quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Jalaluddin Rumi - O Artesão e o Vazio


Eu disse antes que todo artesão

procura pelo que não está ali

para praticar seu artesanato.


Um empreiteiro procura por um buraco apodrecido

onde o telhado cedeu. Um carregador de água

pega o pote vazio. O carpinteiro

pára na casa sem porta.


Os trabalhadores correm na direção de alguma indicação

de vazio, o qual eles então começam

a preencher. O que eles esperam, entretanto,

é pelo vazio, então não pense

que você deve evitá-lo. Ele contém

o que você necessita!


Querida alma, se você não fosse amiga

daquele vasto nada interior,

por que você estaria sempre jogando sua rede

nele e esperando tão pacientemente?


Esse oceano invisível tem lhe dado tão grande abundância

mas você ainda chama de “morte”

isso que lhe provê sustento e trabalho.


Deus permitiu que uma inversão mágica ocorresse,

de modo que você visse a fenda do escorpião

como um objeto de desejo

e toda a vastidão em volta dela

como perigosa e infestada de serpentes.


E assim é o quão estranho o seu medo da morte

e do vazio é, e quão perverso o apego pelo que você quer.


Agora que você me escutou falar

a respeito de seus equívocos, querido amigo,

ouça a história de Attar sobre o mesmo assunto.


Ele encordoou pérolas a esse respeito

contanto sobre o rei Mahmud, que dentre os despojos

de sua campanha militar na Índia houve um garoto hindu,

que ele adotou como um filho. Ele educou

e proveu ao garoto todo o digno de um rei

e mais tarde tornou-o vice-regente, sentado

num trono de ouro ao seu lado.


Um dia ele encontrou o jovem homem chorando.

“Por que estás chorando? És o companheiro

de um imperador! A nação inteira está enfileirada

diante de ti como estrelas que podes comandar!”


O jovem respondeu, “Estou lembrando

da minha mãe e do meu pai e de como eles

me assustavam quando criança com ameaças a seu respeito!

'Xi, ele está indo para a corte do rei Mahmud!

Nada poderia ser mais infernal!' Onde estão eles agora

quando deveriam ver-me sentado aqui?”


Esse incidente fala sobre o seu medo de mudar.

Você é o garoto hindu. Mahmud, que significa,

Louvor ao Fim, é a pobreza ou o vazio

do espírito.


A mãe e o pai são o seu apego

às crenças e laços de sangue

e desejos e hábitos de conforto.


Não dê ouvidos a eles!

Eles parecem proteger,

mas na verdade, aprisionam.


Algum dia você vai chorar lágrimas de deleite naquela côrte,

lembrando dos seus equivocados pais!


Saiba que seu corpo nutre o espírito,

ajuda-o a crescer e depois dá conselhos errados a ele.


O corpo torna-se, eventualmente, uma armadura

em anos de paz,

quente demais no verão e fria demais no inverno.


Mas os desejos do corpo, de outra maneira, são como

um sócio imprevisível, com o qual você deve ser

paciente. E esse acompanhante é útil,

pois a paciência expande a sua capacidade

de amar e de sentir paz.


A paciência da uma rosa perto de um espinho

mantém-na cheirosa. É a paciência que dá leite

ao camelo amamentando-o ainda no seu terceiro ano,

e a paciência é o que os profetas nos mostram.


A beleza de cuidadosamente costurar uma camisa

está na paciência contida nisso.


A amizade e a lealdade têm a paciência como

a força de suas conexões.


Sentir-se só e desprezível indica

que você não foi paciente.


Fique com aqueles que se misturam com Deus

como o leite mistura-se com o mel, e diga,


“Qualquer coisa que vem e vai,

que nasce e se põe,

não é o que eu amo.”


Viva naquele que criou os profetas,

senão você ficará como uma caravana em chamas

deixada flamejando sozinha na beira da estrada.

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Quando você está com todo mundo menos comigo,

você não está com ninguém.

Quando não está com ninguém além de mim,

você está com todo mundo.

Em vez de ficar tão atado com todo mundo,

seja todo mundo.

Quando se torna tudo isso, você é o nada.

O Vazio.

Um comentário:

valgenio Valgênio Marques disse...

A verdade é profundamente bela,
a beleza é sutilmente verdadeira.
Belíssimo poema!