terça-feira, 31 de maio de 2011

Farid-Ud-Din Attar - Dez Histórias


Uma conversa do filho com seu pai
O filho disse a seu pai: "Se não houvesse esse desejo carnal e se não houvessem as relações privadas entre marido e mulher, não haveria a continuidade das criaturas deste mundo e não restaria nenhuma ordem no universo. Se não fosse por esta distribuição e mistura, todo esse reino ficaria desordenado.
Sim, mil e uma pessoas devem estar colocadas de forma adequada antes que você possa colocar um pedaço de comida em suas bocas. É através da sabedoria que aqueles que servem este caminho continuem o trabalho mês a mês.
A Terra brilha da espuma e os céus da fumaça, porque se algo não fosse necessário, não existiria. Se não fosse pelo desejo carnal, nem você nem eu estaríamos neste mundo. Você deseja expulsar o desejo carnal dos homens – informe ao meu coração o seu segredo."
Seu pai lhe disse: “Que o céu impeça-lhe de pensar que eu iria acabar completamente com o pensamento do desejo carnal. Mas sendo que você escolheu isso do mundo e tem falado e ouvido a esse respeio, é como se, de uma centena de mundos de segredos você estivesse familiarizado apenas com os do desejo carnal. Eu lhe disse em particular que você poderia sair desse desejo.
Quem gostaria de ser o companheiro de um asno, quando é possível ser o confidente de Jesus?
Por que você se associa a um asno no desejo carnal, quando poderia associar-se intimamente com Jesus? Quando, afinal, essa luxúria é uma coisa de um momento apenas, não é melhor ter privacidade eterna com o Amado? Uma vez que o Eterno lhe permite ficar a sós com Ele para sempre, renuncie ao efêmero, ou seja, ao desejo carnal. Tal privacidade não é desejada pelo desejo carnal e aquele que não possui esse segredo é imperfeito.
Quando o desejo carnal atinge o seu ápice, dele é nascido o amor apaixonado, sem limites.
Mas quando o amor apaixonado torna-se muito forte, surge o amor espiritual. Quando o amor espiritual atinge seu limite extremo, a sua alma torna-se aniquilada no Amado. Abandone o desejo carnal, pois ele não é o objetivo: a raiz de tudo é o Amado, o Amado.
Ainda que você fosse cruelmente aniquilado nesse caminho, seria melhor do que ficar preso ao desejo carnal.


A história da mulher que se apaixonou por um príncipe
"Um rei tinha um filho tão lindo que em seus cachos até a própria Lua se enredou. Não havia ninguém que quando visse o rosto do príncipe não virasse a face de seu coração para aquele formoso rapaz. Tanto era ele a maravilha do mundo, que o mundo todo era seu amante.
Uma mulher tornou-se perdidamente apaixonada por aquele belo; seu coração lamentou muito e se transformou em sangue. Quando a separação venceu-a, deixando dessa forma seu coração confuso e ferido, ela espalhou cinzas por baixo de si e, sendo ela fogo, fez das cinzas sua morada. Todas as noites ela chorava por aquele belo, ora chorava sangue, ora soltava suspiros.
Se algum dia o principe saísse para o campo, a infeliz mulher corria ao longo da estrada. Ela ia olhando para trás na direção dele e espalhava suas lágrimas sobre a estrada em forma de chuva. Uma centena de sargentos batiam nela consecutivamente com os seus bordões, mas ela não gritava nem fazia grande alarido. Uma grande multidão de pessoas que costumava assistir a isso apontava a mulher para os homens e todos ficavam surpreendidos com ela e ainda assim a pobre mulher permanecia em seu estado confuso.
No final, quando a questão já havia ultrapassado todos os limites, o coração do príncipe entristeceu-se com esse fardo. Ele disse a seu pai: 'Quanto mais dessa mendicância? Livre-me da desgraça dessa mulher.'
O nobre rei ordenou o seguinte: 'Traga aquela infeliz para a praça. Amarre-a nas patas traseiras do cavalo pelos cabelos e faça-o galopar bem rápido por toda a estrada, de modo que essa mulher miserável seja rasgada em pedaços e o mundo se livre de seu caso.
O cavalo irá matá-la na estrada como um elefante no cio e assim o peão não voltará a olhar para o rei.' Então, o rei e o príncipe seguiram para a praça e uma grande multidão de pessoas ficou observando, todos derramando lágrimas de sangue de tristeza por aquela mulher e daquele sangue o chão se tornou como um canteiro de flores de romã. Quando os soldados correram juntos para amarrar os cabelos dela aos pés do cavalo, a pobre mulher perturbada se prostrou diante do rei, jogando-se diante dele a fim de fazer um pedido. Ela disse: 'Já que você quer me matar dessa forma cruel, tenho um último pedido – será que poderá concedê-lo a mim?' O rei disse a ela: 'Se o seu pedido for para eu poupar a sua vida, saiba que pretendo tirá-la. E se você disser para não ser arrastada pelos cabelos, vou derramar o seu sangue aos pés do cavalo. Se pedir que lhe seja dada a graça por alguns instantes, isso não é possível sem perdão. E se pedir-me para ficar junto com o príncipe por um tempo, você não verá o seu rosto.' A mulher disse-lhe: 'Eu não peço por minha vida nem peço por um pouco de graça. Não lhe peço para não me arrastar até a morte pelos pés do cavalo. Se o rei do mundo puder conceder-me este pedido, ele é tudo o que rogo por toda eternidade'. O rei disse: 'Fale. Qual é esse pedido? Porque, se não for nenhum desses que citei concederei o que me pede'.
A mulher disse: 'Se hoje você ordeneu que eu fosse morta de forma miserável sob os cascos de um cavalo, este é o meu pedido: Ó Senhor, amarre meu cabelo aos pés do cavalo dele, para que quando o cavalo galopar para esse propósito, ele me mate abjetamente sob os pés do cavalo do príncipe, de modo que quando eu for morta por essa beleza eu possa dessa forma estar viva para sempre. Sim, se eu for morta por meu amado, da luz do amor, estarei acima da estrela Aiyuq.
Sou uma mulher mas tenho muita hombridade. Meu coração se transformou em sangue. É como se não me tivesse restado vida. Neste momento conceda isso a uma mulher como eu, que merece este pequeno pedido e que é fácil de ser concedido'".
Por causa da sinceridade e da devoção da mulher, o coração do rei foi amolecido. O que posso dizer? De suas lágrimas a terra tornou-se lama. Ele perdoou-a e mandou-a para o palácio como alguém com uma nova vida, ele mandou-a para seu amado.
Venha, ó homem, se você é nosso companheiro, aprenda com uma mulher o que é o verdadeiro amor. E se você é menos que as mulheres, cubra a sua cabeça. Você não é menos que um maricas. Ouça este conto.


A história do Alid, do erudito e de um gay que foram feitos prisioneiros em Rum

"Um Alid, um estudioso e um gay estavam carregando todos os seus bens para Rum. Essas três pessoas foram assaltadas pelos infiéis e arrastadas inesperadamente para diante do ídolo.
Os infiéis disseram aos três: 'Vocês devem obrigatoriamente adorar o ídolo, caso contrário vamos derramar o sangue de todos os três, vamos dar-lhes qualquer graça, mas derramaremos seu sangue agora mesmo.'
Esses três mestres disseram aos infiéis: 'Vocês devem nos conceder a graça de uma noite, de modo que possamos considerar nesta noite se é possível praticar a idolatria'.
Eles deram a essas três pessoas uma noite para que pudessem meditar a respeito.
O Alid falou: 'Devo zombar no cinturão cristão diante do ídolo, pois tenho plena autoridade dos meus antepassados, eles irão interceder em meu nome amanhã'.
O estudioso disse: 'Eu também não posso dizer adeus ao corpo e alma. Se eu curvar a cabeça diante do ídolo, levantarei um intercessor no meu aprendizado na Fé'.
O gay disse: "Eu estou perdido, pois já fiquei sem a ajuda de um intercessor. Uma vez que vocês têm um intercessor e eu não tenho, essa adoração não é de acordo com a lei para mim.
Se eles cortarem minha cabeça como uma vela, por que eu deveria temer? Não posso adorar um ídolo, pois isso é a perdição. Não vou curvar minha cabeça no chão diante do ídolo, mesmo que eles impiedosamente separem a cabeça de meu corpo'."- Quando aqueles dois preferiram a vida, o rapaz em tal situação renunciou-a como um homem. A coisa estranha é que no momento crucial este último é aquele elogiado pela virilidade!
Quando Qaruns anda nu por este caminho, os leões buscam a proteção das formigas. Se você é menos do que um covarde em seu amor pelo que deseja, certamente você é não menos do que uma formiga nesta estrada.





A história de Salomão, o filho de David e a formiga apaixonada

"Salomão, no meio de todas as suas ocupações, passou por um enxame de formigas na beira da estrada. Todas as formigas apareceram para prestar reverência. Em uma hora muitas milhares vieram. Mas uma formiga não veio tão prontamente, porque havia um monte de terra em frente a sua casa. Com a velocidade do vento aquela formiga carregava cada partícula separada de terra para que esse monte pudesse ser removido. Salomão chamou-a e disse: 'Ó formiga, percebo que você está sem força ou resistência, e ainda que tivesse o tempo de vida de Noé e a paciência de Jó, sua tarefa não seria realizada. Esta não é uma tarefa para um braço como o seu, você não irá fazer esse monte desaparecer '.
A formiga abriu a boca e disse: 'Ó rei, por um grande esforço podemos prosseguir ao longo desta estrada. Não olhe a minha forma e constituição, leve em conta a perfeição de meu esforço.
Há uma certa formiga fêmea que é invisível para mim e que me atraiu para a cilada de um outro amor. Ela me disse: 'Se você remover este monte de terra daqui e limpar o caminho, eu colocarei de lado a pedra da separação de você e me sentarei junto de si.
Agora os meus quadris estão latejando por causa dessa tarefa, não conheço mais nada além deste transporte de terra. Se esta terra desaparecer, poderei alcançar a união com ela e se eu morrer nesta empreitada, pelo menos não serei um fanfarrão ocioso e mentiroso'.” - Amigo, aprenda sobre o amor de uma formiga; aprenda a respeito de tal visão de alguém que é cego. Embora o manto da formiga seja muito preto, ela é um dos atendentes na estrada. Não olhe com desprezo para uma formiga, pois ela também tem paixão em seu coração. Eu não sei quais são as condições que se apresentam nesta estrada quando um leão é censurado por uma formiga.



A história de Ali o Comandante dos Fiéis e a formiga

“Ali estava andando ao meio-dia quando aconteceu de ele ferir uma formiga na estrada. A formiga estava impotente balançado suas patas no ar e Ali ficou cheio de aflição ao ver sua impotência. Ele estava com medo e ficou excessivamente agitado: um leão como ele foi derrubado por uma formiga.
Ele chorou muito e tentou de várias formas fazer a formiga caminhar novamente. À noite ele viu Maomé em um sonho. Maomé disse-lhe: 'Ó Ali, não se apresse ao longo da estrada, porque durante os dois últimos dias você encheu o céu de luto por conta de uma formiga. Você é indiferente ao que pisa e por isso feriu uma formiga no caminho? Aquela formiga estava cheia de significado secreto e sua atividade era louvar o nome de Deus?'
Ali começou a tremer com todos os seus membros, o Leão de Deus caiu em uma armadilha por causa de uma formiga. O Profeta disse: 'Seja alguém de bom coração e não se preocupe, pois essa mesma formiga intercedeu por você a Deus dizendo: 'Ó Senhor, eu não queria acusar Haidar. Se ele era um inimigo para mim, ele já não é mais agora.'” -
Saiba, ó generoso, que foi por devoção à Fé que tal leão se comportou de tal maneira em relação à formiga. Que homem, com a bravura de um leão como Haidar, você já viu amarrado à sela de uma formiga? Feliz é aquele que é informado da Verdade e levanta e abaixa seus pés em conformidade com o mandamento de Deus! Se você caminha em absoluta ignorância, você é um mendigo absoluto mesmo sendo filho de um rei. É preciso olhar e então dar um passo, pois não podemos dar um passo na estrada sem olhar. Se der um passo na estrada sem olhar, no final a adversidade será a sua recompensa. Quando caminha às cegas como um asno, você não é distinguido dos outros pelo seu entendimento. Conte seus passos conforme caminha se você é um homem do caminho, pois tudo é contado desde a lua até o peixe. Se der um passo sem qualquer mandamento, você receberá muitos ferimentos que não terão remédio. Se você erguer seu pé aqui por um curto período de tempo, você não caminhará na sua sepultura por uma eternidade. Quem quer que ande aqui por um tempo, considera que vai andar por uma centena de eras.
Enquanto você caminha aqui por um único momento, lá será por uma centena de eternidades. Se hoje você der um passo limpo, você não terá de andar quinhentos quilometros na poeira.
Que pena! você não vê o grande ganho, se visse não desistiria do seu trabalho nem por um momento. Para cada passo que der hoje você receberá um presente encantador de Deus.
Quando tal benefício é possível a cada momento, porque, por pura negligência, sofrer prejuízos?


A história de Nushirvan, o cultivator justo e experiente
"Nushirvan estava cavalgando com a velocidade de uma flecha quando viu na estrada um velho homem curvado como um arco. O velho homem estava plantando um certo número de árvores. O rei disse-lhe: 'Já que os seus cabelos tornaram-se leite e sendo que você viverá apenas mais alguns dias, porque está plantando árvores aqui?' O velho respondeu: 'Não há razão suficiente. Uma vez que muitos plantaram para nós, fazendo com que hoje tenhamos o benefício desse plantio, nós também estamos plantando para os outros. Devemos tomar cada passo de acordo com nossa capacidade, pois em cada passo deveria haver ordem'.
O rei agradou-se com o discurso do velho. Ele encheu a mão de ouro e disse: 'Pegue isto'.
O velho lhe disse: 'Ó rei vitorioso, já hoje minhas árvores deram frutos. Pois, se eu viver mais de setenta anos você sabe que eu não me saí mal nesse plantio. O plantio não me fez esperar dez anos, ele deu o ouro como fruto no dia de hoje'.
O rei ficou ainda mais satisfeito com essa resposta e deu-lhe a terra, a aldeia e a água.”
Você deve realizar hoje o seu trabalho, pois sem trabalho você não terá os frutos. Você deve colocar seus pés na estrada da Fé, deve deixar de lado a vaidade. Se você é um homem, então como um homem faça de sua barba uma vassoura para a latrina. Com toda essa força no braço você não se envergonha de colocar o seu peso na balança?
Você é menos do que um cão. Ouça esta história, caso você se considere mais do que um cão.


A história do Mestre Jandi e o cão

“Certo homem, que não tinha medo de ninguém, perguntou ao Mestre Jandi: 'Quem é melhor, você ou um cão?' Os discípulos de Jandi ameaçaram abertamente rasgá-lo em pedaços ali mesmo.
Seu mestre de imediato impediu-os. Ele disse ao homem: 'Não tenho conhecimento do decreto do Destino. Eu não constatei, caro amigo, qual é o meu caso, como posso então lhe responder?
Se minha fé é maior do que a da multidão, então posso dizer que sou melhor do que um cão.
E se minha fé não for maior do que a da multidão, então eu não seria em nada melhor do que um cão!'” Uma vez que o véu ainda não caíu, não considere-se superior a um cão de maneira alguma. Pois, se o caminho do cão é através da poeira, você está na mesma situação.


A história de Mashuq de Tus, do cão e do cavaleiro
“Mashuq de Tus estava caminhando ao longo de uma estrada ao meio-dia como alguém fora de si. Um cão veio em sua direção naquela estrada e em seu esquecimento ele de pronto jogou uma pedra nele. Ele viu ao longe um cavaleiro vestido de verde que vinha por trás dele, sua face toda luminosa. Ele golpeou-o duramente com um chicote e disse-lhe: 'Tome cuidado agora, insensato, tome cuidado! Sabe em quem você está jogando pedra ou que você é por origem da mesma natureza que ele? Você e ele não são feitos do mesmo molde? Por que considerá-o inferior a você?'” -
Uma vez que o cão não está de fora do molde da onipotência, não é de acordo com a lei exaltar a si mesmo acima de um cão. Os cães estão escondidos atrás da cortina, amigo. Veja se sua amêndoa é mais pura do que esta casca. Pois, embora a aparência do cão possa não ser atrativa, nele existem qualidades que garantem a ele uma posição elevada. O cão possui muitos segredos, mas sua aparência externa desmente isso.


A discussão do Sheikh Abu Sard com um Sufi a respeito de um cão

"Um Sufi que estava passando golpeou com seu bastão um cão deitado na estrada. O cão ficou com sua perna da frente ferida seriamente, começou a uivar e saiu correndo. Veio uivando para Abu Said e jogou-se no chão, seu coração fervendo de raiva. Quando mostrou para Abu Said sua pata, ele se levantou e procurou fazer justiça contra aquele Sufi negligente.
O Sheikh disse ao sufi: 'Ó homem sem fé, será que alguém já tratou com tanta crueldade uma criatura estúpida? Você quebrou sua pata fazendo-o cair e tornando-o fraco e indefeso?'
O Sufi disse: 'Ó senhor, a culpa não foi minha, mas sim do cachorro, por ter sujado minhas vestes ele recebeu de meu bastão um golpe que não havia sido premeditado'.
O cão que estava deitado, continuava a uivar e mexer sua pata. Aquele Sheikh inigualável disse ao cão: 'Por tudo que você fez, terei prazer em tomar as responsabilidades. Passe a sua sentença agora e não adie até o Dia do Julgamento. Se quiser que eu dê a ele sua resposta, vou puni-lo em seu nome aqui e agora. Não quero que você fique com raiva, quero que fique feliz'. O cão disse: 'Ó Sheikh inigualável, como vi que o traje dele era de um sufi, eu tinha certeza que ele não me faria mal nenhum. Como eu ia saber que ele iria queimar de dor as minhas patas? Se houvesse alguém vestido com uma armadura na estrada, eu teria ficado em guarda. Vendo a vestimenta do povo da paz senti-me seguro, porque não sabia a história completa.
Se quer puni-lo, despoje-o agora desse traje que é usado por homens verdadeiros, de modo que todos possam ficar a salvo de sua maldade: o prejuízo que ele me causou foi maior do que já me causaram os bêbados. Retire-lhe o manto do povo da paz e sua punição será suficiente até o Dia do Juízo'.” - Uma vez que o cão ocupa tal posição no Seu caminho, é proibido a você colocar-se acima de um cão. Se você se acha melhor do que um cão, certifique-se de que você pensa assim por causa da natureza em você que se assemelha a um cão.
Quando lhe atirarem abjetamente na terra, você cairá de cabeça para baixo, porque enquanto continuar a dar ouvidos à sua cabeça não há dúvida de que a sua cabeça será curvada ainda mais.
Por que vangloriar-se tanto por aquilo que é um punhado de terra? Pois foram para a terra os que cortaram o seu cordão umbilical. Aqueles que são mais baixos aqui certamente serão os mais puros lá. Quando os homens fizerem-se humildes como a terra tornarão o corpo e alma puros na dignidade. Os valentes nesta estrada são elevados na hierarquia porque renunciaram inteiramente as perversidades.


A história de Abul Fadi Hasan e suas palavras em seu leito de morte

"Quando Abul Fadi Hasan jazia em seu leito de morte, alguém lhe disse: 'Ó homem, por quem a Lei Sagrada é confirmada, quando o José de sua alma for salvo do poço, iremos enterrá-lo em tal e tal lugar ". O Sheikh disse: 'Deus me livre, pois esse é o lugar dos grandes e dos piedosos. Como poderia eu, que não sou melhor do que uma centena de outros miseráveis, querer ter a minha sepultura em tal lugar'. Eles disseram-lhe: 'Ó homem puro e de bom coração, onde quer que suas cinzas repousem?'
Ele abriu sua boca com uma alma cheia de agitação e disse: 'No alto daquela colina deve ser minha sepultura, pois ali estão muitos frequentadores de tabernas e também um número de ladrões inúteis.
Há também muitos jogadores por lá: todos são pecadores. Enterrem-me também com eles: coloquem minha cabeça sob seus pés. Eu sempre fui um companheiro adequado para eles, pois, essencialmente, sempre fui como um ladrão. Faço parte desses pecadores, não tenho a força para ficar entre os perfeitos. Pois, se essas pessoas estão em grande escuridão, ainda assim estão próximos à luz da Sua misericórdia. Quando há em um lugar sede ao extremo, no final, esse lugar atrairá água para si. Onde quer que haja fraqueza os olhos da misericórdia habitam lá mais vezes.'"

sábado, 28 de maio de 2011

Tukaram - Seleção de Alguns Poemas


Eu estava dormindo quando Namdev e Vitthala
entraram em meu sonho.

"Sua tarefa é fazer poemas.
Pare de perder tempo", disse Namdev.

Vitthala deu-me a medida e gentilmente
despertou-me de um sonho dentro de um sonho.
Namdev prometeu escrever um bilhão de poemas.

"Tuka, todos os poemas que faltam ser escritos
são de sua responsabilidade."
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Sem um adorador, como poderia Deus
assumir uma forma e aceitar a tarefa?

Um torna o outro belo,
como um cordão de ouro apresenta uma jóia.

Quem, senão Deus,
poderia tornar o adorador livre dos desejos?

Tuka diz:
"Eles são atraídos um pelo outro, como mãe e filho."
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Trate de adorar o Príncipe dos Yadavas, o Senhor dos Yogis.
Ele, o que enche de paixão as dezesseis mil donzelas reais,
Criaturas formosas, virgens divinas.

Ele fica na margem do rio com o brilho de um milhão de luas.
Com seu pescoço coberto de jóias cujo brilho funde-se
com o resplendor de sua forma.

Este Deus que suporta a roda é o chefe dos Yadavas.
A Ele os trinta e três núcleos de semideuses adoram.
Os demônios tremem diante Dele.

Seu semblante azul escuro destrói o pecado.
Que belos são os Seus pés manchados com açafrão!
Como é feliz o tijolo que é apertado por seus pés!

Meramente pensar Nele torna o fogo gelado.
Por isso, abraçe-o com sua própria experiência.

Os sábios, conforme vêem o Seu rosto
Contemplam-No em espírito,
O Pai do Mundo fica na forma corpórea diante deles.

Tuka está atrás Dele como um louco,
Sua forma púrpura devasta a mente.

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Se os homens são moradas de Deus,
deveríamos cair a seus pés.
Mas devemos desconsiderar seus hábitos e objetivos.
O fogo é bom para espantar o frio.
Mas não devemos amarrá-lo e carregá-lo em torno de um pano.
Tuka diz:
"Um escorpião ou uma serpente são uma morada de Narayana;
podemos adorá-Los de longe, mas não devemos tocá-Los."

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Você é mais amável que uma mãe, querido,

Mais suave que os raios da lua.

Seu amor é uma corrente de fluxo eterno
que bate muito mais fundo que qualquer riacho comum.

Não conheço nada que se iguale a Você –

Você é o melhor de todos os Deuses imortais.
Agito meu nome sobre sua cabeça
E parto-o aos seus pés sagrados.

Ah! Mais doce do que as coisas mais doces
E mais poderoso do que todos os elementos.

Você governa o Universo
E cuida para que tudo corra bem.

Em silêncio eu coloco minha cabeça a Seus pés
e rogo-lhe:

"Perdoa"

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Pode a água beber a si mesma?
Pode uma árvore saborear a sua própria fruta?
O adorador de Deus deve permanecer distinto Dele.

Somente assim ele virá a conhecer o alegre amor de Deus.

Mas se disséssemos que Deus e ele são um,

essa alegria e amor desapareceriam instantaneamente.

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Aquele que profere o nome de Deus enquanto caminha
recebe o mérito de um sacrifício a cada passo,
seu corpo torna-se um lugar de peregrinação.

Aquele que repete o nome de Deus enquanto trabalha
sempre encontra a paz perfeita.

Aquele que profere o nome de Deus enquanto come
recebe o mérito de um jejum
mesmo que tenha feito suas refeições.
Mesmo se uma pessoa doasse para caridade
todo o mundo cercado pelo mar
isso não se igualaria ao mérito de repetir o Nome.

Através do poder do Nome a pessoa
chega a conhecer o que não pode ser conhecido;
a ver o que não pode ser visto;
a falar o que não pode ser falado;
a encontrar o que não pode ser encontrado.

Tuka diz:

Incalculável é o ganho que deriva da repetição do nome de Deus.

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Eu não podia mais mentir
então comecei a chamar o meu cachorro de "Deus".

Primeiro ele pareceu confuso,
em seguida começou a sorrir,
mais tarde ele até mesmo dançou.
Eu continuei fazendo isso:
agora ele nem sequer morde mais.
Pergunto-me se isso funcionaria com as pessoas.

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Saiba que um homem verdadeiro é aquele que leva a seu coração
aqueles que estão em angústia.
Saiba que Deus reside no coração dessa pessoa.
Seu coração está completamente saturado de gentileza.
Ele recebe como seus somente aqueles que estão abandonados.

Ele concede a seus servos e servas
a mesma afeição que demonstra a seus filhos.

Tukaram diz:
Que necessidade há em descrevê-lo ainda mais?
Ele é a própria encarnação da divindade.

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O que devemos fazer para obtermos devoção a Seus pés sagrados?
Quando acontecerá de Você entrar e se estabelecer em meu coração?
Ó Deus,
quando é que você ordenará para que eu medite em Si
com um coração verdadeiro?
Remove minha inverdade, ó Verdade,
venha e habite em meu coração.
Tuka diz:
Ó Panduranga,
protege através de Seu poder os pecadores como eu.
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Para os servos de Vishnu não há anseio nem mesmo pela salvação;
eles não querem saber como é a roda de nascimento e morte;
Govinda fica firmemente estabelecido em seus corações.
Para eles o início e o fim são o mesmo.
Eles doam as felicidades e as misérias a Deus
e permanecem intocados por elas.
As músicas de louvor cantam sobre eles.
Sua força e seu intelecto são dedicados a utilizações benevolentes;
seus corações são repletos de ternura,
pois assim como Deus, eles estão cheios de misericórdia.

Eles não conhecem distinção entre o que é deles
e o que é dos outros.

Tuka diz:
"Realmente eles são mesmo como Deus
e Vaikuntha é o lugar de sua morada.
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Esta é minha última prece,
ouçam-na:

Ó Deus, não se esqueça de mim.
O que mais preciso dizer,
Seus pés sagrados sabem de tudo.
Tuka diz:
Prostro-me diante de Seus pés.
Faça com que a sombra de Sua graça descenda sobre mim.

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Ó Crítico Celestial,
para passar no seu teste
escrevo e novamente apago o que escrevi.
Escolho uma palavra apenas para trocá-la,
esperando encontrar uma que você goste mais.

Peço perdão de novo e de novo:
Senhor,
não deixe que as minhas palavras sejam desperdiçadas.
Tuka diz:

Por favor, pelo menos responda
para que este poema tenha algo a dizer.
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Onde é que começamos quando se trata de Você?
Ó Senhor, Você não tem nenhuma linha de abertura,
É tão difícil fazê-lo começar a ficar ativo.
Tudo que eu tentei deu errado.
Você gastou todas as minhas faculdades.
O que acabo de dizer desaparece no céu
E cai no chão novamente.
Tuka diz:

minha mente está atordoada;
não consigo encontrar uma palavra para dizer.

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Alguns de vocês podem dizer que sou o autor destes poemas,
mas acreditem em mim,
esta voz não é minha.

Não tenho nenhuma habilidade pessoal.
É o Ser cósmico quem me faz falar.
O que um pobre como eu saberia
sobre as sutilezas da compreensão?
Falo o que Govinda me faz dizer.

Ele indicou-me para medi-las.

A autoridade repousa sobre o Mestre, não em mim.
Tuka diz:
eu sou apenas o servo.

Você não vê?
Tudo isso leva o selo de seu Nome.

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Organizar as palavras em uma determinada ordem
não é o mesmo que o equilíbrio interior:

Isso é poesia.

A verdade da poesia é a verdade do ser.
Ela é uma experiência da Verdade.
Nenhum ornamento sobrevive
quando derretido em um cadinho.
O fogo revela somente ouro derretido.

Tuka diz:
Estamos aqui para revelar.
Não desperdiçamos palavras.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Philokalia - São Simeão o Novo Teólogo - Preceitos Práticos e Teológicos (parte 2)

Aquele que não assumiu a imagem de nosso Senhor Jesus Cristo (homem Divino e Deus) em seu homem interior ou espiritual, com percepção e consciência, não é nada além de sangue e carne e não pode apreender a glória de maneira direta, apenas através das palavras, da mesma forma que os cegos de nascença não podem conceber como é a luz do sol meramente ao ouvirem falar a seu respeito.

Portanto, aquele que vê, ouve e apreende conhece a força do que está sendo dito, uma vez que ele já assumiu a imagem do céu e tornou-se um “Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efé. iv. 13). Sendo assim, ele também está apto a guiar o rebanho de Cristo no caminho dos mandamentos de Deus. Mas se um homem não conhece isso e nem é assim, isso mostra que os sentidos de sua alma não estão iluminados e nem são saudáveis; e é muito melhor para ele ser guiado do que guiar os outros, para a segurança deles e dele próprio.
Um homem que vê com seus olhos físicos sabe quando é dia e quando é noite, mas um homem cego não sabe distingui-los. Da mesma forma é com o homem cujos olhos espirituais são abertos e que tem com eles a visão interna; se, depois de já ter visto a luz verdadeira e infinda ele retornar novamente à sua cegueira anterior e ficar privado da luz devido à negligência e à falta de zelo, ele sentirá profundamente, quando estiver no estado correto, a perda dessa luz e não será ignorante do motivo que o fez sofrer essa privação. Mas um homem cego (espiritualmente) de nascença não pode saber nada a esse respeito nem por experiência nem por sua ação. É apenas através de rumores que ele pode aprender sobre aquilo que nunca viu, podendo começar a falar para os outros sobre isso, embora ele e os que os escutam não tenham nenhum conhecimento real sobre as coisas das quais estão falando.
A graça do Espírito Santo é dada às almas que são as noivas de Cristo, como um sinal do noivado. Do mesmo modo que sem o noivado uma donzela não pode assegurar-se de que irá um dia unir-se ao seu marido por meio do matrimônio, também a alma nunca terá uma garantia definida de que tornar-se-á para sempre unida com seu Senhor e Deus, ou que de maneira misteriosa e inefável casar-se-á com Ele e desfrutará de Sua beleza inacessível, sem que antes lhe seja garantido o noivado, ou um sinal de Sua graça e sem conscientemente possuí-Lo dentro de si mesma.
Assim como um noivado não pode ser firmado até que o contrato de casamento seja assinado por testemunhas confiáveis, também a luz da graça não é assegurada antes da prática dos mandamentos e da aquisição das virtudes. Pois essa prática dos mandamentos e das virtudes é para o noivado espiritual como a testemunha que assina o contrato de casamento. Através dessas práticas todo homem que está para ser salvo adquire segurança total no noivado, isto é, a graça do Espírito Santo.
Primeiramente é como se as condições do contrato de casamento fossem escritas através da prática dos mandamentos e então ele é selado e assinado pelas virtudes; e, então, Cristo, o noivo, dá à noiva (a alma), um anel, ou seja, o noivado no Espírito.

Assim como antes do casamento a noiva recebe do noivo apenas um sinal do noivado, esperando obter a residência acordada e os outros presentes apenas após o casamento, também a noiva de Cristo recebe primeiramente Dele apenas o noivado do Espírito e espera por receber as bênçãos eternas e o reino dos céus após abandonar este mundo; e a alma é assegurada disso pelo sinal do noivado, o qual revela isso a ela como num espelho, confirmando com certeza a aquisição futura de tudo pactuado entre ela e o seu Senhor e Deus.
O noivado do Espírito Santo é inexplicável mesmo para aqueles a quem ele foi concedido, pois ele é compreendido incompreensivelmente, é visto invisivelmente; ele anima, fala e move aqueles que o conquistaram, ele voa de sua morada secreta e inexplicavelmente ainda é encontrado lá novamente. Isso prova que quando ele vem não é permanentemente ou para sempre e que quando parte não é para não retornar mais. Portanto, se um homem que alcançou-o não o tem (palpavelmente presente) é como se ele o tivesse e quando o tem é como se não tivesse.

Como um homem que está num quarto escuro com todas as portas e janelas fechadas, quando abre uma janela e a luz que jorra para dentro envolve-o num brilho tão intenso que, impossibilitado de suportá-lo ele fecha os olhos, cobre sua cabeça e se esconde; também se uma alma, totalmente aprisionada no mundo sensorial, permite que sua mente dê uma espiada no mundo supra-sensorial, como que para fora da janela, ela é banhada pelo esplendor do noivado com o Espirito Santo que está dentro dela e não é capaz de suportar o brilho da luz Divina desnuda, ele imediatamente estremece em sua mente, esconde-se em si mesma e foge como que para dentro de casa buscando cobrir-se com o que é sensório e humano.
A meta de todos aqueles que vivem em Deus é agradar nosso Senhor Jesus Cristo e tornarem-se reconciliados com Deus, o Pai através do recebimento do Espírito Santo, desse modo assegurando sua salvação, pois nisso consiste a salvação de todas as almas. Se essa meta e essa atividade estiverem faltando, todos os outros trabalhos serão inúteis e todos os outros esforços serão vãos. Cada caminho da vida que não conduz a isso não é vantajoso.

Na mesma medida que a alma é superior ao corpo, um homem sábio é superior e melhor do que o resto do mundo. Não olhe para a grandeza das criações existentes no mundo, pensando que elas são maiores do que você, ó homem, mas vendo a graça conferida a você e percebendo a posição de sua inteligência e a glória de sua alma, cante louvores a Deus, o Qual honrou-o acima de toda criação visível.

O homem que é cego em relação a uma coisa ( a Deus) é totalmente cego em relação a todas as coisas; e o homem que vê no um (em Deus), tem a visão de todas as coisas. Ele é removido da visão das coisas e ao mesmo tempo tem a visão de todas as coisas e está de fora de todas as coisas visíveis. Desse modo, estando no Um ele vê tudo e estando em tudo ele vê do todo. Vendo no Um através Dele ele vê a si mesmo, os outros e todas as coisas e estando escondido em si mesmo ele não vê nada do todo.

Se um homem olhar constantemente para o sol físico ele sofrerá involuntariamente uma mudança em sua visão, pois não poderá ver nada mais do visível e não verá nada além do sol em todas as coisas. É o mesmo com um homem que está sempre olhando para o sol da Verdade com sua mente e coração: involuntariamente ele sofrerá uma mudança em sua visão mental, pois não conseguirá imaginar nada mundano e verá apenas Deus em todas as coisas.
O sol físico é visto mas ele mesmo não vê, o sol do intelecto é visto pelos que são dignos e ele mesmo vê a todos, especialmente aqueles que olham em sua direção. O sol físico não fala e não dota ninguém com o dom e o poder da fala, mas o sol do intelecto fala com seus amigos e também dota todos eles com o poder e o dom da fala. O sol físico, iluminando o jardim físico, meramente seca a umidade do solo através do calor de seus raios, ele não fertiliza o solo nem alimenta as sementes e as plantas. O sol do intelecto, quando brilha na alma, faz ambas as coisas: ele seca a unidade das paixões, ao mesmo tempo purificando a alma da imundice e do cheiro fétido que elas produziramm, fertiliza o solo interno da alma (tornando-o rico) com a graça Divina alimentando as plantas das virtudes, de modo que elas possam gradualmente crescer e prosperar.

Ao nascer, o sol físico acende o mundo físico e tudo nele – as pessoas, os animais e todo o resto – despejando sua luz igualmente sobre todos, ele reina ao meio dia e depois esconde-se novamente, deixando na escuridão os lugares sobre os quais ele brilhou. Mas o sol do intelecto, uma vez que começa a brilhar, brilha sempre, de maneira imaterial e totalmente contido em todas a coisas e ao mesmo tempo permanecendo à parte de suas criaturas, inseparavelmente separado delas, uma vez que ele é um todo integral em todas as coisas e ao mesmo tempo não está de maneira exclusiva em nenhuma das criaturas (pois ao mesmo tempo está em outro lugar também). O todo dele está no visível e o todo dele está no invisível; ele está totalmente presente em toda parte e ainda assim exclusivamente presente em parte alguma.

Cristo é o início, o meio e o fim. Ele está naqueles que são os primeiros, nos que estão no meio e nos últimos e da mesma forma que Ele está no primeiro Ele está em todos. Para Ele não há diferença entre eles, do mesmo modo que para Ele “não há nem judeu nem grego, não há nem escravo nem livre, não há nem masculino e nem feminino: pois sois todos um só em Cristo Jesus.” (Gal. Iii. 28)

O amor sagrado, permeando a todos desde o primeiro até o último, da cabeça aos pés, une todas as coisas a si mesmo, conecta-as, ata e unifica-as, deixando-as fortes e inabaláveis. Em experiência, ele revela-se a cada homem como um e o mesmo. É Deus com o Qual os últimos serão os primeiros e os primeiros serão como os últimos.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Nisargadatta Maharaj - Mumbai, 2 de fevereiro de 1980



Maharaj: O que quer que seja visto ou sentido na Totalidade, a qual é como o espaço, é a manifestação universal – Brahman. Mas “formas” emanaram e elas são sentidas como sendo separadas e isoladas umas das outras.
Para um Jnani tudo é Brahman – é Sua expressão apenas. Cada ser vivo tem o sentido de presença. Esse sentido identifica-se com a forma do corpo e dessa forma opera no mundo. O sentido de presença de ser tem um tremendo potencial, particularmente no corpo humano, pois os sentidos do corpo nesta espécie estão desenvolvidos no mais alto grau.
Esse sentido de ser, o qual é a consciência, tem a capacidade de dar-se conta de sua verdadeira natureza e residir no estado Iswara, ou seja, o estado divino. As escrituras antigas, os quatro Vedas, afirmaram que esse sentido de ser é o puro Brahman apenas, o que também é confirmado pelos sábios e santos.
Um borrifar de água do oceano contém inúmeras gotículas. Mas elas são o oceano quando não estão separadas do oceano. Com a separação há gotas individuais. Não obstante, o gosto salgado da água, seja do oceano ou das gotas, é o mesmo. Assim como o gosto salgado está presente no oceano inteiro, o sentido de ser, ou o sentido de “eu sou”, na forma humana tem a capacidade inerente de ser todo-permeante. Porém, tendo se condicionado e dessa maneira limitado a si mesmo à forma do corpo, ele está interessado apenas em proteger e preservar o corpo.
Como um resultado do surgimento das formas dos corpos, essa consciência manifesta, aparentemente fragmentou-se. Mas essa fragmentação deve ser vista apenas no que diz respeito às formas dos corpos porque na realidade a consciência prevalece, tanto dentro quanto fora dos corpos.
A mente é a efusão das cinco energias vitais* no corpo, conhecidas como os pancha-pranas. Ela glorifica-se nas, e regozija-se com, as impressões - os sanskaras - que são recebidas de fora através dos sentidos do corpo. Mas a mente pode purificar-se ao associar-se com os santos e sábios, que para esse propósito recomendam práticas diversas, como cantar os nomes sagrados de Deus, fazer penitências, etc.
Na qualidade de um fenômeno natural, o puro Brahman dinâmico inconscientemente veste vários corpos como trajes e então opera através deles. Isso resulta na percepção do mundo que acontece através dos sentidos dos corpos. Mas dentro desse processo o princípio que reside internamente - isto é, o sentido de “eu-sou-ência(I-am-ness) – adota o corpo como sendo ele mesmo e age em resposta aos ditames e demandas do corpo. Mas a despeito de todas essas distorções e modificações, o sentido de “eu-sou-ência(I-am-ness) permanece inalterado em sua natureza inerente. No exato momento que esse puro Brahman dinâmico, o qual é a força motivadora por trás do funcionamento do corpo, interrompe o seu ímpeto, o corpo entra em desarranjo, o que é comumente chamado de “morte”.
Desse modo, a consciência não vai a lugar nenhum, meramente seu funcionamento através do corpo morto é então extinto ali e o puro Brahman dinâmico permanece não afetado.
Enquanto o sentido de ser ou a consciência residindo no corpo não der-se conta de sua verdadeira natureza, ela estará fadada a identificar-se com o corpo e com todas as suas ações alegando a autoria delas. Mas como resultado dessa alegação, ela é sujeitada a um intenso sofrimento quando o corpo começa a desintegrar-se, aproximando-se da morte.
Em um corpo saudável, o movimento da respiração vital é claramente sentido. Mas quando a morte ocorre, o alento vital abandona o corpo e o movimento pára instantaneamente. Entretanto, no caso de Brahman, não existe de modo algum a questão de movimento e Ele continua a ser onipresente. O ponto a ser entendido claramente é que quando o corpo morre, esse princípio básico – o puro Brahman – não se vai e nem prossegue para lugar nenhum como uma entidade individual, simplesmente porque ele sempre permeia tudo e está infiltrado em toda parte. Porém, no momento da “morte” do corpo, sua expressão através daquele corpo afasta-se então de vista apenas ali.
Quando um instrumento musical é tocado, o som que emana dele preenche o espaço ao redor. Mas no momento em que o instrumento deixa de ser tocado, o som não viaja mais para nenhum lugar, ele diminui e chega ao fim.
Atualmente, a forma deste corpo é o produto dos cinco elementos (terra, água, fogo, ar e espaço). Esses elementos são criados a partir do atman. Mas como podemos reconhecer esse atman? É ao entendermos o conhecimento “eu sou” - o atman-jnana. Assim como o espaço é todo penetrante, também o conhecimento “eu sou” é todo-penetrante, ilimitado e infinito. Que estranho um princípio tão supremo ser tratado como se ele fosse o corpo! Todos os sofrimentos devem-se a essa identidade enganada. Se você der ao “eu sou” a honra mais elevada, você não passará nem por sofrimento nem pela morte.
O nascimento e a morte são boatos. Um nascimento indica o nascimento de um corpo e esse é formado dos sumos dos alimentos. Não existe a questão do atman necessitar entrar em um corpo, uma vez que ele já está em toda a parte, como o céu. Se um corpo é saudável, seu funcionamento se iniciará naturalmente por causa da prevalência do princípio-atman. Esse princípio é imortal e indestrutível. Se você quer ter um gosto dele, compreenda claramente que ele não é nada além do que o conhecimento “você é”, o toque de “eu-sou-ência”. Não esqueça esse princípio básico.
Esse grande princípio - o atman – permanece não afetado por quaisquer ações que você faça baseado na sua identidade-corpo. Não obstante, o toque de “eu-sou-ência” aparece apenas quando um corpo-comida está disponível. Quando você afirma “sou muito forte e saudável”, isso significa que muita comida salutar foi consumida e digerida por você para fazer o seu corpo forte. Mas o corpo não é o seu sentido de ser. Mesmo que ele seja forte ele deve ser reabastecido diariamente com comida e água. A respiração vital, sem lábios ou língua, mastiga e suga as essências dos alimentos do corpo, enquanto a mente canta em louvor das impressões coletadas externamente através dos sentidos do corpo. E você, por sua vez, sente como se fosse você que estivesse fazendo todas essas atividades,  alegando-as como “suas”.
Vamos chamar esse sentido de ser de guna – isto é, qualidade ou jnana – que significa o conhecimento “eu sou”. Esse guna ou jnana existe sempre de maneira latente numa partícula de alimento. Assim, onde quer que uma forma de alimento esteja disponível, essa qualidade latente manifesta-se inicialmente como movimento e pulsação, e posteriormente como a mente.
O princípio supremo todo-penetrante cuja expressão através do corpo é chamada guna é nomeado como Sagunabrahman nos Vedas. O nome tem vários significados como “amor por ser”, o sentido de “eu-sou-ência”, o sentido de existência, etc. Esse estado não tem nome ou forma, assim como até mesmo a mente não tem forma. Apenas um corpo-comida tem forma.
Esse próprio princípio expressa-se na forma de vermes e germes que surgem num corpo humano em decomposição. Onde quer que uma sobra de comida seja jogada fora e deixada para decompor, você encontrará formas vivas rastejando por dentro e fora dela. O doador da vida, Sagunabrahman, anima as formas-comida sempre que as condições são favoráveis, mas sua expressão varia de acordo com as formas. Desse modo, reconhecemo-las como vermes, insetos, aves, animais e assim por diante, por suas próprias formas.
O próprio Sagunabrahman, quando manifesto através de um corpo humano, tem o potencial de conduzir o buscador ao Mais Elevado, contanto que ele seja compreendido e percebido corretamente. E o Sagunabrahman não é nada além do seu sentido de ser e reside em cada corpo humano. Ao permanecer nesse estado, o nascimento e a morte serão transcendidos. Para esse propósito você não tem de praticar rituais ou disciplinas espirituais. Apenas esteja antes da mente, apenas seja.
Muitas pessoas estão ocupadas em nome da espiritualidade, fazendo penitências, cantando os nomes sagrados, fazendo peregrinações e aderindo a outras disciplinas visando sua salvação. Deixe-as fazer o que quiserem. Provavelmente é requerido que elas purifiquem os pecados de seu passado de acordo com seu prarabdha (destino).
Se você vir a encontrar um sábio que tenha realizado sua verdadeira natureza, não lhe será requerido fazer nada no caminho das disciplinas espirituais. Isso porque através de seu ensinamento ele lhe revelará sua verdadeira natureza, como se colocasse um espelho diante de você.
Muitos supostos sábios deslocam-se de lugar em lugar para propagar seu conhecimento espiritual. Mas por que eu perambularia por aí e aonde eu iria? Em meu estado verdadeiro estou em toda parte. Isso será realizado por você quando você residir no conhecimento “eu sou”.
Você vai até o seu tio ou seu primo porque você está relacionado a eles pelo corpo. Mas se você está em toda parte, por que você deveria sair por aí? Se você se embeber plenamente do que eu expus, nenhuma disciplina espiritual será requerida de você.
Com essa compreensão você observará e concluirá que quaisquer atividades espirituais ou mundanas estão acontecendo através de você, elas são meramente entretenimentos para passar o tempo e que elas são apenas o funcionamento do princípio dinâmico manifesto – maya.
Residir no conhecimento “eu sou” é nossa verdadeira religião – o svadharma. Mas em vez de seguir isso você optou por ser irreligioso, a submeter-se aos ditames de seus conceitos, o que o levou a acreditar que você é um corpo. Esse engano garantiu-lhe apenas o medo da morte.
Se seu corpo não for suprido com comida, ele vai ficar cada vez mais fraco e um dia seu alento vital irá abandonar o corpo. As pessoas dirão que você está morto, mas você não terá a informação. Pode ser que você seja pecaminoso, mas isso é apenas no que diz respeito à sua identidade como um corpo, desse modo também a sua morte refere-se à identidade do corpo.
Por favor, aprenda isto claramente: que Você – o Absoluto – desprovido de qualquer identidade corporal, é completo, perfeito e Não-nascido. Mas você é acusado de milhões de nascimentos nas vidas passadas. Em conexão com isso, você poderia me falar ao menos de um dos seus nascimentos passados, você se lembra? Não vá pelo que os outros dizem, mas fale honestamente apenas de sua própria experiência direta. Na realidade, você nunca teve um nascimento. Muitas formas estão aparecendo e desaparecendo como um resultado da interação dos cinco elementos. Nessa interação onde está você e o que é você? E onde está a questão de você ir e vir? O que são essas religiões e seitas? Não são meramente propagações das amáveis idéias dos sábios e profetas para os quais alguns conceitos ocorreram? E isso pôde acontecer porque os sábios e profetas reconheceram primeiramente o seu sentido de ser. Então eles meditaram e habitaram nele e finalmente transcenderam-no, o que resultou na Realização Última. Depois disso, qualquer conhecimento que tenha brotado deles espontaneamente tornou-se as religiões e as seitas de seus seguidores, devido ao seu envolvimento emocional.
O fato mais importante a ser entendido é apenas este: Se o toque do sentido de existência existe, então todas as coisas existem. Se o sentido de existência não está presente, os cosmos não estão presentes e não há nada.
Vocês têm alguma pergunta agora?

Pergunta: Você falou sobre o sentido de ser sustentado pelo corpo-comida e sobre a consciência dinâmica manifesta. Eles são a mesma coisa?

Maharaj: Ambos significam a mesma coisa. Não há forma ou desenho para esse princípio, assim como o alento vital não tem forma, o qual é, entretanto, dinâmico e pulsante. O alento vital apenas é o que anima e vivifica o corpo e ele irá operar enquanto o corpo estiver sadio.
O que quer que seja visto ou percebido está continuamente em um estado de criação e destruição, mas Você, em sua natureza verdadeira é não-nascido e indestrutível. A menos que você realize sua verdadeira natureza, não haverá paz para você.
Não importa o quanto você lute duramente para adquirir posses, elas estão fadadas a se esvaírem e é o mesmo com seus conceitos e suas várias identidades. Mesmo que você siga alguma religião na esperança de obter
algo permanente vindo de fora, você ficará profundamente desapontado. O propósito principal da verdadeira espiritualidade é nos liberar completamente de nossos conceitos e condicionamentos.
Ao seguir alguma religião, culto ou credo, a pessoa inevitavelmente torna-se condicionada, pois ela é obrigada a aceitar e obedecer suas disciplinas, tanto físicas quanto mentais. A pessoa pode conseguir alguma paz por um certo tempo, mas tal paz não irá durar muito. Em sua verdadeira natureza, você é o conhecedor dos conceitos, e, portanto, anterior a eles.

Pergunta: Suponhamos que um cadáver esteja no chão. E sendo que o Brahman manifesto está em toda parte, ele não poderia ter deixado o corpo. Dessa forma, o que é esse princípio que deixou o corpo deixando-o morto?
Maharaj: Vamos considerar Brahman como o espaço a fim de facilitar essa discussão. Pode o espaço ser confinado dentro de um corpo? Então diga-me, aonde a morte (daquele corpo) começa no espaço todo-penetrante? É possível isso?
Que tipo de pergunta você faz? É melhor você recolocar a questão para deixá-la com mais sentido.

Pergunta: No corpo vivo deveria haver algo além de espaço!
Maharaj: Além de espaço?
Pergunta: Há espaço.
Maharaj: No espaço havia uma massa de alimento e dela um corpo foi formado. Brahman manifesto, o qual estamos chamando de espaço, expressa a Si mesmo através de um corpo-comida saudável. Você está acostumado a chamá-lo de atman. Mas o atman não é criado como um corpo, é um princípio não-nascido, o Brahman.
Pergunta: Ó, isso quer dizer que o atman nunca foi criado!
Maharaj: Certamente, o atman não tem nascimento. É através do todo-penetrante Brahman que o corpo, juntamente com a respiração vital, funcionam. E então você interpreta o processo como o nascimento de atman.
Toda essa exposição é apenas para aqueles que têm uma necessidade genuína de compreender a espiritualidade. Para aqueles que estão ansiosos para melhorar sua vida mundana, a adoração dos vários deuses é recomendada.
Quando um corpo saudável e a respiração vital (prana) trabalham juntos, o sentido de ser expressa-se colocando em operação os membros e os sentidos do corpo. Essa expressão é um anúncio, o qual declara a exixtência eterna do princípio derradeiro – o Absoluto – Parabrahman. Quando o corpo morre, o sentido de existência desaparece e dessa forma não há anúncio do Absoluto através daquele corpo morto, não obstante, o Absoluto continua a prevalecer como sempre.
Pergunta: É isso o que eu queria saber.
Maharaj: Um buscador foi aconselhado por um guru com as seguintes palavras: “olhe para trás”. E o buscador simplório virou e olhou para trás, considerando literalmente a ordem, então o guru disse novamente a ele: “entenda o significado por trás das palavras. Compreenda o seu estado antes deste estado presente. Vá para a fonte. Olhe para trás. Retroceda.”
Você aceita um conceito e pára nele. Dessa forma seu progresso espiritual fica estagnado no nível conceitual.
Você indicou sua identidade nos vários estágios de sua vida por conceitos tais como “uma criança”, “um garoto”, “um jovem”, “um homem de meia idade”, etc. Mas qual identidade conceitual permaneceu fiel a você? Todas as identidades no curso do tempo provaram ser ilusórias. Mesmo o princípio por trás das identidades, ou seja, o sentido de sua existência, provará ser ilusório. Uma vez que ele apareceu ele tem de desaparecer, sendo assim ele é temporário e limitado ao tempo. Mas o conhecedor desse sentido de ser é o Absoluto eterno.
Qualquer experiência pela qual você passe é imperfeita. Contudo, você continuará alguma prática espiritual porque a mente não permitirá que você fique quieto.
Com o propósito de adquirir conhecimento e de conhecer Brahman você medita em algo. Mas qual é a sua identidade como meditador? Você não é nem a meditação e nem o objeto da meditação. O que quer que seja, Você, é o Perfeito, a Totalidade, o Absoluto Eterno.

sábado, 30 de abril de 2011

G. I. Gurdjieff - Paris, 21 de outubo de 1943


Gudjieff: Mãe, posso fumar? [Dirigindo-se para J.]: Note esse exemplo – ela é mãe, a mãe dessa casa, você se lembra do que eu disse da última vez, que ninguém deve fazer nada sem a permissão da mãe. A mãe é a chefe da casa.
[Sr. Gurdjieff brinca com J., diz que J. está com ciúmes pois sua mãe não pertence mais só a ele mas a todos os presentes e diz que quando ele perde-la ele perceberá o valor que ela possuía.]
Gurdjieff: Aí! Depois do que acabamos de ler sobre a cerimônia de Cristo penso que é difícil para qualquer um fazer perguntas. Mas mesmo assim vocês devem tentar, mesmo que seja egoísta fazer uma pergunta.
Hig: Senhor, eu gostaria de fazer uma pergunta. Tendo terminado há várias semanas as tarefas que coloquei para mim mesmo, encontro-me desde então em um feliz equilíbrio sem lacunas e sem um desejo. Eu gostaria de continuar trabalhando pois sinto que há um universo acima deste em que me encontro agora, mas não consigo fazer nenhum progresso desde aquele ponto e sinto que sozinho não posso fazer nada.
Gurdjieff: Esse é um mau sinal. Você deve procurar um choque que venha de fora. Você se contenta com pouco. Agora durante este período você deveria fazer um esforço. Deveria estar tendo uma luta entre a sua individualidade e suas funções. Você não deve se acalmar. O fato de que não pode trabalhar é um sinal muito bom. Você deve forçar-se a. Se você passar esta crise, essa pequena crise, você poderá começar de novo depois.
Hig: Não vejo exatamente que caminho seguir e que objetivo ter em vista.
Gurdjieff: Um caminho não é necessário. É apenas necessário que você obtenha resultados em você mesmo. Colete, acumule os resultados da luta. Você vai precisar deles para continuar. Você deve acumular essa substância, como eletricidade. Essa substância só pode ser acumulada através de esforços. Portanto, crie uma luta entre a sua cabeça e o seu animal. Eu já expliquei isso na última vez. Perdão, foi sábado que eu falei isso, minha memória está ficando falha. Eu não costumava cometer erros e agora começo a cometê-los. Eu lhe aconselho – agora que eu o conheço mil vezs melhor – a não parar. Continue a sua luta, mas sem esperar por resultados. Acumule os resultados do processo de luta. Quando lutamos internamente com pensamento, sentimento e corpo, isso gera uma substância no lugar que lhe pertence. Não temos interesse hoje em saber aonde é esse lugar. Acumule. É isso que está faltando em você. Você é jovem, não tem experiência, é vazio. Continue a luta que iniciou-se acidentalmente. Desse modo, se você diz que está satisfeito, isso provará que está na estrada certa. Mas você não deve parar. Seus planos de ir para o Etoile... Você está na rua d’Armaillé. O Etoile ainda está longe: Boulevard Carnot, existem vinte postes de luz, vinte estações. Agora então vire à direita. Essa é a estrada certa. Isto é, continue sua luta. Você está procurando pelos meios? O que você está fazendo não tem importância. O que é necessário é que deve ter em você o processo de luta. Que meios deve empregar? Isso não é importante. Lute. Você sabe melhor do que eu com o que lutar. Por exemplo, o que quer que seu corpo goste, o que quer que você tenha o hábito de dar para ele, não dê mais. A coisa importante é ter um processo contínuo de luta, porque você precisa da substância que o esforço lhe dará.
Jac: Sr. Gurdjieff, o senhor deu-me uma tarefa com o propósito de que eu lembrasse de mim mesmo, relacionado com o trabalhar com alguém que fosse próximo a mim. E eu notei, minha esposa também, que essa meta mudou nossa relação, mas só até certo ponto, e que havia um obstáculo que nem eu nem ela podíamos transpor. E você disse a ela que diria o que deveria ser feito para passar esse obstáculo.
Gurdjieff: Primeiro, todos os pais devem começar por trazerem à tona uma questão; você e sua esposa têm filhos. Bem, se vocês têm filhos eles criam para vocês obrigações especiais. Viver apenas para vocês mesmos está terminado. Você deveria estar obrigado a sacrificar tudo por seus filhos na sua vida ordinária. Ao mesmo tempo você e sua esposa devem planejar como uma meta viver por seus filhos; é o objetivo seu e da sua esposa. Nada deveria interferir em suas relações mútuas. Vocês deveriam ter essa meta em comum entre si, e essa meta em comum entre vocês irá oferecer um contato para o trabalho, pois é uma meta objetiva e o trabalho também é objetivo. Inicie isso. Discuta isso com sua esposa. Planeje com ela em ter como um objetivo sacrificar tudo por seus filhos. Não para sempre, mas por um período especial de tempo. Tudo para seus filhos. O objetivo de vocês será um objetivo comum. E na relação pessoal de vocês haverá uma luta, pois se vocês dois planejarem esse objetivo com suas mentes, sendo que seus caráteres são diferentes, cada um terá uma luta interna para sustentar, pois cada um terá escolhido seu objetivo. E aquele que alcançar esse objetivo terá passado no seu exame para poder ter outro caminho objetivo que virá posteriormente. Por enquanto, fale com calma e de maneira franca com sua esposa e planeje essa meta. Se vocês fizerem isso por uma ou duas semanas, vocês então merecerão saber do caminho objetivo.
Pom: Posso fazer uma pergunta?
Gurdjieff: Como quiser. Esta é a primeira vez que você fala, não é?
Pom: Eu gostaria de saber o que fazer para impedir que minha imaginação me leve embora para longe.
Gurdjieff: Bem, para isso vou dar-lhe um conselho muito simples e ordinário. Você também está no caminho correto. Assim sendo, o que o aconselho é algo muito simples. Entender de maneira lógica não poderá lhe dar absolutamente nada. Mais tarde você entenderá que apenas esse conselho que vou lhe dar é bom. Durante todo o seu tempo livre, conte: um, dois, três, quatro, cinco, seis, até cinquenta. Depois: cinquenta, quarenta e nove, quarenta e oito, etc. Até voltar ao início. O tempo todo. E se você fizer isso sete vezes, cinco ou dez minutos, sente-se, relaxe e diga para si mesmo: “eu sou”, “eu desejo ser”, “eu posso ser”, “não usarei isso para fazer o mal e sim o bem”, “ajudarei meu próximo quando tiver conseguido ser. Eu sou”. Depois disso, conte novamente. Mas conscientemente, não automaticamente. Faça isso durante todo o seu tempo livre. Na primeira vez vai parecer absurdo para você. Mas quando você tiver feito isso por duas ou três semanas, você me agradecerá com todo seu coração. Você me compreendeu?
Pom: Muito bem.
Gurdjieff: Não lhe dou nada mais. Conheço milhares de outras coisas. Mas lhe dou essa simples coisa. [Endereçando-se aos outros presentes] E isso o salvará. A vida toda dele irá mudar e até a hora de sua morte ele me agradecerá, ele nunca me esquecerá. Faça isso e isso é tudo.
Madame Et.: Posso pedir-lhe um conselho? Eu queria perguntar o seguinte: quando faço meu trabalho de lembrar de mim, sempre sou atrapalhada por alguma idéia deste tipo: como posso fazer meu trabalho, como posso organizar o meu dia de modo que todos em casa sintam-se felizes? E durante o dia acontece justamente o oposto. Sou atrapalhada pelas idéias que têm a ver com o trabalho. Penso no que tenho ouvido aqui e na casa de Madame de Salzmann e isso me impede constantemente.
Gurdjieff: Esse é o resultado das demandas da vida diária. Acontece com todo mundo. Eu tenho dito isso frequentemente. Você deve separar um momento especial a cada dia para o trabalho. Não o tempo todo, o Trabalho é uma coisa muito séria. Você não pode trabalhar internamente o dia todo. Você deve arrumar um momento especial e aumentá-lo pouco a pouco. Para este trabalho você dá meia hora das vinte e quatro horas. Durante essa meia hora você esquece de todo o resto, coloca de lado todo o resto. É algo pequeno. Você sacrifica por esse período todas as suas ocupações, todo o trabalho das suas funções externas. Sacrifique tudo em prol do seu trabalho interno e depois você o deixa de lado para fazer as coisas da vida ordinária. Você não pode fazer esse trabalho o dia todo.
Madame Et.: Eu penso assim. Isso torna-se mecânico. Eu sou, eu desejo ser.
Gurdjieff: Você mistura, não deve misturar. Não misture este trabalho com o trabalho ordinário. Nós temos dois tipos de estado desperto. Para este trabalho você deveria ter um estado desperto ativo. Mas meia hora desse estado é o bastante para o resto do dia, o qual você deve viver como está habituada a viver. Você pode fazer isso? E se você não puder fazer por meia hora, mesmo dez minutos são ricos para aquele que pode trabalhar dez minutos. Você deve dar e sacrificar para este trabalho um tempo especial. Você não pode dar todo o seu tempo. A vida é uma coisa, o trabalho é outra. A substancialidade de cada um é diferente: para este trabalho você deve ser mais ativa. Já disse isso muitas vezes. Quando você começa seu trabalho, sua tarefa, é o seu trabalho. Você deveria, mesmo antes de começar, relaxar-se, preparar-se, coletar-se. Depois, com todo seu ser, você realiza a sua tarefa. É algo muito complicado. Você não pode fazer isso por muito tempo. Logo você se cansa. Isso requer toda a sua força. Se você faz cinco minutos a mais toda sua força é drenada. É por esse motivo que digo que você deve aumentar pouco a pouco, até que você se acostume a fazê-lo: cinco minutos, seis minutos, dez minutos. Apenas este sistema sempre lhe dará um bom começo para prepará-la para adquirir o estado que é apropriado a um homem real. E se você trabalhar por um longo tempo, isso provará que você não trabalha com todo o seu ser – você está trabalhando apenas com sua mente. Mas fazendo assim, você pode fazer por mil anos sem obter nada; isso não vale nada. Trabalhe por um curto período, mas trabalhe bem. Aqui não é a quantidade mas a qualidade que conta. A vida é uma coisa, não a misture com outras. Cinco minutos de um bom trabalho é mais válido do que vinte e quatro horas de um trabalho de outro tipo. Se você não tem muito tempo, trabalhe por cinco minutos. Deixe a vida ordinária continuar automaticamente conforme o hábito o resto do tempo. O que você fala não diz respeito ao trabalho. Nossa vida é uma coisa, o trabalho é outra coisa. De outro modo você se tornará uma psicopata. Você se lembra de si com sua mente – isso é sem valor; lembre-se de si com todo o seu ser. Você não pode fazer isso por muito tempo, você se drena. Faça por cinco minutos, mas esqueça de todo o resto. Seja uma egoísta absoluta, esqueça tudo, seu Deus, seu marido, seus filhos, dinheiro – lembre apenas do trabalho. Curto mas substancial.
Bar: Posso fazer uma pergunta? Como posso distinguir entre meu centro mental e meu centro físico?Gurdjieff: Assuma uma simples tarefa. Quando você pensa, você pensa. As associações seguem automaticamente, essa é a sua mente. Quando você sente calor ou frio, quando você está nervoso, irritado, quando você gosta, quando você não gosta – esse é o seu sentimento.Bar: Mas em nossas ações, como podemos impedir que os centros invadam uns aos outros: pensar com meu sentimento, ter um sentimento mental e confundir um com o outro.
Gurdjieff: Você quer dizer que você não pode pensar porque você está sentindo?
Bar: Digo que eu tenho um pensamento emocional.
Gurdjieff: Você tem uma fraqueza, uma doença; você não deve pensar com seu sentimento, você deve pensar com sua cabeça. Pensar com seu sentimento é uma fraqueza, uma doença. O começo vem do sentimento e o centro do pensamento é apenas uma função. Mas o centro de gravidade deve ser o pensamento. E então você pode saber o que é individualidade. É quando seu centro de gravidade está no seu pensamento. Portanto, se seu centro de gravidade não está em seu pensamento, você não é um indivíduo, você é um autômato. É uma explicação simples. Todo homem deveria acostumar-se a ser um indivíduo, uma pessoa independente, algo definido, não uma merda (desculpe a palavra), um animal, um cão, um gato. Esse é um sintoma muito simples. Se você concentra seu ser em seu pensar, você é um indivíduo: existem muitos níveis entre os indivíduos, mas isso não é importante no momento. Você é um indivíduo quando você tem seu centro de gravidade no centro do pensamento. E se ele for em outro centro, você é apenas um autômato. Ele pode ser no seu corpo ou no seu sentimento, mas quando você trabalha você deve sempre ter o objetivo de estar em seu pensar. E faça isso conscientemente. Se você não o fizer, tudo se fará inconscientemente em você. Seu trabalho deveria ser exclusivamente concentrar-se em seu pensamento. É uma explicação simples. Phillip? Para você também isso deveria explicar muitas coisas.
Phillip: Teoricamente eu sei disso.
Gurdjieff: Mas para a sua compreensão isso deveria ter lhe dado algo novo, algumas conclusões interessantes.
Jac: Sr. Gurdjieff, agora há pouco eu estava muito interessado pela questão de Pom e por sua resposta. Em minha vida, que é muito agitada e trivial, observo o pouco espaço que há para o trabalho. Muito frequentemente sinto-me perdido. O que é normal. Mas o que é menos normal é que eu fico apegado, fico nas mãos dessa agitação, dessa trivialidade que adequa-se exatamente a mim, o eu (o mim) ordinário, o indivíduo que é mais forte em mim. E eu pergunto se em meu caso eu não deveria aplicar a recomendação que você deu a Pom, pois acredito que ela contém algo claro e simples que irá me puxar para fora da gaiola de esquilo dentro da qual estou sempre girando.
Gurdjieff: Isso não se aplicaria a você de jeito nenhum. É difícil contar desta maneira: um, dois, três, até cinquenta. Vou dar-lhe algo ainda mais simples. Você tem uma família. Um pai? Uma mãe? Um irmão?
Jac: E uma irmã.
Gurdjieff: Uma irmã também, cinco pessoas. Começando a partir de amanhã de manhã você assume como uma tarefa: a cada dez minutos, um pouco mais um pouco menos, por volta de dez minutos –é o mesmo para mim se for oito ou doze- lembre-se do seu pai, dez minutos depois de sua mãe, etc. Você lembra-se deles e representa-os para si mesmo. E quando você tiver terminado com os quatro, dez minutos depois, “eu sou”, “eu desejo ser”, com a sensação de toda a sua presença; e dez minutos depois você começa novamente – seu pai, sua mãe, etc. E dessa maneira você passa o seu tempo. É mais simples assim. Você entende? A propósito, você deve ter uma idéia fixa. Sempre quando você pensar na sua mãe pela quinta vez, pense que ela está aqui com coisas prateadas nas orelhas, coisas baratas, e você dá sua palavra a si mesmo que quando crescer e estiver ganhando dinheiro, irá assumir como uma tarefa, comprar para ela brincos de ouro. [Para Madame Et.] Dez por cento para mim. [Para Jac] Você entendeu?
Bar: Sr. Gurdjieff, quando somos assolados por um sentimento de profunda tristeza do qual não conseguimos nos livrar, que meios podemos usar para sair dele?
Gurdjieff: Se a pessoa não souber a causa dele?
Bar: Sim, se a pessoa não souber.
Gurdjieff: Não existe tal tristeza; isso é idiotice. Vá visitar um especialista. Posso recomendar um neuropatologista. Eu o conheço muito bem, ele me dá dez por cento.
Bar: Mas às vezes noto isso depois de almoçar.
Gurdjieff: Ah, ah, esse é um sintoma; você come mais do que deveria. Coma menos. Não coma o último bocado, é isso. Você entende? Você sabe o que é o último pedaço? Você entende? Então, bravo. Teste isso e na próxima vez nós conversamos. É possível que a causa disso esteja aí. Se não for descobriremos uma outra forma.
Hig: Senhor, gostaria de fazer outra pergunta. Eu não compreendo o que o amor consciente pode ser. Não entendo por que a lucidez com a qual examinamos nossas paixões e descobrimos suas causas não as exterminam de uma vez por todas.
Gurdjieff: Bem, então, digamos que o amor interessa apenas às funções. É apenas polaridade física que está operando. Quando você tiver pensado isso, o amor se tornará repugnante a você. O amor que todas as pessoas têm, você tem. Mas o amor consciente, esse é o amor real. Você tem apenas o amor baseado no sexo; isso é doença, é uma fraqueza. Você não pode ter amor. Aquele que talvez o seu avô tivesse. Hoje em dia, para todos, o amor é baseado no sexo e o sexo na polaridade. Então se a pessoa tem um nariz assim você a ama, se ela não tem o nariz de determinada forma você não a ama. O amor Real é objetivo, mas em Paris o amor objetivo não existe. Vocês tornaram a palavra sentimento como algo referente a sexo, a coisas sujas; vocês esqueceram o amor real.
Hig: Mas devemos procurar reprimir esse amor a fim de obtermos o outro?
Gurdjieff: Considere-o como uma fraqueza e deixe-o de lado. E ao mesmo tempo use isso para olhar para si mesma. Beneficie-se de tudo. E a partir do instinto talvez você conseguirá sentir o amor real. O gosto talvez virá para você. Uma vez que você tiver compaixão da pessoa que tem o nariz que você não gosta, ou por outra que parece doente, por uma criança que não tem mãe, pela pessoa que está passando fome, por um homem sem esposa – então, com cada pessoa, você conseguirá entrar na situação dela. Tenha contato com seus diferentes impulsos e se você permanecer imparcial, verá que tudo o que você tem tido em você até agora é merda e ao mesmo tempo você se sentirá apta a tentar ter o gosto de outra qualidade de amor. E se o gosto dele vier para você, poderei explicar-lhe os detalhes.
Ab: Senhor, para experimentar esse amor consciente, a polaridade pode ser uma ajuda ou é um empecilho?
Gurdjieff: Um empecilho, naturalmente. Mas você não pode fazer nada a esse respeito. Você é um escravo dessa lei. Querendo ou não. Seu corpo faz você amar ou não amar. Conscientemente, você pode deixar de ser um escravo de sua polaridade. Mas primeiro você tem de ter o gosto. Tudo o que posso dizer por enquanto é que o amor existe, o amor objetivo. Mas você deve ter o gosto dele. Depois falaremos sobre isso. Tudo o que podemos dizer de antemão permaneceria teórico. A esse respeito Belzebu* explica muitas coisas. Referente aos mandamentos de Ashiata Shiemash há isto:

O amor da consciência evoca o mesmo em resposta.
O amor do sentimento evoca o oposto.

O amor do corpo depende apenas do tipo e da polaridade.
E também há isto sobre esperança:

A esperança da consciência é força.
A esperança do sentimento é escravidão.

A esperança do corpo é doença.
E sobre a fé:

A fé da consciência é liberdade.
A fé do sentimento é fraqueza.

A fé do corpo é estupidez.
E agora, promotor, tente primeiro ganhar bastante; e você, mãe, venha me visitar. Conheço um lugar onde há artigos de ouro. Tenho um amigo na casa de penhores.
*Referência ao livro 'Relatos de Belzubu a seu Neto'

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Bernard de Clairvaux - Cuide de domar a besta selvagem

Aquele cujo pecado da carne ainda reina não pode esperar por este reino, portanto devemos notar o que se segue: “Abençoados são os mansos”

Sendo que não pode haver acesso ao reino de Deus sem os primeiros frutos do reino, e que aquele ao qual não é dado governar seus próprios membros não pode esperar pelo reino do céu, segue-se: “Abençoados os mansos, pois herdarão a terra” (Mat. 5:5). Colocando mais claramente: “Examine os movimentos não domesticados da vontade e cuide de domar a besta selvagem. Você está cativo. Lute arduamente para desatar o que você não pode jamais quebrar. Essa vontade é a sua Eva. Você não vai triunfar contra ela usando a força”.
Não pode haver atraso. O homem, respirando novamente junto a essas palavras e pensando novamente que sua tarefa não é impossível, envergonhadamente aproxima-se da víbora da raiva e tenta dominá-la. Ele fala das tentações da carne e denuncia as consolações mundanas como sendo vaidades, triviais e sem valor, de vida curta e perigosas para todos aqueles que as amam.



Como colocar um fim nas idas e vindas da luxúria e da glutonia, da vaidade da curiosidade e do amor pelas riquezas.

“Por essa razão,” ele diz: “chame-se de um servo mau e inútil” (Mat. 25:30; Luc. 19:22). Você não pode negar que você nunca foi capaz de satisfazer essas demandas, mesmo que moderadamente. Os prazeres da garganta, que são tão altamente estimados hoje em dia, têm no máximo dois dedos de largura; e o pequeno desfrute desse pequeno fragmento é preparado com tamanha aflição e gera tanta ansiedade! Através disso as partes superior e inferior do corpo são dilatadas e o estomago inchado não é tão engordado quanto é emprenhado pela destruição; e quando os ossos não podem suportar o peso da carne, várias doenças se seguem.
Com que labor e a custo do que (às vezes da boa reputação e da honra e mesmo causando perigo para a vida) é agitado o sedutor turbilhão da luxúria, de modo que os vapores sulfúricos, embora brilhem muito pouco, conduzem suas vítimas enlouquecidas com as incitações e tratam seus corações intoxicados como abelhas, que primeiro derramam o mel e depois picam. Esse é o homem cujo coração está despedaçado, cujos desejos estão cheios de ansiedade e desapontamento, cujos atos são de abominação e infâmia, cujo destino de remorso e vergonha é por fim plenamente reconhecido pelo que é.
Em quê esses espetáculos beneficiam o corpo ou o que parecem conferir à alma? Pois você não encontrará uma terceira parte no homem que se beneficiará da curiosidade. Frívola, vã e vazia é a consolação, e eu não conheço fado mais difícil que pudesse ser trazido para uma pessoa, do que ela sempre ter o que deseja, ela que quando afugenta a doce paz deleita-se na curiosidade inquieta. É muito claro que apenas a passagem de todos esses “deleites” é uma felicidade. Além do mais, é óbvio por seu próprio nome, que a “vaidade das vaidades” não é nada (Ecl. 1:2). Vão de fato é o trabalho que é desempenhado a partir do zelo pela vaidade. “Ó glória, glória”, diz o sábio homem, “dentre os milhares de mortais, você não é nada além de um sopro nos ouvidos!”. E ainda assim, quanta infelicidade você acha que isso produz? (que não é tanto vaidade feliz quanto felicidade vã). Pois ela causa cegueira do coração, como está escrito: “Meu povo, aqueles que vos chamam de abençoados vos enganam” (Isa. 3:12). Isso produz a fúria persistente da animosidade, o ansioso trabalho da desconfiança, a tormenta cruel da frustração e a desgraça da inveja, que recebe mais miséria do que pena.
Assim, o amor insaciável pelas riquezas é um desejo que traz muito mais tormenta para a alma do que o seu desfrute traz descanso. Pois a aquisição de riquezas mostra-se ser labor máximo, sua posse temor máximo e sua perda pesar máximo. Desse modo: “onde há muitas riquezas, há muitos que as consomem” (Ecl. 5:10), e de fato a utilização que as outras pessoas fazem de suas riquezas deixa para o rico apenas a reputação pela riqueza e as precauções da riqueza. E tudo isso por algo tão insignificante. Não pensar nada sobre a glória que o olho não viu e nem o ouvido ouviu, nem entrou no coração do homem, a glória que Deus preparou para aqueles que O amam, parece ser mais do que sem sentido, é uma falta de fé.



Sobre a escravidão indigna aos vícios, a incerteza de quando a morte virá e a infelicidade de juntar riquezas

Certamente é culpa delas mesmas que este mundo, o qual se encontra nas garras do Malvado, ilude com promessas vãs as almas que se esquecem de sua criação e sua dignidade, almas que não se envergonham de alimentar-se com os porcos, de fazer companhia aos suínos em seus desejos e que nem mesmo assim ficam satisfeitas com sua comida nojenta? Daí surge tal debilidade de propósito e degradação miserável que essa nobre criatura não se envergonha de viver numa escravidão a essa imundice dos sentidos do corpo, embora seja capaz de desfrutar de bem-aventurança eterna e da glória da grandeza de Deus. Deus criou-a através de seu próprio sopro, distinguiu-a ao fazê-la à sua imagem, redimiu-a através de seu sangue, deu-lhe fé, adotou-a através do Espírito. Quando a alma deserta tal Noivo e vai atrás de tais amantes, não é surpresa que ela não possa capturar a glória que está preparada para ela. É apropriado que ela anseie por cascas de frutos e que lhe sejam negadas, quando ela prefere alimentar-se com os porcos em vez de regalar-se na mesa do Pai (Luc. 15:16). É o trabalho da loucura alimentar aquele que é estéril e que não produz nada, não estar disposto a dar nada para a viúva, não se importar nada com o coração e dar à carne tudo o que ela deseja, engordar e acarinhar um corpo pútrido que está há muito destinado a ser o alimento dos vermes. Pois quem não sabe que adorar o dinheiro, servir a avareza (que significa servir a ídolos) ou perseguir avidamente a vaidade é uma clara evidência de uma alma degenerada?

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Philokalia - São Gregório Pálamas - A Ciência Natural e Teológica (parte 2)

A língua inspirada e universal do teólogo divino, São João de Damasco, diz no segundo de seus capítulos teológicos: “Um homem que deseja falar ou ouvir qualquer coisa a respeito de Deus deveria saber com toda clareza que no que diz respeito à teologia e à economia divina nem todas as coisas são inexprimíveis e nem todas são capazes de expressão, e que nem todas as coisas são incognoscíveis nem são todas conhecíveis”. Sabemos que essas realidades divinas das quais desejamos falar transcendem a fala, uma vez que tais realidades existem de acordo com um princípio que é transcendente. Elas não estão fora do reino da fala por causa de alguma deficiência, mas estão além do poder conceitual inato dentro de nós ao qual damos expressão quando falamos com os outros. Pois nem nossa fala pode explicar essas realidades através de interpretação, nem nosso poder conceitual inato tem a capacidade de alcançá-las por si próprio através de investigação. Portanto, não deveríamos nos permitir dizer nada concernente a Deus, e sim recorrer àqueles que em Espírito falam das coisas do Espírito, e isso mesmo quando as pessoas requererem alguma afirmação nossa.

É dito que nos portais da academia de Platão estavam inscritas as palavras: “Que não entre nenhum homem que seja ignorante em geometria.” Uma pessoa incapaz de conceber e discursar sobre as coisas inseparáveis como separadas é, de todo modo, ignorante em geometria. Pois não pode haver um limite sem algo limitado. Mas a geometria é quase que totalmente uma ciência de limites e ela até mesmo define e estende limites por eles mesmos, abstraídos daquilo que eles limitam, porque o intelecto separa o inseparável. Como pode, então, uma pessoa que nunca aprendeu a separar em seu intelecto um objeto físico de seus atributos, estar apta a conceber a natureza em si mesma? Pois a natureza não é meramente inseparável dos elementos naturais que lhe são inerentes, mas não pode nem mesmo existir em momento algum sem eles. Como ele pode conceber os universais como universais, sendo que eles existem como tais em particulares e são distinguidos deles apenas pela inteligência e pela razão, sendo percebidos intelectualmente como anteriores aos muitos particulares embora na verdade não possam de maneira nenhuma existir separados desses muitos particulares? Como ele poderá compreender as coisas intelectuais e espirituais? Como poderá entender quando dizemos que cada intelecto também tem pensamento e que cada um de nossos pensamentos é nosso intelecto? Como ele não irá nos ridicularizar e nos acusar de dizermos que cada homem possui duas ou mais mentes?
Se, portanto, uma pessoa não consegue falar ou conceber as coisas indivisíveis como distintas, como poderá discutir ou ser ensinada sobre algo desse tipo no que se refere a Deus, a respeito do qual, de acordo com os santos, existem e é dito existirem muitas uniões e distinções? Mas embora as uniões pertencentes a Deus prevaleçam e sejam anteriores às distinções, elas não as abolem e nem as impedem. Os seguidores de Akindynos, entretanto, não podem aceitar ou compreender a distinção indivisível que existe em Deus, mesmo quando nos ouvem falar, em harmonia com os santos, de uma união dividida. Pois a Deus pertencem a incompreensibilidade e a compreensibilidade, embora Ele em Si seja um. O mesmo Deus é incompreensível em sua essência, mas compreensível pelo que Ele criou de acordo com Suas energias divinas, ou seja, de acordo com Sua vontade pré-eterna relacionada a nós, Sua providência pré-eterna referente a nós, Sua sabedoria pré-eterna no que diz respeito a nós e, usando as palavras de São Máximo, Seu poder, sabedoria e bondade infinitos. Mas quando aqueles que não nos compreendem nos ouvem falar dessas coisas que somos obrigados a dizer, eles nos acusam de falarmos de muitos deuses e de muitas falsas realidades e de tornarmos Deus composto. Pois eles são ignorantes do fato de que Deus é indivisivelmente dividido e é unido divididamente e ainda assim, a despeito disso, não sofre nem multiplicidade nem torna-se composto.

Cada natureza criada está distante e é completamente estrangeira à natureza divina. Pois se Deus é uma natureza, as outras coisas não são natureza; mas se todas as outras coisas são natureza, Ele não é uma natureza, assim como Ele não é um ser se todas as outras coisas são seres. E se Ele é um ser, todas as outras coisas não são seres. E se você aceitar isso como verdade também no que diz respeito a sabedoria, a bondade e a todas as coisas em geral pertencentes a Deus ou atribuídas a Ele, então sua teologia estará correta e de acordo com os santos. Deus é e é dito ser a natureza de todos os seres, na medida que todos participam Dele e subsistem por meio dessa participação: porém, não pela participação em Sua natureza – longe disso – mas pela participação em Sua energia. Nesse sentido ele é o Ser de todos os seres, a Forma de todas as formas bem como o autor da forma, a Sabedoria dos sábios e, simplesmente, o Tudo de todas as coisas. Ademais, Ele não é uma natureza, pois Ele transcende toda natureza; Ele não é um ser, pois transcende todo ser e Ele não é e nem possui uma forma porque Ele transcende a forma. Como, então, podemos nos aproximar de Deus? Ao nos aproximarmos de sua natureza? Mas nem um único ser criado teve ou pode ter qualquer comunicação ou proximidade com a natureza sublime. Assim, se alguém conseguiu aproximar-se de Deus, evidentemente aproximou-se Dele por meio de Sua energia. De que maneira? Através da participação natural nessa energia? Mas isso é comum a todos os seres criados. Desse modo, não é em virtude das qualidades naturais, mas em virtude do que é atingido pela livre escolha que a pessoa fica perto ou longe de Deus. Mas a livre escolha pertence apenas aos seres dotados de inteligência. Portanto, dentre todas as criaturas apenas aquelas dotadas de inteligência podem ficar longe ou perto de Deus, aproximando-se através da virtude ou distanciando-se através do vício. Assim, apenas tais seres são capazes de miséria ou de bênção.

São Paulo ensinou-nos que a alma adornada com inteligencia pode ficar como que morta mesmo possuindo a vida como seu ser, pois ele escreve: “a viúva que só busca prazer já está morta mesmo se vive”(1 Tim 52.6). Ele não podia ter dito pior a esse respeito sobre o presente assunto de nosso discurso, isto é, da alma dotada com inteligencia. Pois se a alma privada do Noivo espiritual não se humilha e não se aflige e não adota uma vida de doloroso e rigoroso arrependimento, e ao invés disso, de maneira libertina mergulha nos prazeres sensuais e na auto-indulgencia, ela está morta mesmo enquanto vive, mesmo que ela seja imortal em essência. Ela tem a capacidade para o que é pior, ou seja, a morte, e da mesma maneira para o que melhor - a vida. O apostolo diz que se uma viúva privada de seu noivo mundano vive só para satisfazer seus prazeres, mesmo que esteja viva em seu corpo, ela está completamente morta em sua alma. Ele também diz em outro lugar: “mesmo quando estávamos mortos por causa de nossos pecados, Deus nos vivificou juntamente com Cristo”(Efé. 2.5). E São João também diz: “existe um pecado que conduz à morte e existe um pecado que não conduz à morte”(1 João 5:16,17). E o Próprio Senhor ao ordenar um homem a: “deixar os mortos enterrarem seus mortos”(Mat. 8.22), deixou claro que aqueles envolvidos no funeral embora vivessem no corpo estavam plenamente mortos em alma.

Os ancestrais de nossa raça desistiram voluntariamente da vigilância e da contemplação de Deus. Eles desconsideraram Seus mandamentos, fizeram de si mesmos uma mente com o espirito morto de satã, e contrariamente à vontade do Criador, comeram da árvore proibida. Despidos de suas vestimentas resplandecentes e vivificantes de esplendor celestial, tornaram-se mortos em espirito como satã. Mas uma vez que satã não é meramente um espirito morto, mas também traz a morte àqueles que aproximam-se dele, e uma vez que aqueles que compartilham de sua escuridão possuíam um corpo através do qual seus conselhos funestos podiam operar, eles transmitiram esses espíritos mortos, esses mercadores da morte, a seus próprios corpos. O corpo humano teria se decomposto imediatamente e retornado de onde ele foi tirado se não tivesse sido preservado pela providência divina e pelo poder divino, pacientemente esperando a decisão Daquele que cria todas as coisas através de Sua palavra apenas. Sem essa decisão absolutamente nada é realizado e ela é sempre justa. Como o salmista diz: “o Senhor é justo e Ele ama a justiça”(Sal. 2:7).

A escritura nos diz: “Deus não criou a morte”(Sab.1:13). Ao contrário ele impediu sua concepção até onde foi possível e até onde foi compatível com Sua justiça para obstruir aqueles aos quais Ele próprio tinha dado livre arbítrio quando os criou. Pois no início Deus deu-lhes um conselho que iria conduzi-los a imortalidade, e para que fossem salvaguardados na medida do possível, Ele transformou seu conselho vivificante num mandamento. Ele claramente prognosticou e advertiu que a morte seria a consequência da rejeição desse mandamento vivificante, de modo que ou através do amor, ou do conhecimento ou do temor, eles se protegeriam da experiência da morte. Sendo que no mais alto grau possível Deus ama, conhece e tem o poder de efetuar o que é vantajoso para cada ser criado, tudo o que vem Dele a nós, mesmo que seja sem que desejemos isso, certamente provará ser para nosso benefício. Por outro lado, devemos muito temer que aquilo que nos engajamos por nossa própria iniciativa, como criaturas dotadas de livre arbítrio, provará ser desvantajoso para nós.
Quando, entretanto, em Sua providência Deus proibiu definitivamente alguma coisa, seja falando diretamente, como Ele o faz no Paraíso e no Evangelho ou seja falando através dos profetas, como ele faz nos Israelitas, ou através dos Apóstolos e de seus sucessores, como o faz na lei da graça, é claramente desvantajoso e destrutivo para nós desejar e possuir isso. E se alguém profere isso a nós e nos induz a obter tal coisa, através de palavras persuasivas ou ao nos encantar com uma aparente amizade, essa pessoa é manifestadamente um inimigo e é hostil a nossa vida.

Dessa forma, seja por causa do amor por Aquele que quer que vivamos (pois por que Deus teria nos criado como criaturas vivas se Ele não quisesse especialmente que vivêssemos?), ou porque reconhecemos que Ele sabe mais o que é vantajoso para nós do que nós mesmos sabemos (e como Aquele que nos concede o conhecimento e é o Senhor do conhecimento não saberia disso incomparavelmente melhor do que nós?), ou por causa do temor de Seu poder Onipotente – não deveríamos ter sido enganados, atraídos e persuadidos naquele momento a rejeitarmos os mandamentos e conselhos de Deus. E o mesmo é válido hoje no que diz respeito a esses mandamentos e conselhos salvadores que recebemos posteriormente. Assim como agora aqueles que não escolhem resistir corajosamente ao pecado e que não se põe a praticar os mandamentos divinos em nada, terminam – se não renovam suas almas através do arrependimento- seguindo o caminho que conduz à morte interna e eterna, também nossos dois ancestrais primais, ao não resistirem àqueles que lhes persuadiam a desobedecer, violaram o mandamento. Por causa disso a sentença previamente proclamada a eles por Aquele que julga de maneira justa, imediatamente efetuou-se, de modo que assim que comeram da árvore eles morreram. Nesse caso eles entenderam na prática o significado do mandamento que haviam esquecido – o mandamento da verdade, do amor, sabedoria e poder – e eles se esconderam de vergonha (ref. Gen. 3 – 7,8), percebendo-se despojados da glória que confere aos espíritos imortais uma vida mais excelente e sem a qual a vida dos seres espirituais é de fato pior do que muitas mortes.

Que ainda não era para o benefício de nossos ancestrais comer da árvore, fica claro quando São Gregório de Nizianzos escreve: “A árvore, na minha visão das coisas, é a contemplação divina, a qual apenas aqueles estabelecidos num alto grau de perfeição podem se aproximar com segurança, enquanto que não é bom para aqueles que ainda são imaturos e ávidos em seus desejos, do mesmo modo que a comida sólida não é boa para aqueles que ainda são frágeis e necessitam de leite”. Mas mesmo se você não quiser referir-se àquela árvore e seu fruto de maneira anagógica à contemplação divina, penso que não seja difícil de ver que comer seu fruto não foi benéfico para nossos ancestrais, uma vez que eles eram ainda imaturos. Na minha opinião, eles viram que a árvore era muito atraente de se olhar e de se alimentar no paraíso. Mas a comida mais atraente para os sentidos não é verdadeiramente e em todos os sentidos boa, e não é boa sempre e nem para todas as pessoas. Ela é boa para aqueles que podem utilizá-la sem serem dominados por ela, e, então, somente quando é necessária, na medida que seja necessária e que seja pela glória Daquele que a criou; mas não é boa para aqueles que não estão aptos a usá-la de tal maneira. Penso que é por causa disso que a árvore foi chamada de a árvore do conhecimento do bem e do mal. (ref. Gen. 2:17)

Pois apenas aqueles plenamente estabelecidos na prática da contemplação divina e das virtudes podem concursar com coisas fortemente atraentes aos sentidos sem afastarem-se da contemplação de Deus e dos hinos e preces a Ele. Apenas tais pessoas podem fazer dessas coisas um material e um ponto de partida para elevarem-se para Deus, e através desse movimento espiritual na direção de Deus podem dominar totalmente os prazeres sensuais. E mesmo que o prazer seja novo e possa ser maior e mais poderoso por causa de sua novidade, eles não permitirão que a inteligência de sua alma seja sobrepujada pelo que é mau, mesmo que seja considerado naquele momento como bom por aqueles totalmente dominados e capturados por aquilo.

O mediador e a causa da morte, de caráter retorcido e astúcia excessiva, introduziu-se numa serpente rastejante no paraíso de Deus. Ele não tornou-se uma serpente (nem poderia, exceto numa forma ilusória; e isso ele preferiu não adotar naquele momento por medo de ser detectado), mas, não ousando se arriscar a uma confrontação aberta, ele escolheu uma aproximação traiçoeira, acreditado que dessa maneira escaparia de ser detectado. Assim, tendo o aspecto visível de um amigo ele poderia secretamente insinuar as coisas mais detestáveis, e pelo fato extraordinário de seu discurso – pois a serpente visível não era dotada de inteligência, nem previamente parecia capaz de falar – ele pôde impressionar Eva e atrair toda sua atenção para si e através de seus artifícios torná-la fácil de se lidar. Dessa forma, ele pôde imediatamente induzi-la a sujeitar-se ao que é inferior e assim escravizá-la a coisas às quais ela estava designada a reinar dignamente, sendo que apenas ela entre os seres visíveis tinha sido honrada por Deus com inteligência e sido criada à imagem do Criador. Deus permitiu isso para que o homem, vendo o conselho vindo de uma criatura inferior a si – e, de fato, o quão inferior a ele é uma serpente – pudesse perceber o quanto era completamente sem valor esse conselho e pudesse corretamente rejeitar com indignação a idéia de se submeter ao que era claramente inferior a ele. Dessa maneira ele preservaria sua própria dignidade e ao mesmo tempo, ao obedecer ao mandamento divino, manteria a fé com o Criador. Assim ele teria vencido facilmente o espírito que havia caído da vida verdadeira e teria recebido a imortalidade abençoada, podendo habitar eternamente na vida divina.