segunda-feira, 18 de julho de 2011

Jetsun Milarepa - Trechos do Ensinamento




Homenageio-lhe, ó Marpa, o Tradutor. No imenso céu de sua compaixão estão de todos os lados reunidas as nuvens da misericórdia, das quais a produtiva chuva de graça cai. Ó, meu Guru, Perfeito Salvador, grande Compassivo, que mostra o inconfundível caminho para a Libertação, nunca me abandone, permaneça para sempre acima de minha cabeça como minha coroa de jóias! 

Aos olhos impuros daqueles a quem você visa libertar, você manifesta-se em uma variedade de formas, mas àqueles de seus seguidores que foram purificados, o Senhor aparece como um Ser Perfeito. Prestemos homenagem a Você! No esplendor celeste da Consciência Absoluta do Dharmakaya, não existe sombra de coisa ou conceito, ainda assim ela permeia todos os objetos do conhecimento. Prestemos homenagem à Consciência Imutável e Eterna. 

A Sabedoria Original Inata é a Esfera Primordial. Sem "exterior" ou "interior" é a esfera da Consciência. Sem brilho ou escuridão é a esfera da Revelação. Onipresente e toda-abrangente é a esfera do Dharma. Sem mutação ou transição é a esfera da Verdade absoluta. Sem interrupção é a esfera da pura Experiência.

Toda a manifestação, o próprio universo, estão contidos na Mente, e a natureza da Mente é o reino da Iluminação, o qual não pode ser concebido nem tocado - esse é o ponto-chave da Visão correta. Os pensamentos errantes são liberados no Dharmakaya (o Absoluto); a Consciência, a Iluminação é sempre cheia de graça; meditar em um modo de não-ação e não-esforço - esses são os pontos-chave da Prática. As dez virtudes crescem espontaneamente na ação da naturalidade, todos os dez Vícios são assim purificados. Por correções ou remédios o Vazio Iluminador nunca é perturbado - esses são os pontos-chave da Ação. Não há Nirvana para se alcançar em outra parte (como um estado especial); não há Samsara aqui para se renunciar; conhecer verdadeiramente a mente-Ser é ser o próprio Buda - esses são os pontos-chave da Realização. Reduza internamente esses três pontos-chave em um. Essa é a Natureza Vazia do Ser, a qual somente um Guru maravilhoso pode ilustrar de maneira clara. Muita atividade não é de nenhum proveito; se a pessoa vê a Sabedoria Nascida Simultaneamente (a Sabedoria inata, eterna, sempre presente antes e depois do nascimento), ela alcança seu objetivo. 

A mente não tem substância, é vazia, é menos do que o menor dos átomos. Quando aquele que vê e aquilo que é visto são eliminados, a Visão é realmente realizada. Quanto à prática, na Corrente da Iluminação não podem ser encontrados estágios. A perseverança na prática é confirmada quando o ator e a ação são anulados. No Reino da Iluminação, onde o sujeito e o objeto são um, não vejo nenhuma causa, pois tudo é vazio. Quando a ação e o ator desaparecem, todas as ações tornam-se corretas. Os pensamentos finitos dissolvem-se na Totalidade (Dharmadhatu); os oito ventos mundanos (perda e ganho, prazer e dor, louvor e culpa, saúde e doença) não trazem nem esperança nem medo. Quando o preceito e o detentor dos preceitos desaparecem, as disciplinas morais são melhor observadas. Ao sabermos que a mente-Ser é o Dharmakaya, o Corpo Absoluto de Buda, as ações e o ator delas desaparecem. Assim, o glorioso Dharma triunfa. Os seis caminhos que conduzem à Liberação são: grande fé e confiança em um Guru sábio e rigoroso, boa disciplina, solidão, prática determinada e perseverante e a meditação.

A Manifestação, o Vazio e a Não-diferenciação, esses três são a quintessência da Visão. A Iluminação, a ausência de pensamentos e a não-distração são a quintessência da Meditação. O não-apego, o desprendimento e a completa indiferença são a quintessência da Ação. A ausência de esperança, de medo e de confusão são a quintessência da Realização. Não atentar, não ocultar e não discriminar são a quintessência dos Preceitos. 

Feliz é a iluminação sem pensamentos e sem mutação! Feliz é a grande bênção na pureza do Dharmadhau (do Infinito)! Feliz é o Reino incessante da Forma! Este pequeno canto de grande felicidade que flui livremente de meu coração é inspirado pela meditação, pela fusão do conhecimento com a ação.

A fusão da mente-Ser com o Guru é realmente uma coisa feliz. A própria manifestação é em si a essência da Realidade. Através da realização deste Dharmakaya não-nascido, fundi a mim mesmo no Reino do Não-esforço.

Apegar-se à realidade da mente é a causa de Samsara (o ciclo de renascimentos); perceber que o não apego e a autoconsciência iluminanda são não-nascidos e imanentes, é o sinal da consumação do Estágio de Unidirecionalidade. Se uma pessoa fala sobre o Dois-em-Um (Sabedoria e Compaixão), mas ainda medita sobre a forma, se reconhece a verdade do Karma, mas ainda comete injustiça, ela está realmente meditando com cegueira e paixão! Tais coisas nunca são encontradas no verdadeiro Estágio de Unidirecionalidade.
A não-diferenciação da Manifestação e da Vacuidade é o Dharmakaya no qual Samsara e Nirvana são sentidos como sendo o mesmo. É uma fusão completa do Buda com os seres sencientes. Esses são os sinais do Estágio do Gosto Único (uma Consciência Absoluta compreendendo todas as experiências).

A natureza da Mente é a Luz e o Vazio. Ao perceber a consciência da Luz-Vazio, fundi-me no estado original de Não-esforço. Às boas e más experiências sou indiferente. Com uma mente de Não-esforço, sinto felicidade e alegria. O Seis Sentidos e os Objetos Sensoriais dissolveram-se por si mesmos (no Dharmadhatu), onde a não-diferenciação do sujeito e do objeto é realizada. Fundi a felicidade e tristeza em um só, adentrei o estado original de Não-esforço.

Apegar-se à noção de ego é característico desta consciência. Se olhamos para essa consciência em si, não veremos nenhum ego, nada é visto dele! Aqueles que praticam o Dharma com suas bocas falam muito e parecem saber muito sobre o ensinamento, mas quando chega a hora de o observador deixar o corpo na hora da morte, o pregador preso à boca é lançado no espaço. Quando a Luz Clara brilha por um momento precioso no estado do bardo intermediário, uma chance para que todos possam despertar para o Absoluto é camuflada pela cegueira do ignorante; a chance de ver o Dharmakaya no momento da morte é perdida devido ao medo e à confusão. Mesmo que a pessoa passe sua vida estudando o Canon, isso não ajuda no momento da partida da mente. Ai de mim! Aqueles Iogues proficientes que praticaram meditação por tanto tempo, confundiram a experiência psíquica da iluminação com a Sabedoria Transcendental e ficaram felizes com esta forma de auto-engano. Na hora da morte eles ainda correm perigo de passar pelo renascimento em reinos inferiores. Quando a postura do seu corpo está justamente colocada e sua mente absorvida em meditação profunda, você pode sentir que o pensamento e a mente desaparecem. Ainda assim, essa é apenas a experiência superfícial de Dhyana (meditação). Através da prática constante e da concentração nela, sentimos a radiante autoconsciência brilhando como uma lâmpada resplandescente. Ela é pura e brilhante como uma flor, é como a sensação de olhar para o céu vasto e vazio. A Consciência do Vazio é límpida e transparente, ainda assim, é vívida. Essa ausência de pensamentos, essa experiência radiante e transparente é apenas o sentimento de Dhyana. Com essa boa fundação, complementarmente devemos orar para as Três Preciosidades e penetrar a Realidade através de pensamento e contemplação profundos. Assim, podemos amarrar a Sabedoria sem ego com a benéfica corda da vida da meditação profunda. Com o poder da bondade e da compaixão e com o voto altruísta do Coração Desperto, podemos ver clara e diretamente a verdade do Caminho Iluminado, do qual nada pode ser visto, mas tudo é claramente percebido. Sem chegar, alcançamos nosso lugar de Buda; sem ver, visualizamos o Dharmakaya; sem esforço, fazemos todas as coisas naturalmente.

A própria natureza do Dharmakaya é identificada através de suas inúmeras formas. As miríades de formas são o corpo físico de Buda (Nirmanakaya). Com essa compreensão em mente, em qualquer circunstância que eu possa me encontrar, estou livre no alegre reino da Liberação! Não tenho nenhum anseio por retornar para a casa de Buda (o reino da ausência de formas). Feliz, de fato, é esta mente de não-esforço.

Se você pretende praticar os ensinamentos de Buda, tome refúgio nas Três Preciosidades (o Buda ou o despertar; o Dharma, o ensinamento da sabedoria; e o Sangha, a comunidade de praticantes). Os Seres sencientes nos seis reinos deveriam ser considerados como sendo seus pais. Dê aos pobres e ofereça ao Guru! Dedique os seus méritos para o benefício de todos. Lembre-se sempre de que a morte pode vir a qualquer momento. Identifique o seu corpo com o corpo de Buda. Identifique a sua própria voz com o mantra de Buda. Contemple Shunyata (o Vazio) da Sabedoria do auto-despertar e sempre tente ser o mestre de sua mente!

Eu percebi que nada é, libertei-me da dualidade entre o passado e o futuro, aprendi que os Seis Reinos não existem. Fui libertado de uma vez por todas da vida e da morte e compreendi que todas as coisas são iguais. Dei-me conta de que tudo o que percebo é ilusão, fui libertado de entrar e sair. Dei-me conta da verdade da não-diferenciação e fui libertado tanto do Samsara quanto do Nirvana. Também percebi como ilusões a prática, os passos e os estágios. Minha mente está, portanto, destituída de esperança e medo.
Encontrei o Samadhi das coisas como elas são. Agora não tenho medo da fome. Por causa do medo da sede, busquei por algo para beber; a bebida celestial que encontrei é o vinho da atenção plena. Agora não tenho medo da sede. Por causa do medo da solidão, procurei por um amigo; o amigo que encontrei é a felicidade do perpétuo shunyata (abertura, vazio). Agora não tenho medo da solidão. Por causa do medo de desviar-me, busquei o caminho certo a seguir. O amplo caminho que encontrei é o Caminho do dois-em-um (Sabedoria e Compaixão). Agora eu não temo perder meu caminho. Sou um Iogue com todos os bens desejáveis, um homem sempre feliz onde quer que eu esteja. 

Medite sobre a vastidão sem centro e sem margens. Como um oceano infinitamente grande e insondavelmente profundo, absorva-se na mais profunda contemplação. Dessa forma, medite sobre a sua mente-Ser.

Se você sentir-se bem ao meditar sobre o céu, então esteja com as nuvens. As nuvens são apenas manifestações do céu, Por isso, descanse bem ali na esfera do céu! As ondas são apenas o movimento do oceano; se você pode meditar bem sobre o oceano, porque não meditar sobre as ondas? Portanto, dissolva-se bem ali no oceano! O perturbador fluxo de pensamentos manifesta a mente; se você puder meditar bem sobre a mente, então esteja com o fluxo de pensamentos! Portanto, dissolva-se na própria essência da Mente! 

Você não sabe que este mundo é transitório e irreal? Quando você vier diante do rei dos Mortos o seu dinheiro de homem rico não será de nenhum proveito. O templo onde moro é a mente interior não-nascida. As experiências de Graça, Iluminação e de ausência de pensamentos são as lindas flores em meu jardim! Cercando o templo das Dez Virtudes está a vala da minha vacuidade. Isso é meu, o templo Iogue.
A fundação de toda prática do Dharma está na crença na lei do Karma (você colhe o que você semeia) e, portanto, é muito importante que você se dedique inteiramente à eliminação das más ações e à prática das virtudes. Embora no início eu fosse incapaz de compreender o significado do Vazio, confiei na lei do Karma. É por isso que, depois de ter acumulado muitos crimes, fui obrigado a venerar meu Lama e me dedicar à meditação.

O Dharma é tão eficaz que até mesmo um grande pecador como eu chegou a um estágio não muito longe da Iluminação perfeita de Buda devido à minha crença no Karma, minha subsequente renúncia dos objetivos da vida mundana, e, especialmente devido à minha devoção firme e determinada à meditação. É possível para cada pessoa comum perseverar como eu o fiz. Considerar um homem de tal perseverança como uma reencarnação de Buda é um sinal de não acreditar no caminho curto do Dharma. Coloque sua fé na grande lei de causa e efeito. Contemple a vida dos mestres iluminados; reflita sobre o Karma, sobre a miséria do ciclo de renascimentos, sobre o verdadeiro valor da vida humana e sobre a incerteza da hora da morte. Dedique-se à prática do Vajrayana.

Como resultado de meus anos de meditação, atingi o despertar total onde o objeto meditado, a ação de meditar e o sujeito que medita se fundem num só, de modo que agora já não sei mais como meditar. 

Volte sua mente para dentro e você encontrará o seu caminho. Quando meditar com perseverança e determinação, você deve pensar sobre os males de Samsara (o ciclo de renascimentos) e sobre a incerteza da morte. Evite o desejo pelos prazeres mundanos e a coragem e a paciência crescerão então em você, e você encontrará o seu caminho. Acima de tudo, lembre-se em todos os momentos e lugares de nunca ser arrogante nem orgulhoso de si mesmo, senão você será subjugado por sua auto-estima e será sobrecarregado pela hipocrisia. Se abandonar o engano e o fingimento, você encontrará o seu caminho. A pessoa que encontrou o caminho pode passar os graciosos ensinamentos para os outros; dessa forma ela ajuda a si própria e aos outros também. Dar é, então, o único pensamento restante em seu coração.

Se você deseja tornar-se um Buda em uma só vida, você não deve almejar as coisas desta vida, nem intensificar seu auto-anseio, senão você será enredado entre o bem e o mal e poderá cair no reino da miséria. Quando se envolver em estudos e aprendizagens, não se prenda às palavras com orgulho. Quando tiver adquirido Experiência e Realização, não exiba seus poderes milagrosos, nem profetize. Seja humilde e modesto e você encontrará seu caminho.

Pratique interiormente a concentração e a contemplação. A renúncia dos assuntos externos é o seu adorno. Permaneça sereno com auto-compostura e atentamente. A Glória é a equanimidade da mente e da fala! A Glória é a renúncia das muitas ações! Se você encontrar condições desagradáveis que perturbem a sua mente, vigie a si mesmo e fique alerta: mantenha-se alertando a si mesmo: "O perigo da raiva está a caminho". Quando você se encontrar com riquezas ou prazeres sedutores, vigie a si mesmo e esteja alerta, mantenha um controle sobre si mesmo: "o perigo do desejo está a caminho". Você deveria contemplar o vazio e a natureza ilusória do que quer que você encontre em suas ações diárias. Mesmo que uma centena de santos e estudiosos estivessem reunidos aqui, eles não poderiam dizer mais do que isso. Que todos vocês sejam felizes e prósperos! Que todos vocês se dediquem com o coração alegre à prática do Dharma!

2 comentários:

vini disse...

A simples leitura dos textos do blog trazem-me paz e serenidade. Parabéns pela iniciativa. Continue.

Leonardo Correia disse...

Muito bom!!!!
Grato