domingo, 24 de janeiro de 2010

Jalaluddin Rumi - A confiança em Deus contraposta aos esforços humanos

Os animais disseram: “Ó sábio iluminado,
Põe de lado a cautela; ela não pode lhe ajudar contra o destino;
Afligir-se com a precaução é trabalho e dor;
Vai, confia na Providência, confiar é a melhor parte.
Não combate o decreto divino, ó cabeça quente,
Para que esse decreto não entre em conflito consigo.
O homem deveria ser como um morto perante os comandos de Deus,
Para evitar que um golpe lhe viesse do Senhor de todas as criaturas”.


Ele disse:
“Verdade, mas, embora a confiança seja nosso principal apoio,
Ainda assim o Profeta nos ensina a considerar os meios.
O Profeta bradou em alta voz:
'Confia em Deus, mas amarra a pata do camelo.'
Ouça o ditado:'O trabalhador é o amigo de Deus'.
Por confiança na Providência não negligencie os recursos.
Ide, ó quietistas*, praticai a confiança com auto-empenho,
Esforçai-vos por atingir vossos objetivos pouco a pouco.
A fim de obter sucesso, lutai e esforçai-vos;
Se não vos esforçais por vossos objetivos, sois tolos”.


Eles disseram: “O que for obtido do pobre através de esforço
É porção espúria que trará má sorte.
De novo, saiba que o auto-empenho vem da fraqueza;
Confiar em outros meios macularia a confiança perfeita.
O auto-empenho não é mais nobre que a confiança em Deus.
O que é mais belo que se entregar a Ele?
Muitos são os que fogem de um perigo para outro pior;
Muitos fogem de uma cobra e encontram um dragão.
O homem planeja um estratagema e nele é apanhado;
O que ele toma por vida se revela destruição.
Ele fecha a porta depois que o inimigo já está dentro de casa.
Desse tipo eram as tramas do Faraó.
Esse rei invejoso matou dez mil recém-nascidos,
Enquanto Moisés, a quem buscava, estava em sua casa.


“Nossos olhos estão sujeitos a muitas enfermidades;
Vai! Cega sua visão na visão de Deus.
Pela nossa previdência, a previdência Dele é uma boa troca;
Na visão Dele está tudo o que podemos desejar.
Enquanto o bebê não consegue apoiar-se nem correr,
Ele usa as costas de seu pai como veículo.
Mas quando se torna independente ele usa suas próprias mãos,
Cai em sérios dissabores e desgraças.
As almas de nossos primeiros pais, antes mesmo de suas mãos,
Fugiram da fidelidade em busca de prazeres vãos.
Feitos cativos pela ordem “Descei daqui”**,
Tornaram-se escravos da inimizade, da luxúria e da vaidade.
Somos a família do Senhor e Seus bebês de peito.
O Profeta disse: 'Os homens são a família de Deus',
Aquele que manda chuva do céu
Não poderá também nos dar o pão de cada dia?”
O leão disse: “Verdade, ainda assim, o Senhor das criaturas
coloca uma escada diante de nossos pés.
Degrau por degrau, devemos subir até o telhado!
A noção de fatalismo não tem sentido neste lugar.
Vós tendes pés – por que então fingir que sois aleijados?
Vós tendes mãos – por que então esconder vossas garras?
Quando um senhor coloca uma pá na mão de um escravo,
O escravo sabe o que isso quer dizer sem que lhe digam.
Como essa pá, nossas mãos são sinais de nosso Mestre para nós;
Sim, se pensardes bem, elas são as instruções que Ele nos dá.
Quando houverdes levado a sério Seus sinais,
Modelareis vossas vidas confiando em Sua indicação;
Portanto, estes sinais revelam Sua intenção,
Tiram de vós o fardo e estipulam vosso trabalho.
Aquele que o suporta, torna-o suportável para vós,
Aquele que é capaz, coloca-o dentro de vossa capacidade.
Aceitai seu comando e sereis capazes de executá-lo.
Buscai a união com Ele e vos vereis unidos.
Esforço é dar graças pelas bênçãos de Deus;
Pensais que vosso fatalismo vos dá essas graças?
Dar graças pelas bênçãos aumenta as bênçãos,
Mas o fatalismo arranca essas bênçãos de vossas mãos.
Vosso fatalismo é dormir no caminho;
Não durmais até divisardes as portas do palácio do Rei.
Ah! Não durmais, ó fatalistas irrefletidos,
Até que tenhais alcançado aquela Árvore da Vida carregada de frutos,
Cujos galhos são sempre sacudidos pelo vento,
E cujos frutos chovem na cabeça dos adormecidos.
Fatalismo significa dormir entre salteadores.
Pode um galo que canta cedo demais ter esperança de paz?


“Se elaborais desculpas e não aceitais os sinais de Deus,
Embora vos considereis homens, vede, sois mulheres.
A razão que possuíeis se perdeu,
E a cabeça cuja razão se foi é um rabo.
Já que os ingratos são desprezíveis,
Eles são ao final lançados ao poço do fogo.
Se realmente tendes confiança em Deus, esforçai-vos
E lutai, em constante confiança no Todo-Poderoso.


* quietistas – Seguidores da doutrina mística segundo a qual a perfeição moral consiste na anulação da vontade, na indiferença absoluta e na união contemplativa com Deus.

** Alcorão II – 36. Expulsão do paraíso.

Um comentário:

Dado Motta disse...

Incrivelmente belo.