quinta-feira, 28 de abril de 2011

Bernard de Clairvaux - Cuide de domar a besta selvagem

Aquele cujo pecado da carne ainda reina não pode esperar por este reino, portanto devemos notar o que se segue: “Abençoados são os mansos”

Sendo que não pode haver acesso ao reino de Deus sem os primeiros frutos do reino, e que aquele ao qual não é dado governar seus próprios membros não pode esperar pelo reino do céu, segue-se: “Abençoados os mansos, pois herdarão a terra” (Mat. 5:5). Colocando mais claramente: “Examine os movimentos não domesticados da vontade e cuide de domar a besta selvagem. Você está cativo. Lute arduamente para desatar o que você não pode jamais quebrar. Essa vontade é a sua Eva. Você não vai triunfar contra ela usando a força”.
Não pode haver atraso. O homem, respirando novamente junto a essas palavras e pensando novamente que sua tarefa não é impossível, envergonhadamente aproxima-se da víbora da raiva e tenta dominá-la. Ele fala das tentações da carne e denuncia as consolações mundanas como sendo vaidades, triviais e sem valor, de vida curta e perigosas para todos aqueles que as amam.



Como colocar um fim nas idas e vindas da luxúria e da glutonia, da vaidade da curiosidade e do amor pelas riquezas.

“Por essa razão,” ele diz: “chame-se de um servo mau e inútil” (Mat. 25:30; Luc. 19:22). Você não pode negar que você nunca foi capaz de satisfazer essas demandas, mesmo que moderadamente. Os prazeres da garganta, que são tão altamente estimados hoje em dia, têm no máximo dois dedos de largura; e o pequeno desfrute desse pequeno fragmento é preparado com tamanha aflição e gera tanta ansiedade! Através disso as partes superior e inferior do corpo são dilatadas e o estomago inchado não é tão engordado quanto é emprenhado pela destruição; e quando os ossos não podem suportar o peso da carne, várias doenças se seguem.
Com que labor e a custo do que (às vezes da boa reputação e da honra e mesmo causando perigo para a vida) é agitado o sedutor turbilhão da luxúria, de modo que os vapores sulfúricos, embora brilhem muito pouco, conduzem suas vítimas enlouquecidas com as incitações e tratam seus corações intoxicados como abelhas, que primeiro derramam o mel e depois picam. Esse é o homem cujo coração está despedaçado, cujos desejos estão cheios de ansiedade e desapontamento, cujos atos são de abominação e infâmia, cujo destino de remorso e vergonha é por fim plenamente reconhecido pelo que é.
Em quê esses espetáculos beneficiam o corpo ou o que parecem conferir à alma? Pois você não encontrará uma terceira parte no homem que se beneficiará da curiosidade. Frívola, vã e vazia é a consolação, e eu não conheço fado mais difícil que pudesse ser trazido para uma pessoa, do que ela sempre ter o que deseja, ela que quando afugenta a doce paz deleita-se na curiosidade inquieta. É muito claro que apenas a passagem de todos esses “deleites” é uma felicidade. Além do mais, é óbvio por seu próprio nome, que a “vaidade das vaidades” não é nada (Ecl. 1:2). Vão de fato é o trabalho que é desempenhado a partir do zelo pela vaidade. “Ó glória, glória”, diz o sábio homem, “dentre os milhares de mortais, você não é nada além de um sopro nos ouvidos!”. E ainda assim, quanta infelicidade você acha que isso produz? (que não é tanto vaidade feliz quanto felicidade vã). Pois ela causa cegueira do coração, como está escrito: “Meu povo, aqueles que vos chamam de abençoados vos enganam” (Isa. 3:12). Isso produz a fúria persistente da animosidade, o ansioso trabalho da desconfiança, a tormenta cruel da frustração e a desgraça da inveja, que recebe mais miséria do que pena.
Assim, o amor insaciável pelas riquezas é um desejo que traz muito mais tormenta para a alma do que o seu desfrute traz descanso. Pois a aquisição de riquezas mostra-se ser labor máximo, sua posse temor máximo e sua perda pesar máximo. Desse modo: “onde há muitas riquezas, há muitos que as consomem” (Ecl. 5:10), e de fato a utilização que as outras pessoas fazem de suas riquezas deixa para o rico apenas a reputação pela riqueza e as precauções da riqueza. E tudo isso por algo tão insignificante. Não pensar nada sobre a glória que o olho não viu e nem o ouvido ouviu, nem entrou no coração do homem, a glória que Deus preparou para aqueles que O amam, parece ser mais do que sem sentido, é uma falta de fé.



Sobre a escravidão indigna aos vícios, a incerteza de quando a morte virá e a infelicidade de juntar riquezas

Certamente é culpa delas mesmas que este mundo, o qual se encontra nas garras do Malvado, ilude com promessas vãs as almas que se esquecem de sua criação e sua dignidade, almas que não se envergonham de alimentar-se com os porcos, de fazer companhia aos suínos em seus desejos e que nem mesmo assim ficam satisfeitas com sua comida nojenta? Daí surge tal debilidade de propósito e degradação miserável que essa nobre criatura não se envergonha de viver numa escravidão a essa imundice dos sentidos do corpo, embora seja capaz de desfrutar de bem-aventurança eterna e da glória da grandeza de Deus. Deus criou-a através de seu próprio sopro, distinguiu-a ao fazê-la à sua imagem, redimiu-a através de seu sangue, deu-lhe fé, adotou-a através do Espírito. Quando a alma deserta tal Noivo e vai atrás de tais amantes, não é surpresa que ela não possa capturar a glória que está preparada para ela. É apropriado que ela anseie por cascas de frutos e que lhe sejam negadas, quando ela prefere alimentar-se com os porcos em vez de regalar-se na mesa do Pai (Luc. 15:16). É o trabalho da loucura alimentar aquele que é estéril e que não produz nada, não estar disposto a dar nada para a viúva, não se importar nada com o coração e dar à carne tudo o que ela deseja, engordar e acarinhar um corpo pútrido que está há muito destinado a ser o alimento dos vermes. Pois quem não sabe que adorar o dinheiro, servir a avareza (que significa servir a ídolos) ou perseguir avidamente a vaidade é uma clara evidência de uma alma degenerada?

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Philokalia - São Gregório Pálamas - A Ciência Natural e Teológica (parte 2)

A língua inspirada e universal do teólogo divino, São João de Damasco, diz no segundo de seus capítulos teológicos: “Um homem que deseja falar ou ouvir qualquer coisa a respeito de Deus deveria saber com toda clareza que no que diz respeito à teologia e à economia divina nem todas as coisas são inexprimíveis e nem todas são capazes de expressão, e que nem todas as coisas são incognoscíveis nem são todas conhecíveis”. Sabemos que essas realidades divinas das quais desejamos falar transcendem a fala, uma vez que tais realidades existem de acordo com um princípio que é transcendente. Elas não estão fora do reino da fala por causa de alguma deficiência, mas estão além do poder conceitual inato dentro de nós ao qual damos expressão quando falamos com os outros. Pois nem nossa fala pode explicar essas realidades através de interpretação, nem nosso poder conceitual inato tem a capacidade de alcançá-las por si próprio através de investigação. Portanto, não deveríamos nos permitir dizer nada concernente a Deus, e sim recorrer àqueles que em Espírito falam das coisas do Espírito, e isso mesmo quando as pessoas requererem alguma afirmação nossa.

É dito que nos portais da academia de Platão estavam inscritas as palavras: “Que não entre nenhum homem que seja ignorante em geometria.” Uma pessoa incapaz de conceber e discursar sobre as coisas inseparáveis como separadas é, de todo modo, ignorante em geometria. Pois não pode haver um limite sem algo limitado. Mas a geometria é quase que totalmente uma ciência de limites e ela até mesmo define e estende limites por eles mesmos, abstraídos daquilo que eles limitam, porque o intelecto separa o inseparável. Como pode, então, uma pessoa que nunca aprendeu a separar em seu intelecto um objeto físico de seus atributos, estar apta a conceber a natureza em si mesma? Pois a natureza não é meramente inseparável dos elementos naturais que lhe são inerentes, mas não pode nem mesmo existir em momento algum sem eles. Como ele pode conceber os universais como universais, sendo que eles existem como tais em particulares e são distinguidos deles apenas pela inteligência e pela razão, sendo percebidos intelectualmente como anteriores aos muitos particulares embora na verdade não possam de maneira nenhuma existir separados desses muitos particulares? Como ele poderá compreender as coisas intelectuais e espirituais? Como poderá entender quando dizemos que cada intelecto também tem pensamento e que cada um de nossos pensamentos é nosso intelecto? Como ele não irá nos ridicularizar e nos acusar de dizermos que cada homem possui duas ou mais mentes?
Se, portanto, uma pessoa não consegue falar ou conceber as coisas indivisíveis como distintas, como poderá discutir ou ser ensinada sobre algo desse tipo no que se refere a Deus, a respeito do qual, de acordo com os santos, existem e é dito existirem muitas uniões e distinções? Mas embora as uniões pertencentes a Deus prevaleçam e sejam anteriores às distinções, elas não as abolem e nem as impedem. Os seguidores de Akindynos, entretanto, não podem aceitar ou compreender a distinção indivisível que existe em Deus, mesmo quando nos ouvem falar, em harmonia com os santos, de uma união dividida. Pois a Deus pertencem a incompreensibilidade e a compreensibilidade, embora Ele em Si seja um. O mesmo Deus é incompreensível em sua essência, mas compreensível pelo que Ele criou de acordo com Suas energias divinas, ou seja, de acordo com Sua vontade pré-eterna relacionada a nós, Sua providência pré-eterna referente a nós, Sua sabedoria pré-eterna no que diz respeito a nós e, usando as palavras de São Máximo, Seu poder, sabedoria e bondade infinitos. Mas quando aqueles que não nos compreendem nos ouvem falar dessas coisas que somos obrigados a dizer, eles nos acusam de falarmos de muitos deuses e de muitas falsas realidades e de tornarmos Deus composto. Pois eles são ignorantes do fato de que Deus é indivisivelmente dividido e é unido divididamente e ainda assim, a despeito disso, não sofre nem multiplicidade nem torna-se composto.

Cada natureza criada está distante e é completamente estrangeira à natureza divina. Pois se Deus é uma natureza, as outras coisas não são natureza; mas se todas as outras coisas são natureza, Ele não é uma natureza, assim como Ele não é um ser se todas as outras coisas são seres. E se Ele é um ser, todas as outras coisas não são seres. E se você aceitar isso como verdade também no que diz respeito a sabedoria, a bondade e a todas as coisas em geral pertencentes a Deus ou atribuídas a Ele, então sua teologia estará correta e de acordo com os santos. Deus é e é dito ser a natureza de todos os seres, na medida que todos participam Dele e subsistem por meio dessa participação: porém, não pela participação em Sua natureza – longe disso – mas pela participação em Sua energia. Nesse sentido ele é o Ser de todos os seres, a Forma de todas as formas bem como o autor da forma, a Sabedoria dos sábios e, simplesmente, o Tudo de todas as coisas. Ademais, Ele não é uma natureza, pois Ele transcende toda natureza; Ele não é um ser, pois transcende todo ser e Ele não é e nem possui uma forma porque Ele transcende a forma. Como, então, podemos nos aproximar de Deus? Ao nos aproximarmos de sua natureza? Mas nem um único ser criado teve ou pode ter qualquer comunicação ou proximidade com a natureza sublime. Assim, se alguém conseguiu aproximar-se de Deus, evidentemente aproximou-se Dele por meio de Sua energia. De que maneira? Através da participação natural nessa energia? Mas isso é comum a todos os seres criados. Desse modo, não é em virtude das qualidades naturais, mas em virtude do que é atingido pela livre escolha que a pessoa fica perto ou longe de Deus. Mas a livre escolha pertence apenas aos seres dotados de inteligência. Portanto, dentre todas as criaturas apenas aquelas dotadas de inteligência podem ficar longe ou perto de Deus, aproximando-se através da virtude ou distanciando-se através do vício. Assim, apenas tais seres são capazes de miséria ou de bênção.

São Paulo ensinou-nos que a alma adornada com inteligencia pode ficar como que morta mesmo possuindo a vida como seu ser, pois ele escreve: “a viúva que só busca prazer já está morta mesmo se vive”(1 Tim 52.6). Ele não podia ter dito pior a esse respeito sobre o presente assunto de nosso discurso, isto é, da alma dotada com inteligencia. Pois se a alma privada do Noivo espiritual não se humilha e não se aflige e não adota uma vida de doloroso e rigoroso arrependimento, e ao invés disso, de maneira libertina mergulha nos prazeres sensuais e na auto-indulgencia, ela está morta mesmo enquanto vive, mesmo que ela seja imortal em essência. Ela tem a capacidade para o que é pior, ou seja, a morte, e da mesma maneira para o que melhor - a vida. O apostolo diz que se uma viúva privada de seu noivo mundano vive só para satisfazer seus prazeres, mesmo que esteja viva em seu corpo, ela está completamente morta em sua alma. Ele também diz em outro lugar: “mesmo quando estávamos mortos por causa de nossos pecados, Deus nos vivificou juntamente com Cristo”(Efé. 2.5). E São João também diz: “existe um pecado que conduz à morte e existe um pecado que não conduz à morte”(1 João 5:16,17). E o Próprio Senhor ao ordenar um homem a: “deixar os mortos enterrarem seus mortos”(Mat. 8.22), deixou claro que aqueles envolvidos no funeral embora vivessem no corpo estavam plenamente mortos em alma.

Os ancestrais de nossa raça desistiram voluntariamente da vigilância e da contemplação de Deus. Eles desconsideraram Seus mandamentos, fizeram de si mesmos uma mente com o espirito morto de satã, e contrariamente à vontade do Criador, comeram da árvore proibida. Despidos de suas vestimentas resplandecentes e vivificantes de esplendor celestial, tornaram-se mortos em espirito como satã. Mas uma vez que satã não é meramente um espirito morto, mas também traz a morte àqueles que aproximam-se dele, e uma vez que aqueles que compartilham de sua escuridão possuíam um corpo através do qual seus conselhos funestos podiam operar, eles transmitiram esses espíritos mortos, esses mercadores da morte, a seus próprios corpos. O corpo humano teria se decomposto imediatamente e retornado de onde ele foi tirado se não tivesse sido preservado pela providência divina e pelo poder divino, pacientemente esperando a decisão Daquele que cria todas as coisas através de Sua palavra apenas. Sem essa decisão absolutamente nada é realizado e ela é sempre justa. Como o salmista diz: “o Senhor é justo e Ele ama a justiça”(Sal. 2:7).

A escritura nos diz: “Deus não criou a morte”(Sab.1:13). Ao contrário ele impediu sua concepção até onde foi possível e até onde foi compatível com Sua justiça para obstruir aqueles aos quais Ele próprio tinha dado livre arbítrio quando os criou. Pois no início Deus deu-lhes um conselho que iria conduzi-los a imortalidade, e para que fossem salvaguardados na medida do possível, Ele transformou seu conselho vivificante num mandamento. Ele claramente prognosticou e advertiu que a morte seria a consequência da rejeição desse mandamento vivificante, de modo que ou através do amor, ou do conhecimento ou do temor, eles se protegeriam da experiência da morte. Sendo que no mais alto grau possível Deus ama, conhece e tem o poder de efetuar o que é vantajoso para cada ser criado, tudo o que vem Dele a nós, mesmo que seja sem que desejemos isso, certamente provará ser para nosso benefício. Por outro lado, devemos muito temer que aquilo que nos engajamos por nossa própria iniciativa, como criaturas dotadas de livre arbítrio, provará ser desvantajoso para nós.
Quando, entretanto, em Sua providência Deus proibiu definitivamente alguma coisa, seja falando diretamente, como Ele o faz no Paraíso e no Evangelho ou seja falando através dos profetas, como ele faz nos Israelitas, ou através dos Apóstolos e de seus sucessores, como o faz na lei da graça, é claramente desvantajoso e destrutivo para nós desejar e possuir isso. E se alguém profere isso a nós e nos induz a obter tal coisa, através de palavras persuasivas ou ao nos encantar com uma aparente amizade, essa pessoa é manifestadamente um inimigo e é hostil a nossa vida.

Dessa forma, seja por causa do amor por Aquele que quer que vivamos (pois por que Deus teria nos criado como criaturas vivas se Ele não quisesse especialmente que vivêssemos?), ou porque reconhecemos que Ele sabe mais o que é vantajoso para nós do que nós mesmos sabemos (e como Aquele que nos concede o conhecimento e é o Senhor do conhecimento não saberia disso incomparavelmente melhor do que nós?), ou por causa do temor de Seu poder Onipotente – não deveríamos ter sido enganados, atraídos e persuadidos naquele momento a rejeitarmos os mandamentos e conselhos de Deus. E o mesmo é válido hoje no que diz respeito a esses mandamentos e conselhos salvadores que recebemos posteriormente. Assim como agora aqueles que não escolhem resistir corajosamente ao pecado e que não se põe a praticar os mandamentos divinos em nada, terminam – se não renovam suas almas através do arrependimento- seguindo o caminho que conduz à morte interna e eterna, também nossos dois ancestrais primais, ao não resistirem àqueles que lhes persuadiam a desobedecer, violaram o mandamento. Por causa disso a sentença previamente proclamada a eles por Aquele que julga de maneira justa, imediatamente efetuou-se, de modo que assim que comeram da árvore eles morreram. Nesse caso eles entenderam na prática o significado do mandamento que haviam esquecido – o mandamento da verdade, do amor, sabedoria e poder – e eles se esconderam de vergonha (ref. Gen. 3 – 7,8), percebendo-se despojados da glória que confere aos espíritos imortais uma vida mais excelente e sem a qual a vida dos seres espirituais é de fato pior do que muitas mortes.

Que ainda não era para o benefício de nossos ancestrais comer da árvore, fica claro quando São Gregório de Nizianzos escreve: “A árvore, na minha visão das coisas, é a contemplação divina, a qual apenas aqueles estabelecidos num alto grau de perfeição podem se aproximar com segurança, enquanto que não é bom para aqueles que ainda são imaturos e ávidos em seus desejos, do mesmo modo que a comida sólida não é boa para aqueles que ainda são frágeis e necessitam de leite”. Mas mesmo se você não quiser referir-se àquela árvore e seu fruto de maneira anagógica à contemplação divina, penso que não seja difícil de ver que comer seu fruto não foi benéfico para nossos ancestrais, uma vez que eles eram ainda imaturos. Na minha opinião, eles viram que a árvore era muito atraente de se olhar e de se alimentar no paraíso. Mas a comida mais atraente para os sentidos não é verdadeiramente e em todos os sentidos boa, e não é boa sempre e nem para todas as pessoas. Ela é boa para aqueles que podem utilizá-la sem serem dominados por ela, e, então, somente quando é necessária, na medida que seja necessária e que seja pela glória Daquele que a criou; mas não é boa para aqueles que não estão aptos a usá-la de tal maneira. Penso que é por causa disso que a árvore foi chamada de a árvore do conhecimento do bem e do mal. (ref. Gen. 2:17)

Pois apenas aqueles plenamente estabelecidos na prática da contemplação divina e das virtudes podem concursar com coisas fortemente atraentes aos sentidos sem afastarem-se da contemplação de Deus e dos hinos e preces a Ele. Apenas tais pessoas podem fazer dessas coisas um material e um ponto de partida para elevarem-se para Deus, e através desse movimento espiritual na direção de Deus podem dominar totalmente os prazeres sensuais. E mesmo que o prazer seja novo e possa ser maior e mais poderoso por causa de sua novidade, eles não permitirão que a inteligência de sua alma seja sobrepujada pelo que é mau, mesmo que seja considerado naquele momento como bom por aqueles totalmente dominados e capturados por aquilo.

O mediador e a causa da morte, de caráter retorcido e astúcia excessiva, introduziu-se numa serpente rastejante no paraíso de Deus. Ele não tornou-se uma serpente (nem poderia, exceto numa forma ilusória; e isso ele preferiu não adotar naquele momento por medo de ser detectado), mas, não ousando se arriscar a uma confrontação aberta, ele escolheu uma aproximação traiçoeira, acreditado que dessa maneira escaparia de ser detectado. Assim, tendo o aspecto visível de um amigo ele poderia secretamente insinuar as coisas mais detestáveis, e pelo fato extraordinário de seu discurso – pois a serpente visível não era dotada de inteligência, nem previamente parecia capaz de falar – ele pôde impressionar Eva e atrair toda sua atenção para si e através de seus artifícios torná-la fácil de se lidar. Dessa forma, ele pôde imediatamente induzi-la a sujeitar-se ao que é inferior e assim escravizá-la a coisas às quais ela estava designada a reinar dignamente, sendo que apenas ela entre os seres visíveis tinha sido honrada por Deus com inteligência e sido criada à imagem do Criador. Deus permitiu isso para que o homem, vendo o conselho vindo de uma criatura inferior a si – e, de fato, o quão inferior a ele é uma serpente – pudesse perceber o quanto era completamente sem valor esse conselho e pudesse corretamente rejeitar com indignação a idéia de se submeter ao que era claramente inferior a ele. Dessa maneira ele preservaria sua própria dignidade e ao mesmo tempo, ao obedecer ao mandamento divino, manteria a fé com o Criador. Assim ele teria vencido facilmente o espírito que havia caído da vida verdadeira e teria recebido a imortalidade abençoada, podendo habitar eternamente na vida divina.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Meher Baba - Maya



Parte I - Falsos Valores


Todo mundo quer conhecer e perceber a Verdade, mas a Verdade não pode ser conhecida e compreendida como Verdade a menos que a ignorância seja conhecida e compreendida como sendo ignorância. Daí surge a importância da compreensão de Maya, ou o princípio da lgnorância. As pessoas lêem e ouvem muito sobre Maya, mas poucos entendem o que ela realmente é. Não basta ter uma compreensão superficial de Maya, é necessário que Maya seja entendida como ela é, na sua realidade. Entender Maya, ou o princípio da Ignorância, é saber a metade da Verdade do universo. A ignorância em todas as suas formas deve desaparecer de modo que a alma possa se estabelecer no estado de Autoconhecimento.
Por isso, é imperativamente necessário que a humanidade saiba o que é falso, que reconheça o que é falso para se livrar do falso ao saber que ele é falso. Qual é a natureza essencial da falsidade? Se o verdadeiro é conhecido como sendo verdadeiro ou se o falso é conhecido como sendo falso, não há falsidade, apenas uma forma de conhecimento. A falsidade consiste em tomar o verdadeiro como sendo falso ou o falso como sendo verdadeiro, isto é, ao considerar que algo é diferente do que realmente é em si mesmo. A falsidade é um erro no julgamento da natureza das coisas.
De um modo geral, existem dois tipos de conhecimento: os julgamentos puramente intelectuais sobre os fatos da existência, e os julgamentos de valor, que implicam na apreciação do valor ou da importância das coisas. Os julgamentos puramente intelectuais ou as crenças derivam sua importância do fato de estarem relacionados com valores de alguma forma. Divorciados de valores, têm muito pouca importância em si mesmos. Por exemplo, ninguém tem muito interesse em contar exatamente o número de folhas de uma determinada árvore, apesar de que do ponto de vista puramente teórico tal informação seria uma forma de conhecimento. Tal informação ou conhecimento é tratado como insignificante porque não está vitalmente ligado a outros valores. O conhecimento intelectual torna-se importante quando permite ao homem perceber certos valores, dando-lhe o controle sobre os meios para sua realização ou quando ele entra na própria avaliação como um importante fator, modificando ou afetando de alguma outra forma os valores aceitos.
Assim como existem dois tipos de julgamento, há dois tipos de falsidade: os erros em aceitar como fatos coisas que não são fatos e erros de avaliação e valorização. Os erros de avaliação podem ser cometidos nos seguintes aspectos: (1) ao tomar como importante o que não é importante, (2) ao tomar como sem importância o que é importante, ou (3) ao dar uma importância a uma coisa diferente da importância que ela realmente tem. Todas essas falsidades são criações de Maya. Embora Maya inclua todas as falsidades do ponto de vista espiritual, há algumas falsidades que contam e algumas falsidades que não contam muito. Se uma pessoa considera um trono ser maior do que ele é, seria uma falsidade, mas isso não importa muito. Por outro lado, se uma pessoa considera o trono como sendo tudo e como o objetivo de sua vida, essa seria uma falsidade que afetaria substancialmente o curso e o significado de sua vida. Em geral, os erros de valorização são muito mais eficazes em desencaminhar, perverter e limitar a vida do que os erros nos julgamentos puramente intelectuais sobre certos fatos objetivos.
Os erros na valorização surgem devido à influência de vontades e desejos subjetivos. Os valores verdadeiros são valores que pertencem às coisas em seu próprio direito. Eles são intrínsecos e por serem intrínsecos são absolutos e permanentes e não são passíveis de mudança de tempos em tempos ou de pessoa para pessoa. Falsos valores são derivados de desejos ou vontades. Eles são dependentes de fatores subjetivos e sendo assim dependentes, são relativos e impermanentes, podendo sofrer alterações ao longo do tempo e de pessoa para pessoa.
Por exemplo, um indivíduo que está com muita sede e está em um deserto como o Saara pensa que nada é mais precioso do que a água, enquanto alguém que tem em mãos uma abundância de água e que não está com muita sede não dá a mesma importância a ela. Da mesma forma, uma pessoa que está com fome, considera a comida muito importante, mas o indivíduo que teve um jantar completo nem sequer pensa em comida até que esteja com fome novamente. A mesma coisa aplica-se a outros desejos e anseios que projetam valores imaginários e relativos para os objetos que satisfarão esses desejos e anseios.
O valor dos objetos dos sentidos é grande ou pequeno de acordo com a intensidade ou a urgência com que são desejados. Se esses desejos e anseios aumentam, os objetos correspondentes assumem maior importância. Se sua intensidade ou urgência diminui, os objetos também perdem muito de sua importância. Se os desejos e anseios aparecem intermitentemente, eles retêm seu possível valor quando os desejos e anseios estão latentes e seu valor real quando eles se manifestam. Esses são todos os falsos valores, pois não são inerentes aos próprios objetos. Quando, à luz do verdadeiro conhecimento, todos os desejos e anseios desaparecem completamente, os objetos trajados com importância através da operação desses desejos e anseios perdem imediatamente toda sua importância emprestada e parecem sem sentido.
Assim como uma moeda que não esteja em uso corrente é tratada como sem valor, embora tenha uma espécie de existência, os objetos dos desejos e anseios, quando vistos em sua vacuidade são tratados como falsos, ainda que esses objetos posam continuar a ter algum tipo de reconhecimento. Eles todos existem e podem ser conhecidos e vistos, mas já não significam a mesma coisa. Eles sustentam a falsa promessa de satisfação de uma imaginação pervertida pela luxúria e pelos desejos; ainda assim, para uma percepção tranquila e constante, são vistos como sem importância alguma quando considerados como separados da alma.
Quando um ente querido morre, há tristeza e solidão, mas essa sensação de perda está enraizada no apego à forma, independentemente da alma. É a forma que desapareceu e não a alma. A alma não está morta; em sua verdadeira natureza ela nem mesmo foi embora, pois ela está em toda parte. No entanto, através de apego ao corpo, a forma era considerada importante. Todos os anseios, desejos, emoções e pensamentos estavam centradas sobre a forma, e quando, a forma desaparece através da morte, existe um vácuo, que se expressa através de falta do falecido.
Se a forma como tal não tivesse sido sobrecarregada com falsa importância, não haveria tristeza em perder a pessoa que faleceu. O sentimento de solidão, a memória persistente da pessoa amada, o anseio de que ele ou ela devesse ainda estar presente, as lágrimas de luto e os suspiros de separação, devem-se todos à valorização falsa, ao trabalho de Maya. Quando uma coisa sem importância é considerada importante, temos uma manifestação principal do trabalho de Maya. Do ponto de vista espiritual, é uma forma de ignorância.
Por outro lado, o trabalho de Maya também se expressa ao fazer uma coisa importante parecer banal. Na realidade, a única coisa que tem importância é Deus, mas muito poucas pessoas estão realmente interessadas em Deus por Si mesmo. Se por acaso a pessoa mundana voltasse para Deus, é principalmente para seus próprios fins egoístas e mundanos. Eles buscam a satisfação de seus próprios desejos, esperanças e até mesmo vingaças através da intervenção do Deus de sua imaginação. Eles não buscam a Deus como a Verdade. Eles anseiam por todas as coisas, exceto a única Verdade, a qual consideram como sem importância. Novamente isso é a cegueira da visão causada pelo trabalho de Maya. As pessoas buscam sua felicidade em tudo, exceto em Deus, o qual é a única fonte inesgotável de alegria permanente.
O trabalho de Maya também expressa-se ao fazer a mente dar uma importância para algo diferente da importância que aquilo realmente tem. Isso acontece quando os rituais, cerimônias e outras práticas religiosas externas são considerados como fins em si mesmos. Eles têm seu próprio valor como meios para um fim, como veículos da vida, como meios de expressão, mas, tão logo assumem créditos a seu próprio favor, está recebendo uma importância diferente daquela que lhes pertence. Quando são considerados importantes em si mesmos, eles limitam a vida ao invés de servir o propósito de expressá-la. Quando é permitido que o inessencial predomine sobre o essencial, dando-lhe importância errada, tem-se a terceira forma principal de ignorância relativa a avaliação. Este novamente é o trabalho de Maya.



Parte II - Falsas Crenças






As algemas que mantêm a alma em um cativeiro espiritual, consistem principalmente de valores errados ou falsidades referentes à valorização. Algumas falsidades relacionadas a crenças erradas, também desempenham um papel importante no processo de manter a alma em cativeiro espiritual. Falsas crenças implementam falsos valores, e estes, por sua vez, reúnem força dos falsos valores nos quais a alma baseou-se. Todas as falsas crenças assim como os falsos valores são grandemente criações de Maya, e eles são usados por Maya para manter a alma em suas garras, ainda na ignorância.
Maya se torna irresistível ao apossar-se da própria sede do conhecimento, que é o intelecto humano. Sobrepujar Maya é difícil porque, com o intelecto sob o seu domínio, Maya cria barreiras e sustenta falsas crenças e ilusões. Ela cria barreiras para a realização da Verdade através de tentativas persistentes de sustentar e justificar as crenças errôneas. O intelecto que funciona em liberdade prepara o caminho para a Verdade, mas o intelecto que é um joguete nas mãos de Maya cria obstáculos para a verdadeira compreensão.
As falsas crenças criadas por Maya são tão profundamente enraizadas e fortes que parecem ser auto-evidentes. Elas assumem a feição de verdades autênticas e são aceitas sem questionamento. Por exemplo, uma pessoa acredita que ela é seu corpo físico. Normalmente, nunca lhe ocorre que ela pode ser algo diferente de seu corpo. A identificação com o corpo físico é assumida por ela instintivamente, sem exigência de uma prova, e ela mantém a crença mais fortemente ainda porque ela é independente de uma prova racional.
A vida de um indivíduo é centrada em torno do corpo físico e seus desejos. Abandonar a crença de que ele é o corpo físico envolve o abandono de todos os desejos relacionados com o corpo físico e os falsos valores que eles implicam. A crença de que ele é seu corpo físico é propícia aos desejos físicos e apegos, mas a crença de que ele é algo diferente do seu corpo físico é contrária aos desejos e apegos aceitos. Portanto, a crença de que o indivíduo é o seu corpo físico torna-se natural. É uma crença fácil de manter e difícil de se desenraizar. Por outro lado, a crença de que ele é algo diferente de seu corpo físico parece exigir uma prova convincente. É difícil de segurar e fácil de resistir. Igualmente, quando a mente não está sobrecarregada com todos os desejos e apegos físicos, a crença de que ele é seu corpo físico é vista como falsa e a crença de que ele é algo diferente de seu corpo é vista como verdade.
Mesmo quando uma pessoa consegue deixar cair a falsa crença de que ela é o corpo físico, ela continua a ser uma vítima da falsa crença de que ela é o seu corpo sutil. Sua vida é, então, centrada em torno do corpo sutil e seus desejos. Abandonar a crença de que ela é o corpo sutil envolve o abandono de todos os desejos relacionados com o corpo sutil e os falsos valores que eles implicam. Portanto, a crença de que ela é seu corpo sutil agora torna-se natural para ela, e a crença de que ela é algo diferente de seu corpo sutil parece exigir uma prova convincente. Mas quando a mente não está sobrecarregada com todos os desejos e apegos referentes ao corpo sutil, a pessoa abandona a falsa crença de que ela é seu corpo sutil, tão facilmente como abandonou a falsa crença de que ela era o seu corpo físico.
No entanto, esse não é o fim das falsas crenças. Mesmo quando uma pessoa abandona a falsa crença de que ela é seu corpo sutil, ela alimenta a crença ilusória de que ela é o seu corpo mental. A pessoa alimenta essa crença falsa, porque a aprecia. Ao longo de sua longa vida como uma alma individual, ela se agarrou com carinho à falsa idéia de sua existência separada. Todos os seus pensamentos, emoções e atividades têm repetidamente assumido e confirmado somente uma afirmação, ou seja, a existência do "eu" separado. Abandonar a falsa crença de que ela é a mente-ego do corpo mental é entregar tudo o que parecia constituir sua própria existência.
Para abandonar a falsa crença de que ela é o seu corpo físico ou o sutil, é necessário abandonar vários desejos e apegos. É um abandono de algo que a pessoa teve durante muito tempo. Ao abandonar a falsa crença de que ele é a sua mente-ego, o indivíduo é chamado a entregar a própria essência do que ele pensava ser ele mesmo. Apagar esse último vestígio da falsidade é, portanto, a coisa mais difícil. Mas essa última falsidade não é mais duradoura do que as falsidades anteriores que pareciam ser certezas incontestáveis. Ela também tem o seu término e é removida quando a alma renuncia seu desejo por uma existência separada.
Quando a alma se conhece como sendo diferente dos corpos grosseiro, sutil e mental, ela se conhece como sendo infinita. Como a Alma infinita, ela não faz nada, ela simplesmente É. Quando a mente é adicionada à alma individualizada, ela parece pensar. Quando o corpo sutil é adicionado à alma com a mente, ela parece desejar. Quando o corpo grosseiro é adicionado à eles, a alma parece estar envolvida em ações. A crença de que a alma está fazendo algo é uma crença falsa. Por exemplo, um indivíduo acredita que ele está sentado na cadeira, mas na verdade é o corpo que está sentado na cadeira. A crença de que a alma está sentada na cadeira é devida à identificação com o corpo físico. Da mesma forma, uma pessoa acredita que está pensando, mas na verdade é a mente que está pensando. A crença de que a alma está pensamento é devida à identificação com a mente. É a mente que pensa e é o corpo que se senta. A alma não está envolvida nem no pensar, nem em quaisquer outras ações físicas.
Claro que não é simplesmente a mente ou o mero corpo que realizam o pensar ou outras ações físicas, pois a mera mente e o mero corpo não existem. Eles existem como ilusões da alma individualizada, e é quando a alma falsamente se identifica com eles que o pensar ou a realização das coisas ocorre. A alma e o corpo mental, sutil e grosseiro tomados em conjunto, constituem o agente das ações, ou o "eu" limitado, mas a alma em sua verdadeira natureza não é responsável nem pelos pensamentos, nem pelos desejos, nem pelas ações. A ilusão de que a alma é a mente ou os corpos e a ilusão de que a alma é o agente do pensar, do desejar, ou das ações são criadas por Maya, a qual é a Ilusão e o princípio da Ignorância.
Da mesma forma, a crença de que a alma experimenta os prazeres e as dores da vida ou de que esteja passando pelos opostos da experiência também é falsa. A alma está além dos opostos da experiência, mas não se conhece como tal. E dessa forma ela assume as experiências que são características dos opostos devido à identificação com a mente e os corpos sutil e grosseiro. A alma que se confunde com a mente e o corpo torna-se destinatária de dores e prazeres. Assim, todos os prazeres e as dores aos quais a pesoa está sujeita estão enraizados na ignorância.
Quando um indivíduo pensa que ele é a pessoa mais infeliz do mundo, ele está adotando uma ilusão que sugiu por causa da ignorância, ou de Maya. Ele não é realmente infeliz, mas imagina que é infeliz porque se identifica com a mente e os corpos. Claro que não é a mente por si só, ou os corpos por si só que podem ter alguma experiência dos opostos. É a alma, a mente e os corpos tomados juntos que se tornaram o sujeito da experiência dual; mas a alma, em sua verdadeira natureza, está além dos opostos da experiência.
Assim, é a mente e os corpos em conjunto que constituem o agente das atividades e o sujeito das experiências duais. No entanto, eles não assumem esse papel duplo por seu direito próprio, mas somente quando eles são tomados juntamente com a alma. É a mente e os corpos que estão sendo animados que, juntos, tornam-se o agente de atividades ou o sujeito da experiência dual. O processo de vivificação pela alma se baseia na ignorância, pois a alma em sua verdadeira natureza é eternamente sem qualidades, sem modificações e ilimitada. Ela parece ser qualificada, modificada e limitada por causa da ignorância, ou do trabalho de Maya.



Parte III - Transcendendo as falsidades de Maya


Inúmeras são as falsidades que uma pessoa guiada por Maya abraça no torpor da ignorância; e desde o início, as falsidades carregam dentro de si sua própria insuficiência e falência. Cedo ou tarde elas são conhecidas como mentiras. Isso leva a pessoa à pergunta: Como discernir a falsidade como falsidade? Não há nenhuma saída da falsidade, exceto ao conhecê-la como falsa, mas esse conhecimento da falsidade como falsidade nunca chegaria a menos que estivesse de alguma forma latente na própria falsidade, desde o início.
A aceitação da falsidade é sempre um acordo forçado. Mesmo nas profundezas da ignorância, a alma oferece algum tipo de desafio para a falsidade. Não importa o quão fraca e desarticulada pareça estar em seus estágios iniciais, é o início daquela busca da Verdade que finalmente aniquila toda a falsidade e toda a ignorância. Na aceitação de uma falsidade há uma inquietação crescente, uma profunda desconfiança e um medo vago. Por exemplo, quando um indivíduo considera a si mesmo e os outros serem idênticos com o corpo grosseiro, ele não consegue reconciliar-se totalmente a essa crença. Ao abraçar essa falsa crença há o medo da morte e o medo de perder os outros. Se uma pessoa depende somente da posse de formas para sua felicidade, ela sabe em seu coração que está construindo seus castelos na areia movediça, sabe que este certamente não é o caminho para a felicidade permanente, que o apoio ao qual ela tão desesperadamente se apega pode a qualquer dia desaparecer. Por isso, ela está profundamente desconfiada de suas bases.
O indivíduo está inquietamente consciente de sua própria insegurança. Ele sabe que algo está errado em algum lugar e que ele está contando com falsas esperanças. A falsidade é traiçoeiramente desconfiável. Ele simplesmente não pode-se dar ao luxo de abraçá-la para sempre. Ele poderia muito bem colocar uma cobra venenosa em torno de seu pescoço ou ir dormir no topo de um vulcão que está apenas temporariamente inativo. A falsidade traz a marca de ser incompleta e insatisfatória, temporária e provisória. Ela aponta para algo mais. Para a pessoa ela parece estar escondendo algo maior e mais verdadeiro do que aquilo que ela parece ser. A falsidade trai a si mesma e ao fezer isso leva a pessoa a conhecer a verdade.
As falsidades são de dois tipos: aquelas que surgem devido ao pensamento irregular e desconexo, e aquelas que surgem devido ao pensamento viciado. As falsidades que surgem devido ao pensamento irregular são menos prejudiciais do que aquelas que surgem do pensamento viciado. As falsidades de natureza puramente intelectual surgem por causa de algum erro na utilização do intelecto. Enquanto que falsidades que são importantes do ponto de vista espiritual surgem por causa do vício do intelecto, através da operação dos desejos irracionais que cegam.
A diferença entre esses dois tipos de falsidade pode ser interposta por uma analogia fisiológica. Alguns distúrbios dos órgãos vitais do corpo são funcionais e alguns são estruturais. Doenças funcionais surgem por causa de alguma irregularidade no funcionamento de um órgão vital. Nesses casos não há nada de muito errado com a estrutura do órgão vital. Ele apenas tornou-se lento ou irregular e precisa apenas de um pequeno estímulo ou correção a fim de funcionar corretamente. Nos distúrbios estruturais, a doença passa a existir por causa do desenvolvimento de alguma deformidade na estrutura ou na constituição do órgão vital. Nesses casos, o distúrbio do órgão vital é de natureza muito mais grave. Ele tornou-se danificado ou ineficaz devido a algum fator concreto que afetou a própria constituição do órgão. Ambos os tipos de doenças podem ser corrigidas, mas é muito mais fácil a correção de problemas meramente funcionais do que corrigir os estruturais.
As falsidades que surgem devido a alguma irregularidade na utilização do intelecto são como os distúrbios funcionais e as falsidades surgidas deveido ao vício do intelecto são como os disturbios estruturais. Assim como os distúrbios funcionais são mais fáceis de corrigir do que os estruturais, as falsidades decorrentes de irregularidades na aplicação do intelecto são mais fáceis de corrigir do que aquelas que surgem devido ao vício do intelecto. A fim de corrigir uma doença funcional de um órgão vital, tudo o que é necessário é dar-lhe uma melhor modulação e mais força. Se há uma doença estrutural, muitas vezes é necessário realizar uma operação. Da mesma forma, se as falsidades surgem devido a alguns erros na aplicação do intelecto, tudo que é necessário é mais cuidado na aplicação do intelecto. Mas se as falsidades surgem devido ao vício do intelecto, é necessário purificar o intelecto. Isso exige o doloroso processo de remoção daqueles desejos e apegos que são responsáveis por viciar o intelecto.
As falsidades do pensamento viciado provêm de erros na avaliação inicial. Surgem como um subproduto da atividade intelectual, que consiste na busca de determinados valores aceitos. Eles entram em existência como uma parte da racionalização e da justificação dos valores aceitos e devem seu domínio sobre a mente humana à seu aparente suporte dos valores aceitos. Se eles não afetassem os valores humanos ou a sua realização, passariam imediatamente para a insignificância e perderiam seu controle sobre a mente. Quando as falsas crenças derivam seu ser e vitalidade dos desejos profundamente enraizados, elas são alimentadas por falsas buscas. Se o erro nas falsas crenças é puramente intelectual, é fácil de ser corrigido. Mas as falsas crenças que são alimentadas por falsas buscas são as fortalezas de Maya. Elas envolvem muito mais do que o erro intelectual e não são diminuídas através de meras afirmações contrárias de natureza puramente intelectual.
A eliminação de desejos e apegos que viciam o pensamento não é realizada exclusivamente pelo mero intelecto. Isso requer esforço correto e ação correta. Não é através de especulações irrosolutas, mas sim através da execução de coisas que as verdades espirituais devem ser descobertas. A ação honesta é uma ação preliminar à eliminação das falsidades espirituais. A percepção das verdades espirituais exige não apenas pensamentos intensos e furiosos, mas pensamento claro e a verdadeira clareza de pensamento é fruto de uma mente pura e tranquila.
Não até o desaparecimento do último vestígio da falsidade criada por Maya, Deus é conhecido como a Verdade. Somente quando Maya é completamente superada que surge o conhecimento supremo de que Deus é a única Verdade. Só Deus é real. Tudo o que não é Deus, tudo o que é impermanente e finito, tudo o que parece existir dentro do domínio da dualidade, é falso. Deus é uma Realidade infinita una. Todas as divisões que são concebidas dentro desta realidade são falsamente concebidas, pois elas não existem de fato.
Quando Deus é considerado divisível, isso é devido a Maya. O variado mundo da multiplicidade não implica no fracionamento de Deus em várias partes diferentes. Existem diferentes mentes-ego, diferentes corpos, diferentes formas, mas uma só alma. Quando a Alma uma (Deus) assume diversas mentes-ego e corpos, há diferentes almas individualizadas, porém, isso não introduz nenhuma multiplicidade dentro da própria Alma uma. A Alma é e permanece sempre indivisível. A Alma única indivisível é a base das diferentes mentes-ego e dos diferentes corpos, que produzem os pensamentos e as ações de vários tipos e que passam por inúmeros tipos de experiências duais. Mas a Alma é indivisível e permanece sempre além de todo pensamento e ação e além de toda experiência dual.
As diferentes opiniões ou diferentes maneiras de pensar, não introduzem multiplicidade dentro da Alma indivisível pela simples razão de que não existem opiniões ou quaisquer formas de pensar dentro da alma. Toda a atividade do pensamento e as conclusões extraídas deles estão dentro da mente-ego, que é finita. A alma individualizada como Alma não pensa, é apenas a mente-ego que pensa. O pensamento e o conhecimento que vem através do pensamento são possíveis no estado de conhecimento imperfeito e incompleto pertencente à mente-ego finita. Na própria alma individual não há nem pensamento, nem o conhecimento que vem através do pensamento.
A alma individualizada como Alma é o pensamento infinito e a infinita inteligência, não há divisão entre o pensador e o pensamento e as conclusões do pensamento, nem a dualidade do sujeito e do objeto. Somente a mente-ego com o pano de fundo da alma pode se tornar o pensador. A alma individual como Alma, a qual é pensamento infinito e inteligência infinita, não pensa ou tem qualquer atividade do intelecto. O intelecto com o seu pensamento limitado surge apenas com a mente-ego finita. Na completude e suficiência da inteligência infinita, que é Alma una, não há necessidade para o intelecto ou suas atividades.
Com a queda do último vestígio das falsidades criadas por Maya, a alma individual não só conhece a sua realidade como sendo diferente do corpo grosseiro, do sutil, ou do mental, mas conhece a si mesma como sendo Deus, que é a única Realidade. Neste estado a alma sabe que a mente, o corpo sutil e o corpo físico eram todos igualmente criações de sua própria imaginação, e que na realidade nunca existiram. Ela sabe que por ignorância ela concebeu-se como sendo a mente ou o corpo sutil ou corpo físico. A alma individual sabe também que, em certo sentido, ela tornou-se a mente, o corpo sutil e o corpo grosseiro e então indentificou-se com todas essas ilusões auto-criadas.


Parte IV - Deus e Maya





Deus é infinito porque Ele está acima dos opostos limitantes da dualidade. Ele está acima dos aspectos limitados de bom e mau, grande e pequeno, certo e errado, virtude e vício, felicidade e miséria; por isso Ele é infinito. Se Deus fosse bom e não mau ou mau em vez de bom, ou se Ele fosse pequeno e não grande ou grande em vez de pequeno, ou se Ele estivesse certo e não errado ou errado em vez de certo, ou se Ele fosse virtuoso ao invés do malvado ou malvado e não virtuoso, ou se Ele fosse feliz e não infeliz ou infeliz ao invés de feliz, - Ele seria finito e não infinito. Somente por estar acima da dualidade Deus é infinito.
O que quer que seja infinito transcende a dualidade, não pode ser uma parte da dualidade. Aquilo que é verdadeiramente infinito não pode ser a parte dual do finito. Se o infinito é considerado existir lado a lado com o finito ele já não é infinito, pois torna-se então a segunda parte da dualidade. Deus, que é infinito, não pode descender na dualidade. Assim, a aparente existência da dualidade, como o Deus infinito e o mundo finito, é ilusória. Só Deus é real, Ele é infinito, um sem um segundo. A existência do finito é apenas aparente, é falsa, não é real.
Como o falso mundo das coisas finitas veio a existir? Por que ele existe? Ele é criado por Maya, ou o princípio da ignorância. Maya não é ilusão, é a criadora da Ilusão. Maya não é falsa, é aquilo que é criado por Maya que dá falsas impressões. Maya não é irreal, ela é o que faz com que o real pareça irreal e o irreal pareça real. Maya não é dualidade, é o que provoca a dualidade.
Para efeitos de explicação intelectual, no entanto, Maya deve ser encarada como sendo infinita. Ela cria a ilusão de finitude, ainda assim não é em si finita. Todas as ilusões criadas por Maya são finitas e todo o universo da dualidade, que parece existir devido a Maya, também é finito. O universo pode parecer conter inúmeras coisas, mas isso não significa que seja infinito. As estrelas podem ser inúmeras, há um número enorme, mas o conjunto total de estrelas é, contudo, finito. O espaço e o tempo podem parecer infinitamente divisíveis, mas, no entanto, são finitos. Tudo o que é finito e limitado pertence ao mundo da ilusão, embora o princípio que causa esta ilusão das coisas finitas deve, em certo sentido, ser considerado como não sendo uma ilusão.
Maya não pode ser considerada como sendo finita. A coisa torna-se finita ao ser limitada pelo espaço e pelo tempo. Maya não existe no espaço e não pode ser limitada por ele. Maya não pode ser limitada no espaço porque o espaço é em si a criação de Maya. O espaço, com tudo o que ele contém, é uma ilusão e é dependente de Maya. Maya, no entanto, não é de forma nenhuma dependente do espaço. Por isso, não pode ser finita devido a nenhuma limitação de espaço. Maya também não pode ser finita por causa de nenhuma das limitações do tempo. Embora Maya chegue ao fim no estado de superconsciência, não precisa ser considerada finita por esse motivo. Maya não pode ter um começo nem um fim no tempo, porque o próprio tempo é uma criação de Maya. Qualquer visão que torne Maya um acontecimento que tem lugar em algum tempo e desaparece depois de algum tempo coloca Maya no tempo e não o tempo em Maya. O tempo está em Maya; Maya não está no tempo. O tempo, bem como todos os acontecimentos no tempo, são a criação de Maya. Maya não é de forma alguma limitada pelo tempo. O tempo chega à existência por causa de Maya e desaparece quando Maya desaparece. Deus é a Realidade atemporal, portanto, a realização de Deus e o desaparecimento de Maya, é um ato atemporal.
Maya também não pode ser considerada finita por quaisquer outras razões. Se fosse finita, seria uma ilusão e sendo uma ilusão, não teria nenhuma potência para criar outras ilusões. Assim, Maya é melhor considerada como sendo real e infinita, da mesma forma que Deus é geralmente considerado como sendo real e infinito. Entre todas as explicações intelectuais possíveis, a explicação de que Maya, assim como Deus, é real e infinita é mais aceitável para o intelecto do homem. No entanto, Maya não pode ser realmente verdadeira. Onde há dualidade, há finitude em ambos os lados. Uma coisa limita a outra. Não pode haver dois infinitos reais. Pode haver duas entidades enormes, mas não pode haver duas entidades infinitas. Se tivéssemos a dualidade de Deus e Maya e se ambos fossem considerados como existências coordenadas, então, a realidade infinita de Deus poderia ser considerada como a segunda parte de uma dualidade. Portanto, a explicação intelectual de que Maya é real não tem o selo do conhecimento final, embora seja a explicação mais plausível.
Há dificuldades em considerar Maya como ilusória e também como real em última análise. Assim, todas as tentativas do intelecto limitado para entender Maya levam a um impasse. Por um lado, se Maya é considerada como finita, ela própria torna-se ilusória e então não pode dar conta do mundo ilusório das coisas finitas. Assim, Maya tem de ser considerada real e infinita. Por outro lado, se Maya é considerada como sendo essencialmente real, Maya se torna uma segunda parte da dualidade de uma outra realidade infinita, ou seja, Deus. Portanto, deste ponto de vista, Maya parece realmente tornar-se finita e, portanto, irreal. Então, Maya não pode ser real em última análise, embora tenha de ser considerada como tal, a fim de explicarmos o mundo ilusório dos objetos finitos.
De qualquer forma que o intelecto limitado tentar entender Maya, ele ficará aquém da verdadeira compreensão. Não é possível compreender Maya através do intelecto limitado, ela é tão insondável quanto Deus. Deus é insondável, incompreensível, assim também Maya é insondável, incompreensível. Dessa forma, é dito que Maya é a sombra de Deus. Onde uma pessoa está há a sombra dela também. Onde Deus está, há esta Maya inescrutável. Embora Deus e Maya sejam inescrutáveis para o intelecto limitado que opera no domínio da dualidade, eles podem ser perfeitamente entendidos em sua verdadeira natureza com o conhecimento final da Realização. O enigma da existência de Maya nunca pode ser definitivamente resolvido até que ocorra a Realização, quando descobre-se que Maya não existe na realidade.
Há dois estados em que Maya não existe: no estado original inconsciente da Realidade - não há Maya; e no estado Auto-consciente (Consciente do Ser), ou superconsciente, estado de Deus - não há Maya. Ela existe apenas na consciência de Deus do mundo fenomenal da dualidade, ou seja, quando há a consciência do mundo grosseiro ou do mundo sutil ou do mundo mental. Maya existe quando não há Autoconsciência (consciência do Ser), mas somente a consciência dos imaginados outros, e quando a consciência está irremediavelmente dominada pelas falsas categorias da dualidade. Maya só existe a partir do ponto de vista do finito. É apenas como ilusão que Maya existe como uma criadora verdadeira e infinita de coisas irreais e finitas.
Na Verdade final e única da Realização, não existe nada exceto o Deus infinito e eterno. A ilusão das coisas finitas aparecendo como separadas de Deus desapareceu e com ela também desapareceu Maya, a criadora dessa ilusão. O Autoconhecimento vem para a alma ao olhar para dentro, e ao superar Maya. Nesse Autoconhecimento ela não apenas sabe que as diferentes mentes-ego e os diferentes corpos nunca existiram, mas também que todo o universo e Maya mesma nunca existiram como um princípio separado. Seja qual for a realidade que Maya tinha até então é agora engolida pelo Ser indivisível da única Alma. A alma individualizada agora conhece a si mesma como sendo o que ela sempre foi - eternamente Autorealizada, eternamente infinita em conhecimento, graça, força e existência, e eternamente livre da dualidade. Mas essa forma mais elevada de Autoconhecimento é inacessível ao intelecto e é incompreensível, exceto para aqueles que alcançaram o cume da Realização final.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Jalaluddin Rumi - Três Poemas

Não lamente. Tudo o que você perde, retorna de uma outra forma.


A criança desmamou do leite de sua mãe, agora bebe vinho e mel misturados.


A alegria de Deus move-se de uma caixa anônima despercebida para outra,


de célula para célula. Como a água da chuva para o canteiro do jardim.


Como as rosas emergindo do solo.


Agora ela se parece com um prato de arroz e peixe,


agora um rochedo coberto de vinhas,


agora um cavalo sendo selado.


Ela se esconde dentro dessas coisas até que um dia Ele as abre ao meio.


Parte do ser abadona o corpo quando dormimos e muda de forma.


Você pode dizer: “a noite passada eu era um pinheiro,


um pequeno canteiro de tulipas, um campo de parreiras”.


Então, o fantasma vai embora e você está de volta ao quarto.


Eu não quero deixar ninguém assustado.


Eis o que está por trás do que digo.


Tatatumtum tatum tatadum.


Existe o dourado claro do trigo no sol


e o dourado do pão feito do trigo.


Eu não tenho nenhum dos dois,


estou apenas falando a respeito deles,


como uma cidade no deserto olha para as estrelas numa noite límpida.



___________________________




Maomé podia meditar por todo tipo de desgraça,


porque ele olhou para Deus tão inabalavelmente.


O remédio de seus olhos veio de sua expansão sempre crescente dentro de Deus.


Qualquer órfão que tenha tido unguento aplicado sobre si, irá melhorar.


Ele podia ver tudo o que alcançaram aqueles no caminho.


Portanto Deus chamou-o de “a testemunha”.


As ferramentas da testemunha são a veracidade,


um olhar penetrante e a vigília noturna.


Essa é a testemunha que um juiz escuta mais cuidadosamente.


Uma falsa testemunha tem um auto-interesse que torna o seu testemunho ilusório.


Ele não pode ver o todo. É por isso que Deus quer que você negue seus desejos,


de modo que você aprenda a abandonar o auto-interesse.


É o amor do mundo manifesto que lhe torna uma testemunha não confiável.


Há uma outra maneira de ver, que vê através de seu amor por esse lugar,


perfurando através da embriaguez excitante até a dor de cabeça.


A testemunha pode curar esse machucado.


Deus é um juiz justo que chama a verdadeira testemunha de


“olho do puro amor, o bem amado, o afago,


a razão dentro do divertimento que criou os fenômenos.”



_______________________________




Este lugar é um sonho.


Apenas alguém adormecido considera-o real.



Então a morte vem como o amanhecer


e você acorda rindo


daquilo que você pensava ser seu pesar.



Mas há uma diferença com este sonho.


Tudo de cruel e inconsciente


feito na ilusão do mundo presente,


tudo aquilo, não se esvai no despertar da morte.



Isso permanece


e deve ser interpretado.



Toda risada sórdida,


todo desejo sexual,


Aqueles casacos rasgados de José,


eles transformam-se em poderosos lobos


que você tem de enfrentar.



A retaliação que às vezes vem agora,


a repentina pancada que vem como pagamento,


é só brincadeira de criança


perto do que a outra será.



Aqui você conhece a circuncisão,


Lá é castração total!



E estes momentos cambaleantes que vivemos,


é assim que se parecem:


Um homem vai dormir na cidade em que ele sempre viveu


e sonha que está vivendo em outra cidade.


No sonho ele não se lembra da cidade em que está dormindo em sua cama.


Ele acredita na realidade da cidade sonhada.



O mundo é esse tipo de sono.



A poeira de muitas cidades desmoronadas


cai sobre nós como um cochilo cheio de esquecimento.


Mas somos mais velhos que essas cidades.



Começamos como mineral. Transformamo-nos na vida das plantas


e no estado animal e então em seres humanos,


e sempre esquecemos de nossos estados anteriores,


exceto no início da primavera quando recordamos ligeiramente


sermos verdes novamente.



É assim que um jovem torna-se um professor.


É assim que um bebê inclina-se para o seio,


sem saber do segredo de seu desejo,


ainda assim indo instintivamente.



A humanidade está sendo conduzida por um curso evolutivo,


através dessa migração de inteligências


e embora pareçamos estarmos adormecidos,


há uma vigília interior que dirige o sonho



e ela eventualmente nos surpreenderá


colocando-nos de volta na verdade de quem somos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ramesh S. Balsekar - Trechos de algumas Reuniões

Ramesh: Primeiramente, diga-me o que você entende por “livre arbítrio”.

Pergunta: A noção de que “eu” posso escolher entre uma coisa ou outra.

Ramesh: Sim, mas isso inclui as consequências do que você escolhe? Seu livre arbítrio é escolher uma coisa ou outra. O seu livre arbítrio inclui o que decorrerá de fato daquilo que você escolher?

Pergunta: Não.

Ramesh: Que utilidade tem o seu livre arbítrio? Que livre arbítrio mais sem utilidade você tem! Então o que é o livre arbítrio? Certamente você pode escolher, mas se o que você escolher irá acontecer ou não, não está no seu controle. É por isso que quando as pessoas usam essas palavras eu geralmente as interrompo e peço-lhes para dizerem o que elas querem dizer por “livre arbítrio”.

Pergunta: A lógica que você apresentou, que faz sentido para mim, é que o desdobramento natural da criação, uma vez que é colocado em movimento desdobra-se a partir de um padrão determinado muito complexo. E então há este ego que pensa que pode escolher uma coisa ou outra.

Ramesh: Você vê, em que bases você faz suas escolhas? Como você faz suas escolha?

Pergunta: Essa seria minha pergunta, eu ia perguntar: “Quem escolhe?”

Ramesh: “Quem” escolhe? O ego escolhe. Mas o ego escolhe baseado em que? Meu ponto é que o ego faz sua “escolha” com base na programação que ele recebeu.

Pergunta: Sobre a qual ele não tem controle.

Ramesh: O condicionamento do meio circundante sobre o qual você não teve escolha.

Pergunta: Ou o DNA, ou algo mais.

Ramesh: Isso mesmo, portanto, há o DNA ou os genes, sobre os quais você não teve escolha, mais o condicionamento recebido do seu meio sobre o qual você não teve escolha. São essas duas coisas que eu chamo de 'a programação' com a qual você fará a “sua” escolha. Você fará sua escolha baseado no que você foi condicionado a pensar ser certo ou errado. Portanto, se o seu livre arbítrio está baseado na programação, a qual você não teve controle, então é o livre arbítrio “de quem” que estamos falando?

Pergunta: Então mesmo o livre arbítrio é uma função do Sujeito absoluto, da Fonte?

Ramesh: Correto, ou melhor, o livre arbítrio que você valoriza tanto está baseado em algo sobre o qual você não tem controle.

Pergunta: Muito bom. Isso é muito bom mesmo!

Ramesh: Eu retorno à válida questão do ego. O ego tem uma questão válida: “Vivendo em sociedade é esperado que eu faça escolhas – eu não devo fazer escolhas?” Eu digo: “É claro que sim.” Mas tudo o que estou dizendo para você considerar é: a escolha que você faz, é realmente “sua” escolha ou essa escolha acontece?

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Pergunta: Quando você fala sobre como nossas vidas são determinadas, usando os conceitos do robô ou do computador, isso soa muito limitador, não há escolha, não há liberdade. Mas minha experiência é que me sinto repleta de um sentido de liberdade.


Ramesh: Claro, esse é o ponto importante. Então, o que é esse sentido de liberdade que surge? Que tipo de liberdade é esse?

Pergunta: Eu não sou esse robô ou o computador.

Ramesh: Exatamente. Esse é o ponto. Portanto, liberdade de que? Liberdade daquilo que anteriormente identificava-se com o computador. Significa liberdade do próprio computador, liberdade da identificação com o computador. O sentimento que você tem agora Ashika, é que antes você pensava que “você” era o computador e agora sabe que você não é o computador. Esse computador está sendo usado pela Fonte, ou Deus, para trazer certas ações que necessitam acontecer através deste organismo corpo-mente. Não é isso?

Pergunta: Eu pensava que liberdade era liberdade de escolha, era fazer o que eu queria.

Ramesh: Livre arbítrio.

Pergunta: Sim. Isso tudo parece ter morrido.

Ramesh: Então não há livre arbítrio e isso não traz um senso de constrição.

Pergunta: Há uma liberdade totalmente diferente, liberdade de não estar de modo algum identificada.

Ramesh: Sim. Liberdade do envolvimento. Sua experiência foi que o envolvimento é que causa a infelicidade; se não há envolvimento não há infelicidade. Então, o que você realmente está dizendo é que a liberdade é da tristeza porque é liberdade do envolvimento. E “quem” se envolve? O ego fica envolvido. A liberdade é a liberdade do ego. E o ego é o sentido pessoal de autoria das ações. Portanto, liberdade, em última instância, é liberdade do sentido de autoria pessoal das ações – tanto deste organismo corpo-mente, como dos outros organismos.É notável que isso tenha ocorrido com você, os outros talvez não aceitem isso, mas quanto a você a liberdade se estende a todos. Ninguém tem livre arbítrio. Tudo o que acontece é que ações acontecem através dos bilhões de computadores corpo-mente. Então não há razão para Ashika sentir-se culpada, sentir orgulho ou ódio de ninguém. Isso é aceitável?

Pergunta: Sim.

Ramesh: Essa é a liberdade que está refletida na sua compreensão – liberdade da culpa, do orgulho, do ódio e da inveja – que significa o que? Liberdade do envolvimento. É o envolvimento que causa infelicidade – um pouco de felicidade e um monte de infelicidade. Portanto, aceitar o que acontece como sendo algo que você não pode se envolver e sobre o qual você não tem nenhum controle – essa é a liberdade pelo fato que o que quer que esteja acontecendo está além do controle de qualquer pessoa. Desse modo, o que quer que esteja acontecendo é simplesmente aceito como algo que deveria acontecer – e não por causa da vontade de algum indivíduo.

Pergunta: Eu estava sentindo-me confusa pois havia esse enorme sentimento de liberdade mas não era liberdade para fazer ou deixar de fazer. Era simplesmente uma liberdade para ser.

Ramesh: Você vê, liberdade do envolvimento é liberdade da limitação do ego. O ego é restrito. Então o ego que pensava anteriormente que “ele” era livre para fazer o que “ele” quisesse agora descobriu que não existe “Ashika” para fazer coisa alguma. Isso é liberdade da responsabilidade, do sentido de autoria pessoal das ações e liberdade do orgulho. Pelo ego essa liberdade é traduzida como uma perda de “seu” livre arbítrio pessoal. Então essa liberdade é em si estar livre do ego, mas o ego não pode sentir essa liberdade. O ego sente que “ele” perdeu o livre arbítrio de fazer o que ele quer fazer – que “ele” pensava que possuía. Essa foi a confusão que você sentiu, a liberdade que surgiu da perda do sentido de autoria das ações significa a perda de liberdade do ego. Isso faz sentido?

Pergunta: Sim.

Ramesh: Eu repito: liberdade do sentido de autoria pessoal significa a perda da liberdade do ego. E essa é a confusão, pois ainda há essa identificação do ego com este organismo corpo-mente chamado Ashika. O ego ainda permanece e sente-se terrivelmente restringido.


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Pergunta: Eu preferia estar falando em particular com você, mas a respeito da repetição de mantras, algumas mudanças maravilhosas aconteceram. Nenhuma mudança realmente dramática.

Ramesh: O que é uma coisa boa. De outra maneira você estaria se prendendo a elas.

Pergunta: Quando criança, eu ficava sempre assustado com o frio, cada vez esperando que me acostumaria com isso. Eu ficava assustado, como se tivesse despertado do sono. A primeira vez que investiguei a repetição do “eu sou”, foi a mesma experiência alarmante. Agora uma mudança natural está acontecendo. Isso deve ser perseguido?

Ramesh: Aceite isso, sem as perguntas: "deveria ou não deveria acontecer".

Pergunta: Há algum valor nessas chamadas praticas espirituais e nos métodos disciplinatórios?

Ramesh: A mente humana está mais do que pronta para que seja falado para ela fazer algo. Você ficaria surpreso de quantas pessoas têm a firme crença que não apenas essas várias práticas espirituais conduzem à iluminação, como que a própria prática desses métodos é a iluminação. É total idolatria e superstição.

Pergunta: Mas tratar todas as práticas espirituais como idolatria e superstição é manter a mete fechada, não é?

Ramesh: De qualquer forma mantenha a mente aberta. Se você se encontra numa posição onde você está fazendo alguma prática, tente fazê-la e veja. No meu caso, antes de eu ir no Nisargadatta Maharaj, eu tive um guru por vinte anos. Ele era um guru tradicional que dava iniciações tradicionais. Naquela época, minha necessidade de um guru era tão intensa que quando eu fui até ele, numa pequena cerimônia de iniciação, durante esse processo eu fui tão arrebatado que eu não conseguia para de chorar. Uma emoção construída, uma necessidade de um guru que havia sido construída estava expressando-se daquela maneira. Muito cedo eu percebi que o que ele estava me ensinando, com toda sinceridade, não era o que eu realmente queria. Se alguém fosse ao Maharaj e dissesse: “minha esposa está doente” ou “meu filho está desempregado”, Maharaj iria dizer: “sinto muito, eu não posso ajudá-lo”. Enquanto que meu primeiro guru iria considerar parte de sua função não apenas se encarregar de sua vida espiritual, mas também iria ajudar a pessoa, da maneira mais genuína e sincera, nas necessidades materiais. O ensinamento de Maharaj era totalmente impessoal, universal. Mas esse primeiro guru era primeiramente um Hindu e também um não-dualista, um Advaita. Ele diria: “Faça este puja, faça tal prática disciplinar, vá visitar tal templo”. Ele não era uma fraude. Ele era genuíno. Mas a crença dele culminava com a firme convicção de que o que o guru dele havia dito para ele era o definitivo, que o guru pessoal dele, que havia morrido há muitos anos, ainda guiava as ações dele. Bem depressa ficou claro para mim que não era isso que eu tinha estado à procura desde os doze anos de idade. Mas não é a natureza deste organismo romper com alguém violentamente, então o relacionamento continuou por vinte anos. Um fato curioso sobre esse relacionamento é que ele foi previsto astrologicamente em 1950. Não por um astrólogo que lê o horóscopo, mas através de uma previsão do Sul da Índia chamada nadi. Havia um tipo pele ou de folha tão elástica que era impossível de ser quebrada. Nela estava entalhado em letras pequenas a predição de que eu iria primeiramente ter um guru por vinte anos e que não iria acontecer muito ali, mas que depois que eu me aposentasse eu encontraria meu verdadeiro guru e então o progresso seria bem rápido. Depois que me aposentei, li um artigo sobre Nisargadatta Maharaj escrito por Jean Dunn no the Mountain Path. Quando subi as escadas para o sobrado de Maharaj pela primeira vez, as primeiras palavras de Nisargadatta foram: “Até que enfim você veio, não foi? Venha e sente-se.” Portanto, se alguém tem o dom da cura, por que não? O dom da astrologia, da psicoterapia, por que não? Eu não perdi vinte anos antes de encontrar Maharaj. Tudo é uma preparação para a próxima cena. Então, se alguma força misteriosa dirige você para alguma prática, eu aconselho você a não se afastar dela ou a não abandoná-la. Aceite-a, tente-a. Se posteriormente essas práticas espirituais ficarem pelo caminho, deixe-as. E se acontecer, minha única sugestão é, não sinta-se culpado por isso. É um acontecimento sobre o qual você não tem controle. Chang-Tzu disse: “o mestre veio quando era a hora dele vir, o mestre se foi no fluxo ordinário dos eventos.” Quando há mesmo que um lampejo dessa compreensão, mesmo que no nível intelectual, você começa a ter uma sensação de liberdade, ou, mais precisamente, o sentido de liberdade substitui o sentido de frustração. O sentido de frustração é a volição que o 'eu' é muito relutante em abandonar. Quando há realmente uma convicção de que eu sou apenas um instrumento, como os bilhões de seres humanos através dos quais Deus ou a Totalidade opera, como pode não haver um tremendo sentimento de liberdade?

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Pergunta: No momento em que percebo que estive perdido em pensamentos sobre o futuro, há algo

particular a ser feito?

Ramesh: Nada. Absolutamente nada.

Pergunta: O próximo momento irá cuidar de si mesmo? Eu posso esquecer isso e pensar sobre o futuro novamente?

Ramesh: Correto. O que estou dizendo é que a ação de escutar ocorreu com uma certa quantidade de receptividade. De outra maneira nem mesmo essa pergunta iria surgir. Então esse escutar receptivo irá transformar-se em compreensão e essa compreensão vai ser a testemunha, a qual é necessária para evitar o envolvimento. É o 'eu', a mente pensante, que em vez de compreender faz a pergunta: “Então o que devo fazer agora?” A resposta é: “Nada”. Isso significa, efetivamente, ignorar a mente pensante. A única maneira pela qual essa mente pensante sucumbe é quando ela é ignorada. Não há outra maneira dela acabar.

Pergunta: No Vipassana, um método de retornar ao presente é focar em alguma sensação do corpo. Isso me parece similar com o que você tem dito.

Ramesh: Não, esse tipo de “fazer” geralmente é ainda a mente observando a mente, é um processo mental. A auto-investigação (Investigação de Si) não significa que toda vez que um pensamento ocorrer deveríamos metodicamente começar a pensar: “Para quem esse pensamento ocorreu? Eu não sou o corpo” e assim por diante. Tudo isso está no tempo e na duração, não está? Qualquer coisa que aconteça no tempo e na duração é envolvimento. Portanto, em vez de ficar envolvido num processo mental, é mais simples e mais efetivo permanecer numa posição de aceitação contentada. Um pensamento surgiu, ele é testemunhado e é cortado. O testemunho não precisa de nenhum processo mental.

Pergunta: Qual é o melhor meio de compreender que não somos o fazedor?

Ramesh: A melhor maneira de entender que você não é o fazedor é perceber que você não é um corpo sólido. Você é meramente um vazio no qual a energia vibra de acordo com um padrão individual particular. Desse modo, você não é um ser individual, quem dirá um fazedor individual. Você não é nem mesmo uma entidade individual. Você não é nada. É um mero padrão de energia em vibração. Compreender isso verdadeiramente, com convicção, ajudará tremendamente.

Pergunta: Mas podemos compreender isso um em momento e então, durante o resto do dia, descobrir que estamos novamente assumindo a autoria.

Ramesh: Ó sim! Mas isso tem de vir. Deixe vir.

Pergunta: Mas a compreensão torna-se compartimentada.

Ramesh: Pelo contrário, ela não permanece num compartimento. Ela desce bem para a raiz da existência, para a base da existência. Você não precisa repetir de novo e de novo: “Eu sou, eu estou vivo.” Não há necessidade de dizer: “Eu sou um homem.” O conhecimento está lá. Se esses pensamentos ocorrerem, será um anuviamento temporário da consciência. Por quanto tempo esse anuviamento acontecerá não está em suas mãos. Não há nenhuma técnica que o “eu” possa empregar para fazer esses pensamentos irem embora.

Pergunta: Então um momento de pura compreensão de que não somos o fazedor é mais importante do que as compreensões menores?

Ramesh: Absolutamente. O tempo de duração dela está fora de questão aqui.

Pergunta: Muitas vezes no “I am That”, Maharaj advertia as pessoas a se manterem com o sentimento de Eu Sou.

Ramesh: A resposta era dada para as pessoas que precisavam fazer algo. Para esse homem de ação, o Karma Iogue, dizer-lhe apenas para compreender seria extremamente difícil. Foi difícil para mim entender a quem Maharaj estava se dirigindo quando dizia: “Permaneça no Eu Sou”. Obviamente ele estava endereçando isso a alguém. Foi uma questão difícil que perturbou- me por seis meses. Essa é sua questão também.

Pergunta: Sim, mas espero que não dure seis meses.

Ramesh: Você pode sentir-se grato se ela não durar seis anos! Mas é uma questão básica. A questão me incomodava desde manhã cedo e durante o dia todo. Finalmente, ocorreu essa compreensão repentina de que aquelas sugestões: “Apenas seja” ou “permaneça no Eu Sou” não eram endereçadas a um “eu” (mim). Se euaceitasse a verdade básica de que o “eu” é meramente uma aparência na Consciência, não haveria nada mais para ser feito. Essa aceitação não vem rapidamente em todos os casos. Até que ela viesse, durante o processo dessa aceitação se tonar firme, Maharaj estava endereçando-se àquele “eu” que precisava de uma certa quantidade de orientação. Ele não estava dando sugestões para alguém que não precisava delas. Os fatos básicos ele já havia deixado claro: que não há tal objeto como ser humano com independência como uma entidade separada, com independência de escolha e decisão, com volição. Uma mera aparência não pode ter nenhuma volição. No caso do próprio Maharaj, ele tinha uma inclinação natural e por intuição para o caminho da devoção, ou seja, bhakti. Ele costumava ir a um templo toda a noite e cantar bajans. Ele disse: “eu tinha uma voz muito boa, então deleitava-me ao cantar e isso me deixava muito feliz, eu não estava interessado em nenhum conhecimento e nem em repetir o nome de Deus. Era o que eu gostava de fazer e eu fazia.” Certo dia, um amigo dele que costumava ir a um certo guru insistiu que Maharaj o acompanhasse. Então Maharaj foi. A maneira tradicional era levar uma guirlanda de flores. “Até a guirlanda de flores simbólica foi comprada por meu amigo”, Maharaj disse. A mensagem básica essencial do guru era que não existe algo como uma entidade individual, ela era apenas uma aparência na Consciência. Maharaj disse: “talvez, aceitei isso porque eu era uma pessoa iletrada. O intelecto não era desenvolvido à uma certa agudeza onde ele quisesse saber os porquês e os motivos de tudo. Por alguma razão eu pude aceitar e esse foi o fim da questão.” Maharaj continuou a ir aos bajans e ao mesmo tempo essa compreensão se enraizou em seu coração. Gradualmente suas idas ao templo acabaram, mas sem que ele fizesse um esforço para isso.

Uma coisa que posso lhe falar é que não há coisa alguma que "você" possa fazer a respeito da Realização, porque o “você” tem que desaparecer e o “você” não fará “você” desaparecer.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Hazrat Inayat Khan - O Misticismo do Som e da Música


De acordo com o ponto de vista esotérico, a música é o começo e o fim do universo. Todas as ações e movimentos feitos nos mundos visível e invisível são musicais. Isto é, eles são constituídos de vibrações pertencentes a um certo plano de existência. Em sânscrito, a música é chamada sangita, que significa três sujeitos: o cantar, o tocar e o dançar. Esses três estão combinados em toda ação. Por exemplo, na ação da fala há a voz significando o cantar, a pronunciação das palavras significando o tocar e os movimentos do corpo bem como a expressão da face significando o dançar.

A música oriental está inteiramente baseada sobre uma base filosófica e espiritual. O inventor dela foi Mahadeva, o senhor dos Iogues, e o maior músico foi Parvati, sua amada esposa. Krishna, a encarnação de Deus, era um músico hábil, que encantava ambos os mundos através da música de sua flauta, fazendo os Iogues dançarem. Bharata Muni, o maior santo hindu, foi o primeiro compositor de música. Os místicos, tal como Narada e Tumbara, foram grandes músicos. No céu dos Hindus o Deus Indra é entretido pelo canto clássico dos Gandharvas e pela dança dos Apsaras. A Deusa da música é Sarasvati, que também é a Deusa da sabedoria; ela é uma grande amante da Vina. Todo o sistema da religião e filosofia hindu está baseado na ciência das vibrações e é chamado de Nada Brahma, Deus-Som.

O poeta Shams de Tabris, ao escrever sobre a criação, diz que todo mistério do universo reside no som. Esse fato é expressado no Corão e também na Bíblia.

Vibrações mais finas tornam-se mais grosseiras em sua graduação formando os diferentes planos de existência, culminando na manifestação física. Assim como a água quando congelada transforma-se em neve, também a atividade materializa as vibrações. Menos atividade as eteriza, mostrando que o espírito e a matéria são a mesma coisa num sentido mais elevado. O espirito descende em matéria através da Lei da vibração, e a matéria também ascende em direção ao espírito. Os grandes Iogues e Sufis sempre progrediram através de suas práticas em direção ao mais elevado estado de perfeição ao eterizarem-se através do conhecimento das vibrações. O som material dos instrumentos ou da voz produzido pelos órgãos humanos de som, é na verdade a consequência do som universal das esferas, o qual somente pode ser escutado por aqueles que se afinaram com ele. Este estado é chamado de Anahad Nada pelos Iogues e Sawt-e-Sarmad pelos Sufis.

O músico e o amante da música tornam-se refinados e são conduzidos ao mais elevado mundo do som. Os Sufis perdem a si mesmos no som e chamam isso de êxtase ou masti. Poderes psíquicos e ocultos surgem após experimentarem esta condição de êxtase e o conhecimento da existência visível e invisível é revelado. Essa graça da felicidade e paz está disponível apenas aos Iogues e Sufis interessados na divina arte da música.

Quase todos os grandes músicos do oriente tornaram-se grandes santos através do poder da música. Mais recentemente na Índia, músicos como Tansen e Maula Baksh foram exemplos grandiosos da perfeição espiritual através da música.

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Quando prestamos atenção à música da natureza descobrimos que todas as coisas contribuem para a sua harmonia. As árvores balançam seus galhos alegremente no ritmo do vento, o som do mar, o sussurro do vento, o assobio do vento passando pelas pedras, vales e montanhas, a luz de um raio e o estrondo de um trovão, a harmonia do sol e da lua, os movimentos das estrelas e dos planetas, o desabrochar das flores, o cair das folhas, a alternância regular da manhã, tarde, noite e madrugada – tudo revela ao espectador a música da natureza.

Os insetos têm seus concertos e balé e o coro dos pássaros canta em uníssono os hinos de louvor. Os cães e gatos têm suas orgias, as raposas e os lobos têm suas noites musicais na floresta, enquanto os leões e os tigres presidem suas óperas na selva. A música é a única forma de compreensão entre os pássaros e os animais. Isso pode ser visto pela gradação de tons e volume de tons, a maneira da afinação e o numero de repetições e a duração de seus vários sons. Eles transmitem aos seus parceiros a hora de se juntar ao rebanho, o aviso da aproximação do perigo, a declaração de guerra, o sentimento de amor, o sentido de simpatia, de descontentamento, de paixão, raiva, medo e ciúme, criando uma linguagem própria em si.

Na respiração do homem há um tom constante, e o batimento do coração, o pulso e a cabeça mantêm o ritmo continuamente. Um bebê responde à música antes de ter aprendido como falar, ele move suas mãos e pés num determinado tempo e expressa seu prazer e sua dor em diferentes tons.

A arte da música no oriente é chamada Kala e tem três aspectos: o vocal, o instrumental e o que expressa movimento.

A música vocal é considerada a mais elevada pois é natural; o efeito produzido por um instrumento que é meramente uma máquina não pode ser comparado com o da voz humana. Não importa o quão perfeitas as cordas sejam, elas não poderão causar a mesma impressão que a voz no ouvinte, pois ela vem direto da alma através do alento e foi trazida à superfície por meio da mente e dos órgãos vocais do corpo. Quando a alma deseja expressar-se em voz, primeiramente ela causa uma atividade na mente, que por sua vez, através dos pensamentos projeta vibrações mais finas no plano mental. Isso no devido tempo desenvolve-se e passa como respiração através das regiões do abdome, pelos pulmões, garganta, boca e órgãos nasais, fazendo com que o ar vibre por completo, até que se manifeste na superfície como voz. A voz, portanto, expressa naturalmente a atitude da mente, seja ela verdadeira ou falsa, sincera ou insincera. A voz tem todo um magnetismo do qual carece um instrumento, pois a voz é o instrumento ideal da natureza, a partir do qual todos os outros instrumentos do mundo são modelados.

O efeito produzido pelo canto depende da profundidade do sentimento do cantor. A voz de um cantor compassivo é muito diferente da voz de um que é desprovido de emoção. Não importa o quanto uma voz seja artificialmente cultivada, ela nunca irá produzir sentimento, graça e beleza a menos que o coração seja cultivado também. O canto tem uma dupla fonte de interesse: a graça da música e a beleza da poesia. Na proporção de quanto o cantor sente as palavras que ele canta, um efeito é produzido sobre os ouvintes; seu coração, por assim dizer, acompanha a música.

Embora o som produzido por um instrumento não possa ser produzido pela voz, ainda assim o instrumento é totalmente dependente do homem. Isso explica claramente como a alma faz uso da mente e como a mente governa o corpo. Ainda assim, parece como se fosse o corpo que é o agente e não a mente, e a alma é deixada de fora. Quando o homem ouve o som de um instrumento e vê as mãos do instrumentista trabalhando, ele não vê a mente operando por de trás e nem o fenômeno da alma. A cada passo do ser mais interno em direção à superfície há um aparente progresso que parece ser mais positivo. Porém, cada passo para a superfície implica limitação e dependência.

Não há nada que não possa servir como um veículo para o som, embora o tom manifeste-se mais claramente através de um corpo sonoro do que por um corpo sólido, pois o primeiro é mais aberto às vibrações, enquanto que o último é fechado. Todas as coisas que dão um som claro mostram vida, enquanto que corpos sólidos entupidos de substância parecem mortos. A ressonância é a reserva de tom, em outras palavras é a repercussão do tom que produz um eco. Sob esse princípio são feitos todos os instrumentos, a diferença residindo na quantidade e na qualidade do tom, o qual depende da construção do instrumento.

E efeito da música instrumental também depende da evolução do homem que expressa com a ponta de seus dedos sobre o instrumento seu grau de evolução; em outras palavras, sua alma fala através do instrumento. O estado da mente do homem pode ser lido por seu toque no instrumento, pois por mais hábil que ele seja, ele não pode produzir por mera habilidade a graça e a beleza que atraem o coração sem um sentimento desenvolvido dentro dele mesmo.

Após a música vocal e a instrumental vem a música motora da dança. O movimento é a natureza da vibração. Cada movimento contém em si um pensamento e um sentimento. Essa arte é inata no homem. O primeiro prazer de um bebê na vida é divertir-se com o movimento de suas mãos e pés, uma criança ao ouvir música começa a mexer-se. Mesmo os animais e pássaros expressam sua alegria em movimentos. O pavão, orgulhoso com a visão de sua beleza, mostra sua vaidade na dança, da mesma forma a cobra sai do cesto e balança seu corpo ao ouvir a música do pungi. Tudo isso prova que o movimento é o sinal da vida e quando realizado com música ele coloca tanto o artista quanto e espectador em movimento.

Os místicos sempre olharam para esse tema como uma arte sagrada. Nas escrituras hebraicas encontramos Davi dançando diante do Senhor, e os deuses e deusas dos gregos, egípcios, budistas e brâmanes são representados em diferentes posturas, todas tendo um certo significado e filosofia relacionado com a grande dança cósmica que é a evolução.

Mesmo nos dias de hoje entre os Sufis no oriente, a dança chamada sama ocorre em suas reuniões, pois a dança é consequência da alegria. Os dervixes no sama dão vazão a seu êxtase em Raqs, o que é considerado com grande respeito e reverência pelos presentes e é em si mesmo uma cerimônia sagrada.

A arte da dança degenerou muito devido a seu mal uso. A maioria das pessoas dança ou para se divertir ou se exercitar, frequentemente abusando da arte em sua frivolidade.

Melodia e ritmo tendem a produzir uma inclinação para a dança.

Para resumir, a dança pode ser dita ser uma expressão graciosa do pensamento e do sentimento sem pronunciar nenhuma palavra. Ela pode ser usada também para impressionar a alma através do movimento, produzindo uma imagem ideal diante dela. Quando a beleza do movimento é tomada como um pressentimento do ideal divino a dança se torna sagrada.

A música da vida mostra sua melodia e harmonia em nossas experiências diárias. Cada palavra dita, ou é uma nota verdadeira ou uma nota falsa, de acordo com a escala de nosso ideal. O tom de uma personalidade é áspero como uma corneta, enquanto que o de outra é brando como as notas de uma flauta.

O progresso gradual de toda a criação de uma evolução inferior até a mais elevada, sua mudança de um aspecto para outro, é mostrada como na música onde uma melodia é transposta de uma clave para outra.

A amizade e a inimizade entre os homens, seus gostos e desgostos, são como acordes e dissonâncias. A harmonia da natureza humana e a tendência humana à atração e à repulsão, são como o efeito dos intervalos consonantes e dissonantes na música.

Na ternura do coração o tom torna-se um semitom e quando o coração é partido o tom se quebra em microtons. Quanto mais terno se torna o coração mais cheio o tom ele se torna, quanto mais duro o coração fica mais morto ele parece.

Cada nota, cada escala e cada som estinguem-se no momento determinado e no final da experiência da alma aqui o finale chega. Mas a impressão permanece, como um concerto num sonho, diante da visão da consciência.

No que diz respeito à música do absoluto, o baixo, o subtom (ou o tom sutil), prossegue continuamente, mas na superfície e sob as várias notas de todos os instrumentos da música da natureza esse tom sutil está escondido e subjugado. Cada ser com vida vem à superfície e novamente retorna para o lugar de onde veio, assim como cada nota tem seu retorno ao oceano de som. O subtom desta existência é o mais alto e o mais brando, o mais elevado e o mais baixo. Ele oprime todos os instrumentos de tom alto ou baixo, agudo ou grave, até que todos se fundam nele. Esse subtom sempre é, e sempre será.

O mistério do som é misticismo; a harmonia da vida é religião. O conhecimento das vibrações é metafísica e a análise dos átomos é ciência, seu agrupamento harmonioso é arte. O ritmo da forma é poesia e o ritmo do som é música. Isso mostra que a música é a arte das artes e a ciência de todas as ciências e ela contém a fonte de todo conhecimento dentro de si.

A música é chamada de a arte divina ou celestial não apenas porque ela é em si uma religião universal, mas por causa de sua sutileza em comparação com todas as outras artes e ciências. Cada escritura sagrada, ilustração sagrada ou palavra falada sagrada, produz a impressão de sua identidade sobre o espelho da alma, mas a música permanece diante da alma sem produzir nenhuma impressão deste mundo objetivo nem em nome nem em forma, assim preparando a alma para realizar o infinito.

Reconhecendo isso, o Sufi chama a música de giza-i-ruh, a comida da alma, e usa a música como uma fonte de perfeição espiritual, pois a música ventila o fogo do coração e a chama que surge dele ilumina a alma. O Sufi tira muito mais proveito da música em suas meditações do que em qualquer outra coisa. Sua atitude devocional e meditativa torna-o sensível à música, a qual ajuda-o em seu desenvolvimento espiritual. A consciência, através da ajuda da música, primeiramente liberta-se do domínio do corpo e depois da mente. Uma vez isso realizado, apenas mais um passo é necessário para atingir a perfeição espiritual.

Os Sufis de todas as épocas tiveram um sério interesse na música em qualquer terra em que residiram. Rumi adotou especialmente essa arte por conta de sua grande devoção. Ele ouvia os versos dos místicos sobre o amor e a verdade cantados pelos qawwals, os músicos, com o acompanhamento da flauta.

O Sufi visualiza o objeto de sua devoção em sua mente que é refletido sobre o espelho de sua alma. O coração, o fator do sentimento, é possuído por todos, embora ele não seja um coração vivente em todas as pessoas. O coração é tornado vivo pelo Sufi que dá vazão aos seus sentimentos intensos em lágrimas e suspiros. Ao fazê-lo, as nuvens do jelal, o poder que congrega com seu desenvolvimento psíquico, caem em lágrimas como gotas de chuva e o céu de seu coração é clareado, permitindo a alma brilhar.

Essa condição é considerada pelo Sufi como um êxtase sagrado. O wajad, ou êxtase sagrado que os Sufis experimentam como regra no sam'a, pode ser dito ser a união com o Desejado. Existem três aspectos dessa união que são experimentados pelos diferentes estágios de evolução.

O primeiro é a união com o ideal reverenciado do plano da terra, presente diante do devoto, seja no plano objetivo ou no plano do pensamento. O coração do devoto, repleto de amor, admiração e gratidão, torna-se capaz de visualizar a forma de seu ideal de devoção enquanto escuta a música.

O segundo passo no êxtase e a parte mais elevada da união é a união com a beleza de caráter do ideal, não importando a forma. A música em louvor ao personagem ideal ajuda o amor do devoto a brotar e transbordar.

O terceiro estágio no êxtase é a união com o divino Amado, o mais elevado ideal, que está além da limitação do nome e da forma, da virtude e do mérito; com o qual a alma tem constantemente buscado a união e a quem ela finalmente encontrou. Essa alegria é inexplicável. Quando as palavras dessas almas que já atingiram a união com o divino Amado são cantadas diante daquele que está trilhando o caminho do amor divino, ele vê todos os sinais no caminho descritos naqueles versos e isso é um grande conforto para ele. O louvor Daquele assim idealizado, tão diferente do ideal do mundo em geral, preenche-no com uma alegria além das palavras.

O êxtase manifesta-se em vários aspectos. Às vezes o Sufi pode estar às lágrimas, às vezes pode estar suspirando, às vezes ele se manifesta em Raqs, movimentos. Tudo isso é considerado com respeito e reverência por aqueles presentes na assembléia do sam'a, pois o êxtase é considerado uma bênção divina. O suspiro do devoto ilumina um caminho para ele no mundo invisível e suas lágrimas lavam o pecado de eras. Toda revelação segue o êxtase, todo o conhecimento que um livro jamais poderá conter e que a linguagem jamais poderá expressar, nem um professor ensinar, vem a ele por si mesmo.