terça-feira, 29 de setembro de 2009

Meher Baba - A Realização de Deus

Chegar ao verdadeiro autoconhecimento (conhecimento do Ser) é chegar à Realização de Deus. A Realização de Deus é um estado único de consciência. É diferente de todos os outros estados de consciência, porque todos os outros estados de consciência são experimentados por meio da mente individual. O estado de consciência de Deus não é de maneira nenhuma dependente da mente individual ou de qualquer outro meio. Um meio é necessário para conhecer algo diferente de nosso próprio Ser. Para conhecer nosso próprio Ser nenhum meio é necessário.
Na verdade, a associação da consciência com a mente é definitivamente um obstáculo ao invés de uma ajuda para se atingir a Realização. A mente individual é a sede do ego (ou a consciência de estar isolado). Ela cria a individualidade limitada, que imediatamente se alimenta e é alimentada pelas ilusões da dualidade, do tempo e da mudança. Assim, a fim conhecer o Ser como ele é, a consciência tem de ser livrada completamente da limitação da mente individual. Em outras palavras, a mente individual tem de desaparecer, mas a consciência tem de ser mantida.
Ao longo da história da vida passada da alma, sua consciência tem crescido com a mente individual, e todo o funcionamento da consciência tem procedido contra o pano de fundo da mente individual. A Consciência, portanto, passou a estar firmemente arraigada na mente individual e não pode ser desenredada dessa moldura na qual foi tecida. O resultado é que se a mente for silenciada, a consciência também desaparece. O entrelaçamento da mente individual e da consciência é ilustrado amplamente pela tendência de ficar inconsciente quando há algum esforço de parar a atividade mental através da meditação.
O fenômeno diário de ir dormir essencialmente não é diferente da pausa vivida durante a meditação, mas é ligeiramente diferente em sua origem. Sendo que a mente individual é confrontada continuamente com o mundo da dualidade, ela está envolvida num incessante conflito; e quando fica cansada de sua luta sem alívio, ela quer perder a sua identidade como uma entidade separada e voltar para o Infinito. Ela então se afasta do mundo da sua própria criação e experimenta um período de pausa e essa pausa também é invariavelmente acompanhada pelo cessar da consciência.
A quietude da atividade mental durante o sono implica a submersão total da consciência; mas esse cessar da vida mental e do funcionamento consciente é apenas temporário, pois as impressões armazenadas na mente incitam-na a uma renovada atividade. Depois de um tempo os estímulos das impressões resultam no agitar a mente e revitalizar o funcionamento consciente que é realizado por meio dela. Assim, o período de sono é seguido por um período de vigília e o período de vigília é seguido por um período de sono, de acordo com a lei da alternância da atividade e do repouso. Entretanto, enquanto as impressões latentes na mente não são completamente desfeitas, não há aniquilação final da mente individual ou a emancipação da consciência. No sono a mente esquece temporariamente a sua identidade, mas ela não perde, finalmente, sua existência individual. Quando a pessoa acorda, ela encontra-se sujeita às suas antigas limitações. Há uma ressurreição da consciência mas ela ainda está escondida na mente.
A mente limitada é o solo no qual o ego está seguramente enraizado, e esse ego perpetua a ignorância através das muitas ilusões às quais ele está preso. O ego impede a manifestação do conhecimento infinito, que já está latente na alma; ele é o mais formidável obstáculo para a Realização de Deus. Um poema persa diz verdadeiramente: "É extremamente difícil de perfurar o véu da ignorância, pois há uma pedra sobre o fogo". Assim como uma chama não pode subir muito alto se uma pedra é colocada sobre ela, o desejo de conhecer nossa própria natureza verdadeira não pode conduzir à Verdade enquanto o peso do ego estiver colocado sobre a consciência.
O sucesso em encontrar o nosso Ser é impossibilitado pela continuação do ego, que persiste durante toda a jornada da alma.

Na velhice, um dente dolorido pode causar um aborrecimento imenso, pois embora esteja solto em seu encaixe, ele não é extraído facilmente. Da mesma forma, o ego, que pode tornar-se mais fraco por meio do amor ou de penitência, é ainda difícil de se erradicar. Ele persiste até o fim. Embora torne-se mais flexível conforme a alma avança no caminho, ele permanece até a última etapa - que é o sétimo plano de involução da consciência.
O ego é o centro de toda atividade humana. As tentativas do ego de garantir a sua própria extinção podem ser comparadas à tentativa de uma pessoa subir em seus próprios ombros. Assim como o olho não pode ver a si próprio, o ego é incapaz de pôr fim à sua própria existência. Tudo o que ele faz para trazer sua auto-aniquilação só vai adicionar à sua própria existência. Ele se desenvolve nos próprios esforços dirigidos contra si mesmo. Assim, embora ele consiga transformar sua própria natureza, ele é incapaz de desaparecer por completo através da sua própria atividade desesperada. O desaparecimento do ego está condicionado pela dissolução da mente limitada, que é a sua sede.
O problema da Realização de Deus é o problema da emancipação da consciência das limitações da mente. Quando a mente individual é dissolvida, todo o universo em relação à mente desaparece no nada, e a consciência não está mais ligada a nada. A consciência está agora ilimitada e não é encoberta por nada servindo o propósito de iluminar o estado da Realidade infinita. Enquanto imersa no êxtase da Realização, a alma fica completamente abstraída de visões, de sons e objetos do universo. A esse respeito, é como o sono profundo, mas existe uma diferença infinita que distingue a Realização de Deus do sono profundo.
Durante o sono a ilusão do universo desaparece, uma vez que toda consciência está em suspenso; porém não há nenhuma experiência consciente de Deus, pois isso requer a completa dissolução do ego e o direcionamento da consciência plena para a Realidade última. Ocasionalmente, quando a continuidade do sono profundo é interrompida por breves intervalos, pode-se ter a experiência de manter a consciência sem estar consciente de nada em particular. Existe a consciência, mas essa consciência não é do universo. É a consciência do nada. Tais experiências comparam-se à da Realização de Deus, na qual a consciência está completamente liberta da ilusão do universo e manifesta o conhecimento infinito que até então estava escondido pelo ego.
No sono, a mente individual continua a existir, embora ela tenha esquecido tudo, incluindo ela mesma; e as impressões latentes na mente criam um véu entre a consciência submersa e a Realidade infinita. Assim, durante o sono, a consciência fica submersa na concha da mente individual mas ainda não foi capaz de escapar dessa concha. Embora a alma tenha esquecido de sua separação de Deus e tenha de fato alcançado a unidade com Ele, ela está inconsciente dessa unidade. Na Realização de Deus, no entanto, a mente não apenas esquece a si mesma, mas perde realmente (com todas as suas impressões) a sua identidade. A consciência, que até então estava associada com a mente individual, agora está liberta e desimpedida e colocada em contato direto em unidade com a Realidade última. Uma vez que agora não há véu entre a consciência e a Realidade Suprema, a consciência está fundida com o Absoluto e eternamente habita nele como um aspecto inseparável, promovendo um inesgotável estado de conhecimento infinito e felicidade ilimitada.
No entanto, a manifestação do conhecimento infinito e da bênção ilimitada na consciência estão estritamente limitadas para a alma que alcançou a realização de Deus. A Realidade infinita na alma que realizou Deus tem conhecimento explícito de sua própria infinidade. Tal conhecimento explícito não é experimentado pela alma não-realizada, que ainda está sujeita à ilusão do universo. Assim, se a Realização de Deus não fosse um feito pessoal da alma, o universo inteiro chegaria ao fim logo que qualquer alma alcançasse a Realização de Deus. Isso não acontece porque a Realização de Deus é um estado de consciência pessoal que pertence à alma que transcendeu o domínio da mente. Outras almas permanecem em cativeiro e só podem atingir a Realização ao libertarem a sua consciência do fardo do ego e das limitações da mente individual.
Daí o atingimento da Realização de Deus só tem significado direto para a alma que emergiu do processo do tempo.
Após ter atingido a Realização de Deus, a alma descobre que ela sempre foi a Realidade infinita que agora sabe que ela própria é, e descobre que ter se considerado finita durante o período de evolução e progresso espiritual era na verdade uma ilusão. A alma também descobre que o conhecimento e felicidade infinitos que ela agora aprecia também estavam latentes na Realidade infinita, desde o início dos tempos, e que eles meramente tornaram-se manifestos no momento da Realização. Dessa forma, a pessoa que realizou Deus na verdade não se torna algo diferente do que era antes da Realização. Ela continua a ser o que era, e a única diferença que a Realização faz nela, é que antes ela não conhecia conscientemente sua própria natureza verdadeira, e agora ela a conhece. Ela sabe que jamais foi algo diferente do que agora sabe que ela mesma é, e que tudo pelo que passou foi apenas o processo de encontrar o seu Ser.
Todo o processo de alcançar a Realização de Deus é apenas um jogo no qual o começo e o fim são idênticos. Alcançar a Realização, no entanto, é um ganho distinto para a alma. Em geral, existem dois tipos de vantagens: uma consiste em conseguir o que não se tinha previamente, a outra em realizar plenamente o que se é realmente. A Realização de Deus é do segundo tipo. No entanto, isso cria uma diferença infinita entre a alma que atingiu a Realização de Deus e a alma que não atingiu. Embora a alma Realizada de Deus não possua nada de novo, o seu conhecimento explícito sobre tudo o que ela realmente é, o que ela foi e o que sempre será, torna a Realização de Deus totalmente importante. A alma que não é realizada experimenta-se como sendo finita e está constantemente preocupada com os opostos das alegrias e tristezas passageiras. Mas a alma que tem a Realização é elevada desses opostos e experimenta o conhecimento infinito e o êxtase ilimitado de ser consciente de Deus.
Na realização de Deus a alma abandona a sua consciência separada e transcende a dualidade no permanente conhecimento de sua identidade com a Realidade infinita. As algemas da individualidade limitada são quebradas; o mundo das sombras chega ao fim, a cortina da ilusão é erguida para sempre. O estado febril e a angústia agonizante dos anseios da consciência limitada são substituídos pela tranquilidade e bem-aventurança da consciência-Verdade. A inquietação e a fúria da existência temporal são engolidas na paz e quietude da Eternidade.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Jalaluddin Rumi - Na grande tigela de madeira deste dia / Os dois mundos

Ainda atordoado pelo vinho da noite
passada? Espere um pouco, não pegue

ainda este que servimos. Você não pode
realmente estar no oceano com cenas

de riachos familiares e do amado
rio de sua casa em seus olhos. Espere,

se você está preso em memórias. Como
aqueles que pensavam em negócios foram

levados do pátio do templo,
tão amargas, as pessoas auto-importantes

precisam ser excluídas da mistura
que está sendo mexida na grande

tigela de madeira deste dia. No quarto com
a princesa chinesa, as músicas populares

se esvaem. Não ferva as uvas duras
que ainda não amadureceram, e não venda

vinagre! Este momento é a uva perfeita
que você esmaga para tornar seu vinho

da vida interessante. Em tal momento, você
talvez encontre alguém, assim como

encontrei Shams. Deus sabe em que pomar
você estará andando então!
______________________________________________
.
Há o vinho de Deus e este
outro. Não os misture. Há
.
peregrinos nus que vestem apenas
a luz do sol. Não lhes dê roupas!

Há amantes contentes em
esperar. Não sou um deles.

Dê um copo de puro fogo para seu
amigo mais próximo, pomada cicatrizante
.
aos feridos. Para Shams de Tabriz,
ofereça os dois mundos.

sábado, 26 de setembro de 2009

Nisargadatta Maharaj - Você é a presença consciente sem pensamentos

Um dos primeiros visitantes numa sessão foi um homem que era representante de uma sociedade Européia de Vedanta. Maharaj foi direto ao ponto e perguntou se ele tinha alguma pergunta a fazer ou se tinha algum ponto para esclarecer. Quando o visitante disse que gostaria de ouvir um pouco o que Maharaj tinha a dizer antes de fazer qualquer pergunta, Maharaj sugeriu que, sendo que ele era o responsável de um escritório de uma das mais ativas Sociedades Vedânticas possuidora de um número de adeptos bastante grande, ele deveria começar o diálogo e dizer como eles explicavam esses assuntos um tanto elusivos para um novo membro que se interessa pela sociedade deles.


Visitante: Bem, primeiro falamos para ele sobre exercícios físicos de Yoga, pois um ocidental está basicamente interessado no bem-estar de seu corpo. Yoga para ele significa ser capaz de fazer o corpo realizar proezas de resistência física e também alcançar um grau elevado de concentração mental. Depois de um curso de Asanas de Yoga passamos a dizer-lhe que "ele" não é o corpo, mas sim algo à parte do corpo.

Maharaj: Isso que você diz levanta duas questões: primeiro, qual é o ponto de partida até mesmo para perceber o corpo? Em outras palavras, não existe algo dentro do corpo na ausência do qual você não seria capaz de reconhecer nem o seu próprio corpo, ou o corpo de outras pessoas? Segundo, no que diz respeito à pessoa que está ensinando àquele novo membro, ela tem uma idéia bem clara sobre a própria identidade dela? Se ela mesma não é o corpo, então, quem, ou o quê, é ela?

V: Não tenho certeza do que exatamente você está querendo dizer.

M: O corpo é apenas um instrumento, um aparelho; que seria totalmente inútil se não fosse a energia no interior, o animus, o sentido de "eu sou", o conhecimento de estar vivo, a consciência que proporciona o sentido de se estar presente. Na realidade, esta presença consciente (não uma pessoa específica que está presente, mas a própria sensação de presença consciente) é o que a pessoa é, e não essa aparência no nível dos fenômenos que é o corpo. É quando essa consciência, sentindo a necessidade de algum apoio, equivocadamente se identifica com o corpo e abandona o seu potencial ilimitado em troca da limitação de um corpo singular, que o indivíduo 'nasce'. Esse é o primeiro ponto a respeito do qual aquele que está ensinando o Vedanta deve ter uma firme convicção intuitiva. O outro aspecto fundamental é que esse que ensina também deve ter uma compreensão muito clara de como a união entre o corpo e a consciência surgiu. Em outras palavras, ele não deve ter dúvida alguma a respeito da própria natureza verdadeira dele mesmo. Para isso, ele deve compreender a natureza do corpo e a da consciência (ou do sentido de ser, ou o sentido de 'eu sou') e também a natureza do mundo fenomênico. Caso contrário, o que quer que ele ensine só será conhecimento emprestado dos outros, heresia, conceitos de outra pessoa.

V(sorrindo): É exatamente por essa razão que estou aqui. Vou ficar aqui cerca de uma semana e participarei das sessões da manhã e da noite.

M: Você tem certeza de que está fazendo a coisa certa? Você veio aqui com uma certa quantidade de conhecimento. Se você persistir em me ouvir, você pode chegar à conclusão de que todo conhecimento não é nada mais que um punhado de conceitos inúteis, e, pior ainda, de que você mesmo é um conceito. Você ficará, então, do mesmo jeito que uma pessoa que de repente percebe que as riquezas que guardou se transformaram em cinzas do dia para noite. E aí? Não seria melhor, mais seguro, voltar para casa com a sua "riqueza" intacta?

V: Vou aproveitar a oportunidade. Eu prefiro saber o real valor da riqueza que eu acho que possuo. Sinto que o tipo de riqueza que vou alcançar depois que a riqueza inútil for jogada fora, será impagável e está além do risco de ser perdida ou roubada.

M: Que assim seja. Agora me diga, quem você pensa que é?

V: Duvido que isso possa realmente ser colocado em palavras. Mas parece que eu não sou o corpo, mas sim a sensação de presença consciente.

M: Deixe-me dizer-lhe muito brevemente: Seu corpo é o crescimento de uma emissão vinda da união de seus pais, que foi concebida no ventre de sua mãe. Essa emissão era a essência da comida consumida por seus pais. Seu corpo é, portanto, feito da essência dos alimentos e é também sustentado pelos alimentos. E a sensação da presença consciente que você mencionou é o sabor, "a natureza". da essência dos alimentos que constituem o corpo, assim como a doçura é a natureza do açúcar, o qual é a essência da cana-de-açúcar. Mas entenda que seu corpo pode existir apenas por um período limitado de tempo, e quando o material do qual ele é feito finalmente se deteriorar até 'morrer', a força vital (a respiração) e a consciência também desaparecerão do corpo. Então, o que irá acontecer com 'você '?

V: A consciência desaparecerá? Devo dizer que estou um pouco assustado por ouvir isso.

M: Na ausência do corpo, pode a consciência estar consciente de si mesma? A consciência, na ausência do corpo, não estará mais manifesta. Então, voltamos ao ponto de partida: Quem, ou o quê é você?

V: Como eu disse antes, isso realmente não pode ser colocado em palavras.

M: É claro que não pode ser colocado em palavras, mas você sabe quem ou o quê você é? Uma vez que você expressa isso, torna-se um conceito. Mas, apesar de ser o criador de um conceito, não é você mesmo um conceito? E você não nasceu realmente do ventre da conceitualização? Mas, quem é você na verdade? Ou, se como eu você preferir, o quê é você?

V: Penso que sou a presença consciente.

M: Você disse que "penso"! Quem é esse que pensa isso? Não é a sua própria consciência na qual os pensamentos aparecem? E, como vimos, a consciência, ou a presença, está vinculada ao tempo, juntamente com o corpo. É por isso que eu lhe disse anteriormente que é necessário apreender a natureza do corpo e também a da força vital (Prana) e da consciência. O que você é, é a "presença" somente enquanto o corpo, um fenômeno manifestado, estiver aí. O quê você era antes que o corpo e a consciência aparecessem espontaneamente sobre você? Digo "espontaneamente" pois você não foi consultado a respeito de ser apresentado com um corpo, nem seus pais especificamente esperavam ter 'você' como filho deles. Você não era então, relativamente, a 'ausência' na verdade, em vez de ser a "presença", antes de que o estado da consciência-corpo surgisse no que quer que fosse 'você' naquela ocasião?

V: Não tenho certeza se eu entendo isso.

M: Agora, veja. Para algo aparecer, para que possa existir, tem de haver um pano de fundo de absoluta ausência - absoluta ausência tanto da presença, quanto da ausência. Sei que isso não é fácil de compreender. Mas tente. Qualquer presença somente pode "aparecer" a partir da ausência total. Se houver presença até mesmo de ausência, não pode haver nem os fenômenos, nem a cognição. Portanto, a ausência total e absoluta implica total ausência de conceitualização. Esse é o seu verdadeiro estado original. Repito: O 'você' nasce no ventre do processo de conceituar. Sobre o estado original de ausência total surge espontaneamente uma partícula de consciência - o pensamento "eu sou" - e, assim, sobre o estado original de unicidade e plenitude surge a dualidade; a dualidade sujeito-objeto, certo e errado, puro e impuro – o raciocínio, a comparação, o julgamento, etc. Reflita sobre isso.
Infelizmente esta sessão deve acabar agora.

V: Essa conversa foi certamente uma revelação para mim, embora eu tenha estudado Vedanta por um tempo considerável.
.
M: Está claro para você uma coisa, que você está antes de toda conceitualização? O que você parece ser enquanto um fenômeno não é nada além de conceitual. O que você realmente é, não pode ser compreendido pela simples razão de que, no estado de não-conceitualidade não pode haver uma pessoa para compreender o que ela mesma é!

V: Senhor, eu gostaria de vir esta noite para mais esclarecimentos e sentarei a seus pés todos os dias enquanto eu estiver em Mumbai.

M: Você é bem-vindo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

P. D. Ouspensky - Consciência significa também vontade e vontade significa liberdade

Ouspensky: Você pode chegar à compreensão da lembrança de si (self-remembering) de muitas maneiras diferentes. Por exemplo, quando ouvi pela primeira vez sobre ela, lembro que foi muito estranho. A idéia impactou-me como sendo de uma extensão enorme. Eu estive estudando psicologia durante muitos anos e percebi que em tudo que eu tinha estudado, essa idéia não era conhecida. Abismou-me o quanto pensamos erroneamente e que tínhamos perdido a maior verdade, o fato de que não nos lembramos de nós e o de que poderíamos nos lembrar, é o maior fato em toda a psicologia - a possibilidade da consciência, uma tremenda idéia. Outras pessoas que conheço, perceberam que nunca foram mestres de si mesmas, outras pessoas ficaram interessadas ao descobrir que se alguém decide fazer uma coisa durante o sono, sem consciência, então não é uma ação dela mesma, aquilo apenas acontece. É necessário começar com essa idéia, ver suas aplicações e conexões.
Pergunta: Você disse que quando percebemos que não nos lembramos de nós estamos mais perto da lembrança de si. Vejo agora que não me lembro de mim mesmo, mas não vou mais longe que isso.
O: Vá mais fundo. Nada mais é necessário. Perceba mais e mais, cada vez mais profundamente, que nem você e nem as outras pessoas se lembram, que ninguém lembra de si mesmo. Isso o levará para a lembrança de si mais do que qualquer outra coisa. Nossa dificuldade é principalmente dependente da falta de percepção de que não nos lembramos de nós mesmos. Se percebêssemos com mais frequência que não nos lembramos e que as outras pessoas também não, que ninguém se lembra de si mesmo, então começaríamos a lembrar, apenas através disso.

P: Como podemos aprender a parar os pensamentos?
O: Através da lembrança de si. Os pensamentos param de imediato.
P: Você disse que o tipo de energia utilizada para a lembrança de si pode ser aumentada quando se quer. Como isso pode ser feito?
O: Ao tentar lembrar de si mesmo e através da observação. Suas impressões trazem energia. Se você olha e não vê, você perde energia, mas se você observa e vê, isso significa que você adquire mais energia.
P: É possível de repente transformar a energia da raiva em alguma coisa? Temos uma energia tremenda, mas não sabemos como utilizá-la.
O: Ao não se identificar. Temos uma energia enorme e ela funciona por si mesma, faz-nos agir de uma certa maneira. Por quê? Qual é o elo de ligação? A identificação é o elo. Pare a identificação e você terá a energia à sua disposição. Como você pode fazer isso? Não é de uma vez. Isso precisa de prática. Pratique nos momentos fáceis. Quando a emoção é muito forte, não se pode. É necessário saber mais para estar preparado. Se você sabe como não se identificar nos momentos certos, você terá muita energia à sua disposição. O que você vai fazer com ela é outra coisa. Você pode perdê-la em algo completamente inútil. Mas é preciso prática. Você não pode aprender a nadar se você cair no mar durante uma tempestade. Você deve aprender em águas calmas. Então, talvez, se você cair, será capaz de nadar.
P: Devemos compreender que a lembrança de si significa consciência?
O: Mais uma vez, não só consciência. Significa também uma certa capacidade de agir de uma determinada maneira, de fazer o que se quer. Você vê, em nosso pensamento lógico, no conhecimento lógico, nós separamos a consciência da vontade. Consciência significa vontade. Em russo, por exemplo, a palavra vontade é a mesma que liberdade. Nas línguas com raízes latinas, eles desconsideram o significado, dão-lhe outro significado. A palavra consciência significa uma combinação de todo o conhecimento, como se você tivesse todo o seu conhecimento diante de você ao mesmo tempo. Mas consciência significa também vontade, e vontade significa liberdade.
P: Existe alguma maneira pela qual possamos lembrar mais claramente o que compreendemos quando estávamos em um estado melhor?
O: Isso é uma coisa muito importante, mas eu não sei de um método especial. Esses momentos devem estar ligados. Olhe para trás, tente comparar. Isso é particularmente importante em relação a alguma questão definida. Você pode entender algo que você não entendeu meia hora atrás. Mas talvez antes tenha havido momentos em que você também entendeu alguma coisa a esse respeito. Tente lembrar desses momentos e conectá-los.
P: A lembrança de si tem conexão com "Eu sou o que sou”?
O: Esta é uma idéia filosófica. Em outras palavras, o Absoluto pode ser chamado de 'Eu' ou 'Ego'- não tem nada a ver com os imaginários 'eus' humanos. Isso também está relacionado com uma outra idéia, que só Deus tem o direito de chamar-se de 'Eu' - e nós nos chamamos de 'eu '.
P: O que você quis dizer quando disse que temos de tentar nos lembrar de nós quando é mais difícil?
O: Você sabe que não deve fazer alguma coisa. Uma parte de você quer fazer isso. Então você lembra de si e pára isso. A lembrança de si tem um elemento de Vontade nela. Se fosse apenas ao sonhar 'Eu sou, eu sou, eu sou' não valeria de nada. Você deve dar um certo tempo simplesmente para estudar o que significa lembrar e o que não lembrar significa e os efeitos que lembrar e não lembrar têm. Depois, você pode inventar muitas maneiras diferentes de lembrar de si mesmo. Mas na verdade, a lembrança não é intelectual, abstrata. São momentos de vontade. Não é pensamento, é ação. Ela significa controle. Caso contrário, qual é o uso de lembrar de si mesmo se isso não aumentar o controle? Você só pode controlar a si mesmo em momentos de lembrança de si. Controle mecânico proveniente da formação, da educação e assim por diante, não é controle: quando a pessoa é ensinada a se comportar de uma determinada maneira em determinadas circunstâncias.
P: Qual é a aplicação prática deste sistema?

O: Por exemplo, uma possibilidade de estabelecer o nosso estado de consciência e a possibilidade de aumentar a nossa consciência através da lembrança de si - isso imediatamente se torna prático, foi isso que primeiramente me surpreendeu quando comecei a estudar o sistema, que é particularmente importante e particularmente interessante (pois os sistemas do Oriente deixavam escapar esse ponto) que não estamos conscientes e que podemos nos tornar conscientes. Houveram peças e livros interessantes, mas eles foram muito específicos, ou saíram sob o nome de filosofia, e geralmente foram escritos em linguagem difícil de tal forma que permaneceram desconhecidos para o público geral.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Bhagavan Sri Ramana Maharshi - Meditação


Pergunta: O que é meditação (Dhyana)?
Bhagavan: É permanecer como seu próprio Ser sem desviar-se de maneira nenhuma de sua natureza real e sem sentir que você está meditando.
P: Qual é a diferença entre Dhyana e Samadhi?
B: Dhyana é alcançada através de esforço mental deliberado. Em Samadhi não há tal esforço.
P: Quais são os fatores a serem mantidos em vista na meditação?
B: É importante para aquele que está estabilizado no seu Ser (atmanishtha) observar que ele não se desvie nem um pouquinho de sua absorção. Ao desviar-se de sua natureza real, ele pode ver diante de si refulgências brilhantes, ou escutar sons incomuns, ou considerar como reais visões de Deuses aparecendo dentro e fora de si mesmo. Ele não deveria ser enganado por tais coisas e esquecer de Si.


P: Não encontro meios de ir para dentro através da meditação.
B: Onde mais estamos agora? Nosso próprio Ser é isso.
P: Mesmo assim somos ignorantes.
B: Ignorantes do quê e de quem é a ignorância? Se a ignorância é a respeito do Ser existem dois si mesmos (Selves)?
P: Não há dois. Mas o sentimento de limitação não pode ser negado.
B: As limitações são apenas da mente. Você as sentia no sono profundo? Você existe no sono profundo. Você não nega a sua existência então. O mesmo Ser está aqui e agora no estado desperto. Você está dizendo agora que há limitações. O que aconteceu agora é que existem diferenças entre os dois estados. As diferenças devem-se à mente. Não há mente no sono profundo, enquanto que agora ela está ativa. O Ser existe na ausência da mente também.
P: Embora isso seja entendido, não é percebido.
B: Será pouco a pouco, com meditação.
P: Meditação é com a mente. Como ela pode matar a mente para poder revelar o Ser?
B: Meditação é firmar-se a um pensamento. Aquele único pensamento mantém afastados os outros pensamentos. Distração da mente é um sinal de sua fraqueza. Através de constante meditação ela ganha força, ou seja, a fraqueza dos pensamentos fugitivos dá lugar ao duradouro pano de fundo livre de pensamentos. Essa vastidão desprovida de pensamentos é o Ser. A mente em pureza é o Ser.

P: Como a meditação deve ser praticada?
B: Verdadeiramente falando, meditação é fixar-se no Ser. Mas quando os pensamentos cruzam a mente e fazemos um esforço para eliminá-los, o esforço geralmente é chamado de meditação. Atmanishtha (estar fixado no Ser) é a sua natureza real. Permaneça como você é. Esse é o objetivo.
P: Mas os pensamentos aparecem. Nosso esforço serve apenas para eliminar os pensamentos?
B: Sim. A meditação sendo em um único pensamento, os outros pensamentos são mantidos longe. A meditação apenas é negativa de fato, na medida em que os pensamentos são mantidos afastados.
P: Fala-se em 'fixar a mente no Ser' (atma samstham manah krtva). Mas não é possível pensar no Ser.
B: De qualquer modo, por que você deseja meditar? Porque você deseja meditar, lhe é dito para 'fixar a mente no Ser'. Por que você não permanece como você é sem meditar? O que é esta mente? Quando todos os pensamentos são eliminados ela se torna 'fixada no Ser'.
P: Se uma forma for dada, eu posso meditar nela e os outros pensamentos são eliminados. Mas o Ser é sem forma.
B: A meditação em formas ou objetos concretos é dita ser Dhyana, enquanto que investigação do Ser é Vichara ou a ininterrupta consciência de ser (de existir).
P: Há mais prazer na meditação do que nos prazeres sensuais. Ainda assim a mente se apressa para obter os prazeres sensuais e não busca a meditação. Por que é assim?
B: Prazer e dor são aspectos da mente apenas. Nossa natureza essencial é a felicidade. Mas nós esquecemos de nós mesmos (do Ser) e imaginamos que o corpo ou a mente são o Ser. É essa identidade errada que gera miséria. O que deve ser feito? Essa tendência mental é muito antiga e tem continuado por inúmeros nascimentos passados. Dessa forma ela tem ficado mais forte. Ela tem de ir antes que a natureza essencial, a felicidade, se afirme.

P: A Meditação é praticada com os olhos abertos ou fechados?
B: Pode ser feita de ambos os jeitos. O ponto é que a mente deve estar introvertida e ser mantida ativa na sua busca. Às vezes acontece que quando os olhos estão fechados, os pensamentos latentes se apressam com grande vigor. Pode ser difícil também introverter a mente com os olhos abertos. Requer força da mente para fazer isso. A mente fica contaminada quando ela absorve objetos. Quando não, ela é pura. O principal fator na meditação é manter a mente ativa na sua busca sem absorver impressões externas ou pensar em outros assuntos.

P: Sempre que medito sinto um grande calor na cabeça e, se persisto, meu corpo todo queima. Qual é a solução?
B: Se a concentração é feita com o cérebro, surgem sensações de aquecimento ou mesmo dor de cabeça. A concentração tem que ser feita no Coração, o qual é fresco e refrescante. Relaxe e a sua meditação será fácil. Mantenha sua mente estável gentilmente repelindo todos os pensamentos intrusos mas sem esforço excessivo. Em breve você conseguirá.


P: Como evito cair no sono enquanto medito?
B: Se você tentar evitar o sono isso significará pensar na meditação, o que deve ser evitado. Mas se você adormecer enquanto estiver meditando, a meditação irá continuar mesmo durante e depois do sono. Ainda assim, sendo o sono um pensamento, devemos nos livrar dele, pois o estado natural final tem de ser obtido conscientemente no estado desperto (jagrat) sem o pensamento perturbado. O sono e o estado desperto são meras imagens na tela do estado nativo livre de pensamentos. Deixe-os passarem desapercebidos.

P: Sobre o que devemos meditar?
B: No que você preferir.
P: Shiva, Vishnu e Gayatri são ditos como sendo igualmente eficazes.
B: Qualquer um que você gostar mais. São todos iguais em seu efeito. Mas você deveria se firmar a um.
P: E como eu medito?
B: Concentre-se naquele que você gosta mais. Se um único pensamento prevalece, todos os outros pensamentos são colocados para fora e finalmente são erradicados. Enquanto a diversidade prevalece há maus pensamentos. Quando apenas o objeto de amor prevalece, os bons pensamentos mantém-se no campo. Portanto, segure-se a um pensamento apenas. Dhyana é a prática principal.
Dhyana significa luta. Assim que você começa a meditação, outros pensamentos se aglomeram. Junte força e tente aprofundar o único pensamento com o qual você tenta se manter. O pensamento bom gradualmente deve ganhar força através de repetida prática. Depois de ter ficado forte os outros pensamentos vão ser mandados para longe. Essa é a batalha real que sempre acontece na meditação.
A pessoa quer livrar-se da miséria. Isso requer paz da mente, que significa ausência de perturbação devida a todos os tipos de pensamentos. A paz da mente é trazida pela meditação apenas.
O resultado final da prática de qualquer tipo de meditação é que o objeto no qual o buscador fixa sua mente deixa de existir enquanto separado e distinto do sujeito. Eles, o sujeito e o objeto, tornam-se o Ser uno, e esse é o Coração.
P: Por que Sri Bhagavan não nos diz para praticarmos concentração em algum centro particular ou chakra?
B: O Yoga Sastra diz que o sahasrara (o chakra localizado no cérebro) é o lugar do Ser. O Purusha Suka declara que o coração é o lugar dele. Para permitir que o buscador se livre de qualquer dúvida possível, eu lhes digo para trilhar o caminho ou a pista do 'sentido de eu' (I'ness) ou o 'sentido de eu sou' (I'am-ness) e segui-lo até a sua fonte. Porque, primeiramente, é impossível para alguém levantar qualquer dúvida a respeito dessa noção de 'eu'. Em segundo lugar, qualquer que seja o meio adotado, o objetivo final é a realização da fonte do 'sentido de eu sou' o qual é o dado primário da sua experiência.
Se você praticar portanto a investigação de si, você alcançará o Coração que é o Ser.

P: Qual é a diferença entre meditação (dhyana) e investigação (vichara)?
B: Ambos dão no mesmo. Aqueles que não se adequam à investigação devem praticar meditação. Na meditação o aspirante, esquecendo a si mesmo, medita 'eu sou Brahman' ou 'eu sou Shiva' e através desse método se mantém em Brahman ou Shiva. Isso irá terminar finalmente com a consciência residual de Brahman ou Shiva na forma do Ser (da própria existência). Ele irá então perceber que isso é o puro Ser, ou seja, o Si mesmo real.
Aquele que se engaja na investigação começa mantendo-se em si mesmo, e perguntando a si mesmo 'Quem sou eu?' o Ser (o Si mesmo real) torna-se claro para ele.
A pessoa imaginar mentalmente que ela é a realidade suprema, que brilha como existência-consciência-contentamento, é meditação. Fixar a mente no Ser para que a semente irreal da ilusão morra, é investigação.
Quem quer que medite sobre o Ser em qualquer imagem mental (bhava) atinge-o apenas naquela imagem. Aquelas pessoas pacíficas que permanecem quietas sem nenhuma imagem mental desse tipo atingem o nobre e inqualificável estado de Kaivalya, o estado sem forma do Ser.
P: A meditação é mais direta do que a investigação pois mantém-se na verdade enquanto que a investigação filtra a verdade da irrealidade?
B: Para um iniciante a meditação em uma forma é mais fácil e agradável. A prática dela leva à investigação de si que consiste em peneirar a verdade da irrealidade.
Qual é a utilidade de segurar-se na verdade quando você está cheio de fatores antagônicos?
A investigação de si conduz diretamente à Realização ao remover os obstáculos que fazem você pensar que o Ser ainda não está realizado.
A meditação difere de acordo com o grau de desenvolvimento do buscador. Se a pessoa estiver apta, ela deve se manter no pensador, e o pensador irá automaticamente afundar-se na sua fonte, a pura consciência.
Se a pessoa não pode segurar-se diretamente no pensador ela deve meditar em Deus e no devido tempo esse mesmo indivíduo terá se tornado suficientemente puro para se manter no pensador e afundar-se no Ser absoluto.
A meditação é possível apenas se o Ego for mantido. Existe o ego e o objeto sobre o qual se está meditando. O método é portanto indireto pois o Ser é apenas um. Buscando o ego, ou seja, a fonte dele, o ego desaparece. O que sobra é o Ser. Esse é o método direto.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Philokalia - São Simeão o novo Teólogo - O Terceiro e mais eficaz método de atenção e oração

Uma característica distinta do terceiro método de oração, é que a mente deveria ficar no coração. Ela deveria guardar o coração enquanto reza, revolver, permanecendo sempre dentro, e dessa forma, das profundezas do coração, oferecer orações a Deus. (Tudo reside nessa ação; trabalhe dessa maneira até que lhe seja dado um gosto do Senhor). Quando a mente lá, dentro do coração, finalmente saboreia e vê que o Senhor é bom e se deleita ali (o trabalho é nosso, mas essa experiência é a ação da graça em um coração humilde) então ela não irá querer mais abandonar esse lugar no coração (ela dirá então as palavras do Apóstolo Pedro: 'É bom estarmos aqui' [Mat. Xvii. 4]), e olhará sempre internamente para as profundezas do coração e permanecerá revolvendo ali, repelindo todos os pensamentos semeados pelo demônio. (Este é o terceiro método de atenção e oração, praticado da maneira como deve ser praticado).
Para aqueles que não não têm conhecimento desse trabalho e nenhuma experiência nele, na maioria das vezes ele parece difícil e opressivo. Mas aqueles que saborearam sua doçura e apreciaram-no nas profundezas de seus corações, clamam com o divino Paulo: 'Quem pode nos separar do amor de Cristo?' (Rom. Vii 35).
Portanto nossos sagrados padres escutando o Senhor que disse: 'É do coração que precedem os maus pensamentos, assassínios, adultérios, fornicações, roubos, falsos testemunhos, blasfêmias' e: 'São essas coisas que tornam o homem impuro' (Mat xv. 19, 20), escutando também que em outra parte dos Evangelhos somos instruídos a 'limpar primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior deles fique limpo' (Mat. Xxiii. 26), renunciaram todos os outros trabalhos espirituais e se concentraram totalmente nessa única ação, que consiste em guardar o coração, convencidos de que através dessa prática, eles iriam facilmente atingir todas as outras virtudes, enquanto que sem isso nem uma única virtude poderia ser firmemente estabelecida. Alguns dos Padres chamaram essa obra de silêncio do coração; outros chamaram-na de atenção; outros ainda – de sobriedade e oposição (aos pensamentos), enquanto outros chamaram-na de examinar os pensamentos e guardar a mente. Todos eles praticaram-na preeminentemente, e através dela, receberam dons Divinos. O Eclesiastes quer dizer a mesma coisa quando diz: 'Regozija, Ó jovem, em tua juventude … e anda nos caminhos de teu coração' (Ecl. Xi 9) na pureza, afastando o coração dos maus pensamentos. Em outra parte ele fala o mesmo: 'Se o espírito do governante levantar-se contra ti, não abandona teu posto' (Ecl. x. 4) – por posto, significando coração. O Senhor também nos fala nos Evangelhos: 'Não sejas de mente inquieta' (Luc. Xii. 29) – não atira-te por aí como um meteorito, não te apresses aqui e ali com a tua mente. E novamente em outra parte Ele diz: 'Abençoados são os pobres no espírito' (Mat. v. 3) ou seja, abençoados são aqueles que não têm apegos com o mundo em seus corações, mas são destituídos de pensamentos mundanos. Todos os Padres Sagrados escreveram sobre isso. Aqueles que quiserem podem ler seus escritos e ver o que São Marcos o Lutador escreveu, ou São João da Escada, Hesíquio de Jerusalém, Philotheu do Sinai, Abba Isaías, Barsanuphius o Grande e muitos outros.
Em suma, aquele que não tem atenção em si mesmo e que não guarda sua mente, não pode tornar-se puro no coração e portanto não pode ver Deus. Aquele que não tem atenção em si mesmo não pode ser pobre no espirito, não pode chorar e ser contrito, nem ser gentil e meigo, nem faminto e sedento por retidão, nem ser piedoso ou ser um pacificador, nem sofrer perseguição por causa da retidão.
Falando de maneira geral, é impossível adquirir virtude de qualquer outra maneira, exceto através desse tipo de atenção. Portanto você deveria tentar adquirir isso mais do que qualquer outra coisa, a fim de aprender o que lhe falo em sua própria experiência. Se deseja também aprender como isso deveria ser feito, falarei disso.
Você deveria observar três coisas antes de tudo mais: liberdade de todas inquietações, não apenas inquietações sobre o que é mau e vão mas mesmo a respeito das coisas boas, ou em outras palavras, você deve tornar-se morto para todas as coisas; sua consciência deveria estar limpa em todas as coisas, de modo que ela não o denuncie em nada; e você deveria ter uma completa ausência de apego às paixões, de maneira que seu pensamento não se incline para nada que seja mundano. Mantenha sua atenção dentro de si mesmo (não na sua cabeça, mas no coração). Mantenha a mente lá (no coração), tentando de todos os modos possíveis descobrir o lugar onde está o coração, para que tendo-o encontrado sua mente possa constantemente permanecer lá. Lutando dessa maneira, a mente encontrará o lugar do coração.
Isso acontece quando a graça produz doçura e calor na oração. Daquele momento em diante, de qualquer lado que um pensamento possa aparecer, a mente imediatamente manda-o embora, antes que ele tenha tempo de entrar e tornar-se um pensamento ou uma imagem, destruindo-o com o nome Jesus, isto é, 'Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!' Ademais, a partir daquele momento, o homem desenvolve aversão pelos demônios e raiva contra eles, constantemente luta com eles e os reprime. No que diz respeito aos outros resultados que geralmente procedem desse trabalho, com a ajuda de Deus, você irá descobri-los com a sua própria experiência, ao manter sua mente atenta e mantendo Jesus em seu coração, ou seja, mantendo a Sua oração – 'Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!' Um dos padres sagrados diz: 'Sente em seu quarto e essa oração lhe ensinará tudo'.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sri Ramakrishna - Abril de 1882

Ramakrishna estava sentado num pequeno sofá em seu quarto com o seu habitual semblante radiante. M. chegou com Kalikrishna, que nem imaginava onde seu amigo o tinha levado. Ele só havia dito: 'Se quer ver uma taberna, então venha comigo. Você verá lá um enorme jarro de vinho.' M. contou isso para Sri Ramakrishna, que se divertiu com a história. O Mestre disse: "A felicidade da adoração e da comunhão com Deus é o verdadeiro vinho, o vinho do amor extático. O objetivo da vida humana é amar a Deus. Bhakti (devoção) é a única coisa essencial. Conhecer Deus através de Jnana (conhecimento) e do raciocínio é extremamente difícil.
Quem é que pode compreender o que é a Mãe Kali (a Divina Mãe do Universo)? Até os seis Darshanas (sistema filosófico Indiano) não têm o poder de revelá-la. O único objetivo da vida é cultivar o amor a Deus, aquele amor que os vaqueiros, vaqueiras e os pastores meninos de Vrindavana tinham por Krishna. Quando Krishna partiu para Mathura, os pastores ficaram desnorteados, vagando sem rumo, chorando amargamente por causa daquela separação."


Então o mestre cantou:


Não bebo vinho comum, somente o vinho da felicidade eterna.

Quando repito o nome da minha mãe Kali,

Minha mente se embriaga a tal ponto

que as pessoas me consideram ser um bêbado!


Para fazer o vinho meu guru primeiro dá o melaço;

Minhas aspirações são a levedura para transformá-lo,

O conhecimento, fazedor de vinho, logo o prepara para mim;
.
E quando está pronto, minha mente absorve-o da garrafa do mantra,

Tomando o nome da Mãe para torná-lo puro.


Bebe deste vinho, e os quatro frutos da vida* serão seus.
*Dharma, Artha, Kama y Moksha. (a religião, a bem aventurança, o amor e a liberação)




Ramakrishna: Deus e Sua glória. Este universo é a Sua glória. As pessoas vêem a Sua glória e não pensam em nada mais. Não buscam a Deus, cuja glória é este mundo. Todos procuram desfrutar de "mulher e ouro". Mas há muita miséria e dor nisso. Este mundo é como um redemoinho de Visalakshi. Uma vez que um barco cai dentro dele, não há esperança de resgatá-lo. De outro lado, o mundo é como um arbusto espinhoso. Você acaba de se livrar de um monte de espinhos e já está enredado em outro monte deles. Uma vez que você entre num labirinto é muito difícil encontrar a saída. Vivendo no mundo o homem acaba sendo surrado, por assim dizer.

Devoto: Então, qual é o caminho, senhor?

R: A oração e a companhia de homens santos. Você não pode se livrar de uma doença sem a ajuda de um médico. Mas não é o suficiente estar em companhia dos santos apenas por um dia. Você deve buscá-la constantemente, pois a doença tornou-se crônica. Além disso, você não pode entender corretamente a pulsação, a menos que viva com um médico. Ao acompanhá-lo constantemente, você aprende a distinguir o pulso tranquilo do pulso agitado.
D: O que há de bom na companhia dos santos?

R: Ela produz um anseio por Deus, e o amor a Deus. Não se alcança nada na vida espiritual sem esse anseio. Vivendo constantemente em companhia dos santos, a alma torna-se inquieta por Deus. Esse anseio é como o estado mental de um homem que tem um doente na família. Sua mente está em um perpétuo estado de agitação, pensando em como ele poderia curar o doente. A pessoa deveria também sentir um anseio por Deus assim como aquele que sente um homem que perdeu seu emprego e vaga de um escritório a outro em busca de trabalho. Se ele for rejeitado num lugar por não haver vaga, ele retorna no dia seguinte e pergunta: 'Há alguma vaga hoje?'
Existe uma outra forma: orando a Deus sinceramente. Deus é muito nosso. Deveríamos dizer a Ele, 'Ó Deus, qual é a Tua natureza? Revela-Te a mim. Tens de mostrar-Te a mim, pois, para que outra finalidade me criaste?'
Uma vez alguns devotos Sikhs me disseram: 'Deus é cheio de compaixão.' Eu lhes disse: 'Mas por que deveríamos chamá-Lo de compassivo? Ele é o nosso Criador. Por que haveríamos de nos surpreender se Ele é compassivo conosco? Os pais criam seus filhos. Você chama isso de um ato de bondade? Eles têm de agir dessa forma. Portanto, devemos fazer valer os nossos pedidos a Deus. Ele é nosso Pai e nossa mãe. Não é? Se o filho pede sua herança e pára de comer e de beber para forçar que sua ordem seja atendida, então seus pais lhe darão a sua parte, três anos antes do que estava legalmente prescrito. Ou quando a criança pede alguns centavos para a mãe e diz repetidas vezes: 'Mamãe, me dá estas moedas de um centavo, eu imploro de joelhos!', então a mãe vendo sua ansiedade e incapaz de suportar mais, dá as moedas.'
Um outro benefício alcançado pela companhia de homens santos, é que isso nos ajuda a cultivar o discernimento entre o real e o irreal. Só Deus é real, ou seja, a Substância Eterna, e o mundo é irreal, isto é, transitório. Tão logo o homem encontre sua mente vagando no irreal, ele deve aplicar o discernimento. Quando o elefante estica a sua tromba para comer uma banana do jardim vizinho, seu condutor lhe dá um golpe no focinho.
D: Por que os homens têm tendências pecaminosas?
R: Na criação de Deus existem todos os tipos de coisas. Ele criou os homens maus bem como os homens bons. É Ele quem nos dá as tendências boas e é Ele também quem nos dá as más tendências.

D: Nesse caso, nós não somos responsáveis por nossas más ações, não é?

R: O pecado gera seu próprio resultado. Essa é a Lei de Deus. Você não irá queimar a língua se comer pimenta ardida? Em sua juventude, Mathur levou uma vida muito leviana, e, consequentemente, antes de sua morte sofreu de várias doenças. A pessoa pode não dar-se conta disso na juventude. Eu vi no fogão da cozinha do Templo de Kali, como queimam as lenhas. No início a madeira úmida queima bem. Ela não parece conter muita umidade. Mas quando está suficientemente queimada, toda a umidade se reúne num extremo. Finalmente a água escorre do combustível e apaga o fogo. Portanto, a pessoa deve tomar cuidado com a ira, as paixões e a cobiça. Tome por exemplo no caso de Hanuman. Em um acesso de raiva ele queimou o Ceilão. Então, lembrou que Sita estava vivendo no jardim de Asoka. E começou a tremer de medo achando que o fogo pudesse machucá-la.

D: Por que Deus criou tanta gente perversa?

R: Essa é a vontade Dele, o Seu jogo. Em Sua Maya existe tanto Avydia quanto vydia (ignorância e sabedoria). A escuridão também é necessária. Ela revela ainda mais a glória da luz. Não há dúvida de que a ira, a luxúria e a ganância são ruins. Por que então Deus as criou? Para criar os santos. Um homem torna-se um santo conquistando os sentidos. Existe algo impossível para um homem que dominou suas paixões? Ele pode até mesmo realizar a Deus através da Sua graça. Além disso, veja como todo o Seu jogo da criação é perpetuado através da luxúria. As pessoas más também são necessárias. Uma vez que os inquilinos de um imóvel se rebelaram, o proprietário teve de enviar Golak Choudhoury que era um bandido. Era um administrador tão áspero e cruel que os inquilinos tremiam só de ouvir o seu nome. Existe a necessidade de tudo. Sita disse uma vez a seu marido: 'Rama, seria ótimo se cada casa em Ayodhya fosse uma mansão. Vejo muitas casas antigas e em ruínas.' 'Mas minha querida', disse Rama, 'se todas as casas fossem bonitas, o que fariam os pedreiros?'
Deus criou todas as classes de coisas. Criou árvores boas e também plantas e ervas venenosas. Entre os animais existem os bons, os maus e todos os tipos de criaturas - tigres, leões, serpentes, etc.'
.
D: Senhor, é possível realizar a Deus mesmo vivendo uma vida com a família?
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R: Certamente. Mas como acabei de dizer, a pessoa deve viver em companhia santa e orar incessantemente. A pessoa deveria chorar por Deus. Quando dessa maneira as impurezas da mente tiverem desaparecido, ela realiza Deus. A mente é como uma agulha coberta de lama e Deus é como um imã. A agulha não pode juntar-se ao imã a menos que se livre da lama. As lágrimas lavam a lama, que é nada mais do que a luxúria, a ira, a cobiça e outras más tendências, assim como a inclinação pelos prazeres mundanos. Tão logo a lama desapareça, o ímã atrai a agulha, ou seja, o homem realiza Deus. Somente os puros de coração vêem Deus. Um doente com febre tem excesso de componentes aquosos em seu sistema. Que bem pode fazer o quinino, a menos que se remova esses elementos? Por que a pessoa não haveria de ter a realização de Deus, enquanto vive no mundo? Mas, como já disse, tem-se de viver em companhia dos santos, rezar a Deus, clamar por Sua graça e de vez em quando se retirar para ter momentos de solidão. A menos que no início as plantas de uma trilha sejam protegidas por uma cerca, elas serão destruídas pelo gado.
.
D: Então, aqueles que levam uma vida familiar também terão a visão de Deus, não é?
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R: Todos, certamente, serão liberados. Mas é necessário seguir as instruções do guru, se você seguir um desvio no caminho, irá sofrer na tentativa de desfazer os passos. Demora muito tempo para conseguir a liberação. O homem pode não alcançá-la nesta vida. Talvez realize Deus somente após muitos nascimentos. Sábios como Yanaka cumpriram o seu dever para com o mundo. Cumpriram-no ao trazer Deus em suas mentes, assim como uma bailarina dança levando jarros ou bandejas em sua cabeça. Você já viu como as mulheres do noroeste da Índia caminham conversando e rindo, enquanto levam jarros cheios de água em suas cabeças?

D: Hoje você se referiu às instruções do guru. Como é que vamos encontrá-lo?

R: Nem todos podem ser um guru. Um tronco grande flutua na água e até mesmo pode transportar animais. Mas um pedaço de madeira inútil afunda se um homem se senta sobre ele, e ele se afoga. Assim, em cada época Deus mesmo se encarna como guru para ensinar a humanidade. Satchitananda* apenas é o guru. O que é o conhecimento? E qual é a natureza deste ego? Só Deus é o fazedor e nada mais, isso é conhecimento. Eu não sou o fazedor, sou um mero instrumento nas mãos Dele. Por isso eu digo: 'Ó mãe, és a maquinista, eu a máquina. És a moradora e eu sou a morada. És a condutora e eu sou a carruagem. Movo-me da maneira como me moves. Faço o que me fazes fazer. Falo o que me fazes dizer. Não eu, não eu, mas sim Tu, mas sim Tu.
* (existência-consciência-contentamento)

sábado, 12 de setembro de 2009

Farid ud-Din Attar - O morcego em busca do sol

Certa noite, ouviu-se um morcego dizer:
“Como posso ser incapaz, de mesmo que por um instante, ver o sol?
Passei a vida inteira desesperado porque nem por um momento pude perder-me nele.
Por meses e anos tenho voado para cá e para lá de olhos fechados, e aqui estou eu!”
Um contemplativo interpelou-o:
“O orgulho te persegue, e ainda tens milhares de anos para viajar.
Como pode um ser como tu descobrir o sol? Pode a formiga alcançar a lua?”
“Apesar disso”, teimou o morcego, “continuarei tentando.”
E assim, por mais alguns anos, continuou a procurar, até que lhe faltaram as forças e as asas.
Como ainda não tinha descoberto o sol, imaginou:
“Talvez eu o tenha ultrapassado”.
Ouvindo-o, um pássaro sábio interveio:
“Estás sonhando; só tens voado em círculos e não avançaste nem um passo;
e afirmas, em teu orgulho, que ultrapassaste o sol!”
Isso deixou tão abismado o morcego, que, compreendendo a própria impotência,
humilhou-se completamente, dizendo a si mesmo:
“Encontraste um pássaro com visão interior, não vás mais longe”.

Jetsun Milarepa - Canto para um jovem pastor

Um jovem pastor de nome Sanje Jhap, que tinha dezesseis anos, ficou interessado em saber o que sua mente era realmente. Milarepa testou sua habilidade, instruindo-o a refugiar-se e, em seguida, visualizar uma imagem de Buda em frente ao seu nariz. O rapaz não foi visto por sete dias e seu pai temia que ele estivesse morto. Encontraram-no em um poço de barro sentado e perguntaram-lhe por que ele não tinha retornado para casa por sete dias. O menino disse que eles deviam estar brincando porque ele tinha estado lá somente um pequeno período - contudo foram sete dias. Enquanto dava-lhe instruções, Milarepa cantou para ele a respeito de sua mente:



Ouça-me, caro pastor, o protetor das ovelhas!

Ao meramente escutar sobre o sabor do açúcar,

A doçura não pode ser experimentada.

Embora sua mente possa compreender

O que a doçura é,

Ela não pode experimentá-la diretamente.

Apenas a língua pode conhecê-la.

Da mesma forma, não se pode ver plenamente a natureza da mente,

Embora a pessoa possa ter um vislumbre dela,
Se ela foi apontada pelos que a conhecem,

Se a pessoa não se baseia apenas nesse vislumbre

Mas continua procurando pela natureza da mente,

Ela irá ao final vê-la totalmente.

Caro pastor, dessa forma você deveria observar a sua mente.




Ouça-me, jovem pastor.

O corpo está entre o estado consciente e inconsciente,

Enquanto a mente é o fator crucial e decisivo!

Aquele que é afligido por sofrimentos nos reinos inferiores,

É o prisioneiro de Samsara.

No entanto, é a mente que pode livrá-lo de Samsara.

Certamente você quer alcançar a outra margem?

Certamente você anseia pela cidade do Bem-estar e da Liberação?

Se tiver vontade de ir, meu filho,

Posso mostrar-lhe o caminho

E dar-lhe as instruções.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Hazrat Inayat Khan - Vibrações (1923)

A vida silenciosa experimenta na superfície em razão da atividade. A vida silenciosa parece como a morte em comparação com a vida de atividade da superfície. Apenas para o sábio a vida eterna parece preferível à natureza momentânea e em constante mudança da vida mortal. A vida na superfície parece ser a vida real porque é nessa vida que toda a alegria é experimentada.
Na vida silenciosa não há alegria, apenas paz. O Ser original da alma é a paz e a natureza dela é a alegria, ambos os quais trabalham um contra o outro. Essa é a causa oculta de toda a tragédia da vida. Originalmente a alma é sem nenhuma experiência; ela experimenta tudo quando abre seus olhos para o plano exterior, e mantém-nos abertos apreciando a vida na superfície até que se satisfaça. A alma então começa a fechar seus olhos para o plano exterior e constantemente busca paz, o estado original de seu Ser.
A parte interna e essencial de todo e qualquer ser é composta de vibrações finas e a parte externa é formada de vibrações grosseiras. A parte mais fina chamamos de espírito e a parte grosseira de matéria, a primeira estando menos sujeita a mudança e destruição e a segunda mais sujeita a elas. Tudo o que vive é espírito e tudo o que morre é matéria; e tudo que morre no espírito é matéria e tudo o que vive na matéria é espírito. Tudo o que é visível e perceptível parece estar vivo, embora esteja sujeito à morte e decadência e resolvendo-se a cada momento em seu elemento mais fino, porém a visão do homem está tão iludida por sua cognição do mundo aparente, que o espírito que realmente vive é coberto sob a vestimenta da matéria e seu verdadeiro ser é escondido.
É o aumento gradual da atividade que faz as vibrações se materializarem, e é sua diminuição gradual o que as transmuta novamente em espírito. Como tem sido dito, as vibrações passam por cinco fases distintas enquanto mudam do sutil para o grosseiro, e os elementos – éter, ar, fogo, água e terra- tem cada um seu sabor, cor e forma peculiares a si próprios. Portanto, os elementos formam uma roda que no devido tempo os traz todos para a superfície. A cada passo na sua atividade eles variam e tornam-se distintos uns dos outros, e é o agrupamento dessas vibrações que causa a variedade no mundo objetivo. A lei que os faz dispersarem-se, o homem chama de destruição.
As vibrações transformam-se em átomos e os átomos geram o que chamamos de vida, então acontece que seu agrupamento através da força de afinidade da natureza, forma uma entidade viva. E na medida em que a respiração manifesta-se através da forma, o corpo torna-se consciente. Em um indivíduo existem muitos seres sutis e pequenos escondidos: no sangue, nas células do cérebro, na sua pele e em todos os planos de sua existência.
Assim como no corpo físico de um indivíduo vários pequenos germes que são seres vivos, nascem e são nutridos, também no plano mental existem muitos seres, denominados muwakkals – ou elementais. Essas são entidades ainda mais sutis nascidas dos próprios pensamentos do homem, e assim como os germes vivem no corpo físico os elementais habitam na esfera mental. O homem frequentemente imagina que os pensamentos são sem vida; ele não imagina que eles são mais vivos do que os germes físicos, e que eles têm nascimento, infância, juventude, velhice e morte. Eles trabalham para o benefício do homem ou para prejudicá-lo, dependendo da natureza deles. O Sufi os cria, molda e controla. Ele os ensina e os governa durante sua vida, os pensamentos formam seu exército e cumprem seus desejos. Assim como os germes constituem o ser físico do homem e os elementais sua vida mental, também os anjos constituem sua vida espiritual. Eles denominam-se farishtas.
Como regra as vibrações têm comprimento e largura, e elas podem durar a menor fração de um momento ou uma grande parte da vida do universo. Elas produzem diferentes formas, figuras e cores conforme surgem, uma vibração criando outra; assim, miríades delas surgem de apenas uma. Dessa maneira existem círculos sob círculos e círculos sobre círculos, todos os quais formando o universo.
Toda vibração após a sua manifestação funde-se novamente na sua fonte original. O alcance das vibrações é determinado pela sutileza do plano do seu ponto de partida. Falando de maneira mais simples, a palavra falada pelos lábios pode atingir apenas o ouvido do ouvinte, mas o pensamento procedente da mente alcança longe, atravessando rapidamente de mente para mente. As vibrações da mente são muito mais fortes do que as das palavras. Os sentimentos sinceros de um coração podem penetrar o coração de outro, eles falam no silêncio, espalham-se na esfera, fazendo com que a própria atmosfera da presença de uma pessoa proclame seus pensamentos e emoções. As vibrações da alma são as mais poderosas e de longo alcance; elas correm como uma corrente elétrica de alma para alma.
Todas as coisas e seres no universo estão conectados uns com os outros – visível ou invisivelmente – e através das vibrações uma comunicação é estabelecida entre eles em todos os planos de existência. Como um exemplo ordinário: se uma pessoa tosse numa assembleia, muitas outras começam a fazer o mesmo, assim como no caso do bocejo. Isso também se aplica à risada, euforia e depressão. Isso mostra que as vibrações transmitem a condição de um ser para o outro. O visionário, portanto, sabe o passado, o presente e o futuro e percebe as condições em todos os planos de existência. As vibrações trabalham através do acorde da simpatia entre o homem e o meio que o cerca e revela as condições presentes, passadas e futuras. Isso explica o porque do uivo dos cães predizer a morte, e o relincho dos cavalos a aproximação do perigo. Não apenas os animais mostram isso, mas mesmo as plantas em tempos de tristeza começam a morrer e as flores a murchar, enquanto que em tempos de alegria elas crescem e florescem.
A razão das plantas e dos animais poderem perceber as vibrações e saberem a chegada dos eventos enquanto o homem é ignorante disso, é porque ele tem cegado a si mesmo com o egoísmo.
A influência das vibrações é deixada na cadeira onde a pessoa senta, na cama onde dorme, na casa onde vive, nas roupas que ela usa, na comida que come e mesmo na rua onde anda.
Cada emoção surge da intensidade das vibrações que, quando ativas em diferentes direções, produzem diferentes emoções; e a causa principal de toda emoção é a atividade apenas. Cada vibração enquanto ativa eleva a consciência à superfície mais externa, e a névoa causada por essa atividade acumula nuvens, as quais chamamos emoções. As nuvens das emoções obscurecem a clara visão da alma. Por isso a paixão é chamada de cega. O excesso de atividade de vibrações não apenas cega, mas enfraquece a vontade e uma vontade fraca enfraquece a mente e o corpo.
É o estado de vibrações ao qual o homem está sintonizado que conta para a nota de sua alma. Os graus diferentes dessas notas formam uma variedade de tons divididos pelos místicos em três categorias distintas. A primeira, é a categoria que produz poder e inteligência e que pode ser retratada como um mar calmo. A segunda, é a categoria de atividade moderada, que mantém todas as coisas em movimento e é um equilíbrio entre poder e fraqueza, a qual pode ser retratada como um mar em movimento. E a terceira, é a categoria de atividade intensa que destrói tudo e causa fraqueza e cegueira, ela pode ser retratada como um mar tempestuoso.
Nas atividades de todas as coisas e seres o tom é reconhecido pelo visionário, assim como um músico reconhece a clave em que determinada musica está escrita. A atmosfera do homem revela a categoria de atividade de suas vibrações.
Se a atividade vibratória é controlada de maneira apropriada o homem pode apreciar toda a alegria da vida e ao mesmo tempo não ser escravizado por ela. É muito difícil controlar a atividade uma vez que ela foi iniciada e durante o desenvolvimento dela, pois é como tentar controlar um cavalo fugitivo. Mas é nesse controle que está tudo o que é chamado de as propriedades de um mestre.
Os santos e os sábios espalham sua paz não apenas no lugar onde sentam, mas até mesmo no bairro onde habitam; a cidade ou o país onde eles moram fica em paz, de acordo com o poder de vibrações que eles emanam de suas almas. Essa é a razão porque a associação com o que é bom ou ruim e com coisas de classe superior ou inferior, tem uma grande influência sobre a vida e o caráter do homem.
A intensidade de atividades produz vibrações fortes que na terminologia Sufi denomina-se jelal, e como já mencionado, trabalham como força e poder, a suavidade de atividades causa vibrações brandas chamadas jemal, que trabalham como beleza e graça. O conflito entre essas duas forças é denominado kemal, que causa destruição.
O padrão de certo e de errado, a concepção de bem e de mal e a idéia de pecado e de virtude são entendidos de maneira diferente por pessoas de diferentes raças, nações e religiões; portanto, é difícil discernir a lei que governa esses opostos. Entretanto, torna-se claro ao entendermos a lei das vibrações. Todas as coisas e seres na superfície da existência parecem estar separados uns dos outros, mas em cada plano sob a superfície, ficam mais próximos uns dos outros, e no plano mais profundo todos se tornam um. Portanto, cada perturbação causada a um pedaço da menor parte da existência na superfície, internamente afeta o todo. Assim, qualquer pensamento, fala ou ação que perturba a paz está errado, é ruim e é um pecado. Se traz paz está correto, é bom e é uma virtude. A vida sendo um domo, tem sua natureza como um domo. Uma perturbação da menor parte da vida perturba o todo e retorna como uma maldição sobre a pessoa que a causou. Toda paz produzida na superfície conforta o todo, e por consequência, retorna como paz ao produtor. Essa é a filosofia da recompensa pelas boas ações e da punição pelas más ações, dada pelas forças superiores.

domingo, 6 de setembro de 2009

Meher Baba - O primeiro impulso (God Speaks 3)

No início, a alma não tinha impressões (sanskaras) e nem consciência. Portanto, nessa fase, ou, nesse estado, a alma não tinha forma ou um corpo grosseiro, corpo sutil ou corpo mental, pois apenas a existência de impressões grosseiras, sutis e mentais (sanskaras) pode dar existência aos corpos grosseiro, sutil e mental, e apenas a existência desses corpos pode tornar possível a existência dos mundos grosseiro, sutil e mental.
Portanto, no início, a alma não tinha consciência dos corpos grosseiro, sutil e mental e também era inconsciente de seu próprio Ser (Self), e a alma então, naturalmente, não tinha nenhuma experiência dos mundos grosseiro, sutil e mental e também não tinha nenhuma experiência da Sobre-Alma (Paramatma).
Esse estado infinito, sem impressões, inconsciente e tranquilo da alma reverberou com um impulso que nós chamamos O PRIMEIRO IMPULSO (de conhecer a si mesma).
O primeiro impulso estava latente em Paramatma.
Quando comparamos Paramatma a um oceano infinito e ilimitado e quando dizemos que Paramatma teve o primeiro impulso, também poderíamos dizer, a título de comparação, que o infinito e ilimitado oceano teve o primeiro impulso ou FANTASIA.
No infinito, tanto o finito quanto o infinito estão incluídos.
Agora, esse primeiro impulso foi infinito ou finito, e num primeiro momento foi finito e então infinito, ou vice-versa?
O primeiro impulso foi o mais finito, mas ele foi o primeiro impulso do Infinito. Esse primeiro impulso mais finito foi do oceano infinito - Paramatma e a manifestação desse primeiro impulso latente mais finito do Infinito foi restrito a um ponto mais finito no infinito Oceano ilimitado.
Mas como este ponto mais finito de manifestação do primeiro impulso latente, que era o mais finito, também foi no infinito Oceano ilimitado, esse ponto mais finito de manifestação do primeiro impulso foi também ilimitado. Através deste ponto mais finito de manifestação do primeiro impulso (também mais finito), a sombra do Infinito (sombra, que sendo da Realidade, é infinita) gradualmente apareceu e prosseguiu em expansão. Esse ponto mais finito de manifestação do primeiro impulso latente é chamado de Ponto "Om" ou Ponto da Criação e esse ponto é ilimitado.
Simultaneamente com as reverberações do primeiro impulso, a primeira impressão mais grosseira surgiu, objetivando a alma como a contraparte grosseira mais absolutamente oposta e mais finita do Infinito.
Devido a essa primeira impressão mais grosseira do primeiro impulso, a alma infinita experimentou pela primeira vez. Essa primeira experiência da alma infinita foi que ela (a Alma) experimentou uma contrariedade na sua identidade com o seu estado infinito, sem impressões e inconsciente.
Essa experiência de contrariedade gerou mutabilidade na estabilidade eterna e indivisível da alma infinita e, espontaneamente, ocorreu um tipo de erupção, perturbando o equilíbrio indivisível e a tranquilidade inconsciente da alma infinita com um rechaço ou choque tremendo que impregnou a inconsciência da Alma inconsciente com a primeira consciência de sua aparente separação do estado indivisível de Paramatma. Mas a Alma, sendo infinita, a primeira consciência que foi derivada do rechaço ou choque de uma primeira impressão mais grosseira absolutamente oposta de sua aparente separação, foi naturalmente e necessariamente uma primeira consciência finita.
Essa primeira consciência derivada pela Alma é evidentemente a mais 'maximamente-finita' em proporção à experiência de seu próprio estado original infinito, absolutamente oposto.
Isso significa então que, no início, quando a infinita Alma sem impressões foi pela primeira vez impressionada, teve como sua primeira impressão uma impressão absolutamente grosseira. E a primeira consciência que ela (a alma) derivou foi a mais 'maximamente-finita'.
Simultaneamente, nesse instante, a inconsciência da Alma infinita experimentou, de fato, a primeira consciência mais 'maximamente-finita' de todas, vinda da primeira impressão mais finita.
Essa Alma infinita e eterna teve consciência, mas essa consciência através de uma impressão não foi de seu estado eterno ou de seu Ser infinito, mas foi a consciência mais-finita, através da impressão mais-grosseira.
Então, como será explicado mais tarde, se a Alma estiver consciente de impressões (sanskaras), então a alma deverá necessariamente experimentar essas impressões, e para experimentar as impressões, a consciência da alma deve experimentá-las através de um meio adequado.
Conforme forem as impressões, serão as experiências das impressões e o meio para experimentar as impressões deverá ser de acordo. Isto é, as impressões dão origem às experiências, e para experimentar as impressões o uso de um meio (veículo) adequado é preciso.
Portanto, como a Alma infinita, eterna e sem forma agora tem a primeira consciência mais 'maximamente-finita' da primeira impressão mais 'maximamente-grosseira', obvia e necessariamente essa mais 'maximamente-finita' primeira consciência da alma deve utilizar o mais 'maximamente-finito' e o mais 'maximamente-grosseiro' primeiro meio para experimentar a mais 'maximamente-grosseira' primeira impressão.

Nesta fase, cabe aqui mencionar para a limitada compreensão humana que a mais 'maximamente-finita' primeira consciência da alma, enquanto experimentando a mais 'maximamente-groseira' primeira impressão, centrou-se em um meio adequado mais 'maximamente-finito' e mais 'maximamente-grosseiro' imperceptivelmente, criando a tendência da Alma (sem forma) associar e identificar seu próprio Ser infinito e eterno com essa forma limitada mais grosseira e mais finita como seu primeiro meio (veículo).
A primeira consciência da Alma indivisível, experimentando a primeira impressão através do primeiro meio, cria uma tendência na alma de associar e identificar seu Ser eterno e infinito com a primeira forma, a mais-finita e mais-groseira, que foi como a semente da contrariedade espontaneamente semeada pelas reverberações do primeiro impulso, imperceptivelmente germinada e manifestada na forma de dualidade pela primeira vez. Quando acontece de ela associar-se e identificar a si mesma, através de sua consciência recém-adquirida, com a forma ou meio finito e grosseiro, a consciência da alma faz realmente a Alma infinita, eterna, indivisível e sem forma ter a experiência que ela é aquela forma finita e grosseira.
Assim, a consciência adquirida pela alma inconsciente, ao invés de experimentar a realidade através da unidade e identidade com a Sobre-Alma, experimenta a ilusão através da dualidade e identidade com a forma grosseira, multiplicando diversificadas e inumeráveis impressões em uma série de experiências enquanto vai se associando com a forma grosseira e gradualmente ganhando ou evoluindo mais e mais a consciência.

Seguidamente, eras após eras e ciclos após ciclos, essa cadeia de sucessivas associações e dissociações com variadas espécies de uma forma em particular segue adiante constante e progressivamente e produz inúmeras impressões diferentes a serem experimentadas pela alma consciente. Direta e indiretamente, estas associações e dissociações da consciência da alma são absolutamente essenciais para manter girando a roda da evolução da consciência. A evolução das formas grosseiras é apenas um subproduto da fábrica universal de evolução da consciência.

Para atingir o desenvolvimento completo da consciência na forma humana, o processo evolutivo teve de dar sete grandes saltos, são eles: de pedra para metal, de metal para vegetal, de vegetal para verme, de verme para peixe, de peixe para pássaro, de pássaro para animal e, finalmente, de animal para o ser humano, cada transição com características diferentes.

Por a Consciência da alma estar totalmente desenvolvida na forma humana, a evolução da forma também está completa, e agora, quando a alma consciente identifica a si mesma com a primeira forma humana de todas, nenhuma nova forma superior é desenvolvida. Em resumo, na forma humana a consciência da alma é plena e completa. O processo de evolução da consciência é levado a uma paralisação. A forma humana é a mais elevada e mais sublime forma desenvolvida durante a evolução da consciência. Assim, no ser humano a consciência está totalmente desenvolvida e a forma moldada e projetada após eras e ciclos é a mais perfeita forma ou meio. A consciência da alma, portanto, utiliza esse meio perfeito para experimentar e esgotar completamente todas as impressões para que a alma plenamente consciente torne-se desprovida de qualquer impressão que seja, sendo assim capaz de perceber seu próprio estado real, eterno e infinito na Sobre-Alma.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Lao Tzu - Tao Te Ching - Verdadeiramente Grandioso

O grande Tao flui por toda parte.
Todas as coisas nascem dele
embora ele não as crie.
Ele se derrama em seu trabalho,
mesmo assim não faz reivindicações.
Nutre mundos infinitos
e ainda assim não se prende a eles.
Sendo que está fundido com todas as coisas
e escondido em seus corações,
pode ser chamado humilde.
Uma vez que todas as coisas se esvaem para dentro dele
e apenas ele perdura,
pode ser chamado de grandioso.
Ele não está ciente de sua grandeza;
portanto é verdadeiramente grandioso.

Ramesh S. Balsekar - A natureza da Consciência


Pergunta: Essa 'fonte' da qual você fala, é separada em cada individuo ou é algo que encobre todo mundo?
.
Ramesh: É algo que encobre a todos. Está dentro de todos, de todo objeto.
.
P: Uma parte é separada e dada para mim e outra parte para outra pessoa?
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R: Não, não. É tudo um. Essa é a totalidade da qual os místicos têm falado a respeito por centenas de anos, e que os cientistas têm falado desde que a mecânica quântica foi desenvolvida. Tudo o que há, é essa totalidade e unidade que não pode ser separada.
A Consciência impessoal é o Shiva ou Atman, ou o Ser, como Ramana Maharshi costumava dizer. E o jiva ou o ser que é o “ser egoísta”, é a consciência identificada. O que Ramana Maharshi costumava dizer é que a Consciência é o oceano todo. A Consciência universal ou o Ser, é o oceano e o jiva ou a consciência identificada é uma bolha. Mas a bolha em si, enquanto permanece uma bolha, está aparentemente separada. Entretanto, o que é a bolha senão água? E quando a bolha estoura, para onde ela vai? Ela se torna o oceano.
Quando a compreensão acontece, não faz diferença quais palavras são usadas ou que mestre as usou. Cada mestre usou palavras diferentes apenas por uma razão: sua audiência era diferente, as circunstâncias diferentes, as pessoas diferentes e os tempos diferentes.
Nisargadatta me disse uma vez e fiquei surpreso quando ele disse: 'Muitos de meus colegas não gostam do que eu digo, pois eu não estou repetindo como um papagaio as palavras que meu guru usava. O que sai de meus lábios é o que você precisa, não o que os meus colegas e eu precisamos.” O que me surpreendeu foi quando ele adicionou: “Quando você falar, o que você dirá não será uma repetição do que eu estive dizendo”. Assim, muitas pessoas que costumavam ir ao Nisargadatta não gostam do que eu digo. Eles falam: “Isso não é o que o Maharaj disse!” É claro que não é o que ele disse!

P: De acordo com o que você diz, a Consciência é todas as coisas.

R: Sim.

P: A Consciência criou o 'eu'?

R: Sim. O 'eu' não é nada além da Consciência. A forma é uma outra questão. Mas o 'eu' ainda é a Consciência que criou a identificação dentro do corpo na forma de um 'eu'.

P: Se o sentido de 'eu' vem da Consciência, a Consciência está ali, não é?

R: Ela está ali. Ela está aqui, e estará aqui mesmo quando este organismo corpo-mente não estiver aqui. Esse é o ponto. É por isso que a questão básica do Zen é: “Qual era a sua face original? Qual era a sua natureza real antes de os seus pais nascerem?” Sua natureza verdadeira não começou com o seu nascimento e não irá perecer com a morte do corpo.

P: No livro 'Antes da Consciência', Nisargadatta Maharaj diz: “a Consciência é tudo o que há”. Ele diz isso uma porção de vezes, mas às vezes ele fala da Consciência de uma maneira negativa, que deveríamos ir antes da Consciência. Ele fala dela de duas maneiras diferentes, como o Absoluto e como algo que está nos impedindo. Ele sugere que temos de ir além da Consciência. Eu não entendo.

R: A Consciência, quando ele fala dela como um obstáculo, é a Consciência identificada. Antes da Consciência é a Consciência-em-repouso, que é a nossa natureza real. Então ele fala sobre o 'numenal' e o fenomenal. Na fenomenalidade, este sentido de presença é o estado desperto, e é quando sua mente está ativa. Então o sentido de presença que ele considera ser uma obstrução, é o sentido de presença no estado desperto, que implica a contínua conceitualização da mente. A mente não conceitualiza, não pode conceitualizar no sono profundo, porque o sentido de presença está ausente. No 'Antes da Consciência', o que ele fala a respeito, é a ausência de ambos, a presença do sentido de presença e da ausência do sentido de presença onde a questão da Consciência não surge de maneira alguma. Pois no estado de repouso, a Consciência nem mesmo está ciente de si mesma.

P: Por que ela não está ciente de si mesma?

R: Porque não existe 'outro' (algo separado) para estar ciente.

P: Então, o antes da Consciência é a Consciência-em-repouso? E não significa a ausência dela. Não é apenas a pura Consciência?

R: É a pura Consciência. Esse estado não está negando a Consciência. Ele nega essa alternância da presença e da ausência da Consciência que ocorre apenas na fenomenalidade, portanto está negando a própria fenomenalidade.

P: Quem é que faz essa negação da fenomenalidade?

R: É a mente. Portanto, a Realidade última só pode existir quando ocorre a negação do próprio negador. Quando a própria mente é negada, não há nenhuma 'pessoa' para negar. Não há nenhuma 'pessoa' para pensar sobre um conceito a respeito da realidade. Esse é um estado onde nenhum conceito é possível.

P: Essa é a pura Consciência?

R: Sim, você pode chamá-la de pura Consciência, Consciência-em-repouso.

P: Anterior à consciência identificada?

R: Contanto que você a entenda, não há necessidade de nenhuma palavra.

P: Ela também é impura?

R: A partir do momento em que você a nomeia pura Consciência, ela fica impura.

P: Você diz que isto é “tudo um mundo de sonhos, uma ilusão”, e que nós criamos toda manifestação. Ao mesmo tempo você diz que para que a mente e a Consciência possam aparecer, tem de haver um corpo. O que vem primeiro, o corpo ou a Consciência?

R: Tudo o que existe é a consciência. Naquele estado original chame-o de realidade, chame-o de absoluto, chame-o de um nada, naquele estado não havia razão de estar ciente de nada. Assim a Consciência-em-repouso não estava ciente de si mesma. Ela tornou-se ciente de si mesma apenas quando esse repentino sentimento 'Eu Sou' surgiu. O 'Eu Sou' é o sentimento impessoal de estar ciente. E foi aí que a Consciência-em-repouso tornou-se Consciência-em-movimento, quando a energia potencial tornou-se energia de fato. Elas não são duas. Nada separado sai da energia potencial.
A Consciência-em-movimento não está separada da Consciência-em-repouso. A Consciência-em-repouso torna-se a Consciência-em-movimento, e esse momento que a ciência chama de Big Bang o místico chama de o repentino surgimento da consciência (awareness).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Jalaluddin Rumi - O Ser que compartilhamos

A sede está brava com a água. A fome, desgostosa
com o pão. A caverna não quer nada relacionado com

o sol. É dessa maneira estúpida e autoderrotadora
que temos estado. Uma mina de ouro está

nos chamando para dentro de seu templo. Em vez disso, nos
curvamos e continuamos a pegar pedras do

chão. Cada coisa tem um brilho como do ouro,
mas deveríamos nos voltar para a fonte! A

origem é o que realmente somos. Eu coloco um pouco
de vinagre no mel que ofereço. Um pouco de

repreensão torna o êxtase mais familiar. Mas
olhe, peixe, você já está no oceano:

apenas nadar aí torna-o amigo da
glória. Esses rancores são a respeito do que? Você

é Benjamim. José colocou uma taça de ouro
no seu saco de grãos e acusou-lhe de ser

um ladrão. Agora ele lhe puxa de canto e diz,
“Você é meu irmão. Sou uma oração. Você é

o amém.” Movemos-nos por regiões eternas, e ainda
preocupamo-nos a respeito de posses aqui. Esta é a

prece de cada um: És a fonte da minha
vida. Separas a essência da lama.

Honras minha alma. Trazes rios das
nascentes das montanhas. Clareias meus olhos. O

vinho que ofereces leva-me de mim mesmo para dentro
do Ser que compartilhamos. Fazer isso é religião
.