado. Ele fez três declarações: que Brahman é real, que o universo é irreal e que Brahman é o Universo. Ele não pára com a segunda. A terceira declaração explica as duas primeiras, o que significa que, quando o Universo é percebido a parte de Brahman, aquela percepção é falsa e ilusória. O que isso significa é que os fenômenos são reais quando experimentados como sendo o Ser e ilusórios quando vistos a parte do Ser. Apenas o Ser existe e é real. O mundo, o indivíduo e Deus são, tal como a aparência ilusória da prata na madrepérola, criações imaginárias no Ser. Elas aparecem e desaparecem simultaneamente. Na verdade, o Ser sozinho é o mundo, o 'eu' e Deus. Tudo o que existe é apenas uma manifestação do Supremo.
Devoto: O que é a realidade?
Bhagavan: A realidade deve ser sempre real. Ela não tem nomes ou formas, mas é ela que constitui a base das formas e nomes. Ela está dando base a todas as limitações, sendo ela própria ilimitada. Não é limitada de forma nenhuma. Ela dá base às irrealidades, sendo ela própria Real. Ela é aquilo que é. Ela é como é. Transcende o discurso e está além de descrição, tal como presença ou a ausência do Ser.
Devoto: Os budistas negam o mundo enquanto que a filosofia hindu reconhece a sua existência, mas chama-o de irreal, não é assim?
Bhagavan: É apenas uma diferença de ponto de vista.
Devoto: Eles dizem que o mundo é criado pela Energia Divina (Shakti). O conhecimento da irrealidade é devido ao véu da ilusão (Maya)?
Bhagavan: Todos admitem a criação pela Energia Divina, mas qual é a natureza dessa energia? Ela deve estar em conformidade com a natureza de sua criação.
Devoto: Existem graus de ilusão?
Bhagavan: A própria Ilusão é ilusória. Ela deve ser vista por alguém fora dela, mas como pode tal observador estar sujeito a ela? Então, como é que ele pode falar sobre os graus dela? Você vê várias cenas passando na tela de um cinema: o fogo parece queimar edifícios até reduzi-los a cinzas; a água parece naufragar navios, mas a tela em que as imagens são projetadas permanece sem ser queimada e seca. Por quê? Porque as imagens são irreais e a tela é real. Do mesmo modo, reflexos passam diante de um espelho, mas esse não é afetado de maneira nenhuma pelo número ou pela qualidade dos reflexos.
Da mesma forma, o mundo é um fenômeno sobre o substrato da Realidade única a qual não é afetada por ele de maneira nenhuma. A Realidade é apenas uma. Falar da ilusão deve-se apenas ao ponto de vista. Mude seu ponto de vista para o do conhecimento e você perceberá o universo como sendo apenas Brahman. Estando agora imerso no mundo, você o vê como um mundo real; vá além dele e ele irá desaparecer e apenas a Realidade permanecerá. O mundo é percebido como uma aparente realidade objetiva quando a mente está externalizada, abandonando assim a sua identidade com o Ser. Quando o mundo é assim percebido a verdadeira natureza do Ser não é revelada; de maneira inversa, quando o Ser é realizado, o mundo deixa de aparecer como uma realidade objetiva.
É a ilusão que faz a pessoa tomar por inexistente e irreal, aquilo que está sempre presente e que penetra tudo, que é cheio de perfeição e autoluminoso e que é, de fato, o Ser e o núcleo do próprio Ser da pessoa. Inversamente, é a ilusão que faz a pessoa considerar como real e autoexistente o que é inexistente e irreal, ou seja, a trilogia - o mundo, o ego e Deus. Para aqueles que não realizaram o Ser, bem como para aqueles que realizaram, o mundo é real. Mas, para os primeiros, a verdade é adaptada à forma do mundo, enquanto que para os últimos a Verdade brilha como a Perfeição sem forma e como o substrato do mundo. Esta é a única diferença entre eles.
Devoto: Bhagavan diz que o irreal (mithya, imaginário) e o real (Satyam) significam a mesma coisa, mas eu não entendo muito bem.
Bhagavan: Sim, eu digo isso às vezes. O que você quer dizer por real? O que você chama de real?
Devoto: Segundo o Vedanta, somente aquilo que é permanente e imutável pode ser chamado real. Esse é o significado de realidade.
Bhagavan: Os nomes e formas que constituem o mundo mudam e perecem continuamente e são, portanto, chamados de irreais. É irreal (imaginário) limitar o Ser a esses nomes e formas, e é real considerar a tudo como sendo o Ser. O não-dualista diz que o mundo é irreal, mas também diz, "Tudo isto é Brahman". Então é claro que o que ele condena é, considerar o mundo como objetivamente real por si só, sem considerá-lo como Brahman. Aquele que vê o Ser vê também no mundo apenas o Ser. É irrelevante para o Iluminado se o mundo aparece ou não. Em ambos os casos, a sua atenção está voltada para o Ser. É como as letras e o papel no qual elas são impressas. Você está tão absorto nas letras que você esquece a respeito do papel, mas o Iluminado vê o papel como o substrato estejam as letras aparecendo nele ou não. O Vedantinos não dizem que o mundo é irreal. Isso é um equívoco. Se eles dissessem, qual seria o significado do texto Vedântico: "Tudo isto é Brahman?” Eles só querem dizer que o mundo é irreal como mundo, mas real como o Ser. Se você considerar o mundo como não sendo o Ser, ele não é real. Tudo, você chamando-o de ilusão (Maya) ou de Jogo Divino (Leela) ou Energia (Shakti) deve estar dentro do Ser e não a parte dele.
Devoto: O Vedas contém considerações conflitantes sobre cosmogonia. O éter é dito ser a primeira criação em um lugar, a energia vital num outro, a água em outro, outra coisa em outra parte dos textos; como pode tudo isso ser reconciliado? Isso não prejudica a credibilidade dos Vedas?
Bhagavan: Diferentes visionários viram diferentes aspectos da verdade em momentos diferentes, cada um destacando algum ponto de vista. Por que você se preocupa com as declarações conflitantes deles? O objetivo essencial dos Vedas é nos ensinar a natureza do Ser imperecível e nos mostrar que somos Aquilo.
Devoto: A esse respeito estou satisfeito.
Bhagavan: Então trate todo o resto como argumentos auxiliares ou como exposições para o ignorante que queira saber a origem das coisas.
Esses trechos lidam com teorias da criação. Elas não são essenciais, pois o verdadeiro objetivo das escrituras não é estabelecer tais teorias. Elas mencionam as teorias casualmente, para que os leitores que desejarem possam ter interesse nelas. A verdade é que o mundo aparece como uma sombra passageira numa enchente de luz. A luz é necessária mesmo para ver a sombra. A sombra não é valiosa o suficiente para ser digna de qualquer estudo especial, de análises ou discussões. O objetivo do livro é lidar com o Ser e o que é dito sobre a criação deve ser omitido no presente momento. O Vedanta diz que o cosmos brota à vista simultaneamente com aquele que o vê, e não há processo detalhado de criação. É semelhante a um sonho, onde aquele que experimenta o sonho surge simultaneamente com o sonho que ele experimenta. No entanto, algumas pessoas apóiam-se tanto no conhecimento objetivo, que elas não estão satisfeitas quando lhes dizem isso. Elas querem saber como de súbito a criação pode ser possível e argumentam que um efeito deve ser precedido por uma causa. Na verdade, eles desejam uma explicação do mundo que vêem acerca de si. Por isso as escrituras tentam satisfazer sua curiosidade através de tais teorias. Este método de lidar com o assunto é chamado de teoria da criação gradual, mas o verdadeiro buscador espiritual pode ficar satisfeito com a criação instantânea.

domingo, 5 de abril de 2009

Nisargadatta Maharaj - Entenda que não é o indivíduo que tem consciência, é a consciência que assume inumeráveis formas (1979)

Maharaj: Na natureza (nisarga) tudo está limitado ao tempo (as estações, plantio, colheita etc) mas a natureza em si não está limitada ao tempo. A natureza não é nem masculina nem feminina. Muitos Avatares vêm e vão, mas a natureza não é afetada. A história da natureza está emanando de todas as impressões tomadas em sua mente desde o nascimento. Enquanto você está se apoiando nessas memórias, não haverá conhecimento do Ser. Se você apenas estudar o que aconteceu na natureza, como a história, as vidas grandiosas etc., você não poderá realizar o seu Ser. Você tem que ir para dentro. Quaisquer grandes coisas acontecendo na natureza, não importa o quão poderosas sejam, ainda assim elas desaparecem aqui mesmo. Essas situações aparecem e desaparecem. Elas são, de fato, abstratas, o que é sólido aqui é o conhecimento “eu sou”. O que é visto e a visão, desaparecem. Falo isso apenas para os que estão preparados para ouvir. O que quer que apareça está fadado a desaparecer.
A maior das aparições é o conhecimento “eu sou”. Ele é invisível antes do nascimento e depois da morte do corpo, e enquanto é visível é algo sólido. Muitos grandiosos sábios apareceram e desapareceram por causa da poderosa semente “eu sou”. Quando o prana abandona o corpo, o conhecimento não tem suporte e desaparece, isto é, ele fica invisível.
O que estou expondo é muito profundo. Você pode experimentar até mesmo Brahma, mas essa experiência não vai durar. Todas as experiências devem-se à célula “eu sou”. Tanto a célula quanto a experiência irão desaparecer. Mesmo as melhores de nossas memórias irão se esvair um dia. O conhecimento “eu sou” é limitado ao tempo, todo o seu conhecimento brota do conceito de que você é.
Milhares de sábios vêm e vão. Eles, no momento presente, experimentam o estado de “eu sou”? Eles não tinham autoridade para perpetuar seu sentido de ser (beingness); seu sentido de “eu sou” (I'am-ness), tornou-se não visto. Os sábios não podem fazer a menor mudança no mundo. O que acontece, acontece.
Q: Mas Maharaj tem dito que por causa da existência do Jnani o mundo é beneficiado.
M: Isso é dito para um ignorante, para aquele que se apóia no corpo-mente. Quando não existe o sentido de “eu sou” o que é que você precisa?
Q: Estou perdido.
M:Quem está falando? Para quem?
Q: Para mim.
M: Se você (o conhecimento “eu sou”) estivesse realmente perdido, como você saberia sobre o senso de estar perdido? Você é levado por conceitos. Esta semente infinitesimal contém o universo. Você perde o ponto, você não me compreende apropriadamente. Este princípio “eu sou” é o que eu estou lhe falando de novo e de novo.
Descubra a sua identidade. O que aparecer vai desaparecer. O que podem Roosevelt ou Gandhi fazer agora? Nos próprios locais de onde eles comandavam, mudanças aconteceram. Por que eles não falam? Quando o prana deixa o corpo, mesmo os grandes sábios não podem falar.
Q: No Gita, Sri Krishna diz que onde quer que haja calamidade e que não haja Dharma, ele virá e restaurará.
M: Isso é como a as estações do ano, existe o ciclo. Neste ciclo o significado mais profundo do Ser é para ser entendido. Todas as questões serão resolvidas uma vez que você solucione o enigma do “eu sou”.
Q: As vezes me sinto bem, as vezes mal, as vezes contentado, as vezes deprimido. Sei que isso é a mente; os Vedas dizem que a mente é nascida da Lua e por isso ela muda.
M: Faça-me o favor de antes de vir aqui, deixar sua mente de lado. Bom e ruim estão no reino da mente apenas. Renegue o que quer que você recebe da mente.
Q: Quem é que me fala pra vir aqui e ficar a seus pés?
M: Isso não pode ser dito em palavras, você pode chamar isso de qualquer coisa que quiser. Lua significa mente, a mente é como uma coisa líquida, pois ela flui continuamente. Apenas inocentemente, sem se envolver, observe o fluxo da mente; não tome posse do fluxo da mente. Fique no estado do sentido de “eu sou” (I'amness”) sem palavras. Você atribui sentido às palavras e no final as palavras se vão; no fim o que é perceptível e observável passa para o estado não-perceptível e não-observável. Descubra isso. Você irá entender isso devagar e irá ter paz e descanso. Você não faz nada. Isso acontece. Você fala sobre conhecimento, esse conhecimento é o que você tem lido e escutado dos outros. A menos que você tenha confiança em seu próprio Ser você tem que se apoiar na autoridade dos outros, mas eu lhe falo do meu estado real; conforme experimento isso, conforme vejo isso, eu falo, sem citar a autoridade do Gita ou do Mahabharata. Quando você fala do Gita você deve saber que ele se refere a você, cada palavra dele refere-se ao seu próprio Ser.

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Maharaj: Apenas seja como você é, não imagine ou crie imagens. Seu corpo e sua imagem mudam continuamente durante sua vida toda e nenhuma dessas imagens permanece constante.
Daqui vinte e cinco anos seu corpo irá perder essa imagem e irá ter a forma de uma pessoa mais velha; mais tarde essa imagem também irá se esvair. Se essas imagens fossem reais elas teriam permanecido; elas são irreais. O princípio “eu sou” não tem forma, nem cor, nem desenho. Através desses desenhos nós desfrutamos ou sofremos, mas nada é real; qualquer experiência que você tenha não é real. Esteja você gargalhando ou chorando, essa é uma imagem para aquele momento apenas – no próximo ela estará mudando. Algumas pessoas são muito boas em chorar, lamentar, reclamar, apenas por aquele momento.
Enquanto o corpo estiver aí este show passageiro estará aí, continuamente mudando e finalmente, essa própria consciência através da qual você vê o mundo irá embora. Os dias estão contados para esse corpo e essa consciência.
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Maharaj (no fim de sua vida): O material do qual o corpo é constituído está ficando gasto e fraco, e juntamente com ele, esse conhecimento também está ficando mais fraco. O sentido de presença ainda está comigo porque esse material do qual o corpo é feito ainda tem alguma força. Quando essa pequena força acabar, então a consciência também desaparecerá, então não haverá sentido de presença – mas eu certamente vou ser – sem esse sentido de presença.
Cada um de vocês está tentando se proteger. O que é isso que você está tentando proteger? Não importa o quanto você proteja, quanto tempo irá durar? Vá na raiz e descubra o que é isso que você está tentando proteger e preservar, e quanto tempo isso irá durar.
O único caminho espiritual para compreender sua verdadeira natureza é encontrar a raiz desse conceito “eu sou”. Antes do senso de presença ter chegado eu estava naquele estado no qual o conceito de tempo nunca existiu. Então, o que nasce? É o conceito de tempo e aquele evento que é o nascimento, a vida e a morte juntos constituindo nada além do que o tempo, do que a duração.
Uma vez que você entender isso, tudo se tornará claro; antes de entender isso, nada estará claro. Não é simples e fácil?
Q: As palavras são simples, mas compreender o que essas palavras significam será difícil.
M: O que é isso em cuja ausência você não estaria apto a entender nem mesmo essas palavras? Vá na raiz dessa fonte.
Para compreender o que eu lhe disse esta manhã, o intelecto é totalmente impotente. Deve haver uma compreensão intuitiva disso.
O conhecimento que estou expondo irá dissolver sua identidade como uma personalidade e irá transformar-lo no conhecimento manifesto. O conhecimento manifesto, a consciência, é livre e incondicionada. Não é possível nem capturar nem abandonar esse conhecimento porque você é esse conhecimento, mais sutil do que o espaço.
Este conhecimento de que você é o manifesto, deve ser aberto através da meditação; você não o consegue escutando palavras.
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Não é esta consciência anterior a qualquer outra experiência? Não existe algo sob o qual esta consciência surgiu? Este estado desperto, sono profundo e o sentido de presença, quem é que tem essas experiências senão Aquilo que era anterior à essas experiências?
Isto que está falando com vocês é este estado que é limitado pelo tempo, que surgiu temporariamente sobre meu estado original. Portanto, você e eu não podemos ter senso de medo; é apenas este estado mutável que se identificou com o corpo que tem medo.
O medo da morte é a penalidade por aceitar a identidade do corpo como uma entidade separada no funcionamento total. É apenas o nascimento que teme a morte.
Presença e ausência são dualidades inter-relacionadas, isso foi entendido apenas depois que o sentido de presença surgiu, anteriormente não havia sentido nem de ausência nem de presença.
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Entenda que não é o indivíduo que tem consciência, é a consciência que assume inumeráveis formas. Aquele algo que nasce ou que irá morrer é puramente imaginário. É o filho de uma mulher estéril.
Na ausência do conceito básico “eu sou” não há pensamento, não há consciência.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ramesh S. Balsekar - A única verdade que não é um conceito é o sentido de presença, aqui e agora.

Pergunta: Eu acho você um personagem muito interessante. De fato, há muitos personagens interessantes nesta sala. Por que é que eu acho algumas pessoas mais interessantes do que as outras?
Ramesh: Basicamente, cada individuo é realmente um padrão individual de energia em vibração. Quando você encontra dois organismos onde os padrões são harmoniosos, você diz, “eu gosto dessa pessoa”.
Então, o padrão individual de energia em vibração responde. É possível então, que quando eu estou falando, a energia que transpira, atraia certos padrões individuais. Indo um passo adiante: é por isso que estes padrões individuais foram aqui reunidos para este propósito. É tudo parte do funcionamento da manifestação. Quando você vai ao potencial do Vácuo (Vazio), tudo isso é sem sentido: limitações, iluminação, conhecimento, tudo isso é baboseira! Você não precisa disso. Você apenas vê o funcionamento impessoal da manifestação que simultaneamente, espontaneamente surgiu do não-manifesto. A totalidade de todas as coisas veio do Nada. Certo, isso está entendido. Isso é tudo que precisa ser entendido, mesmo fenomenalmente. O resto é totalmente desnecessário. Mas como você descende, o individuo pensa que ele é um individuo e então mais palavras são necessárias.
Pergunta: Tudo que você está falando a respeito, não é um conceito?
Ramesh: É claro! A única verdade que não é um conceito é o sentido de presença, aqui e agora. O sentido de presença impessoal, “Eu sou”, e não o “eu sou Joe ou Jane”. Este sentido impessoal de presença no momento presente é a única verdade.
Pergunta: Seja a abordagem de Ramana Maharshi ou a do Nisargadatta Maharaj ou a sua, são um conceito?
Ramesh: Ó sim, mas ambos deixaram perfeitamente claro: nada foi criado, nada foi destruído. É tudo um sonho, e não há individuo além de uma aparência na consciência.
Pergunta: O despertar leva à consciência que persiste vinte e quatro horas por dia?
Ramesh: Sim, mas não há ninguém para estar consciente daquela ciência. Essa é a chave para a coisa toda. Não há individuo, nenhum ego para estar ciente daquela ciência. A ciência apenas está lá!
Pergunta:Mas, Ramesh, se tudo é dissolvido, como podemos nos render!?
Ramesh: Esse é o ponto; tudo se dissolve. Não há nenhum “alguém” para render-se, nem “alguém” para compreender. A rendição acontece. A compreensão acontece sem que nenhum individuo compreenda ou renda-se. E essa é a transformação; o desaparecimento do “eu”, da “pessoa”, do “quem”.
Pergunta: Então não há nenhum medo da rendição, nenhum sacrifício.
Ramesh: Exatamente! Enquanto há alguém para sacrificar, não é sacrifício. Pegue a humildade. Você diz, “Eu sou humilde. Eu não sou orgulhoso”. As pessoas mais orgulhosas fazem atos de humildade. A real humildade significa a ausência daquilo que pode sentir-se humilde ou orgulhoso. Isso é humildade verdadeira. Isso é compaixão verdadeira, quando não há ninguém que sinta, “eu estou sendo compassivo”. Existe amor quando não há ninguém para dizer, “eu amo”. Compaixão, amor, humildade, esses são vários nomes para aquele estado do aqui e agora, sem o “eu”.
Pergunta: Se todo esse mundo de pessoas e tudo se dissolvesse, o que a consciência seria?
Ramesh: Tudo o que permanece é a Consciência. A manifestação não estaria lá. A aparência não estaria lá.
Pergunta: O que haveria?
Ramesh: Aquilo que Sempre esteve: a plataforma divina, a consciência, a Totalidade, o verdadeiro sujeito uno, o Nada potencial, Deus, qualquer nome que você dê a isso.
Pergunta: Eu sei, mas com o que isso se parece?
Ramesh: Não se parece com nenhuma coisa, pois isso não é uma coisa.
Pergunta: Aceitar a vida como o funcionamento impessoal da totalidade é um retorno à devoção?
Ramesh: Sim, do ponto de vista devocional, é pura devoção. Do ponto de vista do conhecimento, é o retorno à impessoalidade.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Siddharameshwar Maharaj - A Ciência Espiritual do Auto-Conhecimento (6 de novembro de 1935)

A palavra Jiva é a combinação de duas palavras - “Ja” somada com “Iva”, que significa que ele é como se tivesse nascido, mas na verdade não nasceu. O sinal de Paramatma é que Ele nem nasce e nem morre. A experiência de que Paramatma é sem nascimento e sem morte deveria ser sentida de fato. A palavra “Akasha” significa vácuo ou espaço vazio. O espaço vazio está em um pote, numa casa e na consciência. Mesmo que o pote seja quebrado, ou que a casa desabe, o céu, ou o espaço que está contido dentro deles, não é afetado. Similarmente ao céu (Akasha), o Ser (self) também não vai nem vem a lugar nenhum. O Ser é anterior a todos os atributos, assim, ele não tem idas nem vindas. Antes que houvesse mesmo o céu ou a água, naquele tempo, o Ser supremo, Atmaram, estava lá.
Você conta o tempo, os anos, através do sol nascendo e se pondo, mas naquele tempo não havia o sol, não havia a terra. Atmaram é assim tão antigo, ele estava lá antes que qualquer elemento viesse à existência. Dias e anos são todos fictícios. Mesmo que grandes poderes espirituais ou milagres se tornem evidentes, eles são todos um sonho. Este mundo não é real mesmo que por um momento, mas ele parece como se tivesse milhões de anos de idade. Tudo isso é falso. Pense em quinze minutos de um sonho. Ali você pode experimentar centenas de nascimentos e mortes. Escute - A glória é saber que todas as aparências são ilusórias, todas são falsas e não há nem idas e nem vindas e Aquele que é esta Glória, é Paramatma.

Você próprio é Paramatma. Sua “Verdadeira natureza” é esta. Você não tem nascimento, nem morte, nem idas e nem vindas. O que tem forma não é o que você é. “Nirguna” significa não ter qualidades. A palavra “Ananta” significa “aquilo que nunca termina”. Paramatma está eternamente existindo, sem pausa. Aquele que sabe que somos assim em qualquer lugar ou tempo, é Paramatma. Quando conhecemos as verdadeiras qualidades de Paramatma, temos essas qualidades em nós mesmos. Elas estão embebidas nele e devem assim estar embebidas. Uma vez que Paramatma permeia tudo, Ele é chamado de “todo-permeador”, ou Vyapak. Em todas as variadas coisas, só há Uma que existe, assim como em todos os ornamentos, há apenas ouro. Todos os muitos nomes são usados para facilitar a aquisição da compreensão, mas Paramatma é além de descrição. Essas qualidades atribuídas a Ele são apenas suas propriedades. Tudo dessa aparência do mundo são as riquezas de Paramatma. São seu estado real. Aquele que é adornado por essas qualidades é Paramatma.

Através da devoção o estado Dele é alcançado. Os nove tipos de devoção, ou a devoção nônupla (Navavidha Bhakti), é a devoção através da qual muitos se tornaram purificados. Dentre esses nove tipos de devoção, a nona, é a “auto-rendição”, que é chamada Atma-Nivedana. Nós devemos meditar sobre esse nono tipo de devoção através de nossa própria experiência interior. Esse é chamado de o “estado de poder”, o estado de ser “a Testemunha”, o estado de “Chaitanya”. Deveríamos examinar nossa própria experiência a partir disso.
Temos que oferecer nossa cabeça (prostrando-nos) a Deus ou ao Guru após completarmos nossa adoração. Isso significa que temos que abandonar nosso apego com todas as posses. Dentre os devotos, existem muito poucos que meditam sobre a natureza do Ser e pensam sobre o que o seu Ser real é. Existem muito poucos que questionam, “O que sou eu?” A natureza dessa forma de devoção, é que deveríamos observar quem nós somos. Quando é sabido que não somos ninguém, então quem é? Alguém É! Aquele alguém é Paramatma. Sem imperfeições e sem qualidades é aquele Ser supremo. Ele é todos os objetos, todas as qualidades, o ego, todas as coisas. Apenas “você” não está lá. Tudo é Paramatma mas quando você se torna um insignificante pequeno ego, você é um indivíduo, o Jiva. Preocupações e pesares são seu destino na vida, e você se torna impotente. Por causa da aceitação do estado de Jiva, você se torna um prisioneiro. Com a dissolução do estado de Jiva, o que permanece é Shiva.

Todos os servos do “Grande Ser” também são grandiosos. Vishnu é Sua mente. O sol e a lua são Seus olhos. Shiva é seu ego. Brahmadev é seu intelecto. A terra é Sua pele e Seus cabelos. Tudo isto é “o Glorioso Poder do Senhor”. Nele, nada é insignificante. Quando o sentido de ser um Jiva se vai, apenas Shiva permanece, e Ele é Paramatma. Nesse momento, todos os órgãos sensoriais são elevados àquela Glória, e recebem nomes de várias deidades. Quando a casa é possuída pelo “Proprietário”, naturalmente as portas e janelas também são de posse Dele.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Upasni Maharaj - Três lições

Eu estou todo nu, por dentro e por fora. A única coisa que temo neste mundo é um ser humano. As aves, as bestas, os animais selvagens, até mesmo as serpentes não me incomodam ou me assustam. Um ser humano está sempre cheio de falsidades e pecados. É por isso que os Yogis sempre os evitam.
Há muitos sinais através dos quais um Jiva pecaminoso pode ser conhecido. O mais proeminente desses sinais, é que eles sempre incomodam os outros desnecessariamente, fazendo-os sofrer e sofrendo eles também. Eles são cheios de Abmana - orgulho, tolices, inveja etc. Se uma pessoa coloca em prática essa primeira lição, de nunca incomodar ninguém, então aqui há uma próxima lição para ela: devemos ser sempre úteis aos outros mesmo que isso acarrete sofrimento. A terceira lição é sempre permanecer em contentamento, viver num estado de “seja como tiver de ser”.
Uma pessoa que digere essas três lições torna-se famosa dentro e fora do mundo, torna-se qualificada a todos os tipos de prazeres e felicidades. Vale a pena lembrar que incomodar os outros mesmo que um pouquinho é como bater no seu Deus favorito. E você adquire o pecado de bater ou matar. Aqui está uma máxima muito importante: Não matar é o mais grandioso mandamento de todas as religiões.
Incomodar alguém é tornar-se predisposto a pecar, é por isso que essas regras foram postuladas: não incomodar ninguém nem mesmo no mínimo modo, sofrer por e ser útil aos outros e permanecer contente num estado de “seja como tiver de ser”, devem ser observadas sinceramente. Observar essas regras é levar uma vida digna de ser vivida.