quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Jalaluddin Rumi - Cinco Poemas


Husam demanda que comecemos o Livro V,

Ziya-Haqq, a radiância da verdade,

Husamuddin,

mestre dos mestres puros,

se minha garganta humana não fosse tão estreita,

eu o louvaria como você deveria ser louvado,

em alguma língua diferente dessa linguagem das palavras,

mas uma ave doméstica não é um falcão.

Devemos misturar o verniz que temos

e pincelá-lo.


Não estou falando para os materialistas. Quando menciono Husam,

falo apenas para aqueles que conhecem os segredos espirituais.

O louvor significa apenas puxar a cortina

para deixar as qualidades dele entrarem.

O sol,

permanece aparte

do que digo, é claro.


O que aquele que profere o louvor realmente está louvando

é ele mesmo, ao dizer implicitamente:

“Minha visão está clara.”


Do mesmo modo, alguém que critica está criticando

a si mesmo, dizendo implicitamente: “não consigo ver muito bem

com meus olhos tão inflamados.”


Jamais lamente por alguém

que quer ser o sol, aquele outro sol,

o que torna frescas as coisas podres.


E jamais inveje alguém

que quer ser este mundo.


Husam é o sol do qual falo.

Ele não pode ser entendido com a mente, ou dito,

Mas nós vamos tropeçar e cambalear tentando fazê-lo.

O fato de você não conseguir beber toda a água chuva que cai

não significa que você tenha de desistir de beber as gotas.

Se a noz do mistério não pode ser possuída

ao menos deixe-me tocar a casca.


Husam, refresque minhas palavras, suas palavras.

Minhas palavras são apenas uma casquinha do seu saber,

uma atmosfera terrestre para seus enormes espaços.


O que digo tem apenas o objetivo de apontar para aquilo, para você,

de modo que quem alguma vez escute essas palavras não se aflija

por nunca ter tido a chance de olhar.


Sua presença me atrai para longe da vaidade,

da imaginação e da opinião.

A reverência é o remédio

que irá curar nossa visão.

E alerta, escutando constantemente.

Fique a céu aberto como uma tamareira

erguendo seus braços. Não cave buracos de rato

no solo, discutindo algum labirinto doutrinal.


Essa trama e urdidura intelectual mantém-no enrolado

na cegueira. E quatro outras características

impedem-no de amar. O Alcorão as chama de

quatro pássaros. Diz Bismillah: “Em nome de Deus,”

e parte as cabeças desses pássaros funestos.


O galo da luxúria, o pavão do querer

se tornar famoso, o corvo da possessividade e o pato

da urgência, mate-os e reviva-os

em outra forma, mudados e inofensivos.


Há um pato dentro de você.

Seu bico nunca está quieto, procura tanto no seco quanto

no molhado, como um ladrão numa casa vazia

abarrotando de objetos seu saco, pérolas, grão de bico,

qualquer coisa. Sempre pensando: “Não há tempo!

"Não terei outra chance!"

Uma Pessoa Verdadeira é mais calma e deliberada

Ela não se preocupa a respeito de interrupções.


Mas esse pato tem tanto medo de perder

que ele perdeu toda generosidade e assustadamente expandiu

sua capacidade de ingerir comida.


Um grande número de incrédulos

uma vez veio ver Maomé,

sabendo que ele os alimentaria.


Maomé disse a seus amigos:

“Dividam esses convidados entre vocês e sirvam-nos.

Sendo que vocês estão todos preenchidos de mim,

seria como se eu fosse o anfitrião.”


Cada amigo de Maomé escolheu um convidado

mas uma pessoa enorme ficou para trás.

Ele sentou na entrada da mesquita

como uma borra espessa em uma taça.


Então Maomé convidou o homem para vir a sua própria casa,

onde o enorme filho de um turco Ghuzz comeu tudo,

o leite de sete cabras e comida o bastante

para alimentar dezoito pessoas!


As outras pessoas da casa ficaram furiosas.

Quando o homem foi dormir, a empregada bateu a porta

do quarto dele e por infâmia e ressentimento,

trancou-a com uma corrente. Por volta da meia noite, o homem

sentiu fortes necessidades.

Mas a porta! Ele tentou manejá-la,

colocou uma lâmina pela fresta. E nada.

A urgência aumentava. O quarto ficava apertado.

Ele caiu num sono confuso e sonhou

com um lugar desolador, sendo que ele mesmo era

esse lugar desolador.


Assim, sonhando que estava sozinho

ele evacuou uma enorme quantidade,

e outra enorme quantidade.


Mas logo ele tornou-se consciente o bastante para

saber que as cobertas que ele tinha à sua volta

estavam cheias de fezes. Ele tremeu com espasmos da vergonha

que geralmente impede os homens de fazerem tais coisas.


Ele pensou: “Meu sono é pior que minha vigília.

Minha vigília é cheia de comida.

Meu sono é todo assim.”


Em seguida chorou amargamente envergonhado,

esperando o amanhecer e o barulho da porta se abrindo,

esperando que pudesse sair

sem que ninguém visse como ele se encontrava.


Resumindo. A porta se abriu. Ele foi salvo.

Maomé veio no alvorecer, abriu a porta

e ficou invisível para que o homem não se sentisse envergonhado,

de modo que ele pôde escapar e se lavar

não tendo que enfrentar aquele que abriu a porta.


Alguém completamente absorvido em Alá como Maomé

pode fazer isso. Maomé tinha visto tudo que se passou

durante a noite, mas refreou de deixar o homem sair,

até que tudo aconteceu como tinha de acontecer.


Muitas ações que parecem cruéis

são de uma profunda amizade.

Muitas demolições são renovações.


Mais tarde, a empregada intrometida

trouxe as roupas de cama para Maomé.

“Olha o que o seu convidado fez!”


Maomé sorriu, sendo ele um distribuidor de piedade a todos os seres,

“Traga-me um balde de água.”


Todos pularam a frente: “Não! Deixe-nos cuidar disso.

Vivemos para serví-lo e esse é o tipo de trabalho braçal

que podemos fazer. O seu é o trabalho interior do coração.”


“Sei disso, mas essa é uma ocasião extraordinária.”


Uma voz dentro dele estava dizendo: “Há uma grande sabedoria

em lavar essas roupas de cama. Lave-as.”


Enquanto isso, o homem que sujou os lençóis e sumiu

estava retornando à casa de Maomé. Ele havia esquecido

um amuleto que sempre carregava consigo.


Ele entrou e viu as mãos de Deus

lavando seu lençol incrivelmente sujo.


Ele esqueceu o amuleto. Um grande amor invadiu-o subitamente.

Ele rasgou sua camisa. Começou a bater a cabeça contra o muro e contra a porta.

Sangue jorrava de seu nariz.


As pessoas vieram das outras partes da casa.

Ele gritava: “ Fiquem longe!”

Batia a cabeça: “Eu não tenho discernimento!”

Ele se prostrou perante Maomé.


“Você é o todo. Eu sou um desprezível, minúsculo,

pedaço sem sentido. Não posso olhar para você.”

Ele ficou quieto e estremecido de remorso.


Maomé abaixou-se, segurou-lhe, acariciou-lhe

e abriu sua compreensão interior.


A nuvem chora e então o jardim floresce.

O bebê chora e o leite da mãe flui.


A ama da criação disse: deixe-os chorar abundantemente.


Esse chorar da chuva e queimar do sol se entrelaçam

para nos fazer crescer. Mantenha sua inteligência incandescente

e sua aflição cintilante, fazendo com que sua vida fique fresca.

Chore fácil como uma criança pequena.


Diminua as necessidades do corpo e aumente as decisões da alma.

Diminua o que você dá a seu ser físico.

Seu olho espiritual começará a abrir.


Quando o corpo esvazia e permanece vazio,

Deus o preenche com almíscar e madrepérola.

Dessa forma um homem dá seu estrume e recebe pureza.


Escute os profetas, não algum garoto adolescente.

As fundações e os muros da vida espiritual

são feitos de auto-negações e disciplinas.


Fique com amigos que o apóiem nisso.

Fale com eles sobre os textos sagrados

e como você tem procedido e como eles têm procedido

e mantenham suas práticas unidas.

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Você perde o jardim,

porque quer um pequeno figo de uma árvore qualquer.

Você não encontra a linda mulher.

Está brincando com uma velha mulher.

Faz-me querer chorar o quanto ela lhe detém,

a boca mal cheirosa, uma centena de garras,

colocando sua cabeça na beira do telhado para chamá-lo,

figo sem gosto, vezes e mais vezes, vazio

como um alho vazio apodrecido.


Ela tem você preso pelo cinto,

mesmo não havendo flor e nem leite

dentro de seu corpo.

A morte abrirá os seus olhos

para o que a face dela é: a coluna de couro

de um lagarto negro. Chega de conselhos.


Que você seja silenciosamente puxado

pela atração mais forte do que você realmente ama.

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Você está sentado aqui conosco, mas também está lá fora caminhando

no campo ao amanhecer. Você mesmo é

o animal que caçamos quando você veio conosco na caçada.

Você está no seu corpo assim como uma planta está firme no solo,

ainda assim você é o vento. Você é a roupa do mergulhador

vazia deixada na praia. Você é o peixe.


No oceano há muitos cordões brilhantes

e muitos cordões escuros como veias que são vistas

quando uma asa é levantada.

Seu ser oculto é o sangue correndo nelas, essas veias

são as cordas do alaúde que fazem a música do oceano,

não a triste crista da arrebentação, mas o som de nenhuma margem.

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Meu pior hábito é que me canso do inverno,

torno-me uma tortura para aqueles com quem estou.


Se você não está aqui, nada cresce.

Falta-me claridade. Minhas palavras se confundem, dão um nó.


Como curar água ruim? Mande-a de volta para o rio.

Como curar maus hábitos? Mande-me de volta para você.


Quando a água ficar presa em poças habituais,

cave uma saída para o fundo o oceano. Há um remédio secreto

dado apenas para aqueles que se machucam tanto

que perdem a esperança.


Os esperançosos sentiriam levemente isso se soubessem.


Olhe o quanto puder para o amigo que você ama,

não importa se esse amigo está se afastando de você

ou vindo de volta em sua direção.

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Chega de vinho para mim!

Estou mais que encantado no denso vermelho

e no branco resplandescente.


Estou sedento pelo meu próprio sangue

conforme ele se move no campo de ação.


Traga a lâmina mais afiada que você tem

e golpeie, até que a cabeça role

pelo corpo.


Faça uma montanha de crânios como essa.

Despedace-me.


Não dê ouvidos!

Não escute nada que digo.

Tenho de entrar no centro do fogo.


Por que há estalos e fumaça?

Porque as lenhas e a chama estão ainda falando:

“Você é densa demais. Vá embora!”

“Você é muito irresoluta. Eu tenho forma sólida.”


No negrume essas duas amigas continuam discutindo.

Como um errante sem face.

Como o pássaro mais poderoso na existência sentado

em seu galho, recusando-se a se mover.


O que posso dizer para alguém tão enroscado com o desejo,

tão constringido em seu amor?


Quebre seu jarro contra uma pedra.

Não precisamos mais

arrastar por aí pedaços do oceano.


Precisamos submergir, longe do heroísmo

e descrições de heroísmo.


Como um espírito puro deitado, puxando

seu corpo sobre si, assim como uma noiva puxa seu marido

como uma coberta para aquecê-la.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Rodney Collin - A Teoria da Influência Celestial - Capítulo XIV - Personalidade, Essência e Alma

Todo o esquema rítmico e padrão de tempo sobre o homem, discutido nos capítulos anteriores, refere-se ao homem normal, ou melhor dizendo, a um arquétipo do homem. Pressupõe que os diferentes órgãos estejam igualmente dispostos em relação à sensitividade, de modo que as várias influências planetárias sejam recebidas e tenham efeito em sua justa harmonia e proporção. Na verdade, não há homem que individualmente reflita com perfeição tal harmonia, pois, nos homens que conhecemos, algumas glândulas são de uma sensibilidade supra-normal e outras de sensibilidade sub-normal. As descrições dadas dos tipos endócrinos ou planetários foram uma tentativa de descrever o efeito da sensibilidade supra-normal de uma glândula ou do aparato receptor. Um homem perfeitamente harmonizado, em quem todas as influências planetárias estivessem equilibradas e nenhuma delas ausente ou exagerada, é uma idéia que dificilmente pode ser concebida, exceto como resultante de um intenso trabalho de auto-aperfeiçoamento.
Admitindo o princípio de sensibilidade variante nas diferentes glândulas ou aparatos receptores, vemos como podem originar-se todas as anormalidades da forma e idade humanas. Suponhamos que Marte emane certas influências que estimulem as funções supra-renais e sexuais, enquanto Vênus, influindo nas paratireóides e no timo, tenda a promover o desenvolvimento físico, detendo a diferenciação sexual. Se os dois órgãos receptores são igualmente sensíveis, os próprios movimentos planetários assegurarão que a influência marcial eclipsará a outra aos 15 anos, produzindo a puberdade. Mas suponhamos que o órgão receptor para a influência marcial seja excepcionalmente sensível e que aquele sincronizado com a radiação venusiana seja insensível. Nesse caso, o primeiro eclipsará naturalmente o segundo com muita antecipação e a puberdade não ocorrerá aos 15 anos, mas aos 13 ou 12.
Decerto, raças inteiras estão mais sincronizadas estruturalmente com um planeta que com outro, tendo assim sua própria ‘normalidade’ de tempo, desviando-se mais e menos da normalidade prescrita para a humanidade. Além disso, tais povos ou raças estarão mais aguçadamente cientes do ritmo de ‘seu’ planeta e encontrarão dificuldade em compreender manifestações de outros povos derivadas de percepções de ritmos completamente distintos.
Mais luz é lançada nessa questão quando analisamos certos casos patológicos, como, por exemplo,naqueles em que um tumor na glândula pineal produz senilidade prematura e um garoto de oito anos adquire a aparência encarquilhada de um velho de oitenta.
Nos casos acima mencionados, consideramos o efeito das várias glândulas ‘colocadas’ em diferentes graus de sensibilidade. Por outro lado, parece-nos que a própria glândula, devido ao estímulo patológico, aumenta fantasticamente sua receptividade. Imaginemos uma antena de rádio de sensibilidade fixa sincronizada com apenas uma longitude de onda; seu volume variará com a produção e a distância da estação transmissora. Este é um caso normal. Mas suponhamos que a antena de rádio aumente subitamente sua sensibilidade. Começará a haver ruído e interferência nas antenas vizinhas, ainda que o poder da estação transmissora permaneça constante ou mesmo diminua. Se a glândula pineal é sensível à influência de certo planeta que, ao atuar com seu ciclo prolongado e lento, controla o envelhecimento gradual do organismo, um estímulo anormal nessa glândula pode fazê-la responder de forma antinatural a essa influência envelhecedora, até que essa última, por alteração de volume, apague todas as influências moderadas que provêm de qualquer outra parte.
Em suas formas extremas, essas duas classes de aberração – uma sensibilidade ou deficiência patológica de alguma glândula e uma variação patológica em sua função – respondem por todas as anormalidades congênitas e orgânicas que podemos encontrar. Nesses casos, o próprio mecanismo do homem é seriamente danificado, talvez sem possibilidades de reparo. E não se pode evitar que toda a vida psíquica oriunda de tal mecanismo seja desviada e desequilibrada.
Contudo, há um tipo diferente de anormalidade muito mais comum encontrada em mecanismos mais ou menos saudáveis. Essa anormalidade que origina toda gama da psiquiatria humana e, numa grande proporção, pensamentos e sentimentos das pessoas comuns, será tratada agora. Tínhamos chegado à conclusão de que a proporção das diferentes secreções endócrinas mantidas em suspensão no sangue num dado momento fazem de um homem o que ele é. Seu estado é o resultado de todos os impulsos que essas energias ditam separadamente. Impulsos para estudar, buscar companhia, mover-se inquietamente, fazer amor mesclam-se nele em intensidades diferentes, produzindo a coloração e o estado do momento. Isso é o que é chamado sua psicologia.
Mas prossigamos além e tentemos imaginar a corrente sanguínea de um homem ao longo de toda sua vida, todo o sangue que passa por ele desde sua concepção até sua morte como uma simples entidade. O sangue começa a fluir por ele desde o momento em que o óvulo fecundado adere ao útero materno e não cessa de fazê-lo até que seu coração pare de bater. Essa ‘extensa’ corrente sanguínea é uma teia de aranha unindo cada parte do círculo de sua vida e que já esboçamos no Capítulo 11. Em cada momento, a composição de sua corrente sanguínea dita seu humor. A totalidade de sangue vital, sustentando a soma final de influências que contribuíram para seu ser, é o homem. Representa sua verdadeira natureza, o que ele objetivamente é, sua essência.
A questão é que ninguém sabe o que é essa soma. Ninguém se conhece objetivamente. Ninguém pode analisar a elevada química de seu sangue e honestamente avaliar a si mesmo de acordo com ela. Isso já seria uma tremenda conquista e o homem que conhecesse sua essência teria uma enorme vantagem no mundo.
De fato, o que um homem pensa de si mesmo e de suas possibilidades tem muito pouco a ver com sua química física real. O homem que por sua estrutura natural e por suas capacidades pode ser um trabalhador competente e próspero julga que é um poeta ignorado, ainda que nunca tenha escrito uma linha de poesia sequer. Por outro lado, o poeta nato sente que realmente seria feliz numa fazenda, ainda que não tenha passado mais que finais de semana fora da cidade. O estudioso rato de biblioteca vê-se como um Casanova em potencial e por aí adiante. Esses são seus sonhos e eles vêem tudo o que lhes acontece e àqueles que parcialmente conhecem à luz de sua própria natureza essencial e por meio de seus sonhos.
Para dar suporte a esses sonhos, eles têm que adotar uma certa atitude inventada diante de tudo, diferente daquela ditada por seu sangue, sua essência, pelo que realmente são. Essa atitude inventada é tomada por outras pessoas como sua personalidade e pode até mesmo ser muito admirada e solicitada. Isso, contudo, traz-nos a idéia da personalidade num sentido correto e útil. Do latim, ‘persona’, uma máscara de teatro através da qual o ator fala. A personalidade legítima está entre a essência do homem e o mundo exterior. É sua ‘pele psicológica’, sua proteção da vida e meio de ajustar-se a ela. Inclui tudo o que ele aprendeu sobre como orientar seu organismo em seu ambiente, o modo que aprendeu para falar, pensar, caminhar, comportar-se e assim por diante: todos os seus hábitos adquiridos e idiossincrasias. Somente no homem comum esse adaptar-se à vida, esse savoir faire que lhe possibilita proteger a vida interna de choques desnecessários e distrações está tão inextricavelmente misturado com as atitudes pretensiosas e inventadas, que ambos acabam ficando inseparáveis. Temos que os considerar como um fenômeno, como a personalidade que, mesmo em seu melhor aspecto, é algo irreal, sem substância material.
Se considerarmos o círculo da vida do homem como uma esfera, sua essência será como que a natureza física do interior da esfera, sua consistência, densidade e composição química. Logo, sua personalidade será algo imaginário, que absolutamente não existe na esfera. Não tem espessura nem dimensão. Provém unicamente do exterior. É como a luz do mundo que a cerca refletida na superfície da esfera. Podemos mesmo dizer que é refletida apenas numa metade de sua vida, num hemisfério, pois, antes dos dois ou três anos, uma criança não tem imaginação sobre ela mesma, não tem pretensões e , na verdade, não é senão essência.
Podemos alcançar uma maior compreensão da natureza da personalidade quando nos damos conta de que essa luz que o homem reflete é exatamente o que ele não absorve. O que é mais óbvio sobre um homem é o que ele rejeita e o modo particular com que o faz. Ele é reconhecido pelo que ainda não compreende, pelo que o separa do resto. Isso é sua personalidade. Quando ele realmente compreende e absorve algo, isso penetra nele e torna-se parte de sua essência. Então já não é aparente para os outros como sua personalidade – ela é ele e ele é ela. A separabilidade característica da personalidade desapareceu.
A mesma idéia pode ser colocada de modo diferente. Um homem se alimenta. Mas dá-seum longo processo digestivo antes que essa comida seja suficientemente refinada para entrarem sua corrente sangüínea e tornar-se assim inseparavelmente absorvida dentro de seu organismo. Até que isso aconteça, a comida não é parte dele, ele pode até ficar doente e perdê-la completamente.
Algo semelhante ocorre com a experiência, mas dá-se um longo processo digestivo antes que essa experiência seja compreendida e dominada a ponto de poder modificar realmente sua essência física. Essa digestão da experiência acontece na personalidade e por intermédio dela. E, como a comida no processo de digestão, somente experiência e compreensão que estejam na personalidade podem ser perdidas a qualquer momento. Apenas quando, por insistência e repetição, ela penetrar a essência, se tornará intransferivelmente sua. A personalidade é o órgão de digestão para a experiência.
A anormalidade ou loucura fundamental do homem reside na divergência entre essência e personalidade. Quanto mais intimamente um homem se conhecer pelo que ele é, mais próximo ele estará da sabedoria. Quanto mais sua imaginação a seu próprio respeito divergir do que ele realmente é, mais louco ele se tornará.
No começo deste capítulo, estudamos as anormalidades orgânicas. Naquele momento, falávamos como que de asnos ou cavalos doentes. Agora estamos considerando o problema de asnos perfeitamente saudáveis que se consideram cavalos e de cavalos perfeitamente saudáveis que se consideram asnos. Este é o conteúdo da psicologia moderna.
Há, no entanto, uma possibilidade de curar essa desilusão. Trata-se da potencialidade que existe nohomem de tornar-se consciente de sua própria existência e de sua relação com o universo que o cerca, pois, no momento em que é consciente de sua existência, conhece o que ele é e o que ele não é, ou seja, conhece a diferença entre sua essência e sua personalidade. No mesmo momento, também sabe o que está nele e o que está fora dele, isto é, conhece a si mesmo e sua relação com o mundo.
Lembrança de si, e somente lembrança de si capacita o homem a trocar a pele exterior da personalidade e sentir e atuar livremente a partir de sua essência, isto é, a ser ele mesmo. Desse modo, ele pode separar-se das pretensões e imitações que o escravizaram desde a infância e retornar ao que ele realmente é, retornar à sua própria natureza essencial. Tal retorno à essência é acompanhado de um sentido de liberdade e liberação, distinto de qualquer outro e que pode suprir exatamente a força motivadora requerida para empreender as tarefas inteiramente novas que o homem libertado vê serem necessárias.
Este famoso tema do Peer Gynt de Ibsen – “Homem, a ti mesmo sê fiel” – é certamente o primeiro e obrigatório mandamento no caminho da consciência e do autodesenvolvimento, pois, a menos que um homem encontre a si mesmo, encontre sua própria natureza essencial e destino e comece a partir deles, todos os seus esforços e conquistas serão construídos sobre a areia da personalidade e, ao primeiro choque grave, toda a estrutura sucumbirá, destruindo-o talvez em sua queda.
Num homem que está se desenvolvendo, a personalidade é o servidor da essência. E, desde que a essência torne-se o servidor da personalidade, isto é, tão logo a força natural e capacidades de um homem sejam postas a servir a falsa imagem que ele tem de si mesmo, o crescimento interno cessa e, no curso devido, a essência definha e torna-se incapaz de novo crescimento. O único modo pelo qual esse definhamento pode ser detido e a vida restaurada à essência é pela lembrança de si, isto é, pelo cultivo deliberado de autoconhecimento e autoconsciência.
O que isso implica? No capítulo das funções das diferentes glândulas, vimos que elas estavam conectadas e unificadas não apenas pela corrente sanguínea, mas potencialmente de um modo diferente. Elas estavam conectadas numa ordem diferente por uma parte não utilizada do sistema nervoso. O funcionamento dessa nova conexão traria com ela a possibilidade de um homem estar ciente de si mesmo. Assim como sua sensação subjetiva da corrente sanguínea é um sentimento de calor corporal, também a sensação subjetiva de seu sistema nervoso, se este trabalhasse, seria autoconsciência. Esta é a nova função que, arriscamo-nos a dizer, deverá entrar em operação na plenitude da vida.
Dissemos que a essência do homem é a totalidade de sua corrente sanguínea, todo o sangue que flui por ele da concepção à morte. Podemos dizer agora que a alma do homem é a totalidade dos momentos de autoconsciência durante sua vida ou toda a energia super fina que fluiu através de seu sistema nervoso não utilizado. Mas aqui tropeçamos numa dificuldade, porque já tínhamos admitido que tais momentos são excessivamente raros, poucos num ano ou até mesmo na duração de uma vida. No sentido comum, o homem não tem consciência de sua existência. A energia não flui absolutamente por esse sistema. Os momentos de autoconsciência que um homem pode experimentar em circunstâncias de grande tensão, intensa alegria, dor, sofrimento, resistência ou privação são nada mais que momentos e vão-se, assim como vieram. Mesmo que somados, não resultariam em nada, assim como uma série de pontos não chega a ter dimensão mensurável.
O que então aconteceu à alma do homem? Não temos escolha a não ser admitir que o homem comum não encontrou uma alma. Ela tem que ser criada.
Etimologicamente, psicologia é o conhecimento ou a sabedoria da alma. Mas, se o homem não tem alma, nada do que agora passa por psicologia realmente o é. Tudo o que leva esse nome é na verdade psiquiatria, ou seja, o estudo da enfermidade da alma ou as condições de sua ausência. A verdadeira psicologia é, portanto, o estudo do que não existe ainda, é o estudo da arte de criar uma alma.
Falamos de essência, personalidade e alma. Agora é possível pensar na relação dessas diferentes partes do homem. O ‘mundo’ de um homem individual encontra-se cercado por outros mundos de escala semelhante, permeado pelos mundos menores de células e moléculas e incluído dentro dos grandes mundos da Natureza, da Terra, do Sistema Solar e assim por diante. Desses outros mundos, ele recebe nutrição na forma de alimentos, ar e percepções de todos os tipos. Já vimos como os diferentes períodos de vida, com seus diferentes meios e funções dominantes, utilizam nutrientes que provêm especialmente de um aspecto do homem ou de outro. Isso se refere especialmente aos diferentes aspectos de seu organismo físico. Agora surge a questão do crescimento de outras partes do homem que não sejam seu corpo, isto é, de sua essência e sua alma.
Acabamos de dizer que, quando um homem realmente absorve algo e o compreende, isso penetra nele e torna-se parte dele. Certamente um homem pode adquirir um gosto por impressões brutais ou perversas que, gradualmente penetrando sua essência, podem corrompê-la no devido tempo. Por outro lado, percepções de mundos maiores, forças maiores, ideais elevados, possibilidades elevadas ou, ao contrário, percepções terríveis e dolorosas, tomadas de certo modo, nutrirão e enriquecerão sua essência. Se tais percepções penetrarem constantemente num homem e forem digeridas por ele, a essência começará a crescer.
Ao mesmo tempo, cada tipo de essência deve ser alimentada à sua própria maneira. Os diferentes tipos delineados no Capítulo 10 eram exatamente tipos de essência. O que é alimento verdadeiro para a essência saturnina é inútil para a marcial e vice-versa. Façanhas de resistência que enriquecerão a essência de um homem poderão amedrontar a de outro, enquanto que sutilezas pelas quais a essência deste cresce sensivelmente são meramente enervantes para o primeiro. Assim, cada homem deve começar a perceber por si mesmo o que alimenta sua essência e o que o faz ser mais ele mesmo.
Percepções não absorvidas que não vão alimentar a essência serão refletidas de volta a partir de sua superfície em forma de personalidade, assim como os raios solares que não são absorvidos pela Lua são refletidos de volta para nós como sua ‘luz’ emprestada.
Além disso, assim como as percepções propriamente recebidas por meio de sentidos corporais podem alimentar a essência e alterar sua natureza, também essas matérias finíssimas acumuladas na essência podem alimentar a alma embrionária. Essas mesmas percepções de mundos e de possibilidades superiores ou as percepções de dor, sofrimento e grande perigo, profundamente absorvidas dentro de sua essência, podem despertar no homem um desejo de tornar-se consciente de sua existência e de sua relação com o universo. Se esse tipo de nutrição for recebido durante tempo suficiente e com a devida consistência, poderá conduzi-lo à realização de esforços diretos para tornar-se consciente. E estes, por sua vez, com sorte e condições corretas, podem alcançar com o tempo uma crescente recorrência de momentos de autoconsciência de maior duração. Desse modo, nasce uma alma.
Tal crescimento na essência e o nascimento de uma alma implicarão numa mudança de todo o ser do homem, um acúmulo interno de força e energia. E, assim como para a personalidade dissemos ser o reflexo de percepções análogo à luz refletida pela Lua, também a transformação interna de impressões requerida para criar uma alma será semelhante ao processo pelo qual um corpo resplandece por sua própria luz. Será análogo ao Sol.

domingo, 10 de outubro de 2010

G. I. Gurdjieff - Três reuniões em Paris


18 de março de 1943

Solange: Eu não consigo ter a sensação de mim mesma. O que posso fazer para conseguir ter a sensação de mim?

Gurdjieff: Apenas a sua cabeça deseja se lembrar. Seu esforço é teórico. Você deve estabelecer um contato entre a sua cabeça e seu corpo. Coloque uma perna na água gelada e deixa-a lá, tentando estabelecer esse contato. Então, faça o mesmo com a outra perna.

Lebeau: Desde o período que você alertou-me para ser egoísta, tenho feito isso. Mas constato em mim um desejo de viver apenas nessa melhor parte – eu gostaria de viver ali sempre e ignorar todo o resto. Sinto uma grande preguiça invadindo-me em relação à vida externa e a menor coisa torna-se um grande esforço.

Gurdjieff: É muito bom que esse estado apareça em você. Isso prova que mais tarde você irá tornar-se realmente alguém responsável, como um homem, e eu o amo antecipadamente por isso. Mas agora é necessário lutar sem descanso. Você deve manter um constante conflito entre esse estado e a sua compreensão. Quanto mais você desejar não fazer nada, mais você deve forçar-se a fazer. Você deve lutar impiedosamente e é essa luta que irá produzir em você a substância necessária com a qual você poderá, com a minha ajuda, criar em você um “eu” real.

Simone: Vejo como sempre apanho de minhas funções. Meus hábitos formam um automatismo que age como um bloco sobre mim que não consigo suportar. De um lado tenho meu trabalho e do outro minha vida, na qual nada muda.

Gurdjieff: Já dissemos várias vezes que se a pessoa desenvolve um lado, o outro irá desenvolver-se também. É preciso lutar.

Simone: Justamente, não consigo ter um conflito em mim mesma.

Gurdjieff: Porque você não faz. Para conseguir pegar para si tudo o que há nesta mesa, você tem de vir até a mesa. De outro modo você jamais conseguirá ir adiante. Você poderia continuar a viver assim dez anos, mil anos. Você jamais mudaria. Mesmo Deus, se Ele desejasse, não poderia ajudá-la. Ele não teria o direito … Apenas você pode lutar contra a sua preguiça. Existem duas tendências em você. Mas você, você dorme. É necessário que você se levante e lute.

Simone: Essa preguiça nasceu comigo ou foi adquirida?

Gurdjieff: Penso que é uma tendência natural. Quanto mais a sua psiquê quer uma certa coisa, mais o corpo recusa. Talvez ela tenha sido colocada ali pela natureza, para que pudesse haver um embate. Ademais, é uma boa coisa. Essas são as condições do trabalho. Se isso não existisse seria necessário colocar outra coisa em você para substituí-la. Ela é também um fator de recordação. Cada vez que você sentí-la, você deve pensar sobre o seu trabalho. É também uma coisa boa que você veja a sua preguiça, porque muitas pessoas são preguiçosas mas não vêem isso.

Simone: Já faz quinze anos agora que a vejo, mas eu não fiz nenhum progresso contra ela.

Gurdjieff: O que você fez então? Você ficou triste por isso. Mas dessa maneira em cem anos nada mudará. Não há razão para isso mudar – apenas se você se puser a lutar conscienciosamente.

Gabrielle: Preciso de ajuda, pois estou passando por uma crise muito profunda e perdi até mesmo o gosto pelo trabalho. Quando quero fazer o trabalho caio num sono pesado.

Gurdjieff: Algo está se preparando dentro de você, mas você não vê; e o trabalho deve ser cada vez mais doloroso para você, uma vez que você tem cada vez menos contato com você mesma. A despeito disso, você deve continuar a forçar-se. Você deve dar esse passo por si mesma. Pense que não é apenas para você que você trabalha e que talvez (e é absolutamente verdadeiro numa proporção de dez por cento) o destino futuro dos outros depende disso, está amarrado ao seu.

Louise: Estou pedindo ajuda porque não consigo mais trabalhar. Todas essas coisas interiores ruins estão novamente aqui. Tenho um desejo intenso de trabalhar, de lembrar de mim, mas não consigo fazer isso. Meu corpo não me obedece mais. É o corpo que é o amo.

Gurdjieff: Estou muito feliz por você, porque esse estado é objetivamente bom. Continue seguindo. Em alguns dias lhe darei alguma ajuda.

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29 de abril de 1943


Lanctin: Você aconselhou-me a ler, a coletar informação, mas com o que devo começar? Eu deveria trabalhar em certas coisas antes do que outras?

Gurdjieff: O que é importante é reunir a alma das coisas, o espírito e não a forma. Esqueça as palavras, os detalhes, eles não representam nada, mas mantenha em você a substância, o que está por trás. É isso que você deve acumular em você. É isso que, ao depositar-se em você, irá criar pouco a pouco uma compreensão subjetiva que será realmente sua. [Endereçando-se a Philippe] Por exemplo, no que você escreve, dentre todas essas palavras, dentre tudo o que é inútil, tudo o que objetivamente não tem valor, talvez haja um pequeno flash de diamante – é por esse diamante que você deve procurar, coletar e acumular em você.

Louise: Não sei o que é a coisa mais importante a fazer em mim mesma, no que devo colocar meus esforços.

Gurdjieff: Desde que você começou a vir aqui, você sempre escuta repetidamente que você deve adquirir um “eu”. De fato, tudo em você está num estado de mudança, instável, inconsistente. Você é a carruagem de muitos passageiros casuais. Você deve adquirir um 'eu' imutável. Essa é a coisa mais importante, na qual você deve colocar todos os seus esforços.

Philippe: Desde que conheço você, tenho experimentado muitos sentimentos. Agora eu odeio todos esses sentimentos. Eu gostaria de experimentar um sentimento justo. Se digo isso, é porque sinto que estou chegando perto disso.

Gurdjieff: Agora posso cogitar a idéia de você poder tornar-se um camarada meu. Até agora, internamente eu era indiferente a você, externamente eu o considerava tal e tal, mas nada internamente. Primeiro, você deve se tornar meu “camarada”, para que mais tarde, muito mais tarde, você possa tornar-se meu “irmão”. Agora digo “camarada” e não “irmão”.

Luc: Alguns dias atrás, quando estava lembrando de mim mesmo, para que pudesse tomar uma decisão que era importante para mim, tive repentinamente um sentimento da irrealidade da minha vida e ao mesmo tempo da irrealidade de todos os meus bons momentos. Não obstante, senti que isso era o melhor que eu tinha tido e que, ao mesmo tempo, todos eles tinham algo em comum. Da mesma maneira notei que o tempo já não existe mais em minha memória, que as coisas da infância eram iguais às coisas mais recentes. (Eu experimento o mesmo sentimento)

Gurdjieff: Você cresceu internamente, mas o que se desenvolveu é fraco. É necessário nutrir isso, ou com material interno ou externo. Mas você tem material interno, material de informação. De acordo com se essa coisa que é formada em você é mais pesada ou mais leve, ela sai ou entra dentro de você. Ela se eleva ou cai de acordo com o peso dela. Talvez só seja meu pupilo real aquele que cada vez que diz “eu sou” sente isso ressoar no mesmo lugar em si- aquele que sente-se sendo o mesmo em todos os momentos.

Khan: Eu gostaria de saber se essa coisa que sinto em mim lado a lado com meu trabalho, esse amor que eu gostaria de ver tornar-se a essência de minha essência, que me parece vir de algo diferente do meu trabalho e meus esforços, devo mandá-la embora – se não devo acreditar nela e manter-me estritamente no trabalho que o Sr. Gurdjieff indicou?

Gurdjieff: Sim, você deve fazer exatamente o que foi-lhe falado para fazer e nada mais. Você ainda não chegou no lugar do caminho onde você pode ouvir essas coisas. Todas essas são tentações no seu caminho. Mande-as embora e faça seu trabalho estritamente.

Simone: Sinto que tenho que introduzir na minha tarefa, no meu trabalho, uma pessoa próxima a mim, mas o que aumenta a dificuldade é que eu sinto nessa pessoa fraquezas similares às minhas, e minhas fraquezas reforçam as dela e as dela reforçam as minhas. Não sei como me defender disso e que atitude tomar.

Gurdjieff: Você não deve prestar atenção ao exterior. Isso é exterior. Você deve apenas saber de sua tarefa e executá-la internamente. A outra pessoa, conscientemente ou não, desempenha o papel dela, age de acordo com seu caráter. Você não a conhece, você não sabe quem ela é, se é Moisés ou alguma outra pessoa. Isso não importa. O que importa para você é sua tarefa interna.

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28 de outubro de 1943


Philippe: Gostaria de fazer uma pergunta sobre a vaidade. Por que, sempre nos melhores momentos e nos piores, a vaidade aparece. Se temos êxito em fazer um exercício, por exemplo, ou se falhamos. Mas em todo caso há uma oportunidade para a vaidade.

Gurdjieff: É uma coisa muito simples. Talvez você teve uma educação ruim, uma má preparação? Esse fator, a vaidade, tem sido o único que lhe foi dado na sua educação por seus pais, por seus próximos; esse fator apenas. E quando surge em você outro fator, esse primeiro retorna e submerge todo o resto. Para ser preciso, com essa constatação você deve tornar-se ciente de que o seu grande inimigo é esse fator cristalizado em você. Eu não sei nada a respeito de como você foi educado. Mas talvez seja a sua educação que o tornou assim. Ela colocou em você essa pedra angular. Esse fator é a pedra fundamental do seu organismo. Quando outro fator surge, outro impulso, esse primeiro também funciona e como ele é mais forte ele submerge e domina tudo. Essa é uma constatação muito boa para você e para aquele que estuda a psiquê. Para você, doutor, é muito interessante. É muito importante isso na psicologia. Às vezes, uma coisa muito pequena como essa pode impedir a pessoa de continuar. Objetivamente é uma coisa muito pequena, mas para aquele que a subjuga, é um grande inimigo, um inimigo orgânico. Você não pode fazer nada contra ele. Ele é mil vezes mais forte do que você. Todo o resto é fraco. Seu trabalho é fraco, isso mata tudo. É necessário reforçar mil vezes mais a sua individualidade, o seu “eu”. Quando ele começar a dirigir as suas funções, então você vai ter que tentar fazer “tchik” com sua vaidade. Hoje é impossível. Mas lute para diminuir a sua força. Com o “eu sou” ou um fator desse tipo, paralelo ao “eu sou”. Permita que esses fatores se cristalizem em você e automaticamente o outro fator poderá diminuir. Dentre outras coisas (e isso é entre nós) sua questão me ajuda muito a entender você. Agora sei qual é o seu inimigo, que cão você tem, e poderei guiá-lo melhor. Enquanto isso faça o que eu lhe disse para fazer até hoje e daqui para frente vou dar-lhe muitos exercícios para o funcionamento geral.

Dentre outras coisas, na verdade, os livros de bon ton, os livros educativos que o ensinaram que esse fator era necessário na vida. É inculcado nas crianças, aquele que o educou fez de tudo para cristalizar a vaidade em você. Ele nunca pensou que um dia quando você tivesse crescido, você escolheria outra estrada. Se você tivesse se mantido na primeira estrada, teria sido uma coisa muito boa para você, essa vaidade. Se você tivesse se tornado um oficial, um funcionário público, um ministro, um oficial da guarda, teria sido excelente. Mas para uma vida normal, é seu cão número um. Hoje, marque esse dia como um aniversário. Mesmo eu talvez, até o presente momento, não tinha entendido você e não podia lhe dar a razão exata de sua confusão interna. E agora, vejo tudo. Seu interior está iluminado para mim como um quadro, você ajudo-me a ajudar você.

Madame D.: Sr. Gurdjief, nessas duas últimas semanas fiz um esforço mais consistente do que anteriormente e tentei agir de tal maneira na vida que o “eu” estivesse separado do “mim” para poder melhor enfrentar as dificuldades da vida com um papel externo que tenho que desempenhar sem ficar movida internamente. Isso ajudou-me muito a entender melhor o sofrimento voluntário e tenho visto que nos momentos que eu conseguia ver o “eu”, podia enfrentar tudo que estava acontecendo comigo. Mas vi também que eu tinha que tentar senti-lo continuamente, porque isso não durava muito. A memória disso durou mais do que nunca, mas a experiência durou muito pouco.

Gurdjieff: Espere, não continue. Já entendi muito bem. E vou pedir a Madame de Salzmann depois, lhe explicar o exercício número um do Sábado. [Para Madame de Salzmann] Ele irá salvá-la, tornará as coisas mais fáceis para ela. Apenas esse exercício pode ajudá-la.

Esse exercício lhe ajudará a entender de uma maneira bem definida. Esse exercício irá separar “você” de “você mesma”. Você sabe do que o homem é feito: da individualidade e das funções do organismo. Até agora, em você as duas coisas existiram como uma única coisa, uma função misturada com a outra, uma função interferindo com a outra. Quando separamos a vida interior da vida exterior, o “eu” é o interior, o “mim” é o exterior, e é possível separá-los de uma maneira definida. Esse exercício irá ajudá-la a fazer isso. Posteriormente, você se tornará apta a saber e será responsável por seu futuro. Até agora, você não era responsável. Você será, você saberá e será falta sua se você não agir bem. Sofrimentos de todo o tipo serão necessários para acertar suas dívidas. Vá depois à Madame de Salzmann. Ela irá explicar. Faça o que ela disser por duas semanas e eu responderei sua questão.

Sr. A: Gostaria de fazer uma pergunta que é parecida com a de P., mas o que acontece comigo não é a vaidade, é o desejo de que as pessoas tenham uma boa opinião a meu respeito.

Gurdjieff: É a mesma coisa. É o mesmo fator: se mostrar.

Sr. A.: Mas Sr. Gurdjieff, mesmo se isso não me traz nada? Mesmo se é inútil?

Gurdjieff: É a mesma coisa.

Sr. A.: Eu lhe fiz uma pergunta similar um ano atrás ou menos, quando vim a você pela primeira vez. Mas desde então isso não mudou nada.

Gurdjieff: Você não tinha a possibilidade. Você não tinha os fatores. É diferente agora.

Sr.A.: Agora é menos aparente. Antes, todos podiam ver. Mas agora é mais sutil. A única mudança é a maneira de procurar por aquela boa opinião, tornei-me muito mais sutil.

Gurdjieff: Por que você diz isso? Você apenas constatou isso. Antes agindo como uma pessoa normal, você notou que você era uma pessoa anormal. Sua razão imparcial notou isso. É mais sutil mas parece o mesmo.

Sr. A.: Isso suja tudo o que eu faço.

Gurdjieff: Evidentemente. Isso dá emanações. De cor amarela, por exemplo. E como esse é o fator mais forte em você, ele dá essa cor amarela a todas as suas funções. Digo-lhe a mesma coisa. Você deve cristalizar conscientemente em você um fator mais forte do que esse. Você já tem bastante meterial. Por exemplo, o “eu sou”. Quando a pessoa começa a trabalhar com o “eu sou”, ela consegue ter êxito em matar essa manifestação. Se a pessoa inicia novamente uma centena de vezes, então isso poderá transformar a si mesmo; hoje é o seu “mim”. Se você cristalizar um outro fator mais forte, esse primeiro fator irá se tornar uma simples função novamente. Mas esse fator da vaidade é muito bom, ele não deve ser morto. É necessário apenas que ele nunca tenha a iniciativa, ele nunca deve entrar no seu “eu”. Deve permanecer uma função e quando for necessário chame-o como uma função.

Sr. A.: Mas se eu o chamo ele ocupa todo o espaço, isso é que é perigoso.

Gurdjieff: Falamos para o futuro. Reparamos o passado, trabalhamos. Você ainda não experimentou isso. Eu explico isso para seu trabalho e isso é tudo. Com esse trabalho, você pode reparar seu passado e preparar seu futuro. É exatamente a mesma coisa que P., apenas o exterior é um pouco diferente. Isso também é a merda de educação, a educação fou-fou. (chame do que você quiser, digo apenas uma palavra: merda. Falo mal francês, então chamo tudo o que é ruim de merda). Todo mundo tem essa educação aqui. E especialmente na frança, eu notei isso numa experiência muito original. Sempre tenho bombons em meu bolso. Quando vejo uma criança eu dou um a ela. Com a criança há sempre alguém, o pai, a mãe, a tia. Sem exceção todos dizem a mesma coisa para a criança: “O que se diz?” Automaticamente, pouco a pouco, a criança diz obrigado para todo mundo e não sente mais nada. Isso é uma coisa idiota. Isso é merda. Quando uma criança quer dizer obrigado para mim, eu entendo isso. Ela fala uma língua que eu entendo. E é essa língua que eu adoro. Apenas para ouví-las, para ver os impulsos delas, eu gasto todos os dias cinco quilos de bombons, pelos quais pago quatrocentos e dez francos o quilo. Apenas para ver esses impulsos. Mas quando a pessoa diz para uma criança: “O que se diz?”, ela mata tudo. É uma merda de pai, de mãe. Eles matam a criança para o futuro e também matam minha boa vontade. Esse é um bom exemplo, sabem. Não sei como vocês o entendem, mas para mim é muito característico. Digo isso como um exemplo. As pessoas preparam tudo automaticamente, fazem as crianças funcionarem como campainhas que tocam quando você as aperta. Como um botão elétrico. Você aperta um botão ou outro.

Sr. A.: Por outro lado, vivemos numa sociedade. Essas são convenções que mesmo as crianças devem aprender.

Gurdjieff: Então, lembre-se exatamente como eu disse, eu disse que é necessário ser livre internamente e não se identificar, e externamente desempenhar um papel. Eu, por exemplo, sou velho, tenho setenta e seis, eu desempenho meu papel: todas as crianças me amam, todas as mães, as avós, os pais, todos me amam. Eu desempenho meu papel. Mas objetivamente para mim tudo isso é merda, internamente. É meu experimento. Para mim eles são ratos de laboratório. Se eu vivesse em outra parte, seriam outros ratos. Eu não disse que as crianças devem mudar exteriormente, disse que internamente não devemos nos identificar. Cada classe deve ser educada para desempenhar um papel correspondente, esse é o ideal. Mas internamente, é necessário ser livre, sem se identificar. É isso que é necessário. É uma coisa muito pequena. E depois disso a vida é uma cama de rosas. Após isso, em algum momento quando você estiver numa cama de rosas, você poderá trabalhar com prazer para o seu futuro. No entanto, agora você não tem muito prazer.

Procurador, me interessaria muito ouvir uma coisa. Suas futuras relações comigo dependem dessa questão. Essa pergunta, talvez seja o momento de colocá-la sobre a mesa. Sua mãe poderia dizer que nessas últimas semanas, uma ou duas semanas, você realmente mudou, de cinco a dez porcento e que o nervoso dela diminuiu? Não muito, cinco ou dez por cento. Pergunto isso; é muito importante para mim saber isso.

Madame E.: Sim, senhor, posso dizer isso. Eles mudaram muito.

Gurdjieff: Não muito. Muito eu não sei, de cinco a dez por cento.

Madame E.: Os dois mudaram tanto que eu não os reconheceria.

Gurdjieff: Eu lhe agradeço. Agora você pode contar comigo.

Madame E.: Sr. Gurdjieff, eu gostaria de perguntar se quando vemos uma verdade tarde em nossa vida, devemos olhar para trás e ver que muitas coisas em nossas vidas deveriam ter sido diferentes e sentirmos remorso e mesmo tristeza. Devemos nos livrar desse remorso ou fazer o contrário - mantê-lo e fazer uso dele?

Gurdjieff: Você tem talvez uma grande oportunidade. Você tem uma experiência. Se você constatar o que você acabou de dizer, você pode preparar-se para o futuro. Talvez você tenha mil vezes mais chance do que uma pessoa mais jovem. Eu a parabenizo. Você tem muitas possibilidades para o futuro. Não para o presente. O presente que é o resultado do seu passado, por mim eu não posso repara o seu passado. Você teria que ter muitos anos para isso. Mas se agora você coloca esse passado em ordem, eu assumo a responsabilidade pelo seu futuro. Mãe, estou muito satisfeito com os seus filhos. [Para J.] Estou duplamente satisfeito com você. E com o seu irmão também. [Para A.] Com você também. Vocês são dois sapatos do mesmo par.

Madame D.: Sr. Gurdjieff, gostaria de perguntar-lhe. Minha maior dificuldade para a lembrança de si é a mente, que nunca está correta. Eu nunca consigo descontraí-la, descansá-la. Eu não acredito nela. Mas quando ela está em movimento, ela tem um monte de associações que eu não acredito mas que me absorvem. Isso cria uma dualidade que é muito dolorosa para mim.

Gurdjieff: Eu falei sobre os cães. Dentre todos os seus cães esse é o seu cão, você tem muitos deles em você.

Madame D.: Eu posso, por exemplo, na minha vida, quando ando de bicileta, tentar ocupar a minha mente?

Gurdjieff: Tente. Tente o que a ajuda. Nas suas tentativas deve haver uma luta. Tente tudo. Mas deve sempre haver uma condição nisso: que seja sempre uma luta entre seu pensamento e seu corpo. Com esse processo, se você tentar você pode encontrar.

Madame D.: Eu tentei fazer o exercício de contar até cinquoenta. Não me trouxe nada.

Gurdjieff: Tente outra coisa. Isso talvez não corresponda com a sua subjetividade. Tente mil coisas, busque, pense. Eu já lhe dei duas coisas, mas posso dar uma terceira. Você tem um irmão?

Madame D.: Não aqui.

Gurdjieff: Mas tem?

Madame D.: Sim

Gurdjieff: Então faça um exercício.

Madame D.: Mas eles não estão em Paris.

Gurdjieff: Não importa. Eles estão na Terra, não estão em Marte, então tudo bem. Por exemplo, você pensa no seu irmão. É cumum a pessoa ter muita inimizade com a irmã ou o irmão. É a educação normal de hoje que deseja isso. De outro lado, você faz um exercício. Você representa para si mesma seu irmão. Você com uma foto. Internamente você deseja a ele boa sorte e para sua irmã você deseja um presente suficientemente difícil para que ela possa ter um bom futuro. Faça esse exercício como um bom serviço, como um trabalho e nada mais. Faça isso. [Para Madame E.] Você entende que um mau presente pode dar um bom futuro? Isso parece ser um desejo absurdo. Mas ao mesmo tempo, você entende, mãe, não?

Sr. M.: Sr. Gurdjieff, eu já ouvi várias vezes você usar a expressão: que Deus dispõe de modo que o diabo nos pegue e que o diabo dispõe de modo que Deus nos pegue. Eu gostaria de saber como reconciliar essas duas coisas. E que medidas tomar para saber quando é necessário que Deus nos pegue ou que o diabo.

Gurdjieff: Essa é uma questão objetiva. Você não tem os dados subjetivos para entender essa questão objetiva. É curiosidade. Você tem milhares de questões mais importantes para a sua subjetividade. Isso é objetivo, é cedo demais para você, você não tem em você o fator para entender isso.

[Sr. Gurdjieff fala em russo com Madame de Salzmann.]

Madame de Salzmann: O Sr. Gurdjieff diz que há milhares de questões subjetivas que surgem para você e que você deve resolver antes de perguntar sobre Deus e o diabo. Você não deve interessar-se por essas coisas. É abstrato, é curiosidade.

Gurdjieff: Eu não estou aqui para satisfazer a sua curiosidade, meu tempo é muito caro.

Madame D.: Você poderia por gentileza me aconselhar em como dar uma boa educação para as crianças que são confiadas a nós, tal como somos?

Gurdjieff: Peça a Madame de Salzmann para lhe dar dois capítulos de um livro que escrevi. “Meu pai” e “Meu primeiro professor”. Expliquei neles, brevemente, o que você me pergunta. Esse dois capítulos darão a você uma boa instrução.

Madame D.: Porque eu já mudei minha maneira de ensinar desde que comecei a vir aqui. Mas muitas vezes fico em apuros, acho que notei que as crianças são sensitivas aos esforços que fazemos para a lembrança de si; também, o que posso fazer de melhor é lutar contra as grandes emoções negativas. Parece-me que as crianças são sensíveis a isso.

Gurdjieff: Mil vezes mais do que você. Nas crianças a cristalização ocorre mil vezes mais do que em você. Esse é o perigo de sugerir algo mal a uma criança cuja sensitividade é milhares de vezes mais forte que a sua.

Madame D.: Tenho menos dificuldade de lembrar de mim mesma na classe diante das crianças do que em outros momentos.

Gurdjieff: Suas crianças ainda não emanam.

Madame D.: Parece-me que as crianças estão mais calmas. Antes, quando elas estavam nervosas, eu gritava para acalmá-las. Agora tento ficar calma e por sua vez as crianças ficam mais calmas automaticamente.

Gurdjieff: Você constatou uma boa coisa. Não é o seu ensinamento que importa para o futuro das crianças, são suas emanações. Não para o presente, para o futuro. Você pode apenas ensinar associações automáticas mas suas emanações são importantes e mostram o quanto a educação inconsciente é perigosa.

Madame D: Eu noto que a classe é uma caricatura do professor e que podemos conhecer o professor pela atmosfera de sua classe.

Gurdjieff: Você fez observações muito boas. Observe novamente e você poderá conhecer a si mesma através das crianças. Pense egoisticamente, que por agora você trabalha para você mesma. 'O que eu faço é para ser uma boa altruísta mais tarde. Hoje em dia sou uma merda de altruísta. Quero ser uma boa egoísta para firmar-me sobre meus pés.'

Madame D.: Gostaria de pedir um conselho preciso. Meu menino quer afirmar-se cada vez mais. Ele sempre diz não e está sempre se opondo. Para fazê-lo desistir, tenho dois meios. Ou falando com ele por um longo tempo, para fazê-lo raciocinar, o que nem sempre é possível, ou distraindo-o, dando algo para ele brincar, o que é muito fácil, mas que não me parece muito bom.

Gurdjieff: O segundo jeito é ruim o primeiro é bom. Argumente com ele, usando analogias, as crianças gostam muito de analogias.

Madame D.: Mas é difícil.

Gurdjieff: Isso é outra questão. Você deve fazer isso. O segundo meio você não deve usar. A criança entende muito bem, ela é mais inteligente que os adultos, mas ela precisa de uma lógica bem simples. O que ela entendeu ela não esquece nunca mais.

Madame D.: É muito difícil para nós.

Gurdjieff: Mas é muito fácil para elas. Para nós é muito difícil, mas para a criança é muito fácil entender uma boa explicação. É muito difícil para você explicar porque você teve uma educação ruim. Você foi educada não para ser uma professora, mas para tricotar meias. E agora, eis você, uma professora e eu, tenho furos em minhas meias.

S: Sr. Gurdjieff, sempre fui extremamente negligente.

[discussão sobre a tradução da palavra negligente]

Gurdjieff: Você diz que você é negligente. Mas isso eu sei já faz muito tempo. Diga-nos algo novo.

S: Vejo isso melhor agora e vejo o quanto é sério em todas as áreas. E até agora, embora eu visse isso, não fiz o esforço de lutar contra isso, pois isso me leva para longe. Mas hoje quero lutar, pois essa negligência me leva para longe sempre e pergunto-lhe o que fazer.

Gurdjieff: Fixe uma tarefa para si mesmo relacionada a isso. Como em você esse fator é muito forte, você tem de encontrar uma medida muito forte. Você fuma?

S: Não.

Gurdjieff: Você come?

S: Sim.

Gurdjieff: Então fixe para si uma tarefa relacionada a isso. Não seja negligente. E se você notar que você foi negligente, você dá a sua palavra de que você não comerá a próxima refeição. Até a próxima reunião. Se você lutar contra ela você come. Se não lutar você não come. É a única medida, não há outra.

[Note que se você for o convidado em algum lugar essa regra não conta. É apenas em casa que você não come]

R: Por que as idéias que acreditamos e das quais estamos convencidos não penetram profundamente em nós e permanecem na superfície, não afetam a nossa vida?

Gurdjieff: Porque você está convencido no memento que você fala, mas depois você entra na vida.

R: Mas depois na vida fazemos coisas diferentes das que estamos convencidos. Eu ajo contra o que acredito.

Gurdjieff: Porque você tem uma educação desse tipo. Sua educação é assim. Nós temos dois organismos independentes. Um é o resultado de nossa preparação, o outro é o nosso corpo no início. Esse corpo pode funcionar apenas quando estou relaxado, quieto e sozinho. Quando entro na vida ele fica fraco. Eu não posso mais fazer e é o outro que tem a melhor sobre mim. Eu não consigo fazer o que decidi e é assim que você segue fazendo o que está habituado a fazer. Você tem uma idéia. Antes de manifestar-se na vida, quando você está sozinho na sua casa, você se relaxa e faz um programa, de como você deve se manifestar durante o dia. Então, você sugere a si mesmo a seguir exatamente o seu programa. Você cai, dez vezes, vinte vezes. Nas primeiras vinte vezes você cai. Na vigésima primeira vez você pode fazer o que decidiu quando você estava sozinho. Não há outro jeito por agora. Faça um programa nesse estado que eu aconselhei. Aquiete-se, acalme-se, relaxa-se. Então, para seu futuro próximo, você faz esse programa. Você entra na vida e tenta fazer como você decidiu. Se você fizer isso bem, você dá a si mesmo algo agradável. E se esquecer você pune a si mesmo.

R: Não temos força de vontade para punir a nós mesmos.

Gurdjieff: Você deve acostumar-se. Isso dá força para o futuro. Você luta e essa luta dá resultados pouco a pouco, ela os acumula para você. Você cai uma, dez vezes, mas cada esforço dá resultados, como uma substância que se acumula em você e o resultados dessas acumulações me ajudam a realizar uma decisão consciente. Tudo isso é ordinário. Mas para ter outras coisas, é necessário ter material, é necessário conhecer. É a primeira vez que você vem aqui. Há milhares de outros exercícios. Mas da primeira vez que você vem aqui eu explico de maneira geral, com coisas ordinárias. Há outras coisas a dizer, mas não podemos dizer tudo de uma vez. Há outros exercícios que temos feito mas é necessário ir pouco a pouco. Sua meta é a meta de todos aqui.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

São Teófanes o Recluso - A Guerra contra as Paixões

Existe apenas uma maneira de começar: e é domando as paixões. Essas últimas não podem ser colocadas sob controle na alma exceto através do guardar o coração e através da atenção. Aqueles, portanto, que passam por todos esses estágios na devida ordem, cada um em seu próprio tempo, podem, quando o coração é purificado das paixões, devotarem-se inteira e plenamente a recitar os Salmos e a lutar contra os pensamentos e podem olhar para o céu com seus olhos físicos ou contemplá-lo com os olhos espirituais da alma, orando propriamente em pureza e verdade.
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“Se você deseja obter a vitória sobre as paixões, entre dentro de si mesmo através da oração e da ajuda de Deus, e, então, desça nas profundezas do seu coração e lá trace esse três gigantes poderosos – o esquecimento, a preguiça e a ignorância. São esses três que sustentam as fileiras de adversários espirituais: suportadas por esses três, todas as outras paixões, retornando ao coração, agem, vivem e ganham força nas almas auto-indulgentes e não instruídas. Mas se por meio de grande atenção e persistência da mente e com a ajuda do alto, você descobre esses gigantes que são desconhecidos por muitos, você irá facilmente mandá-los embora com as armas da retidão – com a lembrança do que é bom, com a ânsia que estimula a alma à salvação e com o conhecimento celestial.” (São Marcos, o Monge)
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Se nosso espírito se afastar de Deus, o poder de auto-determinação dado ao homem por Deus também será retirado de nós. Dessa forma um homem não pode mais dominar nem as inclinações da alma ou as necessidades do seu corpo ou os contatos externos. Ele será despedaçado pelos desejos de sua alma e de seu corpo e pela vaidade da vida exterior, embora todas essas coisas no nível superficial pareçam contribuir para seu próprio prazer e felicidade. Compare esses dois estados da vida e você verá que no primeiro o homem vive totalmente dentro de si mesmo diante de Deus e que no segundo o homem está totalmente fora de si mesmo, esquecendo Deus. Esse segundo estado da vida é tornado muito pior pela entrada das paixões que se enraízam no ego e penetram toda a alma e o corpo e dão uma direção maligna a tudo o que está lá, uma direção que não é construtiva, mas sim destrutiva, afastando o homem do caminho do Espírito e do temor a Deus, colocando-o contra a sua consciência. Dessa maneira o homem se torna ainda mais superficial do que antes.
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Dando a si mesmo numa entrega súplice para Deus e Sua graça, chame cada uma das coisas que incitam-lhe ao pecado e tente afastar o seu coração delas, dirigindo-o para o oposto delas. Dessa forma elas serão arrancadas do coração e sua violência irá retroceder. Nessa tarefa, dê livre escopo para seu poder de discernimento e conduza o coração vigiando-o.
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Essa luta contra as forças do mal é absolutamente essencial se queremos dominar nossa vontade. É necessário continuar trabalhando sobre nós mesmos dessa maneira, assim, ao invés de auto-piedade, é nascida em nós uma atitude impiedosa e implacável para com nós mesmos, um desejo de sofrer, de torturar a nós mesmos, de cansar nossa alma e nosso corpo. Isso deve ser continuado até que, em vez de tentarmos agradar os homens, formemos um sentimento de repulsão contra todos os maus hábitos e conexões – até que formemos uma resistência hostil e feroz contra eles, ao mesmo tempo submetendo-nos a todos os maus e depreciações que os homens inflijam a nós. É necessário prosseguir trabalhando até que nosso apetite exclusivamente por coisas materiais, sensórias e visíveis desapareça completamente e seja substituído por um sentimento de desgosto por tais coisas, que em seu lugar comecemos a ansiar e buscar apenas o que é espiritual, puro e divino. Em vez da mundaneidade - a limitação da vida e da felicidade somente à essa Terra – o coração venha a ser preenchido com um sentido de ser apenas um peregrino na Terra, cujo anseio seja totalmente por seu lar celestial.
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Após o despertar inicial através da graça, o primeiro passo cabe ao livre arbítrio do homem. Exercendo esse livre arbítrio, ele viaja para dentro de si mesmo de três maneiras. Primeiro, sua vontade inclina-se para o que é bom e escolhe isso. Na segunda, ela remove os obstáculos: para desatar as amarras que o atam ao pecado, ela bane do seu coração a auto-piedade, o desejo de agradar os homens, a inclinação pelas coisas sensórias e mundanas e em seu lugar ela incita a impiedosidade para com ele mesmo, a ausência de desejo por coisas dos sentidos, a aceitação de todo tipo de desgraça. Ela o faz sentir que seu verdadeiro lar está no mundo vindouro, enquanto que aqui ele é apenas um errante e um exilado. Em terceiro lugar, o livre arbítrio é inspirado a prontamente enveredar pelo caminho correto, não permitindo auto-indulgência e fazendo o homem manter-se constantemente em alerta. Dessa forma tudo se acalma na alma. Incitado pela graça, o homem é libertado de todas as algemas e com total prontidão diz para si mesmo: vou erguer-me e seguir adiante.
A partir desse momento outro movimento se inicia na alma – um movimento na direção de Deus. Tendo dominado a si mesmo através da compreensão dos motivos de todas as suas inclinações e assim reconquistando a liberdade interior, ele deve agora sacrificar-se por completo para Deus. Ainda assim, apenas metade do trabalho foi alcançado.
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A guerra contra as paixões que é requerida de nós é essencialmente uma guerra da mente. Nós obtemos êxito nela ao negar todo alimento para as paixões e assim matando-as de fome. Mas há também a guerra da ação, que consiste em deliberadamente empreender e realizar o que é diametralmente oposto às nossas paixões. Por exemplo, para conquistar a avareza deveríamos distribuir dinheiro livremente; para lutar contra o orgulho deveríamos escolher algumas ocupações degradantes, para superar um anseio por divertimento deveríamos ficar em casa e assim por diante. É verdade que esse método usado sozinho não conduz diretamente à meta, pois quando suprimida a paixão pode forçar sua entrada ou retirar-se para dar lugar a alguma outra paixão. Mas quando essa luta ativa une-se com a interior, as duas juntas rapidamente tonam-se aptas a superar qualquer ataque das paixões.
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Se a batalha é conduzida apenas internamente ela expulsa a paixão da consciência do homem, mas a paixão ainda permanece viva, embora não esteja em evidência. Mas a oposição ativa apunhala essa cobra bem na cabeça. Isso não significa que a luta interna deveria ser abandonada. Ela deveria permanecer constante, de outro modo a luta poderá ser infrutífera e nossa inclinação às paixões poderá até aumentar em vez de diminuir. Se abandonarmos a batalha interna, poderemos descobrir que enquanto lutamos com uma paixão, uma outra nos cliva: por exemplo, nós expulsamos a glutonia com o jejum e então a vanglória assume o seu lugar. Se falhamos em dar a devida atenção à batalha interior, nenhum esforço, não importa o quão enérgico, dará frutos. A batalha interna aliada à oposição ativa às paixões ataca-as igualmente de dentro e de fora e assim destrói-nas tão rapidamente quanto um inimigo é destruído quando e cercado e atacado pela frente e pelas costas.
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De modo a impedir seus pensamentos de vagarem, você deveria adquirir um sentimento de estar constantemente com Deus no coração. Assim não haverá espaço para pensamentos estrangeiros. Para parar de condenar o outros você deveria tornar-se profundamente consciente da sua própria pecaminosidade e afligir-se a respeito dela, lamentando por sua alma como se ela estivesse morta. Como foi dito: com um dos seus morto em casa você não se preocupará com o funeral de outra pessoa.
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É dito que a vaidade é um ladrão interno que está mancomunado com ladrões de fora. Ela abre a porta e as janelas para eles, eles entram e causam grande devastação internamente. Quem sabe? Talvez o período de trevas que você experimentou e que o abandonou assim que você orou é uma fraude do inimigo para engendrar pensamentos de vaidade – para fazê-lo dizer para si mesmo: 'Como sou bom na oração! No momento em que oro todos os demônios se afugentam!' Atente-se: se pensamentos de vaidade vêm a você após a oração, isso mostra que o inimigo está tentando aguçar o seu orgulho.
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Torne uma regra nunca encorajar de bom grado qualquer pensamento, sentimento ou desejo proveniente das paixões e manda-los embora com aversão assim que você os notar. Dessa forma você será sempre inocente perante Deus e sua consciência. Você ainda terá a impureza da paixão em você mas também terá inocência.
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“Não deixai o sol se pôr sobre vossa ira, nem dai lugar ao diabo” (efé.4:26-27)
O diabo não tem acesso à alma, a alma não abriga ela mesma nenhuma paixão. Em tal estado ela é transparente e o diabo não pode vê-la. Mas quando ela admite o movimento de uma paixão e consente esse movimento, ela escurece e o diabo a vê. Ele aproxima-se dela audaciosamente e assume controle sobre ela. Duas paixões malignas principalmente perturbam a alma – a luxúria e a irritabilidade. Quando o diabo consegue aprisionar alguém através da luxúria, ele o deixa sozinho em seu turbilhão: o diabo não lhe incomoda mais, exceto talvez para perturbar-lhe um pouco com a raiva. Mas se um homem não adere à luxúria, o diabo apressa-se em incitar-lhe à raiva e reúne ao redor dele um número de coisas irritantes. Um homem que falha em discernir as artimanhas do diabo permite-se ficar irritado com qualquer coisa, permitindo que a raiva o domine, então ele 'dá lugar ao diabo'. Mas um homem que abafa toda explosão de raiva resiste ao demônio e repele-o e não dá lugar a ele dentro de si mesmo. A raiva 'dá lugar ao diabo', assim que ela é considerada como algo justo e sua satisfação é sentida ser legítima. Então o inimigo imediatamente entra na alma e começa a sugerir pensamentos, cada um mais irritante que o outro. O homem começa a inflamar-se com a raiva como se estivesse em chamas. Esse é o fogo do inferno, mas o pobre homem pensa que está queimando com zelo pela retidão, enquanto, nunca há retidão e justeza na ira (thiago 1:20). Essa é a forma de ilusão peculiar à ira, assim como há uma outra forma peculiar de ilusão para a luxúria. Um homem que rapidamente supera a ira dispersa essa ilusão e assim repele o diabo como se lhe desse um forte golpe no peito. Existe alguém que, após extinguir sua raiva e analisar todo o assunto de boa fé, não percebe que que havia algo errado na base de sua irritação? Mas o inimigo transforma o errado em um sentido de auto-retidão e transforma-o numa montanha tal, que parece como se o mundo todo despedaçaria se nossa indignação não fosse atendida.
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Vamos nos lembrar da maneira na qual as tentações do inimigo agem. O golpe da espada do inimigo é a introdução de um pensamento no coração: e diabo espera que o coração responda a ele e baseando-se nessa suposição continua a desenvolver uma tentação forte. Por exemplo, você pensa numa pessoa que lhe ofendeu: esse é o golpe da espada do inimigo. Quando o coração responde a esse pensamento ao abrigar um sentimento desagradável para com o ofensor, isso significa que a espada penetrou até a alma e feriu-a. Imediatamente o inimigo envolve a alma e desperta uma tempestade de inimizade e vingatividade. Mas quando o coração está sempre pronto para perdoar as ofensas, mantendo-se num estado de serena humildade e paz para com todos, não importa o quão vividamente o inimigo apresente uma idéia sobre o ofensor à alma, não haverá resposta no coração e desse modo o inimigo não terá nenhuma abertura pela qual introduzir sua tentação. O golpe de sua espada irá recochetear do coração como de um guerreiro vestido com uma armadura.