sábado, 17 de outubro de 2009

Jalaluddin Rumi - Onde e Por que nós vamos


Você é mais lindo que a alma,
mais útil que os olhos, o que quer que eu

tenha visto em mim mesmo, eu não conseguia ver.
Você viu. Você me escolheu. Digo este

poema para honrar essa escolha. Eu escolho
deitar num caixão em chamas!

Pergunto aos meus olhos: "Por que vocês vagueiam?" Pergunto
para minhas costas: "por que se curvam?" Pergunto a minha alma:

"Por que você usa sapatos de ferro no caminho?"
Também pergunto a minha alma se ela encontrou outro

como você ou se escutou sobre tal coisa em
alguma linguagem. Você é o sol dissolvendo

nuvens carregadas, a fragrância do campo,
José adentrando nesta sala. Descascando

laranjas, vimos você e cortamos nossas mãos.
Sem tocar o chão, você desenha uma linha.

Nós seguimos esse caminho. Você é por que
e onde nós vamos e o que fazemos lá.

Bhagavan Ramana Maharshi - Descubra o 'eu'

Pergunta: Começo a perguntar-me 'Quem sou eu?', elimino o corpo como não sendo 'eu', a respiração como não 'eu', e não consigo ir adiante.
Bhagavan: Bem, isso é o mais longe que o intelecto pode ir. O processo é apenas intelectual. De fato, todas as escrituras mencionam o processo apenas para guiar o buscador para conhecer a verdade. A verdade não pode ser apontada diretamente. Daí esse processo intelectual.
Você vê, aquele que elimina tudo que não é o 'eu' não pode eliminar o 'eu'. Para dizer 'eu não sou isso' ou 'eu sou aquilo' deve haver o 'eu'. Esse 'eu' é apenas o ego ou o pensamento-'eu'. Após o surgimento desse pensamento-'eu', todos os outros pensamento surgem. O pensamento-'eu' é portanto o pensamento-raiz. Se a raiz for arrancada todos os outros serão automaticamente arrancados ao mesmo tempo. Portanto, busque o 'eu' raiz, questione-se: 'Quem sou eu?'. Descubra a fonte dele, e então todas essas outras idéias irão se esvair e o puro Ser permanecerá.
P: Como fazer isso?
B: O 'eu' está sempre ali – no sono profundo, no sono com sonhos e durante o estado de vigília. Aquele no sono é o mesmo que aquele que fala agora. Há sempre o sentimento de 'eu'. Caso contrário, você nega sua existência? Você não nega. Você diz 'eu sou'. Descubra quem é.
P: Eu medito neti-neti (não isso – não aquilo).
B: Não – isso não é meditação. Descubra a fonte. Você deve alcançar a fonte sem falha. O falso 'eu' irá desaparecer e o 'eu' real será percebido. O falso 'eu' não pode existir sem o 'eu' real.
Existe agora a identificação errônea do Ser com o corpo, com os sentidos, etc. Você prossegue descartando esses, isso é neti (não sou isso). Isso pode ser feito apenas ao segurar-se naquele que não pode ser descartado. Esse é iti (aquele que é).
P: Quando eu penso 'Quem sou eu?', a resposta vem 'não sou esse corpo mortal, mas sou chaitanya, atma (consciência, o Ser)'. E repentinamente outra pergunta surge, 'por que atma vem para Maya (ilusão)?' ou em outras palavras: 'Por que Deus criou este mundo?'
B: Perguntar 'Quem sou eu?' significa realmente tentar descobrir a fonte do ego ou do pensamento-'eu'. Não é para você pensar em outras coisas, como 'eu não sou o corpo'. Buscar a fonte do 'eu' serve como um meio de se livrar de todos os outros pensamentos. Não deveríamos dar escopo para outros pensamentos, tais como os que você mencionou, mas devemos manter a atenção fixada em descobrir a fonte do pensamento-'eu' ao questionar, conforme cada pensamento que surge, para quem o pensamento surge. Se a resposta for 'eu tenho o pensamento' continue a inquirição perguntando 'quem é esse “eu” e qual é a sua fonte?'
P: Devo meditar no 'Eu sou Brahman' (aham brahmasmi)?
B: A escritura não tem a intenção de fazer você pensar 'eu sou brahman'. Aham ('eu') é conhecido por todo mundo. Brahman habita como aham em todos. Descubra o 'eu'. O eu já é Brahman. Você não precisa pensar isso. Simplesmente encontre o 'eu'.
P: As Sastras (escrituras) não mencionam sobre descartar os invólucros (neti-neti)?
B: Após o surgimento do pensamento-'eu' ocorre a falsa identificação do 'eu' com o corpo, com os sentidos, com a mente, etc. O 'eu' está associado erroneamente com eles e o verdadeiro 'eu' é perdido de vista. Para peneirar o puro 'eu' do 'eu' contaminado, é mencionado esse processo de descartamento. Mas isso não significa exatamente o descartamento do não-Ser, significa encontrar o Ser real. O Ser real é o 'eu' infinito. Esse 'Eu' é a perfeição. É eterno. Não tem origem e nem fim. O outro 'eu' nasce e também morre. Ele é impermanente. Veja a quem os pensamentos cambiantes pertencem. Será descoberto que eles surgem após o pensamento-'eu'. Segure o pensamento-'eu' e eles irão retroceder. Trace de volta para a origem do pensamento-'eu'. O Ser apenas irá sobrar.
P: É difícil seguir. Entendo a teoria. Mas qual é a prática?
B: Os outros métodos são destinados para aqueles que não podem seguir a investigação do Ser. Mesmo para repetir Aham Brahmasmi ou pensar nisso, um fazedor é necessário. Quem é ele? É o 'eu'. Seja esse 'eu'. É o método direto. Os outros métodos também finalmente irão levar todos a esse método da investigação do Ser.
P: Estou ciente do 'eu'. Ainda assim meus problemas não estão acabados.
B: Esse pensamento-'eu' não é puro. Ele está contaminado com a associação com o corpo e os sentidos. Veja para quem são os problemas. São para o pensamento-'eu'. Segure-o. E então os outros pensamentos se esvaem.
P: Sim. Como fazer isso? Esse é o problema todo.
B: Pense 'eu, eu', segure-se nesse único pensamento até a exclusão de todos os outros
P: Soham ( a afirmação 'eu sou Ele') é a mesma coisa que 'Quem sou eu?'
B: Aham ('eu') apenas é comum entre eles. Um é soham. O outro é Koham (quem sou eu?). Eles são diferentes. Por que deveríamos seguir dizendo soham? Devemos encontrar o 'eu' real. Na pergunta 'quem sou eu?', o 'eu' refere-se ao ego. Ao tentar traçá-lo e encontrar a fonte dele, vemos que ele não tem existência separada mas funde-se no 'eu' real.
Você vê a dificuldade. Vichara é diferente em método da meditação Shivoham ou soham ('eu sou shiva' ou 'eu sou Ele'). Eu prefiro colocar ênfase no Autoconhecimento, pois você está primeiro preocupado com você mesmo antes que você prossiga para conhecer o mundo e Seu Senhor. A meditação Soham ou a meditação 'eu sou Brahman” é mais ou menos um pensamento mental. Mas a busca pelo Ser de que eu falo a respeito é um método direto, de fato superior às outras meditações. No momento em que você começa a procurar pelo Ser e vai cada vez mais fundo, o Ser real está lhe esperando lá para colocá-lo para dentro. Então, o que quer que seja feito é feito por algo mais e você não tem participação nisso. Nesse processo, todas as dúvidas e discussões são abandonadas automaticamente assim como alguém que dorme, por certo tempo, esquece todas as suas preocupações.
P: Que certeza há de que algo me espera lá para me recepcionar?
B: Quando a pessoa é uma alma suficientemente desenvolvida (pakvi) ela fica convencida naturalmente.
P: Como é possível o desenvolvimento?
B: Várias respostas são dadas. Mas qualquer que tenham sido os desenvolvimentos prévios, o vichara acelera o desenvolvimento.
P: Isso é discutir em círculo. Eu sou desenvolvido, então me adequo para a busca mas a própria busca faz com que eu me desenvolva.
B: A mente tem sempre esse tipo de dificuldade. Ela quer uma certa teoria para satisfazer-se. Realmente, nenhuma teoria é necessária para o homem que seriamente deseja se aproximar de Deus ou realizar seu próprio ser verdadeiro.
P: Sem dúvida o método ensinado por Bhagavan é direto. Mas é tão difícil. Não sabemos como começar. Se prosseguimos dizendo 'quem sou eu?, quem sou eu?' como um japa (repetição do nome de Deus) ou um mantra, isso se torna enfadonho. Em outros métodos há algo preliminar e positivo com o qual podemos começar e então seguir passo a passo. Mas no método do Bhagavan, não há tal coisa, e procurar o Ser de uma vez, embora seja direto, é difícil.
B: Você mesmo admite que ele é o método direto. É o método fácil e direto. Quando ir atrás de outras coisas que são externas a nós é tão fácil, como pode ser difícil para a pessoa ir para seu próprio Ser? Você fala sobre 'onde começar?' Não há começo e nem fim. Se você está aqui e o Ser está em algum outro lugar e você tem que chegar até esse Ser, pode lhe ser dito como começar, como viajar e então como chegar. Suponha que você que está agora aqui no Ramanashram pergunte: 'eu quero ir para o Ramanashram. Como começar e como chegar lá?', o que diremos? A busca de um homem pelo Ser é como esse exemplo. Ele é sempre o Ser e nada mais. Você diz que 'quem sou eu?' se torna um japa. Não é pretendido que você deveria seguir dizendo 'quem sou eu?' Nesse caso, ao perguntar-se 'quem sou eu?', lhe é dito para concentrar-se dentro de si mesmo, aonde o pensamento-'eu', a raiz de todos os outros pensamentos, surge. Como o Ser não está fora mas sim dentro de você, pede-se para que você mergulhe internamente, em vez de ir para fora. O que pode ser mais fácil do que ir para você mesmo? Mas permanece o fato de que para alguns esse método parecerá difícil e não os atrairá. É por isso que tantos métodos diferentes têm sido ensinados. Cada um deles irá atrair alguns como sendo o método mais fácil e melhor. Isso está de acordo com seu pakva ou aptidão. Mas para alguns, nada além do vichara marga (o caminho da inquirição) irá atraí-los. Eles irão perguntar, 'você quer que eu saiba ou veja isso ou aquilo, mas quem vê, quem é o sabedor?' Em qualquer outro método que seja escolhido, sempre haverá um fazedor. Disso não se pode escapar. Devemos descobrir quem o fazedor é. Até lá, o sadhana não pode ser terminado. Então, eventualmente, todos tem de vir a descobrir 'quem sou eu?' Você reclama que não há nada preliminar ou positivo com o que começar. Você tem o 'eu' para começar. Você sabe que você existe sempre, enquanto que o corpo não existe sempre, como por exemplo no sono profundo. O sono revela que você existe mesmo sem um corpo. Nós identificamos o 'eu' com um corpo, nós consideramos o Ser como tendo um corpo, e como tendo limites e daí vêm todos os nossos problemas. Tudo o que temos de fazer é deixar de identificar o Ser com o corpo, com formas e limites, e então conheceremos a nós mesmos como sendo o Ser que sempre fomos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

G. I. Gurdjieff - Paris, 18 de setembro de 1943

[Sr. Gurdjieff pede àqueles que haviam retornado das férias para darem um depoimento a respeito de seu trabalho interior]
Sra. Franc: Fiz os dois exercícios que você nos deu durantes as férias, o exercício da divisão em dois (divisão entre 'eu' e o organismo) e o das sensações de calor, frio, e das lágrimas. Não posso dizer que tive muito resultado com esses exercícios, mas tive um resultado na compreensão. Quanto ao da divisão em dois, não posso dizer que consegui fazê-lo, mas o trabalho me deu um centro de gravidade na cabeça. Isso mudou muitas coisas para mim e me permitiu o desidentificar-me um pouco do meu corpo; e agora consigo ver mais claramente no meu trabalho. Sei melhor o que estou fazendo e como devo fazer o trabalho. Isso mudou os valores.
Gurdjieff: Já entendi que você tinha uma personalidade. Agora você sente em si algo, uma separação. O corpo é uma coisa e você é outra coisa.
Sra. Franc: Isso é o que sinto, e é algo que julga.
Gurdjieff: Você deve parabenizar-se. Estou contente com todo meu ser. Isso é a primeira coisa. Sem isso você jamais pode continuar. Sem isso, por dez anos, cem anos, seu trabalho será apenas titilação.
Sra. Franc: Parece-me que alguma coisa foi superada.
Gurdjieff: Agora você deve fixar isso. Você deve nutrir a criança para que ela possa crescer. Dê a ela um bom leite, alguns ovos, tudo o que é necessário para uma criança. Quando ela for um jovem garoto, estará apto a falar e eu conseguirei entendê-lo. Para mim seu depoimento já basta.
Sra. Franc: Gostaria de lhe falar também que o exercício nas sensações me mostrou que eu estava vivendo em imaginação, pois noto que é apenas quando experimento alguma coisa organicamente que aquilo é real; mas não consigo concentrar-me o bastante na figura da imagem.
Gurdjieff: Em geral essa é sua fraqueza. Não é necessário falar disso. Já é algo subjetivo. Agora se eu explicar algo, você pode entender. Antes você não podia entender nada. Na primeira vez você se ofendeu. E se eu digo algo para você agora você pode entender.
Mechin: Eu tentei continuar o exercício da divisão em dois e vendo que eu não conseguia ter sucesso nele, pensei que isso acontecia porque o 'eu' em mim não era forte o bastante. Toda a minha atenção estava movida para o 'eu sou' e, de fato, isso desenvolveu pouco a pouco uma sensação muito mais forte do 'eu', que eu nunca tinha tido. Eu constatei de fato que isso mudou todos os valores para mim, que o que eu tinha entendido teoricamente até então, eu entendo de uma maneira diferente agora, e isso me fez entender também muitos problemas, o que fixou em mim a necessidade de a partir deste momento desempenhar um papel*. Mas como durante as férias eu estava sozinho no papel que eu tinha a desempenhar, tinha de atuá-lo com meus pais e acima de tudo com minha mãe; era aí que eu tinha dificuldade. Eu constatei que eu era completamente incapaz de desempenhar um papel, que isso era impossível.
Gurdjieff: Você entendeu o que significa desempenhar um papel; você entendeu que valor isso tem para você, você sentiu o gosto disso? Bravo!
Mechin: Então, lutei para fazer o exercício da divisão. Tentei entendê-lo e um dia ao passar na frente de um espelho, fiquei muito surpreso ao ver que eu me vi como um estranho. Pensei que eu deveria fazer uso dessa evidência para fazer o exercício; depois, ao fazer o exercício eu me vi como havia me visto no espelho; tinha tido apenas uma imagem fria sem vida. Vi um corpo sem vida e tentei estabelecer relações com meu corpo real. Ao tentar fazer isso, pareceu-me que isso deu-me antecipadamente um gosto do que deve ser a divisão. Senti que temos de fazer isso.
Gurdjieff: É o bastante, você nasceu. Sua individualidade nasceu. Antes você era como um animal sem 'eu'. Agora você tem um 'eu' e as propriedades de um homem. Esse exercício lhe deu isso. Antes você não tinha individualidade, você era o resultado do seu corpo, como um cachorro, ou um gato, ou um camelo. Agora você tem chifres**, você pode vê-los e se surpreender com eles. Antes você não podia ver nada. Você tem agora uma individualidade que você não tinha. [endereçando-se aos outros alunos] Ele adquiriu uma individualidade. Antes ele não tinha nenhuma. Ele era um pedaço de carne. Ele poderia ter trabalhado por mil anos que nunca teria tido nenhum resultado. Você é camarada da Sra. Franc. Ambos tornaram-se iniciados na primeira iniciação. É uma coisa pequena mas é algo grande, uma garantia para o futuro. Parabenizo você também. Pela primeira vez em três anos estou feliz internamente. Estou feliz por meus esforços. Porque não é por acaso que aqui já há dois. Você não está mais desposado, não é mais Mechin, você é meu irmão caçula, [para Sra. Franc] você é minha irmã. Falaremos em particular depois.
Gurdjieff [para Yette]: Você não está feliz?
Yette: Sim, e posso dize que o que Sra. Franc disse parecia eu mesma estar falando, pois por algum tempo há algo completamente novo em mim e há também um medo de ver isso desaparecer. Porque de maneira geral, salvo em raros momentos, houve algo em mim que não estava ali anteriormente, essencialmente, algo na minha cabeça, algo que eu senti na minha cabeça onde eu me apoiava e que me separa do resto, que é distinto do corpo, de tudo o que eu sou, do meu sentimento.
Gurdjieff: Você pode dizer talvez, que você é uma coisa e seu corpo outra coisa. Antes você não podia dizer isso com muita sinceridade.
*(O Sr. Gurdjieff instruía seus alunos a nunca demonstrarem externamente que internamente eles estavam fazendo um trabalho interior, ou o trabalho sobre si mesmos. Ele chamava isso de atuar um papel. Internamente a pessoa estava tentando estar desperta, tentando não se identificar, mas externamente ela se comportava como de costume, como costumava se comportar antes de começar a fazer o trabalho)
** Para a melhor compreesão desse termo usado pelo Sr. Gurdjieff é recomendado a leitura do livro: "Relatos de Belzebu a Seu Neto"

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Hazrat Inayat Khan - A linguagem cósmica - O ego

Quando pensamos nesse sentido de 'eu', esse sentimento, ou essa inclinação que nos faz afirmar a palavra 'eu', percebemos que é difícil apontar o que esse 'eu' é, qual é o seu caráter. Pois ele é algo que está além da compreensão humana. É por isso que uma pessoa que deseja explicar, mesmo que para si mesma, o que ela é, aponta para o que está mais perto de si e declara: "Esse é quem tenho chamado de 'eu'". Portanto cada alma que, por assim dizer, identificou-se com alguma coisa, identificou-se com o corpo, seu próprio corpo, pois é a coisa que a pessoa sente e percebe ser imediatamente mais próxima a ela, e a qual é inteligível com o próprio ser dela.
Então, a primeira coisa que uma pessoa reconhece como ela mesma é o seu corpo. Ela chama a si mesma de seu corpo, ela identifica a si mesma com seu corpo. Por exemplo, se alguém pergunta a uma criança: 'cadê o nenê?', ele irá apontar para seu corpo. É isso que ele pode ver ou imaginar de si mesmo.
Isso forma uma concepção na alma. A alma conhece isso profundamente, de maneira que após essa concepção todos os outros objetos, pessoas ou seres, cores ou linhas, são chamados por diferentes nomes e a alma não os concebe como sendo ela mesma, pois ela já tem uma concepção de si mesma: este corpo, que ela conheceu ou imaginou primeiramente ser ela mesma. Tudo o mais que ela vê, ela vê através de seu veículo que é o corpo, e chama algo próximo a ela, de algo separado e diferente.
Dessa maneira a dualidade na natureza é produzida. Disso surge o 'eu e você'. Mas como o 'eu' é a primeira concepção da alma, ela está totalmente preocupada com esse 'eu'; com todo o resto ela está apenas parcialmente preocupada. Todas as outras coisas que existem, à parte este corpo que ela reconheceu como seu próprio ser, são consideradas de acordo com sua relação com este corpo. Essa relação é estabelecida ao chamá-las 'meu' ou 'minha', aquilo que está entre 'eu' e 'você': 'Você é “meu” irmão', ou “minha” irmã, ou “meu” amigo'. Isso cria um relacionamento e de acordo com esse relacionamento o outro objeto ou pessoa permanece mais perto ou mais longe da alma.
Todas as outras experiências que a alma tem no mundo físico e nas esferas mentais tornam-se uma espécie de mundo ao redor dela. A alma vive no meio dele, ainda assim a alma em nenhum momento tem com coisa alguma o sentimento de que isso sou 'eu'. Esse 'eu' ela reservou e aprisionou numa única coisa: o corpo. Todas as outras coisas, a alma pensa que é algo mais, algo diferente: 'Está perto de mim, é querido a mim, está próximo a mim, porque está relacionado. É meu, mas não sou eu'. O 'eu' permanece como uma entidade separada, segurando, atraindo, coletando tudo que a pessoa obteve e que constitui seu próprio mundo.
Conforme tornamo-nos mais contemplativos na vida, também essa concepção de 'eu' enriquece. Torna-se mais rica desta maneira, fazendo com que a pessoa veja: 'Não é “meu” apenas o corpo, mas também são “meus” os pensamentos que tenho, a imaginação é “minha” imaginação, meus sentimentos também são parte do meu ser. Portanto, não sou apenas o meu corpo, sou minha mente também.'
No próximo passo que a alma dá no caminho em direção à realização, ela começa a sentir: 'Eu não sou apenas um corpo físico, mas também uma mente.' Essa realização em seu esplendor faz a pessoa declarar: 'Eu sou um espírito', que significa: corpo, mente e sentimento, todos juntos com os quais eu identifico a mim mesma – são esses que constituem o ego.
Quando a alma segue adiante no caminho do conhecimento ela começa a descobrir: 'Sim, há algo que sente a si mesmo, que sente a inclinação de chamar a si mesmo de “eu”'. Existe um sentimento de 'eu' (I'ness), mas ao mesmo tempo tudo aquilo com o que a alma se identifica não é ela mesma. No dia em que essa idéia brota no coração de um homem, ele iniciou sua jornada no caminho da verdade. Então a análise começa e ele começa a descobrir: 'Quando esta é “minha” mesa e esta “minha” cadeira, tudo o que posso chamar de meu pertence a mim, mas não sou eu realmente'. Então ele também começa a ver: 'Eu me identifico com este corpo, mas este é o “meu” corpo, assim como digo “minha” mesa, ou “minha” cadeira, portanto o ser que está dizendo “eu” na realidade está separado. Ele é algo que pegou até mesmo este corpo para seu uso; este corpo é apenas um instrumento'. E ele pensa: 'Se não é este corpo que eu posso chamar de “eu”, então o que mais posso chamar? É com a minha imaginação que eu deveria me identificar?' Mas até mesmo isso a pessoa chama de 'minha' imaginação, 'meu' pensamento ou 'meu' sentimento. Portanto, mesmo o pensamento, a imaginação, ou o sentimento não são o 'Eu' real. O que afirma 'eu' permanece o mesmo, mesmo após ter descoberto a falsa identidade.
Lemos no décimo pensamento Sufi que a perfeição é alcançada através da aniquilação do ego. O falso ego é aquilo que não pertence ao ego real e aquilo que esse ego erroneamente concebeu ser o seu próprio ser. Quando isso é separado ao analisarmos a vida melhor, então o falso ego é aniquilado. A pessoa não precisa morrer para isso. De modo a aniquilar este corpo, aniquilar esta mente, uma pessoa tem de analisar a si mesma e ver: 'Aonde fica o “eu”? Ele fica como um ser remoto, exclusivo? Se ele é um ser remoto e exclusivo então ele deve ser encontrado'. Todo o processo espiritual consiste em encontrá-lo.
Uma vez que isso é realizado, o trabalho do caminho espiritual está feito. Da mesma maneira que para que os olhos vejam a si mesmos é necessário fazer um espelho para vermos o reflexo dos olhos, também para fazer esse ser real manifestar-se, este corpo e mente foram feitos como um espelho: para que nesse espelho esse ser real possa ver a si mesmo e realizar seu ser independente. O que temos de alcançar através do caminho da iniciação, através do caminho da meditação, através do conhecimento espiritual é dar-se conta ao nos tornarmos um espelho perfeito.
Para explicar essa idéia os faquires e dervixes contaram uma história. Um leão vagando pelo deserto encontrou um filhote de leão brincando com as ovelhas. Aconteceu que aquele leãozinho havia sido criado com as ovelhas e assim nunca teve a chance ou a oportunidade de dar-se conta do que ele era. O leão ficou muito surpreso ao ver o jovem leãozinho fugindo com o mesmo medo dele que as ovelhas. Ele pulou entre o rebanho das ovelhas e rugiu: 'Pare, pare', mas as ovelhas correram e o leãozinho também. O leão perseguia apenas o leãozinho, não as ovelhas, e disse: 'Espere, quero falar com você'. O filhote respondeu: 'eu tremo, tenho pavor, não posso ficar diante de você'. 'Por que você está fugindo por aí com as ovelhas? Você é um pequeno leão!' 'Não, sou uma ovelha. Eu tremo, e tenho pavor de você. Deixe-me ir. Deixe-me ir com as ovelhas!' 'Venha comigo', disse o leão, 'venha comigo'. 'Vou te levar e te mostrar o que você é antes de deixar você ir'. Tremendo e ainda indefeso, o leãozinho seguiu o leão para um espelho d'água. Lá o leão disse: 'Olhe para mim, e olhe para você. Não somos próximos, não somos parecidos? Você não é como as ovelhas, você é como eu'.
Por todo o processo espiritual o que aprendemos é a desiludir esse falso ego. A aniquilação desse falso ego é a sua desilusão. Uma vez que ele é tirado dessa ilusão, então o verdadeiro ego realiza seu próprio mérito. É nessa realização que a alma entra no reino de Deus. É nessa realização que a alma é nascida novamente, um nascimento que abre as portas do céu.

Pergunta: O verdadeiro Ser tem que ter mente e corpo para poder estar consciente de si mesmo?
Inayat: O verdadeiro Ser não precisa ter mente e corpo para sua existência. Ele não depende da mente e do corpo para sua existência, para sua vida, assim como os olhos não precisam do espelho para existirem. Eles apenas dependem do espelho para verem seu reflexo. Sem ele os olhos veriam todas as coisas, mas nunca veriam a si mesmos.
Outro exemplo é a inteligência. A inteligência não pode conhecer a si mesma a menos que ela tenha algo inteligível para segurar; então a inteligência dá-se conta de si mesma. Uma pessoa com um dom poético que nasceu um poeta, jamais realiza a si mesmo como sendo poeta até que coloque sua idéia no papel, e que seu verso faça ressoar um acorde em seu próprio coração. Quando ele está apto a apreciar sua poesia, é que então ele pensa: 'eu sou um poeta'. Até então, havia um dom da poesia nele, mas ele não o conhecia.
Os olhos não se tornam mais poderosos ao olhar no espelho. Apenas os olhos sabem como eles são quando vêem seu reflexo. O prazer está em dar-se conta de nossos méritos, nossos dons, do que possuímos. É em dar-se conta que está o mérito. Sem dúvida seria uma grande pena se os olhos pensassem: 'Estamos tão mortos quanto este espelho', ou se ao olhar no espelho eles pensassem: 'nós não existimos exceto no espelho'. Portanto, o falso ser é a maior limitação.
Pergunta: Nosso Murshid (mestre) não é nosso espelho?
Inayat: Não. O Murshid fica no lugar do leão da fábula. Mas o espelho d'água é necessário.
Pergunta: Embora a alma sinta ser diferente dos outros corpos, ela não se sente uma com Deus?
Inayat: Nem mesmo com Deus. Como poderia? Como pode uma alma que está presa na falsa concepção, que não pode ver uma barreira levantada entre ela mesma e seu próximo, levantar a barreira para Deus, o Qual ela ainda não conheceu? Pois toda a crença da alma em Deus, afinal, é uma concepção – porque foi ensinada por um padre, porque está escrito numa escritura, porque os pais disseram que existe um Deus, mas ela está sempre sujeita a mudar sua crença, e infelizmente quanto mais ela avança intelectualmente, mais distante ela fica daquela crença. Uma crença que uma inteligência pura não possa manter sempre não irá longe com a pessoa. É através da compreensão dessa crença que o propósito da vida é cumprido. É dito no Gayan: 'O descobrimento da alma é o descobrimento de Deus'.
Pergunta: Como o Ser real recusa o corpo e a mente na morte?
Inayat: Não é fácil para o Ser real recusar a mente e o corpo, quando uma pessoa não pode recusar durante a vida seus pensamentos de depressão, tristeza e desapontamento. As impressões das felicidades e das tristezas no passado que a pessoa mantém em seu coração: preconceito e ódio, amor e devoção, tudo o que tenha ido fundo nela mesma. Se esse é o caso, nem mesmo a morte pode levá-las embora. Se o ego mantém sua prisão em torno de si, ele leva essa prisão com ele, e existe apenas uma maneira de ele ser livrado disso, e é através do autoconhecimento.
Pergnta: A pessoa identifica-se com seu corpo mental imediatamente após a morte, ou ainda identifica-se com o corpo morto?
Inayat: O corpo mental é assim como o corpo morto. Não há diferença, pois um é construído no reflexo do outro. Por exemplo, a pessoa não se vê diferente no sonho quando a mente está numa condição normal. Se a mente está anormal a pessoa pode ver-se como uma vaca, ou um cavalo, ou qualquer coisa. Mas se a mente está normal a pessoa não pode se ver diferente daquilo que conhece como sendo ela. Portanto, o ser mental é aquele mesmo que a pessoa vê no sonho. No sonho a pessoa não vê a perda do corpo físico. Ela está correndo, comendo ou apreciando no sonho; não percebe a ausência do corpo físico. É a mesma coisa após a morte. A outra vida não depende de um corpo físico para ser experimentada totalmente. A esfera em si é perfeita e a vida é experimentada perfeitamente.
Pergunta: O ego é destruído completamente pela aniquilação?
Inayat: O ego em si nunca é destruído. Ele é a única coisa que vive, e esse é o sinal da vida eterna. No conhecimento do ego está o segredo da imortalidade. Quando é dito no Gayan: 'A morte morre, e a vida vive', é o ego que é a vida, e é a sua falsa concepção que é a morte. O falso deve se esvair algum dia; o real deve ser sempre. Assim é com a vida: o verdadeiro ser vivo é o ego, ele vive. Todo o resto que ele emprestou para seu uso dos diferentes planos e esferas, dentro dos quais ele se perdeu, tudo isso é colocado de lado. Não vemos isso com nosso próprio corpo? Coisas que não pertencem ao corpo não permanecem nele, no sangue, nas veias, em qualquer parte. O corpo não irá mantê-las, irá repeli-las. Da mesma forma acontece em toda esfera. Ela não pega o que não pertence a ela. Tudo o que é de fora ela mantém fora. O que pertence a terra é mantido na terra, a alma repele isso. Destruição do ego é a maneira de colocar em palavras, na verdade não é destruir, é descobrir.
Frequentemente as pessoas ficam assustadas ao lerem livros Budistas, quando a interpretação do Nirvana é dada como aniquilação. Ninguém quer ser aniquilado e as pessoas ficam muito assustadas quando lêem 'aniquilação'. Mas é só uma questão de palavras. A mesma palavra em Sanskrito é uma linda palavra: mukti. Os Sufis chamam-na de fana. Se traduzirmos para o inglês é aniquilação, mas quando entendemos seu significado real, quer dizer 'passar' ou 'atravessar'. Atravessar o quê? Atravessar a falsa concepção, que é uma primeira necessidade, e chegar à Verdadeira Realização.

sábado, 10 de outubro de 2009

Lao Tsu - Tao te Ching - Para que haja equilíbrio perfeito


Enquanto age no mundo, o Tao
é como o curvar-se de um arco.
A parte de cima é curvada para baixo
e a parte de baixo é curvada para cima.
Ele ajusta os excessos e as deficiências
para que haja equilíbrio perfeito.
Ele pega do que é demasiado
e dá para o que não é o bastante.
Aqueles que tentam controlar,
que usam força para proteger seu poder,
vão contra a direção do Tao.
Pegam dos que não tem o bastante
e dão para aqueles que tem em demasia.
O mestre pode continuamente dar
pois sua riqueza não tem fim.
Agindo sem expectativa,
ele sucede sem tomar crédito,
e não pensa que é melhor do que ninguém.
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O Tao dá a luz ao Um.
O Um dá a luz ao Dois.
O Dois dá a luz ao Três.
O Três dá a luz a todas as coisas.
Todas as coisas têm suas costas para o feminino
e estão de frente para o masculino.
Quando o masculino e o feminino combinam-se,
todas as coisas atingem a harmonia.
O homem ordinário odeia a solidão.
Mas o mestre a utiliza,
abraçando sua solidão, percebendo
que ele é um com o universo todo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Ramesh S. Balsekar - A natureza da Consciência II

Pergunta: Não estou certo a respeito da diferença entre a dualidade e o dualismo.
Ramesh: A dualidade é a base na qual esta manifestação acontece. Portanto, se a dualidade é entendida como dualidade, como meros pólos opostos, em que um não pode existir sem o outro, isso é compreensão. Isso é iluminação. É a própria Consciência que descendeu do nível da dualidade para o nível do dualismo e identificou-se com cada objeto e criou essas relações sujeito-objeto de modo que esse Lila (jogo divino) pudesse continuar. Portanto, é a Consciência que se identificou consigo mesma e continua a identificação por um tempo. Então, algum mecanismo corpo-mente, que esteve vivendo sua vida de uma maneira perfeitamente razoável, saudável e feliz, é atingido por um impulso de descobrir, “qual é o sentido da vida?”, “estou realmente separado do próximo?” E assim a mente volta-se para dentro, e o buscador inicia sua busca miserável! O processo de desidentificação prossegue então até que ocorre a compreensão de que o dualismo é uma piada, uma piada cósmica. E essa realização eleva o dualismo de volta ao nível da dualidade. Quando aquele nível de dualidade torna-se também insuportável, então o “eu” e o “Tu” também desaparecem.

P: Entendo o que você está dizendo. Estou acompanhando com bastante clareza. A Consciência é tudo o que há, e tudo é apenas a Consciência entretendo a si mesma. Mas quando tenho filhos que são paralíticos, é difícil chegar à paz com essa maneira impessoal de ver as coisas. As inquietações pessoais são o que realmente contam.
R: Sim, mas contam apenas para o indivíduo. Pois o 'mim', reagindo aos eventos é tudo o que a vida é. É por isso que o ser humano quer segurança. Mas segurança é algo que não pode acontecer e portanto, o ser humano é infeliz.
Por trezentos anos a física Newtoniana prevaleceu, dizendo que você pode pegar um pedaço do universo, você pode observá-lo e pode entender aquela parte. Mas agora, desde que a teoria da mecânica quântica apareceu, uma partícula se move e o cientista pode saber apenas a sua localização e a sua velocidade, mas não ambos. Se ele sabe a velocidade, ele não pode saber o local onde a partícula estará. Ele não pode saber as duas coisas. Todo o universo e o seu funcionamento está baseado em polaridade, opostos interconectados: homem-mulher, sujeito-objeto, acima-abaixo, bem-mal, doente-saudável, felicidade-tristeza. Em todo o universo não existe nada que é estático, nenhum planeta, nenhuma galáxia. Tudo está se movendo e o movimento significa mudança.
A mente humana pensa em termos laterais, mas quase tudo no universo é circular. Qualquer coisa que muda tem de voltar novamente. O cientista diz hoje que falar num mundo no qual tudo é preciso, constante e mensurável é uma proposição impraticável. Em tal mundo um pequenino elétron dentro de todo átomo teria que trabalhar a cada instante sem parar. Ele queimaria a si mesmo. Toda a energia pararia. Tudo voltaria para dentro de um núcleo.
A vida é incerteza. Isso é o que o místico tem dito por milhares de anos e agora o cientista concorda. Temos de viver com a insegurança. Temos de viver com a mudança. Segurança é um mito. Você não pode viver com segurança; e tentar fazer isso significa frustração. Compreender profundamente isso e aceitar que viver e vida estão baseados em mudança, a pessoa gostando disso ou não, é um grande passo à frente.
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P: Sinto-me confortável com o conceito de uma consciência-mãe amorosa que deseja que eu cresça através dessa existência. Estou tendo dificuldades de adequar isso com o que você está ensinando.
R: O amor e o ódio são opostos interconectados na fenomenalidade. Na fenomenalidade, nada neste universo pode existir exceto em bases duais. Nada é único, nada é constante, nada. Tudo está mudando o tempo todo. A mudança e os opostos interconectados são a própria essência da existência.
A dificuldade surge quando a mente-dividida do sujeito-objeto não aceita que o amor e o ódio são opostos, que o bem e o mal estão interconectados. Um não pode existir sem o outro. A beleza não pode existir por si mesma. No momento em que você fala da beleza, a feiúra já está lá. No momento em que você fala da bondade, o mal já está lá. Como você pode falar da beleza na ausência da feiúra? O ser humano quer experimentar uma e não a outra. Isso não pode ser feito.
Nada pode ser constante na vida. A mudança é a própria base da vida. Também com a felicidade, a infelicidade está automaticamente conectada com ela, pois a mudança é inevitável. A miséria vem porque a mente-dividida compara, julga, e quer a felicidade à exclusão da infelicidade. A mente-dividida não aceita que a mudança está fadada a acontecer.
Quando surge a compreensão que, “isso também passará”, seja miséria ou felicidade, essa compreensão trará uma tremenda mudança na perspectiva. Então quando há alguma compreensão você não considera que aqueles que não a possuem são indignos, você não se considera ser “um favorito de Alá”, pois você sabe que este estado de consciência passará, e outros estados de consciência virão. E quando os outros estados de consciência surgirem, você não se sentirá miserável pois eles não eram totalmente inesperados. Isso não trará a miséria na profundidade que teria trazido anteriormente. Portanto, a base dessa aceitação é que tudo está se movendo, e portanto, a mudança é a própria base da vida e basicamente tudo é ilusão.
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P: Parece-me que tudo pode ser considerado irreal, exceto o fato de que eu existo. Há uma diferença entre o “eu existo” e o possessivo “meu”, como o “meu corpo”, “minhas idéias”, “minha casa”, a existência em si é incontestável.
R: Portanto, o que quer que digamos, o que quer que pensemos, é um conceito. A única coisa que não é um conceito, a única verdade, é o sentido de presença. Eu sou. Estou vivo. Essa é a única verdade. Mas essa verdade, mesmo essa verdade está no nível dos fenômenos.
P: E essa verdade também é um conceito.
R: Certo. Finalmente, até esse Eu Sou é um conceito. Mas na ausência de todos os outros conceitos, a única coisa que sabemos (tudo mais é um conceito) é o sentido de presença: Eu Sou, Eu existo. Se você imaginasse que você fosse o único ser senciente na Terra, então o sentido de presença seria tudo o que existiria. E nesse caso não haveria nem mesmo o sentido de “eu existo”. O sentido seria, “há a existência”. Existe a consciência porque existe algo do qual estamos cientes a respeito. E isto é o resto da manifestação.
P: E se não colocarmos isso em palavras então é a verdade.
R: Sim. Isso é a Realidade.
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P: “Eu Sou”. Essa é a única coisa da qual podemos saber?
R: Correto. Eu sou, aqui e agora, no momento presente.
P: Como sabemos isso?
R:Você não sabe disso?
P: A maneira como sei disso é que eu sempre tenho um pensamento que Eu Sou. Eu sinto as coisas.
R: Não. Não!
P: O próprio sentido de presença?
R: Correto. O sentido de presença está sempre ali. Portanto, o que estou dizendo é, você não tem que ter o sentido de presença. O sentido de presença já está ali.
P: Sem um objeto?
R: Sim. Originalmente esse sentido de presença é impessoal. Quando você acorda pela manhã o primeiro sentido de presença é impessoal. Então emerge em você, o Eu sou tal e tal. A identificação pessoal vem depois. Originalmente há meramente o sentido de presença impessoal.
P: Você realmente não é um “eu” ("mim") de maneira nenhuma. Não há o sentido de ser um “mim” (“eu”)?
R: Correto.
P: O sentido de presença depende de que haja um corpo.
R: Sim. O sentido de presença surge apenas quando há um corpo. Se não houver um corpo, não há um instrumento no qual o sentido de presença possa aparecer.
P: É um instrumento muito frágil.
R: De fato! Mas o único ponto é que existem bilhões deles. Então, se um vai, não importa. Neste corpo existem milhões de células morrendo e sendo criadas o tempo todo. Alguma vez alguém pensou naquela célula individual? “Pobre célula, não viveu quase nem meio segundo e morreu!”
P: Você está falando sobre aceitação e sobre sentir a presença do presente e ver tudo o que está a nossa frente como sendo o que a vida é?
R: Isso. Novamente, deixe-me repetir, qualquer coisa que eu diga, ou que qualquer pessoa diga, qualquer coisa que as escrituras digam, é tudo um conceito. Precisamos de conceitos para o comunicar até que a mente tenha atingido um estágio onde ela perceba que o que ela esteve buscando está além da compreensão dela.
Então a mente irá aquietar-se e o silêncio irá reinar. Até lá, mesmo esse sentido de presença do qual estamos falando a respeito está no nível dos fenômenos. Você vê, existe a presença do sentido de presença e a ausência do sentido de presença. No sono profundo ou sob efeito de sedativos há uma ausência do sentido de presença. Então existe a presença e a ausência desse sentido de presença. Essa presença e ausência dele é parte da fenomenalidade. Na não-fenomenalidade, a qual é o potencial, que é a consciência-em-repouso, há a ausência tanto da presença do sentido de presença quanto da ausência dele.
Deixe-me colocar de outra forma, (embora nenhuma ilustração jamais possa ser completa em si mesma pois uma ilustração constrói um objeto e o assunto do qual estamos tratando não está nem um pouco relacionado ao nível dos objetos): Você acorda de manhã. Você está desperto. Existe a presença da barba. Você a raspa. Agora existe a ausência da presença da barba. Mas num menino existe a potencial presença e ausência da barba. Há uma ausência da presença da barba e uma ausência da ausência da barba. Potencial, sim – portanto estou falando sobre Aquele estado, aquele estado original onde há uma ausência de ambos, tanto da presença do sentido de Presença quanto da ausência da ausência do sentido de Presença.
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P: A Consciência-em-repouso não é simplesmente aquele conceito básico sobre o qual a Consciência-em-movimento ocorre?
R: Correto.
P: Mas o cessar dos pensamentos, o cessar da atividade, para que postular ou conceitualizar que ela vai para algum lugar? Por que não é simplesmente um cessar de movimento?
R: Novamente, está absolutamente correto. Assim, mais nenhuma questão permanece. Concordo inteiramente. Mas, por essa questão persistir, você tem que receber um conceito adicional.
Isso é o que pode ser chamado de um problema divergente. Os cientistas lidam com problemas que são convergentes. Cem cientistas realizando o mesmo experimento devem obter o mesmo resultado. Quando o problema diz respeito a uma experiência interior da Consciência, torna-se um problema divergente. Em outras palavras, problemas divergentes são causados pelo intelecto, ao dividir o que por natureza é total e indivisível. O intelecto cria o problema ao dividir polaridade. Os opostos que existem não podem existir por si mesmos. Não pode haver o “para cima” sem o “para baixo”, não pode haver a beleza sem a feiúra. Mas o que o intelecto quer é, isso ou aquilo. Ao comparar e querer selecionar, o intelecto cria um problema divergente, e problemas divergentes jamais podem ser solvidos. Um problema divergente pode apenas dissolver-se através da compreensão do próprio problema, da compreensão de que ele realmente não é um problema, que ele é criado pelo intelecto querendo escolher entre os opostos que não são opostos de maneira nenhuma. São interrelacionados.
Por exemplo, na educação uma idéia é que o aluno deva ter disciplina. Portanto um pouco de disciplina é bom, mais disciplina é melhor e disciplina total é perfeito. A escola torna-se uma prisão. O outro lado diz: “Não, o aluno deve ter liberdade de pensamento e de ação”. Portanto, se um pouco de liberdade é uma boa coisa, mais liberdade deve ser melhor, e liberdade absoluta seria perfeito. Então a escola torna-se um caos. Assim, o isso ou aquilo, o querer escolher entre dois opostos, é criar um problema diversivo. Os dois opostos estão interrelacionados, você não pode ter um ou o outro. Quando isso é entendido, e que o universo inteiro está baseado nessa polaridade onde você não pode escolher, então não é necessário solver o problema. O problema se dissolve.
Haviam dois monges estudando num seminário e ambos apreciavam muito fumar. O problema deles era, “É permitido fumar quando estou orando?” Eles não conseguiam chegar a um acordo, então cada um disse que iria falar com seu superior. Ao se encontrarem novamente mais tarde, um monge perguntou para o outro se o abade tinha dito se era permitido fumar. Ele disse: “Não, fui severamente repreendido até mesmo por mencionar isso. O que seu abade disse?” O outro respondeu: “Ele ficou feliz comigo. Disse que tudo bem. O que você perguntou ao seu superior?” Perguntei se eu podia fumar quando estava rezando”. “Então é por isso. Eu perguntei, 'posso rezar quando estou fumando?'”
O mesmo problema depende de como o vemos. É tudo uma questão de perspectiva. A base da vida é a polaridade e a polaridade aparece devido à mudança. O universo e tudo nele está num movimento contínuo. E movimento não significa movimento lateral como o intelecto humano pensa. É um movimento circular. Portanto, as mudanças devem acontecer. Se isso não for entendido, então cria problemas. E a maioria dos problemas da vida são problemas divergentes.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Hafiz - O que acontece ao convidado / Pensando no Elefante


A mão sentou-se na sala de aula
do olho

E logo aprendeu a amar a
beleza.

O céu sentou-se na sala de aula
de Deus

E agora veja o que ele nos dá a noite:
Tudo o que ele aprendeu.

Houve um tempo em que o homem
estava tão sobrecarregado com sua sobrevivência
que raramente banhava-se em sons dançantes.

Mas queridos,
agora abandonem este escudo pontiagudo que fere.

O que acontece ao convidado que visita a casa
de um grande músico?

É claro que seus gostos tornam-se refinados.


Existem algumas pessoas que podem visitar
aquela Luminosa Esfera que revela
que a vida nunca existiu,

A verdade dessa experiência
está reservada para tão
poucas pessoas;

Deus traz de volta como uma pipa
alguns deles que se perdem no sol,

E depois que se recuperam
de estarem tão sublimemente independentes,
Tendo conhecido a indizível união –


Eles podem tentar novamente com toda sua coragem
cantar uma música como esta:

“O que acontece com os convidados que continuam visitando
o verso de um Perfeito?
Suas vozes e células tornam-se refinadas
e como a suave vela da noite (a Lua)
Começam a dar a este mundo
toda a luz que aprenderam.”

Sua mão senta-se na sala de aula
de Deus,

Um aprendiz como foi Hafiz,
dominando o ofício da
beleza Divina,

Enquanto a terra gira na
roda de oleiro


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Uma semente
brotou sob uma folha dourada
na floresta escura.

Ela está seriamente contemplando,
está pensando seriamente a respeito
de onde o Elefante
costuma passear.

Por que?

Porque
neste conto lucido e encharcado de vinho
o Elefante realmente é
Deus,

O Qual tem sua grande pata sobre nós,
sobre a folha dourada sob a qual está
este universo
que brota,

Dentro do qual
todos estamos um pouco preocupados
e
nervosos.

sábado, 3 de outubro de 2009

Shri Siddharameshwar Maharaj - Em busca do ‘Eu’


Quem é este ‘Eu’?

Era uma vez, um homem chamado “Gomaji Ganesh” que vivia numa cidade chamada Andheri. Certa vez, esse homem estabeleceu um costume nos Tribunais de Justiça que nenhuma ordem ou documento poderia ser aceito como legal a menos que levasse o selo com seu nome nele, juntamente com as palavras “A porta de bronze”. A partir desse momento, todos os oficiais daquele município apenas aceitavam um documento como sendo legal se portasse o selo de “Gomaji Ganesh, A porta de bronze”. Esse procedimento para legalizar documentos continuou por um longo tempo até que eventualmente o selo tornou-se oficialmente parte do sistema legal da cidade de Andheri, e ninguém jamais investigou a respeito de quem esse “Gomaji Ganesh” era. Conforme o tempo passou, aconteceu que um dia um documento importante que não portava o selo oficial “Gomaji Ganesh, A porta de bronze” foi citado como evidência num caso arquivado no Tribunal de Justiça. Com exceção do fato de que esse documento não tinha o selo oficial, ele era completamente legal de acordo com todos os outros pontos da lei e procedimentos ordinários. Numa certa altura do caso, uma objeção foi levantada de que o documento não deveria ser aceito como uma evidência pois não continha o selo oficial “Gomaji Ganesh, A porta de bronze”.
Naquele momento, um homem corajoso que representava uma das partes do processo argumentou perante o juiz que o documento era perfeitamente válido, pois continha todas as assinaturas relevantes dos atuais oficiais do governo. Ele argumentou: “Por que o documento não deveria ser admissível uma vez que é perfeitamente legal, exceto por não conter o selo do Sr. Gomaji Ganesh?” Então, ele questionou a legalidade do próprio selo. Consequentemente, a legalidade do selo foi tornada um assunto de contenda. Até aquele dia, ninguém tinha se aventurado a trazer esse assunto diante do Tribunal de Justiça. Uma vez que havia surgido agora pela primeira vez, foi decidido que uma posição deveria ser tomada em relação à legalidade desse selo.
Curioso a respeito de como o procedimento do selo da “Porta de Bronze” veio a surgir, o próprio juiz tomou o assunto em mãos para investigar. Quando completada sua investigação, ele descobriu que muitos anos atrás, no passado, um homem de nenhum status particular, um tal Sr. “Gomaji Ganesh”, tinha tomado vantagem do governo mal administrado de seu tempo e colocado seu próprio nome num selo que era para ser usado por todos os documentos oficiais. Daquele tempo em diante, todos os oficiais do governo simplesmente continuaram seguindo cegamente a tradição. De fato, o juiz descobriu que o Sr. Gomaji Ganesh era um homem sem importância nenhuma, que não tinha autoridade de nenhum tipo. Quando o juiz fez essa descoberta, uma decisão foi tomada pelo Tribunal de que o selo não era mais necessário para documentos legais. A partir daquele dia, o selo passou a ser olhado como ridículo.
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Da mesma maneira, deveríamos investigar sobre o sentido de ‘eu’, e como ele domina tudo com o selo do ‘eu’ e ‘meu’, assim como o selo do Sr. Gomaji Ganesh descrito na história acima.
É uma regra geral ou um princípio da natureza, que se duas coisas são combinadas, uma terceira coisa é produzida. Por exemplo, a combinação de uma linha com algumas flores produz uma guirlanda que anteriormente não existia. Até mesmo o nome dos objetos que foram responsáveis por produzir a guirlanda desaparece assim que a guirlanda vem à existência. A guirlanda passa então a ser conhecida por seu próprio rótulo. Os rótulos de “flores” e “linha” tornam-se extintos, e o novo nome “guirlanda” é usado, e com esse novo nome, novas ações seguintes são realizadas. Com o contato da água com a terra surge o barro; consequentemente os rótulos “água” e “terra” tornam-se extintos. Da mesma maneira, pedras, tijolos, barro e cimento são unidos e uma terceira coisa chamada “muro” aparece diante de nossos olhos, enquanto que as pedras, tijolos, barro e cimento simplesmente somem de nossa vista.
É através da união do Conhecimento e da Ignorância que uma coisa peculiar chamada “intelecto” vem à existência, e é através desse “intelecto” que o contato com o mundo emerge. O ouro e o ourives unem-se e produzem uma terceira coisa que aparece diante de nossos olhos como um ornamento. O ornamento é visto e o ouro e o ourives são esquecidos. Na verdade, se alguém tentasse descobrir se existe uma coisa tal como um “ornamento” no ouro, essa pessoa não veria nada além de ouro. Se falamos para alguém trazer um ornamento sem tocar no ouro, o que ele poderia trazer? A coisa que chamamos de ornamento simplesmente sumiria.
Da mesma maneira, da união de Brahman (o absoluto) e Maya (ilusão), o ladrão chamado 'eu' surgiu orgulhosamente dizendo 'eu', e erguendo sua cabeça saiu proclamando soberania sobre ambos Brahman e Maya. Esse 'eu', ou ego, é o filho de uma mulher estéril (maya), que tenta estabelecer soberania ilimitada sobre o universo inteiro. Se observarmos os pais desse 'eu', fica claro que é impossível para eles darem a luz a tal filho. A mãe da criança é Maya, a qual não existe. Do útero de Maya, o 'eu' saiu. Supõe-se que ele tenha sido produzido pela “energia da vida”. No entanto, essa energia da vida (Brahman) não tem sexo, e nem mesmo proclama ser a 'fazedora', então os leitores podem imaginar que tipo de 'eu' é esse.
Como descrito acima, a existência do 'eu' é só no nome. Ainda assim, como o Sr. Gomaji Ganesh, ele anuncia seu nome por toda parte como 'eu'. E vai por aí dizendo “eu sou sábio, eu sou grande, eu sou pequeno”, o tempo todo tendo esquecido de onde ele veio. Em vez disso, ele começa a glorificar a si mesmo como 'eu', como o gato que toma leite com os olhos fechados sem estar ciente do pau que está para atingí-lo pelas costas. Assim que ele aceita um direito, ou um privilégio, ele deve também aceitar a responsabilidade que vem junto com isso. Assim que uma pessoa fala: “eu sou o realizador de um certo ato”, esse 'eu' deve gozar dos frutos de tal ação. A apreciação ou o sofrimento dos frutos, ou dos resultados da ação, estão vinculados à própria ação e à identificação como sendo o fazedor.
Na verdade não existe tal coisa como um 'eu'. Toda a 'propiedade de realizar ações' (doership) que é a força motivadora por detrás do 'eu' está contida somente em Brahman. Entretanto, Brahman é tão esperto, que no momento que ele encontra alguém que se orgulha em ser o “fazedor”, ele deixa toda a responsabilidade pelas ações sobre aquele 'eu' e permanece não comprometido com aquilo. Consequentemente, o pobre 'eu', está destinado a revolver na roda do nascimento e da morte. No exemplo da guirlanda mencionado acima, o nome “guirlanda” surgiu depois que os nomes “linha” e “flores” foram esquecidos. Quando a guirlanda seca, é dito que a guirlanda secou, ninguém diz que as flores secaram, dizem que a guirlanda secou, ou se a linha se rompe, dizem que a guirlanda se rompeu. Isso indica que a “fazedura”(doership) do objeto original é imposta sobre o terceiro objeto devido ao orgulho, ou à identificação com o objeto. Da mesma forma, uma série de misérias assolam o 'eu' inexistente. Se a pessoa quer livrar-se da miséria, ela deve abandonar o 'eu'.

Entretanto, antes de que seja abandonado, temos que descobrir exatamente aonde esse 'eu' reside. É apenas quando encontramos o 'eu', que podemos falar em abandoná-lo.
O aspirante deveria iniciar a busca por esse 'eu' em seu próprio centro. Ele nunca será encontrado fora de nós. Em cada ser humano o sentido de 'eu', ou ego; e de 'meu', o sentimento de posse; está preenchendo-nos até a borda. Todas as ações no mundo são realizadas pela força desse ego, e o sentido de 'meu'. Para rastrearmos esse 'eu' vamos primeiro examinar nosso próprio corpo físico grosseiro*, que parece tão próximo de nós. Após analisa-lo, vamos ver se esse 'eu' pode ser encontrado em algum lugar do corpo.
(* A investigação do 'eu' continua depois nos outros três corpos, isto é, no corpo sutil, no corpo causal e no grande corpo causal, no capítulo “A investigação dos quatro corpos– em busca do 'eu'” do livro “a chave mestra para a Realização do Ser”)
O que é um corpo? É uma reunião do conjunto de partes (ou membros), tais como mãos, pés, boca, nariz, ouvidos, olhos, etc. A reunião de todas essas partes é chamada de “corpo”. Dessas várias partes, vamos descobrir qual delas é o 'eu'. Podemos dizer que a mão é “eu”, mas se a mão for cortada, ninguém irá dizer 'eu fui cortado', ou 'fui descartado'. Suponha que os olhos fiquem cegos. Ninguém diz 'fui embora', ou se o estômago está inchado, ninguém fala, 'eu estou inchado'. Não, ao invés dizemos “minha mão foi cortada”, ou “meus olhos cegaram”, ou “meu estomago inchou”. Todas essas partes são chamadas “meu corpo”. Olhando dessa maneira, pode facilmente ser visto que aquele que afirma ser o proprietário de todos esses membros, e mesmo do próprio corpo, realmente é alguém que é diferente do corpo que ele chama de sua propriedade.
Afirmamos acima que o 'eu' não é nenhuma parte, ou nenhum dos membros do corpo grosseiro, mas que todos as partes são consideradas como “minhas”. Existe uma verdade geral estabelecida, ou uma máxima, que diz: “Onde não existe o 'eu', não pode existir nada que possa ser chamado de 'meu'”. Dessa máxima, procede que o corpo e os membros na verdade não pertencem a “mim”, sendo que não há nenhum 'eu' residindo ali. A mesma máxima se aplica no caso seguinte: se 'eu' não resido na casa do vizinho, pode a casa do vizinho, ou os pertences e partes associadas a ela pertencerem a mim? Se alguém quiser verificar a verdade da máxima “onde não há o eu, não pode haver nada de meu”, é só ir na casa do vizinho e dizer “eu sou o amo aqui e a mulher desta família também é minha”. Se você tentar mostrar o seu sentido de 'meu' à mulher daquela casa, e começar a fazer investidas na direção dela, rapidamente você verá que tipo de experiência você terá. O verdadeiro dono daquela casa irá lhe bater tão forte que você logo perceberá que “eu não sou o amo aqui, e ela não é minha”. Da mesma maneira, quando o 'eu' não pode ser traçado em nenhum lugar no corpo então como pode ser dito que as partes do corpo e suas tendências pertencem a 'mim'. Se você ainda insiste em chamá-lo de seu, descubra porquê, e também olhe atentamente para a condição de todos os seres humanos que olham para seu corpo como sendo deles, e agem dessa maneira.
O ser humano esquece seu Verdadeiro Ser e não entende quem ele realmente é. Portanto, tem de tomar muitos nascimentos em inúmeras espécies. Às vezes ele se torna um verme que transita num excremento. Às vezes torna-se um novilho e fica preso girando em círculos numa moenda. Às vezes torna-se um asno e trabalha duro chafurdando num monte de lixo. Quantas misérias se tem de sofrer é quase impossível de descrever. Após passar por nascimentos em todas as outras espécies, finalmente tem-se a boa sorte de nascer como um ser humano. Esse nascimento no corpo humano é único, sendo que ele tem a capacidade de um intelecto superior e de discriminação a fim de que possamos conhecer a Deus, o “Ser definitivo”.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Meher Baba - A Realização de Deus

Chegar ao verdadeiro autoconhecimento (conhecimento do Ser) é chegar à Realização de Deus. A Realização de Deus é um estado único de consciência. É diferente de todos os outros estados de consciência, porque todos os outros estados de consciência são experimentados por meio da mente individual. O estado de consciência de Deus não é de maneira nenhuma dependente da mente individual ou de qualquer outro meio. Um meio é necessário para conhecer algo diferente de nosso próprio Ser. Para conhecer nosso próprio Ser nenhum meio é necessário.
Na verdade, a associação da consciência com a mente é definitivamente um obstáculo ao invés de uma ajuda para se atingir a Realização. A mente individual é a sede do ego (ou a consciência de estar isolado). Ela cria a individualidade limitada, que imediatamente se alimenta e é alimentada pelas ilusões da dualidade, do tempo e da mudança. Assim, a fim conhecer o Ser como ele é, a consciência tem de ser livrada completamente da limitação da mente individual. Em outras palavras, a mente individual tem de desaparecer, mas a consciência tem de ser mantida.
Ao longo da história da vida passada da alma, sua consciência tem crescido com a mente individual, e todo o funcionamento da consciência tem procedido contra o pano de fundo da mente individual. A Consciência, portanto, passou a estar firmemente arraigada na mente individual e não pode ser desenredada dessa moldura na qual foi tecida. O resultado é que se a mente for silenciada, a consciência também desaparece. O entrelaçamento da mente individual e da consciência é ilustrado amplamente pela tendência de ficar inconsciente quando há algum esforço de parar a atividade mental através da meditação.
O fenômeno diário de ir dormir essencialmente não é diferente da pausa vivida durante a meditação, mas é ligeiramente diferente em sua origem. Sendo que a mente individual é confrontada continuamente com o mundo da dualidade, ela está envolvida num incessante conflito; e quando fica cansada de sua luta sem alívio, ela quer perder a sua identidade como uma entidade separada e voltar para o Infinito. Ela então se afasta do mundo da sua própria criação e experimenta um período de pausa e essa pausa também é invariavelmente acompanhada pelo cessar da consciência.
A quietude da atividade mental durante o sono implica a submersão total da consciência; mas esse cessar da vida mental e do funcionamento consciente é apenas temporário, pois as impressões armazenadas na mente incitam-na a uma renovada atividade. Depois de um tempo os estímulos das impressões resultam no agitar a mente e revitalizar o funcionamento consciente que é realizado por meio dela. Assim, o período de sono é seguido por um período de vigília e o período de vigília é seguido por um período de sono, de acordo com a lei da alternância da atividade e do repouso. Entretanto, enquanto as impressões latentes na mente não são completamente desfeitas, não há aniquilação final da mente individual ou a emancipação da consciência. No sono a mente esquece temporariamente a sua identidade, mas ela não perde, finalmente, sua existência individual. Quando a pessoa acorda, ela encontra-se sujeita às suas antigas limitações. Há uma ressurreição da consciência mas ela ainda está escondida na mente.
A mente limitada é o solo no qual o ego está seguramente enraizado, e esse ego perpetua a ignorância através das muitas ilusões às quais ele está preso. O ego impede a manifestação do conhecimento infinito, que já está latente na alma; ele é o mais formidável obstáculo para a Realização de Deus. Um poema persa diz verdadeiramente: "É extremamente difícil de perfurar o véu da ignorância, pois há uma pedra sobre o fogo". Assim como uma chama não pode subir muito alto se uma pedra é colocada sobre ela, o desejo de conhecer nossa própria natureza verdadeira não pode conduzir à Verdade enquanto o peso do ego estiver colocado sobre a consciência.
O sucesso em encontrar o nosso Ser é impossibilitado pela continuação do ego, que persiste durante toda a jornada da alma.

Na velhice, um dente dolorido pode causar um aborrecimento imenso, pois embora esteja solto em seu encaixe, ele não é extraído facilmente. Da mesma forma, o ego, que pode tornar-se mais fraco por meio do amor ou de penitência, é ainda difícil de se erradicar. Ele persiste até o fim. Embora torne-se mais flexível conforme a alma avança no caminho, ele permanece até a última etapa - que é o sétimo plano de involução da consciência.
O ego é o centro de toda atividade humana. As tentativas do ego de garantir a sua própria extinção podem ser comparadas à tentativa de uma pessoa subir em seus próprios ombros. Assim como o olho não pode ver a si próprio, o ego é incapaz de pôr fim à sua própria existência. Tudo o que ele faz para trazer sua auto-aniquilação só vai adicionar à sua própria existência. Ele se desenvolve nos próprios esforços dirigidos contra si mesmo. Assim, embora ele consiga transformar sua própria natureza, ele é incapaz de desaparecer por completo através da sua própria atividade desesperada. O desaparecimento do ego está condicionado pela dissolução da mente limitada, que é a sua sede.
O problema da Realização de Deus é o problema da emancipação da consciência das limitações da mente. Quando a mente individual é dissolvida, todo o universo em relação à mente desaparece no nada, e a consciência não está mais ligada a nada. A consciência está agora ilimitada e não é encoberta por nada servindo o propósito de iluminar o estado da Realidade infinita. Enquanto imersa no êxtase da Realização, a alma fica completamente abstraída de visões, de sons e objetos do universo. A esse respeito, é como o sono profundo, mas existe uma diferença infinita que distingue a Realização de Deus do sono profundo.
Durante o sono a ilusão do universo desaparece, uma vez que toda consciência está em suspenso; porém não há nenhuma experiência consciente de Deus, pois isso requer a completa dissolução do ego e o direcionamento da consciência plena para a Realidade última. Ocasionalmente, quando a continuidade do sono profundo é interrompida por breves intervalos, pode-se ter a experiência de manter a consciência sem estar consciente de nada em particular. Existe a consciência, mas essa consciência não é do universo. É a consciência do nada. Tais experiências comparam-se à da Realização de Deus, na qual a consciência está completamente liberta da ilusão do universo e manifesta o conhecimento infinito que até então estava escondido pelo ego.
No sono, a mente individual continua a existir, embora ela tenha esquecido tudo, incluindo ela mesma; e as impressões latentes na mente criam um véu entre a consciência submersa e a Realidade infinita. Assim, durante o sono, a consciência fica submersa na concha da mente individual mas ainda não foi capaz de escapar dessa concha. Embora a alma tenha esquecido de sua separação de Deus e tenha de fato alcançado a unidade com Ele, ela está inconsciente dessa unidade. Na Realização de Deus, no entanto, a mente não apenas esquece a si mesma, mas perde realmente (com todas as suas impressões) a sua identidade. A consciência, que até então estava associada com a mente individual, agora está liberta e desimpedida e colocada em contato direto em unidade com a Realidade última. Uma vez que agora não há véu entre a consciência e a Realidade Suprema, a consciência está fundida com o Absoluto e eternamente habita nele como um aspecto inseparável, promovendo um inesgotável estado de conhecimento infinito e felicidade ilimitada.
No entanto, a manifestação do conhecimento infinito e da bênção ilimitada na consciência estão estritamente limitadas para a alma que alcançou a realização de Deus. A Realidade infinita na alma que realizou Deus tem conhecimento explícito de sua própria infinidade. Tal conhecimento explícito não é experimentado pela alma não-realizada, que ainda está sujeita à ilusão do universo. Assim, se a Realização de Deus não fosse um feito pessoal da alma, o universo inteiro chegaria ao fim logo que qualquer alma alcançasse a Realização de Deus. Isso não acontece porque a Realização de Deus é um estado de consciência pessoal que pertence à alma que transcendeu o domínio da mente. Outras almas permanecem em cativeiro e só podem atingir a Realização ao libertarem a sua consciência do fardo do ego e das limitações da mente individual.
Daí o atingimento da Realização de Deus só tem significado direto para a alma que emergiu do processo do tempo.
Após ter atingido a Realização de Deus, a alma descobre que ela sempre foi a Realidade infinita que agora sabe que ela própria é, e descobre que ter se considerado finita durante o período de evolução e progresso espiritual era na verdade uma ilusão. A alma também descobre que o conhecimento e felicidade infinitos que ela agora aprecia também estavam latentes na Realidade infinita, desde o início dos tempos, e que eles meramente tornaram-se manifestos no momento da Realização. Dessa forma, a pessoa que realizou Deus na verdade não se torna algo diferente do que era antes da Realização. Ela continua a ser o que era, e a única diferença que a Realização faz nela, é que antes ela não conhecia conscientemente sua própria natureza verdadeira, e agora ela a conhece. Ela sabe que jamais foi algo diferente do que agora sabe que ela mesma é, e que tudo pelo que passou foi apenas o processo de encontrar o seu Ser.
Todo o processo de alcançar a Realização de Deus é apenas um jogo no qual o começo e o fim são idênticos. Alcançar a Realização, no entanto, é um ganho distinto para a alma. Em geral, existem dois tipos de vantagens: uma consiste em conseguir o que não se tinha previamente, a outra em realizar plenamente o que se é realmente. A Realização de Deus é do segundo tipo. No entanto, isso cria uma diferença infinita entre a alma que atingiu a Realização de Deus e a alma que não atingiu. Embora a alma Realizada de Deus não possua nada de novo, o seu conhecimento explícito sobre tudo o que ela realmente é, o que ela foi e o que sempre será, torna a Realização de Deus totalmente importante. A alma que não é realizada experimenta-se como sendo finita e está constantemente preocupada com os opostos das alegrias e tristezas passageiras. Mas a alma que tem a Realização é elevada desses opostos e experimenta o conhecimento infinito e o êxtase ilimitado de ser consciente de Deus.
Na realização de Deus a alma abandona a sua consciência separada e transcende a dualidade no permanente conhecimento de sua identidade com a Realidade infinita. As algemas da individualidade limitada são quebradas; o mundo das sombras chega ao fim, a cortina da ilusão é erguida para sempre. O estado febril e a angústia agonizante dos anseios da consciência limitada são substituídos pela tranquilidade e bem-aventurança da consciência-Verdade. A inquietação e a fúria da existência temporal são engolidas na paz e quietude da Eternidade.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Jalaluddin Rumi - Na grande tigela de madeira deste dia / Os dois mundos

Ainda atordoado pelo vinho da noite
passada? Espere um pouco, não pegue

ainda este que servimos. Você não pode
realmente estar no oceano com cenas

de riachos familiares e do amado
rio de sua casa em seus olhos. Espere,

se você está preso em memórias. Como
aqueles que pensavam em negócios foram

levados do pátio do templo,
tão amargas, as pessoas auto-importantes

precisam ser excluídas da mistura
que está sendo mexida na grande

tigela de madeira deste dia. No quarto com
a princesa chinesa, as músicas populares

se esvaem. Não ferva as uvas duras
que ainda não amadureceram, e não venda

vinagre! Este momento é a uva perfeita
que você esmaga para tornar seu vinho

da vida interessante. Em tal momento, você
talvez encontre alguém, assim como

encontrei Shams. Deus sabe em que pomar
você estará andando então!
______________________________________________
.
Há o vinho de Deus e este
outro. Não os misture. Há
.
peregrinos nus que vestem apenas
a luz do sol. Não lhes dê roupas!

Há amantes contentes em
esperar. Não sou um deles.

Dê um copo de puro fogo para seu
amigo mais próximo, pomada cicatrizante
.
aos feridos. Para Shams de Tabriz,
ofereça os dois mundos.

sábado, 26 de setembro de 2009

Nisargadatta Maharaj - Você é a presença consciente sem pensamentos

Um dos primeiros visitantes numa sessão foi um homem que era representante de uma sociedade Européia de Vedanta. Maharaj foi direto ao ponto e perguntou se ele tinha alguma pergunta a fazer ou se tinha algum ponto para esclarecer. Quando o visitante disse que gostaria de ouvir um pouco o que Maharaj tinha a dizer antes de fazer qualquer pergunta, Maharaj sugeriu que, sendo que ele era o responsável de um escritório de uma das mais ativas Sociedades Vedânticas possuidora de um número de adeptos bastante grande, ele deveria começar o diálogo e dizer como eles explicavam esses assuntos um tanto elusivos para um novo membro que se interessa pela sociedade deles.


Visitante: Bem, primeiro falamos para ele sobre exercícios físicos de Yoga, pois um ocidental está basicamente interessado no bem-estar de seu corpo. Yoga para ele significa ser capaz de fazer o corpo realizar proezas de resistência física e também alcançar um grau elevado de concentração mental. Depois de um curso de Asanas de Yoga passamos a dizer-lhe que "ele" não é o corpo, mas sim algo à parte do corpo.

Maharaj: Isso que você diz levanta duas questões: primeiro, qual é o ponto de partida até mesmo para perceber o corpo? Em outras palavras, não existe algo dentro do corpo na ausência do qual você não seria capaz de reconhecer nem o seu próprio corpo, ou o corpo de outras pessoas? Segundo, no que diz respeito à pessoa que está ensinando àquele novo membro, ela tem uma idéia bem clara sobre a própria identidade dela? Se ela mesma não é o corpo, então, quem, ou o quê, é ela?

V: Não tenho certeza do que exatamente você está querendo dizer.

M: O corpo é apenas um instrumento, um aparelho; que seria totalmente inútil se não fosse a energia no interior, o animus, o sentido de "eu sou", o conhecimento de estar vivo, a consciência que proporciona o sentido de se estar presente. Na realidade, esta presença consciente (não uma pessoa específica que está presente, mas a própria sensação de presença consciente) é o que a pessoa é, e não essa aparência no nível dos fenômenos que é o corpo. É quando essa consciência, sentindo a necessidade de algum apoio, equivocadamente se identifica com o corpo e abandona o seu potencial ilimitado em troca da limitação de um corpo singular, que o indivíduo 'nasce'. Esse é o primeiro ponto a respeito do qual aquele que está ensinando o Vedanta deve ter uma firme convicção intuitiva. O outro aspecto fundamental é que esse que ensina também deve ter uma compreensão muito clara de como a união entre o corpo e a consciência surgiu. Em outras palavras, ele não deve ter dúvida alguma a respeito da própria natureza verdadeira dele mesmo. Para isso, ele deve compreender a natureza do corpo e a da consciência (ou do sentido de ser, ou o sentido de 'eu sou') e também a natureza do mundo fenomênico. Caso contrário, o que quer que ele ensine só será conhecimento emprestado dos outros, heresia, conceitos de outra pessoa.

V(sorrindo): É exatamente por essa razão que estou aqui. Vou ficar aqui cerca de uma semana e participarei das sessões da manhã e da noite.

M: Você tem certeza de que está fazendo a coisa certa? Você veio aqui com uma certa quantidade de conhecimento. Se você persistir em me ouvir, você pode chegar à conclusão de que todo conhecimento não é nada mais que um punhado de conceitos inúteis, e, pior ainda, de que você mesmo é um conceito. Você ficará, então, do mesmo jeito que uma pessoa que de repente percebe que as riquezas que guardou se transformaram em cinzas do dia para noite. E aí? Não seria melhor, mais seguro, voltar para casa com a sua "riqueza" intacta?

V: Vou aproveitar a oportunidade. Eu prefiro saber o real valor da riqueza que eu acho que possuo. Sinto que o tipo de riqueza que vou alcançar depois que a riqueza inútil for jogada fora, será impagável e está além do risco de ser perdida ou roubada.

M: Que assim seja. Agora me diga, quem você pensa que é?

V: Duvido que isso possa realmente ser colocado em palavras. Mas parece que eu não sou o corpo, mas sim a sensação de presença consciente.

M: Deixe-me dizer-lhe muito brevemente: Seu corpo é o crescimento de uma emissão vinda da união de seus pais, que foi concebida no ventre de sua mãe. Essa emissão era a essência da comida consumida por seus pais. Seu corpo é, portanto, feito da essência dos alimentos e é também sustentado pelos alimentos. E a sensação da presença consciente que você mencionou é o sabor, "a natureza". da essência dos alimentos que constituem o corpo, assim como a doçura é a natureza do açúcar, o qual é a essência da cana-de-açúcar. Mas entenda que seu corpo pode existir apenas por um período limitado de tempo, e quando o material do qual ele é feito finalmente se deteriorar até 'morrer', a força vital (a respiração) e a consciência também desaparecerão do corpo. Então, o que irá acontecer com 'você '?

V: A consciência desaparecerá? Devo dizer que estou um pouco assustado por ouvir isso.

M: Na ausência do corpo, pode a consciência estar consciente de si mesma? A consciência, na ausência do corpo, não estará mais manifesta. Então, voltamos ao ponto de partida: Quem, ou o quê é você?

V: Como eu disse antes, isso realmente não pode ser colocado em palavras.

M: É claro que não pode ser colocado em palavras, mas você sabe quem ou o quê você é? Uma vez que você expressa isso, torna-se um conceito. Mas, apesar de ser o criador de um conceito, não é você mesmo um conceito? E você não nasceu realmente do ventre da conceitualização? Mas, quem é você na verdade? Ou, se como eu você preferir, o quê é você?

V: Penso que sou a presença consciente.

M: Você disse que "penso"! Quem é esse que pensa isso? Não é a sua própria consciência na qual os pensamentos aparecem? E, como vimos, a consciência, ou a presença, está vinculada ao tempo, juntamente com o corpo. É por isso que eu lhe disse anteriormente que é necessário apreender a natureza do corpo e também a da força vital (Prana) e da consciência. O que você é, é a "presença" somente enquanto o corpo, um fenômeno manifestado, estiver aí. O quê você era antes que o corpo e a consciência aparecessem espontaneamente sobre você? Digo "espontaneamente" pois você não foi consultado a respeito de ser apresentado com um corpo, nem seus pais especificamente esperavam ter 'você' como filho deles. Você não era então, relativamente, a 'ausência' na verdade, em vez de ser a "presença", antes de que o estado da consciência-corpo surgisse no que quer que fosse 'você' naquela ocasião?

V: Não tenho certeza se eu entendo isso.

M: Agora, veja. Para algo aparecer, para que possa existir, tem de haver um pano de fundo de absoluta ausência - absoluta ausência tanto da presença, quanto da ausência. Sei que isso não é fácil de compreender. Mas tente. Qualquer presença somente pode "aparecer" a partir da ausência total. Se houver presença até mesmo de ausência, não pode haver nem os fenômenos, nem a cognição. Portanto, a ausência total e absoluta implica total ausência de conceitualização. Esse é o seu verdadeiro estado original. Repito: O 'você' nasce no ventre do processo de conceituar. Sobre o estado original de ausência total surge espontaneamente uma partícula de consciência - o pensamento "eu sou" - e, assim, sobre o estado original de unicidade e plenitude surge a dualidade; a dualidade sujeito-objeto, certo e errado, puro e impuro – o raciocínio, a comparação, o julgamento, etc. Reflita sobre isso.
Infelizmente esta sessão deve acabar agora.

V: Essa conversa foi certamente uma revelação para mim, embora eu tenha estudado Vedanta por um tempo considerável.
.
M: Está claro para você uma coisa, que você está antes de toda conceitualização? O que você parece ser enquanto um fenômeno não é nada além de conceitual. O que você realmente é, não pode ser compreendido pela simples razão de que, no estado de não-conceitualidade não pode haver uma pessoa para compreender o que ela mesma é!

V: Senhor, eu gostaria de vir esta noite para mais esclarecimentos e sentarei a seus pés todos os dias enquanto eu estiver em Mumbai.

M: Você é bem-vindo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

P. D. Ouspensky - Consciência significa também vontade e vontade significa liberdade

Ouspensky: Você pode chegar à compreensão da lembrança de si (self-remembering) de muitas maneiras diferentes. Por exemplo, quando ouvi pela primeira vez sobre ela, lembro que foi muito estranho. A idéia impactou-me como sendo de uma extensão enorme. Eu estive estudando psicologia durante muitos anos e percebi que em tudo que eu tinha estudado, essa idéia não era conhecida. Abismou-me o quanto pensamos erroneamente e que tínhamos perdido a maior verdade, o fato de que não nos lembramos de nós e o de que poderíamos nos lembrar, é o maior fato em toda a psicologia - a possibilidade da consciência, uma tremenda idéia. Outras pessoas que conheço, perceberam que nunca foram mestres de si mesmas, outras pessoas ficaram interessadas ao descobrir que se alguém decide fazer uma coisa durante o sono, sem consciência, então não é uma ação dela mesma, aquilo apenas acontece. É necessário começar com essa idéia, ver suas aplicações e conexões.
Pergunta: Você disse que quando percebemos que não nos lembramos de nós estamos mais perto da lembrança de si. Vejo agora que não me lembro de mim mesmo, mas não vou mais longe que isso.
O: Vá mais fundo. Nada mais é necessário. Perceba mais e mais, cada vez mais profundamente, que nem você e nem as outras pessoas se lembram, que ninguém lembra de si mesmo. Isso o levará para a lembrança de si mais do que qualquer outra coisa. Nossa dificuldade é principalmente dependente da falta de percepção de que não nos lembramos de nós mesmos. Se percebêssemos com mais frequência que não nos lembramos e que as outras pessoas também não, que ninguém se lembra de si mesmo, então começaríamos a lembrar, apenas através disso.

P: Como podemos aprender a parar os pensamentos?
O: Através da lembrança de si. Os pensamentos param de imediato.
P: Você disse que o tipo de energia utilizada para a lembrança de si pode ser aumentada quando se quer. Como isso pode ser feito?
O: Ao tentar lembrar de si mesmo e através da observação. Suas impressões trazem energia. Se você olha e não vê, você perde energia, mas se você observa e vê, isso significa que você adquire mais energia.
P: É possível de repente transformar a energia da raiva em alguma coisa? Temos uma energia tremenda, mas não sabemos como utilizá-la.
O: Ao não se identificar. Temos uma energia enorme e ela funciona por si mesma, faz-nos agir de uma certa maneira. Por quê? Qual é o elo de ligação? A identificação é o elo. Pare a identificação e você terá a energia à sua disposição. Como você pode fazer isso? Não é de uma vez. Isso precisa de prática. Pratique nos momentos fáceis. Quando a emoção é muito forte, não se pode. É necessário saber mais para estar preparado. Se você sabe como não se identificar nos momentos certos, você terá muita energia à sua disposição. O que você vai fazer com ela é outra coisa. Você pode perdê-la em algo completamente inútil. Mas é preciso prática. Você não pode aprender a nadar se você cair no mar durante uma tempestade. Você deve aprender em águas calmas. Então, talvez, se você cair, será capaz de nadar.
P: Devemos compreender que a lembrança de si significa consciência?
O: Mais uma vez, não só consciência. Significa também uma certa capacidade de agir de uma determinada maneira, de fazer o que se quer. Você vê, em nosso pensamento lógico, no conhecimento lógico, nós separamos a consciência da vontade. Consciência significa vontade. Em russo, por exemplo, a palavra vontade é a mesma que liberdade. Nas línguas com raízes latinas, eles desconsideram o significado, dão-lhe outro significado. A palavra consciência significa uma combinação de todo o conhecimento, como se você tivesse todo o seu conhecimento diante de você ao mesmo tempo. Mas consciência significa também vontade, e vontade significa liberdade.
P: Existe alguma maneira pela qual possamos lembrar mais claramente o que compreendemos quando estávamos em um estado melhor?
O: Isso é uma coisa muito importante, mas eu não sei de um método especial. Esses momentos devem estar ligados. Olhe para trás, tente comparar. Isso é particularmente importante em relação a alguma questão definida. Você pode entender algo que você não entendeu meia hora atrás. Mas talvez antes tenha havido momentos em que você também entendeu alguma coisa a esse respeito. Tente lembrar desses momentos e conectá-los.
P: A lembrança de si tem conexão com "Eu sou o que sou”?
O: Esta é uma idéia filosófica. Em outras palavras, o Absoluto pode ser chamado de 'Eu' ou 'Ego'- não tem nada a ver com os imaginários 'eus' humanos. Isso também está relacionado com uma outra idéia, que só Deus tem o direito de chamar-se de 'Eu' - e nós nos chamamos de 'eu '.
P: O que você quis dizer quando disse que temos de tentar nos lembrar de nós quando é mais difícil?
O: Você sabe que não deve fazer alguma coisa. Uma parte de você quer fazer isso. Então você lembra de si e pára isso. A lembrança de si tem um elemento de Vontade nela. Se fosse apenas ao sonhar 'Eu sou, eu sou, eu sou' não valeria de nada. Você deve dar um certo tempo simplesmente para estudar o que significa lembrar e o que não lembrar significa e os efeitos que lembrar e não lembrar têm. Depois, você pode inventar muitas maneiras diferentes de lembrar de si mesmo. Mas na verdade, a lembrança não é intelectual, abstrata. São momentos de vontade. Não é pensamento, é ação. Ela significa controle. Caso contrário, qual é o uso de lembrar de si mesmo se isso não aumentar o controle? Você só pode controlar a si mesmo em momentos de lembrança de si. Controle mecânico proveniente da formação, da educação e assim por diante, não é controle: quando a pessoa é ensinada a se comportar de uma determinada maneira em determinadas circunstâncias.
P: Qual é a aplicação prática deste sistema?

O: Por exemplo, uma possibilidade de estabelecer o nosso estado de consciência e a possibilidade de aumentar a nossa consciência através da lembrança de si - isso imediatamente se torna prático, foi isso que primeiramente me surpreendeu quando comecei a estudar o sistema, que é particularmente importante e particularmente interessante (pois os sistemas do Oriente deixavam escapar esse ponto) que não estamos conscientes e que podemos nos tornar conscientes. Houveram peças e livros interessantes, mas eles foram muito específicos, ou saíram sob o nome de filosofia, e geralmente foram escritos em linguagem difícil de tal forma que permaneceram desconhecidos para o público geral.