segunda-feira, 22 de março de 2010

Rodney Collin - A Teoria da Vida Eterna (Parte 1)

A vida entre o nascimento e a morte *


O homem nasce e o homem morre. Entre esses dois pontos encontra-se uma linha de desenvolvimento que é chamada de vida.



Mas o nascimento não é o começo para um homem. Pois neste ponto o veículo físico que determina o que ele vai ser já está formado. Seus pontos fortes e fracos, suas inclinações inatas e potencialidades já estão estabelecidos. Na realidade, a carreira individual do homem começou muito antes, no momento da concepção, portanto:



Como deveria ser medida essa linha da carreira do homem? Contada em anos, a gestação é apenas a centésima parte dela. Mas a medida em anos é uma escala planetária, criada pelo movimento da Terra e não se refere ao tempo interior do homem. Para medir o seu desenvolvimento orgânico temos de encontrar uma escala completamente diferente. A chave para essa nova escala reside no fato de que o homem é concebido como uma única célula, sob as leis e escala de tempo do mundo das células, mas ele termina como um ser humano, com oitenta anos de memória atrás de si, sob as leis e escala de tempo dos homens.
Isso significa que durante o curso de sua carreira ele percorre todo o caminho do tempo celular para o tempo humano. Ele vive em um deslizamento ou numa escala logarítmica do tempo. Seus processos internos, lançados com velocidade quase inimagináveis no momento da concepção, ficam cada vez mais lentos, como um mecanismo de relógio desacelerando até sua cessação completa na morte. Nesta escala de trabalho realizado, o período de gestação não constitui apenas um centésimo, mas um terço da carreira do homem.
De outro ponto de vista, esse período pode ser tomado como o tempo de formação de um terço da natureza total do homem. Esse terço, a parte mais grosseira de seu organismo psico-físico final, consiste em seu veículo físico original, ou seu corpo orgânico. Após o nascimento o corpo de um homem pode ser mantido saudável ou ficar doente, uma ou outra função pode ser desenvolvida ou ser deixada dormente. Mas nunca pode ser transformado em um corpo diferente desse que já foi criado. Uma criança de cabeça redonda nunca poderá se transformar em um homem de cabeça alongada, nem uma de olhos castanhos num adulto de olhos azuis. Tanto a formação física fundamental quanto as reações que se originam dela já estão completamente determinadas no nascimento.
A formação da segunda parte da natureza do homem, sua personalidade, ocorre durante um segundo período chamado infância. Durante esse tempo o corpo físico, criado antes do nascimento, estabelece relações com o mundo exterior. Ele começa a considerar certos ambientes como naturais, familiares e reconfortantes, enquanto outros como estranhos e proibidos. Isso constitui a sua normalidade. Enquanto que dentro desse quadro determinado, suas próprias tendências físicas inatas estabelecem um gosto pessoal por companheiros, passatempos, estações do ano, lugares e assim por diante. No final da infância vem a capacidade de pensar em conceitos, em seu corolário civilizado, a arte da leitura. E dentre o número infinito de mundos da imaginação tornados disponíveis, o indivíduo vai escolher ou será escolhido para ele um ou dois que depois sempre irão influenciar o cenário de sua mente.
Por volta do final da infância, a personalidade, que é como se fosse o intermediário entre o organismo físico nu e o mundo em que ele existe, já está formada. Este mundo circundante é infinito, mas a personalidade assim criada na infância, como um filtro colorido, garante que o homem adulto veja-o sempre colorido de uma determinada cor, com todos os objetos dessa cor tendo valor muito elevado e os objetos de outras cores com valor diminuído ou completamente eliminados. Essa personalidade forma uma parte definitiva e duradoura do organismo do homem, e após a adolescência ela não é seriamente afetada até a morte. Este princípio é reconhecido por muitas ideologias religiosas e políticas que insistem num controle restrito sobre as crianças novas até à idade de sete ou dez anos, quando sua "doutrinação" é considerada segura. Durante o restante da vida, desde por volta dos sete anos até o fim do limite de tempo do homem, o organismo dual do corpo e da personalidade desenvolve todas as suas possíveis reações para as circunstâncias com as quais ele possa se defrontar. Este período, chamado de maturidade, é na maioria dos casos um resultado automático da exposição do ser já criado a novos problemas, lugares e pessoas e não envolve a criação de algo novo em si.
O significado desses três períodos da existência do homem pode ser explicado pela analogia de uma estátua. No primeiro período, a estátua é esculpida em pedra ou madeira; no segundo ela é pintada, decorada com jóias; no terceiro período a imagem terminada passa de mão em mão, é estimada por um proprietário que a aprecia, fica negligenciada em uma pilha de lixo - ora é limpa, ora suja, ora despojada de suas jóias, ora até mesmo redecorada. No entanto, até o momento da sua destruição final por desregramento, acidente ou decadência, ela continua a ser a mesma estátua que foi entregue ao mundo da oficina do artesão.
Assim é também com um homem comum. Mas nós temos evidências que sugerem que este terceiro período é potencialmente o do desenvolvimento de uma terceira parte, e normalmente uma parte latente da natureza do homem. Podemos chamá-la de alma. Mais tarde veremos porque podemos dizer que o homem comum tem apenas uma alma dormente e porque o despertar da alma pode ser considerado como a tarefa mais difícil a que um homem pode, eventualmente, propor-se. Comparável, na verdade, à transformação da estátua em um ser vivo. Como podemos compreender a escala dessa linha de vida na qual a gestação, a infância e a maturidade são de medida igual? O que esse desaceleramento dos processos vitais significa? Qual é a relação entre o tempo orgânico apresentado nessa escala e o tempo de meses e anos em que a idade humana é geralmente medida?
Imagine um peão que com um impulso normal gira por 75 segundos. No momento do lançamento, esse peão gira num ritmo de muitas dezenas de revoluções por segundo; no último segundo antes de cair imóvel ele pode completar somente uma única volta. A escala de segundos representa a nossa medida comum do tempo do homem por anos; a escala das voltas representa trabalho realizado, pois é cada volta e não cada segundo que representa uma quantidade fixa de energia gasta. Desta forma, é realizado dezenas de vezes mais trabalho no primeiro segundo do que no último. E assim é com os anos da vida do homem.
Vamos colocar uma duração média nos três períodos de vida já descritos. A gestação humana dura 280 dias ou 10 meses lunares; a infância dura cerca de sete anos ou 100 meses lunares, enquanto que o tempo tradicional de vida do homem, entre 70 e 80 anos, é equivalente a 1000 meses lunares.

Tal escala, abrangendo em distâncias iguais 1, 10, 100 e 1000 unidades, é chamada de uma escala logarítmica. Utilizando tal escala consistentemente, podemos obter as divisões mais finas numa base de trabalho orgânico igual:

Desta forma, a existência do homem é dividida em nove partes, cada uma dura um pouco mais do que todo o tempo que se passou antes.
Além disso, cada parte marca o surgimento de uma função de seu organismo. Todas essas funções estão presentes no homem, potencialmente ou em operação, durante toda a sua vida. Mas em cada marco uma função domina seu organismo, controla-o e empresta para a idade correspondente, sua própria cor específica.
Dois meses após a concepção, o embrião não é nada além de um organismo digeridor, uma máquina para transmutar a nutrição recebida na corrente sanguínea da mãe para o tecido celular de uma certa forma. De todas as funções depois familiares ao homem adulto - digestão, movimento, respiração, metabolismo instintivo, pensamento, emoção passional e função criativa ou sexual – apenas a primeira realiza-se plenamente no embrião nesta fase. O ponto 1 nessa escala logarítmica, portanto, pode ser dito como sendo dominado pela função da digestão.

Aos quatro meses e meio desde a concepção, uma nova função começa a se desenvolver. Ela está relacionada com a respiração e o movimento, que na verdade são dois aspectos da mesma coisa – a respiração, que determina o tempo do movimento e vice-versa, têm a mesma relação que há entre o fluxo de ar num forno de locomotiva e o potencial de velocidade do trem. Neste momento o embrião adquire movimento individual ou se mexe, como costumamos dizer, e, posteriormente, o seu sistema pulmonar começa a se desenvolver em prontidão para o início da respiração no instante do nascimento. Assim, no ponto 2, podemos dizer que entra a função do movimento e que no ponto 3 a da respiração.
No primeiro ano de vida o metabolismo físico conectado com o crescimento dos tecidos e com o aumento do volume está no seu máximo vigor. Neste ano, a criança ganha mais peso do que em qualquer outro ano da sua existência. Todas as melhores energias do organismo parecem agora ir para o metabolismo do crescimento físico, que, por falta de uma descrição melhor, podemos chamar de função característica do ponto 4.
No ponto 5, entre dois e meio e três anos, o rápido crescimento do cérebro dá ascendência à função intelectual; a criança adquire o poder da fala e de conceitos abstratos e através do agrupamento intelectual de impressões, culminando na capacidade de raciocinar, gradualmente, forma-se a personalidade. De maneira geral, o ponto 6 marca a conclusão deste processo.
O ponto 7 ou os quinze anos, marca a puberdade, onde a combinação das glândulas supra-renais e sexuais entram em jogo, e juntas estimulam o organismo à emoção passional e sua projeção. Essa projeção deve ser diferenciada de sexo verdadeiro, que é conscientemente criativo em sua natureza, enquanto que aqui está mais ligado aos impulsos violentos, agressivos e passionais, que marcam de maneira peculiar a adolescência, mas que para muitas pessoas permanecem como sua máxima expressão, mesmo na maturidade.
O sexo verdadeiro, no sentido da mais alta função criativa, que resulta na harmonização de todas as outras funções - seja na criação de filhos na imagem física de seus pais, na criação das artes ou na criação do verdadeiro papel do indivíduo na vida - é atingido apenas com o desenvolvimento de emoções mais elevadas no ponto 8, o auge da vida. Mas a plena expressão dessa função é dependente do crescimento de novos poderes e novas capacidades, potenciais no homem, mas só realizáveis com um trabalho e um conhecimento muito especiais. A chave para esses novos poderes reside na possibilidade do homem tornar-se consciente de si mesmo e de seu lugar no universo que o cerca. Pois a partir disso pode surgir - em casos muito afortunados - uma alma completamente formada ou um princípio permanente de consciência.

Comumente, não há nem permanência nem consciência no homem. Cada uma dessas funções fala nele automaticamente, com uma voz diferente, para seus próprios interesses, indiferente aos interesses das outras que formam a totalidade, mesmo que, usando língua e nome do indivíduo.
“Eu preciso ler o jornal!”, diz a função intelectual. “Eu vou caminhar!”, contradiz a função motora. “Estou com fome!", declara a digestão; “Estou com frio!", o metabolismo. E 'Eu não vou frustrar-me!" grita a emoção passional, em defesa de algumas delas.
Tais são os muitos 'eus' do homem. E neles reside a chave para todas as contradições internas e externas que mergulham-no em tal confusão, cancelam suas melhores intenções e mantêm-no ocupado pagando as dívidas que foram de forma imprudente efetuadas por cada um dos seus muitos lados. Cada função de sua essência, assim como cada imaginação de sua personalidade, faz promessas, incorre em obrigações pelas quais o homem como um todo deve aceitar a responsabilidade.
Assim, a primeira condição para uma alma ou um princípio unificador, reside no confinamento gradual de cada função a seu papel apropriado, através da auto-observação e da consciência e da remoção progressiva das contradições entre elas através do reconhecimento comum de todas elas desse objetivo único.
Um resumo das funções que entram em pontos sucessivos da linha da vida do homem vai, portanto, mostrar que apesar de que de um ponto de vista sua vida está se esgotando conforme ele envelhece, por outro ponto de vista novos poderes trabalhando com energias mais sutis e tendo possibilidades sempre maiores, periodicamente revelam-se nele.
Essas funções representam a ação no homem de diferentes níveis de energia, cada qual tendo seu próprio sistema adequado no corpo humano. Exatamente da mesma maneira que as diferentes energias e matérias que circulam em uma casa - água quente e fria, gás, luz elétrica e energia elétrica - são cada uma delas carregadas por seus próprios sistemas de tubos ou cabos. Mas, embora esses sistemas existam no organismo do homem desde seus primeiros dias, a energia ou matéria que opera através deles é liberada somente pela natureza numa certa idade, assim como a água, o gás e a eletricidade que servem a casa podem ser acionados de seus dispositivos apropriados, em datas diferentes e sucessivas.
Desse modo, a característica de todas as funções acima mencionadas e suas energias é que elas trabalham em um corpo orgânico, através de órgãos e tecidos de estrutura celular. Isso é evidente. Pois mesmo que as emoções superiores produzam fenômenos que pareçam ser supra-físicos, nós sabemos que ainda elas são transportadas por um cérebro tangível e um sistema nervoso cuja estrutura podemos examinar. Também não podemos normalmente conceber o seu funcionamento aparte desta máquina física.
No entanto, temos todas as razões para acreditar que o impacto das energias cada vez mais elevadas em fases sucessivas de desenvolvimento não termina no ponto 8, ou no auge da vida. No ponto 9 de uma escala logarítmica, o que equivale a cerca de setenta e cinco ou setenta e seis anos, uma energia ainda mais elevada e mais penetrante é projetada na existência do homem pela natureza.
Mas essa energia difere das outras porque é demasiadamente intensa para ser contida dentro de um corpo de estrutura celular, da mesma maneira que a energia de um raio é intensa demais para ser contida dentro do corpo de uma árvore, que ao ser atingida é imediatamente explodida e destruída. Essa energia cósmica final é de tal natureza que, com o seu impacto o corpo celular do homem é imediatamente cortado de qualquer princípio mais duradouro de vida que possa existir nele, e é deixado para se desintegrar. Este fenômeno surge para ele como a morte.
Negativamente, essa energia suprema destrói o corpo físico ou orgânico do homem. Mas, positivamente, o que ela faz? Podemos dizer que ela conecta a morte com a concepção. Isso significa que ela é de uma tal natureza que funciona fora do nosso tempo. Através dela a soma final ou a assinatura essencial de um indivíduo é transportada de volta para o momento em que os cromossomos do óvulo fertilizado executam a dança em pares pela qual todas as qualidades subsequentes do seu organismo virão a ser determinadas.
Como pode ser isso? O nosso sentido de tempo deriva do desdobramento fisiológico do corpo, assim como a nossa sensação de calor decorre da temperatura do sangue. O corpo celular é o nosso relógio e nosso termômetro. O choque que o destrói liberta-nos simultaneamente da temperatura e do tempo.
Na morte, entramos na atemporalidade ou na eternidade. A partir desse estado de atemporalidade, daquele prazer da eternidade, todos os pontos dentro do tempo estão igualmente acessíveis. Ou melhor, eles estão relacionados, não pelo tempo, mas pela intensidade da energia que os constitui.

Dois pontos no ciclo normal da vida humana são formados da energia mais poderosa e divina que conhecemos. Somente Deus dá a vida e só Deus leva a vida. A morte e a concepção estão conectadas fora do tempo pela intensidade divina da energia envolvida. Assim como um ímã, outro ímã e o Pólo Norte estão conectados fora do tempo por seu magnetismo comum, assim também a morte, a concepção e Deus estão ligados fora do tempo por sua potência comum.
A energia da morte reduz o ser total do homem, o produto de todos os seus dias, a uma essência invisível, como a destilação pode reduzir dezenas de milhares de flores a uma única gota de perfume essencial. E assim como este perfume tem o poder de passar através da fresta de uma porta, de uma forma que seria inconcebível para as flores na sua forma física original, desse modo a essência do homem destilada pela morte parece capaz de passar pelo tempo de uma forma bastante inconcebível do ponto de vista de seu corpo orgânico.
Portanto, a agonia da morte de um homem é idêntica ao êxtase de sua concepção; e o que ele tornou-se no primeiro momento deve controlar o que, inevitavelmente, surge do padrão criado no segundo.
Nossa figura agora assume a forma mostrada abaixo


O que pode ser dito da percepção comum do homem de sua vida em tal esquema? Qual é a natureza de sua consciência e memória do que tenha havido consigo? A consciência comum do homem de sua existência pode ser vista como um ponto fraco de luz ou de calor que viaja inexoravelmente ao redor deste círculo do nascimento à morte, suficiente, quando muito, para lançar seu brilho um ou dois dias para frente ou para trás, mas às vezes deixando em seu rastro uma certa energia residual que sentimos como a memória.
Para esse progresso da consciência e da memória, no estado frágil em que existem no homem comum, no entanto, o ponto de cima do círculo representa uma barreira insuperável. Além deste isolador da morte e da concepção, a consciência do homem comum não pode passar; e a respeito do que está além disso, quer para frente ou para trás, sua memória não lhe diz nada.
No entanto, por ele ser o maior de todos os mistérios, não podemos ignorá-lo. Todos devem chegar mais cedo ou mais tarde a esse ponto, e seria melhor que chegassem a ele com a total faculdade de compreensão de que dispõem na vida focalizada ali, ao invés de chegar de maneira cega e com medo. Pois do medo, nada além de aflição pode-se esperar como resultado.

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