Ouspensky: Eu aconselho vocês a pensarem principalmente sobre a consciência. Como se aproximar dela, como começar a entender o que é a consciência. Podemos reconhecer exemplos de consciência no passado. P: Qual é a diferença entre a lembrança de si e a auto-observação?
O: Ela deve ser mental sim, mas, novamente, pode ser diferente.
P: É possível observar-se emocionalmente?
O: Não, você não pode de fato, mas isso pode vir. No momento você não tem controle do centro emocional, portanto, você não pode, mas isso pode vir, e um elemento emocional deve depois entrar na observação de certas coisas.
O: Tente entender o que não é a lembrança de si, porque isso é mais fácil. Estamos sempre neste estado e nunca percebemos isso. Então comece com a não-lembrança.
O: Não. Compreender a idéia de lembrança de si está conectado com a idéia de que a pessoa não pode lembrar-se, e em toda sua vida ela nunca notou isso.
P: Se pudéssemos nos lembrar de nós mesmos, estaríamos - como você mesmo chama - despertos, não estaríamos?
O: Sim.
P: Então, seríamos conscientes de nós?
O: Talvez em graus diferentes, durações diferentes de tempo. As coisas não vêm todas de uma vez. Mas começa com a percepção de que não lembramos.
O: Não, mas é a preparação do material para ele. Às vezes surgem perguntas que você deve ser capaz de responder você mesmo. Por exemplo, relacionado a ajudar as pessoas. Tente perguntar a si mesmo, como as pessoas podem ajudar as outras? Em que sentido? Suponha que você ache que a coisa mais importante é despertar. Como você pode tentar despertar pessoas que não querem acordar? Nada acontece se você tentar. Primeiro, elas devem querer despertar. As pessoas não podem ser despertadas à força, sem seu próprio desejo. Esta é uma das idéias mais importantes relacionadas ao esoterismo. É exatamente o ponto onde se tem livre escolha, caso contrário não haveria nenhum valor no despertar, se a pessoa pudesse ser despertada artificialmente. A natureza das coisas que podem se desenvolver é tal que elas não podem ser dadas, elas devem se desenvolver. Algumas coisas podem ser dadas, outras não podem. Podem ser desenvolvidas apenas através de esforços do próprio homem. Pela própria natureza dessas coisas, só pode haver vontade da própria pessoa, elas só podem crescer a partir dos próprios esforços dela. A natureza pode fazer um pintor, mas não os quadros. É a mesma coisa.
O: Existem diferentes graus. Você vê, nós falamos sobre a lembrança de si o tempo todo, nós sempre voltamos a ela, portanto, você não pode dizer que não sabe a respeito da lembrança de si. Mas se você pegar um homem que estudou psicologia comum ou filosofia, ele não sabe sobre ela.
O: Esse é o ponto. Você pode estudar isso para compreender este princípio - que se você fizer uma certa coisa sabendo o que ela é, dá um resultado e se você faz quase a mesma coisa sem saber o que é, isso dá um resultado diferente. Muitas pessoas chegaram muito perto da lembrança de si na prática, outros chegaram muito perto dela em teoria mas sem prática, ou teoria sem prática, ou prática sem teoria; e nem de um jeito nem do outro eles chegaram à verdade real. Por exemplo, na chamada literatura do Yoga existem muitas abordagens próximas à lembrança de si. Por exemplo, eles falam sobre a consciência "eu sou", mas elas são tão teóricas que não se pode conseguir nada com elas.
A lembrança de si nunca foi mencionada em nenhuma literatura de uma forma exata, concreta, ainda que de forma disfarçada, seja falada no Novo Testamento e em escritos budistas. Por exemplo, quando é dito: "Vigiai, não durmais", isso é a lembrança de si. Mas as pessoas interpretam de maneira diferente.
O: Você não pode controlar as emoções. Você simplesmente decide lembrar de si. Eu dei-lhe um método muito simples, prático. Tente parar seus pensamentos, mas, ao mesmo tempo, não se esqueça de seu objetivo: que você faz isso para lembrar de si mesmo. Isso pode ajudar. O que impede a lembrança de si? Esse constante fluxo de pensamentos. Pare esse fluxo e talvez você terá um gosto dela.
O: A idéia é lembrar de si mesmo, estar consciente de si mesmo. E o que vem com isso você apenas nota, você não deve colocar qualquer exigência concreta a esse respeito. Se você tornar uma prática regular tentar lembrar-se três ou quatro vezes por dia, a lembrança de si virá por si só nos intervalos, quando você precisar dela. Mas isso você vai notar mais tarde. Você deve tornar uma prática regular tentar e lembrar de si mesmo, se possível nos mesmos horários do dia. E, como eu disse, a prática de parar os pensamentos vai produzir o mesmo efeito. Assim, se você não consegue lembrar de si, tente parar os pensamentos. Você pode parar os pensamentos, mas você não deve ficar desapontado se no princípio você não puder. Parar os pensamentos é uma coisa muito difícil. Você não pode dizer para si mesmo "vou parar os pensamentos", e eles param. Você tem de usar esforço o tempo todo. Portanto, você não deve fazer isso por muito tempo. Se você fizer isso por alguns minutos, é bastante suficiente, senão você vai convencer-se de que você está fazendo isso quando em vez disso só vai estar sentado calmamente, pensando e ficando muito feliz com isso. Tanto quanto possível você deve manter apenas um pensamento: "Eu não quero pensar em nada", e jogar fora todos os outros pensamentos. É um exercício muito bom, mas apenas um exercício.
O: Não exatamente, são dois métodos diferentes. No primeiro você traz um determinado pensamento definido - a percepção de que você não lembra de si mesmo. Você deve sempre começar com isso. E parar os pensamentos é simplesmente criar uma atmosfera correta, um ambiente correto para a lembrança de si. Dessa forma, não são a mesma coisa, mas trazem os mesmos resultados.
P: Nosso trabalho fica mais preciso se estamos lembrando de nós mesmos e do trabalho que estamos fazendo?
O: Sim, quando está desperto você pode fazer tudo melhor, mas um longo tempo é necessário para isso. Quando você se acostumar com a lembrança de si, você não será capaz de entender como você pôde alguma vez ter trabalhado sem ela. Mas no começo é difícil trabalhar e lembrar de si ao mesmo tempo. Ainda assim, os esforços nessa direção dão resultados muito interessantes, a esse respeito não há dúvida. Toda a experiência de todos os tempos revela que estes esforços são sempre recompensados. Além disso, se fizer esses esforços, você vai entender que certas coisas só se pode fazer no sono e não podem ser feitas quando se está acordado, pois algumas coisas só podem ser mecânicas. Por exemplo, suponha que você esquece ou perde as coisas: você não pode perder as coisas de propósito, você pode perdê-las apenas mecanicamente.
P: Enquanto tocava piano, pensei: 'eu estou aqui'; eu não sabia o que estava fazendo.
O: É porque isso não é estar consciente, é pensar sobre a lembrança de si. Dessa maneira, isso interfere com o que você está fazendo, assim como quando você está escrevendo e, de repente pensa: "Como se soletra essa palavra?", você não consegue se lembrar. Isso é uma função interferindo na outra. Mas a verdadeira lembrança de si não é nos centros, é acima dos centros. Ela não pode interferir com o trabalho dos centros, a pessoa apenas verá mais, verá seus próprios erros.
Devemos perceber que a capacidade de lembrar de nós mesmos é um direito nosso. Nós não a temos, mas podemos tê-la, temos todos os órgãos necessários para isso, por assim dizer, mas não somos treinados, não estamos acostumados a usá-los. É necessário criar uma certa energia particular ou um ponto (usando esta palavra em um sentido comum), e isso só pode ser criado em um momento de sério estresse emocional. Tudo antes disso é apenas a preparação do método. Mas se você se encontrar num momento de estresse emocional muito forte e então tentar lembrar de si, ela permanecerá após o estresse ter terminado, e então você será capaz de lembrar de si mesmo. Portanto, apenas com uma emoção muito intensa é possível criar essa base da lembrança de si. Mas não pode ser feito se você não se preparar com antecedência. Momentos podem vir, mas você não vai conseguir nada com eles. Esses momentos emocionais vêm de vez em quando, mas não os usamos, porque não sabemos como usá-los. Se você tentar lembrar-se suficientemente durante um momento de emoção intensa, e se o estresse emocional for forte o suficiente, isso vai deixar um certo traço e vai ajudar você a lembrar de si no futuro.
O: Não, segundos não são suficientes. O que você pode fazer agora é lembrar que você não consegue lembrar de si. Ao mesmo tempo, faça outras coisas que são ditas, como tentar não expressar emoções negativas. Desse modo você pode encontrar-se capaz de lembrar de si algumas vezes. Mas só quando ela acontece por um determinado período é que conta. Se torna-se conectada com certas emoções, então funciona mais rápido.
P: O que significa esse 'quando se conecta com as emoções fortes'?
P: É uma emoção que segue juntamente com a lembrança de si?
P: A lembrança de si é muito mais difícil em algumas circunstâncias da vida. Deveríamos evitá-las?
O: É um erro pensar que as circunstâncias da vida, ou seja, as circunstâncias externas, podem mudar algo ou afetá-lo. Isso é uma ilusão. Quanto à possibilidade de evitá-las ou não, tente evitá-las, ou tente considerá-las como uma parte. Mas se você conseguir evitá-las, você vai ver que é exatamente o mesmo, podem haver exceções, mas o equilíbrio geral permanece o mesmo.
O: Sim, mas você diz que vêm acidentalmente. Se é o que entendo, eles vêm como um resultado de seus esforços, os esforços anteriores, só que não vieram naquele momento. Mas se você não tivesse feito esforços eles não viriam acidentalmente. Quanto mais esforços você faz, mais você tem esses momentos 'acidentais' de lembrança de si, de compreensão, de ficar emocional e coisas desse tipo. É tudo resultado de esforço. Só não podemos conectar causa e efeito neste caso; mas a causa permanece e irá produzir os seus efeitos. Provavelmente, não conseguimos conectar por causa de muitas coisas pequenas - identificação, imaginação ou coisas desse tipo. Mas a causa está lá e ela vai encontrar um momento e trará resultados. Nunca devemos esperar resultados imediatos. É necessário trabalhar por um longo tempo e criar algum tipo de padrão permanente, a fim de ter estes resultados imediatos. E mesmo que venham somente em estados muito emocionais. Se pudéssemos, por vontade, desejo ou intenção nos tornarmos mais emocionais, então poderíamos ver muitas coisas de forma diferente. Mas não podemos. Estamos emocionalmente muito fracos e é por isso que a maior parte do trabalho que fazemos agora, mesmo que realmente o façamos, não pode ter resultados imediatos. Mas alguma coisa sempre fica e não é perdida, nenhum esforço é perdido, só que deve ser seguido por outras iniciativas e esforços maiores. Assim, uma das primeiras perguntas é como nos tornarmos mais emocionais, mas não podemos fazer isso. A segunda questão é como usar os estados emocionais quando eles vêm; e isso é possível, é para isso que temos de nos preparar. Estados emocionais, tensão emocional vêm, mas os perdemos na identificação e coisas assim. Mas poderíamos usá-los.
P: Lembrar-se continuamente do gosto desses estados é a maneira de usá-los?
O: Não. Quero dizer usar. Se você tentar lembrar de si num estado emocional, você vai ver por si mesmo, é uma questão de observação, isso lhe dará um poder de pensar diferente, um poder diferente de compreensão. Você pode entender as coisas de forma bastante diferente. Se a emoção for muito forte, e se você lembrar de si ao mesmo tempo, você verá as coisas de maneira diferente, verá muitas coisas que você não pode ver agora. Mas isso não pode ser descrito porque deve ser uma experiência pessoal.
O: Apenas a memória. O corpo nasce de novo, a essência nasce de novo, a personalidade é criada novamente. Portanto, não é uma questão de imortalidade, mas de memória. Podemos viver dez mil vezes, sem qualquer vantagem, se não nos lembrarmos.
P: Vocês quer dizer lembrar dos eventos ou lembrar de nós mesmos?
O: Ambos. Quanto mais, melhor. O fato da imortalidade mecânica, se tal coisa for possível, não é vantagem.
P: Se nos lembrarmos dos motivos de nossas ações, então vamos lembrar de nossas ações. Isso é lembrança de si?
O: Não, é apenas memória comum. Volto a lembrar-lhes que o que é útil e necessário para se lembrar é que não nos lembramos, nunca lembrávamos e não sabíamos disso.
O: Já falei tantas vezes sobre isso que esqueci de falar agora. É sobre meu amigo que foi ao meu encontro na Gare du Nord, em Paris, pedi a ele para lembrar-se de si lá. Mas ele veio com uma cara muita preocupada, dizendo: 'eu esqueci alguma coisa que você me pediu para fazer. Foi algo que eu tinha que comprar?'
P: Temos que lembrar de nós mesmos para sair da prisão?
O: Eu esqueci de mencionar prisão. Sim, eu penso assim. Acho que esta é a parte principal da prisão – o fato de que não lembramos de nós mesmos. Mas você vai assustar as pessoas. Uma senhora em Londres, disse: 'Por que você fala sobre o despertar, se Cristo não falou sobre isso? Eu disse: "Mas Cristo falou o tempo todo sobre o despertar." E ela era bastante sincera.




