segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Bernard de Clairvaux - Dignidade, Conhecimento e Virtude

Você deve procurar por bens superiores na parte superior de você mesmo, isto é, na alma. Esses bens superiores são a dignidade, o conhecimento e a virtude. A dignidade de um homem é seu livre arbítrio, que é o dom através do qual ele é superior aos animais e que o faz até mesmo dominá-los. O conhecimento do homem é aquilo através do qual ele reconhece que possui essa dignidade, mas que ela não se origina nele mesmo. Sua virtude é aquilo através do qual ele busca avidamente por seu criador e, quando O encontra, mantém-se com ele com toda a sua força.

Cada um desses bens têm dois aspectos. A dignidade não é apenas um privilégio natural, é também o poder de dominação, pois todas as coisas vivas na Terra podem ser vistas como temendo os homens. O conhecimento também é duplo, pois tanto sabemos que possuímos essa dignidade e o que quer que tenhamos que é bom e sabemos que isso não se origina em nós mesmos. A virtude também pode ser vista como tendo dois aspectos. Através dela buscamos nosso Criador e quando o encontramos nos agarramos a Ele para que não possamos ser separados.
A dignidade não é nada sem o conhecimento e o conhecimento pode até mesmo ser uma pedra no caminho sem a virtude. Essa é a razão para ambas as coisas. Que glória é ter aquilo que você não sabe que tem? E saber o que você tem, mas não saber que isso não se origina com você é ter glória, mas não perante a Deus. Para aquele que glorifica a si mesmo o Apóstolo diz: “O que você tem que não tenha sido recebido? E se foi recebido, por que se vangloriar como se não houvesse sido recebido? (1 Cor. 4:7) Ele não diz simplesmente: “Por que se vangloriar?” Ele adiciona: “como se não houvesse recebido”, de modo a enfatizar que a culpa reside não em vangloriar-se de algo, mas em fazer isso como se aquilo não tivesse sido um dom que foi recebido. Esse tipo de coisa é corretamente chamada de vanglória, pois não repousa numa fundação sólida da verdade. São Paulo aponta a diferença entre a verdade: “Aquele que se vangloria vanglorie-se no Senhor”, isto é, na verdade. Pois o próprio Senhor é a Verdade.
Há duas coisas que você deveria saber: primeiro, o que você é; segundo, que você não é o que é por seu próprio poder. Então você irá vangloriar-se, mas não em vão. É dito que se você não conhece a si mesmo, você deveria ir e seguir os rebanhos de seus companheiros. Isso é o que de fato acontece. Quando um homem tem um alta honra atribuída a si, mas não a aprecia, ele é merecidamente comparado com as bestas, com as quais ele compartilha sua presente mortalidade e seu estado de corrupção.
Isso acontece também: quando um homem não aprecia o dom da razão e passa seu tempo com rebanhos de bestas irracionais; quando ele ignora a glória que está dentro dele e molda-se nas coisas externas que sua essência percebe; e quando ele é carregado de tal maneira pela curiosidade que torna-se igual a qualquer outro animal, pois ele não vê que recebeu nada mais do que os animais receberam.

Desse modo, deveríamos temer grandemente a ignorância que nos faz pensar menos de nós mesmos do que deveríamos. Mas não menos, e de fato muito mais, deveríamos temer a ignorância que nos faz pensar que somos melhores do que somos. Isso é o que ocorre quando somos enganados em pesar que algum bem em nós origina-se com nós mesmos.

Mas você deveria evitar e detestar ainda mais do que esses dois aquela presunção através da qual, totalmente ciente e deliberadamente, você ousa buscar sua própria glória em coisas boas que não são suas e que você sabe perfeitamente bem que não são suas por nenhum poder pertencente a você. Então, sem sentir vergonha, você rouba a glória de outrem. Pois a primeira ignorância não tem glória, a segunda tem uma glória, mas não aos olhos de Deus; mas esse terceiro mal que é cometido conscientemente é um ato de traição contra Deus.

Essa arrogância nascida da última ignorância é pior e mais perigosa porque, embora o segundo tipo de ignorância faça com que ignoremos a Deus, esse nos leva a desprezá-Lo. E é pior e mais repugnante do que o primeiro, porque embora o primeiro nos torne companheiros das bestas, esse nos lança na companhia de demônios. É orgulho, o maior pecado, usar os dons que lhe foram dados como se você tivesse nascido com eles e arrogar para si mesmo a glória que pertence ao generoso Doador.
Junto com estes dois (a dignidade e o conhecimento), deve ir a virtude, a qual é fruto de ambos. Através da virtude buscamos e agarramo-nos ao Doador de todas as coisas boas e damos a Ele a glória que Ele merece por tudo que Ele tem dado. Contudo aquele que sabe como fazer o que é certo e não o faz receberá muitos açoites (Luc. 12:47). Por que? Porque “ele não quis entender como se comportar bem” (Sal. 36:3). Mais do que isso, “planejou a maldade em sua cama” (Sal. 36:4). Ele intenta como um servo mal roubar e levar embora a glória do Senhor para si, a glória responsável pelas boas qualidades que ele sabe certamente que não se originaram nele mesmo, pois Deus lhe deu esse conhecimento.

É perfeitamente óbvio então que sem conhecimento a dignidade é totalmente inútil e que o conhecimento sem virtude deve ser condenado. Verdadeiramente, o homem de virtude no qual o conhecimento não é para ser condenado e cuja dignidade não é infrutífera, clama a Deus e livremente confessa: “Não a nós, Senhor, mas sim ao Seu Nome seja a glória. (Sal. 115:1) Isto é, não creditamos a nós mesmos nenhum conhecimento ou dignidade, atribuímos tudo a Seu nome, pois isso vêm tudo de Você.”

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Meher Baba - O Caminho do Amor

Deus como Verdade


Em última análise, cada um e cada coisa é Deus. E esse Deus como a verdade pode ser realizado por meio de um Guru ou de um Mestre. Geralmente, neste país, o Vedantismo está associado a esta realização do Altíssimo. Porém, agora não estou preocupado com o Vedantismo, com o Sufismo ou qualquer outro "ismo", mas somente com Deus como a Verdade, em como Ele entra em nossa experiência após o desaparecimento da mente-ego limitada e limitante. Deus é uma Verdade inabalável e eterna. Ele se comunica e revela a Si memso para aqueles que amam-No, que buscam-No e que se entregam a Ele, tanto em seu aspecto impessoal que está além de forma, nome e tempo, ou em Seu aspecto pessoal. Ele é mais facilmente acessível ao homem comum através dos homens-Deus, que sempre vêm e sempre virão para transmitir luz e verdade para a sofrida humanidade, a qual em sua maioria está tateando no escuro.
Por causa de sua completa união com Deus, o homem-Deus desfruta eternamente do estado "eu-sou-Deus",
que também corresponde ao termo Vedanta Aham Brahmasmi e ao termo Sufi Anal-Haq ou à declaração de Cristo: "Eu e meu Pai somos um." Na experiência dos Sufis, Anal-Haq, ou o estado "eu-sou-Deus", é a culminação de Hama-Oost, que significa que tudo é Deus e nada mais existe. E uma vez que nesta abordagem só “Deus sem um segundo" é contemplado, não há espaço para o amor por Deus ou o anseio por Deus. A alma tem a convicção intelectual de que ela é Deus. Mas para realmente experimentar esse estado, ela passa por uma intensa concentração ou meditação sobre esse pensamento. "Eu não sou o corpo, não sou a mente, não sou isto nem aquilo, eu sou Deus." A alma, em seguida, experimenta através da meditação aquilo que ela assumiu ser ela mesma. Mas essa maneira de experimentar Deus não é apenas difícil, mas é também seca.
O Caminho é mais realista e alegre quando há um amplo jogo de amor e devoção a Deus, quando postula a
separação temporária e aparente de Deus e o desejo de unir-se a Ele. Tal separação aparente e provisória
de Deusé afirmada pela alma nas duas concepções da tradição Sufi: Hamaaz Oost, que significa que tudo é de Deus e Hama Doost, que significa que tudo é para o Amado Deus. Em ambas as concepções a alma percebe que sua separação de Deus é apenas temporária e aparente e ela busca restaurar essa unidade perdida com Deus através de um intenso amor que consome toda a dualidade. A única diferença entre esses dois estados é que enquanto a alma, no estado de HamaDoost, contenta-se com a Vontade de Deus como o Bem-Amado, no estado de Hama az Oost, a alma não anseia por nada além da união com Deus.
Sendo que a alma, que está em aprisionamento, pode ser resgatada somente através do Amor Divino, até
mesmo os Mestres Perfeitos, os quais alcançam a completa unidade com Deus e experimentam-no como a única Realidade, muitas vezes, aparentemente, entram no domínio da dualidade e falam a linguagem do amor, da adoração e do serviço a Deus em Seu Ser não-manifesto bem como em todas as inumeráveis formas ​​através das quais Ele se manifesta.
O Amor Divino, como cantado por santos hindus como Tukaram, como ensinado por místicos Cristãos como São Francisco, como pregado por santos Zoroastristas comoAzer Kaivan e tornado imortal por poetas sufis como Hafiz, nunca abriga nenhum pensamento autocentrado. Ele consome todos os desejos e fraquezas que nutrem a servidão e a ilusão da dualidade. Por fim, ele une a alma a Deus, trazendo assim para a alma o verdadeiro autoconhecimento, a felicidade duradoura, a paz inatacável, a compreensão sem fronteiras e o poder ilimitado. Sejam vocês os herdeiros dessa vida eterna que vem para aqueles que buscam!


Deus como a Bem-aventurança

Em todos os lugares, em todos os estilos de vida, o homem, sem exceção, tem sede de felicidade. Ele tenta saciá-la nas diversas seduções da vida sensual e nas muitas posses e conquistas que alimentam e agradam o ego, bem como também nas inumeráveis experiênciasque estimulam o intelecto, que excitam a mente, acalmam o coração ou energizam o espírito. De tudo isso, o que ele procura é a felicidade de diversos tipos. Mas ele procura-a no mundo da dualidade e nas sombras passageiras da Ilusão de Maya, a qual chamamos de universo. E ele descobre que a felicidade que consegue ali é tão passageira que quase desaparece no próprio momento da experiência. E depois que desaparece, o que resta é um vazio sem fundo que nenhuma multiplicação de experiências similares jamais poderá preencher completamente. Mas a verdadeira bem-aventurança só pode vir para alguém que tenha em suas mãos a coragem de se tornar livre de todo apego às formas, que por sua vez não são nada além de ilusões da dualidade. Só então ele pode ser unido com seu verdadeiro Amado, que é Deus como a Verdade eterna e permanente por trás de todas as formas, incluindo o que ele considera como sendo seu próprio corpo.
O infinito e insondável oceano da Bem-aventurança está dentro de todos. Não há nenhum indivíduo inteiramente desprovido de felicidade de alguma forma, pois não há nenhum indivíduo que esteja totalmente separado de Deus como o Oceano da Bem-aventurança. Cada tipo de prazer que ele já teve é em última instância um reflexo parcial e ilusório de Deus como Ananda (bem-aventurança). Mas o prazer que é procurado e experimentado na ignorância, finalmente aprisiona a alma numa continuação interminável da falsa vida do ego e deixa a alma exposta aos muitos sofrimentos da vida egóica. Os prazeres do mundo ilusório são comparáveis ​​aos muitos rios de miragem que aparentemente derramam-se no oceano. A felicidade divina é semrpe nova, eterna, contínua e é infinitamente experimentada como a alegria autosustentável e infinita de Deus.

Unam-se ao seu verdadeiro Amado, o qual é Deus na forma de Ananda ou Bem-aventurança!

Deus

Na fase sub-humana, a consciência do falso serou do falso "eu", que é muito leve, oferece possibilidades
de evolução. Na forma humana, a evolução da consciência é completada e a consciência torna-se plena. O
amor entra em cena ativamente pela primeira vez. Quando o amor desempenha o papel de forma mais ativa e plena, o falso "eu" passa a ser cada vez e mais consumido. Eventualmente, quando o amor está em seu apogeu, o falso "eu" é totalmente consumido pelo amor, o que resulta na consumação do amante e do amor no altar do Amado. Nem o amante permanece no amor, nem o amor reina soberano sobre o amante: o objetivo é atingido. O Amado é supremo sobre seu ser: não há nada exceto o Amado: todo o resto é consumido.


A respeito de ser o Avatar

Quando digo que sou o Avatar, há alguns que se sentem felizes, alguns que se sentem chocados e muitos que, ao me ouvirem afirmar isso, consideram-me como um hipócrita, uma fraude, um egoísta supremo, ou simplesmente um louco. Se eu dissesse que cada um de vocês é um Avatar, alguns ficariam contentes e muitos considerariam uma blasfêmia ou uma piada. O fato é que sendo Deus Um, indivisível e estando igualmente em todos nós, não podemos ser nada mais além de um, porém é demais para a mente consciente da dualidade aceitar isso. No entanto, cada um de nós é o que o outro é. Sei que eu sou o Avatar em todos os sentidos da palavra e sei que cada um de vocês é um Avatar em um sentido ou outro. É um fato inalterável e universalmente reconhecido desde tempos imemoriais que Deus sabe tudo, Deus faz tudo e que nada acontece senão pela vontade de Deus. Portanto, é Deus que me faz dizer que eu sou o Avatar e que cada um de vocês é um Avatar. Novamente, é Ele que é alegrado através de alguns e que através de outros fica chocado. É Deus que age e é Deus que reage. É Ele quem zomba e aquele que responde. Ele é o Criador, o Produtor, o Ator e a Platéia na Sua própria peça Divina.


A respeito de manter silêncio*

Se você me perguntasse por que eu não falo, eu diria que não estou em silêncio e que eu falo mais eloquentemente através de gestos e da tábua do alfabeto. Se você me perguntasse por que eu não falo, eu diria que talvez por três razões: em primeiro lugar, sinto que através de todos vocês eu estou falando eternamente. Em segundo lugar, para aliviar o tédio de falar incessantemente através de suas formas eu mantenho silêncio em minha forma física pessoal. E em terceiro lugar, porque toda a conversa é em si conversa fiada. Palestras, mensagens, declarações, discursos de qualquer natureza, espirituais ou não, transmitidos através declarações ou escritos, são apenas conversa fiada quando não se age em conformidade ou se vive aquilo. Se você perguntar quando irei quebrar meu silêncio, direi que será quando eu quiser proferir a única Palavra real que foi falada no princípio sem começo, pois essa Palavra apenas é digna de ser proferida. O momento de quebrar o meu silêncio externo para proferir essa Palavra está muito próximo.

* Meher Baba guardou silêncio por 44 anos

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Hafiz - Seis Poemas


Quanto mais perto chego de você, Amado,
mais consigo ver que somos apenas Você e eu neste Mundo.

Escuto baterem na minha porta,
quem mais poderia ser?

Então corro para abrir sem pentear meus cabelos.

Por noites de mais tenho implorado pelo Seu retorno;

de que serve a vaidade a esta hora da noite,

nesta estação divina

que chegou a mim aqui de joelhos?

Se Suas cartas de amor são verdadeiras, querido Deus,

Irei me render àquele que Você continua dizendo que

Eu Sou.

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Admita algo:

Você diz a todos que vê:

“me ame”

É claro que você não diz isso em voz alta,
Senão alguém chamaria a polícia.

Ainda assim, pense sobre isso:

Esse grande impulso em nós de estabelecer conexões.

Por que não se transformar naquele
que vive com uma lua cheia em cada olho,
que está sempre dizendo com aquela doce
linguagem lunar,
aquilo que todos os outros olhos deste Mundo
estão ansiosos por ouvir.
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Quem pode acreditar na gentileza divina de Deus?

Quem pode compreender o que acontece
quando a separação chega ao fim?

Agora, por causa de minha união com a Realidade,
quando quer que ouço uma história de um de Seus Profetas
que vieram para este Mundo,
sei que eu era uma árvore que ficava ali perto,
que se reclinava e fazia anotações.

Sei que eu era a terra que media o infinito arco de Seus pés.

Sei que eu era a comida e a água que Lhe nutriam.
A comida e a água que entravam na boca do Amado.

Peregrino, se for o seu desejo,
um dia você verá que você estava sentado dentro de Hafiz
E que foi com o alaúde que você me deu que nós cantávamos
sobre a verdade e a intimidade sublime:

Sei que eu era a água que saciou a sede de Cristo.
Sei que Eu Sou a comida e a água que entram em cada boca."

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Há uma ascensão do abraço da luz

que você pode ver num campo do verão

ou na dança de uma criança.

Cada cidade é uma lira

que toca seus acordes contra nossos ouvidos.

A tampa de uma panela começa a pular

quando a água fica em êxtase por causa do fogo.


Se eu jamais completo uma frase quando estamos juntos,
aceite minhas desculpas e tente compreender
esse doce pensamento inebriado.

No início, os pássaros não tinham o desejo de voar.

O que realmente aconteceu foi isto:

Certa vez Deus sentou-se perto deles tocando música.
Quando Ele partiu, eles sentiram tanto a Sua falta
que seu anseio fez asas brotarem neles,
necessitando vasculhar os céus.

Ouça, Hafiz sabe que nada nos evolui mais do que o Amor.

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Alguns poetas tem tanta habilidade para falar sobre Deus
sem jamais usar nenhum de Seus pseudônimos.

Alguns tem tal habilidade
que você nem precisa ir até o rio com o seu balde.

Com o magnetismo das palavras,
eles podem adular Vênus
para fazê-lo sair de sua órbita primal
e roubar de sua boca aquela milagrosa gota de orvalho
que ele coletou em suas veias desde que o tempo disse:
“Eu Sou.”

Usarei todos os trajes comuns da língua
se isso servir para conquistar a sua amizade.

Vou me transformar numa planta da floresta
se você aplicar-me sobre suas feridas.

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Aborrecido?
Então fique comigo, pois eu não estou.

Solitário?
Milhares de seres apaixonados e nus

habitam as cavernas antigas debaixo de minhas pálpebras.

Riquezas?
Tome aqui um punhado,
todo meu corpo é uma esmeralda que implora:

“Leve-me!”

Escreva tudo o que lhe preocupa num pedaço de pergaminho,

Ofereça-o para Deus.

Mesmo de uma distância de um milênio

posso inclinar a chama de meu coração na sua vida

e transformar tudo o que lhe amedronta

na cinza sagrada de um incenso.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

P. D. Ouspensky - Trechos do Livro "A Further Record" (parte 3)

Pergunta: Uma criança vem ao mundo com uma capacidade de autoconsciência?
Sr. Ouspensky: Sim, com a possibilidade. Nossa falta de consciência de nós mesmos é simplesmente um acidente de nascimento. Nós nascemos entre pessoas adormecidas. Uma criança é apenas um embrião, não é desenvolvida ainda. Mas quando já está crescida, ela perde sua oportunidade de desenvolvimento. Quando a criança cresce entre pessoas adormecidas é possível despertar somente através de esforço.
P: Se uma criança fosse colocada em uma ilha sem ver as pessoas, ela ficaria desparta?
Sr. O.: Esse é um exemplo teórico. É como um outro exemplo teórico: se uma criança for privada de todas as impressões, ela não será capaz de fazer nem um único movimento. Isso está teoricamente correto, mas na prática não pode ser verificado. Se uma criança nasce entre pessoas que estão despertas, ela ficará desperta. Mas não há nenhuma possibilidade de verificar isso.
P: As crianças muitas vezes mostram um certo estado de alerta em uma determinada idade.
Sr. O.: Se uma criança fosse colocada entre pessoas que estivessem acordadas, ela não iria cair no sono. Mas em qual idade ela estaria mais desperta, uma vez nessas condições, é impossível de dizer. Geralmente aos sete ou oito anos aparece nela uma personalidade imaginária ou um ‘eu’ imaginário.
P: É dito que devemos utilizar esforço. O que se entende por esforço? Na maneira habitual de pensar, esforço é produzido pela vontade e é seguido por um resultado (vontade-esforço-realização). Como podemos conciliar que 'não temos vontade alguma' e 'que não podemos fazer' com o fato 'que devemos usar esforço', que 'devemos trabalhar sobre nós mesmos’ — na verdade, aplicar uma ação enérgica proposital? O que vem antes do esforço e o que se segue? Esforço apenas é apenas uma palavra.

Sr. O.: É difícil responder tudo ao mesmo tempo. Nossa vontade é apenas uma resultante dos desejos. A vontade mostra direção. Em um homem comum a vontade de segue uma linha em ziguezague, ou prossegue em um círculo. A vontade mostra a direção dos esforços. Esforço é o nosso capital. Devemos pagar com esforço. De acordo com a intensidade do esforço e o tempo de esforço (considerando se é o momento certo para o esforço ou não), podemos obter resultados. Esforço precisa de conhecimento, o conhecimento dos momentos quando o esforço é útil. Quando a oitava prossegue por si mesma*, o esforço não pode ajudar. É necessário aprender através de longa prática a produzir e aplicar um esforço.

P: Você fala sobre fazer esforços. Acontece que o desejo de fazer esforços deve surgir ocasionalmente, de tempo em tempo.

Sr. O.: Não é o desejo, mas a realização da necessidade.

P: Qual é o momento certo para fazer esforços?
Sr. O.: Os esforços que podemos fazer são os esforços da auto-observação e da lembrança de si (de tentarmos estar mais conscientes). Quando as pessoas ouvem sobre esforços, elas pensam sobre os esforços para fazer. Isso seria esforço perdido ou esforço errado. Mas o esforço de praticar a auto-observação e a lembrança de si é o esforço certo porque ele pode dar resultados certos.
P: Como pode um homem mudar, então?
Sr. O.: Ele não pode mudar enquanto permanecer sob as leis da vida mecânica. O início das possibilidades começa com a primeira etapa (no diagrama da "Vida, da escada e do caminho).
P: O que é o homem n. º 4? *
Sr. O.: O homem n. º 4 tem direção.
P: Ele é um homem que começou a trabalhar fora das leis?
Sr. O.: Tudo isso acarreta em graus. Um homem que vive no círculo externo está sob a Lei do Acidente. Ou, se um homem tem uma essência ou um tipo** fortemente expressados, sua vida continua sob as leis de seu tipo ou as leis do destino. Mas isso não é uma vantagem. Quando um homem começa a trabalhar na direção da consciência, isso cria nele uma quantidade de novas tríades (de novas ações). Isso significa mudança, talvez não seja perceptível, mas ainda cosmicamente é uma mudança. Apenas os esforços individuais podem ajudar o homem a passar do círculo externo para o círculo exotérico. O que se refere a um homem no círculo externo não se refere a um homem que começou a trabalhar. Ele está sob leis diferentes, ou melhor, leis diferentes começam a tocar um homem que começa a trabalhar. Cada círculo está sob leis diferentes.
P: Eu sempre pensei que existia alguma virtude em fazer uma coisa só porque ela era desagradável e por não querer fazê-la.
Sr. O.: Há muitas coisas desagradáveis. Você pode fazer muitos esforços que são completamente inúteis. Este é um ponto errado. Geralmente, nós temos má vontade. Muito raramente temos boa vontade. Você não sabe como pensar sobre essa questão. De um lado você percebe que você é uma máquina (tudo acontece mecanicamente), mas no momento seguinte você deseja agir de acordo com a sua própria opinião. Então, neste momento você deve ser capaz de parar; você deve
ser capaz de não fazer o que você quer. Mas isso não se aplica aos momentos quando você não tem intenção de fazer coisa nenhuma. É quando você encontra-se indo contra as regras ou os princípios, ou contra o que lhe foi dito que você deveria ser capaz de parar. Muitas vezes acontece que as pessoas seguem estudando e perdem esses momentos. Eles acham que estão trabalhando se nada acontece, e quando esses momentos vêm, eles os perdem. O Trabalho não pode ser sempre o mesmo. Em um momento o estudo passivo e as teorias são suficientes, em outro momento é necessário se opor ao seu movimento, é necessário parar.

P: O que você chamaria de fraqueza?

Sr. O.: As coisas nas quais você é mais mecânico; certamente se você não consegue ver aonde você é absolutamente impotente, onde você está mais adormecido, mais cego, porque você sabe que existem graus em tudo e todas as qualidades ou manifestações em nós, todas elas têm graus diferentes. Se não houvessem graus em nós mesmos seria muito difícil estudar. Podemos estudar a nós mesmos apenas porque tudo em nós existe em diferentes graus. Mesmo o traço* (a fraqueza) não é sempre o mesmo; é quase o mesmo porque é mecânico, mas às vezes é mais definidamente expressado, às vezes em casos muito raros é mostrado muito pouco, apenas assim ele pode ser encontrado. Mas isso é difícil quando se trata das fraquezas; tome a mecanicidade por exemplo, sim, você é mecânico, mas em alguns casos você é mais mecânico, às vezes menos mecânico. Se estamos doentes, por exemplo, de imediato nos tornamos mais mecânicos, não podemos resistir ao mundo e às coisas do mundo externo nem mesmo como podemos resistir ordinariamente.

P: O desejo de ser livre certamente não é uma fraqueza.

Sr. O.: O desejo pode variar. Suponha que a pessoa percebe que ela quer livrar-se de uma fraqueza, ao mesmo tempo ela não deseja aprender os métodos de como se livrar da fraqueza, ela pensa que pode fazer isso sozinha, isso será uma segunda fraqueza para ajudar a primeira fraqueza, então não haverá nenhum resultado.
P: Mas e se a pessoa faz um esforço constante?
Sr. O.: Mais uma vez isso pertenceria a um outro lado de você, do que você chama de 'você'. Não significa que isso tem poder ou força, é meramente uma combinação de certos desejos, desejos de se livrar de algo. Se você percebe que algo está errado e formula o desejo de se livrar disso, então se você mantiver isso em mente por um tempo suficientemente longo, então se tornará um certo plano de ação; se essa linha de ação for suficientemente prolongada ela poderá atingir resultados. Apenas é necessário novamente sublinhar que várias linhas de ação diferentes são necessárias para alcançar o resultado, não só uma — temos de trabalhar ao mesmo tempo sobre isso e sobre aquilo e sobre aquilo outro, se trabalharmos apenas em uma linha será impossível chegar a algum lugar.
P: Tenho observado em mim um desejo constante de estar confortável. Esse é um sentimento
geral para todas as pessoas?
Sr. O.: Essa é uma das características muito importantes de nossa vida. Por esse desejo sacrificamos tudo. Estamos prontos para desistir de tudo para ir pela linha de menor resistência. Às vezes esse desejo torna-se tão forte que a pessoa pode ficar confortável e não querer nada mais. Mesmo se algo não é confortável tentamos rearranjá-lo para que fique confortável.

P: De onde vem esse desejo?

Sr. O.: Isso precisa de observação.

P: Existe alguma maneira de se livrar disso em relação ao sistema*?

Sr. O.: O que fazer é uma questão diferente. Devem nos aproximar disso de um lado diferente. É uma coisa muito grande. Cada esforço é importante, portanto, cada esforço deve ser discutido especialmente — não todos os esforços juntos. O sono é a coisa mais confortável. Tentar despertar é muito desconfortável. Mais tarde, quando estivermos parcialmente despertos, sentiremos o quão desconfortável é dormir, quando qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento. Mas é necessário chegar a esse estado.

* Para a melhor compreensão de alguns termos utilizados por Ouspensky é recomendada a leitura do livro "A psicologia da evolução possível ao homem" que se encontra no início do blog.

* Para estudar a respeito dos tipos humanos é recomendada a leitura do livro: "A teoria da influência celestial" de Rodney Collin no blog: www.teoriadainfluenciacelestial.blogspot.com

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Philokalia - São Marco o Asceta - Sobre a Lei Espiritual

Por termos sido questionados frequentemente sobre o que o Apóstolo queria dizer quando coloca que “a lei é espiritual” (Rom. 7:14), e que tipo de conhecimento espiritual e ação caracteriza aqueles que desejam observá-la, falaremos sobre isso tanto quanto possível.

Primeiro de tudo, sabemos que Deus é o início, o meio e o fim de tudo o que é bom e que é impossível para nós termos fé em qualquer coisa boa e exercê-la exceto em Jesus Cristo e no Espírito Santo.

Tudo o que é bom é dado pelo Senhor providencialmente e aquele que tem fé que isso é assim não perde o que lhe foi dado.

A fé constante é uma torre forte; para aquele que tem fé Cristo vem a ser tudo.

Possa aquele que inaugura tudo aquilo que é bom inaugurar tudo o que você empreender, de modo que isso possa ser feito com Suas bênçãos.

Quando ler as escrituras sagradas, aquele que é humilde e engajado no trabalho espiritual irá aplicar tudo a si mesmo e não aos outros.

Clame a Deus para que ele abra os olhos do seu coração, de modo que você possa ver o valor da oração e da leitura espiritual quando entendida e aplicada.

Se um homem possui algum dom espiritual e sente compaixão por aqueles que não o possuem, ele preserva o dom por causa de sua compaixão. Mas um homem vanglorioso irá perdê-lo por sucumbir às tentações da vanglória.

As escrituras falam da fé como sendo “a substância das coisas pelas quais esperamos” (Heb. 11:1), e descreve como sem valor aqueles que não conhecem a morada interna de Jesus. (ref. 2 Cor. 13:5)

Aquele que não conhece a Verdade não pode verdadeiramente ter fé, pois por natureza o conhecimento precede a fé.
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Assim como um pensamento é tornado manifesto através de ações e palavras, também é nossa recompensa futura através dos impulsos do coração.
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Assim, um coração piedoso receberá piedade, enquanto que um coração impiedoso receberá o oposto.

A lei da liberdade ensina toda a verdade. Muitos leem sobre ela de uma maneira teórica, mas poucos realmente compreendem-na e isso apenas de acordo com o grau com que praticam os mandamentos.

Deus é a fonte de toda a virtude assim como o sol é a fonte da luz do dia.

Quando você tiver feito algo bom lembre-se das palavras “sem Eu você não pode fazer nada”. (João 15:5)

Quanto maior a fé do homem de que Cristo irá recompensá-lo, maior será a prontidão para suportar toda injustiça.

Revele-se para o Senhor em sua mente. “Pois o homem olha para a aparência externa, mas o Senhor olha para o coração.” (1 Sam. 16:7)

Não faça nada e não diga nada sem um propósito dirigido a Deus. Pois viajar sem uma direção é desperdício de esforço.

A dor faz o sábio lembrar-se de Deus, mas oprime aqueles que se esquecem Dele.

Deixe que todo sofrimento involuntário lhe ensine a lembrar de Deus e não lhe faltará oportunidade para o arrependimento.

Faça o bem quando lembrar e o que você esquecer será revelado a você; e não entregue a sua mente ao esquecimento cego.

O inferno é a ignorância, pois ambos são escuros e a perdição é o esquecimento, pois ambos envolvem a extinção.

Preocupe-se com os seus próprios pecados e não com os de seus semelhantes, assim a oficina de sua mente não será roubada.

Aceitar uma aflição pelo amor a Deus é um ato genuíno de santidade, pois o verdadeiro amor é testado pelas adversidades.

Não alegue ter adquirido uma virtude a menos que você tiver sofrido uma aflição, pois sem aflição a virtude não foi testada.

Considere o resultado de cada aflição involuntária e você verá que foi a destruição do pecado.

Se você quer saúde espiritual escute a sua consciência, faça tudo o que ela lhe falar e você irá beneficiar-se.

Deus e nossa consciência conhecem nossos segredos. Deixe que eles nos corrijam.

Aquele que é ignorante a respeito da emboscada do inimigo é morto facilmente e aquele que não conhece as causas das paixões é logo trazido para baixo.

Após cumprir um mandamento espere ser tentado, pois a amor por Cristo é testado pela adversidade.

Jamais menospreze a importância de seus pensamentos, pois nenhum deles escapa da atenção de Deus.

Muitos lutaram de muitas maneiras contra as circunstâncias, contudo sem oração e arrependimento ninguém jamais escapou do mal.

Os males reforçam uns aos outros e também é assim com as virtudes, encorajando-nos dessa forma a esforços ainda maiores.

O intelecto é tornado cego por estas três paixões: a avareza, a autoestima e os prazeres carnais.

A escritura chama essas três de filhas da sanguessuga, muito amadas por sua mãe, a insensatez. (ref. Prov. 30:15)

Essas três paixões por si mesmas obstruem o conhecimento espiritual e a fé, os irmãos de criação de nossa natureza.

É por causa delas que a cólera, a raiva, a guerra, o assassinato e todos os outros males têm tamanho poder sobre a humanidade.

Quando você escuta o Senhor dizendo que se a pessoa não renunciar tudo o que ela tem ela “não será digna de Mim” (Mat. 10:37), não aplique isso apenas ao dinheiro, mas a todas as formas de vício.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Bhagavan Ramana Maharshi - A Luz e a Testemunha de Tudo

Pergunta: Os métodos Karma marga (o caminho da ação) e Jnana marga (o caminho do conhecimento) são separados e independentes um do outro? Ou o Karma marga é apenas preliminar e após ter sido praticado com êxito deve ser seguido pelo Jnana marga para a consumação do objetivo? O Karma defende o não apego à ação e ainda assim continuando a manter uma vida ativa, enquanto é dito que o Jnana significa renúncia. Qual é o verdadeiro significado de renúncia? A subjugação das paixões, da luxúria, da ganância, etc., é comum a todos e constitui a etapa preliminar essencial a qualquer caminho. A liberdade das paixões não indica renúncia? Ou a renúncia é diferente, significando a cessação da vida ativa? Essas questões estão me incomodando e rogo que luz seja lançada sobre essas dúvidas.

Bhagavan (sorrindo disse): Você já disse tudo. Sua pergunta também contém a resposta. A liberdade das paixões é o requisito essencial. Quando isso é alcançado tudo mais é alcançado.
P: Sri Shankaracharya enfatiza o Jnana marga e diz que a renúncia é preliminar a ele. Mas claramente há dois métodos mencionados no Gita. Eles são Karma e Jnana (Lokesmin dwividha nishtha...).
B: Sri Acharya comentou sobre o Gita e sobre essa passagem também.

P: O Gita parece salientar o Karma, pois Arjuna é convencido a lutar; o próprio Sri Krishna define o exemplo através de uma vida ativa de grandes explorações.

B: O Gita começa dizendo que você não é o corpo.

P: Qual é o significado disso?
B: Que devemos agir sem pensarmos que somos o ator. As ações prosseguirão a despeito de seu estado de ausência do sentido de ego. As pessoas adentram na manifestação por um propósito determinado. Esse propósito será cumprido esteja ela se considerando o ator ou não.
P: O que é Karma yoga? É o não apego ao Karma ou ao seu fruto?

B: Karma yoga é aquele yoga em que a pessoa não arroga a si mesma a função de ser o ator. As ações dão-se automaticamente.

P: É o não apego aos frutos das ações?
B: A questão surgirá apenas se houver o ator (o ego). O tempo todo tem sido dito que você não deve considerar-se o ator.

P: Então Karma yoga é kartrtva buddhi rahita karma - ação sem sentido de ser o agente.

B: Sim. Isso mesmo.
P: O Gita ensina vida ativa do começo ao fim.
B: Sim, a ação sem o ator.
P: É necessário, então, abandonar nossa casa e levar uma vida de renúncia?

B: A casa está em você? Ou você está em casa?

P: Está na minha mente.
B: Sendo assim, o que se passará com você quando você deixar o ambiente físico?
P: Agora eu vejo. Renúncia é apenas a ação sem a sensação de ser o agente. Não há ação para um jivanmukta (para uma alma liberada)?
B: Quem levanta a questão? É um jivanmukta ou outra pessoa?

P: Não é um jivanmukta.

B: Deixe a questão ser levantada após a libertação espiritual (jivanmukti) seja adquirida se isso for necessário. Mukti (a liberação) é admitido ser também a liberdade das atividades mentais. Pode um mukta pensar em ação?

P: Mesmo se ele abandona a ação, a ação não vai abandonar-lhe. Não é assim?

B: Com o que ele está identificado a fim de que esta questão possa se aplicar?
P: Sim, vejo tudo corretamente agora. Minhas dúvidas foram esclarecidas.

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P: Como conseguirei vencer minhas paixões?

B: Localize a raiz delas e então será fácil. Quais são as paixões? Kama (luxúria), krodha (raiva), etc. Por que elas surgem? Por causa da atração e da repulsão pelos objetos vistos. Como os objetos projetam-se na sua visão? Por causa de sua ignorância. Ignorância do que? Do Ser. Assim, se você encontrar o Ser e habitar nele não haverá nenhuma dificuldade proveniente das paixões.
Novamente, qual é a causa das paixões? O desejo de ser feliz ou de desfrutar do prazer. Por que o desejo por felicidade surge? Porque a sua natureza é ela mesma a felicidade e é natural que você vá para o que é seu. Essa felicidade não é encontrada em lugar algum além do Ser. Não procure-a em outros lugares, mas busque o Ser e resida nele. Ainda mais uma vez, essa felicidade que é natural é simplesmente redescoberta, portanto, ela não pode ser perdida. Enquanto que a felicidade decorrente dos outros objetos é externa e, portanto, suscetível de ser perdida. Por conseguinte, ela não pode ser permanente e por isso não vale a pena ser perseguida.
Além disso, a ânsia pelos prazeres não deveria ser incentivada. Não podemos extinguir o fogo vertendo gasolina sobre ele. Uma tentativa de satisfazer os seus desejos por aquele momento para que a paixão possa ser suprimida mais tarde é simplesmente tolice. Sem dúvida, existem outros métodos para a supressão das paixões. Eles são: (1) a regulação alimentar, (2) o jejum, (3) a prática de yoga, (4) alguns medicamentos. Mas seus efeitos são transitórios. As paixões reaparecem com maior vigor assim que o controle é removido. A única maneira de superá-las é erradicá-las. Isso é feito ao encontrarmos sua fonte, como indicado acima.

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P: Com cada pensamento o sujeito e o objeto aparecem e desaparecem. O 'eu' não desaparece quando o sujeito desaparece assim? Se é assim, como pode a busca pelo 'eu' proceder?

B: O sujeito (o conhecedor) é apenas uma modulação da mente. Embora a modulação (vritti) passe, a realidade por trás dela não cessa. O plano de fundo da modulação é o 'Eu' no qual as modulações da mente emergem e submergem.

P: Depois que as escrituras descrevem o Ser como srota (o ouvinte), manta (o pensador), vijnata ( o conhecedor), etc., ele é novamente descrito como asrota, amanta, avijnata, ou seja, não-ouvinte, não-pensador, não-conhecedor, É assim?

B: Justamente assim. O homem comum fica consciente de si mesmo apenas quando as modificações surgem no intelecto (vijnanamaya kosa); essas modificações são transitórias, elas surgem e desaparecem. Portanto, o ijnanamaya (intelecto) é chamado de kosa ou invólucro. Quando sobra apenas a pura consciência, ela é o próprio Chit (Ser) ou o Supremo. Estar em nosso estado natural com o apaziguamento dos pensamentos é em si felicidade e graça. Se essa felicidade é transitória – se ela vem e vai - então esse é só o invólucro da felicidade (Anandamaya kosa), não o puro Ser. O que é necessário é fixar a atenção sobre o puro 'Eu' após o apaziguamento de todos os pensamentos e não perder a conexão com ele. Isso tem de ser descrito como um pensamento extremamente sutil; de outra forma não se pode falar disso de maneira nenhuma, uma vez que ele não é nada além do que o verdadeiro Ser. Quem há para falar dele? Para quem? E como?

Isso está bem explicado no Kaivalyam e no Viveka Chudamani*. Assim, embora no sono a consciência do Ser não é perdida, a ignorância do jiva (ego) não é afetada por isso. Para essa ignorância ser destruída, esse estado sutil da mente (vrittijnanam) é necessário; na luz do sol o algodão não queima, mas se o algodão for colocado sob uma lente, ele pega fogo e é consumido pelos raios do sol que passam através da lente. Da mesma forma, embora a consciência do Ser esteja presente em todos os momentos, ela não é hostil à ignorância. Se através da meditação o estado sutil do pensamento é obtido, a ignorância é destruída. Também no Viveka Chudamani está escrito: sukshmam paramatma tattvam na sthoola drishtya (o extremamente sutil Ser Supremo não pode ser visto pelo olho grosseiro) e esha jyotirasesha sakshi (este é o Ser - a luz e a testemunha de tudo). Esse estado mental sutil não é uma modificação da mente chamada de vritti. Porque os estados mentais são de dois tipos. Um é o estado natural e o outro é uma transformação nas formas dos objetos. O primeiro é a Verdade e o outro é de acordo com o agente (kartrutantra). Quando esse último morre, Djallé kataka renuvat (como pasta de amendoim dissolvida em água) o primeiro permanecerá. O meio para alcançar esse fim é a meditação. Embora ela seja iniciada com a tríade da distinção (o meditador, o objeto meditado e o processo de meditação), finalmente terminará na consciência pura (jnanam). A meditação precisa de esforço, já o jnanam é sem esforço. A meditação pode ser praticada ou não praticada ou pode ser mal feita, jnanam não é assim. A meditação é descrita como kartru-tantra (como sendo própria do meditador), jnanam é descrito como vastutantra (do próprio Supremo).

P: O que significa o Atma?

B: O Ser.
P: Não é o amor por alguma coisa?
B: O desejo por felicidade (sukha prema) é uma prova da felicidade sempre presente do Ser. Caso contrário como poderia esse desejo surgir em você? Se a dor de cabeça fosse natural para os seres humanos ninguém tentaria se livrar dela. Mas toda a pessoa que tem uma dor de cabeça tenta se livrar dela, porque ela conheceu o tempo quando ela tinha nenhuma dor de cabeça. Ela deseja apenas o que é natural a ela. Assim também as pessoas desejam a felicidade porque a felicidade é natural para elas. Sendo natural, ela não é adquirida. As tentativas do homem só podem ser para se livrar da miséria. Se isso for feito o a felicidade e bem-aventurança sempre presentes serão sentidas. A felicidade primordial é obscurecida pelo não-ser que é sinônimo de não-felicidade ou miséria. Duhkha nasam = Suree prapti (a perda da infelicidade resulta no ganho da felicidade). Felicidade misturada com miséria é apenas miséria. Quando a miséria é eliminada, a felicidade sempre presente é dito ser adquirida. O prazer que termina em dor é miséria. As pessoas devem evitar tal prazer.
Os prazeres são de três tipos: priya, moda e pra-moda. Quando um objeto desejado está próximo à mão surge priya, quando se toma posse desse objeto surge moda, quando ele está sendo apreciado prevalece o pra-moda. A razão para o caráter prazeiroso desses estados é que um pensamento exclui todos os outros e então este único pensamento também se funde com o Ser. Esses estados são apreciados somente no Anandamaya Kosa (no invólucro da felicidade). Como regra, o Vijnanamaya kosa (o invólucro do intelecto) prevalece no estado desperto. No sono profundo todos os pensamentos desaparecem e o estado de obscurecimento é um estado de bem-aventurança, ali o corpo que prevalece é o Anandamaya. Esses são os invólucros e não o cerne que é interior a todos esses. Ele está além da vigília, do sono com sonhos e do sono profundo. Ele é a Realidade e consiste na verdadeira felicidade (nijananda).
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Seis versos sobreo Ser

1. Para sempre verdadeiro, forte e novo permanace o Ser. A partir Dele, na verdade, brotam o corpo fantasma e o mundo fantasma. Quando esta ilusão é destruída e não remanece nenhuma partícula, o Sol do Ser brilha claro e real na vasta extensão do Coração. Morre a escuridão, terminam as aflições e a bem-aventurança jorra abundantemente.

2. O pensamento "eu sou o corpo" é o cordão onde são amarrados os vários pensamentos. Ao questionarmos internamente: "Quem sou eu?” e “De onde vem este pensamento?" Todos os outros pensamentos se esvaem. E o Ser brilha por si mesmo como o Eu na caverna do Coração. Essa autoconsciência é o único Céu, essa quietude, essa morada da bem-aventurança.

3. De que adianta conhecer coisas diferentes do Ser? E sendo o Ser conhecido, que outra coisa há para conhecermos? É aquela luz una que brilha como os muitos seres, vendo internamente esse relâmpago da consciência, o jogo da Graça, a morte do ego e o florescimento da bem-aventurança.


4. Para afrouxar as amarras do karma e acabar com os nascimentos, este caminho é mais fácil do que todos os outros caminhos. Permaneça em quietude, sem nenhuma agitação da língua, do corpo ou da mente. E eis o esplendor do Ser interior; a experiência da eternidade, a ausência de todo o medo, o vasto oceano da Graça.

5. Annamalai - o Ser, o Olho atrás do olho da mente, que vê o olho e todos os outros sentidos, que conhece o céu e os outros elementos. O Ser que contém, revela e percebe o céu interior que brilha dentro do Coração. Quando a mente livre de pensamentos se volta para dentro, Annamalai aparece como meu próprio Ser. Verdade, a Graça é necessária, o Amor é adicionado. O êxtase divino eclode.
6. No núcleo mais íntimo, o coração brilha como Brahman sozinho, como "Eu-Eu”, o Ser consciente. Entre profundamente no coração em busca do Ser ou mergulhe fundo com a respiração sob controle. Assim, habite sempre no Atman.
* Pesquizar no Blog trechos do Viveka Chudamani de Sri Shankara

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Kabir - Onze Poemas


Segure-se no balanço do amor hoje!
Coloque o corpo e a mente entre os braços do Amado,
no êxtase da alegria do amor:
Traga as torrentes lacrimejantes das nuvens chuvosas
para os seus olhos e cubra seu coração com a sombra da escuridão:
Traga a sua face mais perto do ouvido Dele
e fale dos anseios mais profundos do seu coração.
Kabir diz: “Ouça-me, irmão!
Traga a visão do Amado ao seu coração.”
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Oh Narada! Sei que meu Amado não pode estar longe.
Quando Ele desperta, eu desperto;
quando Ele dorme, eu durmo.
Quando as pessoas cantam em Seu louvor,
ali vivo eu;
Quando Ele se move, caminho diante dele,
meu coração anseia por meu Amado.
A peregrinação infinita encontra-se aos pés Dele,
um milhão de devotos estão sentados ali.
Kabir diz:
“O próprio Amante revela a glória do verdadeiro amor.”

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O mês de março aproxima-se:
Ah, quem irá unir-me a meu Amante?
Como poderei encontrar palavras para a beleza de meu Amado?
Pois ele está mesclado em toda a beleza.
Sua cor está em todas as imagens do mundo,
e ela enfeitiça o corpo e a mente.

Aqueles que sabem disso,
sabem o que é este jogo indescritível da Primavera.
Kabir diz:
"Escute, irmão, poucos foram os que descobriram isso."

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Oh Sadhu! minha Terra é uma Terra sem tristezas.
Eu clamo em voz alta para todos,
para o rei e o mendigo, para o imperador e o faquir.

Aqueles que procuram por abrigo no Altíssimo,
venham e estabeleçam-se na minha Terra!
Que os que estão cansados coloquem seus fardos aqui!
Viva aqui, meu irmão,
para que você possa cruzar com facilidade para a outra margem.
É uma Terra sem terra ou céu, sem lua ou estrelas;
Pois apenas o esplendor da Verdade bri
lha na corte de meu Senhor.
Kabir diz: "Ó amado irmão!
Nada é essencial exceto a Verdade".
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Sob o grande guarda-chuva de meu Rei
milhões de sóis, luas e estrelas estão brilhando!
Ele é a Mente dentro de minha mente.
Ele é o Olho dentro de meu olho.

Ah, possam minha mente e meus olhos serem um!
Possa meu amor chegar a meu Amante!
Possa o calor impetuoso de meu coração ser resfriado!

Kabir diz:
"Quando você unir o amor com o Amante,
você terá a perfeição do amor."
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Aprendi o idioma sânscrito,
então deixei todos os homens chamarem-me de sábio:
mas qual é a utilidade disso,
quando estou flutuando à deriva ressecado de sede
e queimando com o calor do desejo?
Por propósito nenhum você ostenta em sua cabeça
essa carga de orgulho e vaidade.

Kabir diz:
"Coloque-a na poeira e vá em frente encontrar o Amado.
Dirija-se a Ele como seu Senhor."
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Existe algum sábio que escutará
a Música solene que surge no céu?
Pois Ele, a Fonte de toda música,
enche todos os vasos por completo
e permanece repleto em Si mesmo.

Aquele que está no corpo está sempre sedento,
pois busca o que está na parte.
Mas sempre ali mais profundo brota o som
"Ele é isto - isto é Ele";
fundindo o amor e renúncia em um.
Kabir diz: "Ó irmão! Essa é a palavra Primal".

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Este dia é mais caro para mim do que todos os outros dias,
pois hoje o Senhor Amado é um convidado em minha casa;
meu quarto e o pátio de meu lar estão lindos com Sua presença.
Meus anseios cantam Seu nome e perdem-se em Sua grande beleza.
Eu lavo Seus pés e olho para Sua Face;
coloco diante Dele como uma oferenda
meu corpo, minha mente e tudo o que tenho.
Que dia de alegria é o dia em que meu Amado,
o Qual é meu tesouro, vem a minha casa!
Todos os males voam para longe de meu coração
quando vejo meu Senhor.
"Meu amor tocou-Lhe;
meu coração está buscando o nome que é a Verdade. "
É assim que canta Kabir, o servo de todos os servos.
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Nuvens adensam-se no céu!
Ouça a voz profunda de seu rugido;

A chuva do leste vem com seu sopro monótono.
Cuide das cercas e fronteiras de seus campos,
para que as chuvas não os inundem.
Prepare o solo da libertação
e deixe as trepadeiras do amor e da renúncia
serem embebidas nesta chuva.

É o agricultor prudente que trará sua colheita para casa.
Ele deve preencher ambos os seus vasos e alimentar os sábios e Santos.
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Sirva seu Deus,
Ele veio para este templo da vida!
Não faça o papel de louco,
pois a noite está chegando rapidamente.
Ele me aguardou por incontáveis eras,
por amor a mim Ele perdeu Seu coração:
Ainda assim eu não conhecia o êxtase que estava tão perto de mim,
pois meu amor ainda não havia despertado.
Mas agora meu Amante tornou conhecido para mim
o significado da nota que assolou meu ouvido:
agora, a minha sorte veio.
Kabîr diz:
"Veja quão grande é a minha sorte!
Recebi o cuidado interminável de meu Amado"!
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Oh meu coração!
Você não conheceu os segredos da cidade do amor;
na ignorância você veio e na ignorância retornou.
Amigo, o que você fez com esta vida?
Carregou na sua cabeça o fardo de pedras pesadas.
Quem irá aliviá-lo para você?
Seu Amigo permanece na outra margem,
mas você não pensa nunca em como irá encontrá-Lo.
O barco está quebrado e você fica sempre sentado
no banco de areia sendo surrado sem propósito pelas ondas.
O servo Kabir está lhe pedindo para considerar:
Quem irá lhe auxiliar no final?
Você está sozinho, não tem companhia.
Você irá sofrer as consequências de seus atos.