quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ramesh S. Balsekar - A natureza da Consciência


Pergunta: Essa 'fonte' da qual você fala, é separada em cada individuo ou é algo que encobre todo mundo?
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Ramesh: É algo que encobre a todos. Está dentro de todos, de todo objeto.
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P: Uma parte é separada e dada para mim e outra parte para outra pessoa?
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R: Não, não. É tudo um. Essa é a totalidade da qual os místicos têm falado a respeito por centenas de anos, e que os cientistas têm falado desde que a mecânica quântica foi desenvolvida. Tudo o que há, é essa totalidade e unidade que não pode ser separada.
A Consciência impessoal é o Shiva ou Atman, ou o Ser, como Ramana Maharshi costumava dizer. E o jiva ou o ser que é o “ser egoísta”, é a consciência identificada. O que Ramana Maharshi costumava dizer é que a Consciência é o oceano todo. A Consciência universal ou o Ser, é o oceano e o jiva ou a consciência identificada é uma bolha. Mas a bolha em si, enquanto permanece uma bolha, está aparentemente separada. Entretanto, o que é a bolha senão água? E quando a bolha estoura, para onde ela vai? Ela se torna o oceano.
Quando a compreensão acontece, não faz diferença quais palavras são usadas ou que mestre as usou. Cada mestre usou palavras diferentes apenas por uma razão: sua audiência era diferente, as circunstâncias diferentes, as pessoas diferentes e os tempos diferentes.
Nisargadatta me disse uma vez e fiquei surpreso quando ele disse: 'Muitos de meus colegas não gostam do que eu digo, pois eu não estou repetindo como um papagaio as palavras que meu guru usava. O que sai de meus lábios é o que você precisa, não o que os meus colegas e eu precisamos.” O que me surpreendeu foi quando ele adicionou: “Quando você falar, o que você dirá não será uma repetição do que eu estive dizendo”. Assim, muitas pessoas que costumavam ir ao Nisargadatta não gostam do que eu digo. Eles falam: “Isso não é o que o Maharaj disse!” É claro que não é o que ele disse!

P: De acordo com o que você diz, a Consciência é todas as coisas.

R: Sim.

P: A Consciência criou o 'eu'?

R: Sim. O 'eu' não é nada além da Consciência. A forma é uma outra questão. Mas o 'eu' ainda é a Consciência que criou a identificação dentro do corpo na forma de um 'eu'.

P: Se o sentido de 'eu' vem da Consciência, a Consciência está ali, não é?

R: Ela está ali. Ela está aqui, e estará aqui mesmo quando este organismo corpo-mente não estiver aqui. Esse é o ponto. É por isso que a questão básica do Zen é: “Qual era a sua face original? Qual era a sua natureza real antes de os seus pais nascerem?” Sua natureza verdadeira não começou com o seu nascimento e não irá perecer com a morte do corpo.

P: No livro 'Antes da Consciência', Nisargadatta Maharaj diz: “a Consciência é tudo o que há”. Ele diz isso uma porção de vezes, mas às vezes ele fala da Consciência de uma maneira negativa, que deveríamos ir antes da Consciência. Ele fala dela de duas maneiras diferentes, como o Absoluto e como algo que está nos impedindo. Ele sugere que temos de ir além da Consciência. Eu não entendo.

R: A Consciência, quando ele fala dela como um obstáculo, é a Consciência identificada. Antes da Consciência é a Consciência-em-repouso, que é a nossa natureza real. Então ele fala sobre o 'numenal' e o fenomenal. Na fenomenalidade, este sentido de presença é o estado desperto, e é quando sua mente está ativa. Então o sentido de presença que ele considera ser uma obstrução, é o sentido de presença no estado desperto, que implica a contínua conceitualização da mente. A mente não conceitualiza, não pode conceitualizar no sono profundo, porque o sentido de presença está ausente. No 'Antes da Consciência', o que ele fala a respeito, é a ausência de ambos, a presença do sentido de presença e da ausência do sentido de presença onde a questão da Consciência não surge de maneira alguma. Pois no estado de repouso, a Consciência nem mesmo está ciente de si mesma.

P: Por que ela não está ciente de si mesma?

R: Porque não existe 'outro' (algo separado) para estar ciente.

P: Então, o antes da Consciência é a Consciência-em-repouso? E não significa a ausência dela. Não é apenas a pura Consciência?

R: É a pura Consciência. Esse estado não está negando a Consciência. Ele nega essa alternância da presença e da ausência da Consciência que ocorre apenas na fenomenalidade, portanto está negando a própria fenomenalidade.

P: Quem é que faz essa negação da fenomenalidade?

R: É a mente. Portanto, a Realidade última só pode existir quando ocorre a negação do próprio negador. Quando a própria mente é negada, não há nenhuma 'pessoa' para negar. Não há nenhuma 'pessoa' para pensar sobre um conceito a respeito da realidade. Esse é um estado onde nenhum conceito é possível.

P: Essa é a pura Consciência?

R: Sim, você pode chamá-la de pura Consciência, Consciência-em-repouso.

P: Anterior à consciência identificada?

R: Contanto que você a entenda, não há necessidade de nenhuma palavra.

P: Ela também é impura?

R: A partir do momento em que você a nomeia pura Consciência, ela fica impura.

P: Você diz que isto é “tudo um mundo de sonhos, uma ilusão”, e que nós criamos toda manifestação. Ao mesmo tempo você diz que para que a mente e a Consciência possam aparecer, tem de haver um corpo. O que vem primeiro, o corpo ou a Consciência?

R: Tudo o que existe é a consciência. Naquele estado original chame-o de realidade, chame-o de absoluto, chame-o de um nada, naquele estado não havia razão de estar ciente de nada. Assim a Consciência-em-repouso não estava ciente de si mesma. Ela tornou-se ciente de si mesma apenas quando esse repentino sentimento 'Eu Sou' surgiu. O 'Eu Sou' é o sentimento impessoal de estar ciente. E foi aí que a Consciência-em-repouso tornou-se Consciência-em-movimento, quando a energia potencial tornou-se energia de fato. Elas não são duas. Nada separado sai da energia potencial.
A Consciência-em-movimento não está separada da Consciência-em-repouso. A Consciência-em-repouso torna-se a Consciência-em-movimento, e esse momento que a ciência chama de Big Bang o místico chama de o repentino surgimento da consciência (awareness).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Jalaluddin Rumi - O Ser que compartilhamos

A sede está brava com a água. A fome, desgostosa
com o pão. A caverna não quer nada relacionado com

o sol. É dessa maneira estúpida e autoderrotadora
que temos estado. Uma mina de ouro está

nos chamando para dentro de seu templo. Em vez disso, nos
curvamos e continuamos a pegar pedras do

chão. Cada coisa tem um brilho como do ouro,
mas deveríamos nos voltar para a fonte! A

origem é o que realmente somos. Eu coloco um pouco
de vinagre no mel que ofereço. Um pouco de

repreensão torna o êxtase mais familiar. Mas
olhe, peixe, você já está no oceano:

apenas nadar aí torna-o amigo da
glória. Esses rancores são a respeito do que? Você

é Benjamim. José colocou uma taça de ouro
no seu saco de grãos e acusou-lhe de ser

um ladrão. Agora ele lhe puxa de canto e diz,
“Você é meu irmão. Sou uma oração. Você é

o amém.” Movemos-nos por regiões eternas, e ainda
preocupamo-nos a respeito de posses aqui. Esta é a

prece de cada um: És a fonte da minha
vida. Separas a essência da lama.

Honras minha alma. Trazes rios das
nascentes das montanhas. Clareias meus olhos. O

vinho que ofereces leva-me de mim mesmo para dentro
do Ser que compartilhamos. Fazer isso é religião
.

Hafiz - E sem motivo algum . . .

E sem motivo algum
Comecei a pular como uma criança.

E sem motivo algum
Tornei-me uma folha
Que foi carregada tão alto que
Beijei a boca do céu
E me dissolvi.

E sem motivo algum
Mil pássaros escolheram minha cabeça
Como sua mesa de conferências,
Começaram a passar suas taças de vinho
E suas coleções de canções por toda parte.

E por todo motivo na existência
Comecei eternamente
A rir e amar!

Quando me torno uma folha
E começo a dançar,
Corro para beijar nosso lindo Amigo
E me dissolvo na Verdade
Que eu sou.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Bhagavan Ramana Maharshi - Manter-se no 'eu sou' com esforço é Vichara (investigação de Si)


Devoto: Como podemos realizar o Ser (o Si mesmo real)?

Bhagavan: Que Ser? Descubra.

D: O meu, mas, quem sou eu?

B: É você quem deve descobrir.

D: Eu não sei.

B: Basta pensar sobre a questão. Quem é esse que diz: 'eu não sei'? Quem é o 'eu' na sua declaração? O que não é conhecido?

D: Alguém ou algo em mim.

B: Quem é esse alguém? Em quem?

D: Talvez algum poder.

B: Descubra.

D: Por que eu nasci?

B: Quem nasceu? A resposta é a mesma para todas as suas perguntas.

D: Quem sou eu, então?

B: Você veio para me examinar? Você deve dizer quem você é.

D: Por mais que eu tente, parece que não pego o 'eu'. Ele nem sequer é claramente perceptível.

B: Quem é esse que diz que o 'eu' não é perceptível? Existem dois 'eus' em você, um não é perceptível para o outro?

D: Em vez de indagar: 'Quem sou eu?' Posso fazer a pergunta a mim mesmo: 'Quem é você?' Para que a minha mente possa ficar fixada em você, que é quem eu considero ser Deus na forma de Guru? Talvez eu chegasse mais perto do objetivo de minha busca através dessa investigação do que ficar me perguntando: "Quem sou eu?"

B: Qualquer forma que sua investigação vier a tomar, você deve finalmente chegar ao 'eu' uno, o Ser. Todas essas distinções feitas entre 'eu' e 'você', mestre e discípulo, são apenas um sinal de ignorância. Apenas o 'Eu' Supremo é. Pensar o contrário é enganar a si mesmo. Portanto, uma vez que seu objetivo é transcender aqui e agora estas superficialidades da existência física através da auto-investigação, onde está o mérito de fazer distinções entre 'você' e 'eu', que dizem respeito apenas ao corpo? Quando você volta a mente para dentro, buscando a fonte do pensamento, onde está o "você" e o 'eu'? Você deve procurar e deve ser o Ser que inclui tudo.

D: Mas, não é engraçado que o "eu" deve estar à procura do 'eu'? A inquirição, 'Quem sou eu?' não vem a torna-se no final uma fórmula vazia? Ou devo colocar a questão para mim infinitamente, repetindo-a como um mantra?

B: Auto-inquirição (vichara) certamente não é uma fórmula vazia, é mais do que a repetição de qualquer mantra. Se a investigação: 'Quem sou eu?' fosse mero questionamento mental, não seria de muito valor. O propósito em si da auto-investigação é concentrar a mente toda na fonte dela. Não é, portanto, um caso de um "eu" à procura de um outro "eu". Muito menos é a auto-inquirição uma fórmula vazia, pois involve uma intensa atividade da mente toda para mantê-la firmemente posicionada na pura consciência de si. Vichara (Auto-inquirição) é o único meio infalível, o único direto, para realizar o incondicionado Ser absoluto que você realmente é.

D: Quando leio as obras de Sri Bhagavan percebo que a investigação é dita como sendo o único método para a realização.

M: Sim, isso é vichara.

D: Como é que deve ser feita?

M: O questionador deve admitir a existência de seu ser. "Eu Sou" é a realização. Seguir a pista até a Realização é vichara. Vichara e realização são o mesmo.

D: Isso é elusivo. Sobre o que devo meditar?

M: Meditação requer um objeto para meditar, enquanto que no vichara há apenas o sujeito sem o objeto. A meditação difere do vichara dessa forma.

D: Não é dhyana (meditação) um dos processos mais eficientes para a Realização?

M: Dhyana é a concentração em um objeto. Ela cumpre a finalidade de manter afastados os pensamentos diversos e de fixar a mente em um pensamento único, o qual também deve desaparecer antes da Realização. Mas a Realização não é nada novo a ser adquirido. Ela já está aí, mas obstruída por uma tela de pensamentos. Todos os nossos esforços são dirigidos para levantar essa tela e a realização será revelada. Se buscadores verdadeiros são aconselhados a meditar, muitos podem ir embora satisfeitos com o conselho. Mas alguém dentre eles pode virar-se e perguntar: "Quem sou eu para meditar sobre um objeto?" Tal pessoa deve ser instruída a encontrar o Ser. Esse é o objetivo final. Isso é Vichara.
D: O vichara atuará sozinho, na ausência de meditação?

M: Vichara é o processo e também o objetivo. "Eu sou" é a meta e a Realidade final. Manter-se nele com esforço é vichara. Quando é espontâneo e natural é a Realização.

D: Como conhecer o poder de Deus?

M: Você diz "eu sou". É isso. O que mais pode dizer 'eu sou'? Nosso próprio Ser (nossa própria existência) é o poder Dele. O problema surge apenas quando a pessoa diz: "Eu sou isso ou aquilo, tal e tal." Não faça isso - Seja você mesmo. Isso é tudo.

sábado, 29 de agosto de 2009

G. I. Gurdjieff - 3 de agosto de 1944 - O exercício de sentir o 'eu sou' em sete partes do corpo

Gurdjieff: Certa vez eu dei um exercício, mas vejo que ninguém tem feito e que isso não os levou a nenhum resultado. Eu irei repeti-lo. Talvez haja alguém mais inteligente que irá entendê-lo e cristalizá-lo. É o exercício de ocupar o corpo. Talvez alguém se lembre? 'Eu sou'. Quando você diz 'eu' você obtém um eco. Todos entendem o que essa sensação é. Neste exercício não é uma questão disso. Temos que sentir esse eco primeiro na perna direita, depois na perna esquerda, depois no braço direito, depois no esquerdo, no abdômen, no tórax. Faça essa série três vezes. Então na cabeça uma vez. Três vezes o todo, e uma a cabeça. E repita se você tiver tempo. Duas vezes nos seis lugares. Na terceira vez nos sete lugares.
Pergunta: Devemos acompanhar com a respiração? Tendemos a fazê-lo com a respiração.

G: Não faça com a respiração. Isso lhe daria um tempo errado. Tome o tempo necessário para respirar e para sentir. Isso então será a sua medida. Você entende? Represente para si mesmo, então sinta na perna direita, então mude. Não preste atenção na respiração. O tempo se estabelecerá por si mesmo. Isso depende de muitas coisas, do cansaço, de muitas outras coisas. A respiração não tem nada a ver com isso. Não a conecte com esse exercício.
P: Deveríamos considerar cada membro na sua totalidade em uma respiração ou várias respirações para cada?
G: Sim, cada membro na sua totalidade.
P: Ao dizer 'eu' ou 'sou'?
G: Ambos. Mas o 'eu' é independente. Você deve sentir o eco dele na perna. Você diz 'eu sou', mas em vez de mandar o eco do 'eu' no corpo todo, você sente ele na perna. Faça esse exercício inteiramente independente do exercício de ocupar o corpo. Um vez que o tiverem feito, vocês farão este de 'ocupar' ainda melhor.
P: Devemos parar a sensação na perna?

G: Sim, apenas a perna.

P: Devemos dizer em voz alta?

G: Não, internamente. Sinta-o. Nesse exercício a perna é o corpo. O resto faz o papel da cabeça. A perna esquerda faz o papel do corpo, e o resto, incluindo a perna direita, é a cabeça.
P: Esquecemos o corpo?

G: Não você o sente como sua cabeça. No lugar da cabeça – tudo junto.
Vocês fizeram esse exercício? Devem ter ficado surpresos no começo. Como podemos sentir nosso 'eu' na perna? Quem dirá que isso é possível? Apenas aquele que fez o exercício pode dizer. Sem prática é absurdo. Quem fez?
P: Eu fiz. No início era muito difícil sentir o 'eu', era muito comprido e então, uma vez que conseguia sentir na perna direita, era mais fácil nas outras partes.

G: Ele tem lhe mostrado algo novo, ou sugerido alguma questão?

P: Sim, é que minhas pernas tomam pouca parte no exercício, que a sensação no plexo solar era mais forte que no resto do corpo.

G: Bem, então você não precisa de ajuda, detalhes suplementares? Então continue.

P: Eu realmente tentei, mas não tive sucesso. Não consegui relaxar. Assim que eu tentava sentir o 'eu' na cabeça, eu já não me sentia mais relaxado. Eu já não tinha a sensação de relaxamento.
G: A razão é que você não consegue relaxar-se bem. Antes de cada exercício, você deve usar dez minutos para relaxar-se.

P: Eu tentei. Eu consegui fazer com o rosto.

G: O rosto é algo pequeno. Para aquietar as suas associações, você deve relaxar toda a sua presença, não apenas uma parte.

P: Eu pensei que tínhamos de relaxar uma parte após a outra, começando do topo.

G: É exatamente o oposto. Você deve começar com os pés e ir subindo. Tente assim. Você começa com a cabeça, e ela se contrai novamente e a contração desce por toda parte. Comece de novo e relaxe a partir dos pés.

P: Eu gostaria de perguntar, se devemos fazer assim. Antes de sentir meu 'eu' nas sete partes do corpo, se preciso sentí-lo em toda a minha presença. Se não faço assim, o eco do 'eu' permanece intelectual. Eu tentei sentir o 'eu' em minha presença toda. E o eco veio melhor do que quando eu começo direto. Poderíamos fazer assim?
G: Não, deite, bem relaxado em todas as suas partes e daí você começa.
P: De uma vez?

G: Depois que estiver totalmente relaxado, você faz o exercício, sinta o 'eu' em cada parte. E em todos os lugares deve haver a mesma intensidade, a mesma quantidade, o mesmo ritmo respiratório. Fazendo com que não haja diferença em nenhum lugar. Uma vez que você puder fazer isso separadamente em cada parte, então pode mobilizar todo o: 'eu sou'.
Posso repetir isso muitas vezes. Não filosofe. É bem simples. Só se pode entendê-lo ao fazê-lo bem, quando se está completamente relaxado. Muitas pessoas têm maus caráteres e são nervosas. Esse relaxamento irá aquietá-las e irá levar embora tudo o que elas tem nelas que é fútil e idiota.
P: Esse exercício tem me mostrado que eu nunca soube como relaxar. Essa palavra não teve significado algum para mim até agora. O relaxamento depende do 'eu' todo, não é apenas físico.

G: Sim, não é apenas físico, é a presença total que é formada de diferentes partes. Quando eu digo a presença total, quero dizer o organismo todo, o sistema nervoso, o mecanismo físico, tudo isso. A pessoa deve relaxar essas partes conscientemente. É apenas possível conscientemente. Subconscientemente a pessoa começa a ter associações na Ásia, na América... A pessoa viaja, ela está aqui e ali. Tente não começar com os pensamentos, em imaginação. Tente, fique aqui. Tudo que lhe interromper mande para o diabo. Mesmo Deus, o anjo, o diabo, tudo isso para o diabo. Considere o trabalho de aquietar a si mesmo como a coisa mais importante. É apenas com essa atitude que você irá obter resultados. Você chegará à algo. E apenas chegará lá através de repetição, ao começar novamente um grande número de vezes.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Nisargadatta Maharaj - O 'eu sou' é uma pequena semente que irá tornar-se uma grande árvore


Maharaj: Você pode se sentar no chão? Precisa de uma almofada? Tem alguma pergunta? Não que você precise perguntar, você pode também ficar quieto. Ser, apenas ser (estar presente), é importante. Você não precisa perguntar nada, nem fazer nada. Essa maneira aparentemente preguiçosa de passar o tempo é muito respeitada na Índia. Significa que, por hora, você está livre da obsessão com 'o que vem a seguir'. Quando você não está com pressa e a mente está livre de ansiedades, ela torna-se quieta e no silêncio algo pode ser ouvido, o qual ordinariamente é demasiado fino e sutil para a percepção. A mente deve estar aberta e tranquila para ver. O que estamos tentando fazer aqui é trazer nossas mentes para o estado correto para compreender o que é real.

Pergunta: Como aprendermos a cortar as preocupações?

M: Você não precisa se preocupar com suas preocupações. Apenas seja. Não tente ficar quieto; não torne o "ficar quieto" uma tarefa a ser executada. Não se inquiete por causa do seu objetivo de "alcançar a quietude", não se sinta miserável a respeito de "ser feliz". Apenas esteja ciente de que você é, e permaneça ciente - não diga: 'sim, eu sou; e o que vem depois?' Não há 'o depois' no 'eu sou'. Ele é um estado atemporal.

P: Se é um estado atemporal, ele vai afirmar-se de qualquer maneira.

M: Você é o que você é, atemporalmente; mas de que serve isso a menos que você saiba disso e aja de acordo com isso? Sua cumbuca de mendigar pode ser de ouro puro, mas enquanto você não souber disso, você é um mendigo. Você deve conhecer o seu valor interior e confiar nele e expressá-lo no sacrifício diário dos desejos e dos medos.

P: Se eu conhecer a mim mesmo, não terei desejos e medos?

M: Por algum tempo os hábitos mentais podem se prolongar, a despeito da nova visão; o hábito de ansiar pelo passado conhecido e temer o futuro desconhecido. Quando você sabe que eles são apenas da mente, você pode ir além deles. Quando você tem todos os tipos de idéias sobre si mesmo, você conhece a si mesmo através da névoa dessas idéias; para conhecer a si mesmo como você é, abandone todas as idéias. Você não pode imaginar o gosto da água pura, você só pode descobri-lo ao abandonar todos os sabores.
Enquanto você estiver interessado no seu modo atual de vida, você não vai abandoná-lo. A descoberta não pode vir enquanto você se agarrar ao familiar. É só quando você perceber plenamente a imensa tristeza de sua vida e se revoltar contra ela, que uma saída poderá ser encontrada.

P: Eu posso ver agora que o segredo da vida eterna da Índia encontra-se nessas dimensões de existência, das quais a Índia sempre foi a detentora.

M: É um segredo aberto e sempre houveram pessoas dispostas e preparadas para compartilhá-lo. Professores - existem muitos; discípulos sem medo - muito poucos.

P: Eu estou muito disposto a aprender.

M: Aprender palavras não é suficiente. Você pode saber a teoria, mas sem a experiência real de si mesmo como sendo o centro impessoal e incondicional da existência, do amor e da felicidade, o conhecimento apenas verbal é estéril.

P: Então, o que devo fazer?

M: Tente ser, apenas ser. A palavra muito importante é "tente". Dispenda bastante tempo diário para se sentar calmamente e tentar, apenas tentar ir além da personalidade, com seus vícios e obsessões. Não me pergunte como, isso não pode ser explicado. Você apenas continua tentando até conseguir. Se você perseverar, não poderá haver falha. O que importa acima de tudo é a sinceridade, a seriedade; você tem estado realmente farto de ser a pessoa que você é, agora veja a necessidade urgente de se livrar desta auto-identificação desnecessária com um conjunto de memórias e hábitos. Essa firme resistência contra o desnecessário é o segredo do sucesso. Afinal, você é o que você é a cada momento de sua vida, mas você nunca está consciente disso, com exceção, talvez, no momento que acorda do sono. Tudo o que você precisa é estar ciente de ser (de estar existindo), não como uma declaração verbal, mas como um fato sempre presente. A consciência de que você é irá abrir seus olhos para o que você é. É tudo muito simples. Primeiro de tudo, estabeleça um contato constante consigo mesmo, esteja com você mesmo o tempo todo. Dentro da autoconsciência todas as bênçãos fluem. Comece como um centro de observação, de cognição deliberada, e transforme-se num centro de amor em ação. O "Eu sou" é uma pequena semente que irá tornar-se uma grande árvore - muito naturalmente, sem nenhum traço de esforço.

P: Eu vejo tanto mal em mim mesmo. Não devo mudar isso?

M: O mal é a sombra da desatenção. Na luz da consciência de si mesmo, ele vai murchar e cair.
Toda a dependência dos outros é inútil, pois o que os outros podem dar eles podem levar embora. Somente o que é seu desde o início permanecerá seu mesmo no final. Não aceite orientação que não venha de dentro, e mesmo assim, peneire todas as memórias pois elas irão enganar você. Mesmo que você seja totalmente ignorante a respeito das maneiras e dos meios, mantenha-se quieto e olhe para dentro; a orientação certamente virá. Você nunca ficará sem saber qual deverá ser o seu próximo passo. O problema é que você pode fugir disso. O Guru está lá para dar-lhe coragem, devido à experiência e ao sucesso dele. Mas apenas o que você descobre através de sua própria consciência, do seu próprio esforço, será de uso permanente para você. Lembre-se, nada que você perceba é de si mesmo. Nada de valor pode vir de fora, é apenas o seu próprio sentimento e entendimento que são relevantes e reveladores. As palavras, ouvidas ou lidas, só irão criar imagens em sua mente, mas você não é uma imagem mental. Você é o poder de percepção e ação por trás e além da imagem.

P: O que fez você decidir se tornar um professor?

M: Eu fui tornado um professor ao começar a ser chamado assim. Quem sou eu para ensinar e para quem? O que eu sou, você é, e aquilo que você é - eu sou. O 'eu sou' é comum a todos nós, para além do "eu sou" há uma imensidão de luz e de amor. Nós não a vemos porque olhamos para outros lugares, só posso apontar para o céu, ver a estrela é trabalho seu. Alguns levam mais tempo antes de verem a estrela, alguns menos; depende da clareza de sua visão e sua seriedade e sinceridade na busca. Esses devem ser próprios de você, - eu só posso incentivar.

P: O que devo fazer quando me torno um discípulo?

M: Cada professor tem seu próprio método, geralmente moldado nos ensinamentos do Guru dele e na maneira como ele próprio atingiu a realização, e bem como na sua própria terminologia. Dentro desse quadro, são feitos ajustes para a personalidade do discípulo. Ao discípulo é dada total liberdade de pensamento e de questionamento e ele é encorajado a questionar até alcançar o contentamento de seu coração. Ele deve estar absolutamente certo da capacidade e da competência de seu Guru, caso contrário, sua fé não vai ser absoluta nem a sua ação completa. É o absoluto em você que o leva ao absoluto além de você - a verdade, o amor, o altruísmo absolutos são os fatores determinantes na autorealização. Com seriedade eles podem ser alcançados.

P: Quais são os sinais do progresso na vida espiritual?

M: A liberdade de toda ansiedade; uma sensação de tranquilidade e alegria; profunda paz interior e energia abundante exteriormente.

P: Como você conseguiu isso?

M: Encontrei isso tudo na santa presença de meu Guru (Siddharameshwar Maharaj) - Eu não fiz nada sozinho. Ele me disse para ficar quieto - e eu fiz isso - tanto quanto eu pude.

P: A sua presença é tão forte quanto a dele?

M: Como vou saber? Para mim, a dele é a única presença. Se você está comigo, está com ele.

P: Cada Guru irá referir-se a seu próprio Guru. Onde é o ponto de partida?

M: Há um poder no universo trabalhando para a iluminação e a liberação. Chamamo-lo de Sadashiva, o qual está sempre presente nos corações dos homens. É o fator unificador. A unidade liberta. A liberdade une. Em última análise, nada é meu ou seu - tudo é nosso. Basta ser um com você mesmo e você será um com tudo, estará em casa no universo todo.

P: Você quer dizer que todas essas glórias virão com a simples permanência na sensação de "eu sou"?

M: É o simples que é certo, não o complicado. De certo modo, as pessoas não confiam no simples, no fácil, no sempre disponível. Por que não testar honestamente o que eu digo? Pode parecer muito pequeno e insignificante, mas é como uma semente que cresce em uma árvore frondosa. Dê a si mesmo a chance!

P: Vejo tantas pessoas aqui em silêncio. Para quê eles vieram?

M: Para encontrarem a si mesmos. Em casa, o mundo é demais para eles. Aqui nada os perturba; eles têm a chance de se afastar de suas preocupações diárias e entrar em contato com o essencial em si mesmos.

P: Se eu tirar a minha atenção daquilo que acontece, eu vou viver através do quê?

M: Novamente, isso é como perguntar: 'O que devo fazer se eu parar de sonhar?' Pare e veja. Você não precisa ficar ansioso: "Qual é a próxima coisa?" Sempre há a próxima coisa. A vida nem começa nem termina: imóvel - ela se move, momentânea - ela dura. A luz não pode ser esgotada, mesmo se inúmeras imagens forem projetadas por ela. Assim, a vida preenche todas as formas até a borda e retorna à sua fonte quando a forma se rompe.

P: Se a vida é tão maravilhosa, como poderia acontecer a ignorância?

M: Você quer tratar a doença sem ter visto o paciente! Antes de perguntar sobre a ignorância, por que você não pergunta em primeiro lugar, quem é o ignorante? Quando você diz que você é ignorante, você não sabe que você impôs o conceito de ignorância sobre o estado atual de seus pensamentos e sentimentos. Examine-os conforme eles ocorrerem, dê a eles toda a sua atenção e você verá que não existe algo como a ignorância, apenas desatenção. Dê atenção ao que preocupa você, isso é tudo. Afinal, preocupação é dor mental e a dor é invariavelmente um chamamento por atenção. No momento que você dá atenção, o chamamento por ela cessa e a questão da ignorância, dissolve-se. Em vez de querer uma resposta para sua pergunta, descubra quem está fazendo a pergunta e o que a faz perguntá-la. Você vai logo descobrir que é a mente, instigada pelo medo da dor, que faz a pergunta. E no medo há memória e antecipação, passado e futuro. A atenção traz você de volta ao presente, ao agora, e a presença no agora é um estado sempre à mão, mas raramente observado.

P: Você está reduzindo o sadhana (a prática espiritual) à simples atenção. Como é que outros professores ensinam cursos difíceis e muito demorados?

M: Os Gurus geralmente ensinam sadhanas pelos quais eles mesmos tenham atingido seu objetivo, qualquer que seja seu objetivo. Isso é natural, pois o seu próprio sadhana eles conhecem intimamente. Fui ensinado a dar atenção ao meu sentido de "eu sou" e descobri que isso era extremamente eficaz. Portanto, posso falar sobre isso com plena confiança. Mas muitas vezes as pessoas vêm com seus corpos, cérebros e mentes tão mal administrados, pervertidos e fracos, que o estado de atenção sem forma está fora de seu alcance. Em tais casos, alguma demonstração mais simples de seriedade é adequada. A repetição de um mantra, ou focar o olhar numa foto irá preparar seus corpos e mentes para uma busca mais profunda e direta. Afinal, é a seriedade e sinceridade que são indispensáveis, o fator crucial. O Sadhana é apenas um vaso e ele deve ser preenchido até a borda com seriedade, que é na verdade - amor em ação. Pois nada pode ser feito sem amor.

P: Nós amamos apenas a nós mesmos.

M: Se fosse assim, seria ótimo! Ame a si mesmo sabiamente e você vai chegar ao cume da perfeição. Todo mundo ama o seu corpo, mas poucos amam o seu Ser real.

P: O meu Ser real precisa do meu amor?

M: Seu Ser real é o amor em si e seus muitos amores são reflexos dele de acordo com a situação no momento.

P: Nós somos egoístas, conhecemos apenas o amor-próprio.

M: É bom o bastante para um começo. De qualquer modo, deseje o bem a você mesmo. Pense a respeito, sinta profundamente o que é realmente bom para você e lute por isso com seriedade. Muito em breve você vai descobrir que o real é o seu único bem.

P: Ainda assim eu não entendo por que os vários Gurus insistem em prescrever sadhanas complicados e difíceis. Eles não conhecem nada melhor?

M: Não é o que você faz, mas o que você pára de fazer que importa. As pessoas que começam seu sadhana estão tão fervorosas e agitadas, que têm que estar muito ocupadas para se manterem no caminho. Uma rotina que absorva é boa para eles. Depois de algum tempo, eles se acalmam e desviam-se do esforço. Em paz e silêncio a casca do 'eu' se dissolve e o interior e o exterior tornam-se um. O sadhana real é sem esforço.



M: A essência da escravidão é que você não entendeu realmente que você está sonhando – é a mistura do real com o irreal. No seu atual estado apenas o sentido 'eu sou' refere-se à realidade, o "o quê eu sou” e o "como eu sou" são ilusões impostas pelo destino, ou pelo acidente.

P: Quando é que o sonho começou?

M: Parece ser sem princípio, mas na verdade é só agora. De momento em momento você está renovando-o. Uma vez que você viu que está sonhando, você deveria acordar. Mas você não vê, porque você quer que o sonho continue. Chegará o dia em que você vai desejar que o sonho termine, com todo seu coração e mente e estará disposto a pagar qualquer preço; o preço será o desapego e desprendimento, a perda de interesse no próprio sonho.
As pessoas são diferentes. Mas todos são confrontados com o fato de sua própria existência. "Eu sou" é o fato derradeiro; 'Quem sou eu?" é a questão fundamental para a qual todos têm de encontrar uma resposta.

P: A mesma resposta?

M: A mesma em essência, variada na expressão.

sábado, 22 de agosto de 2009

Siddharameshwar Maharaj - O suporte de tudo


Primeiro, o ser humano encontrava-se retorcido num pequeno espaço dentro do útero da mãe. Quando nasceu e veio para este mundo ilimitado, ele abriu ligeiramente os olhos e olhou ao redor. Ao ver um imenso espaço e uma tremenda luz, desviou seus olhos e ficou em choque. “Que lugar é este para o qual eu vim sozinho? Quem me dará suporte? O que vai ser do meu destino?” Esses tipos de medo surgiram na sua mente. Imediatamente após o nascimento, com o primeiro choque, ele começou a chorar. Um pouquinho depois foi-lhe dado uma gotinha de mel para lamber. Com isso ele sentiu-se aliviado pensando que tudo estava bem, e que ele tinha o suporte de alguém. Assim, ele pacificou-se. Entretanto, aquele primeiro choque de medo ficou tão arraigado em sua mente, que ele ficava assustado com o menor som, e novamente aquietava-se quando lhe era dado mel ou o seio de sua mãe. Dessa maneira, arranjando suporte externo a cada passo, esse ser humano tornou-se dependente do suporte de seus pais. Conforme ele foi crescendo, os pais dele, bem como aqueles que cuidavam dele quando criança, começaram a dar-lhe conhecimento a respeito do mundo. Depois disso, seus professores de escola ensinaram-lhe as várias ciências físicas, tais como geografia, geometria, geologia, etc., as quais são tão sem valor quanto poeira.
Quando ele entra na fase da “juventude”, novamente procura por suportes para sua vida. Como é determinado pelo mundo que o suporte para a vida vem do dinheiro, esposa, etc., ele junta riquezas e arruma uma esposa. E toma por garantido que pode ser sustentado por esse suporte mundano apenas e desperdiça a sua vida. Com fama, aprendizagem, poder e autoridade, riqueza e esposa, ele soma prosperidade e fica cada vez mais enroscado. Suas principais posses e todo seu suporte, são sua esposa, riqueza, status, juventude, beleza e autoridade. Ficando com um orgulho especial em tudo isso, e ficando intoxicado com a mundaneidade, o ser humano perde a oportunidade de conhecer a sua “Natureza Real”. O orgulho em relação ao dinheiro, em relação à autoridade, à beleza absorve o homem e ele esquece sua Natureza Real.
Eventualmente, as posses acima mencionadas começam a encolher uma a uma. Quando as posses começam a se esvair de acordo com a lei da natureza, a memória do choque que ele recebeu inicialmente balança-o até suas raízes mais profundas e ele torna-se frustrado. Em pânico ele questiona: “O que farei agora? Estou perdendo suportes de todos os lados. O que acontecerá comigo?” Entretanto, esse homem ignorante não entende que todas essas posses tinham apenas um suporte sólido, que era a própria Existência dele, ou o sentido de “Eu Sou”. É através desse suporte apenas, que o dinheiro tinha o seu valor, que a esposa dele parecia charmosa, que as honras recebidas pareciam valer a pena, que a aprendizagem deu-lhe sabedoria, a sua forma adquiriu beleza e sua autoridade empunhava poder.

Ó pobre homem, você próprio é o suporte de toda a riqueza acima mencionada! Pode haver maior paradoxo do que sentir que a riqueza lhe dava suporte? Se somado à essa riqueza, poder, mulher, juventude, beleza da forma e honra, a pessoa adquirisse fortuna desonestamente, quão estranhas e pervertidas suas ações se tornariam?
Um poeta escreveu certa vez (descrevendo as palhaçadas da mente humana), “Primeiramente é um macaco, somado a isso, fica bêbado e além disso um escorpião o pica”. Mesmo tal poeta largaria sua caneta ao ver os ridículos absurdos desse ser humano e daria adeus aos seus talentos poéticos. O tipo de homem que considera seu corpo como Deus e está absorto em adoração a ele dia e noite, deveria ser considerado como um sapateiro. Há um provérbio apropriado que diz que um Deus chambhar* deveria ser adorado somente de sapatos. Isso nos diz a maneira que esse “Deus” (o corpo) de tal homem tem de ser adorado. A devoção de um ateísta é alimentar o corpo e sua liberação é a morte do corpo. Para tal homem cujo objetivo final da vida é alimentar o corpo e sua liberação é a morte não existe elevação acima do nível do corpo grosseiro. Não é surpresa no seu caso, que se devido a algum infortúnio, ele perdesse toda sua riqueza, ele ainda emprestaria dinheiro para satisfazer os seus hábitos de comida, bebida e diversão. Se os credores fossem atrás dele, ele declararia insolvência para se livrar de toda situação. Quando a morte o atinge, finalmente ele apenas cai morto. Ele morre assim como veio. Poderia haver algo mais trágico ou lamentável do que esse tipo de vida?
Por que deveria a mulher que despeja louvores em seu marido por dar-lhe um lindo brinco para o nariz, pensar no Senhor, que proveu-lhe um nariz para colocá-lo? Da mesma maneira, como podem os animalísticos seres humanos que olham apenas para o corpo como sendo tudo e o final de tudo da vida, ver Deus? Aquele cujo poder dá ao Sol a sua existência como Sol, à Lua sua existência como Lua, aos Deuses sua existência como Deuses, é Deus o Todo Poderoso. É Ele que é o suporte de tudo, que está presente no coração de todos os seres e se tornou invisível ao homem.
Aqueles cujos olhos são treinados em objetos externos vêem apenas aquilo que é externo. A palavra “Aksha” é um sinônimo para “olho” em Marathi. “A” é exatamente a primeira letra do alfabeto, e “ksha” é uma das últimas consoantes. Isso significa que o que os olhos vêem estará contido dentro do âmbito dessas duas letras do alfabeto. Eles trarão apenas informação ou conhecimento dos objetos externos. Os objetos grosseiros serão visualizados pelos olhos grosseiros, e o que é sutil será sentido pelos sentidos que são sutis. Entretanto, uma letra do alfabeto que vem depois de “ksha” em Marathi é “gnya”. A letra “gnya” indica o Conhecimento que não pode ser visto nem pelo olho grosseiro externo, nem pelo olho sutil do intelecto. Portanto, o intelecto e os sentidos indicam o “olho” com o sinônimo “aksha”. Como o olho, os outros órgãos dos sentidos, ouvido, nariz, língua, estão todos apontando para fora e continuam a existir pela força dos objetos externos.
O “Rei do Conhecimento” (“Eu Sou”) influencia todos os sentidos e parece garantir aos sentidos a “senhoria” sobre os objetos dos sentidos. É por causa dessa exteriorização que o fato de Ele estar antes dos sentidos, não atrai a atenção de ninguém. Através de muitos nascimentos, a mente e o intelecto têm adquirido o hábito de apenas olhar para fora. Portanto, “voltar-se para dentro” tornou-se uma tarefa muito difícil. Esse é chamado de “o caminho reverso” o qual os Santos seguem quando voltam-se para a direção oposta e observam a mente completamente, abandonando ver tudo o que é externo. Onde um homem ordinário está adormecido, os Santos estão despertos, e onde um homem ordinário está desperto, os Santos cochilam. Todos os seres encontram-se acordados para os objetos externos e tornaram-se extremamente habilidosos nesse tipo de despertar. Os santos entretanto, fecharam seus olhos para as coisas externas e é o Ser, para o qual os outros seres estão adormecidos, que mantém o Santo totalmente desperto.
*(em Marathi, a palavra chambhar significa “aquele que carrega um couro em suas costas”)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ibn Arabi - O contexto e a finalidade do caminho espiritual

Deus disse: "Nada se assemelha a Ele [e Ele é o Todo-Audição, o Todo-Visão]" (Alcorão. 42:11), assim Ele descreveu a Si mesmo com uma descrição que necessariamente pertence só a Ele, que é o dizer Dele: "E Ele está com você onde quer que você esteja "(Alc. 57:4). Portanto, Ele está conosco onde quer que estejamos, no estado da Sua "descida aos céus deste mundo, durante o último terço da noite ", no estado de Seu ser montado sobre o Trono (Alc. 5:20), no estado de Seu ser na "Nuvem", no estado de Seu ser na terra e no céu (Alc. 43:84, etc), no estado de Seu ser mais perto do homem do que sua veia jugular (Alc. 50:16) - e todas essas são qualificações com as quais apenas Ele pode ser descrito.
Assim, Deus não move um servo de um lugar para outro a fim de que o servo possa vê-Lo, mas sim "para que Ele possa fazer com que o servo veja os Seus sinais" (Alc. 41:53), os quais eram invisíveis para ele. Ele disse: "Glória para Aquele Que fez Seu servo viajar numa noite do local Sagrado de adoração para o próximo local de adoração, cujo recinto Nós abençoamos, para que pudéssemos fazer-lhe ver os Nossos Sinais!"(Alc. 17:1) E similarmente, quando Deus move algum servo através de seu estado espiritual interior, de modo também a fazer-lhe ver os Seus Sinais, Ele o move através de Seus estados... Deus diz: "Eu só fiz ele viajar pela noite, a fim de que ele visse os Sinais, e não para trazê-lo a Mim: porque nenhum lugar pode prender-Me e a relação de todos os lugares para mim é a mesma. Pois sou tal, que apenas 'o coração do Meu servo, o homem de fé verdadeira, engloba-Me,' então como ele poderia ser "levado a viajar a Mim", sendo que eu estou com ele onde quer que ele esteja?"(Alc. 57:4)

Quanto aos santos, eles têm jornadas espirituais no mundo intermediário, durante as quais eles diretamente testemunham as realidades espirituais (ma'ani) incorporadas nas formas que se tornaram sensíveis para a imaginação; essas imagens sensíveis transmitem o conhecimento das realidades espirituais contidas dentro dessas formas. E assim eles têm uma jornada espiritual na terra e no ar, sem jamais terem sensorialmente colocado os pés nos céus. Pois o que distinguiu o Mensageiro de Deus de todos os outros (dentre os santos), foi que o corpo dele foi levado a viajar, de modo que ele passou através dos céus e das esferas de uma forma perceptível aos sentidos e percorreu distâncias reais, possíveis de serem sentidas. Mas tudo aquilo dos céus também pertence aos seus herdeiros, apenas em sua realidade espiritual (ma'na), não na sua forma sensível.

Assim, para aquilo que está acima dos céus, vamos mencionar o que Deus fez-me testemunhar diretamente; em particular, a jornada das Pessoas de Deus. Pois suas jornadas são diferentes (na forma), porque são realidades espirituais incorporadas na imaginação, ao contrário da jornada sensível do Profeta. Deste modo as ascensões (ma'arij) dos santos são as ascensões de seus espíritos e a visão de seus corações, a visão de formas no mundo intermediário e das realidades espirituais incorporadas. Portanto, sempre que Deus quer viajar com o espírito de quem Ele deseja entre os herdeiros de Seus mensageiros e Seus santos, para que Ele possa fazer-lhes ver Seus Sinais (Kor. 17:1) - pois essa é uma jornada para aumentar o conhecimento deles e abrir os olhos de sua compreensão - as modalidades de suas jornadas são diferentes para diferentes pessoas: e dentre elas estão aquelas às quais Ele causa a viagem Nele mesmo.

Agora essa viagem em Deus envolve a "dissolução" da natureza múltipla deles. Através dessa jornada, Deus, em primeiro lugar familiariza-os com o que corresponde a eles em cada mundo (de ser), ao passar com eles através dos diferentes tipos de mundos, ambos os compostos e os simples. Então, o viajante espiritual deixa para trás em cada mundo aquela parte de si próprio correspondente àquele mundo: a forma de deixar isso para trás é que Deus envia uma barreira entre a pessoa e aquela parte dela mesma que ela deixou para trás naquele tipo de mundo, de modo que ela não tenha conhecimento dela. Mas ela ainda tem a consciência daquilo que continua com ela, até que finalmente permanece sozinha com o Mistério divino que é o "aspecto específico" que se estende de Deus para ela. Então, quando apenas ela permanece (sem nenhum daqueles outros apegos com o mundo), em seguida, Deus retira dela a barreira do véu e ela permanece com Deus, assim como todo o resto nela permaneceu com o mundo correspondente a si. Assim, por toda essa jornada o servo permanece Deus e não-Deus. E, uma vez que ele permanece Deus e não-Deus, Deus faz o servo viajar - em relação a Ele, e não no que diz respeito ao que não é Ele – dentro Dele, numa jornada espiritual sutil (ma'nawi) .

Então, quando o servo tornou-se consciente do que acabamos de explicar, de forma que ele fica sabendo que ele não é criado de acordo com a forma do mundo, mas apenas de acordo com a forma de Deus (al-Haqq), então Deus o faz viajar através de Seus Nomes, de forma a fazer que ele veja Seus Sinais (Kor. 17:1) dentro de si. Assim, o servo vem a saber que Ele é o que é designado por cada Nome divino – seja ou não aquele Nome um daqueles descritos como "bonito".
É através desses Nomes que Deus aparece em Seus servos e é através Deles que o servo assume as diferentes "colorações" de seus estados: pois Eles são Nomes em Deus, mas "colorações" da alma em nós. E são precisamente os "negócios" com os quais Deus está "ocupado": portanto é em nós e através de nós que Ele age, da mesma forma que nós apenas aparecemos Nele e através Dele.

Assim, quando Deus faz o santo (al-Wali) viajar através de Seus Nomes mais belos para os outros Nomes e finalmente todos os Nomes divinos, ele vem a conhecer as transformações de seus estados e os estados de todo o mundo. E ele sabe que essa transformação é o que faz os próprios Nomes estarem em nós, assim como sabemos que as transformações de nossos estados manifestam as influências específicas (ahkam) desses Nomes ... Por isso, não há nenhum nome que Deus tenha aplicado a Si mesmo que Ele não tenha aplicado também a nós: através de Seus Nomes sofremos as transformações em nossos estados, e com Eles somos transformados por Deus... Agora, quando o viajante espiritual completou a sua quota da jornada através dos Nomes e veio a conhecer os Sinais que os Nomes de Deus deram a ele durante essa jornada, então, ele volta e "reintegra" seu Ser com uma composição diferente da natureza composta inicial, devido ao conhecimento que ele adquiriu, o qual ele não possuía quando foi "dissolvido" (na fase ascendente dessa jornada). Assim, ele continua a passar através de diferentes tipos de mundos, pegando de cada mundo aquele aspecto de si mesmo que ele havia deixado lá e reintegrando-o no seu Ser, e ele continua a aparecer em cada fase sucessiva (de ser) até que chega de volta a terra.

Então, "ele desperta entre seu povo" (como o Profeta), e ninguém sabe o que veio a ocorrer com ele no seu Ser mais íntimo (sirr) até que ele fale de sua jornada. Mas então eles ouvem-no falar uma língua diferente daquela que estão habituados a reconhecer como a dele; e se um deles disser para ele: "O que é isso?", ele responde que "Deus fez-me viajar pela noite e, em seguida, fez-me ver aqueles Seus Sinais que Ele queria que eu visse." Então, os que estão ouvindo-o dizem a ele: "Você não saiu do meio de nós, então estava mentindo a respeito disso que está afirmando." E o jurista (Faqih) entre eles diz: "Este camarada está mentindo alegando ser profeta (nubuwwa), ou o intelecto dele tornou-se demente: portanto ou ele é um herege – nesse caso ele deveria ser executado - ou então ele é louco, e nesse caso não temos nada que falar com ele." Assim, "um grupo de pessoas zombam dele" (Kor. 49:11), outros "aprendem uma lição com ele" (Kor.59:2), enquanto outros têm fé no que ele diz, portanto, isso torna-se um tema de controvérsia no mundo. Mas o jurista (Faqih) não tinha conhecimento do verdadeiro significado de Sua fala: "Vamos mostrar-lhes Nossos Sinais nos horizontes e nas suas almas ... "(Kor. 41:53), uma vez que Deus não especifica um grupo em detrimento de qualquer outro.

Portanto, quem quer que Deus faça ver alguma coisa desses Sinais no caminho que acabamos de mencionar, deveria mencionar apenas o que ele viu, mas não deveria mencionar o caminho. Pois então as pessoas terão credibilidade nele e olharão para o que ele diz, uma vez que só irão negar o que ele diz se ele alegar a respeito da forma na qual ele adquiriu esse conhecimento. Agora você deve saber que na realidade, não há diferença em relação a essa jornada entre as pessoas ordinárias e a pessoa distinguida por esse caminho e essa característica. Isso é porque essa jornada espiritual serve para ver os Sinais divinos e as transformações dos estados das pessoas comuns são como todos os Sinais: elas estão nesses Sinais, mas "não notam" (Kor. 23:56, etc). Assim, esse tipo de viajante é apenas distinto do resto das criaturas (iguais a ele), aqueles que estão velados (Kor. 83:15), por aquilo que Deus inspirou no seu Ser mais íntimo, quer através do seu pensamento e inquirição com o seu intelecto, ou através de sua preparação, ao polir o espelho de sua alma, para o desvelamento desses Sinais a ele, por meio de desvelamento interior e testemunho imediato, uma experiência direta e "descoberta" extasiada.

Assim, as pessoas comuns (quando se opõem àqueles que falam dessa jornada espiritual) estão negando precisamente Aquilo dentro do Qual elas estão e através do Qual elas subsistem. Portanto, se o viajante não mencionou a forma com a qual ele obteve o conhecimento interior dessas coisas, ninguém negará ou disputará com ele. Pois todas as pessoas comuns - e eu não excluo nem uma única delas - estão "criando imagens para Deus"; elas sempre concordaram e colaboraram com isso, assim nenhuma delas critica o outro por fazê-lo. Deus diz: "Não faça imagens para Deus ... "(Alc. 16:74) – Ainda assim eles permanecem cegos para esse Sinal. Mas, como para os amigos de Deus (Alc. 10:64-66), que não fazem imagens para Deus. Pois Deus é o que faz imagens para o povo (Alc. 14:25, 24:35), por causa de Seu conhecimento das intenções subjacentes desses símbolos, uma vez que Deus sabe. Mas nós não sabemos ver (Alc. 16:74; 3:66; 2:216). Assim, o santo (aquele verdadeiramente "perto de Deus") observa a imagem que Deus fez e naquele testemunho imediato ele realmente vê precisamente o que conecta a imagem Àquilo Que ela simboliza: pois a imagem é justamente o que é simbolizado, no que diz respeito àquilo que os conecta, mas é diferente, na medida em que é uma imagem. Portanto, o santo "não faz imagens para Deus", em vez disso, ele realmente sabe o que Deus simbolizou com aquelas imagens.

sábado, 15 de agosto de 2009

Tukaram (séc. XVII) - Quando me perco em Ti / Em mim vives Tu


Quando por fim me perco em Ti, meu Deus,
Vejo e sei então,
Que todo Yeu universo revela a Tua beleza,
Todos os seres vivos, e todas as coisas sem vida,
Existem através de Ti.

Todo este vasto mundo é apenas a forma
na qual mostras a Ti mesmo a nós,
É apenas a voz
Na qual falas a Ti mesmo para nós.


Qual a necessidade de palavras?
Venha, Mestre, venha,
E preencha-me totalmente com Ti.

_______________________________________________

Leva, Senhor, para Ti
Meu sentido de ser e faça-o esvair-se completamente.

Leva, Senhor, minha vida,
Vivas Tu minha vida através de mim.


Não vivo mais, Senhor
Mas agora em mim
Tu vives.


Sim, entre Tu e eu, meu Deus,
Não há mais espaço para “eu” e “meu”.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Jalaluddin Rumi - O despertar do verme / As visões de Daquqi


"É assim que um ser humano pode mudar:

Há um verme viciado em comer
folhas de uva.

De repente, ele acorda.
Chame isso de graça, o que quer que seja, algo
o desperta e ele já não é mais um verme.

Ele é a vinha inteira
e o pomar também, o fruto, os troncos,
uma sabedoria e felicidade crescentes
que não precisa mais
devorar."
___________________________________________________

Husam,
conta a história de Daquqi
que disse:

“Viajei o Oriente e o Ocidente sem saber
para que caminho eu estava indo, seguindo a lua,
perdido dentro de Deus.”
Alguém perguntou: “Por que você vai descalço
sobre as pedras e os espinhos?”
“O que?” - ele disse.
“O que?”
Um amante desnorteado não caminha com os pés.
Ele ou ela caminha com o amor. Não há viagens “longas”
ou “curtas” para tal pessoa. Nem tempo.
O corpo aprendeu do espírito como viajar.
O corpo de um santo move-se de maneira incondicionada,
embora pareça ser em condicionamento.

Daquqi disse:
“Um dia eu estava indo por aí
procurando ver nas pessoas o brilho do Amigo,
para assim reconhecer o oceano numa gota,
o sol numa fagulha brilhante.
Eu vim para a costa
no crepúsculo e vi sete velas. Corri
pela praia na direção delas. A luz de cada uma
elevou-se ao céu. Fiquei maravilhado. Minha admiração
ficou admirada. Ondas de aturdimento
quebraram sobre minha cabeça.

O que são essas velas que ninguém parece ver?
Na presença de tais luzes as pessoas estiveram procurando
por lâmpadas para comprar!
Então as sete tornaram-se uma,
no meio da orla do céu.
Então aquilo
se abriu em sete novamente. Haviam conexões
entre as velas que não podem ser ditas.
Eu vi mas não posso dizer.

Corri mais perto. Caí. Fiquei deitado ali um pouco.
Levantei-me e corri novamente. Eu não tinha cabeça nem pés.

Elas se tornaram sete homens, e então sete árvores,
tão densas com folhas e frutas
que nenhum galho era visível.
Flashes de luz
brotavam de cada fruto como suco!

E o mais maravilhoso de tudo era que centenas
de milhares de pessoas estavam passando ao lado das árvores,
arriscando suas vidas, sacrificando tudo,
para encontrar um pedacinho de sombra.
Faziam guarda-sóis peculiares
com pedaços de lã. Tentavam qualquer coisa.

E nenhum via as árvores com suas tremendas sombras!
As caravanas não tinham comida, e ainda comida caía
por toda volta delas. Se alguém tivese dito:
'Olha! Aqui!'
eles teriam o considerado louco, ou bêbado.

Como isso pode acontecer? Ou estou sonhando?
Eu andei até as árvores. Comi o fruto.
Eu tenho que acreditar, portanto.
Ainda assim vejo as pessoas
procurando tão desesperadamente por uvas não amadurecidas,
com estas vinhas em torno delas,
lotadas com cachos perfeitos.
Então as sete árvores tornaram-se uma, e então sete novamente.
A cada segundo elas eram tanto sete quanto uma.
Estavam fazendo o ritual da oração, ajoelhando e curvando-se,
sem joelhos e sem cintura!
Então elas eram sete homens
sentados em meditação em prol da realidade una.

Eu cheguei mais perto e acenei. Eles chamaram:
'Ó Daquqi,
a glória e a coroa!'
'Como eles sabem meu nome?'
Eu pensei, 'eles nunca me viram antes.'

Imediatamente eles souberam meu pensamento
e sorriram uns para os outros.
'Honrado,
isso ainda está oculto de ti? Como pode algo
ser escondido de alguém tão dissolvido em Deus?'

'Se este é o espírito da realidade,' disse a mim mesmo,
'como ele estava falando palavras e dizendo nomes?'

Um dos sete respondeu: 'Nomes, às vezes
os nomes escapam, mas isso não é esquecimento.
É nosso ser tão absorto.'

Então todos eles disseram para mim:
'Você nos conduziria na oração?'
'Sim. Mas espere um pouco.
Estou ainda numa confusão temporária
que será resolvida estando na companhia de vocês.

Através da companhia do solo a videira cresce.
Ela eclode de dentro da escuridão da terra
e voa. Ela perde o egoísmo
na presença de sua origem e aprende
o que ela realmente é.'
Eles consentiram, embora dizendo:
'a qualquer momento que estiver pronto'. Aquele consentimento
foi uma chama em meu coração.
Fui libertado do tempo com horários,
de sequência e relação.”

Todos têm um estábulo
e um treinador designado para si. Se você fugir,
o treinador vem e lhe pega. Você pensa
que está fazendo escolhas, mas na verdade o treinador
o está levando por aí.
Você gosta de negar
que você tem um proprietário. Você diz,
"São as demandas do meu poderoso animal.”

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Meher Baba - Os estágios do Caminho

Todas as pessoas têm de passar pelo estado de aprisionamento, mas este período de escravidão não deve ser encarado como um episódio sem sentido na evolução da vida. A pessoa tem de experimentar estar encarcerada para poder apreciar a liberdade. Se em todo o período de sua vida um peixe não saiu da água ao menos uma vez, ele não tem oportunidade de apreciar o valor da água. Desde o seu nascimento até sua morte, ele tem vivido apenas na água, e não está em posição de compreender o que a água realmente significa para a sua existência. Mas se ele é retirado da água, mesmo que por um momento, ele anseia por água e torna-se qualificado por meio dessa experiência a apreciar a importância da água. Da mesma forma, se a vida fosse constantemente livre e não manifestasse nenhuma limitação, o homem perderia o verdadeiro significado da liberdade. Experimentar o aprisionamento espiritual e conhecer o intenso desejo de ser livre dele são ambos uma preparação para a plena apreciação da liberdade que está por vir.

Assim como o peixe que é retirado da água anseia voltar para a água, o aspirante que percebeu o Objetivo final anseia ser unido com Deus. Na realidade, o anseio de voltar para a fonte está presente em cada ser, desde o momento em que ele é separado da fonte pelo véu da ignorância; mas o ser está inconsciente do anseio até que ele, como um aspirante, entra no caminho espiritual. A pessoa pode, num certo sentido, se acostumar à ignorância, assim como uma pessoa em um trem pode acostumar-se à escuridão de um túnel quando o trem estava passando por ele durante algum tempo. Mesmo assim, há um definido desconforto e um sentimento vago e indefinível de inquietação devido à sensação de que algo está faltando. Esse algo é percebido desde o início como sendo de enorme significado. Nos estágios de densa ignorância, esse algo é muitas vezes inadvertidamente identificado com sendo as variadas coisas deste mundo físico. Quando a experiência deste mundo está suficientemente madura, entretanto, as repetidas desilusões na vida colocam a pessoa no caminho certo para descobrir o que está faltando. A partir desse momento o indivíduo busca uma realidade que seja mais profunda do que as formas mutáveis. Esse momento pode ser descrito adequadamente como sendo a primeira iniciação do aspirante. A partir do momento de iniciação no caminho, o anseio de se unir com a fonte da qual ele foi separado torna-se articulado e intenso. Assim como a pessoa no túnel anseia pela luz muito mais intensamente depois que ela vê um vestígio de luz proveniente da outra extremidade, a pessoa que teve um vislumbre do Objetivo anseia para apressar-se na direção dele com toda velocidade que possa imprimir.

No caminho espiritual há seis estações, sendo a sétima a estação terminal, ou o Objetivo. Cada estação intermediária é, à sua maneira, uma espécie de antecipação imaginativa da meta. O véu que separa o homem de Deus é constituído de falsa imaginação e esse véu tem muitas camadas. Antes de entrar no caminho a pessoa está envolta nesse véu de múltipla imaginação, com o resultado de ela nem sequer poder cogitar o pensamento de ser diferente de um indivíduo separado, fechado e finito. A consciência-ego cristalizou-se devido ao trabalho da falsa imaginação múltipla e o anseio consciente pela união com Deus é o primeiro tremor de toda a estrutura do ego, o qual foi construído durante o período do falso trabalho da imaginação. Percorrer o caminho espiritual consiste em anular os resultados do falso trabalho da imaginação, ou deixar cair várias camadas do véu, que criou um sentimento intangível de separatividade e isolamento irremediável. Até agora, a pessoa tinha se apegado firmemente à idéia de sua existência separada, assegurando-a por trás dos formidáveis muros de espessa ignorância, mas a partir de agora, ela entra em algum tipo de comunicação com a Realidade maior. Quanto mais ela comunga com a Realidade, mais fino se torna o véu da ignorância. Com o progressivo desgaste da separatividade e do egoísmo, ela ganha um crescente sentimento de fusão com a Realidade maior.

A criação de um sentimento de separatividade é um resultado dos vôos da imaginação. Por conseguinte, a ruptura desse sentimento auto-criado de separatividade e ser unido com a Realidade são assegurados através da inversão do trabalho falso da imaginação. O ato de se livrar completamente da imaginação pode ser comparado com o ato de despertar do sono profundo. As diferentes fases no processo de libertar-se da falsa imaginação pode ser comparado com os sonhos que muitas vezes servem como uma ponte entre sono profundo e o estado totalmente desperto. O processo de se livrar do múltiplo trabalho da falsa imaginação é gradual e tem sete fases. O desprendimento de uma camada do véu da imaginação é decididamente um avanço em direção à Luz e à Verdade, mas isso não equivale a tornar-se um com a Realidade. Significa simplesmente renunciar a imaginação mais falsa em favor da imaginação menos falsa. Existem diferentes graus de falsidade da imaginação correspondentes ao grau do sentimento de separatividade constituído pela consciência-ego. Cada etapa do processo de libertar a si mesmo da falsa imaginação é um desgaste definido do ego. Mas todos os estágios intermédios no caminho, até a realização final do Objetivo, consistem em deixar um vôo de imaginação para tomar outro. Eles não conduzem à cessação da imaginação. Esses vôos da imaginação não trazem nenhuma mudança real no verdadeiro ser do 'Si mesmo real' (Self) como ele é. O que muda não é o 'Si mesmo real' (Self), mas a idéia do que ele é. Suponhamos, em um devaneio ou fantasia que você se imagine estar na China, enquanto na realidade o seu corpo está na Índia. Quando a fantasia chega ao fim, você percebe que seu corpo não está, de fato, na China, mas na Índia. Do ponto de vista subjetivo, isso é como regressar da China para a Índia. Da mesma forma, a gradual desidentificação com o corpo e a progressiva identificação com a Sobre-Alma é comparável ao real percorrer do caminho, embora, na realidade, os diferentes estágios intermédios no caminho são todos igualmente criações do jogo da imaginação.

Os seis estágios ascendentes estão todos, portanto, dentro do domínio da imaginação. No entanto, em cada fase, quebrar o sentido de separatividade e descobrir uma fusão na Realidade maior são ambos tão fortes e claros que muitas vezes a pessoa tem uma pseudo sensação de Realização. Assim como quando uma pessoa escalando uma montanha chega a um vale profundo e fica tão fascinada pela visão dele que se esquece do objetivo real e acredita por um momento que tenha chegado à sua meta, o aspirante também confunde as fases intermediárias pelo objetivo em si. Mas uma pessoa que esteja realmente séria e determinada sobre a escalada da montanha percebe depois de um tempo que o vale tem de ser atravessado, e mais cedo ou mais tarde o aspirante também percebe que a fase intermediária tem de ser transcendida. O pseudo sentimento de realização que vem com as fases intermediárias é como um indivíduo sonhando que despertou do sono, embora ele esteja realmente ainda dormindo. Após ficar desperto ele percebe que seu primeiro sentimento de despertar foi realmente um sonho.
Cada etapa definitiva de avanço representa um estado de consciência, e o avanço de um estado de consciência para outro prossegue lado a lado com atravessar os planos interiores. Assim, seis planos intermediários e os seus estados de consciência têm de ser experimentados antes de chegar ao sétimo plano, que é o fim da jornada e onde existe a realização final do estado de Deus.

Um plano é comparável a uma estação ferroviária onde o trem pára por algum tempo e o estado de consciência é comparável aos movimentos do passageiro após descer na estação. Depois de entrar em um novo plano de consciência, uma pessoa geralmente leva algum tempo antes que possa funcionar livremente naquele plano. Sendo que há uma mudança radical nas condições totais da vida mental, a pessoa experimenta uma espécie de paralisia da atividade mental conhecida como samadhi. Quando o peregrino entra em um novo plano, ele imerge dentro do plano antes que possa vivenciar o estado característico daquele plano. Assim como um peregrino que esteja cansado pelo desgaste de uma viagem as vezes vai dormir, a consciência - que fez o esforço de ascender para um novo plano, passa por um período de diminuída atividade mental comparável ao sono. No entanto, o samadhi é fundamentalmente diferente do sono.
Uma pessoa está totalmente inconsciente no sono, enquanto que em samadhi ela está consciente do êxtase ou da luz ou do poder, embora esteja inconsciente de seu corpo e do meio que a cerca. Após um período de comparativa quietude, a mente começa a funcionar no novo plano e experimenta um estado de consciência que é totalmente diferente do estado que deixou para trás. Quando o aspirante entra em um novo plano, ele fica fundido dentro dele e juntamente com a desaceleração da atividade mental, ele experimenta uma substancial diminuição na vida-ego. Esta redução da vida-ego é diferente da aniquilação final do ego, que ocorre no sétimo plano.
Mas como na aniquilação final no sétimo plano, as diferentes etapas da redução do ego nos seis planos intermediários, merecem menção especial devido à sua relativa importância. Na tradição espiritual Sufi, a aniquilação final do ego é descrita como Fana-Fillah. E o samadhi anterior dos seis planos da dualidade também foram reconhecidos como tipos de Fana, uma vez que também envolvem uma aniquilação parcial do ego.

Através de todos esses fanas de ordem ascendente, há uma continuidade de progressão em direção ao Fana-Fillah final, e cada um tem alguma característica especial. Quando o peregrino chega ao primeiro plano, ele experimenta seu primeiro fana, ou aniquilação menor do ego. O peregrino está temporariamente perdido para sua individualidade limitada e experimenta profunda bem-aventurança. Muitos peregrinos, assim imersos, acham que realizaram Deus e, portanto, ficam estagnados no primeiro plano. Se o peregrino mantiver-se livre de auto-engano ou vier a perceber que a sua realização é realmente uma fase transitória na sua jornada, ele avançará ainda mais no caminho espiritual chegando ao segundo plano.
A imersão no segundo plano é chamada fana-e-batili, ou a aniquilação do falso. O peregrino está agora absorvido em êxtase e luz infinita. Alguns pensam que atingiram o objetivo e ficam encalhados no segundo plano, mas outros que mantém-se livres de auto-ilusão marcham adiante e entram no terceiro plano.
A imersão no terceiro plano é chamada fana-e-zahiri, ou a aniquilação do aparente. Aqui o peregrino perde por dias toda consciência de seu corpo e seu mundo e experimenta poder infinito. Uma vez que ele não tem consciência do mundo, ele não tem oportunidade para a expressão desse poder. Esse é o videh samadhi, ou o estado de coma divino. A consciência está agora completamente afastada do mundo inteiro. Se o peregrino avança ainda mais, ele chega ao quarto plano.
A imersão no quarto plano é chamada fana-e-malakuti, ou a aniquilação que conduz em direção a liberdade. O peregrino experimenta um peculiar estado de consciência no quarto plano, já que ele agora não apenas sente poder infinito mas também tem muitas ocasiões para a expressão desse poder. Além disso, ele não só tem oportunidades para utilização dos seus poderes mas tem uma clara inclinação para expressá-los. Se ele cair presa dessa tentação, ele seguirá expressando esses poderes e ficará preso nas sedutoras possibilidades do quarto plano. Por esta razão, o quarto plano é um dos mais difíceis e perigosos de atravessar. O peregrino nunca está espiritualmente seguro, e sua queda sempre é possível até que ele tenha com sucesso atravessado o quarto plano e chegado ao quinto.
A imersão no quinto plano é chamada fan-e-jabruti, ou aniquilação de todos os desejos. Aqui, a incessante atividade do intelecto inferior chega a uma paralisação. O peregrino não pensa da maneira ordinária e ainda assim ele é indiretamente uma fonte de muitos pensamentos inspiradores. Ele vê mas não com os olhos físicos. A mente fala com a mente e não existe nem preocupação e nem dúvidas. Ele agora está espiritualmente seguro, além da possibilidade de uma queda; e ainda muitos peregrinos nesse exaltado plano tem dificuldade em resistir à ilusão de que ele tenha atingido Divindade (Godhood). Em sua auto-ilusão ele pensa e diz, "Eu sou Deus", e acredita ter ele próprio chegado ao final do caminho espiritual.
Mas se ele prossegue, ele percebe seu erro e avança para o sexto plano. A imersão no sexto plano é chamada de fana-emahabubi, ou a aniquilação do ser (amante) no Amado. Agora, o peregrino vê Deus tão direta e claramente como uma pessoa normal vê as diferentes coisas do mundo. Essa percepção e apreciação contínua de Deus não sofre interrupção nem mesmo por um instante. No entanto, o viajante não se torna um com Deus, o Infinito. Se o peregrino sobe para o sétimo plano, ele experimenta a última fusão, que é chamada Fana-Fillah, ou a aniquilação final do Ser (self) em Deus. Através dessa fusão o peregrino perde sua existência separada e se torna permanentemente unido com Deus. Ele é agora um com Deus e experimenta-se como sendo nada além de Deus. Esse sétimo plano Fana-Fillah é o término do caminho espiritual, o objetivo de toda busca e empenho. É o estado Nirvikalpa, que é característico da Divindade (Godhood) consciente. É o único despertar verdadeiro. O peregrino atingiu agora a costa oposta do vasto oceano da imaginação e percebe que esta última Verdade é a única Verdade e que todas as outras etapas no caminho são totalmente ilusórias. Ele chegou ao destino final.

Hazrat Inayat Khan - O poder da palavra

Abandonei a minha música porque havia recebido dela tudo o que tinha que receber. Para servir a Deus a pessoa deve sacrificar a coisa mais querida para ela, e eu sacrifiquei minha música, a coisa mais querida para mim.
Eu compus músicas, cantei, e toquei Vina. Praticando essa música alcancei um estágio onde pude tocar a música das esferas. Então cada alma se tornou para mim uma nota musical e toda a vida se tornou música. Inspirado por isso eu falei com as pessoas e aqueles que eram atraídos pelas minhas palavras escutavam-nas ao invés de escutar minhas músicas.
Agora, se faço algo, é afinar almas em vez de instrumentos, harmonizar pessoas em vez de notas. Se há algo na minha filosofia, é a lei da harmonia: que a pessoa deve colocar-se em harmonia consigo mesma e com os outros.
Descobri em cada palavra um certo valor musical, uma melodia em cada pensamento, harmonia em cada sentimento e tenho tentado interpretar a mesma coisa com palavras simples e claras para aqueles que costumavam escutar minha música.
Toquei Vina até que meu coração transformou-se nesse mesmo instrumento. Então ofereci esse instrumento ao Músico divino, o único Músico existente. Desde então tornei-me Sua flauta, e quando Ele escolhe Ele toca Sua música. As pessoas me dão crédito por essa música que, na realidade, não deve-se a mim, mas ao Músico que toca Seu próprio instrumento.
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Existe um poder da palavra que está de acordo com a iluminação da alma, pois com isso, aquela palavra não vem da mente humana, aquela palavra vem das profundezas, vem de trás; aquela palavra vem de alguma parte misteriosa que está escondida da mente humana. E é em conexão com essas palavras que lemos nas escrituras sobre 'espadas de fogo' ou 'línguas de fogo'. Tenha sido dita por um poeta, tenha vindo de um profeta, quando aquela palavra saiu de seu coração flamejante, ela então surgiu como uma chama. Em conformidade com o Espirito divino que está nela, aquela palavra tem vida, poder e inspiração. Pense nas palavras vivas dos tempos antigos, pense nas palavras vivas que lemos nas escrituras, nas palavras vivas dos santos, dos iluminados! Elas vivem e viverão para sempre. São como uma música que pode ser chamada de mágica, uma mágica para todos os tempos. Quando quer que aquelas palavras forem repetidas elas têm aquela mágica, aquele poder.
O que os sábios de todos os tempos disseram – aquelas palavras foram guardadas pelas pessoas, por seus pupilos. Em qualquer parte do mundo que tenham nascido ou vivido, o que eles deixaram cair como palavras foi apanhado como pérolas reais e guardado como escrituras.

As palavras intuitivas têm surgido como expressões repentinas das almas que realizaram Deus, almas que se sintonizaram com todo o universo. Qualquer palavra ou frase que saia da boca delas é algo que tem um poder muito maior do que as palavras que todo mundo utiliza. Mas aparte de uma pessoa espiritual, você já não viu na sua vida diária que talvez haja uma pessoa entre os seus amigos, entre seus conhecidos, cuja palavra tem peso, tem poder, enquanto que outra pessoa diz milhares de palavras que entram por um ouvido e saem pelo outro? Numa pessoa sua boca fala, na outra pessoa seu coração fala, na outra sua alma fala. Existe uma grande diferença.
Alguém pode perguntar: 'Como uma pessoa espiritual pode intuitivamente trazer uma palavra que tenha poder?' A resposta é que existe a possibilidade de uma alma tornar-se tão sintonizada com todo o universo, que ela escuta, por assim dizer, a voz das esferas. Portanto, o que ela diz vem como um eco do universo todo. A pessoa que está sintonizada com o universo torna-se como um instrumento sem cordas; o que vem dela é a voz do universo.
O mundo para um místico é como um domo, um domo que faz ecoar tudo o que é falado nele. Aquilo que é falado pelos lábios atinge os ouvidos, mas aquilo que é falado pelo coração atinge o coração. A palavra alcança tão longe quanto a origem da qual ela surgiu, depende de que fonte ela veio, de que profundidade ela surgiu. Os Sufis de todas as eras têm portanto dado a maior importância para a palavra, sabendo que a palavra é a chave para o mistério de toda a vida, o mistério de todos os planos de existência. Não há nada que não seja efetuado, não há nada que não seja alcançado ou conhecido através do poder da palavra. Portanto, no esoterismo ou misticismo a palavra é o tema central e principal.
O que é a palavra? A palavra é apenas o que falamos? Não, essa é a palavra da superfície. Nosso pensamento é uma palavra, nosso sentimento é uma palavra, nossa voz, nossa atmosfera é uma palavra. Existe um ditado: 'O que você é fala mais alto do que aquilo que você diz'. Isso mostra que o homem não fala sempre, mas sua alma fala sempre.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Adi Shankaracharya (séc. IX) - Vivekachudamani

(seleção de alguns dos primeiros 50 versos)



*Uma firme convicção da mente no sentido de que Brahman é real e o universo irreal, é designado como discriminação (Viveka) entre o real e o irreal.
*Vairagya ou renúncia é o desejo de abandonar todos os prazeres transitórios do corpo (tendo conhecido os seus defeitos), para obter os prazeres de Brahman, através de observação, instrução e assim por diante.
*Fixar de maneira firme a mente em seu objetivo (ou seja, Brahman), após ter se desapegado dos múltiplos objetos dos sentidos, continuamente observando os seus defeitos, é chamado de Shama ou calma.
*Afastar ambos os tipos de órgãos-sensoriais dos objetos sensoriais e colocá-los em seus respectivos centros, é chamado Dama ou auto-controle.
*O melhor Uparati ou auto-reclusão consiste em cessar a função mental de ser afetado pelos objetos externos.
*Suportar todas as aflições sem se preocupar em aliviá-las, ser livre (ao mesmo tempo) de ansiedade ou lamentação sobre os débitos trazidos por elas, é chamado Titiksha ou abstenção.
*Aceitar como verdade o que as Escrituras e o Guru instruem, através de julgamento firme, é chamado pelos sábios de Shraddha ou fé, por meio da qual a Realidade é percebida.
*Não é a mera indulgência do pensamento (por curiosidade), mas a constante concentração do intelecto (ou a faculdade afirmadora), no sempre puro Brahman, que é chamado Samadhana ou auto-estabilização (estabilização de si).
*Mumukshuta ou o anseio pela Liberdade, é o desejo de libertar-se (ao realizar a verdadeira natureza de si), de todas as limitações, do egoísmo, do corpo - limitações sobrepostas pela ignorância.
*Entre as coisas que favorecem a Liberação, a devoção (Bhakti) detém o lugar supremo. A busca pela própria natureza real de si mesmo é designada como devoção.
*Outros alegam que a inquirição sobre a verdade do próprio Ser (si mesmo real) é devoção. O Inquiridor sobre a verdade da Atman (alma), que é possuidor dos meios de realização supra mencionados, deveria se aproximar de um mentor sábio, que confere a emancipação da escravidão.
*Para aquele que procurou a sua proteção, sedento pela Liberação, que obedece devidamente as injunções das Escrituras, que é de uma mente serena e dotado de calma - a tal pessoa, o sábio, prossegue a inculcar a verdade vinda da pura graça.
*Existe um meio soberano que põe um fim ao medo da existência relativa; através dele você atravessará o mar de Samsara e atingirá a felicidade e bênção supremas.
*Raciocinar sobre o significado do Vedanta conduz ao conhecimento eficiente, que é imediatamente seguido pelo total aniquilamento da miséria nascida da existência relativa.
*Fé (Shraddha), devoção e o Yoga da meditação - são mencionados pelo Shruti como os fatores imediatos da Liberação no caso de um buscador; quem se mantiver nesses, consegue a Liberação da escravidão do corpo, o qual é o promotor da Ignorância.
*É exatamente devido ao toque da ignorância, que você que é o Ser (self) Supremo encontra-se sob o aprisionamento do não-Ser, do qual, unicamente, provém o ciclo de nascimentos e mortes. O fogo do conhecimento, acendido pela discriminação entre o Ser e o não-Ser, queima os efeitos da Ignorância, juntamente com suas raízes.
*Abençoado é você! Alcançou o objetivo final de sua vida e assim santificou sua família ao escolher atingir Brahman se libertando da escravidão da ignorância!

domingo, 9 de agosto de 2009

G. I. Gurdjieff - Justiça

Gurdjieff: Saiba, “Justiça” é uma palavra muito grande – é uma grande coisa no mundo. Coisas objetivas não são como micróbios, elas seguem de acordo com a lei, como a lei as acostumou seguir. Lembre-se: você colhe o que você planta. Não apenas pessoas colhem, mas também famílias e nações. Acontece frequentemente que aquilo que ocorre na Terra vem de algo que foi feito pelo pai ou por um avô. Os resultados convergem em você, o filho ou o neto, é você que tem de regulá-los. Isso não é uma injustiça, é uma honra muito grande para você, será um meio que lhe permitirá regular o passado do seu pai, avô e bisavô. Se infortúnios surgiram para você na sua juventude, isso significa que alguém os trouxe – por isso você deve colher. Ele está morto, é outro na Terra que colhe. Você não deve olhar para si egoisticamente. Você é um elo da corrente do seu sangue. Seja orgulhoso disso, é uma honra ser esse elo. Quanto mais você está obrigado a reparar o passado, mais você terá remorso de consciência. Você terá sucesso em lembrar tudo que você não fez como deveria no passado. Essas coisas que você fez contrárias à JUSTIÇA têm mortificado o seu avô. Assim você pode ter dez vezes mais remorso de consciência e o seu valor aumentará em proporção. Você não é o rabo de um burro. Você tem responsabilidades, uma família. Toda a sua família, passada e futura, depende de você. Sua família toda depende da maneira como você reparar o seu passado. Se você reparar por todos, isso é bom. Se você não reparar por todos, é ruim. Você vê sua situação. Logicamente, você vê o que é a Justiça? A Justiça não está ocupada com seus pequenos assuntos, promessas não cumpridas, ela está ocupada com coisas grandes. É idiotice acreditar que Deus pensa em coisas pequenas. É o mesmo com a Justiça. A Justiça não toca tudo isso e ao mesmo tempo nada é feito na Terra sem ela. Procure pelas razões. Você está obrigado a ter uma posição de responsabilidade na linha do seu sangue, você deve trabalhar mais para reparar o passado. É difícil entender tudo de uma vez.