quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Philokalia - São Maximos, o Confessor - Da ilusão para a Verdade

Deus, que criou toda a natureza com sabedoria e que plantou secretamente em cada ser inteligente o conhecimento de Si mesmo como seu primeiro poder, como um generoso Senhor deu a nós homens um desejo natural e um anseio por Ele, combinando-o de uma maneira natural com o poder de nossa inteligência. Usando nossa inteligência, lutamos para aprender com tranquilidade e sem nos desviarmos, a como atender esse desejo natural. Impelidos por isso somos levados a buscar a verdade, a sabedoria e a ordem manifestas harmoniosamente em toda a criação, aspirando atingir através delas Aquele de quem recebemos (através da graça) esse desejo.
O mundo é um lugar finito e possui uma estabilidade limitada. O tempo é um movimento circunscrito. E segue-se que o movimento das coisas vivas dentro do tempo está sujeito a mudanças. Quando a natureza vai além do tempo e do espaço de maneira interna e ativa - ou seja, quando ela vai além daquelas coisas que sempre acompanham os seres criados, como, por exemplo, um estado de estabilidade limitada e de movimento limitado – ela se une diretamente à Providência e encontra na Providência um princípio que por natureza é simples, estável, sem limitações e, portanto, completamente sem movimento.
Uma vez que a natureza existe no mundo de um modo temporal, seu movimento está sujeito à mudança por causa da estabilidade limitada do mundo e de seu compromisso com a alteração e a corrupção através da passagem do tempo. Quando a natureza vem a existir em Deus através de sua unidade essencial com Aquele no qual ela foi criada, ela passa a possuir uma estabilidade provida sempre de mobilidade e de uma forma de movimento estável e imutável gerado eternamente ao redor daquilo que é um, único e sempre o mesmo.
Nosso Senhor é verdadeiramente uma luz para os gentis (ref. Isa. 49-6) – através do verdadeiro conhecimento Ele abre os olhos de suas mentes, fechados por terem estado na escuridão da ignorância. Ademais, através de Sua conduta divina Ele tornou-se um nobre exemplo de virtude aos fiéis, tornando-se um modelo e padrão. Olhando para Ele como o autor de nossa salvação, nós atingimos as virtudes ao O imitarmos em nossa conduta, na medida em que for possível para nós.
Nosso intelecto possui o poder de apreensão através do qual ele percebe as realidades inteligíveis; ele também possui a capacidade para a união que transcende sua natureza e que o une com aquilo que está além de seu escopo natural. É através dessa união que as realidades divinas são apreendidas, não por meio de nossas capacidades naturais, mas em virtude do fato de que transcendemos completamente a nós mesmos e pertencemos inteiramente a Deus. É melhor pertencer a Deus do que a nós mesmos, pois é sobre aqueles que pertencem a Deus que os dons divinos são outorgados.
Assim como a ignorância divide aqueles que estão iludidos, a presença da luz espiritual une e aproxima aqueles a quem ela ilumina. Ela torna-os perfeitos e trazem-nos de volta para aquilo que realmente existe; converte-os de uma multiplicidade de opiniões unindo seus pontos de vista variados, ou melhor, suas fantasias, em um conhecimento espiritual puro, simples e verdadeiro preenchendo-os com uma luz unificadora.
O conhecimento espiritual une o conhecedor com o conhecido, enquanto a ignorância é sempre uma causa de mudança e auto divisão no ignorante. Portanto, nada, de acordo com as escrituras, mudará aquele que crê a partir do alicerce de sua fé verdadeira, onde reside a permanência de sua identidade imutável e inalterável. Pois aquele que foi unido com a verdade tem a segurança de que tudo está bem consigo, mesmo que a maioria das pessoas repreendem-no por estar fora de si. Pois sem que notem ele moveu-se da ilusão para a verdade da fé real e ele sabe com certeza que não corre nenhum risco, tal como dizem as pessoas, mas que através da verdade – simples e imutavelmente a mesma – ele foi libertado das agitações flutuantes e volúveis das múltiplas formas da ilusão.
A função da filosofia prática é purificar o intelecto de todas as fantasias veementes. A função da contemplação natural é a de iniciar o intelecto no conhecimento verdadeiro que é encontrado nas coisas criadas de acordo com o qual elas possuem existência. A função da teologia mística  é de através da graça tornar o intelecto semelhante a Deus e igual a Ele, na medida do possível, de modo que ele fique totalmente alheio a qualquer coisa além de Deus devido a seu estado transcendente.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Santo Isac, o Sirio - O Pão Celestial


Ofereço louvor à sua natureza sagrada, Senhor, pois Você fez minha natureza um santuário para seu ocultamento e um tabernáculo para seus santos mistérios, um lugar onde Você pode habitar e um templo sagrado para Sua divindade.
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Bendito seja Deus que usa continuamente objetos corpóreos para atrair-nos de uma maneira simbólica para perto de um conhecimento de natureza invisível de Deus. Ó nome de Jesus, a chave para todos os dons, abra para mim a grande porta para a casa do Tesouro, para que eu possa entrar e louvá-lo com o louvor que vem do coração.
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Entre ansiosamente na casa do tesouro que reside dentro de você e dessa forma você verá a casa do tesouro do céu: pois as duas são a mesma e há apenas uma entrada para ambas. A escada que conduz ao Reino está oculta dentro de você e é encontrada na sua própria alma. Mergulhe dentro de você mesmo e na sua própria alma você descobrirá os degraus pelos quais ascender.
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O que é um coração compassivo? É um coração em chamas por toda a criação, pela humanidade, pelos pássaros, animais, pelos demônios e tudo o que existe. Pela lembrança deles os olhos de uma pessoa misericordiosa derrama lágrimas em abundância. Pela misericórdia forte e veemente que aperta o coração de tal pessoa e por tal grande compaixão, o coração é tornado humilde e a pessoa não pode suportar ouvir ou ver qualquer injúria ou dor, por menor que seja, na criação. Por essa razão, tal pessoa oferece continuamente uma chorosa oração, mesmo para as bestas irracionais, os inimigos da verdade e para aqueles que prejudicam-na, para que eles sejam protegidos e recebam misericórdia. E da mesma forma, tal pessoa reza para a família dos répteis por causa da grande compaixão que queima sem medida em um coração que é a semelhança de Deus.
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Quando encontramos o amor, compartilhamos do pão celestial e somos fortalecidos sem trabalho e labuta. O pão celestial é Cristo, que desceu do céu e deu vida ao mundo. Esse é o alimento dos anjos. A pessoa que encontrou o amor come e bebe Cristo a cada dia e a cada hora e é assim tornada imortal.
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Quando ouvimos Jesus dizer: "Deveis comer e beber na mesa de meu Reino", o que iremos supor que devemos comer se não amor? O Amor, em vez de comida e bebida, é suficiente para alimentar uma pessoa. Esse é o vinho "que faz feliz o coração." Bem-aventurado é aquele que partilha desse vinho! Pessoas licenciosas beberam esse vinho e tornaram-se castas; os pecadores beberam e esqueceram os caminhos do erro; bêbados beberam esse vinho e se tornaram jejuadores; os ricos beberam-no e desejaram a pobreza, os pobres beberam-no e foram enriquecidos com esperança; os doentes beberam-no e tornaram-se fortes; os incultos tomaram-no e tornaram-se sábios
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No amor Deus trouxe o mundo à existência; no amor Deus irá trazê-lo para aquele maravilhoso estado transformado e no amor o mundo será engolido no grande mistério Daquele que criou todas essas coisas; no amor todo o curso da governança da criação será por fim envolto.
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A pessoa que vive no amor colhe os frutos da vida de Deus e enquanto ainda neste mundo, mesmo agora respira o ar da Ressurreição. 
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O paraíso é o amor de Deus, aonde está o desfrute de todas as Bênçãos.

domingo, 2 de setembro de 2012

G. I. Gurdjieff - Fontainebleau, 24 de maio de 1923

Existem dois tipos de amor. Um é o amor de um escravo, o outro é o que precisa ser adquirido através do trabalho. O primeiro não tem valor de maneira alguma, apenas o segundo tem valor, isto é, o amor adquirido através do trabalho. Esse é amor do qual a religião fala a respeito. Se você ama quando “isso”* ama, isso não depende de você e não tem mérito algum. É o que chamamos de amor escravo. Você ama mesmo onde você não deveria amar. As circunstâncias fazem-no amar mecanicamente.
O amor real é Cristão, o amor religioso – ninguém nasce com esse amor, a pessoa deve ser treinada especialmente nele. Alguns são treinados desde a infância, outros mais velhos. Se alguém possui esse amor, significa que ele o adquiriu durante sua vida. Mas é muito difícil aprender esse amor. E é impossível começar a aprendê-lo de maneira direta, nas pessoas. Cada homem toca o outro no ponto fraco, o atrapalha, da pouca chance a ele de exercitar.
O amor pode ser de tipos diferentes. Para entender que tipo de amor estamos falando a respeito e necessário definí-lo. Agora falamos do amor da “vida”. Em toda parte há vida, começando com as plantas (pois elas também têm vida) e os animais – em suma, onde quer que exista vida há amor. Toda a vida é uma representação de Deus. Aquele que vê a representação verá Aquele que é representado. Toda vida tem amor e é sensível ao amor. Até mesmo as coisas inanimadas tais como as flores, que não tem consciência, entendem se você as ama ou não. Até mesmo a vida inconsciente reage de uma maneira correspondente a cada homem e reage a ele de acordo com suas reações.
De acordo com como você planta, você irá colher e não apenas no sentido de que se você planta trigo você colherá trigo. A questão é COMO você planta. Mesmo de maneira literal isso é um fato, por exemplo, com a relva. Suponha que pessoas diferentes plantem as mesmas sementes no mesmo solo – os resultados serão diferentes. Mas essas são apenas sementes o homem, inconscientemente, é muito mais sensível ao que é plantado em si. Os animais também são muito sensíveis, embora menos do que o homem. Por exemplo, a pessoa X é designada para cuidar de alguns animais. Muitos ficam doentes e morrem, as galinhas botam menos ovos, etc. Até mesmo uma vaca irá dar mais leite se você amá-la. A diferença é realmente surpreendente.
O homem é mais sensível do que uma vaca, porém inconscientemente. E é assim se você sente simpatia ou antipatia, ou se você odeia outra pessoa, é apenas porque essa outra pessoa igualmente planta algo ruim contra você. Aquele que deseja aprender a amar o próximo deve começar praticando o amor em relação às plantas e aos animais. Começa logo de primeira tentando amar um homem é impossível, porque o outro homem é igual a você e ele vai repulsar o seu esforço. Mas um animal irá pacata e silenciosamente se resignar, portanto é mais fácil começar a praticar nos animais. Aquele que não ama a vida não ama a Deus.
É muito importante para um homem que trabalha sobre si mesmo entender que nenhuma mudança pode ser esperada nele até que ele mude sua atitude para com o mundo externo. Em geral, você não sabe o que deve ser amado o que não deve ser amado. Embora existam coisas objetivas que devemos amar ou que devemos não amar. Portanto, é mais produtivo e prático esquecer a respeito de bom e ruim e começar a agir apenas quando você tiver aprendido a escolher por você mesmo.
Se você quer trabalhar sobre si mesmo, você deve adquirir mais e mais atitudes variadas. Exceto em coisas grandes e que claramente são inegavelmente ruins, você deve treinar-se, por exemplo, se você gosta de rosas, tente não gostar delas, se você não gosta tente gostar. É melhor começar com o mundo das plantas. Tente a partir de amanhã com as plantas, tente olhar para elas de uma maneira que você não tenha feito ainda. Cada pessoa é atraída por certas plantas e repelida por outras. Vocês não tinham notado isso até então. Primeiramente, você deve tentar olhar bem para a planta, depois tentar analisar e entender o porquê dessa atração ou aversão está ali. Tenho certeza que ninguém percebe ou sente isso. A mente não vê um processo que é genuinamente subconsciente. Se você começar a olhar conscientemente, você verá muitas coisas e descobrirá muitas Américas. As plantas têm as mesmas relações mútuas que existem entre os homens e certas relações existem também entre as plantas e os homens, que mudam de tempos em tempos. Toda a vida está conectada. Por vida quero dizer tudo que vive, todas as coisas dependem umas das outras.
As plantas afetam os humores de um homem e o os humores de um homem afetam o humor das plantas. Enquanto vivermos devemos fazer experimentos. Até mesmo flores vivas num vaso irão morrer por causa de um humor artificial.         

 
*Referência à maquina (termo utilizado por Gurdjieff para se referir ao organismo físico)

sábado, 30 de junho de 2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Meher Baba - Trechos do livro "The Everything and the Nothing"


            O amante e o Amado

Deus é amor. E o amor deve amar. E para se amar deve haver um amado. Mas como Deus é Existência infinita e eterna, não há ninguém para Ele amar além Dele mesmo. E para poder amar a Si mesmo ele deve imaginar-se como o amado a quem Ele como o amante imagina amar. A relação amado e amante implica separação. E a separação cria anseio e o anseio resulta em procura. E quanto mais ampla e intensa é a procura maior será a separação e mais terrível será o anseio. Quando o anseio é o mais intenso a separação está completa e a finalidade da separação, que tinha a finalidade de permitir que o amor pudesse experimentar a si mesmo como o amante e o amado, é cumprida; e a União é o que resulta. E quando a União é atingida, o Amante vem a saber que o tempo todo ele próprio era o Amado a quem ele amou e com quem desejou a União e que todas as situações impossíveis que Ele superou eram obstáculos que Ele mesmo colocou no caminho para Si mesmo.  Atingir a União é tão incrivelmente difícil porque é impossível tornar-se o que você já é! A união não é nada além do conhecimento de si mesmo como o Sujeito Único. 

O vinho e o Amor 

Os poetas-mestres Sufi frequentemente comparam o amor com o vinho. O vinho é a figura mais apropriada para o amor porque ambos intoxicam. Mas enquanto o vinho causa o auto-esquecimento, o amor leva à auto-realização (A realização do Ser).  O comportamento do bêbado e do amante são semelhantes; ambos ignoram os padrões de conduta do mundo e são indiferentes à opinião do mundo. Mas há mundos de diferença entre o curso e o objetivo dos dois: um leva à escuridão subterrânea e à negação; o outro dá asas à alma para seu vôo para a liberdade. A embriaguez do bêbado começa com um copo de vinho que exalta seu espírito e afrouxa suas afeições e dá-lhe uma nova visão da vida que promete um esquecimento de suas preocupações diárias. Ele passa de um copo para dois copos, para uma garrafa; do companheirismo para o isolamento, do esquecimento ao oblívio — esquecimento, que, na realidade, é o estado Original de Deus, mas que, com o bêbado, é um estupor vazio — e ele dorme em uma cama ou uma sarjeta. E ele desperta em um amanhecer de futilidade, um objeto de repulsa e ridículo para o mundo. A embriaguez do amante começa com uma gota do amor de Deus que lhe faz esquecer o mundo. Quanto mais bebe mais perto ele se aproxima de seu Amado e mais indigno do amor do Amado ele se sente. E ele anseia sacrificar sua própria vida aos pés de seu Amado. Ele também não se importa se dorme em uma cama ou em uma sarjeta e torna-se um objeto de ridículo para o mundo; mas ele repousa em êxtase e Deus, o Amado, cuida do seu corpo fazendo com que nem os elementos e nem doença alguma possam tocá-lo. Um dentre os muitos amantes desse tipo vê Deus face a face. Então, seu anseio torna-se infinito. Ele é como um peixe jogado na praia, pulando e se contorcendo para recuperar o oceano. Ele vê Deus em toda parte e em tudo, mas não pode encontrar o portão da União. O Vinho que ele bebe transforma-se em fogo no qual ele queima continuamente numa bem-aventurada agonia. E o fogo torna-se eventualmente o Oceano da Consciência Infinita, no qual ele se afoga. 

Deus tem vergonha de estranhos 

Deus existe. Se você está convencido da existência de Deus, então cabe a você procurá-Lo, vê-Lo e perceber-Lo.  Não procure por Deus fora de você. Deus só pode ser encontrado dentro de você, pois sua única morada é o coração.  Mas você tem enchido Sua morada com milhões de estranhos e Ele não pode entrar, pois ele é tímido com estranhos. A menos que você esvazie sua morada desses milhões de estranhos com os quais você preencheu-a, você nunca irá encontrar Deus. Esses estranhos são seus velhos anseios — seus milhões de desejos. Eles são estranhos a Deus porque os desejos são uma expressão de incompletude e são fundamentalmente estranhos Àquele que é todo-suficiente e que não deseja nada. A honestidade em suas relações com os outros irá limpar os estranhos para fora de seu coração.  Então você vai encontrá-Lo, vê-Lo e perceber-Lo. 

Eu sou a Infinita Consciência 

Acredite que eu sou o Antigo. Não duvide disso nem por um momento. Não há nenhuma possibilidade de eu ser alguém mais. Eu não sou este corpo que você vê. É só um casaco que coloco quando venho visitá-los. Eu sou a Consciência Infinita. Eu sento com vocês, brinco e riu com vocês, mas estou trabalhando simultaneamente em todos os planos de existência.  Perante a mim estão os santos e os mestres e santos perfeitos das fases iniciais do caminho espiritual. Eles são formas diferentes de mim. Eu sou a Raiz de cada um e de cada coisa. Um número infinito de ramos brotam de mim. Trabalho através de cada um e sofro em cada um de vocês e para cada um de vocês. Minha felicidade e meu infinito senso de humor sustentam-me em meu sofrimento. Os incidentes divertidos que acontecem aliviam meu fardo. Pense em mim; mantenha-se alegre em todos os seus desafios e eu estarei com você ajudando-lhe.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Daniel Ladinsky - Sobre Meher Baba e sobre seu trabalho com a poesia de Hafiz

Santuário do túmulo de Meher Baba

Era minha segunda viagem à Índia, o ano era 1978. Eu tinha conseguido ficar em uma pequena hospedaria privada na propriedade de um advogado americano. Sou uma pessoa muito reservada e com o passar do tempo tornei-me quase recluso, às vezes inacessível. E descobri que esta casa de hóspedes onde eu iria ficar não estaria disponível até o dia seguinte, mas foi-me oferecido uma cama portátil para dormir no corredor da casa principal onde havia muito ruído e movimento; as pessoas literalmente passavam por minha cama. Essa cama e o fato de eu estar exposto ao público, era tão oposta à minha natureza que eu não poderia resistir por uma noite; mas eu pensei, é só por uma noite. Então algo extraordinário aconteceu de manhã cedo, muito extraordinário: aproximadamente três da manhã acordei; Eu estava sentado na cama, não estava sonhando – e o telhado da casa não estava lá. Ao longe eu podia ver uma estrela extremamente bonita, ela parecia estar apenas a umas duas milhas de distância e, portanto, parecia muito grande. Fiquei fascinado pelo esplendor daquela esfera luminosa, encantado; quem não ficaria sob as circunstâncias descritas. Meu fascínio de repente aumentou muito quando esta estrela começou a vir em minha direção. A certa altura ela parecia estar algumas centenas de metros de distância, e minha experiência então foi: que mesmo se um ateu testemunhasse o que eu estava vendo ali, sem dúvida alguma ele também iria dizer, eu estou olhando para Deus. Esta experiência começou a se tornar tão avassaladora que eu comecei a sentir--esta luz Imaculada jamais irá me abandonar, ela não pode deixar-me. Pensei que iria desfalecer olhando para ela; pois não sei como tal verdade pode nem sempre ser visível para mim agora. Em seguida, o impossível começou a acontecer, pelo menos foi o que senti--"Deus" começou a retroceder de sua "proximidade" a mim. Aquele "Sol" começou a mover-se para trás. Mas então ele parou. E, em seguida, uma consciência diferente entrou naquela cena. Agora eu via aquela luz acima de um túmulo. Um santuário tinha vindo visitar-me e vendo aquele resplendor em algum tipo de relação com uma forma deu-me algum equilíbrio. Mas então, novamente o impossível foi encenado: Aquela Luz que eu pensava ser realmente incapaz de ter qualquer tipo de identidade pessoal, "nome", ou até mesmo forma além de sua Resplandescência magnificamente soberana, desceu então sobre esse túmulo que eu tinha vindo visitar. E esta coisa/ser divino que eu estava chamado de Deus assumiu um nome e tomou uma forma. E essa forma e nome era - Meher Baba.
Tenho investigado esse assunto de Deus - e de Meher Baba - há mais de 40 anos. Eu sei quem ele diz que ele é: o Cristo, o Buda, o profeta vindo novamente. Quão objetivo eu poderia ser sobre tudo isso depois de passar seis anos vivendo na Índia. Provavelmente não muito. E eu tendo muito a não descrer que um dia a história confirmará a alegação de Meher Baba. Eu não me mudei, aliás, da casa de hóspedes no dia seguinte; fiquei naquela cama quase três meses após essa experiência. Eu só pensava que eu tinha que honrar um acontecimento tão profundo, se eu realmente acreditasse nele, como de fato acreditava e acredito.Se há um Deus, um Deus real com infinito poder, então é possível para Deus fazer qualquer coisa, qualquer coisa. Deus poderia, portanto, descer em um corpo humano e viver entre nós. Por Suas próprias "razões", Deus talvez só quer polir nossa pista de dança a cada poucos séculos e ajudar-nos a rir e amar mais. Para mim foi o que aconteceu com Jesus e Buda e Maomé, Krishna, Rama e Zoroastro; eles apenas - basicamente - mostraram-se um dia estar entre nós, para serem nossos companheiros e amigos e para revelar-nos nosso próprio potencial e destino sagrados. E naturalmente eles foram sucesso gigante, ou, pelo menos agora são.
O que, de fato, sabemos realmente sobre qualquer coisa afinal? Temos cérebros de amendoins. Todo mundo está realmente apenas adivinhando, especialmente sobre Deus. Quantos olhos refletem algum conhecimento desta terra de maravilhas onde nos movemos. Existência é um nocaute impressionante quando começamos verdadeiramente a ver.
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Sinto que minha relação com Hafiz extrapola toda a razão e é realmente uma tentativa de fazer o impossível: traduzir Luz em palavras – tornar a ressonância luminosa de Deus tangível aos nossos sentidos finitos. Quando havia uns seis meses que estava fazendo este trabalho tive um sonho impressionante no qual  eu via Hafiz como um sol transbordante infinito, que cantava centenas de linhas de sua poesia para mim em inglês, pedindo que eu levasse aquela mensagem aos “meus artistas e buscadores”.

* A grande maioria dos poemas de Hafiz presentes no blog são traduções de Ladinsky

quinta-feira, 31 de maio de 2012

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Hafiz - Cinco Poemas

Todos talentos de Deus estão dentro de você.

Como poderia ser diferente,
uma vez que sua alma
derivou dos genes Dele!

  Eu amo esta expressão:

 “Todos os talentos de Deus estão dentro de você.”

Às vezes Hafiz não consegue fazer nada senão aplaudir
 Certas palavras que surgem de minhas profundezas
como a fragrância do corpo de uma amante.

 Segure este livro perto do seu coração
 pois ele contém segredos maravilhosos.

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Aconteceu a noite passada:

O amor arrebatou a si mesmo;
Borrifou meus cérebros pelo céu.

 Imagino agora por eras
 que algo de Hafiz
 Parecerá cair do céu
como estrelas cadentes

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Às vezes eu digo para um poema:

“Agora não, você não vê que estou tomando banho?”

Mas o poema não me dá ouvidos e ironiza:

“Muito mal Hafiz,
não fique preguiçoso.
Você prometeu para Deus que ajudaria
E Ele acabou de aparecer com essa nova melodia.”

 Às vezes eu digo para um poema:

“Não tenho forças para torcer mais uma gota do Sol.”

 E o poema geralmente responde subindo na mesa da taberna,
levantando sua saia, dando uma piscadela
Fazendo com que o céu todo venha abaixo.
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Resista a sua tentação de mentir
falando da sua separação de Deus,
Senão teremos que medicá-lo.

No oceano acontece muita coisa abaixo de seus olhos.
Ouça, eles têm clínicas lá também
para os loucos que persistem em dizer coisas como:

 “Sou independente do Mar,
Deus não está sempre por aqui
gentilmente se apertando contra meu corpo.”

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Viajante,

Somos como dois copos de água
que Deus despejou em um jarro.

 Sou um com você completamente.

É claro que quaisquer sonhos que você tenha deste mundo
eu também posso dizer que são meus.   

É estranho mas é verdade:
 a “água” pode dormir.

 Quando você despertar, querido,
não fique assustado,
estaremos girando uma corda ao redor de Maomé,
assistindo o sol divertidamente rir e pular
no meio de nossa inacreditável União divina

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Jalaluddin Rumi - Treze Poemas

As palavras, mesmo que venham da alma,
ocultam a alma, como a névoa pairando sobre o oceano
cobre a costa, os peixes, as pérolas.
É um trabalho nobre construir discursos filosóficos coerentes,
mas eles bloqueiam o sol da verdade.
Veja as qualidades de Deus como um oceano
e este mundo como a espuma sobre a pureza delas.
Limpe a superfície e veja além do alfabeto direto para a essência,
assim como você faz com os cabelos
que cobrem os olhos de sua amada.  

Eis o mistério: esse mundo complexo e surpreendente
é a prova da presença de Deus
mesmo estando cobrindo a beleza.
Um floco da parede de uma mina de ouro
não dá muito a ideia de como é quando
o sol brilha lá dentro e torna o ar e os trabalhadores dourados.

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Você é o amanhecer que chega no meio da noite,
fios de cabelo de música preenchendo a flauta,
a compreensão entrando através do ouvido e do olho,
o perfumado vapor do sabonete.
Sinais e instruções específicas articulam-se de você,
ensinando-nos novas maneiras de peregrinar.
Perguntar por que e como já não é mais correto.
Digamos que a alma é como os pés de uma formiga,
ou a água do mar, amarga e salgada,
ou uma cobra que tem também o antídoto
para o seu veneno em seu crânio:
nós rompemos através destas formas enigmáticas
para nos sentar em sua sombra da manhã.
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Este momento maravilhoso, o gosto do nada,
na companhia dos pobres e dos vazios.
Sente-se com Bistami, não com algum adivinho.
Existem mais do que dois feriados no ano!
Nós celebramos um nascimento e um solstício a cada segundo.
Recém-nascidos, precisamos de pão fresco!
A vida cresce dos mortos,
da mesma forma que os vivos são levados para a morte.
Ramos secos para o fogo:
galhos verdes curvam-se no chão com os frutos;
o prazer preenche o seio de uma mãe:
coloque sua boca ali e mame. Você deve.
Fiz muitos discursos elegantes para a assembleia.
Agora é hora de andar lá fora e ficar em silêncio.
Shams me atrai para as palavras, depois dois dias de silêncio.
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O cantor canta sobre o amor,
até que o Amigo aparece na soleira da porta.
A fumaça da cozinha flutua para as nuvens
e se torna um vinho de mil anos.
Estou aqui,
não calculando o crédito acumulado ou com especulações futuras.
Sou a vinha e o barril onde as uvas são esmagadas,
toda a operação cuja transação despeja esta taça de vinho,
este momento, este poema.
Um homem se depara com a bagagem,
papeis da casa, arrependimento e desejo,
não sabendo para qual tender.
Nenhum deles.
Depois que você tiver visto a face, as preocupações mudarão,
assim como a água do lago torna-se bruma.
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O amor está vivo e alguém recebendo seu suporte
está mais vivo do que os leões rugindo
ou que os homens com uma coragem feroz.
Bandidos armam emboscadas uns para os outros na estrada.
Eles conseguem riqueza, mas permanecem em um só lugar.
Os amantes ficam se movendo,
nunca o mesmo, nem por um segundo!
O que faz os outros chorarem eles apreciam!
Quando eles parecem bravos eles não acreditam em suas faces.
É um raio da primavera, uma piada diante da chuva.
Eles mastigam espinhos até o fim juntamente com a grama do pasto.
Gazelas e leões jantando.
O amor é invisível exceto aqui em nós.
Às vezes louvo o amor, às vezes o amor louva a mim.
O amor, uma pequena concha
em algum lugar do fundo do oceano,
abre sua boca. Você e eu e nós, esses seres imaginários,
entram na concha como um único gole de água do mar.
____________
 Você veste uma lã grosseira, mas você é um rei,
assim com a energia da alma se esconde,
 como o amor se lembra.
Você entra nesta sala numa forma humana
e como a atmosfera que respiramos.
Você é o polo central através dos nove níveis
conectando nós e eles a absoluta ausência.
Para que possamos obter o que queremos
você dá falha e frustração.
Você quer apenas a companhia do leão e seu filhote,
não de pernas vacilantes.
Aquele homem ali que você sugere
deve remover sua cabeça antes de entrar no templo.
Então ele poderá ouvir sem ouvidos a voz que diz:
Minha criatura.
A estrada que leva um mês para ser percorrida
você cobre essa distância em um dia.
Não ligue para pagamentos de ouro e prata.
Quando sentir-se generoso, dê a sua cabeça.
Minha beleza, você não precisa de um guia.
Aquele que segue e aquele que lidera são inseparáveis,
assim como a lua e o círculo ao seu redor.
Um árabe arrasta seu camelo de cidade em cidade.
Você segue através de seus problemas e mudanças de crença,
ambos não são diferentes da lua movendo-se
ou do manjericão crescendo e sendo cortado para um buque.
Não importa que você tem estado perdido.
A poupa ainda está lhe procurando.
É um novo começo, meu amigo,
esse acordar numa manhã sem neblina
e a ajuda chegar sem você pedir!
Uma taça submersa está girando dentro do vinho.
Com o pesar mandado para longe chega uma doce gratidão.
____________
Para a ausência o incenso queima perfumado.
O amor que sentimos é a fumaça disso.
 A existência é pintada pela não existência – sua fonte,
o fogo por trás da tela.
A fumaça nascida desse fogo esconde o fogo!
Passe através da fumaça.
A alma, um rio um movimento,
o corpo, o leito do rio.
A alma pode quebrar o círculo do destino e do hábito.
Segure as mãos da ausência
e deixe-a o levar através das Plêiades,
abandonando seco e molhado, quente e frio.
Você se tornará um confidente de Shams de Tabriz.
Você verá claramente a glória do nada
e inexplicavelmente permanecerá ali.
__________
Veja como o desejo mudou em você,
O quão leve e sem cor ele está,
Com o mundo gerando novas maravilhas
Por causa de sua mudança.
Sua alma tornou-se uma abelha invisível.
Não vemo-na trabalhando, mas ali está uma colmeia inteira!
Seu corpo mede por volta de um metro e tanto,
mas sua alma eleva-se pelos nove níveis do céu.
Um barril arrolhado com terra e uma estaca de madeira bruta
Mantém em seu interior o mais velho vinho da vinha.
Quando lhe vejo, não é tanto a forma física,
mas a companhia de dois cavaleiros,
sua devoção de puro fogo e seu amor por aquele que lhe ensina;
em seguida o sol e a lua um passo atrás.
______
Para um dervixe todos os dias são como sexta-feira,
como o início de um feriado,
Um começo de uma viagem que não terá fim.
Vestido na beleza da alma, você é um mês todo de sextas-feiras,
Doce lá fora, doce aqui dentro.
Sua mente e seu ser profundo caminham juntos
como dois amigos caminham para dentro de sua amizade.
As ruínas não permanecem no lugar num riacho que corre rápido.
Deixe os ressentimentos serem lavados no oceano.
O olho de sua alma assiste um ramo verde da primavera mover-se,
enquanto que esses outros olhos amam velhas histórias.

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Siga o conselho de janeiro. Empilhe a lenha.
O tempo ficará frio inevitavelmente
e você fará fogo para permanecer saudável.
Estude a grande metáfora desse trabalho anual.
A lenha é um símbolo para a ausência.
O fogo, para o seu amor por Deus.
Nós queimamos a forma para aquecer a alma.
A alma ama o inverno, por isso ela aceita relutantemente
o conforto da primavera com suas dádivas elegantes e proliferastes.
Tudo é parte do plano: o fogo virando cinzas,
virando o solo do jardim, virando hortelã, salgueiro e tulipa.
O amor se parece com o fogo. Alimente-se nele.
Seja a lareira e a lenha.
Parabéns por essa metalurgia que faz uma agulha de uma barra de metal fundido.
Acalme o fogo agora: para a mariposa uma janela,
para você uma armadura de rosas!
O faraó dissolve como iogurte na água.
Moisés vem para o topo como óleo.
Árabes finos carregam a realeza.
Cavalos, os sacos de esterco seco.
A linguagem é um barulho irritante no moinho do significado.
Um rio silencioso gira a pedra de moer.
As palavras-grão são ruidosamente despejadas na esteira,
pulverizadas sob a pedra como fofoca.
Deixe este poema ser assim moído.
Deixe-me retornar para o fogo do amor
que refina o puro ouro de meu amigo, Shamsuddin.
__________
Vejo minha beleza em você. Torno-me um espelho
que não pode fechar os olhos para o seu anseio.
Meus olhos molhados com os seus na luz do alvorecer.
A cada momento minha mente dá a luz, sempre concebendo,
sempre no nono mês, sempre no ponto. Como aguento isso?
Tornamo-nos estas palavras que dizemos,
o som de um pranto movendo-se no ar.
Estes milhares mundos que surgem de lugar nenhum,
como pode sua face contê-los?
Sou uma mosca no seu mel, então mais perto,
uma mariposa pega na fascinação da chama,
depois um céu vazio estendido em homenagem.
__________
A lua vem visitar como um convidado da noite.
A rosa senta-se ao lado do espinho.
Alguém lavando roupas pede pela misericórdia do sol!
O compasso da perna circula o ponto.
Maomé chega aqui, um estranho,
uma nascente para esta árvore seca.
Hallaj sorri em sua cruz.
A romãzeira floresce. Todos falam sobre as folhagens,
não com palavras mas quietamente
de mesma forma que o próprio verde fala de dentro,
conforme começamos a viver nosso amor.

___________
Estou aqui, neste momento, dentro da beleza,
o presente que Deus deu, nosso amor:
este sinal circular e dourado
significa que estamos livres de qualquer dever:
da eternidade volto minha face para você
e para dentro da eternidade:
temos estado apaixonados todos esse tempo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Bhagavan Ramana Maharshi - História de uma Discípula


Rajapalayam Ramani Ammal: Quando eu era bem jovem, por volta dos dezoito anos de idade, Bhagavan apareceu para mim em um sonho. No sonho Bhagavan caminhava em minha direção, eu podia ver até um Shivalinga no sonho. Antes disso, krishna costumava aparecer nos meus sonhos com frequência, mas dessa vez era uma pessoa que eu nunca tinha visto antes; fiquei cativada por tê-lo visto. A deidade de nossa família era Vishnu e costumávamos oferecer Puja para Vishnu e para Krishna, entretanto ver  o Shivalinga no sonho me deixou intrigada. Naquela época eu não podia entender o sonho. Mas daquele momento em diante minha mente mudou, tendo sido muito covarde desde a infância eu não podia nem mesmo andar até a porta de casa a noite. Mas depois de ter sonhado com o darshan de Bhagavan, o medo que me perseguia abandonou-me.
Foi só aos vinte anos que consegui um livro de Bhagavan. Era o Ramanavydia. Simplesmente ao tocar no livro perdi a consciência do corpo, meu corpo todo ficou dormente e foi com grande dificuldade que consegui voltar e sentar ao lado de minha amiga, percebendo meu estado ela comentou: ‘você não deveria ler todos os tipos de livros. Os membros de sua família ficarão zangados com você, não precisa ler tais livros com tão pouca idade. Ler alguma coisa pode ser bom, mas não passar vinte e quatro horas por dia lendo livros desse tipo’.  Naquela época eu passava o tempo todo lendo livros espirituais como o Bhagavad-Gita, etc.  Eu curiosamente abri o Ramanavydia pela primeira vez e assim que o fiz vi uma foto do jovem Bhagavan, cai no chão com o impacto de ver a foto. Que livro é esse eu pensei. ‘Não leia esse livro, minha amiga avisou-me, acho que esse livro vai mudar a sua vida’. Eu não dei ouvidos a ela e levei o livro para a cama comigo, estava com medo que eu pudesse desmaiar de novo. Então, deitei na cama para ler. Conforme li o livro fiquei tão absorvida, meus olhos ficavam fechando, meu estado foi mudando, ali eu entendi que aquilo que eu estava experimentando era meditação como descrita por Bhagavan.
Naquela época, não era permitido que as mulheres deixassem suas casas, muito menos que saíssem de sua cidade. Entretanto, após ter lido o Ramanavidya senti que antes de morrer eu deveria encontrar Ramana Maharshi, não importando o que acontecesse. O livro me deu essa determinação, porém eu não podia deixar minha casa imediatamente, demoraram dois anos até que tive êxito. Sai de casa ardilosamente com a ajuda de meu irmão. Ele também era uma pessoa espiritual e é um Sadhu hoje. Cheguei à Tiruvanamalai com a ajuda de um servo. Chegando lá, fiquei tomada de culpa por ter fugido de casa e de remorso por ter feito a coisa errada para conseguir coisas boas. Sentia que queria ter nascido em alguma outra família, fiquei muito deprimida. Fui até Bhagavan no Domingo. Na parte de fora do antigo salão, fui até o escritório perguntar sobre Bhagavan e me disseram que ele estava perto do poço. Quando cheguei no poço não consegui ver Bhagavan, mas apenas uma grande chama. ‘Perguntei onde encontrar Bhagavan e eles me mandaram para um local de sacrifícios’, pensei comigo mesma. Conforme permaneci ali Bhagavan apareceu naquele exato local. Na hora pensei que tinha tido aquela ilusão de ter visto o fogo porque eu tinha vindo do sol quente. Foi apenas depois que percebi que Bhagavan tinha me concedido o Shudi Darshana, eu podia sentir seu Purana em meu coração. Bhagavan disse: ‘você chegou em casa, sente-se’. Sentei na frente dele, mas não perguntei nada. Haviam tantas pessoas por lá e eu não estava acostumada com isso. Eu não fazia ideia do que perguntar a ele. Fiquei três dias sentada na frente dele, entretanto, o sentimento de culpa por ter fugido de casa continuava me assolando. Um dia Bhagavan disse: ‘eu fugi de casa também, temia que alguém me capturasse e me levasse de volta para casa, eu fugia como um ladrão, se foi tão difícil para mim, quão mais difícil seria para uma mulher’. Essas palavras dele varreram completamente meu sentido de culpa. Aquelas palavras removeram também qualquer resíduo de medo em mim. Desde lá eu fui até a montanha sozinha inúmeras vezes até mesmo a noite, sem falar para ninguém. Não havia mais medo. Se tivesse medo como poderia ficar por aqui nas montanhas sozinha.
A respeito de minha fuga, Bhagavan disse que talvez isso fosse necessário. ‘Eu tinha 16 quando vim para este lugar. Ademais ela é uma jovem mulher, é assim que a pessoa deve fazer se for necessário. O que há de errado nisso’.
Na ocasião da morte de Bhagavan, vi naquela noite uma linda luz azul subindo aos céus, naquele momento eu sabia que ele tinha abandonado o corpo físico. Eu não queria mais viver depois disso, então comecei a jejuar esperando morrer daquele jeito. Por seis dias não toquei em comida. E durante aquele período tive várias visões. Em uma delas fui levada para dentro de uma caverna na montanha, onde vi alguns rishis realizando um ritual. Sri Bhagavan estava sentado entre eles, ele disse: ‘Por que você está chorando? Por que esta angústia? Você diz que eu fui embora, mas para onde eu fui, estou aqui você não pode me ver?’ Alguns rishis trouxeram prasad, Sri Bhagavan pegou um pouco e ofereceu a mim. Eu não lembrava no sonho que estava de jejum e comi a prasad, por 5 dias depois disso o cheiro daquela prasad ficou comigo. Então, aquilo foi um sonho ou foi realidade? Eu considero isso como sendo a graça de Bhagavan. No dia seguinte comecei a comer. Daquele dia em diante eu não tenho essa dúvida se Bhagavan nos deixou, ele permeia a tudo. Está em toda parte. Não senti mais tristeza em meu coração. Certamente ele está aqui também.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Coleman Barks - Sobre seu trabalho com Rumi

Pergunta: Uma das coisas que eu pensei que poderia ser de interesse para os nossos ouvintes, é começar contando a história de como você chegou à poesia de Rumi. 
Coleman Barks: Eu já contei essa história em vários lugares. Bem, eu tive esse sonho no qual eu estava dormindo ao lado do rio Tennessee. É o lugar onde eu cresci nas proximidades de Chattanooga.  E no sonho uma bola de luz emergiu da ilha de Williams. E eu acordei dentro do sonho. Foi um daqueles momentos lúcidos iguais quando estou acordado, entretanto eu estava ainda dormindo no sonho, mas tinha acordado dentro do sonho. E essa bola de luz veio e clareou de dentro para fora. Havia um homem sentado dentro da bola de luz. Ele levantou a cabeça e disse: "Eu te amo". E eu disse: "eu te amo também."
E em seguida, a paisagem toda ficou molhada com orvalho. E o orvalho e a umidade eram o amor. E de alguma forma, embora tudo tenha acontecido no sonho, senti que algo ficou estabelecido ali.  Então, cerca de um ano e meio depois disso, eu estava viajando para o norte para fazer algumas leituras de poesia. Encontrei com Jonathan Granoff. Ele me levou para ver seu professor lá na Filadélfia. Era Bawa Muhaiyaddeen. E ele era o homem no sonho, que estava sentado lá em uma bola de luz.
Não há nenhuma maneira que eu possa provar que aquilo aconteceu exceto para mim mesmo. Isso aconteceu. E eu estava lá dentro do sonho e o encontrei. E ele tinha vindo a mim e me ensinado coisas no sonho. E, em seguida, na Filadélfia eu queria contar-lhe a respeito do sonho. E ele apenas dirigiu-se a mim dizendo: "eu estava lá. você não precisa me contar o sonho. O que você quer saber?" 
Ele me disse para fazer este trabalho do Rumi. Falou que isso tinha de ser feito. Portanto, a única credencial que eu tenho para trabalhar com as palavras deste grande ser iluminado é que eu estive diante daquela presença por nove anos, indo e voltando quatro ou cinco vezes por ano para visitar esse homem, que também espontaneamente cantava canções e louvava a existência.
Portanto, essa é a principal ligação que me conecta com Rumi. Quando trabalho nesses poemas sinto que estou fortalecendo a amizade com meu professor.
* Esse trabalho de Coleman Barks de tradução dos poemas de Rumi foi o principal responsável por tornar a poesia de Rumi conhecida no ocidente. Os poemas de Rumi presentes no blog são todos traduções do trabalho de Barks.