sexta-feira, 23 de maio de 2014

Bhagavan Ramana Maharshi - Discursos em 1935 e 1936


30 de janeiro de 1935

Evans-Wentz: A solidão é necessária para um jnani?
Baghavan Ramana Maharshi: A solidão está na mente do homem. É possível estar no meio dos afazeres do mundo e manter a serenidade de espírito; tal pessoa está em solidão. Outra pode ficar em uma floresta, mas ainda ser incapaz de controlar sua mente. Não pode ser dito que ele esteja na solidão. A solidão é uma função da mente. Um homem ligado aos desejos não consegue solidão independente de onde ele estiver; um homem desapegado está sempre em solidão.
Pergunta: Então, uma pessoa pode estar envolvida no seu trabalho e estar livre de desejo e manter-se na solidão. É assim?
B: Sim. Trabalho realizado com apego é uma algema, enquanto que o trabalho realizado com desapego não afeta o realizador.  Mesmo enquanto trabalha, ele está na solidão.
P: É dito que existem muitos Santos no Tibete, que permanecem em solidão e ainda assim são muito úteis para o mundo. Como é possível?
B: Pode acontecer mesmo. A Realização de Ser é a maior ajuda que pode ser concedida para a humanidade. Portanto, é dito que os Santos sejam úteis, embora permaneçam reclusos, em florestas, cavernas, etc. Mas não deve esquecer que a solidão não está nas florestas apenas. Ela pode ser obtida até mesmo nas cidades, no meio das ocupações mundanas.
P: Não seria necessário que os Santos devessem se misturar com as pessoas e serem úteis para elas?
B: O Ser apenas é a Realidade; o mundo e todo o resto não são. O ser Realizado não vê o mundo como diferente de si mesmo.
P: Então, a realização do Santo traz elevação para a humanidade sem que ela esteja ciente disso. É assim?
B: Sim. A ajuda é imperceptível, mas ainda assim está lá. Um santo ajuda a toda a humanidade, e isso permanece desconhecido para ela.
P: Não seria melhor ele se misturar com as pessoas?
B: Não existe ‘os outros’ para se misturar. O Ser é a primeira e única realidade.
P: Se houvesse uma centena de homens que tivessem a realização do Ser não seria um grande benefício para o mundo?
B: Quando você diz 'Ser' você se refere ao ilimitado, mas quando você adiciona 'homens' a ela, você limita o significado. Há apenas um Ser infinito.
P: Sim, sim, entendo! Sri Krishna disse no Bhagavad Gita que trabalho deve ser realizado sem o apego e tal trabalho é melhor do que a ociosidade. Isso é Karma Yoga?
B: O que é dito é dado de acordo com o temperamento dos ouvintes.
P: Para os Europeus, é incompreensível que um homem em reclusão possa ser útil. Imagina-se que somente os homens que trabalham no mundo podem ser úteis. Quando cessará esta confusão? Será possível que a mente Europeia venha a perceber a Verdade?
B: Não se preocupe com a Europa ou a América. Onde estão eles, exceto em sua mente? Realize o seu Ser e então todos serão Realizados. Se você sonha e vê vários homens e depois acorda e recorda do seu sonho, você tenta determinar se as pessoas fruto da criação do seu sonho também acordaram?
P: O que você pensa sobre a teoria da ilusão universal (Maya)?
B: O que é Maya? É a realidade apenas.
P: Não é ilusão que Maya significa?
B: O termo Maya é usado para significar as manifestações da Realidade. Assim sendo, Maya é a Realidade apenas.
P: Alguns dizem que Sri Sankaracharya era só um intelectual e não homem realizado. É esse o caso?
B: Por que se preocupar com Sankaracharya? Realize o seu próprio Ser. Os outros podem cuidar de si mesmos.
P: Jesus Cristo curou pessoas de suas doenças. Isso era apenas resultado poderes ocultos (siddhis)?
B: Jesus estava consciente no momento que ele estava curando os homens de suas doenças? Ele não poderia ter sido consciente dos seus poderes. Há uma história relacionada como isso: Jesus uma vez tinha curado um homem de sua cegueira. No decorrer do tempo, o homem virou um ímpio. Ao encontrá-lo depois de alguns anos, Jesus observou sua maldade e perguntou-lhe porque ele estava assim. Ele respondeu dizendo que, quando ele era cego, ele não poderia cometer qualquer pecado. Mas depois que Jesus tinha lhe curado da cegueira, ele tornou-se mau e que Jesus foi responsável pela sua maldade.
P: Mas Jesus não era um Ser perfeito que possuía poderes ocultos (siddhi)?
B: Ele não poderia ter sido consciente de seus poderes (siddhis).
P: Não é bom para adquirir tais poderes como a telepatia, etc.?
B: A telepatia ou o rádio permitem ver e ouvir de longe. É tudo igual, ouvir e ver. Se a pessoa ouve de perto ou longe não faz qualquer diferença na audiçãoou visão. O fator fundamental é o ouvinte, o sujeito. Sem o ouvinte ou o vidente, não pode haver nenhuma audição ou visão. As quais são funções da mente. Os poderes ocultos (siddhis) estão, portanto, apenas na mente. Eles não são naturais ao Ser. O que não é natural, mas sim adquirido, não pode ser permanente e não vale se esforçar para adquirir. Eles denotam poderes aumentados. Um homem possui poderes limitados e é miserável, ele quer expandir seus poderes para que ele possa ser feliz. Mas considere se ele conseguir isso; se com percepções limitadas ele é miserável, com percepções estendidas a miséria deve aumentar proporcionalmente. Poderes ocultos não trarão felicidade a ninguém, mas trarão mais infelicidade! Além do mais, para quê são esses poderes? Aquele de deseja tais poderes deseja exibir esses siddhis, para que os outros o apreciem. Ele busca a valorização e se não conseguir isso ele não será feliz. Deve haver os outros para apreciá-lo. Ele pode até achar outro possuidor de poderes superiores e isso vai causar ciúme e infelicidade. O maior ocultista (siddha) pode conhecer um siddha ainda maior e assim por diante até que virá um que vai explodir tudo num instante. O maior adepto (siddha) é Deus ou o Ser. Qual é o poder verdadeiro? É aumentar a prosperidade ou trazer a paz? O que resulta em paz é a mais alta perfeição (siddhi).
P: Mas as pessoas comuns na Europa e na América não apreciam tal atitude e desejam uma exibição de poderes e instruções por palestras, etc.
B: Palestras podem entreter os indivíduos por algumas horas sem melhorá-los. O silêncio, por outro lado, é permanente e beneficia toda a humanidade.
P: Mas o silêncio não é compreendido.
B: Não importa. Por silêncio quero dizer eloquência. Palestras orais não são tão eloquentes quanto o silêncio. O silêncio é a eloquência incessante. O mestre Primal, Dakshinamurti, é o ideal. Ele ensinou seus discípulos através do silêncio.
P: Mas naquela ocasião haviam discípulos para ele. Agora é diferente os discípulos devem ser procurados e ajudados.
B: Esse é um sinal de ignorância. O poder que criou você, criou o mundo. Se ele pode tomar conta de você, ele pode similarmente cuidar do mundo também.
P: O que Bhagavan pensa da "alma perdida" mencionada por Jesus Cristo?
B: Pense no que há para ser perdido. existe algo a ser perdido? O que importa é apenas o que é natural. Tal coisa deve ser eterna e não pode ser experimentada. O que nasce deve morrer; o que é adquirido deve ser perdido. Você nasceu? Você é sempre existente. O Ser nunca pode ser perdido.
P: Buda aconselha o caminho de oito partes como sendo o melhor, de modo que ninguém fique perdido.
B: Sim. Tal caminho é chamado de Raja Yoga pelos Hindus.
P: Yoga é aconselhado para um aspirante espiritual?
B: Yoga ajuda a controlar a mente.
P: Mas isso não leva a adquirir poderes (siddhis) que são ditos serem perigosos?
B: Mas você qualificou sua pergunta pelas palavras "um aspirante espiritual" e não disse um buscador de poderes (siddhis)?
  
P: Quanto tempo pode a mente ficar ou ser mantida no coração?
B: O período estende-se atravéz da prática.
P: O que acontece ao final do período?
B: A mente retorna ao presente estado normal. A unidade no Coração é substituída pela variedade de fenômenos percebidos. Isso é chamado de a mente voltada para fora. A mente voltada para o coração é chamada de mente em repouso.
P: Todo esse processo é meramente intelectual ou envolve o sentimento predominantemente?  
B: O sentimento.
P: Como todos os pensamentos cessam quando a mente está no coração?
B: Por força de vontade, com uma forte fé na verdade e efecácia do ensinamento do Mestre.
P: Qual é o benefício desse processo?
B: A Conquista da vontade e o desenvolvimento da concentração; a conquista das paixões e o desenvolvimento de desapego; o aumento da prática das virtudes (samatva); e a igualdade para com todos.
P: Por que se deve adotar essa auto- hipnose, pensando no ponto impensável? Por que não adotar outros métodos sugeridos, como fixar o olhar em uma luz, segurar a respiração, ouvir música, ouvir sons internos, repetir sílabas sagradas (Pranava) ou outros mantras?
B: A fixação do olhar na luz entorpece a mente e produz catalepsia da vontade durante aquele momento, no entanto, não assegura nenhum benefício permanente. O controle da respiração entorpece a vontade por um período apenas. Ouvir sons e recitar mantras produzem resultados semelhantes, a menos que o mantra seja sagrado e traga a ajuda de um poder superior para purificar elevar os pensamentos.


18 de Junho de 1936


Baghavan: É o suficiente que a pessoa se renda. A Rendição é dar a si mesmo para a causa original do seu ser. Não se iluda imaginando que a fonte seja algum Deus fora de você. A nossa fonte está de dentro de nós mesmos. Entregue-se a ela. Isso significa que você deveria procurar a fonte e se fundir com ela. É porque você imagina estar fora dela, que você levanta a questão: "Onde está a fonte? " Algumas tradições afirmam que o açúcar não pode provar a sua própria doçura e que um provador deve provar e desfrutar a douçura dele. E que da mesma forma, um indivíduo não pode ser o Supremo e desfrutar da felicidade desse Estado. Por conseguinte, a individualidade deve ser mantida de um lado e do outro o Supremo, de modo que a apreciação possa ocorrer. Por acaso Deus é insensível como o açúcar? Como alguém pode se render e ainda assim manter sua individualidade para desfrutar do supremo? Além disso, eles também dizem que a alma ao atingir a região divina e permanecendo lá, serve ao Ser Supremo. Pode o som da palavra "serviço" alcançar o Senhor? Será que Ele não sabe? Ele está esperando pelo serviço dessas pessoas? Ele -a Pura Consciência- não perguntaria por sua vez : "Quem é você separado de mim que tem a pretensão de servir-Me?
Ainda mais, eles assumem que a alma individual torna-se pura ao se despojar do ego e fica apta para ser o corpo do Senhor. Assim, o Senhor é o Espírito e as almas purificadas constituem Seu corpo e membros. Mas pode haver uma alma para as almas? Quantas almas existem? A resposta deles nesse caso é: "Há muitas almas individuais e uma Alma Suprema". O que é a alma nesse caso? Ela não pode ser o corpo, os membros, etc. O que resta após tudo ser eliminado deve-se dizer ser a alma . Assim, mesmo depois de ter a realizar da alma como aquilo que não pode ser descartado, a existência da Alma Suprema deve ser conhecida. Nesse caso, como foi a alma realizada como sendo a realidade última, depois de descartar tudo o que era estranho a ela? Se isso é correto, a alma que foi descrita como aquela realidade inalienável não é a verdadeira alma. Toda essa confusão é devido à palavra "alma" (atma). A mesma palavra atma é usada para significar o corpo, os sentidos, a mente, o princípio vital, a alma individual e o Ser Supremo. Essa ampla aplicação da palavra deu origem à idéia de que a alma individual (jivatma), vai constituir o corpo do Supremo (Paramatma) . 
No Bhagavad Gita está escrito: "Eu, ó Arjuna! Sou o Ser, localizado no coração de todos os seres" (X- 20).

A estrofe mostra que o Senhor é o Atma (Ser) de todos os seres. Ele não disse "Alma das almas?” Se, por sua vez, você se fundir no Ser não haverá individualidade restante. Você vai se tornar a própria Fonte. Nesse caso, o que é a rendição? Quem irá render o que e para quem? Isso constitui a devoção, a sabedoria e a investigação. 
Dentre os Vaishnavitas também, o Sainto Nammalvar disse, “Eu estava num labirinto, preso ao ‘eu’ e o ‘meu’; Eu vagava sem conhecer meu Ser. Ao realizar meu Ser entendi que eu mesmo sou Você é que ‘meu’ (minhas posses) é só Você.” Portanto, a devoção não é nada além de conhecer a Si mesmo. A escola do Monismo qualificado também admite isso. Ainda assim, em sua doutrina tradicional eles persistem em afirmar que os indivíduos são parte do Supremo - seus membros por assim dizer. Sua doutrina tradicional diz também que a alma individual deveria se tornar pura e então se render ao Supremo; assim o ego é perdido é a pessoa vai para as regiões de Vishnu depois de sua morte; então finalmente há o desfrute do Supremo (ou do Infinito). Dizer que estamos separados da fonte Primal é em sim pretensioso; comentar que a pessoa despojada do ego se torna pura e ainda assim retém a individualidade para desfrutar do ou servir ao Supremo, é uma estratagema enganosa. Que duplicidade é essa - primeiro se apropriar do que é na verdade Dele e então fingir experimentar ou servir a Ele! Isso tudo já não é conhecido por Ele?


Um comentário:

Ana Pousa disse...

Gratidão! Namastey!