sábado, 31 de março de 2018

Nisargadatta Maharaj - Três reuniões em 1980

1 de maio de 1980 

Pergunta: Como um jnani vê o mundo?
Maharaj: Um jnani está ciente da origem e do valor da consciência, esse estado de ser, que espontaneamente ocorreu a ele. Essa mesma consciência desempenha vários papéis, alguns felizes, outros infelizes; mas quaisquer que sejam os papéis, o jnani é meramente o observador deles. Os papéis não têm efeito sobre o jnani.
Todos os seus problemas são problemas do complexo mente-corpo. Mesmo assim, você se apega a esse corpo. Uma vez que você se identifica com o corpo-mente, você segue certos modos educados de expressão quando fala. Eu não . Eu posso talvez envergonha-lo; você pode não ser capaz de aceitar o que eu digo. Eu não tenho senso de propriedade.
Você está preso por seus próprios conceitos e noções. Na verdade, você ama apenas esse senso de "eu"; você faz tudo por causa disso. Você não está trabalhando para ninguém, nem para a nação, mas apenas para esse sentido de "eu" que você tanto ama.
P: Mas eu gosto de agir, gosto de trabalhar.
M: Todas essas atividades prosseguem, mas são apenas entretenimento. Os estados de vigília e sono profundo vêm e vão espontaneamente. Através do sentido de "eu", você espontaneamente se sente trabalhando. Mas descubra se esse sentido de "eu" é real ou irreal, permanente ou impermanente.
O "eu" que aparece é irreal. O quão irreal ele é eu tenho provado. No momento em que o "eu" é provado irreal, quem é aquele que sabe que o "eu" é irreal? Esse conhecimento dentro de você que reconhece o "eu" como irreal, aquele conhecimento que reconhece a mudança, deve ele mesmo ser imutável, permanente.
Você é uma ilusão, Maya, uma imaginação. É só porque sei que sou irreal que sei que você também é irreal. Não é assim: porque eu sou real, você é irreal. É assim: porque eu sou irreal, tudo é irreal.
A consciência depende do corpo; o corpo depende da essência da comida. É a Consciência que está falando agora. Se a essência da comida não estiver presente, o corpo não pode existir. Sem o corpo, eu seria capaz de falar?
Você pode fazer alguma coisa para manter esse senso de "eu"? Como aconteceu espontaneamente, assim será. Ele não irá avisá-lo, anunciando: "Eu vou amanhã".
Uma dúvida surgiu e você está tentando encontrar a solução, mas quem é essa pessoa que tem essa dúvida? Descubra por si mesmo



10 de maio de 1980

Maharaj: Como cheguei à verdade que eu prevaleço eternamente? Meditando no meditador, ao "Eu-Sou-ência”, fundindo-se no "Eu-Sou-ência". Só então entendi qual é a minha verdadeira natureza. Os grandes Sábios meditaram da mesma maneira. Ninguém me disse como fazer isso. Eu não busquei esse conhecimento externamente. Ele brotou dentro de mim.
Eu meditei como os Sábios e tive uma visão. Inicialmente, havia espaço e, no espaço, vi os princípios incorporados. Na verdade, eles não têm corpos, mas na minha visão eles tinham corpos. Eu os chamei de Prakriti e Purusha, os aspectos masculino e feminino da consciência cósmica.
Até a união de Prakriti e Purusha, a consciência dinâmica que permeia a tudo estava em um estado dormente. Na união dos aspectos masculino e feminino, emissões foram plantadas na parte feminina dessas figuras. Quando essas emissões se fundiram no útero, começaram a tomar forma. Após nove meses de gestação, uma criança foi nascida.
Aquela consciência que foi plantada no útero era o corpo causal, o "lingadeha". Naquele "lingadeha", o conhecimento "Eu Sou" estava em uma condição latente. Isso é o que eu vi na meditação.
Pergunta: Como perdemos esse estado de consciência pura?
M: Todo ser experimenta o estado de Iswara, seja diretamente ou potencialmente, mas ele está tão envolvido neste mundo objetivo que ele perde sua identidade. Você deve saber o que esse princípio "Eu Sou" é. Ele aparece espontaneamente e com seu surgimento começa o enigma da vida conceitual.
P: Como inicio essa busca pelo meu Ser?
M: Comece bem do começo. Nesse mundo grosseiro, comecei com meus pais, porque sabia muito bem que meu princípio já residia ali naquela amostra de seus elementos corpóreos da qual eu emanei. Mas cheguei à conclusão de que eu não poderia ser esse princípio que surgiu do corpo da mãe.
Não há ninguém aqui com 100 anos de idade. Isso significa que há 100 anos atrás você não existia?
P: Eu não sei
M: Esse que disse "não sei" deve ter estado lá; em suma, você não era assim, mas deve ter sido alguma coisa. Você deve compreender isso corretamente. Há 100 anos eu não era assim; então, aquele que aponta isso deve ter estado lá. Você existiu e existe até a eternidade.
O que estou expondo não está relacionado ao conhecimento mundano. Você não quer abdicar do conhecimento mundano ou do chamado conhecimento espiritual, e ainda assim, através desses conceitos mundanos quer entender o enigma de sua existência, e é precisamente por isso que você não é capaz de entender.
Na verdade, seu estado é de bem-aventurança absoluta, não este estado fenomenal. Nesse estado não-fenomenal você está cheio de felicidade, mas não há experiência de sua presença. Nesse estado não há vestígios de miséria ou infelicidade, apenas felicidade absoluta. O que eu estou falando?
P: Ananda (felicidade)
M: Porque você quer alguma satisfação de acordo com seus próprios conceitos, você tenta qualificar a felicidade pura. O termo "ananda" só tem significado quando significa que o estado corporal está disponível para experimentá-lo. Quando você está em sono profundo e começa a ver formas, você está realmente sonhando. Essas formas de sonho não são provenientes do seu próprio ser? O que quer que você veja, mesmo no estado de vigília, não vem do seu próprio ser que habita dentro do corpo?
No sono profundo, a consciência estava em uma condição inativa; não havia corpos, nem conceitos, nem ônus. Após a chegada deste estado aparentemente acordado, com a chegada do conceito "Eu Sou", o amor pelo "Eu Sou" acordou. Isso em si é Maya, ilusão.
P: Maharaj quer dizer que o experimentador dos três estados é o Eu?
M: Esse é o estado de Saguna Brahman; é por causa desse seu sentido de ser existir que os outros estados podem existir. O mundo dos sonhos é muito antigo, não é novo. Você vê monumentos antigos em seus sonhos. Seu sentido se ser é muito poderoso.
O surgimento desse ser em si constitui o tempo. Tudo é esse sentido de ser (beingness), exceto eu, o Absoluto, não sou isso. Na meditação, havia o espaço, quando de repente duas formas apareceram fora da não-forma, Prakriti e Purusha, e a quintessência dessas formas era o conhecimento "Eu Sou". Não havia formas, de repente formas apareceram, assim como no mundo dos sonhos.
Você como um sonhador está dormindo na cama, mas no seu mundo de sonhos você vê um corpo e pensa que é você, e você está fazendo tudo através desse corpo de sonho. Da mesma forma, os corpos são criados no chamado estado de vigília.
O estado de Prakriti e Purusha não tem forma e é eterno, não tendo nem princípio nem fim. Mas daí vêm os cinco elementos e, com eles, simultaneamente, o corpo é formado no momento em que o tempo é experimentado pela primeira vez. Esse processo é sempre contínuo, com a forma do corpo meramente indicativa da oportunidade de experimentar o tempo. Essa explicação não vai chegar em casa para todos.
No momento da chamada morte, com que identidade você gostaria de partir?
P: Como Parabrahman.
M: O Absoluto, que eu chamo de Parabrahman, como é? O que você está fazendo é multiplicar palavras com mais palavras, conceitos com mais conceitos.
P: Maharaj deve me tirar disso.
M: Você pode definir o que você é?
P: Gostaria de ter sua benção para entender o que sou eu.
M: Você é muito adepto de jogos de palavras. Enquanto eu estou falando sobre o conhecimento que está além deste mundo fenomenal, você está tentando entender através de conceitos e palavras mundanas. Desista de todos esses conceitos e investigue a natureza do seu ser. Como você aconteceu? Pondere sobre isso! A verdadeira bênção do Guru vem quando o seu conhecimento brota dentro de você.



29 de julho de 1980 

Pergunta: Por que essa consciência surgiu?
Maharaj: Você é a pergunta e a resposta. Todas as suas perguntas vêm da sua identificação com o corpo. Como qualquer pergunta relacionada àquilo que era anterior ao corpo e à consciência pode ser respondida? Há iogues que se sentaram em meditação por muitos e muitos anos buscando respostas para essa pergunta, mas mesmo eles não entenderam isso. E ainda assim você está reclamando.
P: É um grande mistério
M: É um mistério apenas para o ignorante. Para o não identificado com o corpo, não é mais um mistério.
P: Maharaj não pode nos transmitir isso?
M: Eu continuo dizendo, mas você não escuta. 
P: Maharaj nos vê como indivíduos?
M: Não há indivíduos; existem apenas corpos-alimento com o conhecimento "Eu Sou". Não há diferença entre uma formiga, um ser humano e Iswara; eles são da mesma qualidade. O corpo de uma formiga é pequeno, o do elefante é grande. A força é diferente, por causa do tamanho, mas a força vital é a mesma. Para poder haver o conhecimento, o corpo é necessário.
P: Como Maharaj conseguiu o nome Nisargadatta?
M: Houve uma época em que eu estava compondo poemas. Poemas costumavam fluir de dentro de mim e, nesse fluxo, apenas adicionei Nisargadatta. Eu estava me divertindo com a composição de poemas até que meu Guru me advertiu: "Você está gostando demais de compor esses poemas; desista deles!"
Qual era a intenção dele? Seu objetivo era me fundir no estado Absoluto, em vez de me deleitar com o meu sentido de ser.
Foi assim que realizei o conhecimento, não através de manipulação mental. Meu Guru disse: "Isto é assim" e, para mim, estava terminado! Se você continuar no reino do intelecto, ficará emaranhado e perdido em mais e mais conceitos.
A Consciência é o tempo fluindo continuamente. Mas eu, o Absoluto, não terei sua companhia eternamente porque a consciência está vinculada ao tempo. Quando esse sentido de ser se for, o Absoluto não conhecerá o "Eu Sou". Aparecimento e desaparecimento, nascimento e morte, estas são as qualidades do sentido de ser; elas não são suas qualidades. Você urinou e o odor está vindo dali - você é esse odor?
P: Não, eu não sou.
M: Esse estado de ser é como aquela urina. Pode você ser esse estado de ser?
P: Absolutamente não!
M: Você não precisa mais de sadhana. Para você, as palavras do Guru são finais.

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