sexta-feira, 16 de julho de 2010

Hafiz - Três Poemas


A lembrança mergulha a taça em Seu luminoso poço do céu.



Frequentemente a mente fica atormentada e consegue negar


A beleza toda-penetrante de Deus.



Quando o grande trabalho da lembrança é esquecido.



Acorrentei cada um de meus átomos dançantes


A um assento divino na Taberna do Amado.



O que aprendi estou tão ávido para compartilhar:



Todo mal vai confessar que era apenas uma mentira


Quando os dourados esforços do seu amor


Levarem o vinho precioso até sua boca.



A Lembrança de nosso querido Amigo


Afunda o cálice da alma em Deus.



Veja, meus doces esforços e Sua Graça Sublime


Transformaram agora a Criação em um único dedo de minha mão


E das vastas reservas em meu coração e em minhas palmas



Hafiz oferece Deus


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Foi lindo, foi tão lindo uma noite


Em que todos nós começamos a esperar ouvir


Deus falar.



Nas ondas que fluíam na direção dos campos do moinho,


Das bocas dos ornamentos do céu dependurados


Murmurando em códigos da luz,


De um lampejo das plantas e das crianças brincando com amor radiante.



A existência era tão linda uma noite


Que começamos todos a esperar que nosso Amado falasse



No mais elevado dos sentidos de nossas asas


Que estavam aturdidos tentando compreender o divino


Através desses pequenos filtros orgânicos,


Que estavam aturdidos ao ter um lampejo da realidade


Dos milhares de componentes milagrosos


A cada momento e a cada passo.



Mas não podemos,


Ainda não podemos ouvir Deus sibilando internamente,


Por isso choramos.


E iremos chorar todos de alguma forma,

até que consigamos.


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Há tantas posições de Amor:



Cada curva num galho,


As milhares de maneiras diferentes que


Seus olhos podem nos abraçar,


As infinitas formas que sua mente pode desenhar,


A orquestra de essências da primavera,


As correntes de luz em combustão


Como lábios apaixonados,


O rodar da saia da Existência


Cujas pregas contém outros mundos,



Cada suspiro seu que vai de encontro ao


Inconcebível Corpo Onipresente Dele.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

P. D. Ouspensky - O Raio da Criação / A Lei de Três / A Lei de Sete

Falei sobre o estudo do homem e o estudo do mundo em que vive o homem, em primeiro lugar, a fim de encontrar o lugar do homem no universo e, em segundo, para tentar entender por que o homem é o que ele é e por que ele não pode ser diferente, porque ele está nessas circunstâncias. Não podemos encontrar respostas para todas essas questões estudando o homem separado do universo, temos que estudar o homem em paralelo com o universo. Num certo sentido, o homem é análogo ao universo. Se tomarmos o universo como um todo e o homem em relação a ele, então certas leis compreenderemos melhor ao estudar o homem e algumas outras leis compreenderemos melhor ao estudar o universo. Em relação ao estudo do universo, você deve antes de tudo compreender o método que usamos: estudamos o universo baseado no princípio de escala num sentido muito simples. Por exemplo, sua própria casa onde você vive, você a conhece numa escala proporcional ao seu corpo, mas a cidade em que você vive você não conhece na mesma escala, você a conhece numa escala muito menor, conhece apenas as partes dela que você precisa conhecer, lugares onde você tem de ir. Algumas partes você conhece bem, outras não tão bem, e, provavelmente, não há nenhuma parte que você conheça tão bem como a sua casa. E você conhece a Inglaterra numa escala ainda menor. O mesmo princípio é usado em geografia e astronomia. Por exemplo, estudamos a terra numa escala porque vivemos na terra, mas todos os outros planetas do Sistema Solar tomamos juntos, porque não precisamos estudá-los separadamente. De uma maneira ou de outra eles afetam a nossa vida, mas esses são apenas os planetas do Sistema Solar que conhecemos. Planetas de outros sistemas que nós não estudamos, nós consideramos apenas os sóis com tudo o que está incluído na influência desses sóis. Mais tarde você vai se encontrar exemplos desse método como sendo diferente de outros métodos. Normalmente, as pessoas não pensam sobre isso, estudam o universo inteiramente aparte do estudo do homem. Dessa forma, elas acumulam uma certa quantidade de conhecimento, mas é conhecimento desconexo.
Segundo este método, diferentemente dos métodos usuais, estudamos o homem como parte da vida orgânica na terra. A vida orgânica é uma espécie de película sensível que cobre a Terra e serve a um propósito definido. Em geral, podemos dizer que serve o propósito da comunicação, porque sem ela, o sol, os planetas e a lua não poderiam se comunicar com a terra suficientemente, e sem a ajuda da vida orgânica muitas coisas seriam perdidas. A vida orgânica captura as vibrações vindas do exterior e as transfere para a terra. Dessa forma, os homens, os animais, as plantas, cada um deles desempenha seu papel.
Estamos aqui na terra. A vida orgânica, da qual fazemos parte, está sob certas influências de todos os planetas, também estamos sob certas influências do sol, estamos sujeitos a certas influências de todos os sóis e, talvez, sob influências de todos os mundos. É claro, as influências de todos os mundos para o homem individual é muito pequena, mas sabemos que influências vêm do sol. Não sabemos muito sobre as influências da lua, mas ela desempenha um papel muito importante na vida orgânica, e sem entender como tudo está conectado e como a vida orgânica do homem sobre a terra está conectada com os planetas e o sol, não podemos compreender a posição do homem e sua vida presente como ela é. Por exemplo, é impossível compreender uma expressão que é usada em relação ao homem sem entender esse diagrama, a expressão que o homem vive em um lugar muito ruim do universo e que muitas coisas que consideramos injustas, contra as quais lutamos ou tentamos lutar, são realmente o resultado dessa posição da vida orgânica na terra. Se estivéssemos na lua seria ainda pior, não haveria possibilidade de desenvolvimento. Na terra há uma possibilidade de desenvolvimento, isso significa que podemos desenvolver certas partes de nós.
Muito pouco das influências planetárias vem a nós. Geralmente as influências planetárias são apenas sentidas pelas massas de pessoas, assim, as influências planetárias são responsáveis por guerras, revoluções e coisas desse tipo, mas o homem individual está muito pouco sob as influências planetárias, porque a parte que pode ser afetada pelas influências planetárias no homem é pouco desenvolvida. Essa parte não desenvolvida é a essência.
Até certo ponto o homem também está sob a influência do sol e ele pode estar sob influências muito mais elevadas se ele desenvolver os centros superiores* e se tornar conectado a eles. Assim, o desenvolvimento significa passar de um tipo de influências para outro tipo de influências. Atualmente, estamos mais particularmente sob a influência da lua. Podemos vir a estar sob a influência dos planetas, do sol e outras influências se nos desenvolvermos. Temos de nos tornar mais e mais conscientes para ficarmos sob essas influências.
É preciso encontrar analogias na vida cotidiana. Em condições ordinárias há uma grande quantidade de influências maiores e menores, algumas vezes a pessoa está mais livre, outras vezes menos livre. Ao utilizarmos o princípio de escala, o que está mais perto de nós é estudado numa escala maior, o que está mais longe de nós é estudado numa escala menor.
Já a definição do princípio de relatividade em um sentido psicológico é: a lei de acordo com a qual cada fase da experiência é influenciada por todos as fases dela. Assim, cada fase da existência da terra é influenciada por todas as experiências anteriores no Raio da Criação. O homem vive sob um grande número de leis: físicas, fisiológicas, biológicas, leis criadas pelo homem, etc, até chegarmos às leis da vida pessoal e, finalmente, ao 'eu' imaginário que é a lei mais importante que governa a nossa vida e nos faz viver na não-existente sétima dimensão. Numerosas forças atuam sobre nós a qualquer momento. Agora as pessoas são principalmente controladas pela imaginação. Nós nos imaginamos diferentes do que somos e isso cria ilusões. Mas existem leis necessárias. Estamos limitados a certos alimentos e certo ar, a uma certa temperatura, etc. Somos tão condicionados pelas influências que temos muito pouca possibilidade de liberdade. É necessário mudar a nossa atitude interior.

Devemos olhar para o Raio de Criação de muitos lados diferentes. Somente quando essa idéia for entendida será possível resolver as coisas. A idéia do Raio da Criação não usa fatos novos, apenas os dispõe de forma diferente. Certos fatos como o fato de que vivemos na terra, que terra é um dos planetas, que os planetas fazem parte do Sistema Solar e coisas como essas que são óbvias, mas, quando pensamos sobre o mundo em que vivemos, ordinariamente não as colocamos na mesma posição. No entanto, a disposição é necessária para a solução de todo problema comum, na aritmética ordinária, por exemplo, você tem que dispor seu material de uma determinada maneira e a maneira de dispor esse material inclui uma certa compreensão da maneira de resolver este problema. Isso se chama - enunciado do problema, assim, o Raio da Criação é também uma espécie de enunciação do problema de como definir o lugar do homem no mundo. Isso não apenas significa o lugar exato do homem, mas também a relação deste lugar com o maior número de pontos de referência possível. Dessa forma, encontramos o lugar do homem na terra e o estabelecemos, e então o lugar da lua, e, em seguida, dos planetas, do sol e assim por diante. Dessa maneira podemos nos compreender uns aos outros quando falamos sobre o mundo.
A dificuldade aparecerá talvez apenas com relação ao Absoluto, mas começando com todos os mundos não pode haver nenhuma dúvida sobre os fatos. O Raio de Criação deve ser entendido como um instrumento para um pensar novo. O pensamento velho é o nº 1, é principalmente imitação; o nº 2 - é emocional, baseia-se em simpatias e antipatias, o nº 3 – é o pensar lógico, não pode ser aplicado a coisas maiores. O pensar nº. 4 é o início de um pensamento que, pouco a pouco, ordena todas as contradições. O Raio de Criação é um método que elimina as contradições.
Na vida comum uma idéia sempre contradiz a outra. Há sempre duas teorias sobre tudo. Como por exemplo: o universo surgiu ou foi criado? Foi criado de acordo com um plano ou é um caos com ilhas organizadas? Os eventos são acidentais ou predestinados? Em um nível lógico a pessoa aceita uma teoria em um sentido, uma outra teoria num outro sentido, mas não se pode dizer qual é verdadeira. Todas são verdadeiras, mas apenas num certo sentido. A mente humana não pode inventar nada que seja absolutamente falso, há sempre alguma semelhança com a verdade em tudo o que ela inventa. Como por exemplo ao inventar um novo animal. Todas essas teorias: vontade / mecanicidade; acidente / predestinação; evolução / criação por vontade, estão todas corretas, cada uma em seu próprio lugar. O Raio da Criação mostra onde e como cada uma delas está correta. Em primeiro lugar, o Raio da Criação é estudado do ponto de vista da linguagem, mas muitas outras idéias também estão conectadas com o Raio de Criação.

O Raio da Criação pode ser considerado como uma oitava descendente, tomando-a como uma sucessão de eventos. O intervalo Dó-Si é preenchido pela Vontade do Absoluto. Quanto ao intervalo de Fá-Mi, a natureza tem fornecido aqui um instrumento que dá um choque adicional entre os planetas e a terra. Sem esse choque certas vibrações não passariam abaixo dos planetas, elas seriam refletidas pela terra. Para esse fim, uma máquina especial de caráter cósmico foi criada.
Essa máquina é a vida orgânica na terra. A vida orgânica desempenha um papel muito importante no Raio da Criação, ela garante a transmissão de energia e torna possível o crescimento do Raio da Criação. O ponto de crescimento do Raio é a lua. A idéia é que a lua se torna como a terra e a terra se torna como o sol; então, outra lua vai aparecer e assim isso continuará até um certo ponto. Mas isso está um pouco além de nós. A vida orgânica é uma espécie de aparelho receptor para receber influências planetárias vindas dos planetas do Sistema Solar. Ao mesmo tempo, fazendo esse trabalho, serve como um meio de comunicação entre a Terra e os planetas, a vida orgânica alimenta a lua. Tudo o que vive serve aos propósitos da terra, tudo o que morre alimenta a lua. Isso soa estranho a princípio, mas quando entendermos as leis que regem a vida orgânica, as leis sob as quais ela está baseada, vamos entender que toda a vida orgânica está baseada em uma lei muito dura, a lei que uma classe come a outra classe. É um arranjo muito cruel, mas torna a vida biológica não apenas auto-suficiente, mas permite-lhe alimentar a lua e servir para a transmissão de energias. Desta forma, ela serve aos propósitos dos mundos maiores, dos planetas, da terra, e do fim do Raio da Criação, a lua. Assim, a vida orgânica é útil para muitas finalidades.
Toda vida orgânica na terra desempenha um certo papel cósmico e tem um propósito cósmico. A vida orgânica está vinculada ao seu lugar. O homem, sendo tão pequeno, está menos vinculado, é mais livre e pode escapar. Se ele não escapar, enquanto vive, ele é alimento para a terra, e quando ele morre, é alimento para a lua. A lua alimenta-se da vida orgânica, quando ela se desintegra a lua suga tudo o que é importante para ela. Dessa forma a lua cresce. A vida orgânica é organizada em princípios severos: ela come a si mesma. E a lua come tudo. Desta forma, o Raio da Criação mostra como tudo está interconectado, tudo existe não para si mas para diversos propósitos diferentes. Há muitos outros lados da vida orgânica. A vida orgânica começa no Sol (a oitava, sol-lua). O Mi da segunda oitava entra em Mi (terra). Podemos ver como a vida orgânica entra na terra e desempenha um papel importante na estrutura da superfície da terra. A lua tira algo da vida orgânica que constitui a energia da vida: alguma energia elétrica, magnética, química, uma espécie de energia radiante que é chamada de a alma das coisas.
A questão surge: como podemos provar isso? Poderemos encontrar algumas provas mais tarde, por analogia, ao estudar o homem, porque a idéia é que o homem é construído sobre os mesmos princípios que o Raio da Criação. Há muitas coisas que não podemos provar de forma objetiva, mas talvez possamos encontrar provas estudando a nós mesmos.

Certa vez uma pergunta foi feita sobre porque a Vontade do Absoluto não se manifesta em nosso mundo. A Lei do Absoluto é a Sua Vontade. Esse tipo de disposição do material mostra que a Vontade do Absoluto, diferentemente das leis mecânicas deste mundo, não pode ser manifestada neste mundo, porque seria necessário para ela destruir todos os outros mundos que estão entre eles. Tente pensar sobre isso, é muito importante. Até uma certa medida, podemos compreender essa idéia ao encontrar em nós mesmos momentos de "vontade" e momentos de continuação mecânica. Eu quero dizer "vontade" no sentido em que a palavra é usada na vida cotidiana, em conversas comuns, não do ponto de vista da vontade criadora. Em certos momentos na vida você tem que fazer esforços e depois disso as coisas simplesmente acontecem, elas prosseguem, uma após a outra. Por exemplo, você está dormindo e não quer levantar-se, em seguida, você faz o esforço para se levantar, depois, por um longo tempo, as coisas acontecem sem nenhum esforço, seguem naturalmente. Ou, vamos supor que você tem que escrever uma carta e faz um esforço, pega a caneta. Se você olhar a partir desse ponto de vista, você verá que a Vontade do Absoluto não pode vir através da mecanicidade, mas ela inicia o rolar da bola.
O Raio da Criação dá a possibilidade de estudar alguns princípios muito importantes como o princípio da relatividade e o princípio de escala, sem os quais é impossível compreender o mundo. O princípio de escala é uma coisa simples. A idéia é que podemos saber muito mais do que normalmente sabemos se estudarmos as coisas comensuráveis com relação a nós e que têm relação conosco de alguma forma, e as coisas que estão mais distantes de nós e não tem nenhuma relação definida com nossa vida, de uma forma mais abstrata, em menor escala. Desta forma, podemos obter toda a quantidade necessária de conhecimento sem aprender muito, podemos saber tudo o que é necessário e esse conhecimento vai incluir muito poucas coisas inúteis. Somente desta forma você obtém a quantidade necessária de conhecimento, porque se aprender tudo indiscriminadamente, você não saberá as coisas necessárias.
O princípio da relatividade entra quando começamos a compreender que vivemos sob diferentes leis. Não estamos sob um conjunto de leis, mas sob quantidades de leis diferentes.
Um tempo atrás foi colocada a pergunta: "Quais são as 48 leis?" Se tomarmos 48 leis, temos de compreender que cada uma delas é um grande sistema de leis. Um deles são as leis físicas que existem na terra, outro, por exemplo, leis biológicas, e assim por diante. Nós sabemos algo sobre as leis físicas e biológicas, mas existem muitas leis sobre as quais não sabemos nada. Por exemplo, existem as leis cósmicas que não pertencem às três leis da própria Terra, estão relacionadas com alguma esfera maior e governam certas coisas que do nosso ponto de vista parecem triviais e insignificantes. Por exemplo, existe uma lei definida que cada classe de seres vivos só pode comer um certo tipo de alimento (de uma certa densidade até uma certa densidade). O homem pode comer coisas que estão entre determinadas densidades, entre determinadas qualidades e ele não pode mudar isso, assim como ele não pode mudar o ar que respira ou a temperatura na qual ele pode existir. Há muitas coisas como essas, são todas leis sob as quais o homem vive. Mas há muitas coisas a esse respeito não podemos saber, muitas coisas que não sabemos sobre as condições em que vivemos.


Segundo a Lei de Três, nenhum evento pode acontecer sem a concordância de três forças. Existem três ordens de tríades: 1-2-3 / 2-1-3 / 3-1-2 / 1-3-2 / 2-3-1 / 3-2-1
A Lei de Três deve ser entendida de uma forma mais complicada do que parece à primeira vista. É bem verdade que existem três forças. Deve ser entendido que elas não diferem uma da outra como atividade e passividade diferem em nossa idéia comum desses termos. Ativa e passiva são ambas ativas, uma força não pode ser passiva, são todas ativas. Mas há uma certa diferença na sua atividade em um determinado momento e essa diferença cria toda a gama de variedade no mundo. Ao mesmo tempo, cada força, que é agora ativa, no momento seguinte, em outra tríade, pode tornar-se passiva, ou neutralizante, e essa mudança de forças, onde uma torna-se outra, cria todos os fenômenos que observamos. Mas mesmo isso não é suficiente. É necessário compreender que existem combinações definidas de forças. Todos os fenômenos que observamos, nossas próprias ações, as ações das outras pessoas, tudo o que observamos pode ser dividido em classes definidas. Esses diferentes tipos de acontecimentos não têm nada em comum, eles têm resultados diferentes, precisam de esforços diferentes, e assim por diante. Essas divisões são muito difíceis porque as classes são muito grandes, ao mesmo tempo, não vemos a terceira força, vemos apenas os resultados.
Podemos distinguir dois tipos de ação, se algo for dito sobre elas. Por exemplo, em primeiro lugar, algum tipo de ação violenta, como a queima de uma casa com um fósforo. Outra atividade é a construção de uma casa. A ação com a qual a casa é queimada não é suficiente para construir uma casa. O terceiro tipo é mais difícil de ver. As ações pertencentes ao primeiro tipo são as ações violentas ou acontecimentos naturais. Quase todos os eventos biológicos pertencem ao primeiro tipo. Assim, a primeira tríade não significa apenas violência, há muitas coisas simples da vida que pertencem a essa categoria, tais como nascimento, morte e coisas assim. A maior parte da atividade humana pertence ao segundo tipo, embora muito dela pertença ao primeiro tipo. O segundo tipo sempre significa esforço ou sacrifício.
O primeiro tipo são ou fenômenos naturais, ou violência. Quando dizemos que as coisas acontecem naturalmente, isso significa que acontecem pela primeira tríade. Houve uma pergunta uma vez: "Se as coisas acontecem naturalmente, se estamos naturalmente sob 48 leis, devemos tentar mudar?” Mas toda a nossa vida consciente, intencional, significa luta contra o natural. Se quisermos apenas seguir o que é natural nunca passaremos deste ponto morto onde estamos.
Talvez alguém possa encontrar um exemplo do terceiro tipo. No Novo Testamento e provavelmente em outros escritos, talvez você possa encontrar referências do terceiro tipo de tríade. Por exemplo: "Tereis misericórdia e não sacrifício” - isso se refere ao terceiro tipo, essa seria uma ação pela terceira tríade (mas a palavra 'misericórdia' não está correta, ela tem um sentido completamente diferente).
A tríades que começam com a terceira força nós não podemos distinguir. Os fenômenos da vida como o nascimento, a morte, etc seguem na maior parte pela primeira tríade. Determinados fenômenos em nosso organismo acontecem pela segunda tríade. Nós devemos entender que as coisas podem ser de tipos e origens muito diferentes: como construir e queimar - não é a mesma ação. Atualmente, podemos estudar apenas duas tríades. Às vezes, sem saber, podemos usar a terceira tríade. Quando chegarmos a um estado em que pudermos usá-la conscientemente, seremos capazes de "fazer".
Pergunta: É melhor estar sob menos influências?
Sr. Ouspensky: Ou pior. Energia, vontade, entendimento, consciência podem ser criados somente através de esforço.
Pode-se observar as leis ao considerarmos como exemplo homem, animal, vegetal e mineral. O homem é mais livre. Atualmente, é apenas uma liberdade imaginária, mas ele pode adquirir liberdade real.
P: Você usou a palavra "esforço" em conexão com o segundo tipo de tríade?
Sr. O: Sim, esforço e sacrifício. Em certos casos, como mais tarde você vai ver no corpo humano, o trabalho prossegue sem esforço visível, porque é uma matéria e maquinário altamente organizados. Mas mesmo aí esforço é necessário em certos momentos.
P: O senhor poderia dar um exemplo de pessoas que tomam uma oitava descendente por ascendente?
Sr. O: Suponha que encontramos selvagens, pessoas selvagens, pensamos que são primitivos, e desses povos primitivos começa a se desenvolver civilização e cultura. Mas não percebemos que na maioria dos casos, eles são descendentes de pessoas cultas. Muitas vezes tomamos degeneração por evolução.
P: A escala ascendente sempre significa melhoria?
Sr. O: Mais uma vez, pode ser ou não pode. A idéia de evoluções mecânicas é o pior tipo de especulação, nós nunca tivemos quaisquer fatos para defendê-la, ninguém nunca viu um único pequeno exemplo de uma tal evolução. Isso significaria a formação de unidades mais complexas a partir de menos complexas, só por si. Seria o mesmo que esperar uma casa crescer, por si só, a partir de uma pilha de tijolos.
P: Qual é a interação entre a terra e a lua?
Sr. O: A ação da lua em nossa vida é puramente mecânica. Seria mais simples de entender se você assumir que a lua age por si mesma, por puro peso, em nossa vida, e recebe energias mais altas, matérias mais elevadas, que pouco a pouco tornam-a viva. Se lembrarmos os quatro tipos de energias: mecânica, vida, psíquica e consciente, então isso significa que a lua atua por energia mecânica, simplesmente pelo seu peso, como um eletro-ímã.
P: A Lei de Três trabalha em eventos de sucessão?
Sr. O: Sim, o tempo todo, mas as forças mudam o seu valor, o que era ativo torna-se passivo e o que era passivo torna-se neutralizante.
P: Se considerarmos os eventos, poderemos dizer que eles são de um tipo diferente de acordo com a força que opera por meio deles?
Sr. O: Sim, sem dúvida, segundo qual tríade opera, os eventos serão bastante diferentes. É interessante, você sabe, pois todos sabemos, por exemplo, como a mesma frase, as mesmas palavras, podem ter um significado bastante diferente de acordo com quem diz. Se uma pessoa disser, terá um significado, mas se outra pessoa disser, isso terá um significado diferente. Ou até mesmo a mesma pessoa pode dizê-la em momentos diferentes e o significado será diferente.
Tudo isso só parece complicado, mas logo você vai ver que é muito simples. Não há novas informações em todas estas coisas, ou muito pouco, mas com a ajuda dessa linguagem seremos capazes de falar de coisas novas, sem essa linguagem é quase impossível, porque nossas palavras são vagas demais, não são definidas o suficiente.

A Lei de Três significa que existem três forças originais no mundo e que cada evento, cada fenômeno é o resultado de três forças reunidas. Quando as três forças não se encontram, não há nenhum evento, nada acontece. As três forças são chamadas de positiva, negativa e neutralizante. A positiva e a negativa podemos observar em muitas manifestações diferentes. A força neutralizante, não estamos acostumados a ver, embora a sua presença seja muito clara em fenômenos fisiológicos e psicológicos. Se sabemos sobre a existência necessária dessa força, após observação, começamos a percebê-la, mas quando não sabemos não nos damos conta que esse terceiro elemento está lá. É um assunto muito grande, por isso é suficiente se você se lembrar disso e tentar encontrar três forças em cada ação. Às vezes você pode ter sucesso. Isso nos refuta à filosofia indiana na verdade, só que nela isso está tão misturado com comentários que é difícil encontrar sua forma original.

Agora temos de tentar compreender a segunda grande lei cósmica, a Lei de Sete. As tríades referem a eventos, cada evento separado, seja grande ou pequeno, significa alguma reunião das três forças. Ao falar da Lei de Três, falamos sobre a origem dos acontecimentos, agora vamos falar sobre como eles desenvolvem-se um do outro. Uma sucessão de eventos procede de acordo com a Lei de Sete, a Lei das Oitavas.
Nós tomamos o mundo como um mundo de vibrações. De uma maneira bastante elementar, notaremos ao observarmos essas vibrações, que elas não continuam da mesma forma como começaram. Ou as vibrações aumentam ou diminuem, há uma certa irregularidade na sua diminuição ou aumento. Se tomarmos o aumento das vibrações, observaremos que em um período entre um certo número de vibrações e o dobro desse número, há dois lugares ou momentos em que as vibrações desaceleram, e então começam de novo. Em seguida, verificamos que este aumento prossegue com uma certa irregularidade medida. Essa irregularidade medida foi calculada e colocada em uma certa fórmula. Essa fórmula que expressa uma lei cósmica, foi aplicada mais tarde à música na forma de escala maior. Mas, primeiro, existia como uma fórmula de uma determinada lei cósmica.
Todas as coisas no mundo acontecem de acordo com esse esquema. Há um desvio da linha de desenvolvimento, acontece com todas as nossas atividades quando não conhecemos essa lei e não sabemos como usá-la. Mais tarde você vai ver que existem muitas oitavas na nossa máquina. Nós chegamos à conclusão de que não usamos todas as nossas forças. Por que? Num certo ponto da oitava, há um intervalo em que as forças não passam. Se quisermos estar conscientes, temos de encontrar esse lugar e fazer um esforço especial. Como resultado, teremos atividade interna em vez de abrandamento e seguiremos com mais força ainda. Então, temos de encontrar um segundo lugar. Se dermos dois choques em nosso organismo, começamos a desenvolver. O primeiro choque é a lembrança de si.
No estudo dos eventos, se falamos de cada evento separadamente, temos que entender as tríades, a qual tríade cada evento pertence e assim por diante. Se falarmos sobre a sucessão dos eventos, temos de conhecer as oitavas descendentes e ascendentes. Sem saber se é ascendente ou descendente, é impossível entendê-las, e isso é o que acontece no pensamento comum, porque as pessoas estudam as oitavas ascendentes e tomam-nas como descendentes e vice-versa.

Então, se imaginarmos o mundo como um mundo de vibrações indo em direções diferentes, energias diferentes, todas as vibrações indo para cima ou para baixo. Suponha que nós tomamos esta linha aqui como vibrações crescentes de 500-1000:

Na distância entre os dois pontos podemos observar dois fenômenos muito interessantes. Embora as vibrações cresçam e aumentem em freqüência, elas não aumentam regularmente. Elas aumentam por um tempo, então diminuem, em seguida, aumentam novamente e diminuem novamente. Portanto, há dois lugares onde elas diminuem. Essa é a Lei de Sete. Em certo período, foi criada uma fórmula dessa lei, que é uma representação de uma lei cósmica. Foi mostrada como uma escala musical, onde dois semitons faltando mostram exatamente essa desaceleração em dois intervalos entre as sete notas. É mais fácil observar essa Lei de Sete nas ações humanas. Você pode ver que quando as pessoas começam a fazer algo, a estudar, a trabalhar, depois de algum tempo, sem qualquer razão aparente, seus esforços diminuem, o trabalho desacelera e se não houver algum esforço especial em um dado momento ele muda sua direção. Há uma mudança pequena, mas real na força interior. Então, depois de algum tempo, novamente, há um afrouxamento e, novamente, se não houver um esforço especial, uma mudança de direção. Ela pode mudar completamente e ir em uma direção totalmente diferente, ainda que pareça ser a mesma coisa. Há muitas fases da atividade humana que respondem exatamente a essa descrição. Elas começam de uma forma e sem perceber vão para uma direção exatamente oposta. Numa disposição cósmica podemos tomar essa lei assim:

Esta é uma oitava descendente. O intervalo entre Dó e Si é coberto em uma forma especial que não é necessário entrar em detalhes neste esquema. A vida orgânica, a parte em que vivemos, ocupa o segundo intervalo. Então você vê que se esses intervalos são conhecidos e se um método de criar algum esforço ou arranjo especial for utilizado nesses locais, é possível evitar essas quebras na oitava. Tudo acontece em oitavas. Nenhuma vibração, movimento ou atividade acorre de outra forma. As escalas variam de modo que não podemos segui-las, mas podemos ver o resultado delas, o resultado dessa Lei das Oitavas. Mesmo o trabalho físico interno do organismo está sob essa lei. Com certos tipos de esforço podemos produzir esses semitons que faltam e dessa forma mudar o trabalho da nossa máquina. Por exemplo, você se lembra que falamos sobre a lembrança de si, o esforço para se estar consciente, de lembrar de si mesmo? Mais tarde eu vou explicar-lhes como esse esforço para lembrar de si muda muitas coisas no trabalho químico do organismo. Falemos agora mais sobre a matéria a partir da qual o universo é feito. No início, tomamos a definição comum de energia e matéria. Um certo tipo de energia opera num determinado tipo de matéria. Qualquer tipo de matéria se torna um pouco diferente quando a força ativa trabalha através dela, quero dizer, torna-se diferente da mesma matéria que esteja conduzindo força passiva ou neutralizante. Pegue o ferro: quando a força ativa trabalha através ele, é um tipo de ferro, quando a força passiva funciona através dele, o ferro é diferente. Se o mesmo ferro é tomado e nenhuma força estiver operando através dele, é uma quarta espécie de ferro. Todos esses quatro tipos de ferro, quatro tipos de matéria, têm nomes diferentes, eles são chamados de carbono, oxigênio, nitrogênio ou hidrogênio, de acordo com qual força opera através dela. Qualquer matéria que não tem relação com uma tríade pode ser chamada de hidrogênio, em outras palavras, é matéria que não tem nenhuma relação com qualquer outra coisa. Mas em uma tríade qualquer matéria pode ser chamada de carbono, oxigênio ou nitrogênio.
Vou mostrar-lhes uma determinada tabela de Hidrogênios onde será possível, apenas através de figuras, ter definições muito exatas de todas as matérias de acordo com as suas funções em relação ao homem.


Então, se a força ativa opera através da matéria, neste sistema ela é chamada de carbono, se a força passiva trabalha através dela, é chamada de oxigênio, se a força neutralizante trabalha através dela é chamada de nitrogênio e se for tomada sem relação com qualquer força, é chamada de hidrogênio. É necessário lembrar que cada matéria, cada elemento ou composto, pode ser chamado de hidrogênio. Vamos falar separadamente sobre as forças (primeira, segunda e terceira) e as matérias (carbono, oxigênio, nitrogênio e hidrogênio). É necessário lembrar que cada tipo de matéria (madeira, ferro, etc) pode ser de carbono, oxigênio, etc. Agora tomemos o Raio de Criação em três oitavas ou radiações:
Absoluto-sol; terra-sol; terra-lua. Cada nota apresenta uma determinada camada da matéria. Conforme desce de escala, torna-se mais e mais densa. A matéria mais leve está no nível do Dó. As vibrações são também mais rápidas no nível do Dó. Em seguida tornam-se mais lentas.
A primeira tríade da tabela é: -C- 1 1 1 Si -O- 2 3 2 -N- 3 2 3 > H6
As forças se dispõe na relação: 1-2-3 e trabalham no carbono, oxigênio e nitrogênio. Mas o nitrogênio, pela densidade, está entre o carbono e o oxigênio, de modo que quando o triângulo começa a se formar é preciso colocá-las na ordem 1-3-2. Quando as matérias se dispõe nessa ordem, um evento acontece. O total será - H6. A partir da primeira tríade surge uma segunda tríade. A segunda tríade surge da força neutralizante que se torna ativa. Portanto elas devem se colocar novamente na ordem 1-2-3. Essa mudança de local da matéria na tríade é o que produz ação. Esses hidrogênios representam todas as camadas da matéria em relação à máquina humana. A escala é maior do que na química comum e muitas matérias diferentes entram em um hidrogênio. Essa terceira escala nos servirá para o estudo da máquina humana.

A máquina humana deve ser considerada como uma fábrica de produtos químicos de três andares que recebe matérias-primas e as transforma em matéria mais fina. No estado do homem nº 1, 2 e 3*, a fábrica trabalha de forma não econômica e gasta em si mesma tudo o que ela produz. A partir das matérias-primas recebidas em vinte e quatro horas ela produz combustível para seus diferentes motores. Mas em outras vinte e quatro horas tudo o que ela produz é gasto.

A fábrica recebe três tipos de matéria-prima: os alimentos (incluindo a água), o ar e as impressões. As impressões também são matéria ou energia. Com cada impressão, por menor que seja, uma certa quantidade de energia entra em nós. A partir da combinação dos três alimentos a fábrica produz tudo o que é necessário para seu trabalho e desenvolvimento. Mas como se encontra atualmente, tudo é gasto e não resta nada para o desenvolvimento. Se, no entanto, através de treinamento e método, uma certa economia é exercida, algumas determinadas matérias são armazenadas na fábrica. Quando uma quantidade suficiente dessas matérias se acumula, outros processos se iniciam, o que significa desenvolvimento. Para isso, em primeiro lugar, a economia é necessária, e, em segundo, o aumento da produção. Com alguns esforços no momento correto é possível aumentar a produção. Mas o esforço deve ser permanente.

No estudo das três oitavas no organismo humano, temos que contar com três intervalos. A natureza forneceu um choque para apenas um intervalo, mas não para os outros dois. Para os outros dois temos de produzir o choque necessário por nossos próprios esforços. É necessário compreender o significado desses hidrogênios, saber o que eles são. O alimento é H768. Uma grande variedade de matérias está na forma de H768. E ainda assi, na realidade, o leque de matérias que podem servir como alimento para o homem é muito limitado. O H384 é a água, os líquidos. O H192 é o ar que o homem respira. O H96 é muitas coisas. Por exemplo, é o sangue arterial, o ar muito quente ou ar muito rarefeito, etc. Os H48, H24, H12 e H6 são todos impressões.

Mas as impressões acima de H48 não são uma regra e sim uma exceção. O homem nº 1, 2, 3 tem impressões 48 e nem mesmo faz muito uso delas, como veremos. As impressões entram como 48 e param porque neste lugar não há carbono 12 correspondente. O Carbono 12 pode ser trazido para cá através de um esforço especial. Se conhecermos esse momento e pudermos fazer esse esforço, ele trará carbono 12 a este lugar e a oitava poderá desenvolver-se adiante. Ao mesmo tempo, ele toca o Mi 48 da oitava do ar e permite que ela se desenvolva fornecendo o choque necessário. Sem esse esforço apenas uma quantidade infinitesimal do terceiro alimento (Dó 48) passa adiante. É o suficiente para a vida mas não é o suficiente para o desenvolvimento. Assim, podemos dizer que o Dó 48 não se desenvolve além disso. O segundo choque traz as três oitavas para Si 12, Mi 12 e Sol 12.
Si 12 e Mi 12 não podem se desenvolver adiante. Sol 12 desenvolve-se em La 6, mas é um Lá muito pequeno porque vem do ar. Mas Mi e Si, que são muito poderosos, param aqui. Um esforço especial é necessário para transformá-los em Fá 6 e Dó 6. A natureza desses esforços nós começamos a estudar desde o primeiro dia. O primeiro é a lembrança de si e a auto-observação. O segundo é a luta contra as emoções negativas. Essa é a nossa alquimia interior, a transmutação de metais inferiores em metais preciosos. Mas toda essa alquimia está dentro de nós, não fora. Até Fá 96 e Ré 96 o diagrama pode ser acompanhado psicologicamente.
A fisiologia ordinária mostra ainda mais detalhes do que esse diagrama. O alimento que entra na boca encontra-se com a saliva e depois no estômago com os sucos gástricos, então no intestino com os sucos intestinal. Em seguida, ele é absorvido no sangue venoso, é transportado para o fígado, atravessa do coração para os pulmões, é oxidado lá e se torna sangue arterial H96. O estudo dos hidrogênios e sua relação uns com os outros também ajuda a compreender os centros e suas velocidades diferentes. O centro intelectual trabalha com H48, o centro motor com H24, o centro emocional deveria trabalhar com H12, mas ele nunca recebe o combustível correto e nunca funciona como deveria. Se pudéssemos fazê-lo trabalhar mais rápido, isso significaria uma grande diferença nas percepções, etc. Então, até 96, podemos acompanhar o processo e descrevê-lo em detalhe. Além de 96, não podemos acompanhar o processo fisiologicamente. Após 96, podemos estudar o quadro de nutrição apenas psicologicamente.
Psicologicamente podemos estabelecer a diferença entre 48 e 24, 24 e 12. Mas isso precisa de observação. Quando pudermos distinguir a diferença entre certas percepções e sentimentos seremos capazes de compreender qual hidrogênio está operando. Nosso objetivo é voltar de novo para a psicologia, mas com melhor material e com armas melhores de modo a sermos capazes de estabelecer a posição de cada fenômeno em relação a outros fenômenos.


*Para a melhor compreensão de alguns termos utilizados por Ouspensky é recomendada a leitura do livro: "A Pscologia da Evolução Possível ao Homem", que encontra-se no início do blog.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Rodney Collin - A Lei de Três

De acordo com vários sistemas antigos de filosofia, todo fenômeno que existe, a partir dos deuses e em ordem decrescente, surge da interação de três forças. Uma delas é descrita como de natureza ativa ou criativa, a segunda como passiva ou material e a terceira como mediadora ou formadora.
Na filosofia cristã, essas três forças estão expressas pelas três pessoas da Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo -, que criam o universo. Na alquimia medieval, todas as coisas eram vistas como mesclas variantes do sal, do enxofre e do mercúrio. No Sankhya indiano, um papel análogo é conferido aos três gunas - Rajas, Tamas e Satva. No hinduísmo, as forças são outra vez personificadas como Shiva, Parvati e Vishnu e, na China, elas adquiriram um aspecto metafísico na interação Yin e Yang supervisionados pelo Tao.
Em todos esses sistemas, a natureza das três forças era universal, isto é, considerava-se que elas penetravam tudo, em todo lugar e em cada escala, do mundo dos micróbios ao mundo das estrelas e do efeito da luz ao do pensamento ou respiração. Na filosofia moderna, não existe tal idéia geral de três forças, ainda que alguns exemplos sejam reconhecidos, como o próton, o neutron e o elétron da física atômica ou os reatores, reagentes e catalisadores de vários processos químicos.
Se considerarmos as três forças do ponto de vista da física, teremos de dizer que a força ativa é a de longitude de onda mais curta e vibração mais rápida e a força passiva a de longitude de onda mais extensa e vibração média. A oitava de cores, por exemplo, estende-se do azul (com uma longitude de onda ao redor de 4000 unidades angström) ao vermelho (cerca de 8000). Mas, como sabemos, as possibilidades do vermelho e do azul são muito limitadas e toda riqueza infinita de cores que vemos depende da presença de uma cor intermediária: o amarelo, bastante diferente e a meio caminho (cerca de 5750 unidades angström) entre as outras duas cores. Esta é a base dos três processos de cor em impressão. No que diz respeito ao fenômeno da cor, podemos chamar o azul de força ativa, o vermelho de passiva e o amarelo de força intermediária. Todas as cores possíveis provêm da combinação dessas três.
O mesmo exemplo demonstra outro aspecto dessa lei, a saber: as características das três forças dependem não dos fenômenos por meio dos quais se manifestam, mas de sua relação umas com as outras. A longitude de onda do vermelho, por exemplo, é passiva em relação ao fenômeno da cor, mas é ativa em relação ao fenômeno do calor que pertence à oitava abaixo. Assim, todos os objetos e energias que existem no mundo estão constantemente mudando de lugar do ponto de vista da lei de três, atuando como instrumentos ora ativos, ora passivos ou intermediários. É exatamente esse fluxo e mudança constante o que torna a lei de três tão evasiva à nossa percepção, fazendo-se necessário tomar cada exemplo separadamente, à parte de todos os outros.
Um exemplo mais geral, todavia, pode explicar melhor a idéia. Pense em comércio, por exemplo. O homem existe no mundo e existem também todos os objetos que ele desenvolve ou manufatura a partir dos materiais que o cercam, seus bens. O homem é ativo e os bens passivos. Mas só com essas duas forças pouco intercâmbio poderia haver e foi necessário que uma terceira força que capacitasse as outras duas fosse inventada para trabalharem todas juntas num número infinito de combinações. Essa terceira força é o dinheiro. A tríade homem, bens e dinheiro dá origem à atividade geral do comércio.
Esse exemplo nos traz outro aspecto muito interessante da lei de três forças. O dinheiro é invisível e, com o crescimento do comércio e o desenvolvimento de transações bancárias, o dinheiro tende a tornar-se ainda mais invisível, mais abstrato e corresponder cada vez menos a qualquer realidade tangível. Isso faz eco às explicações da lei de três dadas por antigas filosofias que sempre enfatizaram que a entrada do terceiro princípio permanece invisível para o homem em seu nível usual de percepção. O terceiro princípio representa o desconhecido, o irreconhecível determinante em cada situação.
Em alguns casos, ele pode ser apenas fisicamente invisível, assim como muitos processos químicos envolvendo a interação do ácido ativo e do alcalóide passivo são possíveis somente com a presença invisível da umidade. Ou, novamente, o método de ação pode ser invisível, assim como o método de ação dos catalisadores em química e das enzimas em fisiologia permanece invisível. Em outros casos, essa invisibilidade é mais sutil. Um homem decide elevar-se a um nível superior de consciência. Sua vontade, desejo e esforços ativos são lançados contra a inércia passiva de sua máquina física com todas as suas tendências congênitas e hábitos adquiridos. Essas duas forças confrontam-se sem resultado até que ele possa atrair a intervenção de uma terceira força decisiva - a ajuda de uma escola esotérica e de um conhecimento de escola. Essa ajuda e esse conhecimento são literalmente invisíveis.
Ainda que dinheiro, ar, catalisadores, enzimas e escola produzam grandes mudanças naquilo com o qual venham a entrar em contato, eles mesmos continuam não afetados e irredutíveis. Não podem perder sua virtude ou serem gastos. É uma característica do terceiro princípio que ele seja sempre imutável, invisível e irreconhecível, não podendo ser comandado ou manipulado pelos outros dois fatores. Em relação a eles, seu papel será sempre misterioso.
A invisibilidade é como que um disfarce desse mistério e ele pode ser de vários tipos diferentes. Algumas coisas são invisíveis para nós porque estão muito distantes, como as galáxias, outras porque estão muito próximas, como o interior de nossa mente, algumas porque são muito grandes, como a Terra, outras por serem muito pequenas, como uma célula, algumas porque são muito rarefeitas, como o ar, outras por serem muito densas, como o interior de uma rocha, algumas por serem muito rápidas, como a bala disparada de um rifle, e outras ainda porque são muito lentas, como a formação de uma civilização.
Ainda assim, esses diferentes tipos de invisibilidade não são acidentais. Eles colocam as coisas às quais se referem numa relação bastante especial com o homem, para quem são particularmente passíveis de atuar como terceira força. Assim, para alcançar o que deseja, ele deve aprender a considerar a terceira força e, para considerá-la, deve aprender a considerar o invisível.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

G. I. Gurdjieff - Londres, 1922

O homem é um ser plural. Quando falamos de nós mesmos, ordinariamente, falamos de 'eu'. Nós dizemos: “'eu' fiz isso”, “'eu' penso isso”, “'eu' quero fazer isso”, mas isso é um erro.
Não há tal 'eu', ou melhor, há centenas, milhares de pequenos 'eu's em cada um de nós. Estamos divididos em nós mesmos, mas não podemos reconhecer a pluralidade do nosso ser, exceto através de observação e estudo. Em um momento é um 'eu' que atua, no momento seguinte é outro 'eu'. É porque os 'eu's em nós mesmos são contraditórios que não funcionamos de maneira harmoniosa.
Vivemos normalmente com apenas uma parte muito diminuta de nossas funções e de nossa força porque não reconhecemos que somos máquinas e não conhecemos a natureza e o funcionamento de nosso mecanismo. Nós somos máquinas.
Somos inteiramente governados por circunstâncias externas. Todas as nossas ações seguem a linha da menor resistência à pressão das circunstâncias externas.
Experimente por si mesmo: você pode governar suas emoções? Não. Você pode tentar suprimi-las ou trocar uma emoção por outra emoção. Mas você não pode controlá-las. Elas controlam você. Você pode decidir fazer alguma coisa, seu 'eu' intelectual pode tomar tal decisão. Mas quando chegar a hora de executá-la, você pode se encontrar fazendo exatamente o oposto.
Se as circunstâncias são favoráveis à sua decisão você poderá segui-la, mas se forem desfavoráveis, você fará tudo o que elas ditarem. Você não controla suas ações. Você é uma máquina e as circunstâncias externas governam as suas ações, independentemente de seus desejos.
Eu não digo que ninguém pode controlar suas ações. Eu digo que você não pode, porque você está dividido. Há duas partes em você, uma forte e uma fraca. Se a sua força cresce, sua fraqueza também irá crescer, e se tornará uma força negativa, a menos que você aprenda a pará-la.
Se aprendermos a controlar nossas ações, isso será diferente. Quando um certo nível de ser é alcançado, podemos realmente controlar cada parte de nós mesmos, mas, como somos agora, não podemos nem mesmo fazer o que decidimos fazer.
Pergunta: Mas podemos mudar as condições.
Gurdjieff: As condições nunca mudam, são sempre as mesmas. Não há nenhuma mudança, apenas modificação das circunstâncias.
Pergunta: Se um homem se tornar melhor, não é uma mudança?
Gurdjieff: Um homem não significa nada para a humanidade. Um homem se torna melhor, outro se torna pior, é sempre a mesma coisa.
Pergunta: Mas não é uma melhoria para um mentiroso se tornar verdadeiro?
Gurdjieff: Não, é a mesma coisa. Primeiro ele diz mentiras mecanicamente porque ele não pode dizer a verdade, então ele dirá a verdade mecanicamente porque agora é mais fácil para ele. A verdade e a mentira são importantes apenas em relação a nós mesmos se pudermos controlá-las. Tais como somos, não podemos ser morais, porque somos mecânicos. A moralidade é relativa, subjetiva, contraditória e mecânica. É o mesmo conosco: o homem físico, o homem emocional, o homem intelectual, cada um tem um conjunto diferente de moral condizente com sua natureza. A máquina de cada homem está dividida em três partes básicas, três centros.
Olhe para si mesmo em qualquer momento e pergunte: "Que tipo de "eu" é esse que está operando no momento? Ele pertence ao meu centro intelectual, ao meu centro emocional ou ao meu centro motor?" Você provavelmente vai descobrir que é muito diferente do que você imagina, mas vai ser um desses.
Pergunta: Não há um código absoluto de moralidade que deveria ser igualmente obrigatório a todos os homens?
Gurdjieff: Sim. Quando pudermos usar todas as forças que controlam os nossos centros, então poderemos ser morais. Mas até então, enquanto usarmos apenas uma parte de nossas funções, não poderemos ser morais. Nós agimos mecanicamente em tudo o que fazemos, e máquinas não podem ser morais.
Pergunta: Parece ser uma posição desesperadora.
Gurdjieff: Com certeza. É desesperadora.
Pergunta: Então como podemos mudar a nós mesmos e usar todas as nossas forças?
Gurdjieff: Isso é outra questão. A principal causa de nossa fraqueza é a nossa incapacidade de aplicar a nossa vontade a todos os nossos três centros simultaneamente.
Pergunta: Será que podemos aplicar a nossa vontade a algum deles?
Gurdjieff: Certamente, às vezes fazemos isso. Às vezes, podemos até ter a capacidade de controlar um deles por um momento, com resultados muito extraordinários.

(Ele relata a história de um prisioneiro que jogou uma bola de papel com uma mensagem para sua esposa através de uma janela alta e de difícil acesso.)

Este era o seu único meio de se tornar livre. Se ele falhasse na primeira vez ele jamais teria outra chance. Ele conseguiu por um momento ter absoluto controle sobre o seu centro físico de modo que ele foi capaz de realizar o que de outra forma nunca poderia ter feito.
Pergunta: Você conhece alguém que tenha chegado a este plano superior de ser?
Gurdjieff: Não significa nada se eu disser sim ou não. Se eu disser que sim, você não poderá confirmar e se eu disser que não, você se julgará o mais sábio. Você não tem que acreditar em mim. Peço-lhe para não acreditar em nada que você não possa verificar por si mesmo.
Pergunta: Se somos totalmente mecânicos, como é que vamos começar a ter controle sobre nós mesmos? Pode uma máquina controlar a si mesma?
Gurdjieff: Muito bem, claro que não. Não podemos mudar a nós mesmos. Nós só podemos modificar a nós mesmos um pouco. Mas podemos ser mudados com ajuda vinda de fora.
A teoria do esoterismo é que a humanidade consiste de dois círculos: um círculo grande, exterior, abrangendo todos os seres humanos, e um círculo pequeno de pessoas instruídas e com compreensão nesse centro. Instrução Real, que unicamente pode nos mudar, só pode vir desse centro e o objetivo deste ensinamento é nos ajudar a nos preparar para receber tais instruções. Por nós mesmos não podemos nos mudar, isso só pode vir de fora.
Toda religião aponta para a existência de um centro comum de conhecimento. Em todos os livros sagrados o conhecimentos está lá, mas são as pessoas que não querem saber disso.
Pergunta: Mas já não temos um ótimo suprimento de conhecimento?
Gurdjieff: Sim, muitos tipos de conhecimento. Nosso presente conhecimento está baseado em percepções sensoriais, como a das crianças. Se desejarmos adquirir o tipo certo de conhecimento, deveremos mudar a nós mesmos. Com o desenvolvimento do nosso ser, podemos encontrar um estado superior de consciência. Mudança de conhecimento vem da mudança de ser. O conhecimento em si não é nada. Devemos, primeiramente, ter autoconhecimento, e com a ajuda do autoconhecimento, iremos aprender como mudar a nós mesmos - isto se quisermos mudar a nós mesmos.
Pergunta: E essa mudança ainda deve vir de fora?
Gurdjieff: Sim. Quando estivermos prontos para um novo conhecimento ele virá a nós.
Pergunta: Podemos alterar nossas emoções pelo meio do julgamento?
Gurdjieff: Um centro de nossa máquina não pode mudar um outro centro. Por exemplo: em Londres, fico irritado, o tempo e o clima me desanimam e me deixam mal humorado, enquanto que na Índia, fico bem humorado. Portanto, meu julgamento me diz para ir para a Índia e assim expulsarei a emoção da irritabilidade. Mas, então, em Londres, descubro que eu posso trabalhar; já nos trópicos, não tão bem. E assim, lá estaria irritado por qualquer outra razão. Você vê, as emoções existem independentemente da decisão e você não pode alterar uma através da outra.
Pergunta: O que é um estado superior de ser?
Gurdjieff: Existem vários estados de consciência:
1) o sono, no qual nossa máquina ainda funciona, mas numa pressão muito baixa.
2) o estado de vigília, como estamos neste momento. Esses dois são tudo o que o homem comum conhece.
3) o que é chamado de autoconsciência. É o momento em que um homem está consciente tanto de si mesmo quanto de sua máquina. Temos esse estado em flashes, mas apenas em flashes. Há momentos em que você se torna consciente não só do que você está fazendo, mas também de você mesmo fazendo aquilo. Você vê tanto o 'eu' quanto o "aqui" de "eu estou aqui", tanto a raiva quanto o "eu" que está com raiva. Chame isso de lembrança de si, se quiser.
Agora, quando você está completamente e sempre consciente do 'eu' e do que ele está fazendo e que 'eu' ele é - você se torna consciente de si mesmo. A autoconsciência é o terceiro estado.
Pergunta: Não é mais fácil quando se é passivo?
Gurdjieff: Sim, mas é inútil. Você deve observar a máquina quando ela estiver trabalhando. Há estados além do terceiro estado de consciência, mas não há necessidade de falarmos deles agora. Apenas um homem no mais elevado estado de ser é um homem completo. Todos os outros são apenas frações de homem. A ajuda externa que é necessária virá de professores ou do ensinamento que estou seguindo. Os pontos de partida desta auto-observação são:
1) Que nós não somos um.
2) Que não temos controle sobre nós mesmos. Nós não controlamos nosso próprio mecanismo.
3) Não nos lembramos de nós mesmos. Se eu digo que 'eu' estou lendo um livro e não sei que 'eu' estou lendo, é uma coisa, mas quando estou consciente de que 'eu' estou lendo, isso é lembrança de si.
Pergunta: Isso não resulta em cinismo?
Gurdjieff: Verdade. Se você não for mais longe para ver que você e todos os homens são máquinas, você simplesmente vai se tornar cínico. Mas se você levar a cabo o seu trabalho, você vai deixar de ser cínico.
Pergunta: Por que?
Gurdjieff: Porque você vai ter que fazer uma escolha, decidir: ou buscar tornar-se completamente mecânico ou completamente consciente. Esta é a encruzilhada dos caminhos da qual todos os ensinamentos místicos falam.
Pergunta: Será que não existem outras maneiras de fazer o que eu quero fazer?
Gurdjieff: Na Inglaterra, não. No Oriente, é diferente. Existem métodos diferentes para homens diferentes. Mas você deve encontrar um professor. Só você pode decidir o que é que quer fazer. Procure no seu coração o que você mais deseja e se você for capaz de fazê-lo, você vai saber o que fazer. Pense bem sobre isso, e então vá em frente.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Meher Baba - O Ego e sua Aniquilação



Parte 1


O Ego como o Centro de Conflito



Na fase pré-humana a consciência tem experiências mas essas experiências não são explicitamente tomadas em relação a um 'eu' central. Por exemplo, um cão pode ficar irritado, mas ele não continua a sentir depois "eu estou com raiva." Mesmo nesse caso achamos que o cão aprende através de algumas experiências e dessa forma baseia a ação de uma experiência em outra, mas essa ação é o resultado de uma tensão semi-mecânica de impressões conectadas, ou Sanskaras. É diferente da síntese inteligente de experiências que o desenvolvimento da consciência 'eu' torna possível. O primeiro passo no processo de submeter o trabalho das impressões isoladas à regulação inteligente, consiste em colocá-las todas em relação ao centro da consciência, que aparece como o ego limitado explícito. A consolidação da consciência-ego é mais clara e definida a partir do início da consciência humana.
A consciência humana não seria nada mais do que um repositório de impressões acumuladas de experiências variadas, se não contivesse o princípio de integração centrado no ego que se manifesta na tentativa de organizar e compreender a experiência. O processo de compreensão da experiência implica na capacidade de tomar em conjunto diferentes pedaços de experiências como partes de uma unidade e na capacidade de avaliá-los ao trazê-los em relações mútuas. A integração dos opostos da experiência é uma condição para a emancipação da consciência do cativeiro das diversas compulsões e repulsões, que tendem a dominar a consciência, independentemente da avaliação. As primeiras tentativas para assegurar essa integração são feitas através da formação do ego como base e centro.
O ego surge como um acompanhamento explícito e infalível a todos os acontecimentos da vida mental, a fim de satisfazer uma determinada necessidade. O papel desempenhado pelo ego na vida humana pode ser comparado com a função de um lastro num navio. O lastro de um navio evita que ele oscile demasiadamente. Sem ele, o navio fica suscetível a ser muito leve e instável e correria perigo de ser derrubado pelos ventos e ondas desgovernados. Dessa forma, a energia mental ficaria presa indefinidamente nos múltiplos labirintos da experiência dual e seria toda desperdiçada e dissipada se não houvesse um núcleo provisório. O ego faz um balanço de toda a experiência adquirida e une as tendências ativas nascidas dos instintos relativamente independentes e indefinidos herdados da consciência animal. A formação do ego tem a finalidade de dar uma certa estabilidade aos processos conscientes e também garante um equilíbrio de trabalho, que contribui para uma vida planejada e organizada.
Seria um erro, portanto, imaginar que o surgimento do ego é sem qualquer finalidade. Embora ele surja apenas para desaparecer no final, ele temporariamente cumpre uma necessidade que não poderia ter sido ignorada na longa jornada da alma. O ego não é para ser uma deficiência permanente, uma vez que pode ser transcendido e superado através do esforço espiritual. Mas a fase de formação do ego, no entanto, deve ser encarada como um mal necessário, que tem de vir a existir por hora.
O ego, portanto, marca e cumpre uma certa necessidade no progresso ulterior da consciência. No entanto, uma vez que o ego se refugia na falsa idéia de ser o corpo, ele é uma fonte de muitas ilusões que viciam a experiência. É da essência do ego que ele deva sentir-se separado do resto da vida, contrastando-se com outras formas de vida. Assim, embora interiormente tentando completar e integrar a experiência individual, o ego também cria uma divisão artificial entre a vida interna e externa na própria tentativa de sentir e assegurar a sua própria existência. Essa divisão na totalidade da vida não pode deixar de ter suas reverberações na vida interior individual sobre a qual o ego preside como um gênio orientador.
Enquanto sempre se esforça para estabelecer unidade e integração nas experiências, o ego não poderá nunca concretizar esse objetivo. Embora ele estabeleça um certo tipo de equilíbrio, esse equilíbrio é apenas provisório e temporário.
A incompleição de suas realizações fica evidente no conflito interno que nunca está ausente enquanto uma experiência estiver sendo enfrentada a partir do ponto de vista do ego. De momento a momento a mente do homem passa por uma série de conflitos. As mentes das pessoas grandiosas e distintas, bem como as mentes das pessoas comuns, são assediadas por desejos e tendências conflitantes. Às vezes, o conflito que a mente enfrenta é tão agudo que a pessoa cede às pressões, ocorrendo assim um desarranjo parcial ou total da mente. Não há realmente nenhuma diferença vital entre o indivíduo normal e o chamado anormal. Ambos têm de enfrentar os mesmos problemas, mas um pode ter êxito mais ou menos em resolver os seus problemas e o outro não pode resolvê-los.
O ego tenta resolver os seus conflitos internos através de falsas avaliações e escolhas erradas. É característico do ego que ele considere tudo o que não é importante como importante e tudo o que é importante como sem importância. Assim, embora poder, fama, riqueza, habilidade e outras realizações e feitos mundanos sejam realmente insignificantes, o ego se deleita nessas propriedades e se apega a elas como "minhas". Por outro lado, a verdadeira espiritualidade é totalmente importante para o alma, mas o ego olha para ela como sendo sem importância.


Por exemplo, se uma pessoa experimenta algum desconforto corporal ou mental enquanto faz um trabalho de importância espiritual, o ego toma a frente para assegurar o conforto corporal ou mental que não tem importância, mesmo às custas de abandonar o trabalho espiritual muito importante. Conforto corporal e mental, bem como outros feitos e realizações mundanas, são muitas vezes necessários, mas eles não são, por isso, importantes. Há um mundo de diferença entre necessidade e importância. Muitas coisas vêm para o ego como sendo necessárias, mas elas não são importantes em si. A espiritualidade, que vem para o ego como sendo desnecessária, é muito importante para a alma. O ego representa, portanto, um princípio fundamental e profundo de ignorância, que é exibido no sempre preferir o que é sem importância em detrimento do que é importante.
A mente raramente funciona de forma harmônica, pois é principalmente guiada e regida por forças no subconsciente. Poucas pessoas se dão ao trabalho de conseguir dominar essas forças ocultas que dirigem o curso da vida mental. A eliminação do conflito só é possível através do controle consciente das forças no subconsciente. Esse controle pode ser permanentemente alcançado apenas através do exercício repetido de uma apreciação de valores verdadeira em todos os casos de conflito apresentados à mente.


Se a pessoa quer livrar a mente do conflito, ela deve sempre fazer a escolha certa e infalivelmente preferir o que é verdadeiramente importante ao invés do que é sem importância. A escolha tem de ser inteligente e firme em todos os casos de conflitos - importantes e também sem importância. Tem de ser inteligente, porque só através da busca de valores verdadeiros e permanentes é possível atingir um equilíbrio que não seja prejudicial ao fluxo dinâmico e criativo da vida mental. Uma escolha inteligente, se for firme, pode temporariamente superar o conflito, mas está fadada, a longo prazo, a reduzir o âmbito da vida ou a dificultar a realização de toda a personalidade. Além disso, os conflitos certamente irão reaparecer de alguma outra forma se não tiverem sido resolvidos de forma inteligente. Uma solução inteligente, por outro lado, exige uma compreensão dos valores verdadeiros, que devem ser dissociados dos falsos valores. O problema do conflito de desejos, dessa forma, vem a se tornar o problema de valores conflitantes, e a solução do conflito mental requer, portanto, uma busca profunda pelo significado real da vida. É somente através da sabedoria que a mente pode ser libertada do conflito.


Tendo uma vez sabido qual é a escolha certa, o próximo passo é ater-se a ela de maneira firme. Embora as tendências competitivas na mente possam ser acalmadas ao escolhermos um determinado curso em vez de outras alternativas, elas continuam a funcionar como obstáculos para fazermos a escolha plenamente eficaz e prática. Às vezes há o perigo de uma decisão ser subvertida através da intensificação dessas forças concorrentes no subconsciente. Para evitar a derrota, a mente tem de se apegar tenazmente aos valores corretos que ela tenha percebido. Assim, a solução do conflito mental exige não apenas a percepção dos valores corretos mas também uma fidelidade inabalável a eles.
Uma escolha inteligente e firme, no entanto, tem de ser repetidamente exercitada em todas as questões - pequenas ou grandes. Pois as preocupações comuns da vida não são de forma alguma menos importantes do que os graves problemas com os quais a mente é confrontada em tempos de crise. As raízes do conflito mental não podem desaparecer completamente enquanto houver apenas o exercício intermitente da escolha inteligente e firme. A vida dos verdadeiros valores somente pode ser espontânea quando a mente tiver desenvolvido o hábito ininterrupto de escolher os valores corretos. Três quartos da nossa vida são constituídos de coisas simples e, embora o conflito em relação a coisas comuns não possa causar muita agonia mental, ainda assim, deixa na mente uma sensação de desconforto de que algo está errado. Os conflitos que giram em cima de coisas ordinárias raramente são até mesmo trazidos à superfície da consciência. Ao invés disso, eles lançam uma sombra sobre o sentimento geral que a pessoa tem em relação à vida, como se por trás de uma tela. Tais conflitos têm de ser trazidos à superfície da consciência e francamente enfrentados antes que possam ser adequadamente resolvidos.
Entretanto, o processo de trazer conflito para a superfície da consciência não deveria degenerar em um processo de imaginar conflito onde não há nenhum. O sinal certo de um conflito oculto real é a sensação de que todo o seu coração não está no pensamento ou na ação que vem a ser dominante no momento. Há um sentimento vago de um estreitamento ou uma restrição radical da vida. Em tais ocasiões, deveria ser feita uma tentativa de analisar o seu estado mental através de uma profunda introspecção, pois tal análise traz à luz os conflitos ocultos sobre a questão.


Quando os conflitos são, desse modo, trazidos à luz, é possível resolvê-los através de escolhas inteligentes e firmes. O requisito mais importante para a resolução satisfatória do conflito é a força motriz ou a inspiração, que só pode vir de um desejo ardente de um ideal compreensivo. A análise, por si só, pode auxiliar a escolha, mas a escolha continuará a ser uma preferência intelectual estéril e ineficaz se não for vitalizada pelo zelo de alguns ideais atraentes para os estratos mais profundos e mais significativos da personalidade humana. A psicologia moderna tem feito muito para revelar as fontes de conflito, mas ainda tem de descobrir métodos de despertar a inspiração ou fornecer para a mente algo que faça a vida valer a pena. Esta é certamente a tarefa criativa com a qual se defrontam os salvadores da humanidade.
Estabelecer um verdadeiro ideal é o início da correta avaliação. Avaliação correta por sua vez é a destruição das construções do ego, que prospera na avaliação falsa. Qualquer ação que expresse os valores autênticos da vida contribui para a desintegração do ego, o qual é um produto de eras de ação ignorante. A vida não pode ser permanentemente aprisionada dentro da jaula do ego. Ela deve em algum momento se esforçar em direção à Verdade. Na maturação da evolução vem a descoberta importante de que a vida não pode ser compreendida e vivida plenamente enquanto ela for feita para se mover em torno do eixo do ego. O homem é então conduzido pela lógica da sua própria experiência a encontrar o verdadeiro centro de experiências e de reorganizar sua vida na Verdade. Isso implica o desgaste do ego e sua substituição pela Consciência-Verdade. A desintegração do ego culmina na realização da Verdade. O falso núcleo de Sanskaras consolidados deve desaparecer para que possa haver uma verdadeira integração e realização da vida.









Parte 2




O Ego como uma Afirmação de Separatividade


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O ego é uma afirmação de separatividade. Ele assume muitas formas. Pode assumir a forma de uma contínua memória autoconsciente que se expressa em lembranças como: "eu fiz isso e eu fiz aquilo", "eu senti isso e eu senti aquilo", "eu pensei isso e eu pensei aquilo." Ele também assume a forma de esperanças ego-centradas para o futuro que se expressam através de planos do tipo: "vou fazer isso e vou fazer aquilo", "vou sentir isso e vou sentir aquilo", "vou pensar isso e vou pensar aquilo”. Ou ainda no presente, o ego manifesta-se na forma de um forte sentimento de ser alguém em particular e afirma a sua distinção e separação de todos os outros centros de consciência. Embora provisoriamente sirva a um propósito útil como um centro de consciência, o ego, como uma afirmação de separação, constitui o obstáculo principal para a emancipação espiritual e para a iluminação da consciência.


O ego afirma a sua separatividade através de desejo, ódio, raiva, medo ou ciúme. Quando uma pessoa deseja a companhia de outras pessoas, ela tem plena consciência de estar separada delas e, assim, sente intensamente a sua própria existência separada. O sentimento de separação dos outros é mais grave onde existe um grande e intenso desejo. No ódio e na raiva também, a outra pessoa é, por assim dizer, expulsa do próprio ser da pessoa e é considerada não só como uma forasteira mas como definitivamente hostil à prosperidade do ego dela. O medo também é uma forma sutil de se afirmar a separação e ele existe onde a consciência da dualidade é inabalável. O medo age como uma espessa cortina entre o "eu" e o "você". E não só nutre uma profunda desconfiança em relação aos outros, mas, inevitavelmente, traz uma diminuição e retratação da consciência, de modo a excluir o ser do outro do contexto da vida da pessoa. Portanto, não só as outras almas, como também Deus deveriam ser amados e não temidos. Temer a Deus ou às Suas manifestações é reforçar a dualidade e amar a Deus e Sua manifestação é enfraquecê-la.
O sentimento de separatividade encontra a sua expressão mais pungente no ciúme. Há uma necessidade profunda e imprescindível na alma humana de amar e de se identificar com outras almas. Essa necessidade não é atendida em nenhuma instância onde haja desejo ou ódio, raiva ou medo. No ciúme, além da não realização dessa necessidade profunda e imprescindível de identificação com outras pessoas, há uma crença de que alguma outra alma conseguiu se identificar com a pessoa a quem ela solicitava. Isso cria um protesto permanente e implacável contra ambos indivíduos por terem desenvolvido uma relação que a pessoa na realidade desejava reservar para si mesma. Todos os sentimentos exclusivos como o desejo, o ódio, o medo ou o ciúme provocam um estreitamento da vida e contribuem para a limitação e a restrição da consciência. Tornam-se diretamente instrumentais na afirmação da separatividade do ego.
Cada pensamento, sentimento ou ação que nasce da idéia da existência exclusiva ou separada, limita. Todas as experiências (pequenas ou grandes) e todas as aspirações (boas ou más) criam uma carga de impressões e nutrem o sentido de "eu". A única experiência que contribui para o enfraquecimeno do ego é a experiência do amor e a única aspiração que contribui para a redução da separação é o desejo de tornar-se um com o Amado. Desejo, ódio, raiva, medo e ciúme são atitudes exclusivas que criam um abismo entre a pessoa e o resto da vida. Só o amor é uma atitude inclusiva, aquele que ajuda a ultrapassar esse abismo artificial e autocriado tendendo a romper a barreira de separação da falsa imaginação. No amor verdadeiro, o amante também anseia, mas anseia pela união com o Amado. Ao procurar ou experimentar a união com o Amado, o sentimento do "eu" torna-se fraco. No amor, o "eu" não pensa em autopreservação, assim como a mariposa não tem medo de se queimar na chama. O ego é a afirmação de estar separado do outro, enquanto que o amor é a afirmação de ser um com o outro. Assim, o ego só pode ser dissolvido pelo amor real.


O ego é constituído por desejos de variados tipos. A impossibilidade de satisfação dos desejos é um fracasso do ego. O sucesso em alcançar os objetos desejados é um sucesso do ego. Através de desejos realizados, bem como através dos não atendidos, o ego é acentuado. O ego pode alimentar-se até mesmo de uma comparativa calmaria no surgimento de desejos e afirmar a sua tendência de separação por meio do sentimento de que ele não tem desejos. Quando há uma real cessação de todos os desejos, porém, há uma cessação do desejo de afirmar a separatividade sob qualquer forma. Por conseguinte, a liberdade real de todos os desejos traz o fim do ego. O ego é feito de desejos variados e a destruição desses desejos equivale à destruição do ego.
No entanto, o problema de apagar o ego da consciência é muito complicado, porque as raízes do ego estão todas na mente subconsciente na forma de tendências latentes, e essas tendências latentes nem sempre são acessíveis à consciência explícita. O ego limitado da consciência explícita é apenas um pequeno fragmento do ego total. O ego é como um iceberg flutuando no mar. Cerca de um sétimo do iceberg permanece acima da superfície da água e é visível para o espectador, mas a maior parte continua submersa e invisível. Da mesma forma, apenas uma pequena parte do ego real se manifesta na consciência sob a forma de um 'eu' explícito, a parte principal do ego real permanece submersa nos santuários escuros e inarticulados da mente subconsciente.
O ego explícito, que encontra a sua manifestação na consciência, não é de forma alguma um todo harmonioso, ele pode e deve se tornar uma arena para uma multidão de conflitos entre as tendências opostas. Ele tem uma capacidade limitada, entretanto, de permitir a emergência simultânea de tendências contraditórias. Duas pessoas de estar pelo menos se falando se quiserem entrar em discussões articuladas. Se não estão se falando, elas não podem se pôr a discutir sobre um terreno comum. Da mesma forma, duas tendências que podem entrar em conflito consciente devem ter alguns pontos em comum. Se são muito diferentes, elas não conseguem encontrar admissão na arena da consciência, mesmo que como tendências conflitantes, mas têm de permanecer submersas no subconsciente até que ambas sejam modificadas através de tensões exercidas pelas diversas atividades relacionadas com a mente consciente.
Apesar de todo o ego ser essencialmente heterogêneo em sua constituição, o ego explícito na consciência é menos heterogêneo do que o ego implícito da mente subconsciente. O ego explícito opera como um todo formidável em comparação com as tendências subconscientes isoladas que buscam emergir na consciência. O ego organizado da consciência explícita se torna, portanto, uma barreira repressiva que impede indefinidamente vários componentes do ego implícito de acessarem a consciência. Todos os problemas do ego podem ser combatidos apenas através da ação inteligente e consciente. Portanto, a aniquilação completa do ego só é possível quando todos os componentes do ego passarem pelo fogo da consciência inteligente.
A ação da consciência inteligente nos componentes do ego explícito é importante, mas por si só não é suficiente para obter os resultados desejados. Os componentes do ego implícito da mente subconsciente têm de ser trazidos à superfície da consciência de alguma forma e se tornarem partes do ego explícito, e, em seguida, serem submetidos à ação da consciência inteligente. Para que isso seja alcançado, tem de haver um enfraquecimento do ego explícito de maneira a permitir o aparecimento na consciência daqueles desejos e tendências que até então não podiam encontrar acesso na arena da consciência. Essa libertação das tendências inibidas gera, naturalmente, confusão e conflito no ego explícito. Portanto, o desaparecimento do ego é muitas vezes acompanhado por conflitos intensificados na arena da mente consciente e não por um alívio deles. No entanto, ao final da luta aguda e intransigente, repousa o estado de equilíbrio verdadeiro e de incontestável harmonia que vem após o derretimento do iceberg inteiro do ego.
Escavar as raízes enterradas do ego das camadas mais profundas do subconsciente e trazê-las à luz da consciência é uma parte importante do processo de aniquilar o ego. A outra parte importante consiste na manipulação inteligente dos desejos depois de eles ganharem entrada na arena da consciência. O processo de lidar com os componentes da consciência explícita não é de maneira nenhuma claro e simples, pois o ego explícito tem uma tendência de viver através de qualquer um dos opostos da experiência. Se for expulso de um oposto pela operação intensiva de consciência inteligente, ele tem a tendência de passar para o outro extremo e viver através dele. Com repetidas alternâncias entre os opostos da experiência, o ego escapa do ataque da consciência inteligente e busca perpetuar-se.
O ego é como a cabeça de Hidra e se expressa de inúmeras maneiras. Ele vive sob qualquer tipo de ignorância. O orgulho é o sentimento específico através do qual se manifesta o egoísmo. Uma pessoa pode se orgulhar das coisas mais tolas e sem importância. Há casos conhecidos, por exemplo, de pessoas que deixam suas unhas com um comprimento anormal e as preservam a despeito disso causar enorme transtorno para elas, por nenhuma outra razão além de afirmar sua separação dos outros. O ego tem que ampliar suas conquistas de forma grotesca, de modo a viver nelas. A afirmação direta do ego através de autoexibição na sociedade é muito comum, mas se tal afirmação direta for proibida pelas regras de conduta, o ego tem uma tendência de buscar o mesmo resultado ao levantar calúnias sobre os outros. Retratar os outros como maus é glorificar-se ao sugerir uma comparação - uma comparação que o ego de boa vontade desenvolveu, embora ele muitas vezes restrinja a si mesmo ao fazê-lo.
O ego é ativado pelo princípio da autoperpetuação e tem uma tendência a viver e crescer por todos e quaisquer meios que não estiverem fechados para ele. Se o ego enfrenta restrições em uma direção, ele procura compensar a expansão numa outra. Se ele for dominado por uma inundação de noções e ações espirituais, ele até mesmo tende a apoderar-se dessa própria força, e que foi originalmente posta em jogo para expulsar o ego. Se uma pessoa tentar cultivar a humildade a fim de aliviar-se do peso monstruoso do ego e conseguir fazê-lo, o ego pode, com uma rapidez surpreendente, transferir-se para esse atributo da humildade. Ele se alimenta através de repetidas afirmações como: "eu sou espiritual", assim como nas fases primárias ele alcançava o mesmo objetivo através de afirmações como: "eu não sou interessado em espiritualidade." Assim, surge o que poderia ser chamado de um ego espiritual ou um ego que sente a sua separação através da realização de coisas consideradas boas e altamente espirituais. Do ponto de vista verdadeiramente espiritual, esse tipo de ego é tão limitador quanto o ego primário e grosseiro, que não tem tais pretensões.
De fato, nos estágios mais avançados do caminho, o ego não busca manter-se através de métodos abertos, mas refugia-se nas próprias coisas que são exercidas para enfraquecê-lo. Essas táticas do ego são muito parecidas com as de uma guerrilha e são mais difíceis de contra atacar. Destituir o ego da consciência é necessariamente um processo complexo, não pode ser alcançado através do exercício de uma abordagem constantemente uniforme. Uma vez que a natureza do ego é muito complicada, um tratamento igualmente complicado é necessário para livrar-se dele. Sendo que o ego tem possibilidades quase infinitas para tornar a sua existência segura e criar auto ilusão, o aspirante descobre ser impossível competir com o infindável surgimento de novas formas do ego. Ele pode esperar ter êxito em lidar com os truques enganosos do ego somente com a ajuda e graça de um Mestre Perfeito.
Na maioria dos casos é apenas quando o aspirante é conduzido a perceber a futilidade de todos os seus esforços que ele se aproxima de um Mestre. Por si mesmo, ele não pode avançar em direção ao objetivo, o qual ele mal visualiza e procura. A persistência obstinada do ego o exaspera, e nessa percepção clara de desamparo ele se rende ao Mestre como seu último e único recurso. A auto entrega constitui uma admissão aberta de que o aspirante agora abandonou toda a esperança de resolver os problemas do ego por si próprio e que ele depende exclusivamente do Mestre. É como dizer: "eu sou incapaz de acabar com a existência miserável desse ego. Por isso, busco você para intervir e matá-lo." Essa etapa, por fim, acaba por ser mais proveitosa do que todas as outras medidas que poderiam ter sido tentadas em prol do enfraquecimento e subsequente aniquilação do ego. Quando pela graça do Mestre, a ignorância que constitui o ego é dissipada, ocorre o alvorecer da Verdade, que é a meta de toda a criação.









Parte 3


As Formas do Ego e Sua Dissolução


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O ego subsiste acerca de posses mundanas como poder, fama, riqueza, capacidades, conquistas e realizações. Ele cria e reconhece o “seu” a fim de sentir o que é distintamente "meu". No entanto, apesar de todas as coisas mundanas que ele afirma como "minhas", ele constantemente sente-se vazio e incompleto. Para compensar essa inquietação profunda em seu próprio ser, o ego procura fortalecer-se através de novas aquisições. Ele traz a ostentação de todas as suas variadas posses em relevo ao comparar-se com outros que possam ser inferiores, em qualquer um dos itens carimbados como "meus". E muitas vezes ele usa essas posses para se mostrar gratuita e desnecessariamente, a despeito da desvantagem dos outros. O ego é insatisfeito, apesar de suas posses mundanas, mas em vez de cultivar o desapego a elas, ele busca obter satisfação de um sentimento mais intenso ainda de posse em oposição ao outro. O ego como uma afirmação da separação vive através da idéia de "meu".


O ego quer se sentir separado e único, e procura auto expressão quer no papel de alguém que é decididamente melhor do que outros, ou no papel de alguém que é decididamente inferior. Enquanto houver ego, há um implícito pano de fundo de dualidade e enquanto houver o pano de fundo da dualidade, as operações mentais de comparação e contraste não podem ser eficazmente silenciadas por muito tempo. Portanto, mesmo quando a pessoa parece ter uma sensação de igualdade com o outro, esse sentimento não é seguramente estabelecido. Ele marca um ponto de transição entre as duas atitudes do ego e não de liberdade permanente da distinção entre o "eu" e o "você".


Esse pseudo sentimento de igualdade, quando existe, pode ser postulado na fórmula: "eu não sou em nada inferior ou superior aos outros." À primeira vista, isso será visto como uma afirmação negativa do ego. O equilíbrio entre o "eu" e o "você" é constantemente perturbado pela predominância de um complexo de superioridade ou de inferioridade. A idéia da igualdade surge para restabelecer o equilíbrio perdido. A afirmação negativa do ego sob a forma de igualdade, no entanto, é totalmente diferente do sentimento de unidade que é característico da vida da liberdade espiritual. Embora o senso de igualdade seja tomado como base de muitos ideais políticos e sociais, as reais condições de uma rica vida cooperativa são cumpridas apenas quando a mera idéia de igualdade é substituída pelo dar-se conta da unidade de toda a vida.


Os sentimentos de superioridade e inferioridade são reações um para o outro, e o sentimento artificialmente induzido de igualdade pode ser considerado como uma reação a ambos. Em todos esses três modos o ego consegue afirmar a sua separatividade. Os complexos de superioridade e de inferioridade, na maior parte permanecem desconectados um do outro. Ambos buscam expressão separada e alternada através de objetos apropriados, assim como quando uma pessoa domina aqueles a quem ela considera ser seus inferiores e submete-se àqueles a quem vê como seus superiores. Mas essa expressão alternada através de um comportamento contrastante só acentua esses complexos opostos em vez de conduzir à sua dissolução.
O complexo de superioridade é estimulado quando uma pessoa encontra alguém que esteja de alguma forma notavelmente numa posição inferior com relação às posses mundanas. Apesar de suas muitas posses, o ego é constantemente confrontado com o cenário de seu vazio intrínseco. Por isso, ele agarra-se à ilusão reconfortante de seu caráter valoroso demonstrando a grandeza dos seus bens. Esse contraste não se limita à comparação teórica, mas muitas vezes apresenta-se como um conflito real com os outros. Assim, a agressividade é um resultado natural da necessidade de compensar a pobreza da vida egocêntrica.


O complexo de inferioridade é avivado quando uma pessoa encontra alguém que esteja de alguma forma notavelmente numa posição superior em relação aos bens mundanos. Mas a sua submissão ao outro está enraizada ou no medo ou no egoísmo. Ela nunca pode ser sincera ou espontânea porque há um ciúme escondido e até mesmo um ódio pelo outro por possuir algo que ela gostaria de ter para si. Toda submissão forçada e exterior é meramente o efeito de um complexo de inferioridade e pode apenas fortalecer o ego numa de suas piores formas. O ego atribui seu sentimento de vazio aos bens aparentemente inferiores que ele pode clamar como "meus", ao invés de atribuí-lo ao seu vício profundamente arraigado em busca de satisfação através de posses. Estar ciente de sua inferioridade de bens se torna apenas um estímulo adicional para fazer esforços desesperados para adicionar mais aos seus bens através dos meios que estiverem disponíveis para ele. Dessa forma, enquanto perpetuam a pobreza interior da alma, o complexo de inferioridade, bem como o complexo de superioridade, constituem um agente para o egoísmo e o caos social e para o acúmulo desse tipo de ignorância que caracteriza o ego.
Quando uma pessoa entra em contato com um Mestre Perfeito e reconhece-o como tendo o estado de Perfeição sem ego, ela voluntariamente se rende ao Mestre. O discípulo percebe o ego como sendo uma fonte de perpétua ignorância, agitação e conflito; e também reconhece sua própria incapacidade de acabar com ele. Mas essa autorendição deve ser cuidadosamente distinguida do complexo de inferioridade porque é acompanhada pela consciência de que o Mestre é o ideal e, como tal, tem uma unidade básica com o discípulo. Essa auto entrega não é de modo algum uma expressão de perda de confiança. Pelo contrário, é uma expressão de confiança na superação final de todos os obstáculos com a ajuda do Mestre. A apreciação da divindade do Mestre é a maneira pela qual o Ser Superior do discípulo expressa o seu sentido de dignidade.


A fim de provocar uma rápida dissolução das duas principais formas do ego, o Mestre pode deliberadamente aguçar ambos complexos em alternância. Se o discípulo está a ponto de desanimar e desistir da busca, ele pode despertar nele profunda autoconfiança. Se ele está a ponto de tornar-se egoísta, ele pode romper essa barreira criando novas situações em que o discípulo tenha de aceitar e reconhecer a sua própria incapacidade ou futilidade. Assim, o mestre exerce sua influência sobre o discípulo para agilizar as etapas que o ego, em processo de derretimento, passa antes de seu desaparecimento final.


Os complexos de superioridade e de inferioridade têm de ser postos em uma relação inteligente um com o outro para que combatam um ao outro. Isso requer uma situação em que ambos sejam permitidos atuar ao mesmo tempo, sem exigir a repressão de um para poder expressar o outro. Quando a alma entra numa relação dinâmica e vital com o Mestre, os complexos relacionados com os sentimentos de inferioridade e de superioridade são colocados em jogo, e eles estão tão ardilosa e inteligentemente acomodados que neutralizam um ao outro. O discípulo então sente que ele não é nada em si mesmo, mas dentro e através do Mestre ele é avivado pela perspectiva de ser Tudo.
Assim, com um só golpe os dois complexos são levados a uma tensão mútua e tendem a aniquilar um ao outro na tentativa que o discípulo faz para ajustar-se ao Mestre. Com a dissolução desses complexos opostos, surge uma quebra das barreiras de separação do ego em todas as suas formas. Com a quebra das barreiras da separação surge o amor divino. Com o surgimento do amor divino, o sentimento separado de "eu", como distinto do "você", é engolido no sentido de sua unidade.


Para um carro mover-se em direção ao seu destino é necessário haver um motorista. No entanto, o motorista pode estar suscetível a fortes atrações pelas coisas que ele encontra no caminho e ele pode não somente parar em locais proibidos por um tempo indeterminado, mas também pode se perder pelo caminho em busca de coisas que têm encanto apenas temporário. Dessa maneira ele pode manter o veículo em movimento o tempo todo mas sem chegar mais perto do objetivo, e ele pode até mesmo ficar mais longe dele. Algo semelhante acontece quando o ego assume o controle da consciência humana. O ego pode ser comparado a um motorista que tem um certo grau de controle sobre um carro e uma certa capacidade para dirigi-lo, mas que está na escuridão total no que diz respeito ao seu destino final.


Para um carro chegar ao seu destino final, não basta apenas ter alguém que possa dirigir o carro. É igualmente necessário que esse condutor deva ser capaz de dirigir o carro em direção ao destino. Enquanto o movimento da consciência estiver sob o domínio completo e exclusivo do ego, o avanço espiritual da pessoa estará comprometido pela tendência natural do ego de reforçar as barreiras de separação da falsa imaginação. Então, por causa das atividades ego-centradas, a consciência permanece cercada pelos muros de sua própria criação e se move dentro dos limites desta prisão de maya.


Para a consciência ser emancipada de suas limitações e tornar-se adequada para servir o propósito original pelo qual ela veio a existir, ela deve extrair o seu dinamismo direcionador não do ego, mas de algum outro princípio. Em outras palavras, o motorista que é ignorante do destino final deve ser trocado por outro motorista que estiver livre de todo o fascínio das coisas acidentais encontradas no caminho, e que concentre a sua atenção não nas estações de descanso ou nas atrações paralelas, mas sim no objetivo final. O deslocamento do centro de interesse de coisas sem importância para valores verdadeiramente importantes é comparável à transferência de poder do motorista ignorante para o motorista que conhece o destino. Juntamente com essa mudança gradual do centro de interesse, há uma dissolução progressiva do ego e o movimento em direção à Verdade.
Se o ego não fosse nada além do que um meio para a integração da experiência humana, seria possível para uma pessoa estabelecer-se na Verdade final apenas desempenhando as atividades do ego. Porém, embora desempenhe um papel específico na evolução da consciência, o ego também representa um princípio ativo de ignorância que impede um desenvolvimento espiritual ulterior. O ego tenta a integração da experiência, mas faz isso em torno da falsa idéia de separação. Tendo tomado uma ilusão como a fundação para a construção do seu edifício, ele nunca consegue nada além da construção de ilusões uma após outra. A função do ego realmente atrapalha em vez de ajudar a chegar à Verdade. O processo de chegar à Verdade apenas pode ser frutífero se a integração presidida pelo ego for levada adiante sem trazer consigo a ignorância básica da separação.
Enquanto a experiência humana residir dentro da limitação da dualidade, a integração da experiência é uma condição essencial para uma vida racional e significativa. Mas o ego como um núcleo de integração tem de ser renunciado por causa de sua inevitável aliança com as forças da ignorância. Surge, então, uma necessidade imperativa de um novo centro de integração que levará embora a ignorância básica da separação e deixará margem livre para a incorporação de todos os valores anteriormente inacessíveis ao ego-centro. Este novo centro é fornecido pelo Mestre, o qual expressa tudo o que tem valor real e que representa a Verdade absoluta. A mudança de interesse por coisas sem importância para valores importantes é facilitada pela fidelidade e autorendição ao mestre, o qual se torna o novo núcleo para a integração.
O Mestre, quando verdadeiramente compreendido, é uma afirmação permanente da unidade de toda a vida. A fidelidade ao Mestre, portanto, traz uma dissociação gradual do núcleo do ego que afirma a separação. Após essa crise importante na vida de um indivíduo, toda a atividade mental tem um novo quadro de referência. E o seu significado deve ser considerado à luz de sua relação com o Mestre como a manifestação da Verdade infinita, e não à luz de qualquer relação com o ego-centro como um “eu” limitado. A partir daí, a pessoa descobre que todos os atos que fluem dela já não são mais iniciados a partir do “eu” limitado, mas são todos inspirados pela Verdade através do Mestre. Ele também não mais fica interessado no bem-estar do ser limitado, mas só está interessado no Mestre como a representação da vida universal e indivisível. Ele oferece todas as suas experiências e desejos para o Mestre, não conservando nem o bem nem o mal para o "eu" limitado, tirando o ego de toda a superfície.
Esta falência do ego que está em progresso, não interfere com o processo de integração, porque a função é executada agora em torno do novo centro - do Mestre representando a Verdade. Quando o ego-núcleo ficar completamente falido e desprovido de qualquer poder ou ser, o Mestre, como a Verdade, será firmemente estabelecido na consciência como seu gênio orientador e como princípio animador. Isso constitui tanto a obtenção da união com o Mestre quanto a realização da Verdade infinita.
Conforme o ego gradualmente ajusta-se às exigências espirituais da vida através do cultivo da humanidade, da abnegação e do amor, entregando-se incondicionalmente e oferecendo-se ao Mestre, como a Verdade, ele sofre uma drástica redução. Ele não apenas oferece cada vez menos resistência ao desenvolvimento espiritual, mas também sofre uma transformação radical. Essa, eventualmente, torna-se tão grande que ao final, o ego, como uma afirmação de separatividade, desaparece completamente e é substituído pela Verdade que não conhece separação.
As etapas intermediárias de enfraquecer o ego e suavizar sua natureza, são comparáveis à limpeza e à poda dos galhos de uma árvore selvagem e frondosa, enquanto que o último passo da aniquilação do ego, significaria desenterrar totalmente a árvore. Quando o ego desaparece totalmente, surge o conhecimento do verdadeiro Ser. Assim, a longa jornada da alma consiste em desenvolver a partir da consciência animal a consciência de si mesmo explícita como um "eu" limitado, em seguida, em transcender o estado do “eu” limitado da consciência humana, por intermédio do Mestre. Nessa fase, a alma é iniciada na consciência do Ser supremo e real como um eterno e infinito "Eu Sou" no qual não há separação e o qual inclui toda a existência.