quarta-feira, 25 de março de 2009

Philokalia - Monge Calisto de Constantinópla (séc. XIV)


Quereis saber a verdade? Tomai como exemplo o tocador de cítara. Ele inclina ligeiramente a cabeça de lado escutando o canto com atenção, ao mesmo tempo que maneja o arco e que as cordas respondem harmoniosamente. A cítara emite sua música e o citarista é arrebatado pela suavidade da melodia.

Laborioso operário da vinha, que meu exemplo vos decida e que não hesiteis. Sêde no fundo do coração vigilante (“sóbrio”) como o citarista; e possuireis sem dificuldade o que procurais. Pois a alma, tomada até o fundo de si mesma pelo amor divino, não pode mais voltar para trás. Pois, como diz o profeta Davi: “Minha vida está unida a Ti" (Sl. 63-9)

Meu bem-amado, por cítara entendei o coração. As cordas são os sentidos, o citarista é o intelecto que através da razão, movimenta incessantemente o arco; isto é, a lembrança de Deus, que faz nascer na alma uma indescritível felicidade e faz cintilar, no intelecto purificado, os raios divinos.


Enquanto não intimidarmos os sentidos do corpo, a água que jorra, e que o Senhor concedeu generosamente à Samaritana, não brotará em nós. Ela procurava a água material e encontrou a água da vida, que brotou dentro dela.

Pois, assim como naturalmente a terra contém água e ao mesmo tempo a derrama, também a terra do coração contém essa água que jorra e que brota: isto é, a luz original a qual a desobediência fez Adão perecer.

Essa água viva que jorra, surge da alma como de uma fonte perpétua. Era ela que habitava a alma de Inácio, o teóforo, e o fazia dizer: “O que tenho em mim, não é o fogo ávido da matéria, é a água que opera e que fala”.

A abençoada, ou melhor, a três vezes abençoada sobriedade da alma, assemelha-se à água que jorra e que brota das profundezas do coração, a água que jorra da fonte e enche totalmente o homem interior com o orvalho divino e com o espírito, enquanto queima o homem exterior.

O intelecto que purificou-se de tudo o que é exterior e que subjugou inteiramente os sentidos através da virtude ativa, permanece imóvel como o eixo celeste. Mantém o olhar em seu centro, nas profundezas do coração. Da cabeça, onde ele domina, olha fixamente o coração e projeta como relâmpagos os raios de seu pensamento; vai buscar ali as contemplações divinas e subjuga todos os sentidos do corpo.

No combate interior, o Espírito Santo produz um impulso que torna plácido o coração e grita dentro dele: Pai. Esse impulso não tem forma nem rosto, ele nos transfigura pelo esplendor da luz divina, amolda-nos ao fogo do espirito, mas também nos modifica e nos transforma como só Deus pode fazer através do poder divino.

É fácil turvar o intelecto purificado pela sobriedade se não nos desprendermos inteiramente do mundo exterior por meio da lembrança constante de Jesus.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Hafiz (1315-1390) - Quando o sol concebeu um homem

O que poderia Hafiz proferir sobre aquele dia
Quando o sol concebeu um homem,
Deu à luz a si próprio
Como a realidade e a verdade?

Que justiça poderia todo discurso na criação
Jamais dizer
A respeito daquela esplendorosa manhã
Quando o eterno Um maravilhoso
Deixou seu rosto
Reaparecer na forma através da graça?

Há algo que eu vi
No interior de Maomé,
Essa é a raiz luminosa
de toda a existência,
Independente da noviça dança
do tempo
Através de uma única corda do alaúde
Do infinito.

O que pode até mesmo o amor de Hafiz expressar
Pelo antigo doce homem
Que sempre produz compaixão
e ludicidade divina?

O que pode o vórtice do meu humor, perspicácia e
gratidão sublimes, jamais dizer
Sobre o pai dos perfeitos,
Quando eles próprios,
Podem transformá-lo em Deus?

Eu trago presentes hoje
Dos reis dos peixes, animais, aves
E anjos.

Eu trago presentes hoje
Dos rios, mares, campos, estrelas
E de cada alma --
que para sempre será!

Amado
Deixa-nos conhecer
O que a luz viu e disse
Quando te descobriu
pela primeira vez,

E em seguida, saltou e desfaleceu
Em tal risada maravilhosa
Que a luz tornou-se
Este solo de terra
E este céu.

Ó, Eterno,
Neste dia sagrado sempre presente
Esquece tua divina reserva -
Escancara as portas da Taberna.
Entrega aos teus sedentos velhacos leais
Uma bebida de tua sagrada vintage,
Livra-nos de nós mesmos um pouco!

Com abençoado conhecimento consumidor
do teu Ser Onipresente...

Nós somos tuas noivas ansiosas, por que esconder isso?
Somos mariposas dervixes cantando.
Nossas almas sabem
Daquele fogo imaculado que manténs
E que pertence a nós!


Mesmo a morte não terá poder agora
Para calar teu nome,
De bater loucamente em nossos corações.

Viajante,
Agora não é hora se sentar-te quieto

Pois nada, além de um grande clamor de alegria
E música

Pode fazer qualquer sentido
Hoje!

domingo, 22 de março de 2009

Sri Ramakrishna Paramahamsa (1836-1886) -- 19 de dezembro 1883

Ramakrishna: Quando a mente se torna pura, a pessoa tem uma outra experiência; reconhece intimamente: “Apenas Deus é o realizador e eu sou Seu instrumento.”
Uma vez um homem perverso golpeou um monge que vivia em um monastério até deixá-lo inconsciente. Quando este recuperou a consciência, seus amigos, enquanto o alimentavam, perguntaram-lhe: “Quem está lhe dando leite?” o monge disse: “Aquele que me golpeou, está me alimentando agora”.
Pergunta: “Sim senhor. Eu conheço essa história.”
Ramakrishna: Não é suficiente conhecê-la; é necessário assimilar seu significado. É o pensamento dos objetos mundanos que impede a mente de entrar em samadhi. A pessoa se estabelece em samadhi quando está completamente livre das coisas do mundo. É possível para mim abandonar meu corpo em samadhi, mas tenho um ligeiro desejo de apreciar o amor de Deus e desfrutar da companhia de Seus devotos. Por isso presto um pouquinho de atenção em meu corpo.
Há uma outra classe de samadhi, chamada únmana samadhi. Alcança-se isso de uma vez, recolhendo a mente dispersa. Você compreende o que é isso, não?
Pergunta: Sim senhor.
Ramakrishna: Sim, é a concentração repentina da mente dispersa no ideal. Mas esse samadhi não dura muito. Os pensamentos mundanos se interpõem e destruindo-no. O Yogi desliza do seu estado de yoga.
Em Kamarpukur eu vi uma mangosta que vivia num buraco no alto de uma parede. Ela se sentia confortável lá. Certa vez as pessoas amarraram um ladrilho na sua cauda para fazê-la sair do seu buraco. Sempre que a mangosta conseguia se acomodar dentro do buraco, tinha de sair por causa do pedaço de ladrilho. Tal é o efeito de pensar nos objetos mundanos que fazem o Yogi desviar-se do caminho do Yoga.
As pessoas do mundo, podem por vezes experimentar o samadhi. O Lótus floresce sem dúvida quando o sol está a pino, mas suas pétalas fecham-se outra vez quando uma nuvem cobre o sol. Os pensamentos mundanos são a nuvem.
Pergunta: É possível desenvolver ambas as coisas, jnana (cohecimento) e bhakti (devoção), pela prática da disciplina espiritual?
Ramakrishna: Pelo caminho do bhakti um homem pode alcançar ambos. Se for necessário Deus lhe dá o conhecimento de Brahman. Mas apenas um aspirante altamente qualificado pode desenvolver o jnana e o bhakti ao mesmo tempo. Assim é o caso dos Ishvarakotis, Chaitania por exemplo. Mas no caso dos devotos comuns é diferente.
Existem cinco classes de luz: a luz de uma lâmpada; a luz das diversas classes de fogo; a luz da lua; a luz do sol e finalmente a luz combinada do sol e da lua. Bhakti é a luz da lua e o jnana é a luz do sol.
Algumas vezes vemos que o sol se pôs apenas quando a lua aparece no céu. Em uma encarnação de Deus vê-se ao mesmo tempo o sol do conhecimento e a lua do amor.
Por acaso, alguém pode, pelo mero desejo, desenvolver o conhecimento e o amor ao mesmo tempo? Depende de que pessoa. Um bambu é mais oco do que outro. É possível a todos compreender a natureza de Deus? Pode uma vasilha de um litro conter cinco litros do leite?

sábado, 21 de março de 2009

Siddharameshwar Maharaj - História de Purusha e Prakriti

Duas pessoas faziam um passeio sobre o planeta Terra. A fim de passar o tempo, um deles começou a narrar uma história digna de se pensar a respeito. O narrador pediu para o ouvinte escutar atentamente e começou:
"Um homem vivia com sua esposa (Purusha e Prakriti*). Ambos se amavam muito e viviam como uma entidade única. Depois de algum tempo, eles foram abençoados com um filho - (a consciência). Esse filho tinha o conhecimento de tudo e era bem versado em todas as disciplinas. Ele trabalhou sinceramente e teve seu próprio filho (Vishnu). Essa criança não era tão inteligente como o seu pai e era um viciado em trabalho, sempre ansioso para trabalhar mais e mais. Ele trabalhou muito mais do que seu pai.

Mais tarde, o filho (Vishnu) teve muitos outros filhos. O mais velho entre esses netos era um tolo, ignorante e irritadiço (Shiva). Ao menor erro ele se enraivecia e destruia tudo o que ocorria mal. Eventualmente, foi o neto mais jovem (Brahma), que era muito trabalhador, que assumiu o trabalho de expansão e criou tudo. O filho (Vishnu) assumiu a responsabilidade de proteger essa criação. O ignorante neto mais velho (Shiva), era o destruidor.
A criação do neto proliferou de tal forma que o Pai (Brahman), o fundador original, finalmente se aquietou. Primeiro, a família ignorou o Pai, depois pararam de respeitarem-se uns aos outros e, finalmente, houve caos e anarquia. Eventualmente, tudo foi destruído.

Nesta história, o pai representa o Ser, Brahman (o sem forma), e a mãe representa Prakriti, o corpo (a manifestação). O filho é Vishnu, a Consciência, o neto mais novo é Brahma, o Criador, e o neto mais velho, Rudra (Shiva), é o Destruidor.
Aquele que analisar e deliberar sobre essa história será libertado do ciclo de nascimentos e mortes. Essa estranha história desdobra-se continuamente enquanto move-se adiante mantendo-se desvanecida no esquecimento. A moral da história é que o caos prevaleceu porque o Pai (Parabrahman, O Supremo Ser) foi esquecido. Quando você se foca na criação, na vida mundana, o Ser é esquecido.
Você deve compreender as deficiências da vida a partir dessa história. Apenas aquele que utiliza o "pensamento correto" pode elevar o mundo. Quanto mais pensamos corretamente, mais avançamos. Quando um intenso pensamento é feito, a elevação do mundo está à vista. "Pensamento correto" é a estrada para aqueles que perseguem o caminho do Conhecimento.

Esse enigma composto de diversos princípios tem de ser resolvido e só então a paz pode ser obtida. O contentamento pode ser alcançado quando se ouve continuamente e se absorve os ensinamentos do Mestre.
O homem e sua mulher na história acima representam Purusha (o Ser) e Prakriti (o corpo), que quando tomados como uma entidade única, dão origem à Ilusão primordial "Eu sou”. Então vem o Senhor Vishnu, a Consciência, seguida pelo Senhor Brahma, a "Mente interior". Em seguida vem o intelecto, que é composto de proporções iguais de ambas as qualidades Rajas e Tamas**. O filho mais velho do Senhor Brahma é Rudra, o esquecimento, a ignorância. É devido a este esquecimento que um homem morre sem encontrar uma solução para esses enigmas. Acontece com todos os seres vivos. O homem morre devido à ignorância. Nós estamos enredados neste ciclo de nascimentos e mortes, porque não sabemos quem somos.
A destruição é provocada, seja com a ajuda do Conhecimento ou pela falta dele. Com a ajuda do Conhecimento, compreende-se que a vida é apenas uma ilusão e assistimos a sua "destruição". Os conceitos chegam a um fim, a busca chega ao fim e a paz é alcançada. Como pode haver paz quando ainda há confusão em todos os cinco elementos principais?

*Purusha - O espirito cósmico, a causa eterna e efetiva do universo /Prakriti – A substância cósmica, a causa original de todos os fenômenos.
**rajas- motividade, atividade, energia/ tamas – escuridão, inércia, passividade.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Hazrat Inayat Khan - 30 de janeiro de 1924

A crença em Deus é um benefício e esse benefício é adquirido através do desenvolvimento dessa tendência. Conforme formos mais longe na crença de Deus, começaremos a perceber um sentido abrindo uma visão, por assim dizer e que pode apreciar a beleza em todas as suas diferentes formas. Enquanto o coração estiver fechado, esse sentido estará fechado. Quando o coração estiver aberto esse sentido estará aberto e mostrará ao homem a beleza em todas as suas diferentes formas, a beleza de todas as diferentes fés, a beleza de todas as condições. Quando esse sentido é aberto, quer a pessoa esteja em casa ou fora de casa, seja ao ar livre, no campo, seja olhando para cima ou para baixo, quer com os olhos fechados ou abertos, existe sempre alguma coisa para admirar, existe sempre algo bonito para lembrar, para recordar-nos de Deus, o Senhor da beleza.

O acontecer disso, é como uma pessoa que desenvolve apreço pela arte. Pois não é todo mundo que pode apreciar arte. Quem pode apreciar, é aquele cujo sentido da arte se desenvolveu para apreciá-la. E quando a pessoa começa a apreciar arte, é ela que conhece o artista. Virão milhares de pessoas que olharão para a peça de arte, mas haverá talvez uma dentre as milhares, que realmente entende a alma do artista, que compreende a beleza da arte, que compreende o que está por trás daquilo. E é essa pessoa que é o verdadeiro amigo do artista, porque ele conhece a alma do artista; e assim também é aquele que crê em Deus. Quando o crente de Deus, abriu o seu coração, ele está começando a ver a beleza da criação e começando a se comunicar com a beleza, e então, ele vem a conhecer o artista que está por trás dessa beleza. É assim, então, que ele é o verdadeiro amigo de Deus, porque ele não só acredita em Deus, mas vê os sinais Dele com os olhos abertos.
Em cada obra de arte, seja poesia, seja pintura, seja música, você pode ser um amigo do artista (você pode se aproximar do artista) ao entender sua arte; e assim, também chegamos mais perto de Deus ao compreender, ao apreciar mais e mais tudo o que Ele fez. E então o que acontece? A pessoa desenvolve em sua natureza aquela visão que vê Deus em todas as coisas, que o lembra do Artista em sua arte em toda parte. Tomemos como exemplo a natureza humana, que é muitas vezes mais difícil e mais desafiadora para se ter paciência e mais problemática para se lidar. Mesmo assim, ainda há um lado belo nela, que é o mesmo se pudermos abrir nossos olhos para olhar para ele. Há uma beleza na criança, há uma beleza na simplicidade da criança e há uma beleza no jovem. Em cada idade há uma beleza. Existe um certo desenvolvimento da forma, do pensamento e da experiência. Torna-se possível vê-la em todas as idades e em todas as situações.
Se uma vez a pessoa começou a olhar para a beleza, ela vê uma beleza refletida em cada forma e a única coisa na qual falta beleza é na sombra. Ela é não-existente. Quando vemos a beleza, vemos beleza, não olhamos para a sombra. Mas há outros que vão olhar para a sombra. E esses que olham para a sombra dessa ilusão, vêem e não vêem. Seus olhos estão abertos e ainda assim estão fechados.
Mas agora há um passo a mais. Uma pessoa prossegue e vê que: 'Toda esta beleza que eu vejo que está fora e todo esse poder, bondade e sabedoria, sinais que eu vejo em tudo e em todas as coisas, aonde está a fonte disso? Aonde posso encontrar a fonte una onde tudo isto se une e torna-se um?' E isso vem naturalmente, quando a pessoa com o coração aberto, que viu beleza no externo e fechou os olhos e tornou-se um com seu coração, vê tudo isso refletido em seu próprio coração. Ela pode sentar junto ao lago do seu próprio coração e ver nele toda a beleza refletida. E é a partir desse ponto que começa o misticismo. A partir desse ponto um homem começa a perceber que: 'Tudo o que eu vi diante de mim é a manifestação, mas dentro de mim há algo mais maravilhoso escondido e quando meu coração está aberto ele torna-se uma porta para eu olhar dentro de algo que consiste na fonte e na meta de tudo isso.'
A partir desse momento a pessoa começa a meditar e começa a criar um silêncio. Se uma pessoa não está preparada para isso, diga-lhe para sentar-se quieta e ela se sentirá agitada e, se tentasse tornar sua mente serena, sua mente continuria a ir de uma coisa à outra. Mas quando o coração está aberto e preparado, logo que um homem tenha fechado os olhos ele encontra ainda uma outra porta aberta, uma porta que leva para o céu, para uma alegria sublime que pode ser chamada de 'o grande êxtase'. A pessoa vê o que tem de ser encontrado lá. Existe alguma forma? Existe algum nome? É tão difícil de explicar.
O que os profetas disseram, é que quando as pessoas gostam de fadas, fantasmas e espíritos; há tudo isso lá no paraíso, fadas, fantasmas, anjos e deliciosos pratos. Eles alegorizam o paraíso porque não se pode explicar mais do que isso, mas realmente falando é mais do que o paraíso. O paraíso é realmente só para a imaginação dos que querem agradar a si mesmos pensando nas coisas que mais amam. Isso é mais do que o paraíso, é a essência de toda beleza, a essência de toda compreensão, a essência de toda justiça, de todo amor, de toda paz; a essência de tudo o que uma pessoa procura externamente está lá.

Mas você pode perguntar: Essência? A essência não é muito interessante. Eu não gostaria de ter todas as coisas em sua essência. Mas devo responder: A essência é certamente mais interessante, mesmo no sentido comum da palavra. É o vinho, a essência das uvas o que amamos mais do que as uvas, é a essência do leite, que é a manteiga, que é a necessidade de cada pessoa no mundo. A essência é uma coisa que, mesmo nas coisas materiais, tais como a essência das flores, que é o mel, é o mais desejável. A essência em cada aspecto seu deve ser mais valiosa e mais interessante se apenas soubéssemos o que ela é, se apenas a experimentássemos. A essência da sabedoria não é apenas a sabedoria, mas é o resultado da sabedoria, a soma total dela.
Existem cinco coisas que o homem busca: luz, vida, poder, felicidade e paz. E todas essas cinco coisas são para serem atingidas em uma outra coisa, e essa outra coisa é a essência. É essa essência que é chamada em palavras religiosas de vinho. É essa essência que é a perfeição. É essa essência da qual é dito na Bíblia: "Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito no céu."(Mat.5:48) É na direção dessa perfeição que através da ajuda da crença em Deus devemos trilhar nosso caminho, e no final, é essa perfeição que devemos atingir, que é a meta ideal de toda felicidade.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Nisargadatta Maharaj - O sentido de 'eu sou'

Pergunta: É uma questão de experiência diária que ao acordar, o mundo de repente aparece. De onde ele vem?

Maharaj: Antes que qualquer coisa possa vir a existir, tem de haver alguém para quem isso apareça. Todo aparecimento e desaparecimento pressupõe uma mudança contrastada sobre um pano de fundo imutável.

Pergunta: Antes de despertar eu estava inconsciente.

Maharaj: Em que sentido? Ao ter esquecido ou por não ter experimentado? Você não experimenta mesmo quando inconsciente? Você pode existir sem saber? Um lapso de memória é uma prova de não-existência? E você pode validamente falar sobre sua própria não-existência como uma experiência de fato? Você não pode sequer dizer que a sua mente não existia. Você não despertou ao ser chamado? E ao acordar, não foi o sentimento "eu sou", que veio primeiro? Alguma semente de consciência deve estar existindo mesmo durante o sono ou durante um desmaio. Ao despertar a experiência segue: 'Eu sou, um corpo e um mundo'. Podem parecer surgir em sucessão, mas, na verdade, tudo é simultâneo, uma única idéia de ter um corpo em um mundo. Pode haver a sensação de 'eu sou' sem que seja alguém ou uma pessoa?

Pergunta: Sou sempre alguém com suas memórias e hábitos. Não conheço nenhum outro 'eu sou'.

Maharaj: Talvez algo o impeça de conhecer? Quando você não sabe algo que os outros sabem o que você faz?

Pergunta: Eu procuro a fonte de seus conhecimentos, sob a instrução deles.

Maharaj: Não é importante para você saber se você é um mero corpo, ou alguma coisa além? Ou, talvez totalmente nada? Não vê que todos os seus problemas são os problemas do seu corpo - alimentação, vestimenta, abrigo, família, amigos, nome, fama, segurança, sobrevivência? Tudo isso perde o seu significado no momento em que você percebe que você pode não ser um mero corpo.

Pergunta: Que benefícios há em saber que não sou o corpo?

Maharaj: Mesmo dizer que você não é o corpo não é bem verdade. Num certo sentido você é todos os corpos, corações e mentes e muito mais. Vá fundo no sentimento de 'Eu Sou' e você irá encontrar. Como você encontra uma coisa que você tenha perdido ou esquecido? Você fica com ela em sua mente até que você recorda. O sentimento de ser, de 'Eu Sou' é o primeiro a surgir. Pergunte a si mesmo de onde ele vem ou apenas assista-o quietamente. Quando a mente permanece no 'eu sou', sem se mover, você entra num estado que não pode ser verbalizado, mas pode ser experimentado. Tudo que você precisa fazer é tentar e tentar novamente. Afinal o sentido 'eu sou' está sempre com você, apenas você agregou todo tipo de coisas à ele - corpo, sentimentos, pensamentos, idéias, posses, etc. Todas essas auto-identificações são enganosas. Por causa delas você considera ser aquilo que não é.

Pergunta: Então o que sou eu?

Maharaj: É suficiente saber o que você não é. Você não precisa saber o que você é. Pois, enquanto conhecimento significar descrição, em termos daquilo que já é conhecido, que é perceptivo ou conceitual, não pode haver tal coisa como o auto-conhecimento, pois o que você é não pode ser descrito, exceto como total negação. Tudo o que posso dizer é: 'Eu não sou isso, eu não sou aquilo'. Você não pode significativamente dizer "isto é o que eu sou". Simplesmente não faz sentido. O que você pode apontar como 'isso' ou 'aquilo' não pode ser você mesmo. Certamente, você não pode ser "algo" mais. Você não é nada perceptível ou imaginável. No entanto, sem você não pode haver nem percepção nem imaginação. Você observa o coração sentindo, a mente pensando, o corpo agindo; o próprio ato de percepcionar mostra que você não é o que você percebe. Pode haver percepção, experiência, sem você? Uma experiência deve "pertencer". Alguém deve vir e declará-la como sua própria. Sem um experimentador a experiência não é real. É o experimentador que transmite realidade à experiência. Uma experiência que você não possa ter, qual é o valor dela para você?

Pergunta: O senso de ser um experimentador, o sentimento de 'eu sou', não é também uma experiência?

Maharaj: Obviamente, tudo experimentado é uma experiência. E em toda experiência surge o experimentador dela. A memória cria a ilusão de continuidade. Na realidade, cada experiência tem seu próprio experimentador e o sentido de identidade deve-se ao fator comum na raiz de toda relação experiência-experimentador. Identidade e continuidade não são o mesmo. Assim como cada flor tem sua própria cor, mas todas as cores são causadas pela mesma luz, também assim muitas experiências aparecem na consciência (awareness) indivisível e não fracionada, cada uma separada na memória e idêntica em essência. Esta essência é a raiz, a fundação, a possibilidade sem tempo e sem espaço de toda experiência.

Pergunta: Como faço para chegar a isso?

Maharaj: Você não precisa chegar nisso, pois você é isso. Isso irá chegar à você, se você der-lhe uma chance. Abandone o seu apego ao irreal e o real irá rápida e suavemente se estabelecer. Pare de imaginar ser ou fazer isso ou aquilo e a realização de que você é a fonte e o coração de tudo irá emergir sobre você. Com isso virá grande amor que não é escolha ou predileção, nem apego, mas sim um poder que torna todas as coisas dignas de amor e amáveis.

Meher Baba - Deus está em nós e nós estamos em Deus

Tudo, desde o menos significativo até o mais importante, está aqui dentro de nós. Os planos espirituais com seu indescritível esplendor divino e o plano grosseiro de espaço imensurável, juntamente com seus inumeráveis universos grosseiros, estão todos dentro de nós. Isso porque Deus está em nós e nós estamos em Deus. Deus é indivisivelmente, intransigentemente, infinitamente e eternamente Um em Sua unicidade impecável.

As aparentes intermináveis diferenças nas experiências das coisas e dos seres animados e inanimados são devidas aos variados graus de consciência nos diferentes planos e à capacidade e incapacidade de aplicar essa consciência adequadamente. Alcançar a plena consciência humana, é uma grande conquista espiritual. Maior ainda é ser capaz de reconhecer a ilusão e enfrentar todas as coisas ilusórias. A maior conquista do homem é tornar-se consciente de Deus, o que na verdade é, tornar-se consciente de si mesmo ou Consciente da alma.

Por exemplo, vamos supor que as diferenças entre um homem espiritualmente iluminado e um homem não iluminado seja como a diferença entre um homem que tem normais as faculdades sensoriais de visão, audição, olfato e paladar, e um outro homem que nasceu cego e surdo, e sem sequer as faculdades de olfato e paladar. Agora, se acontecer dos dois homens estarem presentes ao mesmo tempo em um jardim cheio de cores, pássaros cantando, córregos e nascentes, onde deliciosos frutos e flores perfumadas estão igualmente disponíveis para ambos os homens, necessariamente haverá um mundo de diferença entre o âmbito, a natureza e a capacidade de sua consciência, conhecimento e experiência. Para o homem iluminado, o mundo seria experimentado como cheio de música, cheio de luz e cheio de beleza. Para o homem não iluminado ou cego e surdo, o mesmo mundo seria apenas um negro nada monótono. Se alongarmos mais o exemplo acima e imaginarmos que um milagre aconteça, através do qual o homem não iluminado comece a ganhar uma após a outra as faculdades de olfato, audição, visão e paladar, podemos ter alguma idéia de como a consciência do homem começa a ser transportada através dos diferentes planos [sutil e mental] do caminho para a Consciência de Deus. O homem então começa a perceber que todas as diferenças devem-se simplesmente a uma diferença em seu próprio estado de consciência, que experimenta as verdades interiores mais e mais conforme a consciência é libertada das ilusões externas.

A força que mantém um homem espiritualmente cego, surdo, mudo, etc, é a sua própria ignorância, que é regida pelo princípio cósmico da ignorância geralmente conhecido como Maya. Entender Maya é entender metade do universo. Todos os falsos valores e falsas crenças são devidos ao controle de Maya. O intelecto, em particular é um joguete nas mãos de Maya, pois o intelecto não é capaz daquela consciência que sabe que Deus é a Verdade. A Verdade só pode ser conhecida após a pessoa transcender a ilusão cósmica que aparece como real devido a Maya. O princípio da ignorância, ou seja, Maya, só pode ser transcendido quando o aspirante espiritual é capaz de perceber que Maya é a sombra de Deus e, como tal, não é nada. O enigma de Maya resolve-se somente após a auto-realização (realização do Ser).

Todos os grandes filósofos que não estão vinculados pelos seus preconceitos materialistas, tiveram lampejos da realidade e reconheceram o princípio da ignorância como sendo responsável por fazer todas as coisas ilusórias e transitórias parecerem duradouras e verdadeiras. Os cientistas, naturalmente, têm dificuldade em aceitar conclusões místicas relativas ao mundo e ao cosmos transitórios, pois as percepções metafísicas não podem ser alcançadas através de métodos aceitáveis às regras experimentais da ciência. A principal dificuldade em entender esse conceito na sua totalidade, é que isso implicaria um pleno conhecimento do esquema cósmico. Não é possível, nem mesmo para um mestre explicar aquilo que está além dos limites da mente humana! Um mestre pode somente fazer a pessoa realizá-lo por meio de sua graça e ao conceder-lhe a iluminação.

domingo, 15 de março de 2009

Philokalia - São Gregório do Sinai (1260-1346)

Um verdadeiro amante da sabedoria é aquele que, através das coisas naturais (da alma), aprendeu a conhecer seu Criador, e do Criador tem entendido as coisas naturais e as coisas divinas; e, tal saber não vindo de ensino, mas apenas a partir de experiência. Ou: um perfeito amante da sabedoria é aquele que aperfeiçoou-se no amor da sabedoria moral, natural e divina, ou melhor, no amor de Deus.

O divino Apóstolo diz, “Agora, vós sois o corpo de Cristo, e sois seus membros em particular” (I Cor. Xii.27), e novamente, “Há um só corpo e um só espírito” (Eph. iv. 4). Assim como o corpo sem o espírito está morto e sem sentidos, também um homem, que é mortificado pelas paixões através da negligência dos mandamentos, permanece inativo após o batismo, desde que ele não é iluminado pelo Espírito Santo e pela graça de Cristo. Pois, embora ele possua o Espírito através da fé e da regeneração, o Espírito permanece inativo nele e não se movimenta, uma vez que a sua alma está mortificada. Embora tenhamos uma única alma, enquanto nosso corpo tem muitos membros, a nossa alma mantém-nos todos, anima e move apenas aqueles que são capazes de receber vida. Aqueles que murcharam até a morte e imobilidade através de alguma doença acidental, embora possam ser mantidos pela alma, são sem vida e sem sensação. É o mesmo com o Espírito de Cristo: ele habita totalmente em todos os membros do corpo de Cristo, e se move e dá vida àqueles que podem tomar parte na vida. Mas aqueles aos quais as fraquezas impedem, também ele ainda mantém piedosamente como sendo dele mesmo. Assim, cada fiel, embora partilhe através da fé na filiação espiritual, pode permanecer passivo e ignorante por falta de fé e zelo, privado da luz e da vida de Jesus. Assim, embora cada crente, como membro de Cristo, possua o Espírito de Cristo em si, pode permanecer passivo e imóvel como alguém incapaz de partilhar da graça.

quinta-feira, 12 de março de 2009

G.I. Gurdjieff - Consciência

Desde o momento em que o homem começou a viver na Terra, do tempo de Adão em diante, começou a ser formado dentro dele, com a ajuda de Deus, da Natureza e de todos os seus arredores, um órgão cuja função é a consciência. Todo homem tem esse órgão, e quem quer que seja guiado por ele, automaticamente vive conforme os mandamentos de Deus. Se nossa consciência fosse clara e não enterrada; não haveria necessidade de falar sobre moralidade, pois consciente ou inconscientemente todos se comportariam de acordo com os mandamentos de Deus. Infelizmente a consciência está encoberta com uma espécie de crosta, que pode ser perfurada somente com intenso sofrimento; e então a consciência fala. Mas depois de algum tempo o homem se acalma e mais uma vez o órgão torna-se encoberto e enterrado.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Jetsün Milarepa (mestre tibetano, 1040-1123) - O Canto de transitoriedade e ilusão

Após regressar da Índia, Rechungpa tinha contraído a doença do orgulho e de várias maneiras Milarepa tentou curá-lo. Como seu discípulo havia requerido comida, eles foram pedir esmola, mas foram abordados por uma anciã, que declarou que não tinha comida. Na manhã seguinte, eles encontraram-na morta e Milarepa disse: "Rechungpa, como essa mulher, cada ser senciente está destinado a morrer, mas raramente as pessoas pensam neste fato. Por isso, perdem muitas oportunidades de praticar o Dharma* . Tanto você quanto eu deveríamos lembrar deste incidente e aprender uma lição disso." Então, ele cantou …


Quando a transitoriedade da vida golpeia profundamente o coração de uma pessoa
Seus pensamentos e ações, naturalmente ficarão de acordo com o Dharma.
Se repetida e continuamente pensar sobre a morte,
Ela pode facilmente conquistar os demônios da preguiça.
Ninguém sabe quando a morte vai descer sobre si -
Assim como nessa mulher ontem à noite!

Rechungpa, não seja rude, e ouça seu Guru!
Eis que todas as manifestações no mundo exterior
São efêmeras como um sonho na noite passada!
Sentimo-nos totalmente perdidos na tristeza
Quando pensamos neste sonho passageiro.
Rechungpa, você acordou totalmente
Dessa grande confusão? Ah, quanto mais eu penso nisso,
Mais eu aspiro por Buda e pelo Dharma.

O corpo humano voraz por prazer é um ingrato credor.
Qualquer bem que você fizer a ele,
Ele sempre plantará as sementes da dor.
Uma pessoa viciosa nunca poderá atingir a felicidade.
Pensamentos errantes são a causa de todos os lamentos,
Más disposições são a causa de todas as misérias,
Nunca seja voraz, oh Rechungpa,
Mas ouça o meu canto!
Quando lembro da minha mente apegada,
Ela aparece como um pardal de vida curta na floresta -
Sem abrigo e nenhum lugar para dormir;
Quando penso nisso, meu coração se enche de dor.
Rechungpa, vai deixar-se entregar à má vontade?
Ah, quanto mais eu penso nisso,
Mais eu aspiro por Buda e pelo Dharma!

A vida humana é tão precária
quanto um fino fio de cabelo da cauda de um cavalo
Pendurado à beira da ruptura;
Pode ser arrancada a qualquer momento
Como essa velha mulher foi ontem à noite!
Não se agarre a esta vida, Rechungpa,
Mas ouça meu canto!

Quando observo interiormente minhas respirações
Vejo que são transitórias, como o nevoeiro;
Podem desaparecer no nada a qualquer momento.
Quando penso nisso, meu coração se enche de dor.
Rechungpa, você não deseja conquistar
Essa insegurança agora?
Ah, quanto mais eu penso nisso,
Mais eu aspiro por Buda e pelo Dharma.

Estar perto de seus parentes ímpios só provoca ódio.
O caso desta velha mulher é uma lição muito boa.
Rechungpa, pare o seu pensamento desejoso -
E ouça meu canto!
Quando eu olho para amigos e consortes
Eles parecem como transeuntes no bazar;
Encontrar com eles é apenas temporário,
Mas a separação é para sempre!
Quando penso nisso, o meu coração se enche de dor.
Rechungpa, você não deseja abandonar
Todas as associações mundanas?
Ah, quanto mais eu penso nisso,
Mais eu penso em Buda e no Dharma.

Um homem rico raramente goza
A riqueza que ganhou;
Esta é a zombaria de Karma e Samsara** ,
Dinheiro e jóias adquiridos através de mesquinhez e labuta
São como este saco de comida da velha mulher.
Não seja cobiçoso, Rechungpa,
Mas ouça meu canto!

Quando olho para as fortunas dos ricos,
Parecem-me como mel para as abelhas --
Trabalho árduo, servindo apenas para o gozo dos outros,
É o fruto do seu trabalho.
Quando penso nisso, meu coração se enche de dor.
Rechungpa, você não quer abrir
A tesouraria dentro de sua mente?
Ah, quanto mais eu penso nisso,
Mais eu aspiro ao Buda e seus ensinamentos.
.
.
* Dharma - o ensinamento de Buda
** Samsara - ilusão em movimento

terça-feira, 10 de março de 2009

Rodney Collin (1909–1956) - O espelho de luz

Nós vivemos nossas vidas em um espelho, tudo está invertido. Quando vemos uma cena, ela é recebida no cérebro invertida. Os raios saem, se cruzam e são recebidos em reverso. A realidade existe no local onde as duas linhas se cruzam, se pudermos encontrá-la. O mesmo ocorre com nossos pensamentos, nós pensamos que causa é efeito e efeito é causa. Para nós, o que é físico é mais real do que o espiritual. Aquilo que nossos sentidos percebem, chamamos de objetivo, enquanto que aquilo que é imperceptível para os nossos sentidos físicos, chamamos de irreal ou de imaginário. Pensamos que semear e colher são essencialmente diferentes e não conseguimos compreender que são o mesmo. Consideramos o nascimento e a morte como antíteses e esquecemos completamente que morrer é nascer. A vida que vivemos, o mundo em que vivemos, é uma miragem. Se entendermos uma miragem entendemos um milagre. Deveríamos estudar mais a respeito do espelho.

Jalaluddin Rumi - O que foi dito pra rosa


O que foi dito pra rosa e que a fez abrir-se,
Foi dito a mim aqui no meu peito.

O que foi dito para o pinheiro que o fez forte e alto,
O que foi sussurrado para o jasmim, para ele ser o que é,
O que quer que tenha feito a cana de açúcar doce,
O que quer que tenha sido dito para os habitantes da cidade
De Chigil no Turquistão, que os fez tão lindos,
O que quer que faça a flor da romã ficar corada como uma face humana,
Foi dito pra mim agora, e eu fico corado.
O que quer que ponha eloquência na linguagem, isso está acontecendo aqui.

As grandes portas do armazém se abrem
E eu sinto gratidão,
Mastigando um pedaço de cana de açúcar e
Apaixonado por Aquele a quem tudo isso pertence.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Bhagavan Sri Ramana Maharshi (1878-1950) - Realidade em quarenta versos

1. Uma vez que conhecemos o mundo, temos de admitir tanto para nós quanto para o mundo, uma fonte comum, única, mas com o poder aparente de muitos. A imagem dos nomes e das formas, o espectador, a tela, a luz que ilumina - todos esses certamente são Ela.

2. Em três entidades - o indivíduo, Deus e o mundo - todo credo está baseado. Que “o Um se torna três” e que “os três são sempre três”, é dito apenas enquanto dura o ego. Perder o 'eu' e permanecer no Ser (Self) é o estado Supremo.

3. 'O Mundo é verdadeiro', 'Não, é uma falsa aparência', 'O Mundo é a Mente', 'Não, ele não é', 'O Mundo é agradável', 'Não, ele não é' - Qual é o proveito de tal conversa? Deixar o mundo sozinho e conhecer o Ser, ir além de todo pensamento de 'Um' e 'Dois', essa condição sem-ego é o objetivo comum de toda essa conversa.

4. Se o Ser tem forma, o mundo e Deus também têm forma. Se o Ser é sem forma, por quem e como pode a forma (do mundo e de Deus) ser vista? Sem os olhos, pode haver visão ou óculos? O Ser, o verdadeiro Olho, é infinito.

5. O corpo é constituído pelas cinco camadas; no termo corpo todas as cinco estão incluídas. Sem o corpo o mundo não é. Alguém sem o corpo já viu o mundo?

6. O mundo é constituído pelos cinco tipos de percepções dos sentidos e nada mais. E essas percepções são sentidas como objetos pelos cinco sentidos. Uma vez que apenas através dos sentidos a mente percebe o mundo, é o mundo diferente da mente?

7. Embora o mundo e a mente surjam e desapareçam juntos, o mundo brilha pela luz da mente. O terreno onde surgem e desaparecem o mundo e a mente, aquela perfeição, não surge nem desaparece, mas brilha sempre. Essa é a realidade.

8. Qualquer nome ou forma sob a qual O adoremos, leva-nos ao conhecimento do absoluto sem nome e sem forma. No entanto, ver nosso verdadeiro Ser no Absoluto, depositar-se Nele e ser um com Ele, é o verdadeiro conhecimento da verdade.

9. "Segundos" e "terceiros" dependem de uma coisa: o ego. Se uma pessoa pergunta em seu coração 'O que é esse ego?' E descobre-o, ele foge. Apenas aqueles que descobriram isso conhecem a verdade, e jamais se sentirão perplexos.

10. Não há conhecimento sem ignorância; e sem o conhecimento a ignorância não pode ser. Perguntar, 'de quem é esse conhecimento?' 'De quem é essa ignorância?' e, portanto, conhecer o Ser primal, é o único Conhecimento.

11. Sem conhecer o Ser, que é o que conhece, conhecer todos os objetos não é conhecimento, é apenas ignorância. O Ser, a plataforma do conhecimento, e o não-Ser, sendo conhecidos, tanto o conhecimento quanto a ignorância se esvaem.

12. O Verdadeiro Conhecimento é estar desprovido tanto de conhecimento quanto de ignorância dos objetos. Conhecimento dos objetos não é o verdadeiro conhecimento. Sendo que o Ser brilha com luz própria, sem nada mais para conhecer, sem mais nada para conhecê-lo, o Ser é Conhecimento. Não é ignorância.

13. O Ser é consciência (awareness), apenas isso é verdade. O conhecimento que é múltiplo é ignorância. E mesmo a ignorância, que é falsa, não pode existir independente do Ser. As muitas jóias são falsas, pois sem o ouro, que é a verdade, elas não podem existir.

14. 'Você' e 'ele' só aparecem quando o 'eu' aparece. Mas quando a natureza do 'eu' é procurada e o ego é destruído, 'você' e 'ele' chegam ao fim. O que brilha em seguida como o Um, é o verdadeiro Ser apenas.

15. Passado e futuro são dependentes do presente. O passado era o presente no seu tempo e o futuro será o presente também. Sempre-presente é o presente. Procurar conhecer o futuro e o passado, sem conhecer a verdade do tempo hoje, é tentar contar sem o número "um".

16. Sem nós não existe o tempo nem o espaço. Se somos apenas corpos, somos apanhados no tempo e no espaço. Mas somos o corpo? Agora, depois e sempre - aqui, agora e por toda parte - somos o mesmo. Existimos sem tempo e sem espaço.

17. Para aqueles que não conhecem o Ser e para aqueles que o conhecem, o corpo é o 'eu'. Mas para quem não conhece o Ser o 'eu' é limitado pelo corpo, enquanto que para aqueles que dentro do corpo conhecem o Ser, o 'eu' brilha ilimitado. Essa é a diferença entre eles.

18. Para quem não conhece e para quem conhece, o mundo é real. Mas para quem não conhece, a realidade é limitada pelo mundo, enquanto que para aqueles que conhecem, a Realidade brilha sem forma como a plataforma (a base) do mundo. Essa é a diferença entre eles.

19. O debate "O livre arbítrio prevalece ou é o destino?" existe apenas para aqueles que não conhecem a raiz de ambos. Aqueles que tiveram a oportunidade de conhecer o Ser, a fonte comum do livre arbítrio e do destino, foram além de ambos e não retornarão a eles.

20. Ver Deus, e não o Ser que vê é apenas ver uma projeção da mente. É dito que Deus é visto apenas por aquele que vê o Ser, mas aquele que perdeu o ego e viu o Ser não é nada além de Deus.

21. Quando escrituras falam sobre 'ver o Ser' e 'ver Deus', qual é a verdade que eles querem transmitir? Como ver o Ser? Sendo que o Ser é um sem um segundo, é impossível vê-lo. Como ver Deus? Vê-Lo é ser consumido por ele.

22. Sem voltar-se para o interior e submergir no Senhor (cuja Luz é Dele que brilha dentro da mente e empresta a ela toda a sua luz), como é que podemos conhecer a Luz das luzes com a luz emprestada da mente?

23. O corpo não diz que é o 'Eu'. E ninguém diz, "No sono não existe o 'eu'”. Quando o 'eu' surge todas as (outras) coisas surgem. De onde surge este "eu", pesquise com uma mente aguçada.

24. O corpo que é matéria não diz 'eu'. A Eterna Consciência não nasce nem se põe. Em meio aos dois, limitado pelo corpo, surge o pensamento de 'eu'. Este é o nó da matéria e da consciência. Isso é escravidão, o Jiva, o corpo sutil, o ego. Isso é samsara, essa é a mente.

25. Segurando uma forma ele surge; segurando uma forma permanece; segurando e alimentando uma forma ele prospera. Deixando uma forma, ele agarra outra. Quando procurado ele foge. Esse é o ego-fantasma sem forma alguma que lhe é própria.

26. Quando o ego surge tudo surge com ele. Quando o ego não está, não há mais nada. Portanto, uma vez que o ego é tudo, perguntar "O que é ele?" é a extinção de todas as coisas.

27. Somos “aquilo”, quando o 'eu' não tinha surgido. Sem pesquisar de onde o "eu" surge, como atingir a auto-extinção onde nenhum "eu" surge? Sem atingir a auto-extinção, como é possível ficar em nosso verdadeiro estado onde o Ser é “Aquilo”?

28. Controlando a fala e a respiração, e mergulhando profundo dentro de nós mesmos (como alguém que, para encontrar uma coisa que caiu na água, mergulha para o fundo), devemos procurar a fonte de onde o ego aspirante brota.

29. Cesse toda fala de 'eu' e busque com uma mente que mergulha internamente, onde brota o pensamento de 'eu'. Esse é o caminho da sabedoria. Pensar, em vez disso, "não sou isso, mas 'aquilo' sou eu", é útil na busca, mas não é a própria busca.

30. Quando a mente se volta para dentro procurando 'Quem sou eu?' e submerge no coração, então o 'eu' enforca sua cabeça de vergonha e o 'eu' Uno aparece como ele próprio. Embora ele apareça como "eu-eu", ele não é o ego. É a realidade, a perfeição, a substância do Ser.

31. Para aquele a quem a bênção do Ser está surgindo da extinção do ego, o que há para fazer? Ele não conhece nada além deste Ser. Como conceber a natureza de seu estado?

32. Uma vez que os Vedas declararam, “Tu és Aquilo” - não procurar e encontrar a natureza do Ser e residir nela, mas pensar “sou isso, não aquilo” é falta de força. Pois, "Aquilo" permanece para sempre como o Ser.

33. Dizer "eu não me conheço” ou “Eu me conheci" é motivo de riso. O quê? Existem dois Seres, um a ser conhecido pelo outro? Existe apenas um - a verdade da experiência de todos.

34. A realidade natural e verdadeira reside para sempre no coração de todos. Não realizá-la ali e ficar nela, mas discutindo 'É', 'Não é', 'Tem forma', 'Não tem forma', 'É um', 'É dois', 'não é nenhum dos dois', esse é o engano de Maya.

35. Discernir e habitar na realidade sempre presente é a verdadeira realização. Todas as outras realizações são como poderes desfrutados em um sonho. Quando o adormecido desperta, eles são verdadeiros? Aqueles que permanecem no estado de Verdade, depois de terem descartado o irreal - serão alguma vez iludidos?

36. Se pensamos ser o corpo, então dizer a nós mesmos, 'Não, eu sou Aquilo', é útil para permanecer como "Aquilo". Mas - uma vez que sempre residimos como Aquilo - por que é que devemos sempre pensar, 'Eu sou Aquilo?' Pensamos alguma vez, 'Eu sou um homem'?

37. "Durante a busca, há dualidade; na realização, há unidade” - essa doutrina também é falsa. Quando ele procurou ansiosamente a si próprio e mais tarde, quando encontrou a si mesmo, o décimo homem na história era o décimo homem e nenhum outro (dez homens atravessaram um córrego e queriam ter a certeza que estavam todos seguros. Na contagem, cada um esqueceu de contar a si mesmo e encontrou apenas nove. Um transeunte deu um golpe em cada e fez-lhes contar dez golpes).

38. Se somos os realizadores das ações, deveríamos colher os frutos que elas produzem. Mas quando perguntamos, "Quem sou eu, sou o realizador desses feitos?” e percebemos o Ser, o sentido de ação é perdido e os três Karmas somem. Eterna é essa Libertação.

39. Pensamentos de aprisionamento e de liberdade duram só enquanto sentimos "estou aprisionado". Quando perguntamos sobre nós mesmos, "Quem sou eu, sou esse aprisionado?" o Ser, eterno, sempre livre, permanece. O pensamento sobre escravidão se vai e com ele, a idéia de liberdade também.

40. Se perguntado, "Qual destas três é libertação definitiva: “Com forma, sem forma, ou com e sem forma?" Eu digo, Libertação é a extinção do ego que pergunta “Com forma, sem forma, ou com e sem forma?"

domingo, 8 de março de 2009

Farīd ud-Dīn Attār (mestre Sufi - 1145-1221) - Um criminoso chega ao Paraíso


Um indigente morreu em pecado e, quando iam enterrá-lo, um devoto afastou-se dizendo que não ia rezar por tal homem. Porém, na noite seguinte, viu em sonhos aquele desgraçado no céu e seu rosto brilhava como o sol. Em seu espanto, disse-lhe: “Como obtiveste um lugar tão elevado, tu que viveste sempre no crime, e que estás manchado dos pés à cabeça? O criminoso respondeu: “Deus me concedeu misericórdia por causa de tua falta de compaixão por mim; Ele viu o teu orgulho desdenhoso e, apesar dos meus pecados, apiedou-Se de minha pobre alma”.

Vê o quão generoso é o amor de Deus. A parte Dele é a misericórdia, a nossa é o eterno louvor. Em Sua sabedoria, Ele nega ou concede misericórdia. Na noite negra como a asa do corvo, Ele envia um menino com uma lâmpada, e também o vento que apaga a lâmpada. Depois, no escuro, encontra esse menino no caminho e pergunta-lhe por que deixou que se apagasse a lâmpada. A criança sofrerá palavras de dura reprovação, mas se Ele assim a repreende, é para que ela encontre, na escuridão de seu caminho, as mil maneiras pela qual o seu senhor é doce, e para não dirigir-lhe, no dia do juízo, mais que o benefício de Seus conselhos.
Se todos fossem puros de toda iniquidade, Deus não teria necessidade de mostrar Sua generosidade; se todos fossem assíduos na oração, Ele não empregaria o jogo do amor. Somente dessa maneira Sua sabedoria se manifesta por completo, e assim é desde sempre. Uma só gota de Sua sabedoria é, para nós, um oceano de misericórdia sem limites. Dia e noite as sete esferas do céu trabalham para ti, e é em teu benefício que os espíritos celestes obedecem a Deus. Sabe que teu amor e teu ódio refletidos são as portas do Céu e do Inferno. Todos os anjos, inclinando-se ante o homem, adoram a ti. A parte e o todo perderam-se em tua essência. Assim não desprezes a ti mesmo, pois não há nada acima de ti. Teu corpo é a parte do todo e tua alma é o todo inteiro; então, não te rebaixes a teus próprios olhos. Conhecendo teu todo, poderás encontrá-lo em cada parte que se manifesta a ti. O todo se clarificará e, na luz, cada partícula mostrará distintamente seu brilho. O corpo não é distinto da alma, é uma parte sua, e a alma não é distinta do todo, é uma parte Sua. Mas parte e todo têm que desaparecer afinal. Este caminho é Um; não há número. Portanto, não se deve falar de parte ou todo. Milhares de nuvens derramam a água da misericórdia sobre ti para alimentar tua aspiração. É para ti que chega o tempo em que a rosa manifesta a beleza de seu vestido. Qualquer coisa que tenham feito os anjos, fizeram por ti, como está dito no Alcorão. O criador te propiciará todos os serviços Dele, como uma eterna fonte.

Lao Tsé (mestre chinês - século VI a.c.) - Tao Te Ching


Cada ser do universo
é uma expressão do Tao.
Ele brota em existência,
inconsciente, perfeito, livre.
Assume um corpo físico e
deixa que as circunstâncias o completem.
É por isso que cada ser
espontaneamente honra o Tao.

O Tao dá a luz a todos os seres,
nutre-os, mantém-nos,
cuida deles, conforta-os, os protege-os,
leva-os de volta para Ele mesmo.
Criando sem possuir,
agindo sem expectativas, guiando sem interferir.
É por isso que o amor do Tao
está na própria natureza das coisas.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Upasni Maharaj (1870-1941) - Entendimento Real


Muitas pessoas lêem um livro, mas nada é colocado em prática. Qual é a utilidade de toda essa leitura. Alguns começam a decifrar o significado de um livro e afirmam sua própria interpretação como sendo a correta. Mas eles deveriam lembrar que um homem que realmente compreende - torna-se. Esse é o sinal do entendimento real.
O que quer que eu fale aqui de uma maneira aleatória, é conselho do qual você pode escolher aquilo que mais gostar e melhorar a si mesmo.
Isso é o suficiente por hoje. Vá embora, agora. Faça algo! Tente utilizar diretamente todos os seus sentidos na causa de Deus. Escreva o nome de Deus. Diga algo. Use seus olhos para olhar para Ele. Prepare sua mente. Haja de acordo com o que você escutou e então terá o resultado.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Meher Baba (1894-1969) - Amor Divino

Mesmo o tipo mais elevado de amor humano está sujeito às limitações da natureza individual, que persiste até o “sétimo plano de involução da consciência”* (*o último e mais elevado estágio que a consciência pode atingir, de acordo com Meher Baba). O amor divino surge depois do desaparecimento da mente individual e é livre dos empecilhos da natureza individual. No amor humano a dualidade do amante e do amado persiste, mas no amor divino o amante e o amado tornam-se um. Nesta fase o aspirante sai do domínio da dualidade e se torna um com Deus; pois Deus É o Amor Divino. Quando o amante e o Amado são um, esse é o fim e o começo.
É pelo amor que todo o universo veio à existência, e por causa do amor que ele é mantido. Deus descende ao reino da Ilusão, porque a aparente dualidade do Amado e do amante é eventualmente contributiva para Sua apreciação consciente de Sua própria divindade. O desenvolvimento do amor é condicionado e sustentado pela tensão da dualidade. Deus tem que sofrer uma aparente diferenciação em uma multiplicidade de almas, a fim de exercer o jogo do amor. As almas são as próprias formas Dele, e em relação a elas, de uma só vez Ele assume o papel do divino amante e do divino Amado. Como o Amado, Ele é o objeto real e o final de apreciação das almas. Como o divino Amante, Ele é o salvador real e definitivo das almas, chamando-as de volta para Si próprio.
Assim, apesar de todo o mundo da dualidade ser apenas uma ilusão, essa ilusão veio a ser por um propósito significativo. O amor é o reflexo da unidade de Deus no mundo da dualidade. Constitui toda a importância da criação. Se o amor fosse excluído da vida, todas as almas no mundo assumiriam completa externalidade umas às outras, e as únicas relações e contatos possíveis, de tal mundo sem amor, seriam superficiais e mecânicas. É por causa do amor que os contatos e as relações entre as almas individuais tornam-se significativos. É o amor que dá sentido e valor a todos os acontecimentos no mundo da dualidade. Mas enquanto o amor dá significado para o mundo da dualidade, é ao mesmo tempo um desafio permanente à dualidade. Quando o amor reúne força, ele gera uma inquietação criativa e se torna a principal força motriz daquela dinâmica espiritual que finalmente consegue recuperar a unidade original de Ser da consciência.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Ibn Arabi (mestre Sufi - 1165-1240) - Discurso da Árvore Universal descrita como a semelhança

Eu sou a árvore Universal da síntese e semelhança. Tenho raízes profundas e meus galhos são sublimes. A mão do Um me plantou no jardim da Eternidade protegido das vicissitudes do tempo. Tenho espírito e corpo. Meu fruto é colhido sem nenhuma mão o tocando. Esses frutos contêm mais ciência e conhecimento que o intelecto profundo e o coração sutil podem suportar. Minhas folhas são divãs suspensos, meus frutos “não estão fora de alcance nem são proibidos". Meu centro é o objectivo pretendido. Meus galhos se aproximam e abaixam perpetuamente. Alguns descem para proporcionar benefícios e auxílios, ao passo que outros se aproximam gradualmente para outorgar favores. Minha constituição é semelhante à constituição da esfera celeste, no seu aspecto redondo, e meus ramos são casas para os espíritos alados. Minhas flores são como as estrelas cujo curso engendra os minerais fluindo em seus corpos.

Eu sou a árvore da luz, da fala e do olho de bálsamo de Moisés, sobre o qual está a paz. Das direções, a minha é a mais excelente destra, dos lugares, o meu é o santo vale. Dos tempos, o meu é o instante. Dos locais de habitação, o meu é o equador e os climas temperados. Tenho perpetuidade, durabilidade eterna e felicidade sem miséria. Os frutos dos meus dois jardins estão perto da mão e meus galhos vacilam majestosamente como que intoxicados. Eles derramam graça e ternura sobre todos os seres vivos. Meus ramos sempre oferecem incenso aos espíritos da Tábua guardada, e minha folhagem é uma proteção para eles contra os raios diurnos. A minha sombra se estende àqueles a quem Deus cobre em sua solicitude e minhas asas se espalham pelo povo de santidade. Os ventos do espírito sopram em mim a partir de muitas direções diferentes e desarranjam a ordem dos meus galhos. Deste emaranhado ouve-se um som tão melodioso! Ele arrebata os intelectos supremos nas alturas mais elevadas e os colocam a correr no curso inscrito no rolo de seu pergaminho.

Eu sou a música da sabedoria que remove os cuidados através da beleza da sua música rítmica. Eu sou a luz luminosa. Meu é o tapete verde e a face redonda mais resplandecente. Assistido pelos poderes e enobrecido por Aquele que está sentado no trono, eu tornei-me como a matéria primordial, recebendo todas as formas do próximo mundo e do mundo presente. Eu não sou demasiado estreito para suportar qualquer coisa! Não estou nunca separado da luz fiel que brilha sobre mim, ela consola aqueles que pendem sobre mim. Eu sou a "vasta sombra", os agrupamentos de frutos, o significado pretendido, a palavra da existência, o mais nobre dos seres originados. Meu poder é inigualável, o meu lugar o mais sagrado, minha lâmpada a mais elevada. Eu sou a fonte da qual emanam as luzes, a síntese das palavras divinas, a mina dos segredos e das sabedorias.

A vasta terra e os céus são meus.

No meu centro estão a equivalência e retitude.

Meus, são a majestade firmemente arraigada, o esplendor,

O segredo dos mundos e a exaltação.

Quando pensamentos recorrem na minha essência

A distância e a nuvem que cega os aturde.

Ninguém no universo conhece minha existência

Salvo O não delimitado pelo elogio.

Ele dispõe sobre nós e nos governa.

A escolha é Dele - Ele faz o que quer.

Siddharameshwar Maharaj (1888-1936) - A Verdade é Imutável e Eterna

A verdade não pode ser evitada. Não pode ser distorcida nem mudada de maneira nenhuma. Tal é o Parabrahman (O Ser Supremo). Oposto a Ele, Maya (a ilusão) e é isso que pode ser manipulado e mudado. Ambas entidades (Brahman e Maya) estão presentes. É por isso que você deve procurá-los por você mesmo. Trate de compreender que todos os objetos externos podem ser movidos ou apartados. A própria Terra gira sobre si mesma e ao mesmo tempo dá voltas. O ar, o fogo e a água são móveis também. Porém, o céu não pode ser movido mesmo se desejarmos fazê-lo. Mas se fecharmos os olhos, até mesmo o céu desaparece. O céu é a mãe de todos os objetos. Todos esses objetos (ou seja, o mundo manifestado) não são verdadeiros. Não há nenhum objeto nesse mundo que não desapareça se ignorarmos sua “existência”. Agora olhe para dentro. O corpo grosseiro desaparece. A mente é apenas os pensamentos e a fala. Se estamos serenos (se a mente está em repouso) então desaparecem todos os sonhos, as dúvidas, o intelecto, os pensamentos, etc. O que sobra, então? Nada. Este nada também pode ser abandonado, Mas, não obstante, permanece aquele que abandona. “Eu” sou o que transcende tudo. Assim, portanto, sobra “eu” como um presenciador. Finalmente, abandone também este “Eu”. Agora sobra apenas a verdade, que está além do conhecimento ou da ignorância. Aquele que esqueceu de tudo, todavia permanece. “Aquele que entra, sairá – não importa ser um rei ou um mendigo”. Aquele que renuncia a tudo já não está na escravidão da mudança. Este há de ser compreendido como Brahman (o Ser, o Si Mesmo).
Tudo está em Brahman e Brahman está em tudo.
Se há pão na boca, então esse pão ocupará um certo espaço na boca. Todavia, se duzentos camelos forem vistos em um espelho, o peso do espelho não mudará porque os camelos vistos no espelho são somente um reflexo. Similarmente, embora o mundo fenomênico esteja em Brahman, isso não afeta e nem distorce Brahman de maneira nenhuma. Consequentemente, uma vez que você reside no seu próprio Ser (self), todos os objetos externos desaparecem. Tudo isto é Maya, somente um engano. O Ser remanesce intocado por Maya. O nascimento de uma pessoa adquire significado verdadeiro somente quando se realiza o Ser. Do Ser surgiram o intelecto, o conhecimento, a ignorância, etc. Por conseguinte, “Você” é o precursor de tudo. O senhor Brahma, Vishnu y Mahesh devem sua existência a “Você”. Durante o sono profundo, todos esses desaparecem; mas “Você” é permanente.

terça-feira, 3 de março de 2009

Tukārām (Poeta e Santo indiano do século XVII) - Como poderia um amante cair?

O que poderia ter feito seu punho enfraquecer e que permitiu à criação o vir a ser?
Como poderia um amante cair para sua morte dos braços da força infinita?

Quão ativo você está na mente sustentando essa grande muralha
que faz o sol lançar uma sombra assustadora que o mundo acredita existir?

Ninguém jamais realmente conheceu a tristeza.
Um Deus verdadeiro não permitiria a dor jamais.

Como pode então um coração se sentir quebrado e necessitado
Se estamos sendo segurados pelos braços da compaixão e da força infinitas?

O espelho diante do qual você está (Deus) - temos de olhar para ele também.

Aquele nome que você chamou, Amado, quando eu caí de seus lábios

Não consigo ouvi-lo perfeitamente, por isso sofro;

Então me diga outra vez, meu querido
muito claramente:

Eu sou você.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Nisargadatta Maharaj - Novembro de 1980

Pergunta: As experiências espirituais que tenho, são algo que não deveria estar lá? O que são elas?
Maharaj: É tudo entretenimento. Você está aqui presente; não é o seu corpo o resultado do entretenimento de alguém? Enquanto você sabe que as experiências são apenas aparências na consciência, está tudo bem. A compreensão não é uma questão de tempo. Se você realmente apercebe a verdade, ela é simples e rapidamente compreendida.
A presença consciente depende do corpo e o corpo não é nada mais do que o esperma e o óvulo, Então, onde está esse “você”? Este corpo é como um instrumento que diz, "eu sou", como um locutor. Atualmente você acha que você é o corpo-mente e quaisquer conceitos que você tenha coletado estão fluindo para fora.

Quando você começa a espiritualidade, você rejeita o corpo-mente com "eu não sou isso". Então você chega ao "eu sou" apenas, sem palavras. Então você é tudo, você não está confinado ao corpo. Devido ao instrumento do corpo, aquele sentimento de consciência está lá e eu, o Absoluto, não sou isso. Tendo se estabilizado na consciência, o próximo passo é estar numa posição de observar a consciência, e todo o jogo que está acontecendo na consciência, apenas para entender. O apego ao corpo e à consciência é muito forte, se livrar dele é muito difícil. O princípio do nascimento, a química em torno da qual a formação do corpo acontece, não tem nenhuma forma ou desenho e na verdade não existia. Aquela coisa não existente de repente veio à existência. Qual é a validade da sua existência? É apenas uma aparição, não pode ser a verdade. É por isso que ouso falar assim. Isso é uma grande brincadeira, uma grande fraude, criada a partir do nada. Você pode criar algo a partir do nada?

O que quer que eu tenha dito está firmemente plantado nesse seu princípio do nascimento, você não pode arrancá-lo. No momento oportuno isso irá se proliferar em conhecimento.

As pessoas vêm aqui e ficam por dias, semanas, até meses. Nos primeiros dias o que eles ouvem se enraiza, e é quando eles devem partir, de modo que o que tomou raiz tenha tempo para crescer e florescer. Assim que a semente se enraiza, vocês devem ir. O que se enraizou deve florescer, deve expressar-se dentro de cada coração.

Meu guru me disse que a consciência apenas é o Guru, todos os outros desenvolvimentos brotaram dentro de mim. O fruto deve crescer na sua própria planta. Eu não deveria semear meus entendimentos em você.
Não me utilizo de tradições ou conhecimentos tradicionais. Se você fizer a menor investigação sobre a tradição você verá que é tudo um conceito.
Estou preocupado apenas com um fato. Aqui eu estava na minha inteireza, nem mesmo consciente da minha consciência, então de repente surgiu essa consciência. Como é que isso aconteceu? Essa é a questão que precisa ser investigada.

É preciso compreender o quão esperta é esta fraude de Maya, primeiro, ela nos mostra o nosso corpo e nos faz acreditar que somos o corpo, mas o corpo não é nada além de uma gotícula de esperma fertilizado, e nesse esperma a consciência está latente. Você vê que fraude é isso? A essência do corpo é a essência da comida, e esta consciência reside latente nisso desde o início. Nesse estado de consciência está o universo inteiro. Tendo visto isso, aquele que tenha entendido está fadado a ficar calado, sabendo que este é apenas um acontecimento transitório. Uma enorme estrutura de conceitos sendo ensinados a nós como conhecimento está baseada na simples aparição da consciência.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

G. I. Gurdjieff - "Homem"

Um homem vem ao mundo como uma folha de papel em branco, e, imediatamente, todos em torno dele começam a competir uns com os outros para sujá-la e enchê-la com educação, moralidade, informação, que chamamos 'conhecimento' e com todos os tipos de idéias sobre deveres, honra, consciência e assim por diante. E cada um afirma imutabilidade e infalibilidade quanto aos métodos que utilizam para enxertar esses ramos no tronco principal, chamado 'personalidade' do homem. A folha de papel progressivamente torna-se suja e quanto mais suja se torna, isto é, quanto mais um homem é recheado com informações efêmeras e noções de dever, honra e assim por diante, que são empurradas para dentro dele ou sugeridas a ele pelos outros, mais "inteligente" e valoroso ele é considerado por aqueles à sua volta.
E, vendo que as pessoas olham sua sujeira como mérito, ele inevitavelmente passa a olhar a folha suja de papel sob a mesma luz. E então você tem um modelo daquilo a que chamamos de um 'homem', a quem tais palavras como "talentoso" e "gênio" são frequentemente aplicadas. E o temperamento do nosso 'gênio' quando ele acorda de manhã é estragado por todo o dia se ele não encontrar os seus chinelos ao lado da cama.
O homem comum não é livre em sua vida, em suas manifestações ou em seu humor. Ele não pode ser o que gostaria de ser e aquilo que considera ser; ele não é aquele “Homem", que soa poderoso! O próprio nome 'homem' significa - o "apogeu da criação", mas como é que esse título se aplica ao homem contemporâneo?

E ainda, o homem deveria realmente ser o apogeu da criação, uma vez que ele é formado e tem em si mesmo todas as possibilidades de aquisição de dados exatamente semelhantes àqueles do Concretizador de tudo o que existe no Universo. Para ter o direito ao nome de homem, devemos ser um. E para ser um homem, deve-se primeiro de tudo, com uma incansável persistência e um insaciável impulso de desejo proveniente de todas as distintas partes independentes que constituem sua inteira presença comum, ou seja, com um desejo vindo simultaneamente do pensamento, do sentimento e do instinto orgânico, trabalhar baseado num conhecimento de si mesmo total e abrangente, ao mesmo tempo lutando incessantemente contra suas fraquezas subjetivas, e em seguida - apoiando-se sobre os resultados obtidos pela consciência apenas no que diz respeito aos defeitos na sua subjetividade estabelecida, bem como os meios para a possibilidade de combatê-los - lutar pela sua erradicação sem misericórdia para com si próprio.
Falando francamente, o homem contemporâneo como podemos conhecê-lo, se formos capazes de imparcialidade, não é nada mais do que um mecanismo de relógio, apesar de ser uma construção muito complexa.
Um homem deve, sem falta, pensar profundamente sobre cada aspecto de sua mecanicidade e compreendê-la minuciosamente, a fim de apreciar plenamente o significado dessa mecanicidade e todas as consequências e resultados que ela implica, assim como sua própria vida e justificação do sentido e objetivo de seu surgimento e de sua existência.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Hazrat Inayat Khan (1882–1927) - O Mistério da Cor e do Som

Tanto do ponto de vista Sufi quanto do de todos os místicos, o estado original de toda a criação é a vibração e a vibração manifesta-se em duas formas ou estágios. Na sua condição original a vibração é inaudível e invisível, mas, em seu primeiro estágio para a manifestação torna-se audível e no seu próximo estágio, visível. Na sua fase audível, em termos Vedânticos, é chamada Nada- uma palavra que significa som - ou Nada Brahma que representa: Som o Criador, Som o Espírito Criativo. A próxima etapa é chamada Jatanada - uma palavra que significa luz. São os diferentes graus dessa luz e a comparação entre eles, o que dá origem às diferentes cores. As cores são apenas as diferentes tonalidades da luz; comparadas umas com as outras são cores, mas na realidade, a luz faz todas as cores. Isso é demonstrado pela luz do sol que não tem nenhuma cor especial que lhe é própria, mas a luz que as plantas partilham manifesta-se nas cores das suas flores. Essas cores parecem ser as cores das flores, dos vegetais e folhas, quando na realidade são as cores do sol.

No caso das almas também podemos perceber que a manifestação de tal variedade entre elas é uma ilusão também. Esquecemos que todas as várias faces e as infinitas formas dos seres humanos pertencem a um Espírito e que são as manifestações daquele Espírito único. Quando começamos a compreender a teoria da cor e do som, podemos começar a entender isso também. Por exemplo, o que é o som? As diferentes notas são os diferentes graus de respiração: a respiração humana ou o eco proveniente de um vaso, de um instrumento, ou de um sino - pois isso também é respiração - a respiração dos seres humanos, bem como a respiração dos objetos. De uma respiração muitos sons manifestam-se, portanto, isso nos leva de volta à idéia de unidade. Toda essa variedade de cores, formas e sons provêm de uma única fonte.

Associado a isso, há a questão do misticismo do número. Essa é a idéia de ritmo. Cada movimento deve ter o seu ritmo. Não pode haver movimento sem ritmo. Por ritmo imaginamos os intervalos de tempo, como horas ou minutos ou como colcheia, semicolcheia e semibreve na música. Todos eles surgem do nosso hábito de dividir o tempo em ritmo. Fazemos isso porque a nossa própria vida depende de ritmo. O batimento do pulso, do coração, na cabeça - todos mostram o ritmo da vida. A ciência dos números vem da ciência do ritmo. Um certo número surge para denotar um certo período de tempo, cada ação ou movimento requer um certo tempo e tem um efeito correspondente. Todo efeito que é produzido por cor, som ou número depende de seu efeito harmonioso ou desarmonioso. Se o som não é harmonioso, não tem um efeito desejável sobre nós, se uma cor não é harmoniosa também tem um efeito indesejável. Isso mostra que não é o número ou o som particular que dá o efeito desejável, mas a harmonia. É por isso que o conhecimento do efeito do som, da cor ou do número é insuficiente sem um desenvolvimento de um sentido de harmonia em nós mesmos, para que possamos entender o efeito harmonioso dessas coisas.

Os místicos têm visto cinco tatwas, ou elementos, trabalhando por trás tanto do som quanto do ritmo, embora os músicos considerem sete notas em uma escala. A escala original conhecida pelos místicos tinha cinco números, e havia cinco tipos de escalas entre as pessoas antigas, com cinco diferentes classes de ritmos. Tomava-se cinco cores para representar os cinco elementos. As pessoas frequentemente dizem: "Esta cor dá sorte", e que "aquela dá azar". "Este número dá sorte e aquele dá azar". Mas são a cor ou o número especiais em si, é a harmonia da situação que dá sorte ou azar: em que relação aquele determinado número e cor estão a você, aos negócios da sua vida, à sua própria constituição e ao seu estágio de evolução. Se eles estão em harmonia com a sua vida, então são harmoniosos e dão sorte. Se não, eles são desarmônicos e dão azar. Isto não significa que uma determinada cor é desarmoniosa; o que decide se ela é ou não harmoniosa está relacionado apenas com o 'como' ela surge na sua vida.

Da mesma forma com os sons. Mas o poder do som é maior que o poder das cores. Por que é que isso acontece? É porque o som surge das profundezas de nosso ser e porque o som pode também tocar as profundezas do nosso ser. O mantra-yoga dos hindus é baseado nesse princípio. O termo Sufi para isso é Dhikr (Zikar): que é o uso das palavras para o desvendamento da alma. Mas não é meramente para trazer algum resultado desejado que as palavras podem ser utilizadas no dhikr. As pessoas muitas vezes cometem o erro de usar a palavra sem qualquer idéia espiritual por trás dela, simplesmente para atingir algum poder mágico. Os Sufis de todos os tempos têm alertado contra esse erro, e têm constantemente ensinado que existe apenas um objeto pelo qual vale a pena se esforçar, o objeto essencial da vida, ou seja, Deus. É apenas quando a ciência das palavras está sendo usada para a realização da verdade, isto é, para a realização de Deus, que está sendo utilizada no modo correto. Usá-la para qualquer outra finalidade que seja, é como pagar por pérolas e levar pedras sem valor.

Embora não haja mal algum em aprender tudo que pudermos, não é bom dar vasão à superstição. Caso contrário, seria melhor realmente nunca ter conhecido essas coisas. O objetivo de todo o Sufi é chegar à verdade, e qualquer coisa que diga respeito a superstição deve ser evitada. O que é a cor afinal? É uma ilusão. O que é o número? É uma ilusão. O que são as formas? Elas também são ilusões. É interessante até certo ponto saber sobre essas coisas e distingui-las. Isso dá um certo conhecimento. Mas uma vez que são todas ilusões, como pode ser útil dar-se totalmente a elas negligenciando o desvendamento do Ser (Self), além de, ao mesmo tempo, negligenciar a busca pela verdade - que é o único objetivo da alma? Por conseguinte, a todos os outros conhecimentos e todas as outras coisas almejadas devem ser dados um lugar secundário. Nossa principal busca deve ser pela Verdade, acreditando assim como nós acreditamos, que na verdade está Deus.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Hafiz (1315-1390) - Uma raiz em cada ato e criatura

Os olhos do sol estão pintando campos novamente.
Suas chicotadas com golpes precisos
são arrebatadoras através da terra.

Uma grande paleta de luz abraçou esta terra.

Hafiz, se apenas um pouco de argila e água
Misturados na tigela Dele
Pode produzir tais requintados aromas, vistas,
Músicas e formas rodopiantes,

Que maravilhas indizíveis devem aguardar com
O começo da revelação
Do infinito número de pétalas
Que é a alma.

Que emoção irá renovar o seu corpo
Quando todos começarmos a ver
Que o coração Dele reside em Tudo?

Deus tem uma raiz em cada ato e criatura
das quais Ele extrai sua misteriosa vida Divina.

Os olhos Dele estão pintando campos novamente.

O amado com Suas próprias mãos está cuidando,
Emergindo como uma criança preciosa,
Ele mesmo em você.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Shri Samartha Ramdas Maharaj (1608-1681) - O Puro Brahman

1. Brahman é mais claro do que o céu sem nuvens, que parece vazio ao olharmos para ele. Tal como o céu, Brahman é sem forma, enorme, e ilimitado.
2. Vinte e um céus e sete mundos inferiores (Patalas) em conjunto estão contidos na esfera da criação. O ilimitado, puro Brahman permeia tudo isso.
3. Brahman é interminável acima e abaixo do universo. Não há nem um lugar, nem mesmo a mais pequena partícula, que não seja permeada por Ele.
4. Brahman permeia toda a água, a terra, a madeira, bem como todas as pedras, e nem mesmo um único ser está sem Ele.
5. Assim como a água está dentro e em torno dos animais aquáticos, da mesma forma, este puro Brahman está dentro e em torno de todos os seres vivos.
6. No entanto, esta comparação com a água não é totalmente adequada, pois há lugares secos que existem além da água, enquanto que não se pode nunca sair de Brahman.
7. Se tentarmos fugir do céu, não é possível, porque, basicamente, só céu é encontrado à nossa frente. Do mesmo modo, não há fim ao interminável Brahman.
8. Mas ainda que seja apenas Brahman que encontramos continuamente - Ele que é indissociável do corpo, e que é o que está mais próximo a todos - Ele também está oculto.
9. Existimos dentro Dele mas não O conhecemos. Imaginamos tê-Lo entendido, mas na verdade, Parabrahman, a Suprema Realidade, não pode ser entendido.
10. Quando nuvens são vistas no céu, parece que o céu está de alguma maneira manchado ou que algo tenha sido misturado a ele, mas isso é falso, o céu permanece claro e puro.
11. Se fixarmos nosso olhar no céu, minúsculos salpicos, como pequenas bolhas ou gotículas, são vistos pelos olhos. Do mesmo modo, as aparências visíveis são irreais para os "conhecedores" (Jnanis).
12. Embora sejam falsas, ainda são vistas como um sonho para alguém que está dormindo. Somente após tornarmos-nos despertos compreenderemos que não são verdadeiras.
13. Do mesmo modo, uma pessoa torna-se desperta com o auto-conhecimento na sua própria experiência, e assim começa a compreender a natureza da ilusão.
14. Agora chega dessa fala enigmática. Aquilo que está além do universo será agora demonstrado por meio de explicação e análise seletiva para que possa ser profundamente compreendido.
15. Brahman está misturado à criação inteira, está permeando todos os objetos e difundido em todas as partículas em existência.
16. Toda a criação aparece em Brahman, e Brahman está em tudo da criação. No entanto, a experiência desta aparição do mundo, este aspecto, é apenas uma pequena fração de Brahman.
17. Apenas uma pequena fração de Brahman está dentro da totalidade da criação. Quem pode conhecer seus limites fora da criação? Como pode o todo de Brahman estar contido dentro da criação?
18. É como tentar colocar o céu inteiro num pequeno pote; não é possível. Por isso, dizemos que o pote contém uma fração pequena do céu.
19. Brahman está misturado a tudo, mas não é perturbado. Ele existe em tudo, mas ainda está além de tudo.
20. Brahman está misturado com os cinco elementos, mas também está além deles e não é limitado por eles; como o espaço que permeado por lama, ainda assim não é sujo por ela.
21. Nada pode ser comparado à Brahman, ainda assim, afim de compreender, a parábola do céu é dada e alguns meios para sua explicação são requeridos.
22. Os Upanishads e outros textos antigos dizem que Brahman é como o céu, então, de modo a manter em conformidade com os textos, a parábola do céu é usada para Brahman.
23. Na ausência de ouro, o latão é dourado apenas na cor. Do mesmo modo, na ausência do atributo de vazio, o céu seria puro Brahman incorruptível.
24. Brahman é como o céu, e a Ilusão é como o vento que pode ser sentido, mas não pode ser visto.
25. A criação que é constituída de palavras aparece e dissolve-se de momento a momento. Como o vento, ela não pode ficar parada.
26. A ilusão é falsa assim, deixe-a ser como ela é. O eterno Brahman é um, mesmo assim, ainda é visto permeando todas as coisas.
27. Brahman existe penetrando a terra, mas não é duro como a Terra. Ao mesmo tempo, nenhuma alegoria pode ser usada para a sua suavidade e sutileza.
28. Entenda que a água é mais suave do que a terra, o fogo é mais suave que a água, e o vento é mais suave do que fogo.
29. Entenda, que o céu, ou o espaço, é muito mais suave e mais sutil do que o vento, e que a plenitude de Brahman é mais sutil do que o céu.
30. Brahman penetrou a mais dura das armas, e ainda assim não perdeu a sua sutileza. Não é nem duro nem mole. Não existe alegoria precisa para Ele.
31. Brahman permeia a Terra, mas a terra é destrutível e Brahman não é. Brahman está na água, mas a água seca, enquanto Brahman não seca.
32. Brahman está no fogo, mas não pode ser queimado. Brahman está no vento, mas Ele não se move. Ele está no céu, mas, o céu é conhecido, enquanto que a Suprema Realidade, Parabrahman, não pode ser conhecida.
33. Ele está ocupando todo o corpo, mas não pode ser encontrado. Está ao mesmo tempo muito próximo de nós e ainda assim muito longe. Como isso é incrível!
34. Ele está na nossa frente e por todos os lados, e tudo o que é visto ocorre nele. Ele é "Auto-evidente" e "Auto-estabelecido."
35. Nosso ser está nele somente, e é apenas Ele quem está dentro e em torno de nós mesmos. Se tivéssemos que compará-Lo com algo, poderíamos dizer que ele é como o céu sem nada "mais" apareça nele.
36. Não é sentido como sendo algo, mas ainda assim está preenchendo todas as coisas. É como uma grande riqueza que pertença à própria pessoa e ainda assim não pode ser vista.
37. Ele é anterior a qualquer objeto que seja visto. É preciso resolver esse mistério com a própria experiência.
38. O espaço está dentro, ao redor, e contém todos os objetos. Ainda assim permanece o mesmo, mesmo sem a presença dos objetos. Com ou sem a presença da terra, o espaço continua a ser o mesmo.
39. O que quer que tenha nome e forma é Ilusão e inexistente. O segredo além do nome e forma é conhecido apenas pelos iniciados.
40. Tal como uma enorme nuvem de fumaça subindo para o céu tem a aparência de montanhas, de forma semelhante, a Deusa da Ilusão (Maya) mostra o seu truque que se parece com a criação do universo.
41. Entenda que a Ilusão é impermanente e Brahman é eterno e espalha-se por toda parte em todos os momentos.
42. Ao ler este texto espiritual, Brahman é as letras e as palavras, a visão delas, bem como a presença sutil que está nos olhos que estão vendo.
43. Aquele que ouve as palavras quando escutamos, aquele que é a mente que vê os pensamentos e que permeia a mente por completo, é a Suprema Realidade apenas, o Parabrahman propriamente dito.
44. Os pés que estão caminhando, o percurso que está sendo percorrido, tudo o que for encontrado pelo corpo, e tudo o que for pego com as mãos ao longo do caminho é apenas Brahman.
45. Deixe que seja assim. Tudo existe em Brahman apenas. A compreensão desse fato em si é o que destrói o desejo pelos objetos dos órgãos dos sentidos.
46. Brahman é o que está mais próximo de nós. Se tentarmos vê-Lo, não poderá ser visto, no entanto, ele existe mesmo que não seja visto.
47. Brahman só pode ser entendido pela experiência. É apenas a ausência de aparência do visível que leva a essa "auto-experiência"(experiência do Ser), que é a realização de Brahman.
48. A visão correta deve ser com os olhos do conhecimento e não com os olhos físicos. O reconhecimento dessa visão interior "correta", é a testemunha da própria visão interior.
49. Entenda que aquele que conhece tanto Brahman quanto a Ilusão é aquele que tem a experiência de ser a "Testemunha de Tudo", que é chamado de o "quarto estado", ou Turya. (Os três primeiros são os estados desperto, de sonho, e de sono profundo)
50. Testemunhar é a causa instrumental das atitudes da mente, ou o foco de atenção. Entenda que a ausência das atitudes da mente é "não-mente", onde até mesmo a própria consciência de si mesmo como um indivíduo é dissolvida. Isso é chamado de "Conhecimento espiritual", ou Vidynana.
51. Onde a Ignorância (Avidya) desapareceu e o Conhecimento (Dynana; Jnana) não permanece, e até mesmo o maior Conhecimento Espiritual (Vidynana) é dissolvido - isso é Parabrahman, a Suprema Realidade.
52. Dessa maneira, Brahman é eterno onde toda a imaginação termina. Entenda que essa é a "Solidão Feliz" dos Yogis.