segunda-feira, 20 de julho de 2009

P. D. Ouspensky - O trabalho sobre si mesmo

Pergunta: O senhor poderia dizer mais alguma coisa sobre o que é o "Eu"?
Ouspensky: O "Eu" é apenas suposto; não sabemos o que é o "Eu". Mas "Ouspensky" eu conheço e posso estudar em todas as suas manifestações. Portanto, devo começar com "Ouspensky". O "Eu" é indefinível e muito pequeno; existe apenas como uma potencialidade; se ele não crescer, a falsa personalidade continuará a controlar tudo. Muitas pessoas cometem o erro de pensar que sabem o que é um e o que é o outro. Dizem: "isto sou eu", quando, na verdade, é a falsa personalidade. Isso está de modo geral ligado à nossa capacidade de representar papéis. Trata-se de uma capacidade muito limitada; geralmente temos uns cinco ou seis papéis, quer observemos, quer não. Podemos notar uma certa semelhança, inteiramente ilusória entre esses papéis e, então, consciente ou inconscientemente, poderemos chegar à conclusão de que, por trás deles há uma individualidade permanente. Chamamos isso de “Eu” e pensamos que está por trás de todas as manifestações, quando, de fato, é um retrato imaginário de nós mesmos. Esse retrato deve ser estudado. É impossível ter um conhecimento prático de si mesmo se não conhecermos nossa falsa personalidade. Enquanto pensarmos que somos uma unidade, todas as nossas definições estarão erradas. Só quando o homem souber que todas as suas intensões, desejos, etc. não são verdadeiros, que são a falsa personalidade, é que ele poderá adquirir algo. É esse o único trabalho prático possível, e é muito difícil. A falsa personalidade tem que desaparecer ou pelo menos ser enfraquecida a ponto de não prejudicar o nosso trabalho. Ela, no entanto, se defenderá e não se entregará facilmente. O trabalho é uma luta contra a falsa personalidade, que se oporá, sobretudo através da mentira, pois essa é a sua arma mais poderosa.
P: O senhor diz que o que chamamos de”Eu” é imaginário, o que quer dizer para o senhor, “consciência de si mesmo”? Que “eu” pode ser consciente?
O: O Ser é diferente do não-Ser. “Eu” é diferente desta mesa. Quando disse que o “Eu” era imaginário, era no sentido de uma imagem mental que temos de nós mesmos, daquilo que pensamos de nós mesmos. Quando digo "Ouspensky ', é um 'Ouspensky' embelezado, feito para parecer o que ele não é. Atribuo a ele muitas coisas que não possui, não conheço suas fraquezas. A condição para o crescimento do 'Eu' real é se livrar de 'Ouspensky', não estar identificado com ele.
P: O 'Eu' nunca é real, exceto se estiver conectado com esforço?
O: O 'Eu' só pode existir no estado de consciência de si, e cada momento no trabalho de criação de consciência de si significa esforço. Nada pode "acontecer" por si só. Se mudarmos o nosso ser, as coisas serão diferentes, mas neste estado nada pode ser diferente.
P: Como podemos lidar com a presunção da falsa personalidade?
O: Você deve primeiro conhecer todas as características dela e, em seguida, deve pensar corretamente. Quando você pensar corretamente, vai encontrar maneiras de lidar com ela. Você não deve justificá-la, ela vive de justificação, e até mesmo da glorificação de todas as suas características.
A qualquer momento da nossa vida, mesmo em momentos de tranquilidade, estamos sempre justificando-a, considerando-a legítima e encontrando todas as possíveis desculpas para ela. Isto é o que eu chamo de pensar errado. Estudando a falsa personalidade, começamos a ver cada vez mais a mecanicidade. Paralelo com a realização de nossa mecanicidade, estudamos como sair dela por meio da criação de algo que não seja mecânico. Como podemos fazer isso? Primeiro temos de pensar sobre aquilo que queremos, separar o importante do trivial. O trabalho sobre si mesmo, o desejo de se conhecer e as idéias do trabalho, a luta para criar consciência, não são mecânicos, podemos ter certeza disso. E se olharmos desse ponto de vista, vamos ver muitas coisas imaginárias em nós mesmos. Essas coisas imaginárias são a falsa personalidade - emoções imaginárias, interesses imaginários, idéias imaginárias sobre nós mesmos. A falsa personalidade é totalmente mecânica, assim, trata-se novamente da divisão entre o consciente e o mecânico. Essa parte mecânica de nós está principalmente baseada na imaginação, em idéias errôneas sobre todas as coisas, e acima de tudo, em uma visão equivocada de nós mesmos. Temos de perceber o quanto estamos em poder desta falsa personalidade e de coisas inventadas que não têm existência real, e temos que separar aquilo de que realmente podemos depender do que não é confiável em nós mesmos. Isso pode servir de começo. Quando nós nos conhecermos melhor, isso irá nos ajudar a despertar.
P: Quer dizer que temos que estudar a nossa falsa personalidade, reunindo dados, observações?
O: Ao dividir a si mesmo, ao não dizer 'eu' para tudo. Você pode realmente usar a palavra "eu" apenas em relação à parte mais consciente de si mesmo, o desejo de trabalhar, o desejo de compreender, a realização da não-compreensão, a realização da mecanicidade; que você pode chamar de 'Eu'. O 'Eu' começa a crescer apenas em relação ao estudo, ao trabalho sobre si mesmo, senão ele não pode crescer e não há nenhuma mudança. Um 'Eu' permanente não vem de uma vez. Todos os 'eus' ilusórios desaparecem pouco a pouco e o 'Eu' real torna-se gradualmente mais forte, principalmente, através da lembrança de si mesmo. A lembrança de si, no sentido de apenas estar ciente é muito boa, mas pouco a pouco, quando você prossegue com ela, vai ficando ligada a outros interesses, com o que se pretende obter. No presente, num momento você se lembra dela, e depois por um dia ou uma semana você a esquece, mas é necessário lembrar dela o tempo todo.
P: O objetivo da lembrança de si é a descoberta progressiva do 'eu' permanente?
O: Não a descoberta, é preparar o terreno para ele. O 'Eu' permanente não está lá. Ele precisa crescer, mas não pode crescer, quando está todo coberto com as emoções negativas, com a identificação e outras coisas. Então você começa por preparar o terreno para Ele. Mas, antes de tudo, como eu disse antes, é necessário compreender o que é lembrança de si, porque é melhor lembrar de si, que efeito que ela irá produzir e assim por diante.

G. I. Gurdjieff - 10 de maio de 1945

Pergunta: Como deveríamos entender o que significa reparar o passado? É através do remorso?
Gurdjieff: Você é muito complicado. É muito mais simples. O presente é o resultado do passado. Se você adquiriu um mau hábito no passado, você deve pará-lo. Vejo que eu tenho o hábito de virar meus polegares sempre na mesma posição. Pare. Isso é reparar. Não cometa o mesmo erro novamente e prepare para o futuro, prepare para o futuro. Pratique, pratique como se praticasse para tocar piano. Você deve desenvolver a força dos seus dedos. Repita, repita.
Pergunta: Vejo como passo horas por dia ocupado com sentimentos muito pequenos, insignificantes, muito indignos. Eu deveria me propor uma tarefa de remediar isso, ou existe algo para ser feito a esse respeito?
Gurdjieff: É o mesmo para todo mundo. Sempre foi assim. Para você, é apenas agora que você vê isso. É isso que queremos mudar. Faça tudo o que você faz, bem. Até ao comer. Se você come bem, você reza bem. Seja sincero e dê o melhor de si em tudo o que você faz. Deve-se trabalhar precisamente em algo preciso. O trabalho não deveria ser um desejo, mas uma necessidade, uma necessidade. Quando ele se tornar uma necessidade, você terá uma resposta. Você não tem o direito de ter um desejo apenas. Isso não é o bastante. Não lhe dará nada. Crie uma necessidade em si mesmo. Repita, repita, repita. Você nunca repete o bastante. Tudo que vem facilmente para você, não dura, é destruído. Escolha alguma coisa que lhe custe algo, que seja um esforço. Aquilo que é fácil é ruim para a sua vida interior.
A META. Tenha sempre uma meta imediata. Esse é o seu objetivo. Você deve atingir isso. Existem muitos ziguezagues no caminho. Não atrase. Sempre veja a meta. Saiba para onde você está indo e você encontrará os meios de chegar lá. Depois eu indicarei uma outra meta. Você deve atingir a primeira antes; a meta deveria ser clara e estar sempre diante de você.
Pergunta: Quando eu tento trabalhar com o remorso, há sempre uma parte de mim que se recusa, que me diz que isso é inútil, que isso não irá me levar a lugar nenhum ou a nada. Eu gostaria de entender melhor o uso do remorso, a necessidade dele, para permitir que eu convença a mim mesmo e que lute contra essa recusa.
Gurdjieff: É muito simples. Olhe isto (ele pega um gomo de uma tangerina de seu prato). Isto está destinado a se tornar geléia, tem que se tornar geléia, foi feito para isso. Mas está cheio de sal. O que deveria ser feito? Ele deve ser lavado, colocado de molho, limpo para tirar o sal. Posteriormente ele pode virar geléia. Com o sal é impossível. O remorso é o que remove o sal. É o que purifica. Você entende?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Siddharameshwar Maharaj - Deveríamos agir de acordo com o ensinamento

Sábios como Shuka, Valkami e Narada atingiram a realização espiritual com o conhecimento do Ser. Essa posição elevada é atingida ao escutarmos as instruções espirituais e meditarmos sobre elas. A pessoa deve praticar de acordo com o que ouviu. Apenas então o autoconhecimento é possível. Apenas aquele que não é atraído pelos objetos do mundo pode ter o autoconhecimento através do escutar e meditar. Simplesmente o descrever verbalmente um prato saboroso não torna aquela comida cozida. Você deve cozinhá-la e então comê-la. Apenas assim obtemos benefício. O estudo do Ser é permanecer com uma atitude de unidade com o Ser, ou nossa verdadeira natureza (swaroopa).
Ninguém se torna um sábio apenas ao vestir as roupas laranja de um renunciado. Sua mente deveria aceitar aquilo que ela escuta. A mente deveria estar sintonizada com o que ela escuta. A atenção da mente deveria ser tão constante e firme quanto o fluxo estável de um fino fio de óleo passado uniformemente de um recipiente para outro. Você deve ler repetidamente o que está escrito porque não se lembra. Esse esquecimento dá-se porque você não experimenta sua unidade com o Ser. Todos constroem suas casas no vento. Constroem castelos no ar.
No mundo tudo está acontecendo por causa da “palavra”. Primeiro o conceito de um prédio alto é falado em muitas palavras e depois o prédio é erguido. Alguém que é ignorante torna-se sábio apenas através das palavras. Se você não escuta as palavras, como pode então acontecer a ação de escutar? Tentar ensinar a você é como derramar água sobre um búfalo. Toda a água é desperdiçada. Isso é por causa da sua atenção que está focada nos objetos, você não diminui seu interesse neles. Se a atenção se liberta, então o trabalho está feito, você se tornou Brahman. Seu Ser deveria permanecer constantemente como Brahman.
Todos os cinco elementos estão finamente misturados uns com os outros. O Ser (Atman) também reside neles, mas está separado. Todas as casas são construídas apenas com terra, mas seu formato e seus donos são diferentes. Similarmente, embora as pessoas sejam muitas em número, o Ser interior, Deus, e o ar em todas, são Um. Entretanto existe um fator que chama a si mesmo de “eu”. Esse fator é falso. Ele não deveria estar lá. Se você separa a si mesmo e se torna orgulhoso dessa separação, então sofre inúmeros pesares. Assim, escutar torna-se fútil pois a mente está atraída pelos objetos dos sentidos e identificada com os pensamentos.
Atingir o “conhecimento de Brahman” (Brahmavidya) é difícil porque sua atenção está voltada para os objetos dos sentidos. Se a pessoa tem uma apreciação por escutar ensinamentos espirituais, algo parece estar faltando se ela não tiver a experiência de fato. O humor da mente muda se você se cerca continuamente de boa companhia. Deveria haver dia e noite constantes pensamentos e meditações sobre as instruções espirituais que recebemos. Fale sobre elas e escute-as, mas colocar em prática o bom conselho recebido é ainda de maior valor. Apenas o ato de meramente escutar o ensinamento não é tão importante, devemos ter a experiência real e sentirmo-nos unidos com ele. Se podemos fazer isso, então atingimos todos os poderes espirituais (Siddhis).

terça-feira, 14 de julho de 2009

Jalaluddin Rumi (Discursos ) - Sobre as palavras dos profetas e dos santos paira um perfume de esperança e felicidade

Todos que se preparam para uma viagem têm uma idéia particular em mente: "Quando chegar vou ganhar vantagens e melhorar minha situação. Meus negócios serão colocados em ordem, meus amigos ficarão deleitados e vencerei meus inimigos". Essas são as idéias que temos em mente, mas o objetivo de Deus é algo diferente. Nós fazemos tantos planos e pensamos em tantas idéias e nem ao menos uma sucede-se de acordo com nosso desejo. Contudo, mesmo assim, nós continuamos a confiar em nossos próprios planos e escolhas.
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Ignorando o Destino, as pessoas fazem seus pequenos planos.
A vontade de Deus não se consulta com os planos do homem.
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Isso é ilustrado por uma mulher que num sonho vê que enveredou-se por uma cidade estranha onde não conhecia ninguém. Ela ficou perplexa e deprimida, dizendo a si mesma: "Porque é que eu venho a esta cidade onde não tenho nenhum amigo ou conhecido que me cumprimente com um aperto de mão ou com um beijo?" Ao despertar, essa cidade e seu povo desaparecem e ela sabe que toda a sua angústia e tristeza eram absolutamente nada. Então, ela ignora o estado em que se encontrava e conclui que suas preocupações foram completamente em vão. No entanto, da próxima vez que dorme, ela se vê exatamente na tal cidade novamente e começa a sentir a mesma solidão e tristeza. Ela lamenta ter ido a essa cidade e não se lembra de que quando estava acordada, podia ver o quão tolo era se preocupar, pois era apenas um sonho e nada havia para se lamentar a respeito.
É exatamente assim que as pessoas são. Elas têm visto seus desejos darem em nada cem mil vezes. Nada prossegue de acordo com seus planos intrincados. Mas Deus designa que um esquecimento cubra os seus olhos, para que esqueçam tudo o que aconteceu, e assim mais uma vez eles planejam as suas próprias idéias e vontades.
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"Deus permanece entre as pessoas e seus corações."
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Uma vez, quando Ibrahim, filho de Adão, era rei, ele galopava no rastro de um cervo que estava caçando, até que se distanciou totalmente de seus soldados, deixando-os muito para trás. Seu cavalo estava cansado e coberto de suor, mas ainda assim ele continuava a perseguição.
Depois de adentrar bastante na vastidão do deserto, o cervo parou de repente, virou-se e disse, "Você não foi criado para isso. Sua existência não foi trazida da não-existência para que você me caçasse. Mesmo se você me apanhar, o que terá conseguido?"
Quando Ibrahim ouviu estas palavras, ele chorou em voz alta e desceu de seu cavalo. Não havia ninguém naquele deserto, exceto um pastor. Ibrahim disse-lhe: "Leve as minhas vestes reais incrustadas com jóias, minhas armas e meu cavalo e dê-me a sua roupa de pano grosso. E por favor não informe ninguém, não dê nem mesmo uma pista para ninguém daquilo que sucedeu-se comigo." Ele colocou as vestes do pastor e tomou seu caminho.
Agora considere qual foi a intenção dele e ainda o que seu verdadeiro objetivo veio a se tornar! Ele queria pegar um cervo mas Deus capturou-lhe por meio daquele cervo. Portanto, perceba que neste mundo as coisas acontecem conforme Deus deseja. Dele é o plano e todos os propósitos vêm Dele.
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Antes de se tornar um muçulmano, Umar entrou na casa de sua irmã. Ela estava cantando em voz alta uma passagem do Alcorão:
"TA HA: Nós não enviamos ..." Quando ela viu o seu irmão, imediatamente escondeu o Alcorão e ficou silenciosa. Umar sacou sua espada e disse: "Diga-me o que você estava lendo e por que você escondeu isso ou vou cortar sua cabeça neste instante!" Sua irmã o temia, conhecendo seu temperamento quando zangado e aterrorizada por sua vida confessou: "Eu estava lendo essas palavras que Deus revelou a Maomé."
"Leia, para que eu as possa ouvir", disse Umar, e ela recitou toda a Sura do Ta Ha. Umar ficou furioso, e com raiva balançou sua espada, dizendo: "Se eu lhe matasse neste instante, seria como matar uma indefesa. Primeiro vou cortar a cabeça de Maomé e então cuidarei de você."
Em sua raiva, com a espada em mãos, Umar partiu para a mesquita do Profeta. Os chefes dos Coraixitas, vendo-o ir exclamaram: "Maravilhoso! Umar está atrás de Maomé. Certamente, se há alguém que pode parar esta nova religião, é Umar." Pois Umar era um homem forte e poderoso. Qualquer exército contra o qual ele marchasse, era vencido. De fato, o Profeta tinha declarado muitas vezes: "Deus, socorre minha religião através de Umar ou Abu Jahl”.-
Pois esses dois eram famosos naquele tempo por sua força e heroísmo. Posteriormente, quando Umar se tornou um muçulmano, ele costumava clamar e dizer: "Ó Mensageiro de Deus, ai de mim se tivesses falado o nome Abu Jahl antes do meu. O que teria sido de mim, então? Eu teria continuado errando."
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Em suma, Umar estava com a espada em mãos a caminho da mesquita do Profeta. Entretanto, Gabriel revelou a Maomé: "Ó Mensageiro de Deus, Umar está vindo para ser convertido ao Islã. Conduza-o para a sua alma.” Assim que Umar entrou pela porta da mesquita, viu claramente uma flecha de luz voar de Maomé e perfurar seu coração. Umar proferiu um forte grito e caiu inconsciente. Amor e desejo apaixonado preencheram-no, ele quis dissolver-se em Maomé naquela extrema afeição, e, tornou-se o nada. Ele disse: "Profeta de Deus, ofereça-me sua fé e fale sua palavra abençoada, para que eu possa ouvir." Tendo se tornado um muçulmano, ele disse: "Agora, para corrigir minhas ações, reparar ter vindo contra você com uma espada em mãos, para limpar esse ato, de agora em diante não terei pena de quem eu ouvir falando mal de você. Com essa espada arrancarei suas cabeças de seus corpos."
Saindo da mesquita, subitamente ele encontrou seu pai. O pai de Umar disse: "Você mudou de religião." Imediatamente ele cortou a cabeça de seu pai e caminhou segurando a espada suja de sangue. Os chefes dos coraixitas, vendo o sangue, disseram a Umar: "Você prometeu trazer a cabeça de Maomé. Onde está a cabeça dele?" Umar disse: "Eu a carrego comigo!" Um deles disse: "Você trouxe a cabeça dele?" Ele respondeu, "Não, não aquela cabeça. A cabeça que trago é a do outro lado."
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Agora vejam o que Umar planejou e no que Deus tornou tais planos. Saibam que todas as coisas desenrolam-se como Deus deseja.
Abraão disse: "Ó Deus, já que me escolhestes e me honrastes com o manto de Vossa aprovação, concedei essa distinção a meus filhos também." Deus declarou: "Meu compromisso não atingirá os pecadores." Quando Abraão percebeu que Deus não estende Seu amoroso cuidado aos pecadores e aos insolentes, ele tentou barganhar. E disse: "Ó Deus, aqueles que crêem e não são malfeitores - dai-lhes uma porção de vossa provisão." Deus declarou: "A minha provisão é comum a todos os homens e mulheres e todos devem ter uma parte dela. Todas as criaturas desfrutam sua parcela dos benefícios desta morada. Mas o manto da minha aprovação e a honra da nobilização e da distinção, são um dom especial para os eleitos e escolhidos."
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"Fizemos a Casa ser
Um local de visitação para o povo,
E um santuário.
"Tomem para vocês a estação de Abraão
Como um local de oração."
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O literalistas dizem que o que se quer dizer por esta "Casa" é a Kaaba, pois na Kaaba é proibido caçar e nenhuma maldade é permitida contra ninguém. Deus escolheu aquela casa para Si. Tudo isso é perfeitamente válido e correto, mas essa é a interpretação literal do Alcorão. No entanto, os Sufis dizem que a "Casa" é a parte interior de nosso Ser. Em outras palavras: "Deus, livrou meu Ser interior da tentação e dos planos mundanos. Purificai-o das paixões e dos pensamentos ociosos, para que nenhum medo possa entrar e a segurança prevalecerá. Deixai-o tornar-se completamente o centro de vossa revelação".

É dito que Deus designou meteoros para vigiar o céu e impedir que o amaldiçoado Satã escutasse os segredos dos anjos. O significado disso, de acordo com esoteristas, é: "Ó Deus, nomeai o guardião de vosso cuidado amoroso para vigiar a nossa casa interior, para afastar de nós as tentações de Satã e os truques dos desejos carnais."
Todos começam esse caminho a partir de sua própria posição. O Alcorão é uma tapeçaria de dupla face. Alguns desfrutam de um lado dele e alguns do outro. Ambos são verdadeiros, uma vez que Deus deseja que todos se beneficiem dele.
Do mesmo modo, uma mulher tem um marido e uma criança. Cada um desfruta dela de uma forma diferente. O prazer da criança está no seu seio e seu leite. O prazer do marido está nas relações sexuais com ela.
Algumas pessoas são crianças do Caminho - derivam prazer do sentido literal do Alcorão e bebem aquele leite. Mas aqueles que atingiram anos de plena discrição têm outro desfrute e uma compreensão diferente dos significados interiores do Alcorão.
A estação e local de oração de Abraão é um certo local na Kaaba onde os literalistas dizem que duas prostrações de oração devem ser realizadas.
Isso é de fato excelente, por Deus. Mas de acordo com os Sufis, a estação de Abraão é aquele estado interno onde você se atiraria no fogo pelo Amor de Deus, chegando a este lugar através de trabalho e esforço em nome de Deus. Ali, as pessoas podem sacrificar a si mesmas pelo amor de Deus, o seu próprio Ser não tem lugar em seus olhos, e elas deixam de tremer por si mesmas. Realizar duas prostrações de oração na estação de Abraão é excelente, mas faça com que esse colocar-se de pé seja realizado neste mundo e o prostrar-se ser no outro mundo.
A verdadeira Kaaba é o coração dos profetas e dos santos, o locus da revelação de Deus. A Kaaba física é um ramo disso. Se não fosse para o coração, qual seria a utilidade da Kaaba? Os profetas e os santos abandonam seus próprios desejos e seguem a vontade de Deus. O que quer que Deus mande, eles fazem. Para aqueles a quem Deus nega a graça, os santos são indiferentes – na verdade em seus olhos tais pessoas são inimigas.
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Em Tuas mãos colocamos as rédeas do nosso coração.
O que quer que declares cozido, nós declaramos queimado!
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Tudo que eu digo é uma comparação. Comparação é uma coisa, e equivalência é outra. Nós assemelhamos Deus a uma lâmpada para efeito de comparação e os santos são equiparados ao vidro dessa lâmpada. A luz de Deus não é contida por nenhum ser ou espaço, portanto, como poderia ser contida pelo vidro da lâmpada? Como pode a abrangência de Sua Luz ser contida em um coração? Ainda assim, procurando no coração você a encontra. Não como numa caixa que contém Aquela luz, mas do coração você encontra essa Luz radiando. Assim como quando você encontra sua imagem num espelho, mas sua imagem não está no espelho em si. Ainda assim, quando você olha no espelho vê a si mesmo.
Por meio da comparação todas as sutilezas se tornam inteligíveis e, uma vez inteligíveis, os sentidos podem compreendê-las. Assim, eles dizem que no outro mundo os livros irão voar, alguns para a mão direita e alguns para a esquerda. Existem também os anjos, o trono, o céu e o inferno, a balança, a conta a ser acertada e o livro: nada disso fica claro até que uma analogia seja feita. Não existe nenhuma semelhança com qualquer dessas coisas neste mundo, mas através de comparação elas podem ser conhecidas.
Por exemplo, de noite, todas as pessoas dormem, igualmente o sapateiro e o rei, o juiz e o alfaiate. Uma vez adormecidos, seus pensamentos tomam asas e nenhum pensamento permanece para qualquer um deles. Então, ao amanhecer, é como se o sopro da trombeta de Israfil trouxesse vida para os átomos de seus corpos e os pensamentos de cada um, como pergaminhos do próximo mundo, voam precipitadamente para cada pessoa, sem qualquer erro, os pensamentos do alfaiate para o alfaiate, os pensamentos do advogado para o advogado, os pensamentos do ferreiro para o ferreiro, os pensamentos do oprimido para o oprimido, os pensamentos dos justos para os justos.
Alguém vai dormir como um alfaiate e acorda no dia seguinte como um sapateiro? Não, pois aquele ofício pertence a ele, e, dessa forma, ele assume a mesma ocupação de antes. A partir disso você pode ver que a afinidade de cada pessoa continua no outro mundo. Isso faz sentido, porque neste mundo vemos a mesma coisa.
Se continuarmos com a comparação até chegarmos ao final da presente discussão, iremos assistir a todos os Estados do outro mundo neste mundo. Deste mundo iremos farejar todas as circunstâncias que correspondem ao outro mundo, e veremos que todas as coisas estão contidas na onipotência de Deus. Muitos são os ossos apodrecendo em suas sepulturas, mas gozando o doce repouso e o sono embriagado daquele gozo e intoxicação. Estas não são palavras ociosas, como diz o ditado: "Que a poeira repouse doce sobre eles!" Se a poeira não tinha consciência da doçura, porque é que alguém diria uma coisa dessas?
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Rezo para que o ídolo de face redonda
possa viver uma centena de anos,
Meu coração fiel seja um recipiente
Para as poças das lágrimas dela.
Na poeira de sua porta meu coração
Tão feliz, morreu feliz, Orando:
“Senhor, possa a poeira dela
Permanecer alegremente para sempre!"
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Um casal está dormindo num colchão. A mulher vê-se em meio a um banquete, num jardim de rosas e no Paraíso, o homem se vê no meio de cobras, dos guardiões do inferno e de escorpiões. Se você investigar, não verá nem Paraíso nem Inferno. Por que, então, deveria ser uma surpresa que os restos mortais de alguns, mesmo no túmulo, experimentem prazer, descanso e intoxicação, enquanto alguns estão em dor, tormento e agonia, e ainda você não pode ver nem prazer nem dor? Portanto, o invisível torna-se sensível através da utilização de comparação.
Comparação é uma coisa, equivalência é outra. O Gnósticos dão o nome de "Primavera", para relaxamento, felicidade e expansão.
Chamam de "Outono", contração e tristeza. Qual é a real semelhança entre a felicidade e a Primavera, a tristeza e o Outono? Porém, sem esta comparação o intelecto não pode conceber e compreender o significado. Portanto, o Alcorão declara:
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"Não são iguais, os cegos e aqueles com visão,
As sombras e a luz,
O lugar abrigado do sol e o calor tórrido."
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Aqui, a fé é comparada à luz e a incredulidade às sombras, mas a fé poderia estar relacionada com uma deliciosa sombra e a incredulidade a um impiedoso sol queimante, fervendo o cérebro. Qual é a semelhança entre a brilhante sutileza da fé e a luz deste mundo ou entre as trevas sórdidas da incredulidade e da escuridão que conhecemos durante a noite?
Você vê este homem que adormeceu enquanto nós estávamos falando? Este sono não é um sinal de desatenção, mas de segurança e proteção. Assim como numa caravana viajando ao longo de uma difícil e perigosa estrada numa noite escura, as pessoas dirigem com medo, pensando que algum dano possa ocorrer. Mas logo que a voz de um cão, ou um galo, atinge seus ouvidos e que encontram uma aldeia, eles ficam despreocupados, estendem suas pernas e dormem docemente. Na estrada, onde não havia nenhum som ou murmúrio que os perturbasse, eles não podiam dormir por causa do medo. Mas na aldeia encontram segurança e com todo o latido de cães e o canto dos galos, ainda assim ficam felizes e caem no sono.
As nossas palavras também derivam da comunidade e segurança, são as palavras dos profetas e dos santos. Quando a alma ouve as palavras daqueles amigos familiares, ela se sente segura e é livrada de qualquer receio, pois sobre essas palavras paira um perfume de esperança e felicidade.
Assim como aqueles viajantes naquela noite escura pensavam que a cada momento ladrões estavam misturando-se com sua caravana, e assim, desejavam ouvir as palavras dos seus companheiros viajantes para reconhecê-los por suas palavras, assim que ouviam seus amigos falarem, sentiam-se seguros. O mesmo acontece com você. Porque sua essência é sutil, olhares não são suficientes para nós, mas se você falar ouviremos então aquele amigo familiar de nossos espíritos e nos sentiremos seguros e em paz. Então fale!
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Um certo rato habitando um milharal, sendo tão pequeno, é invisível, mas uma vez que ele faça um som, é possível reconhecê-lo por meio de seu som. Da mesma maneira, as pessoas estão totalmente imersas no milharal deste mundo e sua essência, sendo extremamente sutil, é invisível. Portanto, fale, para que eles possam reconhecer você.
Quando queremos ir a um determinado local, nosso coração vai lá primeiro para experimentar as condições dali. Então nosso coração retorna e chama nosso corpo para ir junto. Agora todos os homens e mulheres deste mundo são como corpos em relação aos santos e aos profetas, que são o coração deste mundo. Estes seres do coração percorrem primeiro o outro mundo, deixando os seus atributos humanos de carne e pele. Examinam as profundezas e as alturas daquele mundo e percorrem todos os estágios, até que conheçam o caminho. Então, voltam e convocam a humanidade, dizendo: "Venham para o mundo original! Pois este mundo é uma ruína vazia e desoladora em comparação com o jardim que descobrimos."
A partir disso, você deveria perceber que o coração está sempre acompanhando o seu amado e não tem qualquer necessidade de atravessar os estágios, não há necessidade de temer os ladrões da estrada, nem de prender a bagagem na mula. É o corpo miserável que está ligado a estas coisas.
Eu disse para meu coração:

"Como é que você está impedido do serviço
Daquele cujo nome você abençoa? "
Meu coração respondeu:
"Você interpreta mal os sinais.
Estou constantemente a serviço Dele,
Você é quem está perdido."

Onde quer que você esteja, não importa o que possa acontecer, esforce-se sempre para ser um amante, um amante apaixonado. Quando o amor se tornar sua propriedade você será eternamente um amante , na sepultura, na ressurreição ou no Paraíso, para sempre e sempre. Quando você semeou trigo, certamente o trigo vai crescer, estoques de trigo vão encher os galpões, pães de trigo vão encher o forno.
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Quando Majnun quis escrever uma carta para Laila, ele tomou uma caneta em sua mão e escreveu:
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Seu nome está em minha língua,
Sua imagem está dentro de minha visão,
Sua memória enche o meu coração,
Onde posso escrever, então?
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Sua imagem habita a minha visão, o seu nome nunca deixa a minha língua, sua memória ocupa as profundezas da minha alma, por isso, onde vou escrever, vendo que Você está aqui em todos esses lugares? A caneta quebrou e a folha foi rasgada.
Muitos são aqueles cujo coração está repleto de tal realidade, mas que não podem expressá-la por meio de discurso e de palavras. Isso não é surpreendente e não representa um limite para aquele amor. Pelo contrário, a raiz da questão é o coração, o anseio e a paixão. A criança está apaixonada pelo leite e do leite ela deriva socorro e força, ainda assim a criança não pode explicar o leite ou descrevê-lo, dizendo: "Que prazer encontro ao beber leite e quão fraco e angustiado eu ficaria sem ele." A criança não tem palavras para o leite, ainda assim deseja o leite. A maioria das pessoas crescidas, por outro lado, embora possa descrever o leite de mil maneiras, ainda assim não encontra no leite tal prazer ou deleite como encontrava quando era criança.

domingo, 12 de julho de 2009

Hazrat Inayat Khan - 17 de maio de 1924


A Doutrina do Karma

Na teologia hindu, a doutrina do karma é muito mais enfatizada do que nas religiões dos Beni Israel (filhos de Israel). Por teologia hindu não me refiro apenas à Vedântica ou Bramânica, mas me refiro também à Budista. Por religião dos Beni Israel eu não queria dizer a judaica apenas, mas também a cristã e a muçulmana. Toda a teoria da filosofia hindu baseia-se na doutrina do karma. A moral dos Beni Israel é também baseada no karma. A única diferença é que de um lado a moral é baseada no karma e do outro lado a filosofia é baseada no karma. E agora, qual é o significado da palavra karma? O significado da palavra karma é ação. É bem evidente que nós colhemos aquilo que semeamos. O presente é o eco do passado, o futuro é a reflexão do presente, e, portanto, é lógico que o passado faz o presente e o presente faz o futuro. No entanto, na escola Sufi pouco é falado sobre este assunto. E muitas vezes as pessoas interessadas na doutrina do karma começam a se perguntar: "Porque é que o Sufismo não fala sobre o assunto? Ele se opõe a ele?" E a resposta é que de maneira nenhuma ele faz oposição à doutrina do karma. Mas a maneira como um Sufi olha para isso, faz com que ele não possa fazer nada senão fechar os lábios.
Em primeiro lugar, o que uma pessoa chama de certo ou errado, está de acordo com o próprio conhecimento dela. Ela chama de certa uma coisa que conhece como sendo correta, o que aprendeu a chamar de certo. Chama de errado o que aprendeu a chamar de errado. E desta forma, havendo diferentes nações, comunidades, raças, suas concepções de certo e errado podem diferir. Uma pessoa acusa a outra de estar errada apenas fundamentada naquilo que conhece como errado. E como é que ela sabe que aquilo está errado? É porque ela aprendeu isso, leu num livro ou lhe foi falado. As pessoas têm olhado com horror, com ódio, com preconceito para as ações umas das outras, para ações de indivíduos, comunidades, nações e raças. E ainda não existe um rótulo, não há qualquer carimbo, não há selo sobre as ações que lhes aponte estarem certas ou erradas. Esse é um aspecto da questão.

Agora, a outra maneira de olhar para isso é: A cada etapa da evolução, a concepção do homem sobre o bem e o mal, o certo e o errado, muda. E você pode me perguntar: "Como é que muda? Será que ele vê muitos erros, ou menos erros conforme ele evolui?" Poderíamos naturalmente pensar que em virtude de nossa evolução deveríamos ver mais erros. Mas não é esse o caso. Quanto mais a pessoa evolui menos erros ela vê. Então não é sempre a ação, é o motivo por trás dela.
Às vezes uma ação aparentemente errada, pode estar certa, tendo em conta a motivação por trás dela. Por isso, o ignorante está pronto para formar uma opinião a respeito da ação da outra pessoa, mas para o sábio, é muito mais difícil formar uma opinião a respeito da ação do outro.
Agora vindo para a idéia religiosa. Se um homem evolui espiritualmente, ele vê cada vez menos erros em cada momento de sua evolução. Como pode Deus estar contando as pequenas falhas dos seres humanos, que sabem tão pouco sobre a vida? Lemos na Bíblia: "Deus é amor." O que significa o amor? Amor significa perdão, amor significa não julgar. Quando as pessoas fazem de Deus um juiz cruel, sentado no trono da justiça, pegando cada pessoa e perguntando-lhe das suas falhas, julgando-a pelas suas ações, sentenciando-a, depois mandado-a embora do céu, aonde está o Deus do amor aí?
Agora, deixando a idéia religiosa de lado e chegando na filosofia: o homem é uma máquina ou é um engenheiro? Se é uma máquina, então ele tem de continuar por anos e anos e anos sobre um tipo de ação mecânica de suas más ações, e se ele é uma máquina, então ele não é responsável pelos seus atos. Se é um engenheiro, então, é responsável pelos seus atos. Mas se ele é responsável por suas ações, então é o comandante de suas ações, o comandante do seu destino. Se ele é um engenheiro, então, é o mestre do seu destino; ele cria seu destino como deseja. Tomando esse ponto de vista, o Sufi diz: "É verdade, se as coisas estão erradas comigo, é efeito das minhas ações. Mas isso não significa que eu deveria submeter-me ao destino, que eu deveria resignar-me a ele porque ele é resultado das minhas ações passadas. Mas sim, que devo fazer o meu destino, porque eu sou o engenheiro."
A diferença é a seguinte: eu vi uma pessoa dizer: "Tenho estado doente durante tantos anos mas tenho sido resignado a isso. Tenho aceitado bem, pois é o meu karma, estou pagando de volta." Assim, ele pode prolongar para a vida toda o pagamento que talvez fosse de dez anos. O Sufi, neste caso, não age apenas como um paciente mas como um médico para si próprio ao mesmo tempo. Ele diz: "A minha condição é ruim? É o efeito do passado? Vou curar isso. O passado trouxe o presente mas neste meu presente farei o futuro." Significa apenas que ele não permite que as influências do passado dominem a sua vida, ele quer justamente agora produzir a influência para tornar sua vida melhor.
Mas além disso, existe um assunto ainda mais essencial relacionado a isso. Antes de uma pessoa assumir para si a responsabilidade de pagar pelo passado, ela se pergunta: "O que eu era no passado?" Se ela não sabe, por que deve manter-se responsável por isso? Você só pode ser responsável por algo com que sua consciência esteja tingida. E é bastante suficiente carregar seu fardo na vida. Por que acrescentar a esse fardo uma carga do passado desconhecido? Mas, além disso, quando você olha para si mesmo filosoficamente, o que você encontra? Quanto mais aguçada a sua visão se torna, menos você pode encontrar fragmentos de si mesmo. Quanto mais consciente da realidade você se torna, menos consciente você fica de seu ser pequeno. E todo esse fardo das ações passadas é assumido pelo homem sem que ele o convidasse. Ele poderia muito bem ter apenas ignorado. Isso não lhe dá nenhum benefício, só lhe dá um momento de satisfação, pensar que: "É justo eu estar neste problema", e essa justiça fortalece o seu problema. A dor que poderia ter terminado, continua porque ele fortaleceu a dor. O principal objetivo do trabalho esotérico é colocar de lado aquele pensamento de si mesmo - O que eu era? O que eu sou? E o que irei ser? Ponha-o de lado por um momento. Podemos nos ocupar o bastante se pensarmos sobre a vida como um todo, o que é ela? O que deveria ter sido? O que será? É essa idéia que produz uma espécie de ponto de vista sintético e que une em vez de dispersar. É construtiva e o segredo da libertação espiritual é para ser encontrado nela. Os Brahmins, os Vedantistas, os Budistas, que mantêm a idéia do karma como a principal doutrina, assim que tocam a idéia da meta que deve ser atingida pela espiritualidade, a qual chamam de Mukti ou Nirvana, elevam-se acima da idéia do karma. Pois a condição é que a menos que uma pessoa tenha ido acima dessa idéia, ela não toca o nirvana. O significado verbal de Nirvana é -Vana é cor, e nir significa não, sem - sem rótulo, sem cor, sem divisão. É ver a vida toda como Una, realizando isso. É ai que está o segredo do Nirvana.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Hafiz - Uma sede danada

Primeiro
o peixe precisa dizer:
"Algo não está certo neste
passeio de camelo.
Estou
sentindo
uma sede tão danada!"

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Meher Baba - God Speaks - A Criação e seu Propósito

Todas as almas (atmas) estiveram, estão e estarão, na Sobre-Alma (Paramatma). As almas (atmas) são todas Uma. Todas as almas são infinitas e eternas. Elas são sem forma. Todas as almas são Uma, não há diferença nas almas ou em seu ser e existência como almas. Existe uma diferença na consciência das almas, existe uma diferença nos planos de consciência das almas, existe uma diferença na experiência de almas e, portanto, há uma diferença no estado das almas. A maioria das almas está conscientes do corpo grosseiro (sthul sharir); algumas almas estão conscientes do corpo sutil (pran); poucas almas estão conscientes do corpo mental (mente ou mana); e muito poucas almas estão conscientes do Ser (Self). A maioria das almas tem experiência da esfera grosseira (mundo grosseiro); algumas almas têm experiência da esfera sutil (mundo sutil); poucas almas têm experiência da esfera mental (mundo mental), e muito poucas almas têm a experiência da Sobre-Alma. A maioria das almas se encontra no plano grosseiro (anna bhumika); algumas almas estão no plano sutil (pran bhumika); algumas almas estão no plano mental (mano bhumika) e muito poucas almas estão no plano além do plano mental (vidnyan).
A maioria das almas tem grandes limitações; algumas almas têm poucas limitações; poucas almas têm muito poucas limitações e muito poucas almas têm absolutamente nenhuma limitação. Todas estas almas (atmas) de consciência diferente, de experiências diferentes, de estados diferentes estão na Sobre-Alma (Paramatma). Se, agora, todas as almas estão na Sobre-Alma e são todas uma, então por que razão há qualquer diferença na consciência, nos planos, nas experiências e nos estados? A causa dessa diferença é que as almas têm diferentes e diversas impressões (sanskaras).* A maioria das almas têm impressões grosseiras; algumas almas têm impressões sutis; poucas almas têm impressões mentais, e muito poucas almas não têm impressões alguma. Almas com impressões grosseiras, almas com impressões sutis, almas que têm impressões mentais e as almas que não têm impressões, são todas as almas na Sobre-Alma e são todas Uma. Almas com impressões grosseiras têm consciência do corpo grosseiro (sthul sharir) e têm experiência da esfera grosseira. Almas com impressões sutis têm consciência do corpo sutil (pran) e têm a experiência da esfera sutil. Almas com impressões mentais têm consciência do corpo mental (mana ou mente) e têm a experiência da esfera mental. Almas sem impressões têm consciência do Ser (alma, atma) e têm a experiência da Sobre-Alma (Paramatma).
* Para explicação mais detalhada sobre os Sanskaras, utilize a ferramenta 'Pesquizar Blog' no topo da página, escrevendo a palavra Sanskaras.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Tukaram (poeta e santo indiano, 1608-1649)

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Menor que o menor átomo,

Abrangindo tudo como os céus.

Tuka vê o mundo objetivo.

(Vê os nomes e as formas como ilusões)

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Realiza sua verdadeira natureza.

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Como a serpente, abandona seu invólucro.

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A fileira tripla que a alma acaba de atravessar,

é deixada longe para trás.

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A luz ilumina o jarro de barro!

Brilhando nessa luz Tuka age,

Vivendo na terra para servir a humanidade.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Farid ud-Din Attar - História sobre um rico mercador

Um comerciante rico em mercadorias e capitais tinha uma escrava doce como o açúcar. Decidiu um dia vendê-la, porém ficou desconsolado bem depressa; arrependeu-se de seu ato e ficou confuso e agitado. Em seu desespero, foi procurar o novo senhor daquela escrava, oferecendo-lhe mil peças de ouro para tê-la de volta. Seu coração ardia de anseio, porém o novo dono não quis vendê-la. Em consequência disso, o mercador andava sem descanso pelas ruas, atirando pó sobre a cabeça. Gemia e falava para si mesmo: “Mereço a dolorosa pena que experimento, de fato é a justa retribuição de minha falta, pois, por loucura, depois de ter costurado meu olho e minha razão, vendi minha senhora por uma cabeça de ouro. Pensar que eu mesmo causei-me este prejuízo num dia de bazar, depois de tê-la adornado para vendê-la com bom lucro”.

Cada uma das respirações que medem tua existência é uma pérola, e cada um de teus átomos é um guia para levar-te a Deus. Os favores desse Amigo cobrem-te da cabeça aos pés; manifestam-se visivelmente em ti. Se conhecesses o Ser do qual estás afastado, como poderia suportar essa separação? Deus cuidou de ti com centenas de olhares e atenções, e tu, por ignorância, negligenciaste a companhia Dele.

sábado, 27 de junho de 2009

sexta-feira, 26 de junho de 2009

G. I. Gurdjieff - Quinta-feira, 30 de setembro de 1943


Pergunta: Eu careço de impulso para meu trabalho. Não tenho sucesso em me aproximar do trabalho de maneira satisfatória a menos que eu sinta um certo impulso que pode vir para mim apenas através de uma realização clara da minha situação e da minha nulidade atual. Eu tenho entendido isso muito claramente. E isso fez-me compreender que devo ter remorso de consciência por essa nulidade. Mas eu não consigo ir além dessa afirmação. O que devo fazer para ter remorso de consciência?

Gurdjieff: Essa questão carrega com ela sete aspectos; não um, mas sete. Um eu vou lhe falar: Todo homem quando vem a este mundo, vem por certas razões. Existem causas, isto é, forças externas o criaram. Essas forças talvez não fossem obrigadas a lhe dar a vida. Você está contente em estar vivo? A vida vale algo para você? Bem, então se você está vivo e feliz por isso, você deveria pagar algo em troca. Por exemplo, eu vejo sua mãe aqui. Se não fosse por ela, você nunca teria vindo a este mundo. É a ela que você deve sua vida. Se você está feliz por estar vivo, você deve reembolsá-la. Você já está velho, chegou a hora de você liquidar suas dívidas. Uma das principais causas de você estar vivo é a sua mãe. É por causa dela que você tem seus prazeres e e possibilidades de se desenvolver. Uma das razões, um dos aspectos da sua vinda a esse mundo é, portanto, sua mãe. E eu lhe pergunto, você já começou a pagar seus débitos com ela?
Pergunta: Não.
Gurdjieff: Existem ainda seis outros aspectos. Mas eu falo para você de um aspecto. Comece, então, por esse primeiro aspecto: sua mãe. Restitua sua mãe.
Mesmo se ela for objetivamente má, ela é sua mãe. E como você pode pagar a ela? Você deveria unificar a vida dela. Mas em vez disso, o que você faz? Você torna a vida dela mais difícil. Você a chateia, a irrita. Inconscientemente, remorso de consciência poderia fluir disso. Tome o ano que acabou de passar, lembre: frequentemente você tem sido muito mau. Você é um merda. Você não cumpre com suas obrigações. Se você entendeu isso, o remorso pode começar a atuar em você. Esse é apenas um aspecto. Eu poderia explicar para você outros seis, mas esqueça-os. Antes de saber deles, comece por esse. Pelos últimos dois anos, quantas vezes você foi mau, muito mau, para ela? Lembre-se disso e tente reparar o passado com seu futuro no presente. É uma coisa muito difícil. Se você esquece, se você não faz isso, é culpa sua e duplamente sua culpa; primeiro você é culpado pelo passado; e você é culpado pela segunda vez por não reparar isso hoje. Uma boa resposta, não é? Todo mundo aqui está contente. Exceto uma pessoa – você sabe quem? A sua mãe. Madame, é pelo benefício do seu filho que eu digo isso.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Nisargadatta Maharaj - 21 de agosto de 1980


Maharaj: Não estou muito interessado em ter pessoas aqui ficando mais do que oito ou dez dias, o que quer que tenham entendido, elas têm de digerir, nenhum discurso adiante irá alcançá-las.
Presumindo que a pessoa seja inteligente, tendo saído daqui e ido para outro lugar, ela não conseguirá ficar sozinha – irá desejar a companhia de alguém de modo que ela possa transmitir os bens da espiritualidade. Ela irá querer a companhia de outras pessoas com quem possa discutir espiritualidade – de outra maneira irá sentir-se muito infeliz. Você se sentirá feliz e satisfeito se não encontrar outros sadhakas?
Pergunta: Ah sim. Isso é um ponto necessário para um buscador sério – passar pelo estágio onde ele gostaria de compartilhar seu conhecimento com os outros?
M: Isso é uma parte, mas também deve chegar a um fim. O estado mais elevado é o estado não nascido no qual não há experiência da mente. Investigue o conceito “eu sou”. No processo de tentar encontrar sua verdadeira identidade você pode até mesmo abandonar o Ser, e ao abandonar o Ser, você é Aquilo.
[Maharaj está olhando para alguns pardais na janela] A consciência vivendo dentro do pardal e a consciência vivendo neste corpo é a mesma. Aqui o instrumento é grande, neles é menor. Os pardais estão planejando por comida, a barriga deles não está cheia. Todas as espécies estão sofrendo; a própria criação em si está sofrendo.

Todos esses conceitos sobre renascimento, etc... A chuva tem renascimento? O fogo? O ar? Em suma, isso é uma mera transformação dos cinco elementos. Você pode chamar de renascimento.
No processo desta busca espiritual, tudo irá acontecer no reino desta consciência. Você finalmente tropeça, ou culmina, no estado absoluto Parabrhaman, o qual é sem desejos.
Eu compreendi e transcendi o 'sentido de ser' (beingness). Suponha que eu viva por mais 100 anos: estado desperto, sono e 'sentido de “eu sou”' (I amness). - qual é a utilidade disso? Estou farto disso.
Não tenho nenhuma identidade exclusiva para mim mesmo. Qualquer identidade que eu tenha é o jogo dos cinco elementos e é universal. Sendo que não há muito que possa ser dito sobre meu estado, não vou manter as pessoas por muito tempo. Apenas repartirei algum conhecimento e falarei para elas irem embora. Com esse conhecimento profundo, neste nível, elas não estão aptas a entender. Que benefício podem obter?


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Pergunta: O principal obstáculo reside na nossa idéia de tempo, no nosso hábito de antecipar um futuro sob a luz do passado. A soma total do passado torna-se o “eu era”, a esperança pelo futuro torna-se o "eu vou ser"e a vida é um constante esforço de atravessar do “eu era' para o que “eu vou ser”. O momento presente, o "agora" é perdido de vista. Maharaj fala do “Eu sou”. Esse “eu sou” é uma ilusão, como o 'eu era' e “eu vou ser”, ou existe algo real em relação a ele? E se o 'eu sou' é também uma ilusão, como fazemos para nos livrarmos dele? A própria noção de “eu sou” livre de “eu sou” é um absurdo. Existe algo real, algo duradouro a respeito do "eu sou" em distinção com o "eu era", ou "eu vou ser", que muda com o tempo, tal como memórias formadas que criam novas expectativas?

Maharaj: O 'eu sou' atual é tão falso quanto o "eu era” 'e o “eu serei". É apenas uma idéia na mente, uma impressão deixada pela memória, e a identidade separada que ele cria é falsa. Este hábito de se referir a um falso centro deve ser abandonado, o conceito: "eu vejo", "eu sinto”, “eu penso”, “eu faço”, deve desaparecer do campo da consciência, o que sobra quando o falso não está mais, é real.

P: O que é essa grande conversa sobre eliminar o Ser (self)? Como pode o Ser eliminar a si mesmo? Que tipo de acrobacia metafísica pode levar ao desaparecimento do acrobata? No final ele irá reaparecer, poderosamente orgulhoso do seu desaparecimento.
M:Não é necessário perseguir o "eu sou" para matá-lo. Você não pode. Tudo o que você necessita é um sincero anseio pela Realidade. Chamamos isso de atma-bhakti, o amor do Supremo: ou Moksha-sankalpa, a determinação de se livrar do falso. Sem amor, e vontade inspirada pelo amor, nada pode ser feito. Simplesmente falar sobre a Realidade sem fazer nada a esse respeito é auto-derrotador. Deve haver amor na relação entre a pessoa que diz 'Eu sou' e o observador desse 'eu sou'. Enquanto o observador, o Ser interior, o Ser “superior", considerar-se aparte do que é observado, o ser “inferior”, desprezá-lo e condená-lo, a situação é desesperadora. É apenas quando o observador (vyakta) aceita a pessoa (vyakti) como uma projeção ou uma manifestação de si próprio, e, por assim dizer, leva o ser para dentro do Ser, a dualidade do 'Eu' e 'esse' se vai e na identidade do exterior e do interior a Suprema Realidade manifesta-se. Essa união daquele que vê com aquilo que é visto acontece quando o que vê se torna consciente de si mesmo como sendo o que vê, ele não está somente interessado naquilo que é visto, que de qualquer forma é ele, mas também está interessado em estar interessado, dando atenção à atenção, consciente de estar consciente. Consciência afetuosa é o fator crucial que traz a Realidade para dentro do foco.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Lao Tzu - Tao te Ching - Praticar a Eternidade

No princípio era o Tao.
Todas as coisas derivam dele;
todas as coisas retornam a ele.


Para encontrar a origem,
rastreie as manifestações.
Quando você reconhecer a criança
e encontrar a mãe, estará livre dos pesares.


Se você fecha sua mente em julgamentos
e trafega com os desejos,
seu coração será perturbado.
Se você evitar sua mente de julgar
e não for levado pelos sentidos,
seu coração encontrará paz.


Ver na escuridão é claridade.
Saber como render-se é força.
Use sua própria luz
e retorne para a fonte da luz.
Isso é chamado de - praticar a Eternidade.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Jalaluddin Rumi - Com você aqui no meio

Os amantes trabalham para que quando o corpo e a alma
não estiverem mais juntos,
seu amor seja livre.

Lave-se na água da sabedoria para que você não tenha arrependimentos
sobre o tempo aqui.

O amor é o âmago vital da alma,
e de tudo o que você vê, apenas o amor é infinito.
Sua não-existência antes de você nascer
é o céu no oriente.

Sua morte é o horizonte no ocidente,
com você aqui no meio.
O caminho não conduz nem ao oriente nem ao ocidente,
mas internamente.

Teste suas asas do amor e torne-as fortes.
Esqueça a idéia de escada religiosa.
O amor é o telhado. Seus sentidos são as calhas.
Beba a chuva diretamente do telhado.

A calhas danificam-se facilmente
e frequentemente tem de ser substituídas.
Diga este poema em seu peito.
Não se preocupe em como ele soa
saindo de sua boca.

O corpo humano é um arco.
A respiração e a fala são flechas.
Quando a aljava e as flechas são usadas ou se perdem,
não há nada mais para o arco fazer.

Bhagavan Ramana Maharshi - O Propósito

Devoto: Qual é o propósito da autorealização?
Bhagavan: A autorealização é a meta final e é em si mesma o propósito.
D.: Eu quero dizer, qual é a utilidade disso?
B: Por que você pergunta sobre autorealização? Por que você não descansa contente com o seu estado atual? É evidente que você está descontente e seu descontentamento chegará ao fim se você realizar a si mesmo (realizar o Ser).
D: Qual é o objetivo deste processo?
B: Perceber o Real.
D: Qual é a natureza da realidade?
B: (a) Existência sem começo ou fim – eterna. (b) Existência em toda parte, interminável - infinita. (c) Existência sublinhando todas as formas, todas as mudanças, todas as forças, toda matéria e todo espírito. Os muitos mudam e morrem, enquanto que o Um sempre perdura . (d) O Um desloca as tríades, tais como – o conhecedor, o conhecimento e o conhecido. As tríades são apenas aparências no tempo e no espaço, ao passo que a Realidade situa-se além e por trás delas. Elas são como uma miragem sobre a realidade. São resultado de uma ilusão.
D: Se eu também sou uma ilusão, quem abandona a ilusão?
B: O 'Eu' abandona a ilusão de "eu" e ainda assim continua 'Eu'. Tal é o paradoxo da autorealização (ou realização do Ser). O Realizado não vê qualquer contradição nisso.
Algumas pessoas vêm aqui e não me perguntam sobre si mesmas, mas sim sobre o Jivanmukta (aquele que foi liberado enquanto ainda estava encarnado). Elas perguntam: 'O realizado vê o mundo?' 'Ele está sujeito ao destino?' 'Podemos ser liberados apenas após deixarmos o corpo ou é possível enquanto ainda estivermos vivos?' 'O corpo de um Sábio dissolve-se na luz ou desaparece de uma maneira milagrosa?' Suas perguntas são infinitas. Por que se preocupar com todas essas coisas? A Liberação consiste em saber a resposta para essas perguntas? Então eu lhes digo: 'Não se preocupem a respeito da Liberação. Em primeiro lugar, descubram se existe algo como a escravidão. Examine a si mesmo primeiro.' Em certo sentido, falar da autorealização é uma ilusão. É só porque as pessoas têm estado sob a ilusão de que o não-ser é o Ser e o irreal é o Real, que elas têm que ser tiradas disso por meio de outra ilusão chamada autorealização; porque, na realidade, o Ser é sempre o Ser e não existe tal coisa como realizar o Ser. Quem é para realizar o que, e como, quando tudo o que existe é o Ser e nada mais que o Ser (Self)?

D: Nós vamos para Svarga (o céu), pelo resultado de nossas ações aqui?
B: O céu é tão real quanto a sua vida presente. Mas se nos perguntarmos quem somos nós, e descobrirmos o Ser, qual é a necessidade de pensar sobre o céu?
D: O Vaikunta (céu), está no Ser Supremo?
B: Onde está o Ser Supremo ou o céu, senão em você?
D: Mas o céu pode aparecer para a pessoa involuntariamente.
B: O mundo aparece voluntariamente?
D: Deve haver fase após fase de progresso antes de se atingir o Absoluto. Existem diferentes níveis de realidade?
B: Não existem níveis de Realidade, existem apenas níveis de experiência para o indivíduo, não de Realidade. Se alguma coisa pode ser adquirida, que não estava lá antes, também pode ser perdida; enquanto que o Absoluto é eterno, aqui e agora.
Pode um homem tornar-se um oficial de alto escalão apenas ao ver um deles passar? Ele pode se tornar um, somente esforçando-se e equipando-se para a posição. Do mesmo modo, pode o ego, que está em cativeiro sendo a mente, tornar-se o Divino Ser simplesmente porque uma vez teve um vislumbre de que ele é o Ser? Isso não é impossível sem a destruição da mente? Pode um mendigo tornar-se um rei por apenas visitar um rei, e declarar-se como sendo um?

D: A autorealização pode ser perdida novamente após ter sido atingida?
B: A Realização leva tempo para estabilizar a si mesma. O Ser certamente está dentro da experiência direta de todos, mas não da forma como as pessoas imaginam. Só se pode dizer que ele é como é. Assim como os encantos ou outros dispositivos podem evitar que o fogo queime um homem enquanto que de outro modo o queimaria, também os vasanas (tendências inerentes que nos impelem a desejar uma coisa e repelir outra), podem velar o Ser enquanto de outro modo Ele seria evidente. Devido às flutuações dos vasanas, a Realização leva tempo para estabilizar-se. A Realização espasmódica não é suficiente para impedir o renascimento e não pode tornar-se permanente enquanto existirem os vasanas. Na presença de um grande mestre, os vasanas deixam de ser ativos e a mente torna-se quieta para que resulte o samadhi (a absorção na Realização). Assim como na presença de vários dispositivos de incêndio o fogo não queima, também assim o discípulo ganha conhecimento verdadeiro e experiência direta na presença de um mestre. Mas se o objetivo é se estabelecer, esforço adicional é necessário. E então, o conhecerá como sendo seu verdadeiro Ser e, portanto, será liberado enquanto ainda vivo. Você é o Ser mesmo agora, mas você confunde sua atual consciência ou o seu ego com a Consciência Absoluta ou, o Ser (Self). Essa falsa identificação é devida à ignorância e a ignorância desaparece juntamente com o ego. Matar o ego é a única coisa a ser feita. A Realização já existe, nenhuma tentativa precisa ser feita para tentarmos alcançá-la. Porque ela não é em nada novo ou externo a ser adquirido. É sempre e em toda parte - aqui e agora, também.
D: Esse método parece ser mais rápido do que aquele habitual, o da pessoa cultivar as virtudes que são alegadas como sendo necessárias para a Realização.
B: Sim. Todos os vícios estão ao redor do ego. Quando o ego se vai a Realização resulta naturalmente.

D: Um Iogue pode saber sobre suas vidas passadas?
B: Você conhece a vida presente tão bem que você deseja saber a passada? Descubra a presente, depois o resto se seguirá. Mesmo com o seu atual conhecimento limitado, você sofre muito. Por que deveria você sobrecarregar-se com mais conhecimento? É para sofrer mais?
D: Bhagavan utiliza poderes ocultos para fazer com que os outros realizem o Ser ou o simples fato da Realização de Bhagavan é o suficiente para isso?
B: A força da Realização espiritual é muito mais poderosa do que a utilização de todos os poderes ocultos. Na medida em que não há ego no Sábio, não há "outros" para ele. Qual é o maior benefício que pode ser atribuído a você? É a felicidade e a felicidade é nascida da paz. A paz só pode reinar onde não haja perturbação e a perturbação deve-se aos pensamentos que surgem na mente. Quando a própria mente estiver ausente, haverá perfeita paz. A menos que a pessoa tenha aniquilado a mente, ela não poderá ganhar a paz e ser feliz. E a menos que ela própria seja feliz, ela não poderá outorgar felicidade aos 'outros'. Dado que, no entanto, não há "outros" para o Sábio, que não tem mente, o mero fato de sua autorealização é por si só suficiente para tornar os "outros" felizes também.

domingo, 14 de junho de 2009

Siddharameshwar Maharaj - "Conhecimento Puro"


Para entender melhor como exatamente o “puro conhecimento uno” está atuando, você tem apenas que sair de casa e olhar imediatamente para a lua. Com que velocidade, de dentro da janela da mente, a pura consciência se apressa até a lua? Veja como ela permeia o céu inteiro numa fração de segundo. Tente isso. A mente tem essa mesma velocidade? A mente recebeu essa velocidade de ciência da lua, apenas através da ajuda desse “Conhecimento”. Onde quer que a mente vá, a Consciência já está lá. Que admirável então, que o movimento da mente pereça emperrado nessa consciência! Você tem apenas que abrir as pálpebras e o "Conhecimento” (consciência) simultaneamente permeiará o céu inteiro e a vastidão que contém uma multitude de estrelas e a lua.
Em vez de dizer que ela permeia, é melhor dizer que ela já permeou tudo o que agora é experimentado. Quando a Consciência viaja do olho até a lua e a pessoa a reconhece como sendo a lua, tal é o conhecimento 'objetivo'. Nesse exemplo a lua é o objeto e a consciência assume a sua forma assim que ela sabe que aquilo é a lua. Se há uma nuvem na frente da lua, a Consciência assume o formato da nuvem e é vista como aquele objeto. Assim também, a consciência permeia a nuvem e sabe que a nuvem é um objeto.
Agora, tente notar a “camada” de consciência sem um objeto, o “Conhecimento Puro” sem a mistura de nenhum objeto. Aquele espaço ou vácuo, que existe entre os olhos e a lua, não foi notado por você, ainda assim, ele estava lá, permeando, existindo em sua própria natureza. Aquela é a forma pura do 'Conhecimento'. Quando um vácuo ou espaço vazio, que foi notado anteriormente, é propositalmente tornado o objeto da atenção, ele pode tornar-se o objeto da atenção como 'espaço'. O que é notado é Maya, e o que não pode ser visto é “Brahman”.
Enquanto olhamos para a lua, o vácuo ou o espaço intermediário, não vem à nossa atenção. Portanto, é consciência sem um objeto. Se esse espaço, ou vácuo, é separado e é tornado um objeto da visão, esse Conhecimento Puro é transformado num zero, porque se o espaço é visto separadamente, a modificação da mente torna-se um vácuo. Se existe alguma diferença entre o céu e o Puro Conhecimento, é essa: Olhar separadamente para nossa própria natureza é o céu e quando o ato de 'olhar' é abandonado, ele é “conhecimento puro”. Uma vez que o conhecimento puro é reconhecido apropriadamente dessa forma, mesmo quando misturado a qualquer objeto, ele pode ser selecionado e reconhecido. Uma vez que a água pura é conhecida, mesmo quando misturada com alguma outra coisa, sua porção pode ser reconhecida dentro da mistura.
A água é um fluído que pode ser condensado em gelo. Mesmo quando a água abandona sua fluidez e assume a densidade do gelo, ela ainda é reconhecida como água em forma de gelo. Não é difícil reconhecer a umidade da lama como sendo água. Similarmente, uma vez que o Conhecimento Puro é conhecido, sua existência estável nesse mundo móvel pode também ser reconhecida, na forma de Sat-chit-ananda (existência-consciência-graça).
A água pura é desprovida de qualquer cor, forma, gosto ou cheiro. Uma vez que isso é propriamente entendido, mesmo quando a água é condensada, assumindo uma forma densa, ou quando fica apimentada ao adicionarmos pimenta, ou doce ao adicionarmos açúcar, ou cheirosa, colorida em tom de rosa, ou usada como água na tinta, ainda assim é inconfundivelmente reconhecida como água pura, ou água menos a forma, gosto, cheiro e cor.
Assim, pelo mesmo método de eliminação, mesmo quando esse Conhecimento Puro está condicionado, ao subtrairmos o condicionamento e dividirmos a forma em seus respectivos elementos, ele será reconhecido absolutamente como sendo “Conhecimento Puro” apenas, que preenche todas as formas até à borda, em toda parte. Entretanto, antes de alcançar esse “Conhecimento Puro” pelo método da eliminação, se a pessoa aceita o método da enumeração (escutando as qualidades de Deus), e segue discursando como é que somente Deus permeia todos os seres e todas as formas, e que não existe nada além de Rama, e que “o mundo e o senhor do mundo, são apenas um” etc, etc, então tal balbuciação jamais poderia ser útil. Em contraste com esse tipo de fala, se a pessoa fala apenas palavras vazias sem ter a experiência por trás delas, tal como “Eu sou Brahman”, “os sentidos fazem seu trabalho, contudo eu não sou o fazedor”, e “ não há virtude ou pecado na soleira de minha porta”, etc, em vez de ganhar o Ser, ele apenas irá enganar seu Ser. Dessa forma, esses chamados “Auto-descobridores” perdem alegria no mundo, bem como no outro mundo . O santo Kabir disse “Ele foi embora como veio”. Isso significa que essas pessoas morrem no mesmo estado de consciência com o qual elas nasceram. Não obtêm nenhum benefício além disso.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Ramakrishna - Deus com forma e Deus sem forma

Devoto: Deus tem forma ou é sem forma?

Ramakrishna: Espere, espere! Primeiro de tudo você tem que ir para Calcutá, só então você saberá onde estão localizados o Maidan, a Sociedade Asiática e o Banco de Bengala. Se quer ir para o bairro dos brâmanes de Khardaha, primeiro tem que ir para Khardaha. Por que não seria possível a prática da disciplina de Deus sem forma? É muito difícil seguir esse caminho. Não podemos segui-lo sem renunciar “mulher e ouro" (luxúria e cobiça). Deve haver completa renúncia, tanto interna como externamente. Você não pode ter êxito neste caminho se você tiver o menor vestígio de mundanidade. É fácil adorar a Deus com forma. No entanto, não é tão fácil como parece. Com um Bhakta (aspirante no caminho devocional), não devemos discutir a disciplina do Deus impessoal ou o caminho do Conhecimento (Jnana). Através de muitos esforços, talvez ele esteja nesse momento cultivando um pouco de devoção. Seria danoso dizer a um Bhakta que tudo é um mero sonho.

Kabir era um adorador do Deus impessoal. Ele não acreditava em Shiva, Kali ou Krishna. Costumava brincar com eles e dizia que Kali vivia de ofertas de arroz e banana e Krishna dançava como um macaco enquanto as gopis batiam palmas. Aquele que adora Deus sem forma, talvez no início veja uma deidade com dez braços, em seguida, com quatro braços e, em seguida, Krishna criança com dois braços. Finalmente vê a a Luz Indivisível e submerge nela. Diz-se que os sábios como Dattátreia e Yadabharata não retornaram ao plano relativo depois de terem tido a visão de Brahman. Segundo alguns relatos, Shukadeva provou apenas uma gota do Oceano da Consciência de Brahman. Ele viu e ouviu o rugido das ondas desse Oceano mas não submergiu nele. Uma vez um Brahmachari me disse: "Aquele que vai além de Kedar, não pode manter o seu corpo vivo". Assim, depois de atingir Brahmajnana um homem não pode preservar o seu corpo mais do que vinte e um dias.
Para além do muro elevado havia um campo infinito. Quatro amigos tentaram saber o que havia lá. Três deles, um após outro, escalaram o muro, viram o campo, deram uma gargalhada e saltaram para o outro lado. Estes três não puderam dar qualquer informação sobre o campo. Apenas o quarto homem voltou e disse para as pessoas como era. Ele é como aqueles que detêm o seu corpo, mesmo depois de atingir Brahmajnana, para ensinar aos outros. As encarnações Divinas pertencem a esta classe.

Parvati nasceu como a filha do Rei Himalaya. Após o seu nascimento, ela revelou ao rei Suas diversas formas divinas. O pai disse: 'Bem, filha, você me mostrou todas estas formas, isto é bom, mas você tem um outro aspecto, que é Brahman. Rogo-lhe para que me ensine. “Pai, disse Parvati, se buscas o conhecimento de Brahman, então renuncia o mundo e viva na companhia dos santos". Mas o rei Himalaia insistiu. Por conseguinte, Parvati revelou-lhe Sua forma de Brahman e imediatamente o rei caiu inconsciente no chão. Mas tudo o que acabei de dizer, pertence ao reino do raciocínio. Apenas Brahman é real e o mundo é ilusório - isso é raciocinar. E tudo, exceto Brahman, é como um sonho. Mas é um caminho muito difícil. Para aqueles que o seguem, até o jogo divino no mundo torna-se um sonho e é irreal, o seu 'eu' também desaparece. Os seguidores desse caminho não aceitam a Encarnação Divina. É um caminho muito difícil. Os amantes de Deus não deveriam ouvir muito de tal raciocínio. É por isso que Deus encarna-se como ser humano, para ensinar às pessoas o caminho da devoção. Exorta as pessoas a cultivarem a entrega a Deus. Seguindo o caminho da devoção, realizamos tudo através de Sua graça, Conhecimento e Sabedoria Suprema.

Deus atua neste mundo. Ele está sob o domínio dos Seus devotos. Shyama, a Mãe Divina, está atada pelas cordas do amor de Seu devoto. Às vezes Deus torna-se o ímã e o devoto a agulha, outras vezes, o devoto torna-se o ímã e Deus a agulha. O devoto atrai Deus até ele. Deus é o Amado de Seu devoto e está sob seu domínio. De acordo com uma escola, as gopis de Vrindavan, como Yashoda, em suas vidas anteriores acreditavam em Deus sem forma, mas não receberam nenhuma satisfação a partir dessa crença. É por isso que mais tarde gozaram de tanta felicidade na companhia de Sri Krishna no episódio da sua vida em Vrindavan. Um dia Krishna disse às gopis: 'Venham comigo. Vou mostrar-lhes a morada do Eterno. Nós vamos para o Yamuna para nadarmos.' Logo que eles imergiram na água, viram Goloka e, em seguida, viram a luz indivisível. Naquele instante Yashoda exclamou: "Ó Krishna, essas coisas já não nos importam. Gostaríamos de vê-lo em Sua forma humana. Quero tomar-lhe em meus braços e alimentar-lo".

Portanto, a maior manifestação de Deus é através de Suas encarnações. O devoto deveria servir e adorar uma encarnação de Deus enquanto ela viva em um corpo humano. “Ao amanhecer, ele desaparece na câmara secreta de sua morada." De maneira nenhuma podem todos reconhecer uma encarnação de Deus. Ao assumir um corpo humano, a encarnação cai vítima de doença, tristeza, fome, sede e outras dores, como qualquer mortal. Rama chorou por Sita. "Brahman chora, capturado na armadilha dos cinco elementos." Diz-se nos Puranas que Deus em Sua encarnação como um Marrana (porco) viveu feliz com Sua ninhada, mesmo depois de terem destruído Hiraniaksha. Como Marrana, ele os alimentou e cuidou e esqueceu tudo sobre a sua morada no céu. Finalmente Shiva matou o corpo do porco com o seu tridente e Deus, rindo, voltou para sua própria casa.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Upasni Maharaj* - O Templo de Khandoba


Vocês me chamam de Deus, mas deixem-me adverti-los: Eu sou do templo de Khandoba. Talvez devido ao meu destino ou devido à vontade do Sadguru ou de quem quer que esteja acima de mim, tive que passar pela punição de ser um Khandoba e portanto fui mantido no templo de Khandoba. Khandoba significa eunuco, um eunuco é aquele que é incapaz de desfrutar de uma mulher de maneira mundana. Antigamente aqueles que eram incapazes de desfrutar de uma mulher eram chamados Shandas, entretanto eles não eram os verdadeiros Shandas, o verdadeiro Shanda é aquele que se tornou completamente sem desejos, e esse estado sem desejos traz o estado de Khandoba.

Por Khandoba ser único, garotas são oferecidas para ele, essas garotas são chamadas de Muralis. O que é Murali? Murali é a flauta nas mãos do Senhor Krishna. As Muralis, portanto, atingem então o estado que as leva ‘além do mundo’. Há um costume de oferecer garotas a Khandoba. Khandoba sendo Parabrhaman, as garotas oferecidas para ele, portanto, tornam-se o mesmo. Khandoba significa Shandoba e o mesmo é Vhitoba. Vhitoba é livre, nu, não afetado em todos os aspectos. Nestes dias de Kali Yuga, Vhitoba é considerado ser de importância, é ele que conduz à bênção infinita.

Já falei sobre isto, aquele cuja mente e sentidos não são de nenhuma utilidade do ponto de vista mundano, nem são de utilidade para atingir nenhum dos prazeres do mundo, tornar-se Shanda, o Shanda real é o Brhaman real, o Parabrahman, ele é Vhitoba, ele é o Khandoba. Você deveria lembrar-se bem disso; eu não sabia desses arranjos secretos, se eu soubesse não teria parado naquele templo. Naquele tempo eu comecei a pensar que estava sentando num vale em chamas. Mas sabe que as palavras que Sai Baba disse vieram a se tornar verdade, as de que eu seria a esposa de Khandoba.



*Upasni Maharaj - Mestre perfeito indiano que foi discípulo de Sai Baba de Shirdi (1838-1918), teve uma vida de renúncia extrema. Permaneceu de 1912 à 1914 em jejum de comida e água no templo de Khandoba, que na época era abandonado e infestado por cobras e escorpiões.

domingo, 7 de junho de 2009

Philokalia - São Teófanes o Recluso - Pobre, Nu, Cego e Sem Valor


Não há necessidade de ter medo da ilusão. Ela sobrepuja aqueles que se tornam vãos, que pensam que assim que um aquecimento venha ao coração já significa o cume da perfeição. De fato, esse aquecimento é apenas o começo e pode provar ser instável. Esse aquecimento e paz no coração podem ser apenas algo natural, fruto da atenção concentrada. Temos de labutar e labutar, esperar e esperar, até que o natural seja substituído pela graça ofertada.
É melhor nunca pensar de si mesmo como tendo atingido algo, mas sempre ver-se como pobre, nu, cego e sem valor.

O Senhor vê sua necessidade e seus esforços, e dará a você uma mão. Ele irá lhe dar suporte e estabelecerá você um soldado, totalmente armado e pronto para ir para a batalha. Nenhum suporte pode ser melhor do que o Dele. O maior perigo está em a alma pensar que ela pode encontrar essa ajuda dentro de si mesma; e então ela perde tudo. O mal irá dominá-la, eclipsando a luz que cintila ainda que fraca na alma, e irá extinguir aquela pequena chama que quase já não queima. A alma deveria perceber o quanto ela é impotente quando sozinha; portanto não esperando nada de si mesma, deixe-a cair em humildade diante de Deus e em seu próprio coração que ela se reconheça como sendo nada. Então a graça – que é toda poderosa – irá desse nada, criar nela tudo. Aquele que em total humildade coloca-se nas mãos do piedoso Deus, atrai o Senhor para si mesmo e torna-se forte em Sua força.
Embora esperando tudo de Deus e nada de nós mesmos, devemos, não obstante, forçarmos-nos à ação, empregando toda nossa força a fim de criar algo para o qual a ajuda divina possa vir, e o qual, o poder divino possa abarcar. A graça já está presente dentro de nós mas ela irá agir apenas depois que o próprio homem agiu, sentindo sua impotência com sua própria força. Estabeleça-se, portanto, firmemente no humilde sacrifício da sua vontade por Deus, e então tome ação sem nenhuma má vontade ou de maneira irresoluta.

sábado, 6 de junho de 2009

Gurdjieff - 7 de dezembro de 1941


Pergunta: Algo intolerável acontece no meu trabalho. A despeito dos meus esforços eu não posso lembrar de mim mesmo, ter uma qualidade melhor. É inútil fixar horas de trabalho no relógio. Não obtenho resultado. Por que?

Gurdjieff: Isso vem do seu egoismo. Egoismo particularmente grande no qual você tem vivido até agora. Você está enclausurado nele, você tem de sair dele. Para sair, você tem de aprender a trabalhar. Não apenas por você somente, mas para os outros. Você começou com trabalho relacionado aos seus pais. Você deve mudar sua tarefa. Assuma uma nova tarefa, a mesma com seus semelhantes, não importa quem, todos os seres; ou escolha dentre as pessoas à sua volta. Você deve trabalhar para si mesmo através da meta de estar apto a ajudá-los. Apenas isso irá lutar contra o egoismo. Vejo que vocês dois têm um passado muito ruim, um egoismo particular. Todo o material antigo vem à frente. É por isso que você não pode fazer nada. É normal; de acordo com a ordem, de acordo com a lei. Antes de atingir a meta, há muitas acensões e quedas. Isso deveria reassegurar você. Eu poderia reassegurar você completamente, mas é você quem deve trabalhar você mesmo.

P: Para sair deste estado de sofrimento tão vívido e tão negativo, posso fazer uso de algum meio exterior, tomar ópio, por exemplo?

G: Não, você deve trabalhar sobre si mesmo. Destrua o egoismo no qual você tem sempre vivido. Tente o que eu lhe digo. Mude sua tarefa. É necessário alcançar agora um novo estágio. Vocês dois estão a caminho da Gare de Lyon, mas vão por rotas diferentes, um vai por Londres e o outro pela Ópera. Vocês estão ambos à mesma distância.

P: Eu vejo minha impotência e minha covardia. Eu não posso dizer nada e fazer algo pelos outros. Pois minha cabeça não está clara. Sinto se uma coisa está correta ou não, mas não posso explicar claramente o porquê.

G: Você não pode dizer nem fazer nada pelos outros. Você não sabe o que você precisa para si mesmo, você não pode saber o que o outros precisam. Trabalhe com propósito por eles. Mas atue um papel. Esteja aparte internamente. Veja, externamente fale como a pessoa fala, para não machucá-la. Você deve adquirir a força para fazer isso. Atue um papel. Torne-se duplo. Para o presente momento trabalhe como capataz. Faça o que eu lhe digo, você não pode fazer mais que isso. Ame seu vizinho; Esse é o CAMINHO. Traga para todos aquilo que você sentia pelos seus pais.

P: No inicio do trabalho temos esse desejo.

G: Certamente, é a mesma coisa, sempre a mesma coisa que retorna num diferente grau. Agora é um outro grau. Você deve superar essa crise. Tudo vem do falso amor de si mesmo, da opinião que a pessoa tem de si mesma, que são mentiras.

P: Tudo virou de ponta cabeça em mim com o exercício, em todo meu trabalho. Tirou a alegria do trabalho, tornou-o doloroso, sem esperança, sinto-me como um asno puxando um carrinho muito pesado numa subida.

G: É porque em você há outras partes que são tocadas. É como um pintor que sempre mistura as mesmas cores e nunca há nenhum vermelho. Quando ele coloca vermelho na mistura, isso muda tudo. Você deve continuar.

P: Esse exercício me fez sentir algo que é novo para mim; quando tento fazê-lo e colocar minha atenção nesse pequeno ponto fixo e vejo que não posso segurar-me na frente dele, tenho uma sensação da minha nulidade e pareço entender melhor a humildade. Esse pontinho é maior que eu.

G: Porque você tem um cão em você mesmo que o impede em todas as coisas. Ele é chamado insolência perante você mesmo. Você deve destruir esse cão. Mais para frente você vai sentir-se mestre nesse ponto, sentir que você é mais forte que esse cão e que ele é nada. Não tenho confiança nesses tipos artísticos que vivem na imaginação, têm idéias atrás de sua cabeça, não dentro, que pensam que sentem e experimentam, mas na realidade estão apenas interessados em coisas externas. Vivem apenas na superfície, de fora, não dentro, não em si mesmos. Os artistas não sabem nada da realidade e imaginam que eles sabem. Não confie em você mesmo. Entre em você mesmo, em todas as partes de você mesmo. É absolutamente necessário aprender a sentir e a pensar ao mesmo tempo em todas as coisas que você faz na vida diária. Você é uma pessoa vazia.

P: Como deveríamos rezar?

G: Irei explicar, mas é para depois. Em nosso sistema solar certa substância emana do sol e dos planetas, da mesma forma que aquelas emanadas pela Terra, fazendo contato em certos pontos no sistema solar. E esses pontos podem refletir a si mesmos em imagens materializadas, as quais são as imagens invertidas do Todo-elevado – o Absoluto. Digo-lhe que sempre existe uma imagem materializada em sua atmosfera. Se as pessoas pudessem ter concentração o bastante para entrar em contato com essa imagem, elas receberiam essa substância; portanto, ao recebê-la, estabeleceriam uma linha telepática como o telefone.

P: Essas imagens se materializam na forma humana?

G: Sim.

P: Se alguém se colocar em contato com essa imagem e uma segunda pessoa puder colocar-se em contato com ela e uma terceira pessoa e uma quarta, poderão todas elas receber essa imagem?

G: Se sete pessoas puderem concentrar-se o bastante para colocarem-se em contato com essa imagem, elas poderiam se comunicar, a qualquer distância, pela linha entre e elas e as sete formam um. Elas podem ajudar-se umas às outras. Diga-se de passagem, é apenas ao explicar algo aos outros que entendemos e assimilamos nós mesmos completamente.

P: Gostaria de saber se ao materializar a imagem de um santo, isso irá me dar o que eu particularmente desejo?

G: Você pensa como uma pessoa ordinária. Você não tem meios de materializar nada agora. Para o momento assuma a tarefa de auto-sugestão, para que uma parte de você convença a outra e repita, repita para ela o que você decidiu (a meta de despertar). Há uma série de sete exercícios para o desenvolvimento sucessivo dos sete centros. Nós citamos o primeiro, o cérebro, aquele que conta na vida ordinária (a cabeça é uma luxúria). O outro, o emocional também; mas o único que é necessário é a medula espinhal, aquele que você tem que desenvolver e fortalecer primeiro. Esse exercício irá fortalecê-lo: segure os dois braços horizontalmente num ângulo exato, ao mesmo tempo olhando fixamente para um ponto diante de você. Divida sua atenção exatamente entre o ponto e os braços. Você descobrirá que não há nenhuma associação, nenhum lugar para elas, de tão ocupado que você estará com o ponto e a posição dos braços. Faça isso sentado, de pé, e então de joelhos. Vinte e cinco minutos em cada posição, várias vezes por dia – ou menos. Tive um aluno uma vez que podia ficar duas horas sem mexer os braços nem um centímetro. Para outras coisas ele era uma nulidade.

P: Quando quero fazer tais esforços para o trabalho, uma dura barreira se forma no meu peito, impossível de superar. O que eu deveria fazer?

G: Isso não é nada. Você não está habituado a usar esse centro – é um músculo que contrai – é apenas muscular. Continue, continue.

P: Tenho feito esse exercício até ficar com os ombros ardendo. Ao fazê-lo, eu tive a sensação de “Eu”. Senti a mim mesmo realmente separado, realmente “Eu”.

G: Você não pode ter “Eu”. O “Eu” é uma coisa muito cara. Você é barato. Não filosofe, isso não me interessa, e não fale de “Eu”. Faça o exercício como um serviço, como uma obrigação, não por resultados (como o “Eu”). Os resultados virão mais tarde. Hoje é apenas serviço. Apenas isso é real.

P: Sinto-me mais dentro de mim mesmo, mas como se estivesse diante de uma porta fechada.

G: Não é uma porta mas sim muitas portas. Você deve abrir cada porta, aprenda a abrir.

P: Tenho trabalhado especialmente sobre o amor-próprio.

G: Sem amor-próprio um homem não pode fazer nada. Existem duas qualidades de amor-próprio. Uma é uma coisa suja. A outra, um impulso, amor do “eu” real. Sem isso, é impossível mover-se. Um ditado Hindu antigo diz: "Feliz é aquele que ama a si mesmo, pois ele pode amar a Mim”.
Vejo pelo relatório de Madame de Salzman que ninguém me entendeu. Você precisa de fogo. Sem fogo, nunca haverá nada. Esse fogo é o sofrimento, sofrimento voluntário, sem o qual é impossível criar algo. É preciso preparar-se, você deve saber o que irá fazê-lo sofrer e quando isso estiver lá, faça uso disso. Apenas você pode preparar, apenas você sabe o que o faz sofrer, que faz o fogo que cozinha, que cimenta, que cristaliza, que FAZ. Sofra pelos seus defeitos, pelo seu orgulho, pelo seu egoísmo. Lembre a si mesmo da meta. Sem sofrimento preparado não há nada, pois quanto mais se é consciente, não há mais sofrimento. Não há progresso adiante, nada. É por isso que com sua consciência você deve preparar o que é necessário.

Você deve à natureza. A comida que você come, que nutre a sua vida. Você deve pagar por essas substâncias cósmicas. Você tem um débito, uma obrigação, tem que repagar com trabalho consciente. Não coma como um animal, mas renda à natureza pelo que ela tem dado a você, a natureza, sua mãe. Trabalhe – uma gota, uma gota, uma gota – acumuladas durante dias, meses, anos, séculos, talvez darão resultados.

P: Cheguei num ponto onde estou muito infeliz, tudo é desgostoso para mim, de desinteresse.

G: E esse lenço arrumado desse jeito no seu bolso? Isso lhe interessa. Bem, a natureza deseja bem a você, estou contente. Ela traz você para o trabalho real ao fazer todo o reto desgostoso – é um certo cruzamento que você tem que atravessar. Quanto mais você trabalhar, mais você irá sair deste desconforto, desse vazio, dessa carência.

P: Até o trabalho está desgostoso para mim.

G: Então você deve mudar a maneira de trabalhar. Em vez de acumular durante uma hora, você deve tentar manter constantemente a sensação orgânica do seu corpo. Sinta seu corpo novamente, continuamente sem interromper suas ocupações ordinárias – para manter um pouco de energia, para tomar o hábito. Pensei que esse exercício permitiria você manter a energia um tempo maior, mas vejo que não funcionou assim. Molhe um lenço, amarre-o, coloque na sua pele. O contato irá lembrar você. Quando ele secar, comece novamente. A CHAVE PARA TODAS AS COISAS – permanecer aparte. Nossa meta é ter uma sensação constante de nós mesmos, de nossa individualidade. Essa sensação não pode ser expressada intelectualmente, porque é inorgânica. É algo que torna-o independente quando você está com outras pessoas.