segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Bernard de Clairvaux - A Voz que se move através do deserto revelando segredos, sacudindo as almas, livrando-as da preguiça


Vocês vieram, eu acredito, para ouvir a Palavra de Deus. Não consigo ver outra razão pela qual vocês se aglomerariam aqui desta maneira. Eu aprovo esse desejo com todo meu coração e alegro-me com vocês em seu louvável zelo. Pois abençoados são aqueles que ouvem a Palavra de Deus – se, é claro, guardam-na. Abençoados são aqueles que observam as Suas leis, não esquecendo de obedecê-las (Sal.103:18). Tal pessoa tem as palavras da vida eterna de fato, e a hora chegará – poderia ser aqui e agora! - quando os mortos escutarão a Sua voz e aqueles que a escutarem viverão. Pois, “fazer a vontade Dele é viver” (Sal.30:5)

E se você quer saber qual é a vontade dele: É que deveríamos ser convertidos. Escute o que ele mesmo diz: “Não é minha vontade que os maus devam perecer, mas que eles se convertam de sua maldade e vivam. (Eze18:23)

A partir dessa passagem vemos claramente que nossa verdadeira vida é para ser encontrada apenas através da conversão e não há outra maneira de entrar nela. Como novamente diz o Senhor: “A menos que vos converterdes e tornardes como as crianças, não entrareis no reino dos céus.” (Mat.18:3) Verdadeiramente, apenas as criancinhas entrarão, pois é uma criancinha que as conduz, Aquela que nasceu e foi dada a nós para esse próprio fim. Busco, portanto, a voz que os mortos escutarão e, quando escutarem-na, viverão. Talvez seja até mesmo necessário pregar o evangelho aos mortos (1Ped 4:6).

E enquanto isso uma palavra vem à mente, breve mas cheia de significado, cuja boca do Senhor falou, como presta testemunho o profeta, ele clama indubitavelmente ao Senhor seu Deus: “Convertei-vos filhos do homem” (Isa 1:20, Sal. 90:3); é totalmente apropriado que a conversão seja o que é pedido do filho do homem; é absolutamente necessário para os pecadores. Aos espíritos celestiais é dito para louvar, como o mesmo profeta diz nos Salmos, “Louva teu Senhor, ó Sião” (Sal.147:12); isso é mais apropriado para os justos (Sal.33:1).

Assim como o lembrete do que ele diz, “Você disse” (Sal.90:3), não penso que seja algo para se passar descuidadosamente ou escutado sem se refletir a respeito. Pois quem ousa a comparar os dizeres dos homens com o que é dito que Deus falou? A Palavra de Deus é viva e efetiva. Sua voz é uma voz de magnificência e poder. “Ele falou e foram criados” (Sal.148:5). Ele disse: “Haja a luz, e houve a luz” (Gen.1:3). Disse: “Convertei-vos” (Sal.90:3), e os filhos do homem foram convertidos. Portanto, a conversão das almas é claramente o trabalho da voz divina, não de nenhuma voz humana. Mesmo Simeão, filho de João, chamado de um indicado pelo Senhor para ser um pescador de homens, labutará em vão toda a noite e não pegará nada até que jogue sua rede nas palavras do Senhor. Então ele poderá capturar uma vasta multidão (João 21:15, Mat.4:19).

Que nós também possamos jogar nossa rede nas palavras dele e experimentar o que está escrito, “Vede, ele dará a sua voz o som do poder” (Sal.68:33). Se minto, isso é culpa minha. Talvez seja julgado que é a minha própria voz e não a voz do Senhor se busco o que pertence a mim e não o que é de Jesus Cristo. Quanto ao resto, mesmo se eu falar da justeza de Deus e buscar Sua Glória, posso esperar que o que digo será efetivo apenas se ele assim o tornar. Devo pedir a Ele que torne esta minha voz uma voz de poder.

Advirto-lhe, portanto, a elevar os ouvidos de seu coração para ouvir essa voz interior, de modo que você lute para ouvir internamente o que é dito para o homem externo. Pois esta é a voz da magnificência e do poder, movendo-se através do deserto, revelando segredos, sacudindo as almas livrando-nas da preguiça (Sal.29).




Não há necessidade de fazer um esforço para escutar esta voz. O difícil é fechar os ouvidos para ela. A voz fala, ela se faz ser ouvida; ela não cessa de bater na porta de todos (Apoc.3:20). “Quarenta anos”, ele diz, “estive com esta geração, e eu disse: 'eles erram constantemente em seus corações'” (Sal.95:10). Ele ainda está conosco. Ele ainda fala, mesmo que ninguém escute. Ele ainda diz: “Eles erram em seus corações”; a Sabedoria ainda clama pelas ruas. “Cainham em si, ó infiéis” (Isa.46:8).

Esse é o começo da fala de Deus. E essa palavra, que é dirigida a todos que estão convertidos no coração, perece ter corrido na frente, é uma palavra que não apenas os chama de volta mas os conduz de volta colocando-os cara a cara consigo mesmos. Pois não é apenas uma voz de poder, é como um raio de luz falando para o homem sobre seus pecados e ao mesmo revelando as coisas escondidas na escuridão. Não há diferença entre essa voz interior e a luz, pois elas são um e o mesmo Filho de Deus e Palavra do Pai - resplandecência da glória. Dessa forma também a substância da alma pareceria ser espiritual e simples assim, sem nenhuma distinção dos sentidos; a alma toda parece ver e ouvir de pronto, se podemos falar disso dessa forma. Pois qual é o propósito do raio de luz ou da Palavra senão fazer o homem vir a conhecer a si mesmo? De fato, o livro da consciência está aberto, a passagem miserável pela vida até agora é lembrada à mente; a triste história é contada novamente, a razão é iluminada e o que está na memória é revelado como se colocado diante dos olhos do homem. Mas a razão e a memória não são tanto “da” alma quanto elas mesmas a alma, de modo que ela é tanto o contemplador quanto o que é contemplado, colocada cara a cara consigo mesma e subjugada pela força da realização do que ela está vendo. Ela julga a si mesma em sua própria corte. Quem pode suportar esse julgamento sem dor? “Minha alma está aborrecida comigo” (Sal.42:6), diz o profeta do Senhor, e você se admira que você não pode ser colocado a defrontar-se consigo mesmo sem estar ciente do pecado, sem perturbação, sem confusão?




Não espere ouvir de mim o que é que a razão captura em sua memória para censurar, o que ela julga, o que discerne. Escute a voz interior, use os olhos do seu coração e você aprenderá por experiência. “Quem, pois, entre os homens conhece o que é do homem, senão o espírito do homem que está nele?” (1cor.ii 11). Se o orgulho, a inveja, a arrogância, a ambição ou qualquer outro vício está escondido, dificilmente poderá escapar desse exame. Se houver fornicação, violação, crueldade, engano ou qualquer falta que seja, isso não irá se esconder desse juiz, que é ele mesmo a parte culpada, nem isso será negado em sua presença.

Pois não importa o quão rápido passou toda a lascívia do deleitar-se na iniquidade e o quão brevemente as seduções dos prazeres foram atrativos, a memória é deixada com uma impressão amarga e pegadas sujas permanecem. Para dentro daquele repositório flui toda a abominação e sujeira, como que para dentro de uma fossa. É um grande livro no qual tudo está escrito com a caneta da verdade. O estomago suporta aquele amargor agora (Apoc.10:9-10). Embora quando foi engolido deu um prazer passageiro ao paladar, isso foi logo esquecido. Eu aflijo por meu estomago. Por que não deveria me afligir pelo estomago da minha memória, que está tão congestionada com tais imundices?

Meus irmãos, qual de nós, se repentinamente notasse que as roupas que vestem está toda respigada de sujeira e de lama imunda, não ficaria violentamente enojado, tirando a roupa rapidamente e tirando-a de perto de si indignadamente? Mas a alma que encontra-se contaminada dessa maneira não pode atirar a si mesma para longe como um homem pode atirar suas roupas. Qual de nós é tão paciente e valente que se visse sua própria carne de repente ficando branca com lepra (como lemos que aconteceu com Maria a irmã de Moisés), suportaria calmamente e agradeceria seu Criador (Núm.12:10)? Mas o que é essa carne senão um traje corruptível com o qual estamos vestidos?

E como devemos pensar a respeito dessa lepra do corpo em todos eleitos senão como uma punição de correção paternal e uma purgação do coração? É uma grande tribulação e uma causa muito justa de pesar quando um homem que foi despertado do sono do prazer miserável começa a perceber sua lepra interior, tribulação que ele trouxe para si mesmo com muito zelo e esforço. Ninguém odeia sua própria carne, muito menos pode a alma odiar a si mesma.

sábado, 7 de agosto de 2010

Jalaluddin Rumi - Sete Discursos


Burhan Sayed al-Din estava ensinando, quando um tolo o interrompeu para dizer: "Precisamos de algumas palavras sem comparações ou semelhanças." O Sayed respondeu: "Quem não tiver semelhança venha ouvir palavras sem semelhança!"
Afinal, você é uma semelhança de si mesmo. Você não é este corpo. A existência aqui é apenas uma sombra de você. Se alguém morre, as pessoas dizem: "Fulano partiu." Se fossem apenas esse corpo, então, aonde teriam ido? Assim, sua forma externa é uma analogia de seu ser interno e a partir de sua forma externa os outros podem julgar sua realidade interna.
Tudo é visível por causa da densidade. Assim, a respiração no tempo quente não pode ser vista, mas quando está frio torna-se visível devido à densidade. Era o dever do Profeta manifestar o poder de Deus e pregar para despertar os outros.
Não era seu trabalho, no entanto, trazer as pessoas ao nível de estarem prontas para receber a verdade de Deus, isso é trabalho de Deus. Deus tem dois atributos: a ira e a bondade amorosa. Os profetas são teatros para ambos. Para os crentes eles são um teatro do amor de Deus e para os incrédulos eles se tornam um teatro para a ira de Deus.
Aqueles que reconhecem a verdade vêem a si mesmos no Profeta, escutam sua própria voz vindo dele, e sentem seu próprio perfume em sua presença. Ninguém nega a realidade de seu próprio ser. Por isso os profetas dizem para a comunidade: "Nós somos vocês e vocês somos nós, não há nenhuma estranheza entre nós." Alguém diz: "Esta é a minha mão." Ninguém lhe pede por uma prova, uma vez que sua mão é uma parte sua. Mas a pessoa diz: "Aquele é o meu filho", então uma prova é exigida, pois trata-se de algo separado dela mesma.


_____________________________________________________


Alguns dizem que o amor é a causa do serviço, mas isso não é verdade. Pelo contrário, o desejo do Amado é a verdadeira fonte do serviço. Se o Amado deseja que o amante ajude, então o amante fornece a ajuda. Se o Amado não quer, então o amante desiste disso. Abandonar o serviço não é abandonar o amor. Não, pelo contrário, mesmo se o amante não realizar nenhum serviço, o amor continua a operar através do coração do amante. Portanto, a raiz da questão é o amor e o serviço é o galho.
Quando a luva se move, isso ocorre porque a mão se move. Mas isso não significa que a luva segue sempre a mão. Por exemplo, uma pessoa tem um vestido tão grande que quando ela se move, o vestido não se move. Nós todos vimos isso. Mas o que não é possível é que o vestido se mova sem a pessoa se mover.
Algumas pessoas têm confundido o vestido com a pessoa, tem considerado a luva como mão e imaginado uma bota como pé. No entanto, essa mão e pé são a luva e a bota de outra mão e pé.
Eles dizem: "Fulano está sob os pés de Ciclano" e "Beltrano tem uma mão em muitas coisas." Certamente, quando falamos de tais mãos e pés não significa essa mão e pé.
Aquele Príncipe veio e nos reuniu e depois partiu. Da mesma forma, a abelha une a cera com o mel e, em seguida, voa para longe. Isso acontece porque nossa criação foi uma condição, mas, afinal, a eternidade de Deus não é uma condição. Nossos pais e mães são como abelhas, unindo o buscador com o buscado, e reunindo o amante e o amado. Então, de repente, um dia eles voam para longe. Deus fez-lhes como um meio de unir a cera e o mel e então eles voam para longe, enquanto que a cera e o mel permanecem. Mas eles não voam para fora do jardim. Este não é o tipo de jardim que é possível de abandonar. Em vez disso, eles vão de um canto do jardim para o outro. Nosso corpo é como uma colméia montada a partir da cera e do mel do amor de Deus. Embora as abelhas, nossos pais e mães, tenham unido esse mel e essa cera, ainda assim eles também são cuidados pelo jardineiro, e, portanto, também é o jardineiro que faz a colméia. Deus dá àquelas abelhas uma forma adequada para o trabalho que estão fazendo, mas quando elas partem para o outro mundo mudam de trajes, pois lá um trabalho diferente acontece. Ainda assim, essas pessoas são iguais ao que eram no primeiro lugar.

Por exemplo: um homem vai para a batalha, coloca seu uniforme, veda a armadura e coloca um capacete em sua cabeça para se preparar para o combate. Mas quando ele chega em casa para o banquete, retira os trajes uma vez que o alimento e a família são outro negócio. Ainda assim, ele é a mesma pessoa. Entretanto, se você o ver pela última vez com aqueles trajes, sempre que pensar nele, vai retratá-lo naquela forma e naquelas vestes, mesmo que ele tenha mudado de roupas uma centena de vezes.
Uma mulher perde um anel em um determinado lugar. Embora o anel tenha sido removido de lá, ainda assim ela fica rodeando aquele ponto, concluindo: "Foi aqui que eu o perdi." Da mesma forma, um homem de luto circula ao redor da sepultura, ignorante, rodeando o local e beijando a terra, o que implica: "Eu perdi esse anel aqui", mas como poderia ainda estar ali?
Deus faz tantas maravilhas para mostrar sua onipotência. É aqui, por causa da sabedoria divina, que Ele reúne o espírito e o corpo por um dia ou dois.

As pessoas têm medo da morte. Elas pensam que ao sentar com um cadáver em um túmulo, mesmo que por um momento, poderão enlouquecer. Por que, então, uma vez que são liberadas da armadilha da forma e do túmulo do corpo, continuariam por perto?
Deus designou a visão de um túmulo para causar medo em nossos corações como um símbolo para renovar o medo da morte repetidamente. Da mesma forma, quando uma caravana foi emboscada em um determinado lugar na estrada, duas ou três pedras são colocadas juntas ali para agir como um sinal no caminho, dizendo: "Aqui é um lugar de perigo". Os túmulos também são sinais visíveis no caminho mostrando um lugar de perigo. O medo deixa a sua marca em você, mesmo que nem sempre seja percebido. Por exemplo, se as pessoas lhe dizem, "Fulano tem medo de você", uma afeição manifesta imediatamente em direção a eles. Se, pelo contrário, disserem: "Ciclano não tem o mínimo medo de você", e "Eles não se preocupam de maneira nenhuma com você," simplesmente por causa dessas palavras um ira aparecerá em seu coração.

Esta correria na vida é o efeito do medo. Todo o mundo está correndo, mas cada ser corre de uma maneira diferente. Aquilo que o ser humano persegue ou do qual ele foge é de um tipo, a busca e as aversões de uma planta não são as mesmos, e assim também a corrida do espírito é totalmente diferente. Por exemplo, a corrida do espírito é sem passo ou sinal visível. Considere as uvas verdes, o quanto elas perseguem a doçura até atingirem a escuridão da uva madura. Essa corrida é invisível e imperceptível, mas quando a uva chega nesse estágio, ela percebe o que é que ela estava perseguindo há tanto tempo. Da mesma forma, alguém entra na água sem ser visto por ninguém, mas quando a cabeça da pessoa de repente sobressai no meio da água, então todos percebem o quanto a pessoa nadou para atingir aquele ponto.


_______________________________________________________


Entre o ser humano e Deus são apenas dois véus – a saúde e a riqueza - todos os outros véus vêm desses. Aqueles que são saudáveis não olham para Deus e não O vêm, mas logo que a dor os atinge eles clamam: "Ó Deus! Ó Deus!" chamado e se rendendo a Deus. Portanto, a saúde é o seu véu e Deus está escondido em sua dor. Enquanto as pessoas têm riqueza, elas satisfazem seus desejos e estão preocupadas dia e noite com prazeres. Assim que a pobreza aparece, seus espíritos são enfraquecidos e elas se voltam para Deus.


Embriaguez e pobreza O trouxeram a mim,
Eu sou o escravo de Sua embriaguez e carência!


Deus concedeu ao Faraó quatrocentos anos de vida, realeza e divertimento. Tudo isso era um véu que o manteve longe da presença de Deus. Ele não experimentou desagrado e dor nem sequer um único dia, de modo que se esqueceu completamente de Deus. Deus disse: "Continue estando preocupado com seu próprio desejo e nem mesmo pense em mim. Boa noite! "

O rei Salomão se cansou de seu reinado,
Mas Jó jamais ficou saciado de sua dor.


_______________
___________________________________________

Perguntaram para Jesus: "Qual é a coisa mais difícil neste mundo e no próximo?" Ele disse: "A ira de Deus." Eles perguntaram: "E o que pode nos salvar disso?" Ele respondeu: "Domine sua própria ira e sua própria raiva em relação aos outros."
Quando a mente quer reclamar, faça o contrário, agradeça. Exagere o assunto a tal ponto que você encontre dentro de si mesmo um amor pelo que o repele. Fingir gratidão é uma forma de buscar o amor de Deus.
Nosso Mestre, Shams, disse: "Reclamar da criação é reclamar do Criador." Ele também disse: "O ódio e a raiva permanecem escondidos no seu inconsciente. Se você ver uma faísca saltar desse fogo, apague-a para que ela volte a não-existência de onde veio. Se você insistir em corresponder a raiva com a ira e promover a chama da raiva, ele saltará mais e mais rápido de seu inconsciente e se tornará cada vez mais difícil de apagar".
Afugente o mal com alguma coisa boa e você triunfará sobre o inimigo de duas maneiras. Uma maneira é esta: seu inimigo não é a carne e a pele de outra pessoa, é a contagiosidade do seu ódio.
Quando ele for expulso de você através de uma abundância de agradecimento, ele também irá inevitavelmente ser expulso de seu inimigo, porque todos instintivamente respondem à bondade, e você deixou o seu adversário sem nada para lutar contra. É como com as crianças, quando elas gritam nomes para alguém e essa pessoa grita nomes feios de volta, todas elas ficam mais incentivadas, pensando: "Nossas palavras tiveram um efeito." Mas se o inimigo vê suas palavras não trazendo nenhuma mudança, ele perde o interesse.
O segundo benefício é o seguinte: Quando o atributo do perdão surge em você, as outras pessoas percebem que não lhe têm visto como você realmente é. Então passam a saber que elas é que devem ser censuradas, não você, e nenhuma prova deixa os adversários mais envergonhados do que isso. Assim, louvando e dando graças aos detratores você está administrando um antídoto para aquele ódio neles, pois, embora eles tenham lhe mostrado sua deficiência, você mostrou-lhes sua perfeição. Aqueles que são amados por Deus dificilmente podem ser imperfeitos. Desse modo, vamos louvar aqueles que nos criticam, assim seus amigos vão pensar: "São os nossos amigos que estão em desacordo com os Sufis, pois os Sufis sempre falam bem de nossos amigos."

Embora eles sejam poderosos,
Arrancam suas barbas educadamente.
Firmemente quebram seus pescoços,
Embora sejam grandes e poderosos.
Que Deus nos ajude nisso!

_______________________________________________________


Algumas pessoas dizem que na alma humana há um mal não encontrado em animais e feras, mas isso não significa que as pessoas são piores do que animais. Pelo contrário, este personagem mal e as trevas da alma do ser humano escondem um elemento essencial secreto. Quanto mais precioso e nobre é esse elemento, maior é o véu para escondê-lo, e os véus não podem ser removidos sem grandes esforços. Essas lutas são de vários tipos. A maior é passar tempo com amigos que voltaram seus rostos para Deus e viraram as costas para este mundo. Não há luta mais difícil do que essa, pois a própria visão deles dissolve o nosso ego e os desejos mundanos. É por isso que se diz que se uma cobra não foi vista por nenhum ser humano durante quarenta anos ela torna-se um dragão, uma vez que ela não viu ninguém que pudesse parar o crescimento de sua própria natureza do mal.
Sempre que os homens ou as mulheres colocam um grande cadeado, isso é um sinal de algo precioso e valioso. Assim como a serpente que guarda um tesouro, não considere a feiúra de uma pessoa, mas em vez disso olhe para a preciosidade de seu tesouro.


_________________________________________________

Ouvir algo de novo e de novo de muitas pessoas carrega a mesma autoridade que ver por si mesmo.
Por exemplo, foi-lhe dito que você nasceu de seu pai e sua mãe. Você nunca viu isso com seus próprios olhos, mas depois de ouvir isso muitas vezes de pessoas diferentes, você aceita isso como a verdade. Se lhe dissessem que eles não são seus pais, você não daria ouvidos. Da mesma forma, você já ouviu várias vezes de pessoas de confiança que Bagdá e Meca existem. Se todas essas pessoas fizessem agora um juramento de que essas cidades não existem, você não acreditaria. Portanto, quando o ouvido ouviu a mesma coisa várias vezes de muitas fontes diferentes, isso carrega a mesma autoridade do que o olho.
Da mesma forma, se alguém faz uma afirmação que é um conhecido ditado proferido geração após geração, essa não é uma afirmação única, mas é como uma centena de milhares. O que é tão surpreendente nisso? Um rei exerce a autoridade de cem mil, embora ele seja apenas um; se cem mil falassem, nada aconteceria, mas quando ele fala isso acontece imediatamente. Embora essa seja a forma do mundo externo, isso é ainda mais verdadeiro com relação ao mundo espiritual.
Você pode ter visto todo este mundo, mas sendo que você não o viu com Deus em mente, deve fazer a viagem novamente. "Essa viagem não foi por Minha causa, era por causa do alho e das cebolas. Uma vez que você não foi por Minha causa, mas por outra finalidade, então essa outra finalidade tornou-se um véu para você não permitindo que você visse a Mim." É o mesmo que procurar sinceramente por uma pessoa no bazar, você não vê mais ninguém, ou se você vê, são apenas sombras. Ou quando você está caçando a solução de um problema em um livro, seus ouvidos, olhos e mente estão repletos desse problema. Você vira as páginas, mas não vê nada mais. Uma vez que você tinha uma intenção e objeto em mente, onde quer que tenha ido, você estava preenchido desse objetivo.


______________________________________________________


Na época de Umar, havia um certo homem que tinha envelhecido tanto que sua filha lhe dava leite e cuidava dele como uma criança. Umar disse para essa filha: "Não há viva hoje nenhuma filha que se compare a você em sua atenciosidade com seu pai." Ela respondeu: "O que você diz é verdade, mas há uma diferença entre o que ofereço e o que meu pai me ofereceu. Posso não faltar com o serviço a meu pai, mas quando meu pai me criou e me serviu ele costumava estremecer por minha segurança e com coisas relacionadas a mim, enquanto que eu sirvo meu pai e dia e noite rogo pedindo a Deus que ele morra para que o distúrbio que ele me causa chegue ao fim. Se sirvo meu pai, onde posso obter esse estremecimento que ele tinha por mim?" Umar disse: "Esta mulher é mais sábia do que Umar." Ele quis dizer: "Eu julguei pelas aparências, enquanto que ela fala do âmago."
Aqueles que são verdadeiramente sábios penetram o âmago de uma coisa e diagnosticam a verdade dela. Deus impediu que Umar não fosse informado da verdade e dos segredos das coisas, mas foi assim com os Companheiros que criticaram a si mesmos e elogiaram os outros. Há muitos que não têm a força para a "presença." Eles acham a "ausência" mais agradável.
Da mesma forma, o brilho vem do sol e ilumina o mundo, mas se as pessoas olharem a orbe do sol o dia todo isso não lhes fará bem e seus olhos ficarão cegos. Seria melhor para elas se envolver em alguma outra tarefa e deixar a presença da orbe do sol. Da mesma forma, fazer menção a pratos saborosos na presença de pessoas doentes as encoraja a ganhar força e apetite, mas o real consumo desses pratos poderia lhes fazer mal. Portanto, o estremecimento e o amor apaixonado são necessários na busca por Deus. Quem não estremece deve aguardar pelos que estremecem. Nenhuma fruta jamais cresce no tronco de uma árvore, pois os troncos não estremecem. As pontas dos ramos tremulam e o tronco suporta as pontas dos ramos e os frutos de forma segura, mesmo que contra o golpe de um machado. Sendo que o tremor do tronco da árvore seriria desastroso, é melhor para o tronco não tremer. É adequado para o tronco ficar parado para melhor servir os que tremulam. Uma vez que o nome de Amir é Mu'in al-Din, ele não é "Ain al-Din" ("A essência da Fé "), por causa do "M" acrescentado a “Ai”. “Qualquer acréscimo à perfeição é uma diminuição”. A adição desse "M" é uma diminuição. Da mesma forma, apesar de um sexto dedo ser uma adição, ainda assim é uma diminuição. Ahad ("Um") é a perfeição, e Ahmad ainda não está no estado de perfeição. Quando esse "M" é removido, torna-se a perfeição completa. Em outras palavras, Deus compreende tudo, o que quer que você adicionar a Deus é uma diminuição. O número um está contido em todos os números e sem ele nenhum número poderia existir.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Farid-ud-din Attar - A Linguagem dos Pássaros - O Vale da Busca

Ó tu que conheces o caminho de que falas e aonde queres acompanhar-nos! A vista deve obscurecer-se nesta senda, pois, de fato, ela parece extremamente penosa e longa.

“Temos de atravessar sete vales”, respondeu a poupa, “e somente depois desses vales poderemos encontrar o palácio do Simorg. Ninguém retorna ao mundo depois de ter percorrido esse caminho, ninguém poderia dizer quantos quilômetros mede sua extensão. Como podem os homens falar do que não conhecem? Não há mensageiro para narrar essa história. Assim sendo, como queres que alguém possa instruir-te a esse respeito e acalmar tua impaciência? Se todos que entraram nesta senda perderam-se nela para sempre, como iriam dar-te notícias? És um insensato!

O primeiro vale que se apresenta é o da busca (talab), o que vem depois é o do amor (ischc), o qual não tem limites, o terceiro é o do conhecimento (ma'rifat); o quarto é o da independência ou da auto-suficiência (istigna), o quinto é o da pura unidade (tauhid); o sexto é o da terrível estupefação (hairat), finalmente, o sétimo é o da pobreza e do aniquilamento (fana), vale além do qual não se pode avançar. Para aí serás atraído e entretanto não poderás continuar teu caminho, uma só gota de água será para ti como um oceano.

Logo que entres no primeiro vale, o da busca, cem penosas coisas te assaltarão sem cessar. Nesse lugar terá de experimentar a cada instante cem provações; o papagaio do céu não é aí mais que uma mosca. Terás de passar vários anos nesse vale e fazer penosos esforços até mudares de estado. Terás de abandonar tuas riquezas e deixar tudo o que possuis. Renunciando a tudo, terás de entrar num charco de sangue; e quando tiveres a certeza de que não possuis nada , ainda terás de desligar teu coração de tudo o que existe. Viaja somente no sangue de teu coração. Quando teu coração estiver a salvo da perdição, verás brilhar a pura luz da majestade divina, e, quando esta manifestar-se a teu espírito, teus desejos se multiplicarão ao infinito. Então, ainda que haja fogo no caminho do viajante espiritual e mil vales mais penosos uns que os outros para atravessar, movido por seu amor ele se lançará a esses vales como um louco e se precipitará como a mariposa em meio às chamas . Impelido por seu delírio, ele se entregará à busca simbolizada por esse vale. Pedirá que lhe seja servido mais vinho e quando tiver bebido algumas gotas ele esquecerá os dois mundos. Submerso no oceano da imensidão, terá ainda assim os lábios secos e não poderá pedir senão a seu próprio coração o segredo de eterna beleza. Em seu desejo de conhecer esse segredo ele não temerá os dragões que querem devorá-lo. Se nesse momento a fé e a infidelidade se apresentassem juntas, ele receberia ambas de bom grado sempre que elas lhe abrissem a porta que deve fezê-lo chegar a seu destino. De fato, quando esta porta está aberta, o que é então a fé ou a infidelidade, se do outro lado dessa porta não há nem uma nem outra? Apesar da blasfêmia que está à porta, o peregrino esperará pacientemente que ela se abra.”



Palavras alegóricas de Amru de Osman

Amru de Osman em seu livro do tesouro (Ganj-nam) disse que ele escreveu em Meca: “Quando Deus soprou a pura vida no corpo de Adão, que não era mais que terra e água, não quis que os anjos tivessem conhecimento desse segredo e sequer o suspeitassem. Ele disse então: 'Prosternai-vos agora ante Adão, ó espíritos celestes!' Todos inclinaram então a cabeça sobre a face da terra e nenhum deles pôde ver o segredo que Deus desejou esconder. Porém Íblis disse para si mesmo: 'Ninguém me verá dobrar os joelhos neste momento. Ainda que me cortassem a cabeça, isto não seria para mim uma aflição maior que a que resultaria desta ação se eu a fizesse. Já que sei que Adão é somente terra, não importa que eu abaixe ou não a cabeça para não ver esse segredo; não há perigo pois em inclinar-me'. Assim, como Íblis não baixou a cabeça, pôde ver o segredo que espreitava. Então Deus lhe disse: 'Ó tu que te pudeste de emboscada no caminho! Aqui mesmo tu roubaste Meu segredo, porém, já que viste o segredo que Eu queria esconder, deves morrer, para que não o divulgues pelo mundo. Sempre que um rei esconde um tesouro de seu exército, faz perecer os que por ventura presenciam esse ato e passa uma linha sobre suas vidas. Tu és esse homem do tesouro, como ele viste um tesouro escondido e é necessário que te resignes a ter a cabeça cortado. De fato, se neste momento Eu não te corto a cabeça, será livre para revelar esse segredo a todo mundo'.

'Senhor', disse Íblis, 'dá trégua a Teu servidor, tem piedade e indica um meio de expiação àquele que caiu em Tua desgraça!' Deus respondeu: 'Quero dar-te uma trégua, todavia coloco em teu pescoço o colar da maldição e dou-te o nome de mentiroso, a fim que desconfiem de ti até o Dia da Ressurreição'.

Íblis disse então: 'Por que devo temer Tua maldição, se esse puro tesouro manifestou-se a mim? Se a maldição vem de Ti, também possuis misericórdia; a criatura depende de Ti, pois o destino Te pertence. Se a maldição é minha herança, nada tenho a temer, se há o veneno também há o remédio. Quando vi as criaturas Te pedirem misericórdia, eu, em minha ignorância, tomei Tua maldição. Maldizes algumas de Tuas criaturas e bendizes outras. Eu sou a criatura de Tua maldição, visto que falhei.'”

Se queres alcançar o mistério que te anuncio, deves agir assim; mas tu não buscas o verdadeiro sentido das coisas, só tens a pretensão. Se não podes encontrá-lo nem de dia nem de noite não é porque não existe, mas porque tua busca é defeituosa.

.

Outra história sobre o Sheik Schabli



No momento de sua morte, Schabli estava agitado, tinha os olhos turvos e o coração cheio de espectativa. Ele tinha os rins apertados pelo cinturão da estupefação e estava sentado sobre as cinzas. Tanto molhava essas cinzas com seu pranto, tanto cobria sua cabeça com elas. Alguém lhe fez então esta pergunta: “Por que esperar pela morte desta maneira? Já viste alguém, em tal momento, servir-se do zunnar que envolve tua cintura?” Ele respondeu: “Eu queimo, o que devo fazer e como agir? O que farei, se deixo a vida por causa do ciúme que experimento? Minha alma desprendeu a vista dos dois mundos e arde neste momento pelo ciúme que sinto de Íblis. Ele contentou-se com a palavra da maldição, e eu espero que também minha queixa alcance plenamente seu objetivo. Apesar de ter renunciado ao universo, ficaria contentado com o que Íblis conseguiu: a maldição de Deus. Tendo Schabli o coração agitado e em chamas, poderia transmitir a uma outra pessoa algo do que sente?”

Se fazes diferença entre o que te chega da parte de Deus, seja pedra ou diamante, não és homem da via espiritual. Se te sentes honrado pelo diamante e desonrado pela pedra, Deus não está contigo. Não é necessária amar mais o diamante que detestar a pedra, presta atenção a isso, pois os dois vêm deDeus. Se tua amante num momento de loucura, te atira uma pedra, isto vale mais que receber uma jóia de outra mulher. Animado por um ardente desejo e pela esperança, o homem deve expor sem cessar sua vida no caminho espiritual. Não deve deter-se um instante nessa busca; não deve permanecer nem um instante na inércia. Se ele fica um só momento sem ocupar-se de sua procura, será violentamente lançado para fora do caminho.




História sobre Majnun


Um homem que amava Deus viu um dia Majnun esquadrinhando a terra do caminho grão a grão e lhe disse: “Ó Majnun, o que procuras aí?” - “Minha procura por Laila não tem fim”, ele respondeu. - "Como esperas encontrar Laia desta maneira?”, perguntou o outro, “acaso uma pérola tão pura poderia estar em meio a poeira?” - “Eu busco Laia por todos os lugares”, disse Majnun, “com a esperança de um dia encontrá-la em alguma parte.

.

História de Yussuf de Hamdan



Yussuf de Hamdan, célebre iman de seu século, que possuía os segredos do mundo e era um sábio clarividente, dizia: “Tudo o que se vê acima e abaixo na existência, cada átomo, é um outro Jacó que pede notícias de José, a quem perdeu”.

É necessário amor e esperança na via espiritual, pois o tempo deve passar-se nessas duas coisas. Se não estás satisfeito por essas duas coisas, não retires no entanto o pensamento deste segredo. O homem deve ser paciente em sua busca; mas aquele que ama não estárá impaciente? Seja paciente, quer desejes ou não, na esperança de encontrar alguém que te indique o caminho que deves percorrer. Encolhido como uma criança no ventre de sua mãe, recolhe-te a ti mesmo; mergulhado no sangue, espera. Não deixes teu interior para produzir-te exteriormente. Se te falta alimento sustenta-te de sangue: o sangue é o único alimento da criança no ventre de sua mãe e é somente do calor do interior que ele provém. Alimenta-te pois de sangue e permanece pacientemente sentado, comprazendo-te em teu amor, na esperança de ser aceito pelo objeto de tua afeição, graças a tua boa sorte.

.

História sobre Abú Said Mahnah



O sheik Mahnah encontrava-se em grande perplexidade: estava na planície, os olhos cheios de sangue e o coração partido em dois, quando viu ao longe um velho aldeão cuja aparência anunciava a piedade; em sua caminhada seu corpo irradiava um resplendor luminoso. O shiek foi em sua direção, saudou-o e prontamente fez conhecer sua penosa situação. Depois de ouvi-lo, o velho disse: “Ó Abú Said! Se o espaço que existe do fundo da terra ao trono glorioso de Deus fosse preenchido, não uma, mas cem vezes, e um pássaro colhesse um grão dessa pilha a cada mil anos e depois voasse cem vezes ao redor do mundo, e assim até o último grão, durante todo esse tempo a alma não teria obtido nenhuma notícia da corte celeste e Abú Said estaria ainda distante dela”.

Aos pacientes é necessário muita paciência; porém todo aquele que estuda as coisas espirituais sofre na impaciência. Enquanto não rebuscares o ventre do almiscareiro não poderás extrair do sangue a bolsa do almíscar. Quando a busca sai do interior para o exterior, ainda que o homem tivesse todo o universo a percorrer ele avançaria em meio ao sangue. Aquele que não se entrega a essa nobre busca é um animal, não existe, é uma figura sem alma, uma pele ambulante. Se tivesses de encontrar um tesouro, seria talvez mais ardente em tua busca; porém, se alguém se apega a semelhante tesouro, torna-se seu escravo.

Assim, quando uma coisa vos detém no caminho espiritual, ela se torna vosso ídolo e deve ser tratada como tal. Se te deixar levar pelo menor orgulho, já não és senhor de teu coração, pois estás como que embriagado pela bebida e perdeste tua inteligência. Não te deixes embriagar por essa taça de vinho e procura sempre, ainda que seja uma busca sem fim.


Mahmud e o buscador de ouro



Uma noite Mahmud, afastando-se de seu exército, avistou um homem que garimpava a terra à procura de ouro; ele havia amontoado aqui e ali pequenos montes de terra e mantinha a cabeça curvada sobre a poeira do caminho. Vendo essa cena, o rei atirou seu bracelete sobre a terra e cavalgou para longe dali, ligeiro como o vento. Na noite seguinte o rei voltou e, vendo este homem ocupado da mesma maneira, disse-lhe: “O que encontras-te ontem bastaria para pagar dez vezes os tributos do mundo, e contudo continua a escavar a terra. Exerce a realeza, pois agora és independente”. “Escavando a terra”, respondeu o homem, “encontrei o ornamento a que aludes, e é por este trabalho que obtive esse tesouro escondido. Como foi por esta porta que se manifestou minha fortuna, devo continuar ocupando-me dela enquanto viver”.

Seja, portanto, tu também, o homem dessa porta até que ela se abra para ti; não desvies a cabeça desse caminho até que ele te seja mostrado. Teus dois olhos não estarão sempre fechados; busca, pois essa porta não está fechada.


Sentença de Rabia



Um homem fora de si dizia: 'Ó Deus! Abre-me uma porta para que eu possa chegar a Ti”. Rabia por acaso estava sentada ali perto e lhe disse: “Ó negligente! Quando esteve a porta fechada?”

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Meher Baba - Assimilação das Verdades Divinas e a Dinâmica do Progresso Espiritual

Assimilação das Verdades Divinas


O início da vida espiritual é marcado e ajudado pela meditação em geral, que não se preocupa exclusivamente com elementos específicos selecionados da experiência, mas que, em seu escopo abrangente, busca entender e assimilar as Verdades divinas da vida e do universo. Quando o aspirante está interessado em problemas mais amplos da natureza última da vida e do universo e começa a pensar sobre elas, pode-se dizer que ele se lançou em tal meditação.
Muito do que está incluído na filosofia é o resultado de tentar desenvolver uma compreensão intelectual da natureza última da vida e do universo.
A compreensão puramente intelectual das Verdades divinas permanece frágil, incompleta e indecisiva, devido às limitações das experiências que podem estar disponíveis como fundação das estruturas de especulação. A meditação filosófica que consiste num pensar livre e sozinho não conduz a resultados conclusivos. Ela muitas vezes leva a diversos sistemas ou opiniões conflitantes, no entanto, o pensamento filosófico não é sem valor. Além de levar até certa medida o aspirante ao reino do conhecimento, ele provê uma disciplina intelectual que lhe permite receber e compreender as Verdades divinas, quando acontece dele entrar em contato com elas através daqueles que as conhecem. O modo mais fecundo de meditação geral consiste em estudar as verdades reveladas sobre a vida e o universo. Este modo de compreender e assimilar as Verdades divinas pode começar ao ouvir ou ler exposições da Verdade divina, que têm sua fonte nos Mestres de sabedoria.
Os discursos ou os escritos do Avatar e dos Mestres Perfeitos, estejam eles vivos ou sendo do passado, são objetos apropriados para este tipo geral de meditação, porque a assimilação das Verdades divinas reveladas através deles permite que o aspirante traga sua vida a um alinhamento com o propósito de Deus no universo. As verdades divinas são mais facilmente compreendidas e assimiladas quando elas são passadas diretamente para o aspirante por um mestre vivo. Essas comunicações pessoais do Mestre tem um poder e uma eficácia que a informação recebida pelos aspirantes através de outras fontes não podem ter. A palavra torna-se viva e potente por causa da vida e da personalidade do Mestre. Assim, muitas escrituras enfatizam a necessidade de ouvir as Verdades divinas diretamente através da palavra falada de um Mestre. O modo geral de meditação que depende de escutar as exposições das Verdades divinas é, sem dúvida, o melhor, quando o aspirante tem a oportunidade de contactar um mestre vivo e ouvi-lo. Nem sempre é possível, entretanto, para o aspirante contactar e ouvir um mestre vivo. Em tais casos, a meditação através da leitura tem algumas vantagens que lhe são próprias. Para a maioria dos aspirantes, a meditação através da leitura não tem praticamente nenhum substituto adequado, porque começa a partir de exposições escritas que estão disponíveis em qualquer momento que seja conveniente. A meditação que se inicia a partir da leitura sobre as Verdades reveladas tem essa vantagem especial de ser facilmente acessível para a maioria dos aspirantes.
A meditação através da leitura tem suas desvantagens pois a maioria das exposições escritas das Verdades divinas são destinadas para o estudo intelectual ao invés da assimilação através da meditação. As dificuldades que os aspirantes experimentam neste contexto devem-se, ou ao fato de que o método de meditação não está adaptado ao assunto, ou a alguma falha no método, o que o torna mecânico e sem inspiração, ou à falta de manejo ou à imprecisão do objeto utilizado para meditação.
A forma de meditação que começa a partir de leitura sobre as Verdades divinas tem três fases:
1. Na primeira fase, o aspirante terá que ler a exposição diariamente e, simultaneamente, pensar bem sobre ela.
2. Na segunda fase, a leitura propriamente dita torna-se desnecessária, mas o tema do assunto de exposição é revivido mentalmente e pensado a respeito constantemente.
3. Na terceira etapa é completamente desnecessário que a mente reviva as palavras da exposição seja separadamente ou consecutivamente, e todo o pensamento discursivo sobre o assunto chega ao fim. Nesse estágio da meditação, a mente não fica mais ocupada com qualquer linha de pensamento e tem uma percepção clara, espontânea e intuitiva das Verdades sublimes expressas na exposição.


A dinâmica do progresso espiritual

O progresso espiritual começa quando há uma mudança radical no panorama da pessoa mundana. O indivíduo mundano vive principalmente para o corpo e mesmo naquelas atividades que não parecem ter referência direta com o corpo, em última análise, sua força motriz fundamental é encontrada nos desejos relacionados com o corpo. Por exemplo, uma pessoa vive para comer, ela não come para viver. Ela ainda não descobriu qualquer propósito que claramente transcenda o corpo, assim, o corpo e seus confortos se tornam o centro de todas as suas atividades. Mas quando ela descobre valores nos quais a alma é predominante, o corpo prontamente é relegado a segundo plano. A manutenção do corpo torna-se então para ela meramente instrumental para a realização de um propósito maior. Seu corpo, que tinha sido anteriormente um obstáculo à verdadeira vida espiritual, torna-se um instrumento para a liberação da vida superior. Nesta fase, a pessoa atende suas necessidades corporais, sem sentimento especial de auto-identificação, como o motorista de um carro que coloca combustível e água no carro para que ela possa continuar indo. O início do avanço espiritual é condicionado pela busca daquele objetivo para o qual o homem vive, objetivo para o qual ele, inconscientemente, ama e odeia e para o qual ele passa por diferentes alegrias e sofrimentos. Embora ele possa se sentir mexido pela força do incompreensível e irresistível destino divino, pode levar um longo tempo antes que ele chegue ao topo da montanha da Realização da Verdade, e o caminho está sempre cheio de armadilhas e precipícios escorregadios. Aqueles que tentam chegar a esse topo da montanha tem que subir cada vez mais alto. E mesmo que uma pessoa consiga escalar grandes alturas, o menor erro de sua parte pode mandá-lo para o início novamente. Portanto, o aspirante nunca está seguro a menos que ele tenha a vantagem da ajuda e da orientação de um mestre perfeito, que conhece os meandros do caminho espiritual e que pode não apenas proteger o aspirante de uma possível queda, mas conduzi-lo para a meta da Realização sem recaídas desnecessárias. O aspirante que tenta alcançar a meta carrega consigo todos os Sanskaras que ele acumulou no passado. Mas durante a intensidade de seu desejo espiritual, eles permanecem em suspenso e ineficazes por aquele período. Vez por outra, porém, quando há um afrouxamento dos esforços espirituais, os Sanskaras até agora suspensos de ação reúnem forças novas e, se arrumando em uma nova formação, constituem grandes obstáculos para o avanço espiritual do aspirante.
Isto pode ser ilustrado pela analogia de um rio. A poderosa corrente de um rio carrega consigo grandes quantidades de lodo do fundo e das margens. Enquanto essas quantidades estão suspensas na água elas não prejudicam o fluxo do rio, embora possam retardá-lo. Quando a corrente se torna mais lenta nas planícies, e particularmente na direção da foz, esse volume tende a se depositar no leito do rio e formar enormes ilhas ou deltas. Esses últimos não só obstruem a corrente, mas muitas vezes desviam-na ou mesmo dividem-na em pequenos córregos e, em geral, enfraquecem a força do poderoso rio. Ou ainda, quando o rio está em cheia, ele varre todos os obstáculos de árvores, arbustos e lixo em seu caminho, mas quando esses se acumulam até um certo grau, podem constituir um sério obstáculo para o fluxo do rio. Da mesma forma, o caminho do progresso espiritual é frequentemente bloqueado por obstáculos de sua própria criação e esses só podem ser retirados com a ajuda do Mestre.
A ajuda do Mestre é mais eficaz quando o aspirante renuncia a sua vida-ego em favor da vida plena que o Mestre representa. Uma completa auto-rendição é muito difícil de conseguir, e ainda assim a condição mais essencial do progresso espiritual é a diminuição do egoísmo para o mínimo. O objetivo do progresso espiritual não é a quantidade de "trabalhos", mas a qualidade da vida livre da consciência-ego. Se o aspirante tem muitas coisas boas a seu crédito, que ele reivindica como sendo suas, o seu ego prende-se aos resultados e isso constitui um obstáculo formidável para a vida ilimitada. Daí vem a futilidade de rituais e cerimônias, atos de caridade e boas obras, renúncia externa e penitências, quando esses estão enraizados na consciência-ego.
Por conseguinte, é mais necessário para o aspirante manter-se livre da idéia de "eu faço isso e eu faço aquilo.” Isso não significa que o aspirante deva evitar todas as atividades por medo de desenvolver essa forma de ego. Ele pode ter que assumir uma vida de ação para desgastar o ego que ele já desenvolveu. Dessa forma, ele fica preso em um dilema: se ficar inativo, não fará nada para romper a prisão de sua vida centrada no ego, e se levar a uma vida de ação, ele será confrontado com a possibilidade do ego ser transferido para esses novos atos. Para o avanço espiritual o aspirante tem de evitar esses dois extremos e ainda assim levar uma vida de ação criativa.
Trilhar o caminho espiritual não é como montar um cavalo selado, mas é como caminhar sobre o fio de uma espada. Uma vez que um cavaleiro está montado no cavalo, ele fica praticamente em repouso, sentado com certa facilidade lhe é requerido muito pouco esforço ou atenção para prosseguir. Trilhar o caminho espiritual, no entanto, requer máxima atenção e cuidado já que o caminho não oferece lugares de parada ou espaço para a expansão da vida centrada no ego. Quem entra no caminho não pode nem permanecer onde está, nem pode se dar ao luxo de perder o equilíbrio. Ele é, portanto, como alguém que tenta andar no fio afiado de uma espada. Para evitar a inação de um lado e o orgulho da ação do outro, é necessário que o aspirante construa da seguinte forma um ego provisório e de trabalho que irá ser totalmente subserviente ao Mestre. Antes de começar qualquer coisa, o aspirante pensa que não é ele quem está fazendo aquilo, mas é o Mestre que está fazendo com que as coisas sejam feitas usando-o como meio. Depois de fazer a tarefa ele não ficará reivindicando os resultados da ação ou irá apreciá-los, mas ficará livre deles, oferecendo-lhes ao Mestre. Ao treinar sua mente dessa maneira, ele consegue criar um novo ego que, embora seja apenas provisório e de trabalho, é amplamente capaz de se tornar uma fonte de confiança, sentimento, entusiasmo e "espírito" que a ação verdadeira deve expressar. Esse novo ego é espiritualmente inofensivo, uma vez que retira sua vida e ser do Mestre, o qual representa o Infinito. E quando chega o momento, ele pode ser jogado fora como um traje.
Existem, portanto, dois tipos de ego – um que só pode acrescentar às limitações da alma e o outro que ajuda na sua emancipação. A passagem do ego limitante mundano para o estado de ausência de ego da vida infinita, reside inteiramente na construção de um ego provisório gerado pela fidelidade incondicional ao Mestre. A construção de um novo ego totalmente subserviente ao Mestre é indispensável para a dinâmica do progresso espiritual. O aspirante estava acostumado a derivar prazer na vida de seu ego limitado e uma transição imediata da vida de ação egoísta para e essa vida de ação sem ego é impossível de ser feita sozinho e também não é aconselhável. Se fosse requerido que o aspirante imediatamente evitasse todas as formas de consciência-ego, ele teria que voltar a um estado de passividade negativa, sem qualquer expressão de alegria. Ou, teria que procurar expressão através de atividade que seria apenas automática, como a de uma máquina sem vida e, portanto, ele não poderia derivar qualquer sentido de satisfação. O problema real é que o aspirante tem que abandonar a sua vida do ego limitado e entrar na ilimitada vida sem ego, sem cair em um coma, onde haveria um declínio da vida. Tal coma poderia dar um alívio temporário da limitação da vida centrada no ego, mas não poderia iniciar o aspirante na infinidade da atividade sem ego. Esta é a razão pela qual na maioria dos casos o avanço espiritual tem de ser muito gradual e, muitas vezes, leva várias vidas. Quando uma pessoa parece ter tomado passos largos em sua evolução espiritual, às vezes ela apenas limitou-se a recapitular o avanço já conseguido em vidas anteriores, ou tenha havido a intervenção especial de um Sadguru. Em situações normais, o avanço do aspirante tem que ser gradual. A distância entre a vida limitada do ego e a vida ilimitada sem ego tem de ser coberta por estágios graduais de transformação do ego, de modo que o egoísmo seja substituído por humildade, os desejos surgentes substituídos por um crescente contentamento e o egoísmo seja substituído por amor altruísta.
Quando o ego é totalmente subserviente ao mestre, ele não apenas é espiritualmente inofensivo, mas é indispensável e contribui diretamente para o avanço espiritual do aspirante, porque ele lhe traz cada vez mais perto do Mestre através da vida de serviço altruísta e amor. O contato interior constante com o Mestre que ele assegura, torna-o particularmente receptivo à ajuda especial que somente o Mestre pode dar.
O aspirante que renuncia a vida de um ego desenfreado e separatista em favor de uma vida de auto-rendição ao Mestre está operando, através deste novo ego subserviente, como um instrumento nas mãos do Mestre.
Na realidade, o Mestre está trabalhando através dele. Assim como um instrumento tem uma tendência a ficar fora de ordem enquanto está sendo colocado em uso, o aspirante também fica suscetível a dar errado no seu trabalho no mundo. De vez em quando o instrumento tem que ser limpado, revisado, reparado e corrigido. Da mesma forma, o aspirante, que durante o seu trabalho vem a desenvolver novos problemas, complicações e abrigos para o ego-pessoal tem de ser colocado em funcionamento para que possa avançar. O aspirante que se alista no serviço do Mestre pode ser comparado com uma vassoura com a qual o Mestre varre o mundo limpando suas impurezas. A vassoura está fadada a acumular a sujeira do mundo, a menos que seja limpada de novo e de novo e receba uma nova base ela torna-se menos eficiente no decurso do tempo. Cada vez que o aspirante vai ao Mestre, é com novos problemas espirituais. Ele pode se ver capturado em novas complicações relacionadas com um desejo por honra, riquezas ou outras coisas mundanas que fascinam o homem. Se ele as perseguir, poderá obtê-las, mas ele poderá se distanciar da meta de experimentar Deus, na qual ele colocou seu coração. Somente através da intervenção do Mestre tais doenças espirituais podem ser curadas. Essa tarefa de curar as doenças espirituais é comparável à realização de uma operação por um cirurgião que remove imediatamente a própria causa que vinha minando as energias vitais de um paciente. Se uma pessoa desenvolve doenças físicas e se queixa, ela deve ir ao médico; e se ela desenvolve problemas espirituais, deve ir ao Mestre. Assim, o contato periódico com o Mestre é muito necessário ao longo do processo do avanço espiritual. O Mestre ajuda o aspirante de suas próprias maneiras invencíveis, que não têm paralelo nas maneiras do mundo. De modo a ser o destinatário dessa ajuda, o aspirante deve fazer um esforço real para se render à vontade divina do Mestre. O ego pessoal, que o aspirante renunciou em sua primeira rendição ao Mestre, pode reaparecer em um novo aspecto mesmo dentro do ego artificial cujo propósito é ser completamente subserviente ao Mestre e criar desordem em seu trabalho regular. Assim, essa nova ressurreição do ego-pessoal limitado do aspirante precisa ser combatida através de nova rendição ao Mestre. A série de ressurreições sucessivas do ego pessoal tem que ser acompanhada por uma série de novos atos de rendição ao Mestre. O progresso de uma rendição para outra rendição ainda maior é um progresso de uma conquista menor para uma maior. As formas mais completas de rendição representam os estados superiores de consciência, uma vez que asseguram uma maior harmonia entre o aspirante e o Mestre. Assim, a vida infinita do Mestre Perfeito pode fluir através do aspirante em medida mais abundante. O avanço espiritual é uma sucessão de uma rendição atrás de outra até que a meta da rendição final da vida centrada no ego separada é completamente alcançada. Apenas a rendição final é completa. É a contrapartida da união definitiva em que o aspirante torna-se um com o Mestre. Portanto, num certo sentido, a rendição mais completa ao Mestre é equivalente à realização da Verdade, que é o objetivo final de todo o avanço espiritual.

Philokalia - Nikitas Stithatos - Três estágios do caminho espirital


Existem três estágios no caminho espirital: o purgativo, o iluminativo e finalmente o místico, através dos quais somos aperfeiçoados. O primeiro diz respeito aos iniciantes, o segundo àqueles no estágio intermediário e o terceiro aos perfeitos. É através desses três estágios consecutivos que ascendemos, crescendo em estatura de acordo com Cristo e atingindo 'o estado de Homem Perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo.' (Ef. 4:13)


O estágio purgativo refere-se àqueles recentemente engajados na batalha espiritual. Ele é caracterizado pela rejeição do ser materialista, libertação do mal material e empossamento do ser regenerado renovado pelo Espírito Santo (Col. 3:10). Ele envolve aversão pela materialidade, a atenuação da carne, o evitamento de qualquer coisa que ative a mente para as paixões, arrependimento pelos pecados cometidos, o dissolvimento com lágrimas do sedimento amargo deixado pelo pecado, a regulação de nossa vida de acordo com a generosidade do Espírito e a limpeza do interior do copo através do remorso (Mat.23:26) – o intelecto – de toda mancha da carne e do espírito (2Cor.7:1), para que ele possa então ser preenchido com o vinho do Logos que alegra o coração do purificado (Sal.104:15), e possa ser trazido ao rei dos poderes celestiais para Ele saboreá-lo. Seu objetivo final é que deveríamos ser forjados no fogo da luta ascética, lavando a ferrugem do pecado e escaldando com aço e temperando na água do remorso, para que como espadas possamos efetivamente cortar as paixões e os demônios. Atingindo esse ponto por meio de longa luta ascética, apagamos o fogo dentro de nós, amordaçamos as paixões brutas, tornamo-nos fortes em Espírito em vez de fracos (Heb.11:33), e como outro Jó conquistamos o tentador através de nossa resistência paciente.


O estágio iluminativo refere-se àqueles que como resultado de suas lutas atingiram o primeiro estágio de dissipação. Ele é caracterizado pelo conhecimento espiritual dos seres criados, pela contemplação de suas essências interiores e comunhão no Espírito Santo. Envolve a purificação do intelecto pelo fogo divino, a abertura noética dos olhos do coração e o nascimento do Logos acompanhado pelas sublimes intelecções do conhecimento espiritual. Seu objetivo final é a elucidação da natureza das coisas criadas pelo Logos da Sabedoria, a compreensão dos assuntos humanos e divinos e a revelação dos mistérios do reino dos Céus (Luc.8:10). Aquele que atingiu esse ponto através da atividade interior do intelecto, como outro Elias (2Reis2:1), conduz a carruagem de fogo através da quaternidade das virtudes e enquanto ainda vivo é elevado ao reino noético e atravessa os céus, uma vez que ele elevou-se acima da solidão do corpo.


O estágio místico e perfeito refere-se àqueles que já passaram por todas as coisas e chegaram 'à medida da estatura da plenitude de Cristo'. Ele é caracterizado pela transcendência da esfera dos poderes demoníacos e de todas as coisas entre a terra e a lua, através do alcance das mais altas posições celestiais, aproximando-se da luz primordial e compreendendo as profundezas de Deus através do Espirito. Ele envolve imergir nosso intelecto contemplativo nos princípios interiores da providência, justiça e verdade, e também a interpretação do simbolismo arcano, parábolas e passagens obscuras nas Escrituras Sagradas. Seu objetivo final é a nossa iniciação nos mistérios ocultos de Deus e sermos preenchidos pela inefável sabedoria através da união com o Espírito Santo, de modo que cada um se torne um sábio teólogo na grande Igreja de Deus, iluminando os outros com o significado interior da teologia. Aquele que atingiu esse ponto através da mais profunda humildade e compunção, como outro Paulo, foi apanhado no terceiro céu da teologia e ouviu coisas indescritíveis as quais aquele que ainda está dominado pelo mundo sensorial não é permitido ouvir (2Cor12:4); e ele experimenta bênçãos indizíveis, que nenhum olho viu e nenhuma ouvido ouviu (1Cor4:1), pois ele é porta-voz de Deus, e através das palavras ele comunica esses mistérios para as outras pessoas; e nisso ele encontra abençoado repouso. Pois ele está agora aperfeiçoado no Deus perfeito, unido na companhia dos outros teólogos com os poderes angélicos supremos dos Querubins e Serafins, nos quais reside o princípio da sabedoria e do conhecimento espiritual.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

São Teófanes o Recluso - A Arte da Oração

A dualidade do Homem e os dois tipos de oração


O homem é dual: exterior e interior, carne e espírito. O homem exterior é visível, da carne, mas o homem interior é invisível, espiritual – ou como nomeou o Apóstolo Pedro: “... o homem oculto do coração, que não é corruptível, … um espírito dócil e silencioso” (1pedro iii.4). E São Paulo refere-se a essa dualidade quando diz: “Mas embora nosso homem externo pereça, ainda assim o homem interno é renovado” (2cor.iv.16). Aqui o Apóstolo fala claramente sobre o homem interno e o homem externo. O homem externo é composto de muitos membros, mas o homem interno chega à perfeição através de sua mente – através da atenção a si mesmo, temor a Deus e através da Graça de Deus. Os trabalhos do homem exterior são visíveis, mas os do homem interior são invisíveis, de acordo com o Salmista: “o homem interior e o coração estão muito fundo” (Salmo lxiii.7). E São Paulo o Apóstolo diz: “Quem, pois, entre os homens conhece o que é do homem, senão o espírito do homem que está nele?” (1cor.ii 11). Apenas aquele que experimenta o mais íntimo dos corações e as partes internas conhece todos os segredos do homem interior.

O treinamento, portanto, deve ser duplo, externo e interno: externo ao ler livros, interno em pensamentos de Deus; externo no amor pela sabedoria, interno no amor por Deus; externo em palavras, interno em oração; externo em agudeza do intelecto, interno no aquecimento do espírito; externo em técnica, interno em visão. A mente exterior “se enche de orgulho” (i cor. Viii 1), a interna humilha-se; a exterior é cheia de curiosidade, desejando saber tudo, a interna presta atenção a si mesma e não deseja nada além do que conhecer a Deus, falando com Ele como Davi falou quando disse: “Meu coração diz a teu respeito: 'procura sua face!' É Tua face, Senhor, que eu procuro, não me escondas a Tua face.” (salmo xxvii 8-9). E também: “como o cervo bramindo por águas correntes assim minha alma brame por Ti, ó meu Deus!” (salmo xlii 2).

A oração, do mesmo modo, é dupla, exterior e interior. Há a oração feita abertamente e a oração secreta; a oração com os outros e a oração solitária; oração empreendida como um dever e a oração oferecida voluntariamente, que acontece em segredo, não tem hora fixa, sendo feita quando quer que você queira, sem obrigações, simplesmente quando o espírito move você. O primeiro tipo é oferecido de pé, parado; o segundo, não apenas de pé ou caminhando, mas também deitado, ou, resumindo, sempre – quando quer que aconteça de você elevar sua mente a Deus. O primeiro é feito na companhia dos outros, performado na igreja ou em alguma ocasião especial numa casa quando várias pessoal estão reunidas; mas o segundo é realizado quando você está sozinho fechado no seu aposento particular (ou quarto), de acordo com a palavra do Senhor: “quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu pai que está lá, em segredo” (Mat.vi 6).

O aposento particular também é duplo, externo e interno, material e espiritual: o lugar material é de madeira ou pedra, o quarto espiritual é o coração ou a mente. Portanto, o quarto material permanece sempre fixo no mesmo lugar, mas o espiritual você carrega dentro de você onde quer que você vá. Onde quer que o homem esteja, seu coração estará sempre com ele, e, então, tendo coletado seus pensamentos dentro de seu coração, ele pode se fechar lá dentro e orar para Deus em segredo, esteja ele falando ou escutando, esteja entre poucas pessoas ou entre muitas. A oração interior, se vem ao espírito de um homem quando ele está com outras pessoas, não demanda o uso dos lábios ou de livros, nenhum movimento da língua ou som da voz: e o mesmo é verdadeiro quando você está sozinho. Tudo o que é necessário é elevar sua mente a Deus e descender fundo dentro de si mesmo e isso pode ser feito em qualquer lugar.

O quarto material de um homem que é silencioso abrange apenas o próprio homem, mas o quarto interior espiritual também contém Deus e todo Reino dos Céus, de acordo com as palavras do Próprio Cristo no Evangelho: 'O reino de Deus está dentro de vós' (Luc.xvii 21). Explicando esse texto, São Makarios do Egito escreveu: 'O coração é um recipiente muito pequeno, porém todas as coisas estão contidas nele: Deus está lá, os anjos estão lá e também estão lá a vida e o Reino, as cidades celestiais e os tesouros da graça'.

O homem precisa fechar-se no quarto interno de seu coração com mais frequência do que ele precisa ir à igreja e deve coletar todos os seus pensamentos lá, deve colocar sua cabeça perante Deus, orando a Ele em segredo com todo o calor de seu espírito e com fé vívida. Ao mesmo tempo ele também deve aprender a voltar seus pensamentos para Deus de tal maneira que torne-se apto a desenvolver-se em um homem perfeito.


União amorosa com Deus

Primeiro de tudo é necessário entender que é o dever de todo Cristão – especialmente aqueles que se dizem dedicados à vida espiritual – lutar sempre e de toda maneira para ser unido com Deus, seu criador, amante, benfeitor e seu bem supremo, através de Quem e por Quem eles foram criados. Isso porque o centro e o propósito final da alma, que Deus criou, tem que ser Deus Ele mesmo apenas e nada mais – Deus do Qual a alma recebeu sua vida e sua natureza e por Quem ela deve viver eternamente. Pois todas as coisas visíveis na terra que são amáveis e desejáveis – riquezas, glória, esposa, filhos, em suma, tudo deste mundo que é lindo, doce e atrativo – não pertencem à alma mas apenas ao corpo, e sendo temporárias, vão passar tão rápido quanto uma sombra. Mas a alma, sendo eterna por sua natureza, pode atingir descanso eterno apenas no Deus Eterno: Ele é seu bem mais elevado, mais perfeito do que toda a beleza, doçura e amabilidade, e Ele é seu lar natural, de onde ela veio e para onde ela deve retornar. Pois assim como a carne vinda da terra retorna para a terra, também a alma vinda de Deus retorna a Deus e reside com Ele. Pois a alma foi criada por Deus de modo a residir com Ele para sempre, portanto nesta vida temporária devemos diligentemente buscar a união com Deus, de modo a sermos considerados dignos de estarmos com Ele e Nele eternamente na vida futura.

Nenhuma unidade com Deus é possível exceto através de um amor extremo. Isso podemos ver da história no Evangelho da mulher que era uma pecadora: Deus em Sua grande piedade garantiu a ela o perdão dos seus pecados e uma firme união com Ele, 'pois ela amava muito' (Luc.vii 47). Ele ama aqueles que amam a Ele, abre caminho para aqueles que O buscam e abundantemente garante totalidade de alegria para aqueles que desejam desfrutar o Seu amor.

Para acender em seu coração tal amor divino, para se unir com Deus em uma união inseparável de amor, é necessário para um homem orar frequentemente, elevando sua mente à Ele. Pois, assim como a chama aumenta quando é constantemente alimentada, também a oração, feita com frequência, com a mente residindo cada vez mais profundo em Deus, desperta o amor divino no coração. E o coração, posto em chamas, irá aquecer todo o homem interior, irá iluminá-lo e ensiná-lo, revelando para ele toda sua sabedoria desconhecida e oculta, tornando-o como um serafim flamejante, permanecendo sempre perante Deus dentro de seu espírito, sempre olhando para Ele dentro de sua mente e tirando dessa visão a doçura da alegria espiritual.


A oração deveria ser curta, mas frequentemente repetida.



Daqueles que têm experiência em elevar sua mente a Deus, aprendi que no caso da oração feita pela mente a partir do coração, uma oração curta, repetida frequentemente, é mais quente e mais útil do que uma longa. A oração longa também é muito útil, mas apenas para aqueles que estão quase atingindo a perfeição, não para os iniciantes. Durante a oração comprida, a mente do inexperiente não pode manter-se por muito tempo diante de Deus e geralmente é derrotada por sua própria fraqueza e mutabilidade, e é atraída para coisas externas, de modo que o aquecimento do espírito rapidamente esfria. Tal oração já não é mais uma oração, mas apenas distúrbio da mente, por causa dos pensamentos vagando aqui e ali. Por outro lado, a oração curta porém frequente tem mais estabilidade, porque a mente imersa em Deus por um curto período, pode realizar isso com maior calor. Portanto o Senhor também diz: 'Quando orares, não uses vãs repetições' (Mat. Vi 7), pois não é pela sua prolixidade que você será ouvido. E São João da Escada também ensina: 'Não tente usar muitas palavras para que sua mente não fique distraída pela busca das palavras. Porque de uma sentença curta, o Publicano recebeu a piedade de Deus e uma breve afirmação de crença salvou o Ladrão. Uma multidão excessiva de palavras na oração dispersa a mente em sonhos, enquanto que uma palavra ou uma sentença curta ajuda a coletar a mente'.

Mas alguém pode perguntar: 'Por que o Apóstolo diz na Epístola aos tessalonicenses: “Orai sem cessar”?' (1Tess. V 17).

Usualmente nas Escrituras Sagradas, a palavra 'sempre' é usada no sentido de 'frequentemente', por exemplo: 'os sacerdotes entravam sempre na primeira tenda, para realizar o serviço para Deus' (Heb.ix.6): isso significa que os sacerdotes entravam na primeira tenda em certas horas fixas e não que eles entravam lá incessantemente de dia e de noite; eles entravam frequentemente, mas não ininterruptamente. Mesmo se os sacerdotes estivessem o tempo todo na igreja, mantendo vivo o fogo que veio dos céus e adicionando combustível a ele para que ele não se extinguisse, eles não ficavam fazendo isso todos ao mesmo tempo, mas sim em turnos, como vemos de São Zacarias: 'Ele desempenhava as funções sacerdotais diante de Deus, no turno de sua classe' (Luc.i.8). Devemos pensar do mesmo modo a respeito da oração, a qual o Apóstolo ordena que seja feita incessantemente, pois é impossível para o homem permanecer em oração dia e noite sem interrupção. Afinal, tempo também é necessário para as outras coisas, para os cuidados necessários para a administração de nossa casa, precisamos de tempo para trabalhar, para falar, tempo para comer e beber, tempo para descansar e dormir. Como é possível orar incessantemente senão ao orar frequentemente? A oração frequentemente repetida pode ser considerada oração incessante.

Consequentemente não deixe que sua oração frequentemente repetida porém curta seja expandida em muitas palavras. Isso é também o que os Padres Sagrados aconselham. Em seu comentário sobre o Evangelho de São Mateus (vi.7), São Theophylatos afirma: 'Você não deveria fazer orações longas, pois é melhor orar pouco porém frequentemente.' E São João Crisóstomo em seu comentário sobre as Epístolas de Paulo, observa: 'aquele que diz muito na oração, não ora, mas favorece a fala inútil'. São Theophylatos também diz em sua interpretação de Mateus vi.6: 'Palavras supérfluas são conversa fiada'. O Apóstolo disse bem: 'prefiro dizer cinco palavras com minha compreensão... do que dez mil palavras numa língua desconhecida' (1Cor.xiv.19): ou seja, é melhor orar a Deus de maneira breve mas com atenção, do que pronunciar inúmeras palavras sem atenção, em vão, enchendo o ar de barulho.

Este é um outro sentido no qual as palavras do Apóstolo devem ser interpretadas. 'Ore sem cessar' (1Tess.v.17) devem ser tomadas no sentido da oração realizada pela mente: o que quer que um homem esteja fazendo, a mente pode estar sempre direcionada para Deus e dessa forma ela pode orar para Ele incessantemente.

Portanto comece agora, Ó minha alma, pouco a pouco, o treinamento estabelecido para você, comece em nome do Senhor, de acordo com a instrução do Apóstolo: 'E o que quer que fizerdes em palavra ou feito, fazeis tudo em nome do Senhor Jesus' (Col.iii.17). Faça tudo, ele quer dizer, não primeiramente para seu próprio benefício, mesmo que espiritual, mas pela glória de Deus; e assim em todas as suas palavras, feitos e pensamentos, o nome do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador, será glorificado.

Mas antes de começar, explique para si mesmo brevemente o que é oração. Oração é voltar a mente e os pensamentos na direção de Deus. Orar significa permanecer diante de Deus com a mente, mentalmente contemplá-Lo sem se desviar, e conversar com Ele com medo e esperança reverentes.

E então colete todos os seus pensamentos, deixando de lado todos os cuidados mundanos externos, dirija sua mente para Deus, concentrando-a completamente Nele.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Hazrat Inayat Khan - O Poder da Repetição

Por milhares de anos o segredo da repetição tem sido conhecido pelos místicos. Eles descobriram que o maior mistério estava escondido sob a forma da repetição; e a ciência do mantrayoga, por exemplo, foi fundada sobre esse princípio pelos Yogis da Índia, enquanto que os Sufis trabalharam por muito tempo nas terras da Síria, da Palestina e do Egito, com a ciência da repetição de palavras.
O que nos atrai mais é a repetição de toda a experiência que tivemos. Se você tem o hábito de ir ao parque, você talvez tenha feito uma associação com um banquinho ali e você sempre será atraído por ele quando você vai ao parque. Você experimentou o magnetismo do lugar. Pode haver um lugar melhor, mas no lugar que você se sentou uma vez você vai sentar-se novamente, e quanto mais você se sentar ali, mais você será atraído para lá. Assim, há canções simples que você ouviu na sua infância, elas já estão perdidas em sua memória. Você se tornou um grande amante da música, mas quando essa música que você ouviu na sua infância é cantada uma vez, ela traz uma nova alegria e uma vontade de ouvi-la novamente, não se pode compará-la à melhor música do mundo! Há também coisas que a pessoa come ou algum cheiro que ela sente que tem um perfume, e depois de tê-los experimentado uma, duas ou três vezes eles crescem na pessoa. Ela começa a gostar tanto que quem nunca experimentou fica surpreso ao pensar que alegria há em gostar de uma coisa dessas. Esse também é o efeito da repetição.
Amizade, familiaridade, se tornar conhecido de alguém, todos esses são repetições.
Às vezes a pessoa se sente muito desconfortável num trem ao encontrar-se entre pessoas que não conhece, mas depois de tê-los visto por um tempo ela se torna tão habituada à sua presença que isso desperta simpatia nela e ela faz amizades. Dessa forma, a vida inteira está baseada no princípio da repetição. Portanto, as coisas que nos ajudam a sermos iluminados e a alcançarmos a espiritualidade são prescritos pelos sábios para serem repetidas.
É por causa de mal-entendido que na religião protestante as pessoas se prendem a uma sugestão de Cristo contra "vãs repetições”. Mas isso não foi dito contra as repetições, foi contra as repetições vãs. O clero protestante, no entanto, pegou essa idéia e fez dela uma ditado contra a repetição. Assim, em países como a Suíça e outros lugares onde há um espírito calvinista, as pessoas muitas vezes não entendem isso. Ainda assim, toda a vida se baseia na repetição. Mesmo ir à igreja e fazer orações é repetição.
Hoje, nesta era material, uma onda está chegando em que as pessoas estão começando a reconhecer de um ponto de vista psicológico, uma idéia usada por Coué, que, ao repetir: 'Você está bem, você está bem, você está bem', a pessoa fica bem. As pessoas vão para casa com essa idéia sobre a qual os místicos de todas as eras pensaram, e dizem: "De alguma forma é útil”. Quanto mais elas entenderem isso, mais vão descobrir que há muito na repetição, uma vez que a explorarem.
Na Índia havia uma empregada em nossa casa que gostava de cantar uma canção cujas palavras eram: "Como o meu destino mudou hoje”. Durante uma semana ela cantou durante o dia todo e no final, ela caiu da varanda e morreu. O destino mudou para pior.
Havia um imperador mongol, Bahadur Shah, que era um poeta requintado sob o heterônimo de Zafar, era o maior poeta de seu tempo. Ele escrevia poesias tristes e morreu numa tristeza absoluta.
Também posso dizer sobre minha própria experiência: ao viajar na Holanda, fui com um amigo - um homem muito prático e sagaz - almoçar em sua casa de campo. No trem eu contei para ele como uma vez eu tinha perdido minha estação e por isso me afastei do lugar onde eu deveria ter descido. Ao dizer isso, realmente perdemos a nossa estação e em vez de chegar para o almoço, chegamos para o jantar. Isso mostra que tudo o que repetimos tem uma ação psicológica.
Bom presságio e mau presságio também dependem de repetição. Se você conta para uma pessoa sobre um acidente quando ela está entrando em seu automóvel, isso significa que você coloca as rodas do seu carro na rota que leva a um acidente.
Por que o sucesso se repete e por que o fracasso se repete? Há sempre sucesso atrás de sucesso e fracasso atrás de fracasso. Isso também é repetição que forma um ritmo. Não há nada que ajude mais a trazer sucesso do que o sucesso, e uma vez que você fracassou, você fracassará repetidamente. Se eu quisesse aprofundar esse assunto, eu diria que o movimento do mundo é também a repetição da qual um ritmo é formado. O nascer e o pôr do sol, o crescer e o minguar da lua, a mudança das estações, o ritmo que as ondas assumem e a velocidade com que o vento sopra, tudo isso funciona de acordo com a lei da repetição. Sendo que a repetição é um movimento - um movimento móvel, pois vai para a frente – desse modo ela é usada até mesmo pelos místicos como o maior segredo para o progresso espiritual ou o sucesso material.
Há muitas maneiras de concentração, mas a melhor maneira é a repetição de uma palavra. Por exemplo, se a pessoa quer se concentrar no equilíbrio, ela não pode criar uma forma disso diante de sua mente, pois isso é uma abstração. Mas se ela fecha os olhos, separando-se de todas as outras coisas e repete para si mesma: "equilíbrio, equilíbrio, equilíbrio, equilíbrio, equilíbrio”, naturalmente, cada vez que ela repete “equilíbrio” isso cria um retrato em seu interior, uma imagem do equilíbrio, e em tudo o que ela faz ela vê essa imagem refletida. Assim, sua vida torna-se o equilíbrio.
Muitas vezes os pais, não sabendo disso, chamam uma criança de “malcriada”. A criança fica impressionada com isso, ela sabe que ela é malcriada, portanto, continua sendo desobediente. Assim também é com amigos e parentes e com todos aqueles que nos rodeiam. Não sabendo o efeito psicológico de nossa fala, em vez de melhorá-los podemos torná-los piores. Se você diz ao seu parceiro de negócios: "Não é desonesto o que você fez? ', Isso significa que você tornou essa pessoa desonesta. A primeira coisa que ela fez foi menos desonesta, você completou a desonestidade ao dizer isso. Todo tipo de acusação de desonestidade, da falta de gentileza ou de afeição ou de amor, torna assim a pessoa que você acusou. Ignorantes disso, muitas vezes as pessoas se alegram dizendo para as outras, coisas que elas querem ver mudadas nelas. Se você disser a alguém: "você tem sido muito grosseiro comigo', ou "você não foi justo", ou "muito cruel ", você torna a pessoa mais cruel, mais injusta, mais grosseira e a pessoa não pode mudar isso. Teria sido muito melhor não ter dito nada, não ter tentado tornar essa pessoa melhor! Tudo o que você acusa, você piora pela repetição de palavras.
Acusar é dar vida a algo. Se você não tomar conhecimento das coisas, elas morrem porque você não lhes deu vida. Ao notá-las você dá vida a coisas que podem não ser rentáveis para você. Existe o homem simples, o inteligente e o sábio. O simples não vê dentro da natureza humana, o inteligente vê e o que ele vê ele diz, o sábio vê e não diz nada, e é isso que o torna sábio.
No Oriente, eles dão grande consideração aos nomes dados às crianças, aos cavalos, aos animais, porque aquela palavra é repetida tantas vezes e essa repetição traz o mesmo resultado que o nome indica. Quando você dá a uma pessoa o nome de fortuna e ela é sempre chamada assim, ela deve tornar-se afortunada. Por isso não quero dizer que o Sr. Armstrong é sempre um homem forte. Eu só gostaria de dizer que o nome tem um grande efeito pela própria razão de ser repetido.
Existem sábios, aqueles que têm se concentrado e cuja mente é poderosa e, quando dão um certo nome a alguém com um certo significado, esse nome tem um grande efeito. É como dar a vida que há no nome e aquela vida começa a crescer na pessoa; é como plantar uma semente na terra e aquele plantio gerar flores e frutas. O significado que está no nome funciona depois de dias e anos, e produz os resultados mais maravilhosos. A partir do momento em que o nome é dado toda a vida é mudada. Se for dado por uma pessoa com poder e inspiração tem um efeito maravilhoso.
Quanto ao desenvolvimento espiritual, há diversas influências que podem ser consideradas como influências espirituais e precisamos de tais influências nós em nossa vida, tal como a influência da bondade, da compaixão, a influência da providência, da inspiração, da cura, da saúde, da sabedoria, do poder, e assim por diante. Essas sendo influências espirituais, os místicos têm nomes para cada uma dessas influências e eles chamam-lhes de: os nomes sagrados de Deus. Há talvez uma centena de nomes do tipo ou mais, que os místicos usam e cada um desses nomes tem sido praticado por eles durante milhares de anos. O efeito desses nomes, por vezes, funciona maravilhosamente.
Em Hyderabad, certa vez aconteceu que um sábio queria encontrar o rei e não conseguia. O secretário do rei lhe disse: "O rei está muito ocupado para atender a todos que vêm aqui". O sábio disse: "Tudo bem. Como o rei não vai me receber, eu vou receber o rei.” Pela repetição de um determinado nome sagrado em cerca de seis semanas surgiu uma condição que fez o rei ir visitar o sábio.

Eu mesmo vi o seguinte: há apenas alguns meses atrás, aconteceu um caso de um jovem que estava prestes a noivar para se casar com uma princesa. Mas tudo estava em sua mente, fora nada seguia nessa direção. O Estado era contra o noivao, a Igreja era contra, a família era contra e a própria condição financeira do homem era contrária. Portanto, não havia chance de parte alguma. Esse jovem em desespero queria cometer suicídio. Então ele entrou em contato com um professor espiritual e lhe disse: "Não há nenhuma saída no mundo exceto o suicídio". O professor disse: "Há um caminho. Repita esta palavra e tudo ficará bem". Em três meses todas as dificuldades e os problemas desapareceram. Ele alcançou o desejo de seu coração. Não há nada que não possa ser realizado se a pessoa tem fé. Quando a pessoa tomou essa direção, veio a conhecer o benefício que vem da lei da repetição.
Quando uma pessoa repete algo para si mesma, seja uma palavra boa ou uma palavra ruim, qualquer que seja ela, está gravando essa idéia em seu íntimo e essa idéia é refletida no espaço (akaska). Em cada pessoa que ela encontra isso será refletido. Por exemplo, se uma pessoa que repete: "gentileza, gentileza, gentileza”, encontrar o homem mais cruel do mundo, a gentileza que está gravada em seu coração será refletida sobre o homem e esse homem não poderá deixar de agir com gentileza. Além disso, uma pessoa que tenha repetido 'getileza' tantas vezes em sua vida, quem quer que ela encontrar vai dizer: 'Essa é uma pessoa amável", porque ao dizer 'gentileza', ela se tornou gentil.
É claro que a pessoa pode exagerar, pode fazer isso de forma errada e isso deve ser evitado. Ela pode tentar experimentar isso antes de estar madura o suficiente para experimentá-lo. Por exemplo, a pessoa pode ouvir esta palestra e ir até um banco e dizer: "dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro", e, em seguida, vir a mim e dizer: "Eu repeti dinheiro milhares de vezes, mas o dinheiro não veio!" Essa pessoa não procedeu corretamente. Além disso, fazer uso de uma coisa tão maravilhosa para a realização de coisas mundanas é muito tolo, porque a vida é uma oportunidade e quando essa oportunidade for perdida, ela será perdida para sempre. Quando usamos este conhecimento para as coisas que não valem a pena, então o tempo é perdido. Por isso, isso só prova valer a pena se for utilizado para a obtenção de conhecimento espiritual. Se usarmos esse segredo para a realização das coisas mundanas, não saberemos se são boas ou ruins para nós. Muitas vezes adoraríamos ter isto ou aquilo, mas se não é bom para nós, podemos muito bem não ter tais coisas. O melhor é o princípio moral que lemos na Bíblia: "Buscai primeiro o reino de Deus, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.”
A fim de buscar o reino de Deus não é necessário abrir mão das coisas do mundo. Quer as tenhamos ou não, a primeira coisa é buscar o reino de Deus. Ouvi muita gente dizer: "Se a minha situação financeira ficar boa pelo resto da minha vida, vou começar a trabalhar em linhas espirituais, se a situação com o dinheiro estiver tudo bem, eu farei isso". Compreendo perfeitamente que é necessário pensar na situação financeira, é razoável que seja assim. Mas, ao mesmo tempo, quando olhamos para a vida que está passando - este momento que temos nunca virá novamente! - Quando pensamos que deixamos passar a nossa vida somente em busca de coisas mundanas, e que esperar antes de olhar para algo maior talvez seja tarde demais. As coisas mundanas duram apenas enquanto a vida do corpo dura: em um momento ela desaparece. Quem sabe para as mãos de quem a riqueza acumulada irá. Ao mesmo tempo, devemos lembrar que Salomão, com toda a sua riqueza não era menos inteligente. Nós não precisamos abandonar todas as coisas; ao buscar a Deus não precisamos perder as coisas da Terra, todas elas seguem. Mas não se deve dizer: "Depois que eu tiver terminado minhas aquisições, então vou seguir o caminho espiritual". Esse é um sonho que pode nunca ser realizado. Se você quer seguir o caminho espiritual, você deve segui-lo agora, neste momento e ao mesmo tempo pensar sobre as obrigações mundanas. Pode-se muito bem ganhar dinheiro e se beneficiar disso e experimentar todo o conforto que estiver disponível. Não importa, contanto que se persiga o caminho espiritual.
Agora você pode perguntar: "De que modo se chega ao conhecimento espiritual através da repetição? É ao repetir o nome de Deus que a pessoa chega ao conhecimento espiritual? Não necessariamente, mas, ao repetir uma determinada coisa você esquece de si mesmo. Esquecendo de si você está se esquecendo do falso ser, e no esquecer o falso ser é que reside o segredo da Realização espiritual. Além da Realização espiritual, mesmo o segredo das grandes obras de músicos e poetas foi que eles esqueceram de si em seu trabalho. Para dar vida a algo a pessoa tem que fazer um sacrifício, e na Realização espiritual é pelo sacrifício do falso ser que ela chega ao Ser real (que lembra do Si mesmo Real). Há muitos que têm medo e dizem: 'Se perdermos a nós mesmos, o que ganharemos? É apenas uma perda!' Não é perder o seu verdadeiro Ser, mas a falsa concepção de si mesmo. É como uma pessoa que está sonhando. Ela está tão interessada no sonho que, se alguém vem acordá-la, ela diz: "Não, não, deixe-me dormir". Ela esquece que acordar será uma outra experiência, o seu grande interesse está no sonho. Assim é com algumas pessoas, elas têm medo de perder a si mesmas e se esquecem que é apenas a falsa concepção de si mesmas que perdem.
Ao imaginar o ideal espiritual muitas pessoas ficam com muito medo, como alguém que fica com medo no topo de uma montanha alta quando olha ao redor o imenso espaço. Isso lhes dá medo porque sempre viram horizontes estreitos. O horizonte amplo tem um efeito que lhes dá um choque. É o mesmo com aqueles que estão acostumados com a falsa concepção do ser. A melhor maneira de perder a si mesmo é pela repetição de uma determinada palavra sagrada que nos faz perder progressivamente a concepção do falso ser, expressando ao mesmo tempo a idéia do Ser real - uma base sobre a qual a vida será construída para sempre e para a eternidade.