quinta-feira, 15 de setembro de 2011

G.I. Gurdjieff - Paris, três reuniões em 1943





25 de setembro de 1943



S.: Não consigo ter emoção quando concentro. Posso deixar minha mente livre, mas não tenho sucesso em sentir uma emoção forte. Tenho a impressão de me defrontar com uma barreira e não consigo avançar.


Gurdjieff: Você cai logo no começo por causa de uma coisa pequena. Com a cabeça ninguém jamais pode ter uma emoção. A cabeça é uma coisa. A emoção é uma função do corpo. Com a cabeça podemos apenas constatar, não podemos sentir. Estou sentado, tenho uma dor, aqui estou quente, ali frio. Eu observo isso com minha cabeça e sinto isso com meu plexo solar. Eu sinto que aqui estou quente e ali estou frio. E constato isso com minha cabeça. Se eu concentrar-me de maneira especial, posso constatar isso. Mas fico identificado se penso que posso fazer mais do que isso. Eu constato que aqui estou de um jeito, ali de outro e como um todo de outro jeito. Você nunca nota nada com a sua cabeça. Sua cabeça é capaz de constatar, apenas se você colocar atenção em algo. É apenas com uma atenção especial que a cabeça pode constatar. A cabeça é como um aparato, ela faz o papel do policial. Mas o centro de gravidade da sua presença está no plexo solar, o qual é o centro do sentimento. Ali é onde as coisas acontecem. A cabeça é como um datilógrafo. Você entende o que estou falando? Sua pergunta prova que você não trabalha da maneira como acabo de falar; é necessário encontrar uma maneira de trabalhar dessa forma. Não com a sua cabeça. Sua cabeça pode apenas constatar, não pode de maneira nenhuma trabalhar. Você deve trabalhar com sua sensação e com o seu sentimento. Quanto à cabeça, ela pode ver se eles estão juntos ou separados. A cabeça não é uma parte do organismo, ela é separada do organismo. O corpo pode morrer, a cabeça também. Mas a cabeça pode morrer e o resto seguir vivendo. A cabeça não é nada, é uma função, um datilógrafo, um aparato. Quando você concentra a sua atenção na cabeça, você pode constatar o que se sucede em você. Mas a cabeça não é nada, ela é um estranho no organismo. Ela (a pessoa que perguntou) quer sentir com a cabeça. Nunca ela poderá fazer isso. A cabeça é estrangeira ao corpo. A cabeça pode fazer o papel de policial, mas apenas de policial, que observa como tudo acontece, como um vigia. Ela observa como as funções de sua presença estão trabalhando. Você compreende?


S.: Sim.


Gurdjieff: Você estende a razão de você estar nessa situação e o que você deve fazer?


S.: Você poderia dar-me uma tarefa? Já tentei várias e nenhuma delas se adequou a mim; não sei qual escolher.


Gurdjieff: Olhe, eu assumo uma postura incomum, uma postura que é difícil para o meu corpo porque não estou acostumado com ela. Em mim, minhas funções estão operando, meus dois centros - do sentimento e da sensação. E tenho a sensação do desconforto de minha postura e eu sinto a estranheza disso. Pois não estou habituado a ela. Com minha cabeça eu olho para ver o que é isso. Eu estudo. ‘Ah, sim! É dessa forma. E aqui, é assim.’ É assim que você deve fazer. É algo simples. Você mantém os três centros separados em você. Você entende essa coisa muito simples? É uma postura desconfortável. Eu posso até cair. Eu olho: tenho a sensação: tenho o sentimento disso. `Ah! Sim – é assim’. Eu observo. Com minha cabeça eu coleto material, eu comparo. Com minha cabeça, com minha lógica, encontro as razões: por que, como. Pelo outro lado, tenho a sensação, pelo outro, o sentimento daquilo. E dessa maneira, você vê, os três centros estão ocupados com esse trabalho. Você separa seus três centros. Eu aconselho que você faça isso por enquanto. Quando tiver chegado a conhecer os seus centros, então usaremos outro exercício. Aconselho que use essa postura como um exemplo. Você pode assumir outra postura, qualquer postura desconfortável. É uma coisa muito simples e muito boa. É um exercício bom para vocês também. Até o momento vocês ainda não separaram seus três centros. Em muitas coisas vocês já avançaram, mas no que diz respeito a essa simples coisa, vocês são estranhos. Cada homem deve reconhecer em si mesmo três qualidades de sensação. Em cada pessoa existem três centros, três diretores. E esses três diretores podem gerar um quarto, o qual pode ser o “Eu”.


B.: Gostaria de fazer uma pergunta sobre concentração. Quando quero coletar-me e fixo minha atenção em um ponto, meu pensar parece vazio. Em vez de ficar concentrado, fica vazio. É quieto, mas é vazio e essa quietude não exclui as associações. Por outro lado, quando me apego a um objeto externo, meu pensar não fica parado, mas parece-me muito mais concentrado, não tenho associações. Meu pensar nunca fica fixo, mas parece muito mais concentrado do que quando minha concentração é intencional. A cessação dos pensamentos que eu chego parece-me oposta à verdadeira concentração.


(Enquanto Madame de Salzmann está traduzindo, B. explica para A. sua pergunta)


Gurdjieff [dirigindo-se a A.]: O que ele está lhe falando me interessa muito. Como você explica a questão dele?


A.: Quando B. tenta se concentrar, seus pensamentos se aglutinam.


Gurdjieff: Não, não fale assim. Vou dar uma explicação para ele que também será muito boa para você e que irá ajuda-lo muito. Posso falar agora. Tente entender. Para começar, o segredo é o “eu sou”. Você começa assim. Agora, eu sinto o “eu”. Mas como sinto o “eu”? O que é o “eu”? Eu sinto este local (o alto do braço) e este (o plexo solar). Tente isso agora. E ao mesmo tempo, eu constato com a minha cabeça. Faça isso. Irá fazê-lo compreender. Eu tenho a sensação e o sentimento dessas duas partes (O alto do braço e o plexo solar) e ao mesmo tempo, com minha cabeça, eu constato o que está se sucedendo. Se fizer isso, você entenderá o que tem faltado em você até agora. É muito simples. Depois, quando tiver sentido isso com uma parte de sua atenção e com sua cabeça, você conseguirá viajar em você mesmo, livremente. As associações são outra coisa. Deixe-as sozinhas; elas são coisas baratas, coisas pequenas. Sou maior que minhas associações. Quem tiver constatado algo novo, fale. Algo que não tiver compreendido ou talvez algo de bom que tenha constatado para si.


(S. faz um sinal de que não)


Gurdjieff: Ninguém descobriu a América?


T.: Não, ainda não.


Gurdjieff: Loira, e você?


F.: Essa concentração real vem apenas com a função da sensação.


Gurdjieff [para A.]: Você entendeu?


A.: A sensação, sim, mas não entendo o sentimento do corpo.


Gurdjieff: O tempo todo você sente isto (ele mostra o alto do braço e o plexo solar) e você observa com sua cabeça. Você faz essas três coisas o tempo todo.


A.: Percebo que isso aumenta a sensação de presença.


Gurdjieff: Graças a esse exercício você aumentará seu poder de concentração. Ele foi criado para isso. Agora explique para ele (para B.), fale que ele deve fazer esse exercício. Através dele ele poderá chegar à sensação. Hoje ele não está apto a isso. Esse exercício o ajudará.


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11 de março de 1943



Lanctin: Não consigo parar as associações enquanto faço o trabalho.


Gurdjieff: É necessário preparar antes do exercício de tentar ver com três partes.


Aboulker: No início quando comecei no trabalho, eu sentia em mim uma emoção. Agora não consigo mais encontrar isso. Tenho uma constante sensação de secura. Ontem esse sentimento mais quente voltou, porém com uma intensidade muito menor.


Gurdjieff: Isso é sinal de uma crise. É porque você chegou no Mi*. Você deve passar esse intervalo por si mesmo e encontrar em si mesmo a força necessária. A sua cabeça, que é como se fosse separada de você, deve ajuda-lo.


Lanctin: Como?


Gurdjieff: Ela deve convencê-lo. Ela deve fazê-lo ver o ontem e o amanhã.


Lanctin: Mas minha cabeça é fraca.


Gurdjieff: Sim, mas sem sua cabeça você também seria fraco. É necessário usá-la dessa maneira.


Simone: Algum tempo atrás, comecei a ler novamente, mas percebo em mim algo que sempre me impede de trabalhar, um tipo de avidez que me deixa cansada ao final de um curto período e faz com que eu não retenha nada. Meu tempo é perdido.


Gurdjieff: É porque você lê apenas com a sua cabeça. Faça um exercício: Leia apenas um pouco – uma página por vez. Primeiro você deve tentar entender com a sua cabeça, depois deve tentar sentir e depois experimentar. E depois voltar e pensar. Exercite-se a ler com seus três centros. Em cada livro há material para enriquecer a pessoa. Não importa o que você lê e a quantidade, mas sim a qualidade da maneira da leitura.


Pauline: Depois de ter recebido um choque, vi realmente o que minha vida tem sido – vazia, estéril e inútil. E eu não quero perder essa visão, esse sentimento. Caso contrário, sinto que cairei novamente e perderei minha vida outra vez.


Gurdjieff: Fenômenos cósmicos pelos quais você não é responsável vão contra o seu trabalho. Você pode apenas dar a sua palavra de que quando a vida se aquietar você se porá a trabalhar.


Mechin: Sinto que meu centro intelectual está diferente e que não encontro em mim mesmo nenhuma força afirmativa. O que posso fazer?


Gurdjieff: Há um pequeno segredo aí. É que você é um grande egoísta. Você sabe apenas de si mesmo. Você não tem responsabilidade. É por causa disso que você carece dessa força afirmativa. Por tudo o que você tem, tudo que o constitui, você está sob obrigação e você deve ressarcir e pagar por tudo isso, para que então outras coisas possam lhe ser dadas. Mas em vez disso, você fica surpreso de não ter recebido ainda mais.


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8 de abril de 1943



Lebeau: Podemos fazer o trabalho no banho turco? E o que é melhor fazermos?


Gurdjieff: O “hammam” é um excelente lugar para trabalhar se a pessoa consegue fazê-lo. (Particularmente quando estamos na sala mais quente ou nas mãos do massagista.) Lembre-se de si sem cessar. Até mesmo faça exercícios lá. Para conseguir fazer o trabalho lá, dê a sua palavra antes de ir. Pense enquanto estiver lá. Coloque uma tarefa para si mesmo, pois no início é difícil. Entretanto, se a pessoa consegue, é possível fazer um excelente trabalho lá. O animalismo se expande, a pessoa fica completamente dentro de suas sensações corporais agradáveis e trabalhar assim oferece dificuldades.


Philippe: Como podemos entender a frase: “sacrifique o seu sofrimento”?


Gurdjieff: Primeiramente, de onde vêm essas palavras?


[De uma conversa com o Sr. Gurdjieff.]


Sacrifique o seu sofrimento pelo seus semelhantes, seu sofrimento voluntário, não para si mesmo, para os outros. Essa regra costumava fazer parte de um juramento pronunciado no passado por doutores quando eles eram iniciados como astrólogos e um longo tempo atrás quando tinham que prometer sacrificarem seu sono, sua fadiga, seu sofrimento, pelos outros.


Philippe: Por que a maior parte do sofrimento humano gira em torno do amor e das coisas do sexo?


Gurdjieff: Por que essa pergunta? Ela não diz respeito pessoalmente a você. Pergunte de outra maneira.


Philippe: Por que a maior parte das associações que interferem no trabalho são associações sexuais?


Gurdjieff: Essa questão é subjetiva. Não se aplica a todos os homens. É uma anormalidade resultante da masturbação infantil. Mas qual é a conexão disso com o sofrimento? Não há nenhum traço de sofrimento aqui.


Cada homem tem em si três excrementos que se elaboram nele mesmo e que devem ser expelidos. O primeiro é o resultado da alimentação comum e ele elimina-se naturalmente; e isso deve acontecer a cada dia, caso contrário todo tipo de doenças aparecem. (Os médicos sabem bem disso). Pelo mesmo motivo que você vai ao banheiro para essa manutenção, você deve ir ao banheiro para o segundo excremento que é rejeitado de você pela função sexual. É necessário para a saúde e para o equilíbrio do corpo; e certamente é necessário em alguns casos fazer isso a cada dia, em outros a cada semana, em outros a cada mês ou a cada seis meses. É subjetivo. Para isso você deve escolher um banheiro apropriado. Um que seja bom para você. Um terceiro excremento é formado na cabeça; esse é o lixo do alimento das impressões e as sobras acumulam-se no cérebro. (Os médicos ignoram esse excremento, assim como ignoram o importante papel do apêndice na digestão e desprezam-no considerando-o desnecessário).


Não é necessário misturar os atos do sexo com o sentimento. Às vezes é anormal fazê-los coincidir. O ato sexual é uma função, podemos considera-lo como algo externo a nós mesmos, enquanto o amor é interno. O amor é amor. Ele não precisa do sexo. Pode ser sentido por uma pessoa do mesmo sexo, até por um animal e a função sexual não se mistura aí. Às vezes é normal uni-los, isso corresponde a um dos aspectos do amor. É mais fácil amar dessa maneira. Mas ao mesmo tempo, assim é mais difícil permanecer imparcial, como demanda o amor. Da mesma forma, se a pessoa considera a função sexual como necessária medicamente, por que ela amaria um remédio? O ato sexual originalmente deve ter sido realizado apenas para o propósito da reprodução das espécies, mas pouco a pouco os homens transformaram-no num meio de prazer. Deveria ser um ato sagrado. Devemos saber que essa semente divina, o Esperma, tem uma outra função: a da construção de um segundo corpo em nós, daí vem a sentença: “Feliz é aquele que compreende a função do ‘exiohary’** para a transformação de seu ser. Infeliz daquele que usa-o de uma maneira unilateral”.


Aboulker: Por que as religiões proíbem o ato sexual?


Gurdjieff: Porque originalmente conhecíamos o uso dessa substância, daí vem a castidade dos monges. Agora nós esquecemos esse conhecimento e apenas a proibição permanece, o que atrai para os monges quantidades de desordens e doenças específicas. Observe os padres que ficam “gordos como porcos”** (a preocupação com comer domina-os), ou que ficam “magros como o diabo”** (e tem internamente pouquíssimo amor por seus semelhantes), os gordos são menos perigosos e mais gentis.


* referência à lei das oitavas (a lei de sete), o intervalo entre a nota Mi e a nota Fá. Pesquizar no blog para a melhor compreensão.


** citação do livro 'Relatos de Belzebu a seu neto' ( altamente recomendado).

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Hazrat Inayat Khan - Alguns Aforismos


O amor produz harmonia e a harmonia cria beleza. Portanto, o principal lema da vida é: “Amor, harmonia e beleza”. Ame em todas as coisas e em todos os seres o Deus amado, esteja em harmonia com todas as coisas com a compreensão correta e embeleze a sua vida ao observar a beleza dentro e fora. Através do amor, da harmonia e da beleza você deve transformar a totalidade da vida em uma única visão da glória divina.


A vida é uma sinfonia e a ação de cada pessoa nesta vida é a execução do seu trecho particular na música.



A melhor moral é aprender de tudo aquilo que soa desarmonioso a nós de modo que não utilizemos isso com os outros e que usemos o que soa harmonioso a nós com os outros. É assim que os ouvidos deveriam ser treinados.


Quanto mais avançamos, mais difícil e mais importante se torna a parte que executamos na sinfonia da vida; e quanto mais conscientes nos tornamos dessa responsabilidade, mais eficientes ficamos em cumprir nossa tarefa.


Uma vez que uma alma despertou para a contínua música da vida, essa alma considera como sua responsabilidade, como seu dever, desempenhar a sua parte na vida externa, mesmo que isso seja contrário à sua condição interna naquele momento.


O segredo de buscar a vontade de Deus reside em cultivar a faculdade do sentido de harmonia, pois harmonia é beleza e beleza é harmonia. O amante da beleza e seu progresso ulterior torna-se um buscador de harmonia e ao tentar sempre manter a harmonia ele irá sintonizar seu coração à vontade de Deus.


Não há nada neste mundo que não fale. Cada coisa e cada ser estão continuamente falando a sua natureza, o seu caráter, o seu segredo; quanto mais o sentido interno estiver aberto, mais capaz de ouvir a voz de todas as coisas ele será.


Se a alma estivesse desperta para sentir o que os pássaros sentem quando cantam na floresta ao amanhecer, o homem saberia que a prece deles é ainda mais exaltadora do que a sua, pois ela é mais natural.


Não há nada no mundo que não seja um instrumento de Deus.


O som é o sinal da vida; nos templos dos deuses e deusas Hindus, os sinos soando mostram vida mesmo no silêncio.


O som está oculto sob as palavras e as palavras ocultas sob os sons. Quando percebemos as palavras, não percebemos o som que está por trás e quando percebemos o som, não percebemos as palavras por trás. Quando o poeta percebe palavras, o músico percebe o som por trás. O místico percebe até mesmo nesse som a 'Palavra que era Deus'.


O tom continua, o tempo expira.


O tom vive no tempo, o tempo assimila o tom.


Deus não está no tempo. Desse modo, Ele está no silêncio. O som é parte do mundo do tempo.


O ritmo não pode existir sem o tom, nem o tom sem o ritmo. Eles são interdependentes para a sua existência e o mesmo se aplica ao tempo e o espaço.


O barulho vem da inquietude e a inquietude é o ritmo destrutivo.


A atmosfera do homem explica a condição de sua alma.


Quanto mais avançamos, mais nossas disputas e discussões cessam. Elas vão sumindo até que não sobre nenhuma cor nelas e quando a cor toda se vai, a luz clara vem, a qual é a luz de Deus.


Nirvana significa sem cor. O que é cor? Certo e errado, pecado e virtude – tudo isso é cor; mas no reino da verdade eles desaparecem, da mesma forma que todas as cores somem no resplendor da luz. Aquele que percebeu isso entrou no nirvana.


Um Sufi deve sempre reconhecer em Deus a fonte de todas as coisas e a origem de todos os seres.


Um Sufi deve observar no contínuo desdobramento do espirito o nascimento da alma.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Jalaluddin Rumi - Trechos do Masnavi


Um príncipe do Egito apaixonou-se ardentemente por uma donzela pertencente ao chefe de Mausil ao ver o seu retrato, e enviou um exército para toma-la à força. O exército conseguiu captura-la e iniciou a marcha de retorno, porém, no caminho, o comandante do exército apaixonou-se pela donzela, que por sua vez retribuiu sua afeição. Quando chegaram ao Egito, ela foi entregue ao príncipe, mas imediatamente não simpatizou-se com ele, pois ele não era nem de longe tão viril quanto seu amado comandante. O príncipe descobriu seu segredo e, embora pudesse, com razão, ressentir a traição do comandante, conteve-se e mostrou a verdadeira virilidade na “grande guerra”, perdoando sua falta e unindo-o à donzela a quem ele estava tão afeiçoado.


Alguém fez a seguinte pergunta a um filósofo:
“Ó sábio, o que é verdadeiro e o que é falso?”
O sábio tocou sua orelha e disse: “Isto é falso,
Mas o olho é verdadeiro e o que ele informa é certo”.
O ouvido é falso em relação ao olho,
E a maioria das afirmações estão relacionadas ao ouvido,
Ou seja, estão baseadas em rumores.


Se um morcego desvia seus olhos do sol,
Seu próprio horror do sol dá-lhe uma ideia do sol,
Essa ideia afugenta-o para a escuridão.
Essa ideia de luz aterroriza-o,
E faz que ele agarre-se à noite escura.
Assim também é a sua ideia de seu terrível inimigo
Que faz você agarrar-se aos seus amigos e aliados.



Ó Moisés, suas revelações lançaram glória sobre o monte,
Mas aquele aterrorizado não suportou suas realidades. (ref. Alc. VII.143)
Não seja orgulhoso, saiba que você deve primeiro suportar
A ideia da Verdade para assim chegar à Ela.
Ninguém fica assustado pela simples ideia da luta,
Pois “não é preciso coragem antes que a luta comece”.
Na mera ideia da luta, um covarde pode imaginar-se
Atacando e defendendo-se como um Rustam.
As imagens de Rustam na parede de um banho
São semelhantes às ideias de luta de um covarde.
Mas quando essas ideias são testadas pela visão real,
O que acontece ao covarde? Sua bravura desaparece!

Esforce-se, então, para avançar do ouvir para o ver;
O que o ouvido lhe disse falsamente, o olho lhe dirá com verdade.
desse modo, também o ouvido adquirirá as propriedades de um olho.
Seus ouvidos, agora inúteis como lã, se converterão em pedras preciosas;
Ou ainda, todo o seu corpo se transformará em um espelho,
Será como um olho ou uma gema brilhante em seu peito.
Primeiro, o ouvir dos ouvidos permite que você forme ideias,
Depois, essas ideias o guiarão para o Amado.
Esforce-se, então, para aumentar o número dessas ideias,
Para que elas possam guia-lo, como a Majnum, para o Amado.



Voltando à história, esse príncipe fez papel de tolo e dedicou-se na companhia da donzela. Ó príncipe, ainda que seu domínio se estenda do Oriente ao Ocidente, no entanto, como ele não perdura, considera-o transitório como um relâmpago. Sim, ó coração adormecido, saiba que o reino não dura eternamente, que não passa de um sonho. Até quando você vai se entregar a essa vã ilusão que pegou-lhe pelo pescoço como um carrasco!
Saiba que até mesmo neste mundo existe um lugar de refúgio, não dê ouvidos ao descrente que o nega. Seu argumento é o seguinte: ele repete sem cessar: “Se houvesse algo depois desta vida, haveríamos de vê-lo”. Mas se a criança não vê o estado de razão, deve por isso o homem de razão abandonar a razão? E se o homem de razão não vê o estado de amor, acaso a abençoada lua do amor se eclipsa por isso? A beleza de José não era visível a seus irmãos, estava por isso oculta aos olhos de Jacó? Os olhos de Moisés consideravam sua vara um pedaço de pau, mas o olho divino a via como uma serpente mortal. O olho da cabeça discordava do olho divino, mas o segundo prevaleceu e deu provas convincentes. Aos olhos de Moisés, sua mão parecia uma simples mão, mas ao olho divino, parecia uma luz flamejante.



Esse tema em sua totalidade é interminável, mas para o descrente é uma mera ideia fantasiosa. Para ele, as únicas realidades são a luxúria e a gula; portanto, não lhe fale dos mistérios do Amado. Para nós, crentes, a luxúria e a gula são apenas ideias, por isso, contemplamos sempre a beleza do Amado. A todos os homens cujo credo é a luxúria e a gula aplica-se o texto: “Tendes vossa religião e eu tenho a minha” (Alc.CIX.6). Diante de negações como essas, abrevie o seu discurso: “Ó Ahmad, diga pouca coisa a um velho adorador do fogo”.




Se faltava ao príncipe a masculinidade dos asnos,
No entanto, ele possuía a verdadeira masculinidade dos profetas.
Renunciou à luxúria, ao ódio e à concupiscência,
E mostrou-se ser um homem da linhagem dos profetas.
Embora lhe faltasse a virilidade dos asnos,
Deus considerava-o um senhor de senhores.



Que eu esteja morto, com tanto que Deus me olhe com favor!
Estarei melhor do que os vivos que são rejeitados por Deus;
O primeiro tipo de masculinidade é o cerne da virilidade,

o segundo, apenas a casca;



O primeiro nasceu para o Paraíso, o segundo, para o inferno.
O Profeta diz: “O Paraíso está ligado à tribulação,
Mas o fogo do inferno segue à indulgência na luxúria”.



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Existem muitas pessoas com seus olhos abertos
cujos corações estão fechados. O que elas vêem?

Matéria.

Mas alguém cujo amor está alerta,
mesmo que seus olhos vão dormir,
estará despertando milhares de pessoas.
Se você não é um desses amantes repletos de luz,
restrinja a intensidade de seu corpo-desejo.
Coloque limites em quanto você come
e quanto você deita.

Mas se você está desperto aqui no coração,
durma longa e profundamente.
Seu espírito estará perambulando e trabalhando,
até mesmo no sétimo nível.

Maomé diz: “Fecho meus olhos e descanso no sono,
mas meu amor jamais precisa de repouso."

O guarda no portão cochila.
O rei permanece desperto.

Você tem um rei internamente que escuta
aquilo que deleita a alma.
A vigilância do rei
não pode ser descrita num poema.

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Quebre a casca de seu ser pessoal
para saborear a história da amêndoa da alma.

Essas vozes vêm daquele chacoalhar da castanha.
A amêndoa e o óleo que estão dentro
têm vozes que só podem ser ouvidas
com um outro tipo de audição.

Se não fosse pela doçura da amêndoa,
a conversa interior, quem jamais chacoalharia a castanha?

Escutamos as palavras para que possamos silenciosamente
alcançar dentro do outro.

Que o ouvido e a boca fiquem em silêncio,
de modo que esse gosto venha aos lábios.

Por muito tempo temos dito poemas,
dado discursos, explicado mistérios em voz alta.

Vamos agora tentar esse experimento mudo.

domingo, 28 de agosto de 2011

Siddharameshwar Maharaj - Compreendendo o Conhecimento do Ser



Brahman é rico em Conhecimento. É por isso que Ele é chamado de Vedo Narayana (Deus do Conhecimento). Ele conhece todos os três momentos (o início, o meio e o fim) e Ele tem a característica de Sandhya, que é o espaço entre dois pensamentos. Ele é adorado por todas as pessoas e dessa forma é chamado também de Senhor da Terra (Bhudeva). As pessoas de todas as castas e credos adoram este Deus estando elas cientes disso ou não. O adorador pode ser um hindu, um muçulmano, um cristão, um jainista, um zoroastrista ou um budista. Pode ser de qualquer país, pode ser qualquer pessoa, ainda assim ele adora esse Deus Uno. Ele não pode evitar isso.


Quando esse Deus está com fome, todos os tipos de comida e bebida são oferecidos a Ele. Há camas com travesseiros deixadas prontas para Ele dormir. Se ele tiver vontade de viajar, há carros, aviões e muitos outros tipos de transporte para Ele. Para provê-Lo com guirlandas cheirosas, existem muitas árvores e trepadeiras que florescem carregadas de flores. Todos os serviçais e atendentes estão prontos para obedecê-Lo com as mãos em prece. A esposa, os filhos e os palácios são para o Seu entretenimento e são também sua morada. Deus está residindo no local mais íntimo do coração de todos os seres e está recebendo todos os diferentes tipos de serviços que são realizados para Ele. A despeito de Sua onipresença e grandeza, consideramos o corpo como sendo Deus e oferecemos todos os tipos de serviços a ele. As pessoas ignorantes aceitaram essa ideia errônea e compreenderam errado toda a questão. Foi essa ideia que separou Deus de Seu devoto. Que impressionante é esse fato!


Aqueles que estão fazendo alguma ação estão fazendo-a por nenhuma outra razão além de oferecer adoração a Ele. Esse Grande Deus (Mahadeva) está constantemente desfrutando o banho de todos os objetos dos sentidos na forma de sons, formas, do toque, do gosto e cheiro. Ele recebe tudo que é da natureza dos cinco instrumentos dos sentidos de ação e dos cinco instrumentos de conhecimento. É realmente glorioso aquele devoto que compreende o segredo desse Grande Deus, Mahadeva. Todos os atos naturais de tal devoto são dedicados a Brahman.


As abelhas, os pássaros, os insetos e as formigas estão realizando sua adoração a esse Deus. Entretanto, eles não têm o intelecto para entender isso, e desse modo não podem ser culpados por sua ignorância. Porém, é lamentável, de fato, que o ser humano inteligente não compreenda que todas as suas ações diárias e ocasionais, são apenas por causa desse Deus Um. Quão profundamente lamentável é isso.


Esse Deus é o mesmo que o “Rei do Conhecimento” que enquanto engole um bocado de comida saboreia e aprecia-o. É Ele que discrimina entre o perfume e o fedor. É Ele que entende que som é prazeroso aos ouvidos e que som é desagradável. É Ele que observa a diferença entre uma forma bela de uma ameaçadora e feia. É Ele, novamente, que sente e compreende um toque suave e um toque rijo. Ele está sempre presente, reinando de maneira suprema no coração de todos os seres. Quão mal direcionada e errônea é então a ideia de adorarmos qualquer outro deus além Deste.


Pense apenas em que Deus é adorado quando os cristãos adoram Cristo, quando os hindus adoram Vishnu ou Shiva, quando os zoroastristas adoram seu Zoroastro ou quando os budistas adoram seu Buda? Eles não estão apenas adorando os cadáveres de todos esses mencionados deuses? Entretanto, qual é o sentimento do devoto que está realizando a adoração? Pergunte a qualquer pessoa de qualquer religião: “Descreva o seu Deus” e eles responderão: “Meu deus é Consciente, é todo Luz, é Sólido, Onisciente, Onipresente, e Onipotente. Ele anima a tudo e é o proprietário de tudo. Ele é sem nascimento e sem morte”. Você acha que algum deles diria que seu Deus é uma pedra ou uma rocha, ou barro, ou metal, ou que ele é pesado, insensível e sem consciência, ou que é fraco, cego ou surdo?


A partir disso fica claro que seja Cristo, Vishnu, Buda, Zoroastro, ou qualquer deus que seja, sua natureza será cheia de Consciência e ele será cheio das “Qualidades de Deus”. Se alguém possui todas essas qualidades, então a indicação é que “Ele é o Paramatman Absoluto”. Ele é “Vasudeva” na forma do “Conhecimento” que está presente no coração de todos. É apenas esse Deus que habitava no coração de Maomé e de Cristo. Através desse mesmo Deus, a qualidade de Vishnu (O Protetor) foi sustentada e não através de nenhum outro deus. No caso de qualquer devoto, não importando quem seja ele, ou qual deus ele adore, essa adoração é a adoração desse “ Ser Interior Uno”. A reverência prestada a qualquer outro deus, vai para esse Único Deus, Keshava (a Natureza de Nosso Próprio Ser) apenas. Essa é a “Verdade Absoluta”. A forma de todos esses deuses acima mencionados são apenas templos desse “Deus Uno”, Atmadeva. Todos os nomes pertencem aos Seus templos. Ele está presente na região mais interna de todas essas formas. Ele encontra-se nas formas de todos os seres e aceita todas as suas adorações.


Quaisquer ações que sejam feitas pelo corpo grosseiro e quaisquer imaginações e desejos, conceitos e dúvida que passam pela mente, acontecem por causa desse Deus, para agradá-Lo. Se você reconhece esse tanto, seu trabalho está feito. Você sempre está fazendo algo através do corpo ou da mente. Mesmo se você disser: “Não quero fazer”, você não pode deixar de fazê-lo. Entretanto, em qualquer que você faz, o fazedor e aquele que desfruta do resultado das ações é somente Deus (O Ser). Esse fato apenas deve ser reconhecido em cada movimento.


Todos os atos, auspiciosos e não auspiciosos, tornam-se dessa forma dedicados a Brahman e o aspirante fica totalmente livre. É isso que é chamado de “Dnyana Yadnya”, o “Sacrifício através do Conhecimento”. Quando você vir ou ir, falar ou engolir um bocado, quando der ou receber, sentar ou levantar, quando fizer qualquer ação em casa ou fora, ou mesmo quando estiver na cama desfrutando de uma relação sexual, deixe a vergonha de lado e pense apenas em Deus.


Está explicado no parágrafo acima como o “Conhecimento Uno” sozinho está atuando todos os papéis. Contemplar nesse ponto significa contemplar a Deus. A consciência-corpo deve ser transformada em consciência do Ser (ou Autoconsciência). A decisão de que o Ser apenas está fazendo tudo, é em si o estado de Liberação. Esse é o conselho dado por Samartha Ramdas. Até mesmo o Santo Tukaram pediu por essa bênção de Deus. “Possa eu nunca, nunca, esquecer de Ti”. Da mesma forma, jamais deveríamos esquecer o Ser. Assim a salvação certamente estará a seus pés. Do mesmo modo que esse cabo, na forma da mente, foi enrolado para o lado da consciência-corpo, ele deve agora ser enrolado na direção oposta - a da Autoconsciência (ou Consciência do Ser). Então o cabo será desenrolado, as cordas serão tocadas pelo vento e não restará nada para ser chamado de “cabo”.


Quando um parafuso é parafusado, ele deve ser girado na direção oposta para sair. Similarmente, no que diz respeito à consciência-corpo, se a mente que é guiada pelo intelecto for direcionada para Deus, o Senhor Rama (a Consciência), ela torna-se absorvida em Rama. A própria mente torna-se Rama e não sobra nada na forma de mente, dentro ou fora, ou em parte alguma, e ela torna-se uma com a forma de Rama. Siga este conselho e você verá por si mesmo.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Meher Baba - Os Segredos do Trabalho Divino

A vida apresenta frequentemente enigmas que não podem ser desvendados pelas pessoas comuns. Ela parece ser cheia de perguntas que não têm respostas. Um caos desenfreado parece ser a lei do mundo e parece não haver nenhuma justiça ou significado na marcha de seus eventos. Mesmo aqueles que creem em Deus são levados à perplexidade e vacilam em sua fé. Mas isso é apenas impaciência e falta de verdadeira visão que são os responsáveis por tal percepção da vida. Nós abraçamos a ignorância e não vemos que qualquer coisa que a vida traz está carregada de grande significado. As maneiras de Deus são sempre incontestáveis e impossíveis de serem resistidas, embora possam ser misteriosas e inescrutáveis. Os segredos de Seu trabalho no mundo não podem ser verdadeiramente entendidos nem mesmo por almas avançadas.
Isso pode ser ilustrado por meio de uma anedota de um grande Santo, o qual é muito respeitado até os dias de hoje em todos os cantos do mundo. Certa vez, esse Santo encontrou um anjo e solicitou-lhe que ele lhe concedesse a sua companhia em suas andanças na terra, para que ele pudesse entender alguma coisa sobre os trabalhos secretos de Deus. O anjo prontamente lhe concedeu a permissão para estar com ele e observar todas as suas ações na terra, mas colocou sua estrita condição nas palavras seguintes: "Você pode apenas observar meus feitos (em qualquer momento e quaisquer que forem eles), sem me perguntar por explicações de minhas ações. Você não seria capaz de julgar e entender as maneiras de Deus. Mesmo se não for capaz de compreendê-las, você não deve me perguntar o porquê de tudo o que você me ver fazer enquanto estiver comigo." O Santo prometeu que iria apenas observar e que não iria importuná-lo com qualquer pergunta mesmo se tais questões surgissem em sua mente. Só então ele foi autorizado a seguir o anjo em suas andanças pela terra.
Em um dado momento, eles entraram em um barco para cruzar o mar. O barqueiro ofereceu seus serviços a eles sem cobrar-lhes sua tarifa usual, pois desejava ajudá-los. Quando o barco estava no meio do oceano, o anjo tirou uma tábua lateral da estrutura do barco e jogou-a na água. O Santo imediatamente ficou preocupado e exclamou: "por que você está danificando o barco? Não iremos todos naufragar junto com o barco?" O anjo lembrou-lhe que ele tinha concordado em não fazer perguntas e pediu-lhe para manter-se quieto. Após o desembarque, eles encontraram um jovem árabe. Para a perplexidade absoluta do Santo, o anjo matou o jovem ali mesmo no local. O Santo achou muito difícil ficar quieto e perguntou agitadamente: "Por que você matou aquela vida em crescimento?" Nesse momento o anjo respondeu: "Eu não lhe disse que você não seria capaz de compreender o trabalho de Deus? Você deve manter-se fiel à sua promessa de fazer nenhuma pergunta". O Santo percebeu que não tinha conseguido cumprir a condição que havia aceitado e quis ser perdoado.
Em seguida, chegaram a uma aldeia onde pediram que os aldeões lhes dessem alguma comida. Mas os moradores apenas os trataram desdenhosamente e mandaram-nos embora sem dar-lhes esmolas. Quando chegaram na periferia da aldeia, viram um muro delapidado em ruínas que se destinava a proteger a vila de invasões de inimigos. O anjo foi até o muro e reparou-o, gastando muito de seu valioso tempo. Novamente, o santo não pôde conter-se e perguntou: "por que você reparou esse muro para os moradores que não deram nem mesmo esmolas para nós? Você fez este trabalho de amor por nada. Por um trabalho assim na aldeia, facilmente teríamos conseguido remuneração suficiente para adquirir alimentos e dissipar nossa fome." O anjo respondeu: "você fez uma pergunta novamente, apesar do ter prometido apenas observar e ficar quieto. Não adianta divulgar os segredos dos caminhos de Deus prematuramente. É requerido a grandeza e a paciência de Deus para se compreender o Seu trabalho. Você tentou bisbilhotar nos segredos de Deus, os quais não se deve divulgar. Agora é hora de nos separarmos. Mas tudo bem, antes de nos separarmos vou explicar as razões de meus atos. O barqueiro é um homem pobre e piedoso. Quando tirei uma tábua do lado do barco de um lugar importante de sua estrutura, eu sabia que um rei dos ladrões estava aproximando-se naquela direção. Esse rei ladrão estava coletando barcos novos e eficientes para exercer seus roubos e toda vez que via um bom barco, ele os tomava de seus proprietários. No entanto, ele deixava intocados quaisquer barcos que estivessem quebrados ou em ruínas. Eu tirei uma enorme tábua da lateral para que o barco não parecesse atrativo. Caso contrário, esse barqueiro piedoso e pobre seria privado do único meio para sua subsistência. Agora, o jovem árabe que matei era notório e vicioso. Se tivesse vivido, ele não apenas teria perpetrado crimes hediondos, mas certamente teria trazido uma blasfêmia agonizante sobre seus piedosos pais, os quais não mereciam isso de maneira nenhuma. Foi a vontade da providência divina que eu devesse matar esse jovem árabe para salvá-lo de novos pecados e salvar seus pais do sofrimento de uma imerecida má-fama. Agora, a respeito da reparação do muro, saiba que um homem piedoso enterrou sob ele seu valioso tesouro com o desejo de que ele pudesse ser de uso para seus filhos. Mas, é a vontade de Deus que seus filhos obtenham esse tesouro quando crescerem e que ninguém além deles obtenha-o. Se a parede em ruínas tivesse caído, o tesouro correria o risco de ser exposto à vista dos aldeões mal intencionados, que certamente teriam tomado posse desse tesouro para si. Tenha certeza de que tudo o que fiz, que foi seu privilégio especial poder observar, não foi de meu próprio acordo ou iniciativa, mas por ordens do nosso Pai Divino cuja grandeza real até nós anjos podemos entender apenas parcialmente. As maneiras de Deus podem ser inescrutáveis para o mundo, mas Seu amor pelo mundo é ilimitado e Sua justiça é infalível." Com essas palavras o anjo partiu, deixando o Santo em profunda contemplação. E o Santo decidiu viver em completa resignação à vontade de Deus, mesmo quando seu intelecto limitado não pudesse entender seu significado real.
Aqueles com visão clara veem o significado de tudo que a vida traz nos termos da irresistível lei de verdade. Eles aceitam a vida como ela é sem amargura ou insatisfação. Para eles, a verdade que veem e percebem é o suficiente. Está totalmente justificado. Os mestres muitas vezes são cheios de louvores para o valor e a glória daquela Verdade que eles realizaram. Eles dizem para as pessoas materialistas: "Só a Verdade tem valor. Deixe todas as suas falsas buscas e atinja a Verdade por si mesmo, assim como nós a atingimos. Não há nenhuma necessidade de desespero e nenhuma desculpa para você adiar o esforço para chegar à Verdade".
Isso funciona como um homem rico que pressiona as pessoas atingidas pela pobreza a ganharem dinheiro e incentiva-as através de seu próprio exemplo. Os louvores que um homem rico profere a riqueza justificam-se, porque incentivam as pessoas pobres a tornarem-se industriosas e a tornarem-se ricas. Da mesma forma os louvores que o mestre profere referentes ao valor supremo da Realização de Deus também justificam-se pois inspiram e encorajam os outros a procurarem e empenharem-se na luta pelo estado mais elevado. Eles louvam a Realização de Deus para incentivar as outras pessoas que estão aprisionadas e não para si próprios.
O mundo, por vezes, louva as pessoas ricas. Mas realmente falando, ele não louva essas pessoas, mas apenas a sua riqueza. Da mesma forma, o mundo louva os mestres que estão estacionados na Verdade mais suprema. Mas ao fazê-lo, o mundo não está realmente louvando os mestres por si mesmos, mas apenas a Verdade que eles têm. Não há nenhuma razão para que o mundo inveje seus louvores. Quanto aos mestres, eles aceitam elogios e censuras com a mesma serenidade. Para eles, louvor e censura são iguais. Eles são extremamente indiferentes a ambos, entusiasmando-se apenas com seu dever divino de ajudar os homens a atingirem a Verdade ao renunciarem a todos os desejos.
Quando a mente do homem torna-se consciente de sua escravidão para com as ânsias correntes a que está sujeita, surge aí uma nova força, a aspiração espiritual para realizar esse estado ilimitado que é como um sono consciente. Tal aspiração é como uma brisa que cria o fogo pela União com outras coisas. A geração dessa energia dinamicamente criativa é simbolizada pela chama crescente da consciência. Por isso, adorações e orações são oferecidas ao fogo em muitas religiões. Deus como o Sol da Luz jamais pode ser realizado exceto através do fogo da aspiração da consciência esforçada. Os mestres estão constantemente ventilando o fogo da aspiração espiritual. Essa é a verdadeira adoração e consagração da vida a Deus como a Verdade. A tarefa divina dos mestres é impenetrável para aqueles que desejam compreendê-la em termos do mundo, porque ela contrabalanceia diretamente as inclinações vigentes pelas quais o mundo é rigorosamente controlado. O trabalho Divino às vezes parece implacável e inexplicável. Seu significado não pode ser compreendido por aqueles que estão imersos no mundo.


Do sofrimento a paz

Há sofrimento na vida. Ele pode degradar ou elevar o homem de acordo com a forma na qual ele defronta-se com isso e do uso que ele faz disso. Se for inteligentemente compreendido e tratado radicalmente e não apenas superficialmente, o sofrimento traz em sua esteira aquela compreensão que conduz à felicidade. Pois, em vez de apenas reclamar do sofrimento, o homem, então, passa a remover radicalmente a ignorância profundamente arraigada que inevitavelmente traz tal sofrimento. Quando o sofrimento conduz à felicidade verdadeira e eterna ao convidar a nossa atenção para a Verdade, ele não deve ser evitado. As lições que ele traz não deveriam ser desprezadas. Elas deveriam ser enfrentadas de frente. Você deve reunir a coragem para atacar a ignorância da qual brota tal sofrimento. É para eliminar o sofrimento que sofrimento surgiu.
As pessoas sofrem porque não estão satisfeitas. Elas querem mais e mais. A ignorância dá origem à ganância e à vaidade. Se você não desejasse nada você não sofreria. Mas esse não é o caso, você quer alguma coisa ou outra. Se você fosse realmente livre de todos os desejos, você não sofreria nem mesmo nas garras de um leão. O descontentamento universal na vida moderna é devido ao grande abismo que existe entre a teoria e a prática, entre o ideal e sua realização na vida. Os aspectos espiritual e material da vida são amplamente separados um do outro. Eles deveriam estar inseparavelmente unidos um ao outro. Não há nenhuma oposição fundamental entre o espírito e a matéria ou entre a vida e a forma. A aparente oposição é devida ao pensamento errado.
Não há nenhuma saída do sofrimento enquanto houver o ego limitado. Mas o ego pode ser eliminado através do amor e do serviço. A eliminação do ego leva à consciência divina, na qual há liberdade do sofrimento e da alegria. Todas as práticas morais e religiosas são destinadas a eliminar o ego. Quanto mais você viver para os outros e menos para si mesmo, menos aprisionadores serão os seus desejos que o levam a um interminável sofrimento.
Quanto menos desejos você tiver, mais fino será o véu da ignorância que constitui o ego. A raiz de todos os sofrimentos, individuais ou sociais, é o interesse próprio. Elimine o interesse próprio e você resolverá todos os problemas e dificuldades. Cultos, credos, dogmas, rituais religiosos e cerimônias ou palestras e sermões jamais podem trazer um alívio radical do sofrimento. Para que o sofrimento e caos possam desaparecer e a paz e a felicidade real possam entrar em seu lugar, tem de haver o amor altruísta e a fraternidade universal.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Philokalia - São Máximo o Confessor - Sobre o Amor

O amor é um estado sagrado da alma dispondo-a a valorizar o conhecimento de Deus acima de todas as coisas criadas. Não podemos atingir a posse duradoura de tal amor enquanto estivermos apegados a qualquer coisa mundana.

O desapego engendra o amor, a esperança em Deus engendra o desapego e a paciência e a abstenção engendram a esperança em Deus, esses por sua vez são o produto do total autocontrole, o qual surge do temor a Deus. O temor a Deus é o resultado da fé em Deus.

Se tudo o que existe foi feito por Deus e para Deus e Deus é superior às coisas criadas por Ele, aquele que abandona o que é superior e devota-se ao que é inferior mostra que valoriza as coisas feitas por Deus mais do que o próprio Deus.

Uma vez que a alma é mais nobre que o corpo e que Deus é incomparavelmente mais nobre do que o mundo criado por Ele, aquele que valoriza o corpo mais do que a alma e o mundo criado por Deus mais do que o próprio Criador é simplesmente um adorador de ídolos.

Sendo que a luz do conhecimento espiritual é a vida do intelecto e sendo que essa luz é engendrada pelo amor por Deus, é correto dizer que nada é mais elevado do que o amor divino. (ref. 1 Cor. 13:13)

Quando na intensidade de seu amor por Deus o intelecto sai de si mesmo, ele não tem o sentido de si ou de qualquer coisa criada. Pois quando é iluminado pela luz infinita de Deus ele torna-se insensível a todas as coisas feitas por Ele, da mesma forma que os olhos tornam-se insensíveis às estrelas quando o sol nasce.

Todas as virtudes cooperam com o intelecto para produzir esse intenso anseio por Deus e acima de tudo a oração pura. Pois ao pairar em direção a Deus através dessa oração o intelecto eleva-se acima do reino dos seres criados.

Quando o intelecto é arrebatado através do amor pelo conhecimento divino e fica fora do reino dos seres criados ele torna-se ciente da infinitude de Deus. É então que, de acordo com Isaías, um sentimento de assombro o torna consciente de sua própria baixeza e com toda sinceridade ele repete as palavras do profeta: "Estou perdido, quão desprezível eu sou! Pois sou homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros e meus olhos viram o Rei, o Senhor dos exércitos" (Isa. 6:5).

A pessoa que ama a Deus não pode evitar de amar todos os homens como a si mesma, mesmo que ela seja afligida pelas paixões daqueles que ainda não foram purificados. E quando eles emendam suas vidas seu deleite é indescritível e sem limites.

Aquele que genuinamente renunciou as coisas mundanas e amorasa e sinceramente serve seus semelhantes, logo é libertado de todas as paixões e é tornado participante do amor e do conhecimento de Deus.

Aquele que realizou o amor por Deus em seu coração é incansável, como diz Jeremias (ref. Jer. 17:16), em sua busca pelo Senhor seu Deus e enfrenta todo tipo de dificuldade, reprovação ou insulto de forma nobre, jamais pensando o menor mal de alguém.

Assim como o pensamento sobre o fogo não aquece o corpo, também a fé sem amor não produz a luz do conhecimento espiritual na alma.

Assim como a luz do sol atrai um olho saudável, também através do amor o conhecimento de Deus naturalmente atrai para si o intelecto puro.

Um intelecto puro é aquele divorciado da ignorância e iluminado pela luz divina.

Uma alma pura é aquela liberta das paixões e constantemente deleitada pela luz divina.

A ausência de paixões é uma condição pacífica da alma na qual a alma não é facilmente movida para o mal.

Um homem que tem sido assíduo em adquirir os frutos do amor não deixará de amar mesmo que sofra centenas de calamidades. Nosso Senhor Ele próprio orou por seus assassinos e pediu ao Pai para perdoá-los pois eles não sabiam o que estavam fazendo (ref. Luc. 23:34).

Se o amor é paciente e prestativo (ref. 1 Cor. 13:4), um homem que é dissimulado e malicioso claramente aliena-se do amor. E aquele que é alienado do amor é alienado de Deus, pois Deus é amor.

Não diga que você é o templo do Senhor, escreve Jeremias (ref. Jer. 7:4), e você também não deveria dizer que a fé apenas em seu Senhor Jesus Cristo pode salvá-lo, pois isso é impossível a menos que você também adquira amor por Ele através de seus trabalhos. Pois no que diz respeito à fé por si só: "os demônios também crêem, mas estremecem" (Tiago 2:19).

Nós manifestamos ativamente o amor através do autodomínio e da paciência com nossos semelhantes, ao desejarmos verdadeiramente o bem deles e ao usarmos corretamente as coisas materiais.

Aquele que ama a Deus não aflige e nem é afligido por ninguém por causa de coisas transitórias.
Se um homem deseja algo, ele faz todo esforço para conseguí-lo. Mas de todas as coisas que são boas e desejáveis o divino é a melhor e a mais desejável. Quão assíduos, então, devemos ser para alcançarmos aquilo que é por sua própria natureza bom e desejável.

Pare de sujar a sua carne com ações vegonhosas e de poluir a sua alma com pensamentos maléficos, e então a paz de Deus descenderá sobre você e lhe trará amor.

Aquele ao qual o conhecimento divino foi concedido e que através do amor adquiriu a sua iluminação jamais será arrastado de um lado para o outro pelo demônio da auto estima. Mas aquele ao qual tal conhecimento não foi concedido, prontamente sucumbirá a esse demônio. Entretanto, se em tudo o que ele fizer ele mantiver seu olhar fixo em Deus, fazendo tudo por Ele, com a ajuda de Deus logo ele escapará.

Aquele que ainda não atingiu o conhecimento divino energizado pelo amor é orgulhoso de seu progresso espiritual. Mas aquele ao qual tal conhecimento foi concedido repete com profunda convicção as palavras proferidas pelo patriarca Abraaão quando lhe foi concedida a manifestação de Deus: "Sou poeira e cinzas" (Gen. 18:27).

A pessoa que teme a Deus tem a humildade como sua constante companheira e, através dos pensamentos que a humildade inspira, atinge um estado de amor divino e gratidão. Pois ela lembra-se de sua antiga forma de vida mundana, dos vários pecados que cometeu e das tentações que a atingiram desde sua juventude; ela lembra-se também de como o Senhor libertou-a de tudo isso e como Ele conduziu-a para longe dessa vida dominada pelas paixões para uma vida governada por Deus. Depois, juntamente com o temor, ela recebe também o amor e em profunda humildade continuamente agradece o Benfeitor e Timoneiro de nossas vidas.

domingo, 31 de julho de 2011

Hafiz - Seleção de Poemas


Abandone o que é familiar por um tempo.
Deixe seus sentidos e seus corpos se estenderem
como uma estação bem vinda aos prados, costas e colinas.
 
Vá para o telhado.
Faça uma nova marca d'água em seu amor e entusiasmo.
Como uma flor noturna desabrochando,
conceda a vital fragrância de sua felicidade
e lance-a sobre nossa assembléia íntima.
 
Mude os ambientes em sua mente por um dia.
Todos os hemisférios na existência
ficam do lado de um equador em seu coração.
Saúde-se em suas mil outras formas
conforme você cavalga a maré oculta
viajando de volta para casa.

Todos os hemisférios do céu estão sentados ao redor de uma fogueira
conversando enquanto costuram a si mesmos
em um Grande Círculo dentro de Você.

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Sejamos como duas estrelas cadentes no céu diurno.
Que ninguém saiba de nossa beleza sublime
enquanto estivermos de mãos dadas com Deus
e queimarmos em uma sagrada existência desafiadora ...
- Isso ultrapassa qualquer descrição
de êxtase e amor.
_________

O céu é um oceano azul suspenso.
As estrelas são os peixes que nadam.
Os planetas são as baleias brancas
com quem pego carona às vezes,
e o sol e toda a luz fundiram-se para sempre
em meu coração e em minha pele.

Existe apenas uma regra neste louco parque de diverções,
pois em todo sinal que Hafiz vê, lê-se o mesmo:

Todos dizem:

"Divirta-se, querido, divirta-se, no Jogo Divino do Amado,
no maravilhoso jogo do Amado."

____

Não quero ser o único aqui a contar todos os segredos,
a encher todas as taças nesta festa,
a dar todas as risadas.
 
Gostaria que você começasse a colocar coisas na mesa
que também possam alimentar a alma da maneira como faço.
Dessa forma, poderemos convidar muito mais amigos.
_____

O homem pequeno constrói gaiolas para todos que conhece.
Enquanto o sábio, que tem de desviar a cabeça quando a lua está baixa,
continua deixando caírem as chaves a noite toda
para os lindos prisioneiros barulhentos.
______

Você deveria chegar perto de mim esta noite viajante,
pois estarei celebrando você.
Sua beleza ainda me causa loucura,
continua a fazer os vizinhos reclamarem
quando começo a gritar no meio da noite
por não poder suportar toda esta alegria.
 
Estarei dando a luz a sóis.
Estarei segurando florestas de cabeça para baixo
suavemente chacoalhando afáveis animais
de árvores e tocas para o meu colo.
 
O que você concebe como imaginação não existe para mim.
Todas as coisas que você pode fazer num sonho ou em sua tela mental
minhas mãos podem puxar - vivas - do bolso de meu casaco.
Mas não vamos falar sobre o meu mundo divino.



Pois o que mais quero saber hoje é:



tudo sobre você.
_____



Plante, para que seu coração possa crescer.


Ame, para que Deus possa pensar:



"Ahhhhhh, sinto-me em casa naquele corpo!
Eu deveria começar a convidar mais
aquela alma para um café e para passear".


Cante, pois esse é um alimento que nosso mundo faminto necessita.


Ria, pois esse é o som mais puro.
_____

Ó tolo, faça alguma coisa,
para que você não fique aí parecendo estúpido.


Se você não está viajando e não está na estrada,
como pode chamar-se de guia?


Na escola da verdade,
a pessoa senta-se aos pés do Mestre do Amor.


Então ouça, meu filho,
para que um dia você possa ser um velho pai, também!
Todo esse comer e dormir tornou-lhe ignorante e gordo;
porém, ao negar comida e sono para si mesmo,
você ainda pode ter uma chance.


Saiba disto:
Se Deus replandecesse Sua luz amorosa em seu coração,
juro que você brilharia mais claro do que uma dúzia de sóis.


E digo:
lave o cobre manchado de sua vida de suas mãos.
Para ser alquimista do Amor você deve estar trabalhando com ouro.

Não fique aí sentado pensando, saia e mergulhe no mar de Deus.
Ter apenas um fio de cabelo molhado com água
não vai colocar o conhecimento nessa cabeça.


Para aqueles que vêem apenas a Deus,
nenhuma dúvida permanece, sua visão é pura.
Mesmo que o nosso mundo seja virado de cabeça para baixo
e soprado pelo vento, se você não tiver dúvidas, não perderá nada.
 
Ó Hafiz, se é a união com o Amado que você procura,
Seja a poeira na porta do Sábio e fale!
________

Beba do grande jarro o vinho da Unidade,
para que você possa lavar a inutilidade
do sofrimento da vida do seu coração.


Mas assim como esse grande jarro,
mantenha o coração ainda mais expansivo.
Por que você quer manter o coração cativo,
como uma garrafa de vinho fechada?


Com sua boca cheia de vinho você é altruísta
e nunca irá se orgulhar de suas próprias habilidades novamente.
Seja como a pedra humilde que está a seus pés,
em vez de lutar para ser como uma nuvem sublime:
quanto mais você misturar cores do engano,
mais incolor e esfarrapado seu casaco molhado ficará.


Conecte o coração ao vinho para que ele ganhe corpo,
então, corte o pescoço da hipocrisia e da piedade deste novo homem.


Seja como Hafiz:
Levante-se e faça um esforço.
Não deite por aí como um vagabundo.

Aquele que se lança aos pés do Amado
é como um cavalo de carga e ele será recompensado
com pastagens sem limites e com eterno repouso.
_________

Eu sei como você pode ficar quando você não bebe do Amor:
Seu rosto pode endurecer, seus doces músculos ficam com cãibras.
As crianças mostram-se preocupadas com um olhar estranho
que aparece em seus olhos,
e que começa a preocupar até o seu próprio espelho e nariz.
 
Esquilos e pássaros sentem a sua tristeza
e convocam uma importante conferência numa árvore alta.
Eles decidem qual código secreto cantar para ajudar a sua mente e alma.

Até mesmo os anjos temem aquela marca de loucura
que dispõe-se contra o mundo e joga lanças e pedras afiadas
em inocentes e em você mesmo.

Ó, eu sei como você pode ficar quando você fica sem beber Amor:
você poderia pegar cada frase que seus amigos e professores dissessem,
procurando por cláusulas ocultas.
Pode pesar cada palavra em uma balança, como um peixe morto.
Pode tirar uma régua para medir de cada ângulo em sua escuridão
as lindas dimensões de um coração no qual você uma vez confiou.

Eu sei como você pode ficar se não tomar uma bebida das mãos do Amor.
É por isso que todos os Grandes
falam da necessidade vital de continuar lembrando de Deus,
de modo que você venha a conhecê-Lo e vê-Lo
como sendo tão brincalhão e desejoso, apenas desejando ajudar.



É por isso que Hafiz diz:
Traga o seu copo perto de mim.
Pois tudo o que me importa é saciar a sua sede por liberdade!
Tudo com que um homem pode se importar é em dar Amor!
_____________

O amor quer nos alcançar e maltratar-nos,
quer quebrar toda nossa conversa furada sobre Deus.
Se você tivesse a coragem e pudesse dar a escolha ao Amado,
algumas noites Ele iria apenas arrastá-lo pelo cabelo ao redor da sala,
arrancando de suas mãos todos os brinquedos do mundo
que não lhe trazem alegria nenhuma.

O amor às vezes se cansa de falar docemente
e quer rasgar em pedaços todas as suas noções errôneas sobre a Verdade
que fazem você lutar dentro de si mesmo, querido,
fazem-no lutar com os outros,
levando o mundo a chorar em muitos dias encantadores.

Deus quer nos maltratar,
quer trancar-nos dentro de um quartinho com Ele
e praticar aquele Seu grande chute.

O Amado, por vezes, quer fazer-nos um grande favor:
segurar-nos de cabeça para baixo e sacudir-nos
tirando todos os absurdos e disparates.


Mas quando ouvimos que Ele está em tal "espírito de bêbado brincalhão",
a maioria das pessoas que conheço
rapidamente faz suas malas e se apressa em sair da cidade.
_________

Se como a brisa da manhã,
você trouxer boas ações para o dia que se inicia,
a rosa de nosso desejo abrirá e florescerá.
Vá em frente e avance nessa estrada do amor.


Mendigar na porta da casa de vinhos é uma alquimia maravilhosa.
Se você praticar isso,


em breve estará convertendo poeira em ouro.



Ó coração, se você experimentar a luz da pureza apenas uma vez,
você poderá abandonar a vida que você vive em sua cabeça,
como uma vela sorridente.


Mas se ainda estiver ansiando por vinho barato e um rosto bonito,
não saia à procura de um trabalho iluminado.
 
Hafiz, se você estiver ouvindo este bom conselho,
o caminho do amor e seu enriquecimento
estão bem ali ao virar da curva.
_______________

Eu tiro um sol de meu porta-moedas a cada dia.
À noite deixo minha lua de estimação correr livremente nos prados do céu.
Se assovio, Ela vira a cabeça e olha para mim.
Se depois aceno com meus braços,
Ela volta abanando sua maravilhosa cauda de estrelas.
 
Há sempre alguns homens como eu neste mundo;
que cuidam da casa para Deus.
Nós dividimos nossos deveres reais:
a cada dia eu rego Seu vaso de plantas favorito -
Esta Terra.

Peça ao Amigo por amor.



Peça a Ele novamente.


Pois aprendi que cada coração
consegue aquilo pelo qual ele mais roga.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Philokalia - Nikitas Stithatos - Sobre o Conhecimento Espiritual (parte 4)



Se você abraçar o conhecimento do Intelecto primordial - o qual é a origem e é a consumação de todas as coisas, que é infinito em Si mesmo e que existe dentro e fora de todas as coisas - você saberá como viver como um solitário tanto sozinho quanto com outros solitários. Pois você não sofrerá nenhuma perda na perfeição mesmo que esteja sozinho, e nenhuma perda na solidão, mesmo estando entre os outros. Pelo contrário, você será o mesmo em todo lugar e sozinho dentre todos. Você iniciará nos outros o movimento deles em direção à vida da solidão e incorporará a mais alta perfeição de virtude com a qual eles se confrontarão.


A perfeita união e conjunção da alma com o corpo, quando mantida em harmonia, constitui uma realidade única, seja no nível visível ou em seu ser interno. Quando não é hamoniosa, ocorre uma guerra civil na qual cada lado deseja a vitória. Mas quando a inteligência assume o controle, ela de imediato põe um fim ao ciúme e estabelece a concórdia, conformando toda a realidade corpo-alma a seu ser interno e seu Espírito.


Dos três aspestos principais de nosso ser, o primeiro rege os outros e não é regido por eles, o segundo tanto rege quanto é regido e o terceiro não rege, mas é regido. Desse modo, quando o aspecto regente cai sob o domínio de algum desses aspectos que são regidos, aquele que é livre por natureza, torna-se servo daqueles que são por natureza servos, ele perde sua justa pré-eminência e natureza e isso provoca uma grande discórdia entre os principais poderes da alma. Enquanto houver essa discórdia entre eles, todas as coisas ainda não terão tornado-se sujeitas ao Logos Divino. Mas quando o aspecto regente governa os outros colocando-os sob sua própria direção e controle, os elementos discordantes, desta vez unificados e tornados concordantes, são conduzidos pacificamente a Deus. E quando tudo é submetido ao Logos, Ele entrega o reino a Deus, o Pai. (ref. 1 Cor 15:24)


Quando os cinco sentidos são submetidos às quatro principais virtudes e mantêm sua obediência, eles possibilitam que o corpo, composto de quatro elementos, traquilamente complete a roda da vida. Quando o corpo é assim disposto, os poderes da alma não ficam em um estado de discórdia, o aspecto passível dos poderes apetitivo e inflamatório é unido com o poder da inteligência e o intelecto assume assim sua soberania natural. Ele faz das quatro virtudes principais sua carruagem e dos cinco sentidos subservientes, seu assento. E uma vez que ele tenha subjugado o ser não-regenerado e imperioso, o intelecto é capturado e conduzido ao céu em sua carruagem de quatro cavalos e trazido diante do Rei das Eras, sendo coroado com a coroa da vitória e descansando de sua longa empreitada.


Para aqueles que com o suporte do Espírito entraram na plenitude da contemplação, um cálice de vinho é servido e o pão de um banquete real lhes é oferecido. Um trono é preparado para o seu repouso e prata para sua riqueza. Próxima à mão está uma tesouraria de pérolas e pedras preciosas, riquezas indizíveis são conferidas a eles. Por causa da prontidão com a qual agem, sua vida ascética torna-os visionários e prepara-os para serem trazidos à presença não de preguiçosos, mas sim do Rei.


Se através da humildade e da oração você foi iniciado no conhecimento espiritual de Deus, isso significa que você é conhecido por Deus e enriquecido por Ele com um conhecimento autêntico de Seus mistérios supranaturais. Se você está manchado com presunção, você não foi iniciado, mas é governado pelo espírito deste mundo material. Portanto, mesmo que você imagine que sabe de algo, de fato você não sabe nada sobre as coisas divinas da maneira como deveria saber (ref. 1Cor. 8:2). Entretanto, se você ama a Deus e não considera nada mais precioso que o amor por Deus e por seus semelhantes, você também conhecerá as profundezas de Deus e os mistérios de Seu reino da maneira que alguém inspirado pelo Espírito Santo deve conhecê-los. E você é conhecido por Deus, pois você é um verdadeiro trabalhador no paraíso de Sua Igreja, cumprindo a vontade de Deus motivado pelo amor, isto é, convertendo os outros, tornando dignos os indignos através da compreensão dada a você pelo Espírito Santo e mantendo suas ações invioladas através da humildade e do remorso.


Todos fomos batizados em Cristo através da água e do Espírito Santo e todos comemos a mesma comida espiritual e bebemos a mesma bebida espiritual; ainda assim, mesmo que essa comida e bebida sejam o Próprio Cristo, Deus não se agrada com a maioria de nós (ref. 1 Cor. 10 : 4-5). Pois muitos daqueles fiéis e diligentes na prática ascética e na disciplina física mortificaram e enfraqueceram seus corpos, mas por carecerem do remorso que vem de um estado mental virtuoso e contrito e da compaixão que brota do amor por seus semelhantes, bem como por si mesmos, eles permaneceram carentes da plenitude do Espírito Santo, remotos do conhecimento espiritual de Deus. O útero de suas mentes é estéril e sua inteligência não tem sal ou iluminação.


O Logos não leva todos os Seus servos e discípulos com Ele quando revela Seus mistérios grandiosos e ocultos; Ele leva apenas aqueles aos quais um ouvido foi dado e cujos olhos foram abertos e nos quais uma nova língua foi treinada a falar claramente. Levando tais pessoas com Ele e separando-os dos outros, mesmo que esses últimos sejam igualmente Seus discípulos, Ele ascende no monte Tabor, a montanha da contemplação, e é transfigurado diante deles (ref. Mat. 17:2). Ele ainda não os inicia nos mistérios do reino dos céus, mas mostra-lhes a glória e a resplandescência da Divindade. E através da luz que Ele dá, Ele faz a vida e a inteligência deles brilharem como o sol no meio da Igreja dos fiéis. Ele transforma suas intelecções na brancura e pureza da luz mais brilhante, coloca neles Seu próprio intelecto e envia-os para proclamar coisas novas e velhas (ref. Mat. 13:52) para a edificação de Sua Igreja.


Muitos cultivaram seus próprios campos com grande diligência e plantaram sementes puras neles, ceifando os espinheiros e queimando seus cactos no fogo do arrependimento, mas porque Deus não regou esses campos com a chuva nascida do remorso do Espírito Santo, eles não colheram nada. Ressecados como estavam, eles não produziram o rico grão do conhecimento de Deus. Assim, mesmo se eles não perecerem por causa de uma escassez total do Logos divino, certamente morrerão pobres no conhecimento de Deus e com as mãos vazias, tendo fornecido para si mesmos uma nutrição escassa para o banquete divino.


O reino dos céus é dado já nesta vida a todos aqueles que estão avançados no caminho espiritual, ou aquele lhes é dado após a dissolução do corpo? Se é nesta vida, nossa vitória é indiscutível, nossa alegria inexprimível e nosso caminho para o paraíso desimpedido: estamos diretamente presentes no Oriente divino (ref. Gen. 2:8). Mas se é dado apenas após a morte e a dissolução, deveríamos pedir que nossa partida desta vida pudesse ocorrer sem medo; deveríamos aprender o quê o reino dos céus é, o quê o paraíso é e como um difere do outro, que natureza de tempo há em cada um deles e se endentramos todos os três, como e quando, e depois de quanto tempo. Se você entrar no primeiro enquanto ainda vivo e enquanto ainda na carne, não falhará em entrar nos outros dois.

O mundo acima está até agora incompleto e espera seu complemento do primogênito de Israel - daqueles que vêem a Deus; pois ele recebe seu complemento daqueles que atingem o conhecimento de Deus. Uma vez que estiver completo e que tiver levado ao fim o mundo inferior dos crentes e dos descrentes, ele constituirá uma única congregação, locando cada membro em seu lugar marcado, separando o que não pode ser reconciliado. Ele atrai para si as origens e os fins de todos os outros mundos, e, sendo ele mesmo ilimitado, define limites para eles. Ele não é afetado ou limitado por nenhum outro princípio, como algo que está sendo coagido. Pois ele é sempre ativo de tal maneira que nunca está confinado dentro de si ou extendido fora de seus próprios limites. Ele é o Sábado de descanso de todos os outros mundos e de todo outro princípio e atividade.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Bhagavan Ramana Maharshi - Índia, setembro de 1936

Bhagavan: O jnani (sábio) diz: "eu sou o corpo" e o ajnani (ignorante) também diz: "eu sou o corpo", qual é a diferença? O "Eu Sou" é a verdade. O corpo é a limitação. O ajnani limita o "eu" ao corpo. Durante o sono profundo, o 'Eu' permanece independente do corpo. O mesmo "Eu" está agora no estado de vigília. Embora seja comum pensar que ele está dentro do corpo, o "Eu" existe sem o corpo. A noção errada não é o 'eu sou o corpo', é o 'Eu' que diz isso. O corpo por si mesmo é inerte (inanimado) e não pode dizer isso. O erro está em pensar que o 'Eu' é o que ele não é. O 'Eu' não é inerte. O 'Eu' não pode ser o corpo inconsciente. Os movimentos do corpo são confundidos com o 'Eu' e o resultado disso é a miséria. Esteja o corpo funcionando ou não, o "Eu" permanece livre e feliz. O 'eu' do ajnani é apenas o corpo. Esse é todo o erro. O "Eu" do jnani inclui o corpo e tudo mais. Claramente alguma entidade intermediária surge e dá origem à confusão.Pergunta: Se o jnani diz "eu sou o corpo", o que lhe acontece na hora da morte?
B: Mesmo agora ele não se identifica com o corpo.
P: Mas você disse há pouco que o jnani diz: "eu sou o corpo."
B: Sim. Seu "Eu" inclui o corpo. Não pode haver nada separado do 'Eu' para ele. Se o corpo se vai, não há perda para o 'Eu'. O 'Eu' permanece o mesmo. Se o corpo sentir-se morto deixe-o levantar a questão. Sendo inerte ele não pode fazê-lo. O "Eu" nunca morre e não faz a pergunta. Quem então morre? Quem faz perguntas?
P: Para quem são todas as escrituras (sastras) então? Elas não podem ser para o 'Eu' real. Elas devem ser para o 'eu' irreal. O 'Eu' real não as requer. É estranho que o 'eu' irreal tenha tantas sastras direcionadas para si.
B: Sim. É isso mesmo. A morte é apenas um pensamento e nada mais. Aquele que pensa é que traz problemas. Deixe o pensador nos dizer o que acontece com ele na morte. O verdadeiro "Eu" é silencioso. Não se deve pensar "eu sou isto - eu não sou aquilo". Dizer 'isto ou aquilo" é errado. Essas também são limitações. Apenas o "Eu Sou" é a verdade. O silêncio é o 'Eu'. Se uma pessoa pensa 'eu sou isso ", outra pensa 'eu sou isso" e assim por diante, há um choque de pensamentos e tantas religiões são o resultado. A verdade permanece como é, ela não é afetada por quaisquer declarações, conflitantes ou não.
P: O que é a morte? Não é o desaparecimento do corpo?
B: Você deseja saber isso durante o sono? O que está errado então?
P: Mas eu sei que vou acordar.
B: Sim - novamente o pensamento. Há o pensamento precedente "eu irei acordar". Os pensamentos governam a vida. A liberdade de pensamentos é a nossa verdadeira natureza - a Graça.

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Bhagavan: A ignorância - ajnana - é de dois tipos:

(1) O esquecimento do Ser.
(2) A obstrução ao conhecimento do Ser.

As ajudas e apoios são destinados a erradicar os pensamentos; estes pensamentos são as manifestações de predisposições remanescentes na forma embrionária, eles dão origem à diversidade da qual todos os problemas surgem. Essas ajudas são: ouvir a Verdade transmitida pelo mestre (sravana), etc. Os efeitos de sravana podem ser imediatos e o discípulo percebe a Verdade de imediato. Isso só pode acontecer para o discípulo bem avançado. Caso contrário, o discípulo sente que é incapaz de perceber a Verdade, mesmo depois de ouvi-la repetidamente. Isso se deve a quê? Às impurezas em sua mente, à dúvida, à ignorância e à identidade errônea; esses são os obstáculos a serem removidos.

(a) Para remover a ignorância completamente, ele tem de ouvir a Verdade repetidamente, até que seu conhecimento sobre o assunto em questão torne-se perfeito. (b) Para remover as dúvidas, ele deve refletir sobre o que ouviu até que seu conhecimento fique livre de dúvidas de qualquer espécie. (c) Para remover a identidade errada do Ser com o não-Ser (com o corpo, os sentidos, a mente ou o intelecto) sua mente deve tornar-se unidirecionada.

Uma vez que todas essas coisas forem realizadas, os obstáculos são exterminados e com isso o estado de Samadhi é alcançado, isto é, a Paz reina. Alguns dizem que nunca devemos deixar de nos envolver no processo de ouvir a Verdade, de refletir sobre o conhecimento e de manter a unidirecionalidade. Isso não é realizado ao lermos livros, mas apenas pela prática contínua de manter a mente afastada (separada). O aspirante pode ser kritopasaka ou akritopasaka. O primeiro está apto a realizar o Ser, mesmo que com o menor estímulo, apenas algumas pequenas dúvidas impedem seu caminho e são facilmente removidas se ele ouvir a Verdade do Mestre ainda que uma só vez. Imediatamente ele ganha o estado de Samadhi. Presume-se que ele já havia concluído o sravana, a reflexão, etc em nascimentos anteriores, eles não são mais necessários para ele. Para o outro todas essas ajudas são necessárias; para ele as dúvidas surgem mesmo depois de ouvir repetidas vezes, por isso ele não deve desistir dessas ajudas até que ganhe o estado de Samadhi. O Sravana remove a ilusão do Ser como sendo o mesmo que o corpo, etc. A reflexão deixa claro que o Conhecimento é o Ser. A unidirecionalidade revela o Ser como sendo Infinito e Bem-aventurado.

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Pergunta: Nós temos ouvido falar de você, Maharshi, como a mais gentil e nobre das almas. Há muito tempo desejávamos ter seu Darshan. Eu vim aqui uma vez antes, no dia 14 do mês passado, mas não pude permanecer em sua santa presença tanto quanto eu desejava. Sendo uma mulher e também jovem, eu não pude aguentar a pressão das pessoas ao meu redor, e assim parti às pressas depois de fazer uma ou duas perguntas simples. Não há homens santos como você em nossa parte do país. Sou feliz no que diz respeito a ter tudo o que quero. Mas não tenho aquela paz de espírito que traz felicidade. Venho agora aqui em busca de sua bênção para que eu possa obter essa Paz.
Bhagavan: O Bhakti (a devoção) atenderia o seu desejo.
P: Quero saber como posso ganhar essa paz de espírito, essa paz mental. Por favor, faça a gentileza de aconselhar-me.
B: Sim, é necessário devoção e entrega.
P: Sou digna de ser uma devota?
B: Qualquer um pode ser um devoto. O caminho espiritual é comum a todos e nunca é negado a ninguém - seja a pessoa jovem ou velha, homem ou mulher.
P: É exatamente isso que estou ansiosa para saber. Sou jovem e dona de casa. Há deveres domésticos que devo desempenhar. A devoção está de acordo com tal posição como a minha?
B: Certamente. O que você é? Você não é o corpo. Você é a Pura Consciência. Os deveres domésticos e o mundo são apenas fenômenos aparecendo sobre essa Consciência Pura. Ela permanece inalterada. O que impede você de ser seu próprio Ser?
P: Sim, já estou familiarizada com a linha de ensinamentos do Maharshi. Trata da busca pelo Ser. Mas a minha dúvida persiste, tal busca é compatível com a vida de uma dona de casa?
B: O Ser está sempre aí. Ele é você. Não há nada além de você. Nada pode estar separado de você. A questão da compatibilidade ou coisas desse tipo não surge.
P: Vou ser mais definida. Apesar de ser uma estranha, sou obrigada a confessar a causa de minha ansiedade. Fui abençoada com filhos. Um menino - um bom brahmachari - faleceu em fevereiro. Fui assolada por uma grande agonia. Fiquei desgostosa com esta vida. Quero me dedicar à vida espiritual. Mas meus deveres como dona de casa não me permitem levar uma vida retirada. Daí vem a minha dúvida.
B: Retirar-se significa a permanência no Ser. Nada mais. Não significa deixar um conjunto de condições circundantes e se emaranhar em outro conjunto, nem mesmo deixar o mundo concreto e se envolver em um mundo mental. O nascimento do filho, a sua morte, etc, são vistos no Ser somente. Lembre-se do estado de sono. Você estava ciente de algo acontecendo? Se o filho ou o mundo fossem reais, eles não deveriam estar presentes com você no sono? Você não pode negar a sua existência no sono. Também não pode negar que você estava feliz naquele estado. Você é a mesma pessoa falando agora e levantando questões. Você não está feliz, de acordo com você. Mas você estava feliz no sono. O que aconteceu nesse meio tempo que fez a felicidade do sono ser quebrada? Foi o aparecimento do ego. Essa é a nova chegada no estado Jagrat. Não havia ego no sono. O nascimento do ego é chamado de o nascimento da pessoa. Não há outro tipo de nascimento. Qualquer coisa que nasça está fadada a morrer. Mate o ego: não há medo recorrente da morte para o que foi uma vez morto. O Ser permanece mesmo após a morte do ego. Isso é a Bem-aventurança - isso é a Imortalidade.
P: Como isso deve ser feito?
B: Veja para quem estas dúvidas existem. Quem é o sujeito da dúvida? Quem é o pensador? É o ego. Mantenha-se com ele. Os outros pensamentos vão morrer. O ego é deixado puro, veja de onde surge o ego. Essa é a consciência pura.
P: Isso parece difícil. Podemos proceder pelo caminho do Bhakti?
B: Isso é de acordo com o temperamento individual e com o histórico da pessoa. O Bhakti é o mesmo que o Vichara (a auto investigação).
P: Eu quero dizer a meditação, etc.
B: Sim. A meditação é em uma forma. Isso irá afastar os outros pensamentos. O pensamento único de Deus vai dominar os outros. Isso é a concentração. O objeto da meditação é, portanto, o mesmo que o do Vichara.
P: Nós vemos Deus em uma forma concreta?
B: Sim. Deus é visto na mente. A forma concreta pode ser vista. Ainda assim, é apenas na mente do devoto. A forma e a aparência da manifestação de Deus são determinadas pela mente do devoto. Mas essa não é a finalidade. Nesse caso há a sensação de dualidade. É como uma visão em um sonho. Depois que Deus é percebido, o Vichara começa. E ele termina na Realização do Ser. Vichara é a rota final. Mas claro, poucas pessoas acham o vichara praticável. Outros acham o Bhakti mais fácil.
P: O Sr. Brunton não encontrou você em Londres? Isso foi apenas um sonho?
B: Sim. Ele teve a visão. Ele me viu em sua mente.
P: Ele não viu esta forma concreta?
B: Sim, ainda em sua mente.
P: Como hei de alcançar o Ser?
B: Não existe alcançar o Ser. Se o Ser fosse para ser atingido, significaria que o Ser não está aqui e agora, que deveria ser obtido de nova maneira. O que é obtido também será perdido. Por isso será impermanente. Não vale a pena lutar por aquilo que não é permanente. Portanto eu digo, o Ser não é atingido. Você é o Ser. Você já é Aquilo. O fato é que você é ignorante de seu estado bem-aventurado. A ignorância sobrepõe-se e coloca um véu sobre a pura Bem-Aventurança. As tentativas são direcionadas somente para remover essa ignorância. Essa ignorância consiste no conhecimento errado. O conhecimento errado consiste na falsa identificação do Ser com o corpo, com a mente, etc. Essa identidade falsa deve sair de cena e ali o remanecente será o Ser.
P: Como é que isso acontece?
B: Ao inquirir sobre o Ser.
P: É difícil. É possível para mim Realizar o Ser, Bhagavan? Gentilmente me diga. Parece tão difícil.
B: Você já é o Ser. Portanto, a Realização é comum a todos. A Realização não conhece diferença nos aspirantes. Esta própria dúvida: "posso Realizar?" Ou o sentimento: "eu não Realizei" são os obstáculos. Livre-se deles também.
P: Mas deve haver a experiência. A menos que eu tenha a experiência como eu poderei livrar-me desses pensamentos que me afligem?
B: Eles também estão na mente. Estão lá porque você identificou a si mesma com o corpo. Se essa falsa identidade desaparecer, a ignorância desaparecerá e a Verdade será revelada.
P: Posso engajar-me na prática espiritual mesmo permanecendo em Samsara?
B: Sim, certamente. Devemos fazê-lo.
P: Samsara não é um obstáculo? Todos os livros sagrados não defendem a renúncia?
B: Samsara está apenas em sua mente. O mundo não fala: 'eu sou o mundo". Caso contrário, ele deveria estar sempre aí - sem excluir o seu sono. Uma vez que ele não existe no sono, ele é impermanente. Sendo impermanente ele não tem resistência. Não tendo resistência, ele é facilmente subjugado pelo Ser. Somente o Ser é permanente. A renúncia é a não-identificação do Ser com o não-Ser. Com o desaparecimento da ignorância o não-Ser deixa de existir. Essa é a verdadeira renúncia.
P: Por que, então, em sua juventude você deixou sua casa?
B: Esse é o meu destino (prarabdha). Nossa linha de conduta nesta vida é determinada por nosso destino. Meu destino era assim. Seu destino é dessa forma.
P: Eu não deveria também renunciar?
B: Se esse tivesse sido o seu destino a questão não teria surgido.
P: Eu deveria, portanto, permanecer no mundo e engajar-me na prática espiritual? Bem, posso conseguir a Realização nesta vida?
B: Isso já foi respondido. Você é sempre o Ser. Os esforços sinceros nunca falham. O sucesso está fadado a dar resultados.