segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Philokalia - São Makario do Egito - O Tesouro no Pote de Barro


Explicar as coisas em termos superficiais não é difícil nem problemático. Por exemplo, é fácil para qualquer um dizer que este pão é feito de trigo; contudo, expor etapa por etapa como o pão é feito não é da competência de todos, mas apenas de quem tem experiência. Da mesma forma, é fácil falar superficialmente sobre desapego e perfeição; mas os estágios pelos quais são alcançados só podem ser verdadeiramente compreendidos por aqueles que os alcançaram em sua experiência real.

Aqueles que discorrem sobre realidades espirituais sem as terem provado e experimentado são como um homem atravessando uma planície vazia e árida ao meio-dia em um dia de verão: em sua grande e ardente sede, ele imagina que há uma nascente fresca por perto, cheia de água doce e límpida, e que não há nada que o impeça de beber o quanto quiser. Ou são como um homem que, sem ter provado uma gota de mel, tenta explicar aos outros como é sua doçura. Tais são, de fato, aqueles que tentam apresentar aos outros a perfeição, a santidade e o desapego, sem ter aprendido sobre essas coisas por meio de seus próprios esforços e experiência direta. E se Deus tivesse dado a eles mesmo que uma leve consciência das coisas sobre as quais eles falam, eles veriam em todos os eventos que a verdade sobre eles difere muito da explicação que eles dão. O cristianismo está sujeito a ser mal interpretado pouco a pouco dessa maneira, e assim se transformar em ateísmo. Mas, na realidade, o cristianismo é como comida e bebida: quanto mais um homem o prova, mais ele o deseja, até que seu intelecto se torna insaciável e incontrolável. É como se oferecêssemos a alguém sedento uma bebida doce tal, que ele desejasse beber não apenas para saciar sua sede, mas para continuar bebendo cada vez mais pelo prazer que isso lhe proporcionasse. Essas coisas não devem ser entendidas apenas de maneira teórica; devem ser alcançadas dentro do intelecto de uma maneira misteriosa por meio da atividade do Espírito Santo, e só então pode-se falar a seu respeito.

Mesmo que você tenha experimentado as coisas celestiais e participado da sabedoria divina, e sua alma esteja em repouso, não se exalte ou se torne excessivamente confiante, pensando que você já atingiu seu objetivo e que entendeu toda a verdade, para que as palavras de São Paulo não se apliquem também a você: 'Você já está saciado, você já é rico, você reinou como reis sem nós. Pudera que você reinasse, para que pudéssemos reinar com você '(1 Coríntios 4: 8). Mesmo que você tenha experimentado um pouco, considere-se como ainda não um cristão; e não pense nisso apenas superficialmente, mas deixe que seja como se fosse plantado e estabelecido permanentemente em sua mente.


Um amante das riquezas nunca está satisfeito, não importa quantos bens ele acumule, quanto mais ele adquire diariamente, mais seu apetite aumenta; e uma pessoa afastada à força de uma bica de água pura antes de matar a sede fica ainda mais sedenta. Da mesma forma, uma vez que alguém teve um gosto de Deus, jamais poderá ficar saciado ou farto dele, por mais que se enriqueça com essa riqueza, ainda se sentirá pobre, os cristãos não dão grande importância a suas próprias vidas, mas consideram-se como justamente desprezados por Deus e como servos de todos. Deus se alegra muito com isso e repousa em sua alma por causa de sua humildade. Portanto, se você alcança algo ou é enriquecido, não presuma, por isso, que você é algo ou possui algo. A presunção é uma abominação para o Senhor, e foi isso que originalmente expulsou o homem do paraíso quando ouviu a serpente dizer: 'Vocês serão como deuses' (Gênesis 3: 5) e depositou sua confiança nessa vã esperança. Não aprendeste como o teu Deus e Rei e próprio Filho de Deus, se esvaziou e assumiu a forma de escravo (ref. Fl. 2, 7)? Como ele se tornou pobre, foi classificado entre os criminosos e sofreu? Se foi isso o que aconteceu com Deus, você acha que o homem, formado de carne e sangue, que é apenas terra e cinzas, totalmente sem bondade e totalmente depravado, tem motivos para ser orgulhoso e arrogante? Se você tiver compreensão, reconhecerá que mesmo o que você recebeu de Deus não é seu, visto que foi dado por outra pessoa; e se Ele achar adequado, certamente será tirado de você novamente. Atribua, portanto, toda bênção a Deus e todo mal à sua própria fraqueza.


Recebemos a salvação através da graça e como um dom divino do Espírito. Mas, para atingir a medida plena da virtude, precisamos também possuir fé e amor, e lutar para exercer nosso livre arbítrio com integridade. Dessa forma, herdamos a vida eterna como consequência da graça e da justiça. Não alcançamos o estágio final de maturidade espiritual apenas por meio do poder divino e da graça, sem que façamos nenhum esforço; mas, por outro lado, não alcançamos a medida final de liberdade e pureza como resultado de nossa própria diligência e força somente, à parte de qualquer ajuda divina. Se o Senhor não constrói a casa, diz-se, e protege a cidade, em vão o vigia fica acordado, e em vão trabalham o operário e o construtor (ref. Salmo 127,1-4).


Qual é a vontade de Deus que São Paulo exorta e convida cada um de nós a alcançar (ref. 1 Tes. 4, 3)? É a purificação total do pecado, a libertação das paixões vergonhosas e a aquisição da virtude mais elevada. Em outras palavras, é a purificação e a santificação do coração que ocorrem por meio da participação plenamente experimentada e consciente no Espírito divino e perfeito. 'Bem-aventurados os puros de coração', é dito, 'pois eles verão a Deus' (Mat. 5: 8); e novamente: "Torne-se perfeito, como o seu Pai celestial é perfeito" (Mat. 5:48). E o salmista diz: ‘Que o meu coração seja infalível nos Teus estatutos, para que não me envergonhe’ (Salmo 119: 80); e novamente: "Quando eu prestar atenção a todos os Teus mandamentos, não terei vergonha" (Salmos 119: 6). E à pessoa que perguntou: 'Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem ficará no Seu lugar santo?' O salmista respondeu: 'Aquele que é limpo de mãos e puro de coração' (Salmo 24: 3-4), isto é, aquele que destruiu completamente o pecado em ato e em pensamento.


Como já foi dito, o amor a Deus pode ser alcançado através das grandes lutas e labores do intelecto na meditação sagrada e na atenção incessante a tudo o que é bom. O diabo, ao contrário, impede nosso intelecto, não permitindo que se dedique ao amor divino pela lembrança do que é bom, mas seduzindo os sentidos com desejos terrenos. Pois o intelecto que habita sem distração no amor e na lembrança de Deus é a morte do diabo e, por assim dizer, sua armadilha. Portanto, é apenas por meio do primeiro mandamento, amar a Deus, que o amor genuíno pelo irmão pode ser estabelecido, e que a verdadeira simplicidade, gentileza, humildade, integridade, bondade, oração e toda a bela coroa das virtudes podem ser aperfeiçoados. Muita luta é necessária, portanto, e muito trabalho interior e invisível, muito escrutínio de nossos pensamentos e treinamento dos órgãos de percepção enfraquecidos de nossa alma, antes que possamos discriminar entre o bem e o mal, e fortalecer e dar nova vida aos poderes aflitos de nossos alma através do esforço diligente de nosso intelecto para com Deus. Pois, apegando-se sempre a Deus dessa forma, o nosso intelecto se tornará um só espírito com o Senhor, como diz São Paulo (ref. 1 Cor. 6, 17).


Aquele tesouro que São Paulo disse que guardamos em potes de barro (ref. 2 Cor 4, 7) é a força santificadora do Espírito que, estando ainda na carne, ele pôde receber. Mais uma vez, São Paulo diz: '... que foi tornado por Deus nossa sabedoria, justiça, santificação e redenção' (1 Cor. 1:30). Aquele que encontra e possui este tesouro celestial do Espírito pode realizar todos os atos e obras justos prescritos pelos mandamentos, não apenas em pureza e sem falhas, mas também sem qualquer sofrimento ou esforço, enquanto antes ele estava longe de cumpri-los de forma indolor. Pois ninguém, por mais que tente, pode verdadeiramente cultivar frutos espirituais antes de participar do Espírito Santo. Mas todos devem se pressionar, esforçando-se para avançar com perseverança e fé, e implorando fervorosamente a Cristo para que adquira este tesouro celestial; pois nele e por meio dele ele pode realizar, como foi dito, todo ato justo com pureza e perfeição, sem labuta ou angústia.



Aqueles que têm o privilégio de se tornarem filhos de Deus e de ter Cristo brilhando dentro de si são guiados por qualidades variadas e diferentes do Espírito, e são acalentados pela graça nos lugares secretos do coração. As aparentes alegrias do mundo não devem ser comparadas com a experiência da graça divina na alma. Os que participam desta graça às vezes se enchem de alegria e exultação inexprimíveis e sem nome, como se estivessem em algum banquete real; às vezes eles se sentem como noiva e noivo deleitando-se espiritualmente; e às vezes como anjos sem corpo, visto que o corpo se tornou tão leve que parece que eles não estão vestidos com ele. Às vezes parece que eles estão em algum reino regozijando-se enormemente e embriagados com a embriaguez inexprimível dos mistérios do Espírito; e então, em outras ocasiões, estão cheios de tristeza, chorando e lamentando enquanto intercedem pela salvação do homem. Pois, ardendo com o amor divino do Espírito por todos os homens, eles tomam para si a dor de todo Adão; e às vezes são acesos pelo Espírito com tal amor e deleite indizível que, se fosse possível, abraçariam a todos contra o peito, sem fazer distinção entre quem é bom e quem é mau; e às vezes eles se rebaixam tanto que se consideram o menor de todos os homens. Ora estão consumidos por uma alegria espiritual inexprimível, ora como algum poderoso guerreiro vestindo armadura real, marchando para a guerra e colocando o inimigo em fuga, eles se armam com as armas do Espírito, atacam seus inimigos invisíveis e os colocam sob seus pés. Ora são abraçados por uma grande tranquilidade e quietude, uma paz os nutre e eles experimentam um grande deleite; ora adquirem compreensão, sabedoria divina e conhecimento espiritual insondável. Em suma, é impossível descrever a graça de Cristo pela qual eles são iluminados. Em outras ocasiões, podem parecer como qualquer pessoa comum. A graça divina, assumindo neles muitas formas diferentes, ensina e disciplina a alma para apresentá-la perfeita, pura e imaculada ao Pai celeste.


Todas essas ações do Espírito são características de quem está em um nível elevado e muito próximo da perfeição. Pois essas múltiplas bênçãos da graça são variadas e incessantemente ativadas nessas pessoas pelo Espírito, uma energia espiritual sucedendo à outra. Quando a alma atinge a perfeição espiritual, totalmente purificada de todas as paixões e totalmente unida e mesclada com o Espírito Santo, o Intercessor, em comunhão inefável, então através dessa mesclagem com o Espírito a própria alma é habilitada a se tornar espírito: ela se torna toda luz , todo espírito, toda alegria, repouso, exultação, todo amor, toda ternura, toda bondade e gentileza. É como se ele tivesse sido absorvido pelas virtudes pertencentes ao poder do Espírito Santo, como uma pedra nas profundezas do mar é cercada por água. Totalmente unidas dessa forma ao Espírito Santo, tais pessoas são assimiladas ao próprio Cristo, mantendo as virtudes do Espírito imutáveis ​​em si mesmas e revelando seus frutos a todos. Visto que por meio do Espírito eles foram feitos internamente imaculados e puros de coração, é impossível para eles produzirem externamente os frutos do mal: sempre e por meio de todas as coisas os frutos do Espírito se manifestarão neles. Tal é o estado de perfeição espiritual, tal a plenitude de Cristo que São Paulo nos exorta a atingir quando diz: '... para que sejais cheios de toda a plenitude de Cristo' (ref. Ef 3,19). ; e ainda: '... até que todos cheguemos ao homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo' (Ef 4:13).


O estado espiritual é como algum palácio real que possui muitos pátios externos, vestíbulos e residências externas; depois, há vários edifícios internos, geralmente abrigando as vestes reais e o tesouro; e então, ainda mais dentro, estão os aposentos do rei. Alguém que ainda está nos pátios e apartamentos externos pode pensar que alcançou os aposentos internos, mas estaria equivocado. O mesmo é verdade no que diz respeito à vida espiritual. Aqueles que lutam contra a ganância e o sono, e continuamente ocupados com salmos e orações, não devem pensar que já alcançaram o local de descanso final: eles ainda estão nos pátios e vestíbulos externos, e nem mesmo chegaram ao local onde as vestes reais e tesouros são mantidos. Mesmo que sejam considerados dignos de alguma graça espiritual, mais uma vez, isso não deve levá-los a pensar que alcançaram seu objetivo. Eles devem examinar para ver se encontraram o tesouro no pote de barro (ref. 2 Coríntios 4: 7), se eles vestiram o manto púrpuro do Espírito, se viram o rei e estão em paz.

Novamente, nossa alma tem profundezas e muitas faculdades. Quando o pecado se insinua, ele se apodera de todas essas faculdades e de todos os pensamentos do coração. Em seguida, pedimos a graça do Espírito: essa é concedida e talvez abranja duas das faculdades da alma. Se nos falta experiência, imaginamos que esta graça que invocamos se apoderou de todas as faculdades da alma e que o pecado foi completamente extirpado; não percebemos que a maior parte de nossa alma ainda está sujeita ao pecado. Pois, como foi mostrado muitas vezes, é possível que a graça seja incessantemente ativa, como o olho está no corpo, e ainda que o mal que assola a mente coexista com ela. Consequentemente, se não sabemos discriminar, imaginamos ter alcançado algo grande e começamos a nos auto estimar, iludindo-nos de que atingimos o estágio final de purificação, embora isso esteja muito longe da verdade. Como já foi dito, uma das manobras do diabo é retirar-se deliberadamente por um certo tempo e permanecer inativo, promovendo assim o conceito de perfeição naqueles que buscam o caminho espiritual. Mas o homem que planta uma vinha imediatamente colhe uvas? Ou quem semeia na terra colhe imediatamente a colheita? O filho recém-nascido atinge a maturidade imediatamente? Pense em como Jesus Cristo, o Filho de Deus e o próprio Deus, desceu das alturas da glória para o sofrimento, desonra, crucificação e morte; e como, por causa dessa auto humilhação, Ele foi novamente levantado e colocado à direita do Pai. Mas a serpente má, que primeiro semeou em Adão o desejo da divindade (ref. Gen 3,5), arrastou-o para a desgraça por meio dessa presunção. Pense nessas coisas e tente se proteger o máximo que puder, mantendo seu coração sempre em estado de humildade e contrição.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Schwaller de Lubcs - O Templo do Homem

 


O mistério de todos os dias: Todo o poder do pai e de seus pais está na semente. Os genes nos cromossomos carregam toda a hereditariedade do pai em forma e em substância, bem como todas as suas características. Então essa semente fixa a hereditariedade da mãe com a substância que provê sua nutrição. A semente, sem forma tangível ou visível e o padrão, a Idea daquilo que ela engendra, é um poder transcendente. Ao redor de um padrão incorpóreo uma substância amorfa coagula-se em um ser vivo, completo, complexo e pensado pelo Poder.   

Na ação esotérica da Idea para a forma, sua finalidade, vêm as finalidades exotéricas, transitórias, os estágios aparentes e formais.    

Essa é a maravilha do mundo: tudo o que existe, tudo o que há: tem semente. Assim como a vontade e o pensamento são as sementes da criação mental.   

Um pensamento de poder transcendental compele uma substância da substância universal passiva, esperando qualquer semente, a tornar-se um produto específico, um herdeiro, um mundo que sucede, resulta sobre um mundo. Um único poder em uma única substância trabalha através de todas as finalidades transitórias em direção da finalidade prevista: o homem.   

E ao final da humanidade surge o homem sem corpo, a substância dentro do poder.   

Não ser e depois ser e depois não ser mais é a pulsação que constitui o universo aparente, as finalidades transitórias. A Idea-Poder, a finalidade, forma poderes sem forma, esses são as alternâncias vitais, as pulsações cósmicas.   

A lei da gênese estabelece um ritmo invariável na sucessão de estágios. As finalidades transitórias entre a Idea e a coisa. Também, os órgãos que assimilam (pelo ar, líquidos e sólidos) bem como os órgãos que informam (através da inteligência e dos sentidos) são uma questão de uma energia da mesma natureza que a do objeto que eles assimilam ou experimentam.   

A realidade incontestável do mistério evidente que torna visível o invisível e ponderável o imponderável é o Verbo da sabedoria. A invariabilidade da lei da gênese é a base da filosofia tradicional. Qualquer pesquisa conduzida sem essas diretrizes conduz a um impasse ou a nada.   

Todos as coisas ou são criadas ou geradas, o que importa assim o que é manifestado? O conhecimento está dentro daquilo que ele cria e daquilo que causa a geração. 

O ternário está no início. Por exemplo, o impacto de corpos faz um som, há um impulso, uma resistência e um efeito. Esse processo é repetido uma terceira vez com aquele que recebe. O som expande-se em volume, em esferas concêntricas de densidade alternante que determina o eixo vertical e as duas dimensões do plano horizontal. Dentro de si o som carrega o volume, as orientações, o prisma das oitavas, as espirais das progressões harmônicas na expansão das camadas de densidades em espirais esféricas. Também dentro do som existem interferências e sincronismos de números e tempos, as especificações do som. Eles são materializados em instrumentos que juntos constituem o ouvido. 

O ouvido não é feito para ouvir, poderia ser dito que as encostas dos rios e suas margens são feitas do rio? O som produziu o ouvido. Essa é a razão pela qual o ouvido detecta o som.  

Similarmente, no curso da “evolução” as energias dentro dos diferentes estados de matéria criaram os sentidos informativos. O pensamento do poder cria o órgão de uma função particular e o pensamento é a consciência em ação. 

A doutrina do Antropocosmos diz: estude o ouvido para entender o som, estude o olho para entender a luz. 

 

A gestação preenche a lacuna entre a Idea, a forma e a matéria. Inspiração e expiração, pulsação e alteração, constituem o outro mistério de cada momento – a gestação. A relação proporcional e regular entre as diferentes durações criam o ritmo. A hora, o dia, o mês, o ano e a coincidência do movimento dos céus são os receptáculos dos ritmos dos átomos, das células e de tudo o que existe. 

E a desordem cria o mundo e evoca a harmonia. A desordem espalha as partes, as quais se reúnem novamente de acordo com suas afinidades. Desordem, caos, ordem e harmonia: a alternação dos ritmos. Gestar não é nada além de fazer e desfazer, criar e destruir, afirmar e negar, contrair e dilatar. O que foi é a semente do que será, a forma destruída serve como fundação da forma por surgir – gênese. 

A finalidade para cada fase da gênese é a consciência inata daquilo que a precedeu. Para a humanidade, a finalidade da gênese é o homem. Para a sabedoria, é o Homem Cósmico libertado da gênese de seus elementos: consciência inata total.

Portanto, o universo está encarnado no homem e não é nada além do Homem potencial – Antropocosmo. E o homem é o diagrama, o mapa cosmográfico no qual a sabedoria lê o universo, a gênese, as funções. 

 

A fundação antropocósmica libera a filosofia do ambiente limitado da simples especulação de ideas ao oferecer-lhe o objeto para aplicações experimentais. É uma síntese da arte e da ciência, da fé e da razão, do pensamento e da experiência, do sentimento e da demonstração. 

A energia causal torna-se mineral, a mineral torna-se planta, a planta torna-se animal, a animal torna-se homem e homem torna-se o Homem Cósmico, o santo, o Buda, o Cristo. O mineral sofreu a separação da Causa, a planta sofreu o mineral, o animal sofreu a planta, o homem sofreu o animal e o Homem Cósmico terá sofrido a humanidade. O sofrimento vital é a consciência passando pelo  processo de superar a si mesma.  

A Gênese é a expansão da consciência. 


 

Crer, aprender e conhecer são os três portões de entrada do Templo. 

“Aprender” é estabelecer através dos sentidos a realidade daquilo em que se acredita. “Crer” é ter convicção sobre a realidade daquilo que não pode ser demonstrado. Mas a verdade é a congruência daquilo que aprendemos e/ou cremos com aquilo que é. Essa identificação é conhecimento, o portão que leva além do Templo, o ser dentro do Ser.  

Podemos acreditar no Universo dentro do homem, podemos estudar o universo através do homem, porque o homem está unido com o universo no homem. A identidade do Universo e o homem é a fonte de sua fé, a fonte de sua ciência, a promessa da sua libertação, é o conhecimento da “árvore no centro” 

 

A unidade da Fonte, a unidade de propósito e a unidade de função criam uma solidariedade que dá fundação à moralidade da pessoa superior. A qualquer momento na superfície da esfera universal eclode uma partícula imponderável da energia causal. Ela projeta inúmeras fagulhas em todas as direções. Essas fagulhas viajam, afastando-se umas das outras lenta ou rapidamente, e elas irão todas se reagrupar no anti-polo. Cada uma delas estava livre, mas a superfície esférica conduze-as. 

As condições da vida pertencem a uma ordem cósmica. A vontade e o livre arbítrio pertencem a uma ordem individual e não podem de forma alguma afetar as condições da vida. As condições da vida são sagradas e relacionam-se a sabedoria. Apenas o conhecimento chega perto da sabedoria. A purificação, a unção e a coroação são rituais a serem completados para ganhar o direito de se aproximar do “sagrado dos sagrados”.                

Os meios de revelar a particularidade de um ser para o outro é o símbolo. É a especificação dedo ser. Especificações são afinidades e aparências formais no tempo, no espaço e no movimento. Mas o conhecimento não requer nenhum meio de transmissão, pois os seres não são separados do Ser. O homem não é um símbolo do universo, ele é o Universo. 

 

O reinado do espírito é a consciência da Unidade e a ordem governada por sua certeza.  

 

A consciência é a identificação de uma natureza com uma natureza similar, de um ser especificado com a especificação de outro ser. 

 

Energia não é mecânica. Massa é energia coagulada pela semente, seu movimento é mecânico, é o poder de revolta, a reação libertadora contra o aprisionamento. 

 

 

O antropocosmo é a realidade, uma fundação indisputável. O universo não é nem uma “imaginação” nem uma “vontade”, mas sim uma “projeção” da consciência humana. 

O homem dentro do humano é o Colosso do Universo. Tudo aquilo que pode ser reconhecido pelo homem está dentro dele ou vem através dele. A “lógica” através da qual ele consegue buscar ou construir todos os edifícios do pensamento é o resultado de sua posição presente  como um ser sensível face a face com aquilo que se imprime nele dentro dos presentes limites da sua percepção. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Jalaluddin Rumi - 24 Poemas



Sou aquele tipo de carga 
Que não foi muito bem equilibrada. 

Desabo na grama, 
para pastar 
onde quer que eu caia. 

Por centenas de milhares de anos, tenho sido pó 
flutuando e voando à mercê do ar, 
frequentemente esquecendo um dia ter 
vivido nesse estado, 

mas quando durmo 
migro de volta pra ele. Desvencilho-me 
da cruz de quatro ramificações do tempo e do espaço, 

Saio desta sala de espera. 

Entro em um pasto enorme. 

Mamo o leite dos milênios. 

Todos fazem isso de maneiras diferentes, 
Sabendo que decisões conscientes 
e memória pessoal 
são lugares muito pequenos para morar, 
Cada ser humano é carregado à noite 
Para um adorável lugar nenhum, 
ou durante o dia, 
Absortos em algum trabalho. 

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Eu recebi um copo que tem dentro a fonte do sol, 

É um amigo em ambos os mundos, 
como a fragrância do âmbar dentro do cheiro do almíscar. 

Meu papagaio da alma fica animado com doçura. 

Batidas de asas, 

uma porta se abrindo ao sol. 

Você já viu o mercado onde se vendem cabeças cozidas: 
é dessa forma que é, 

uma maneira de ver além do interior e do exterior. 

Um burro vagueia pelo signo de Touro. 

Os heróis não ficam alinhados nas fileiras por muito tempo. 

Eu parti para Tabriz, 
embora meu barco esteja ancorado aqui. 


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Na sua luz, aprendo a amar. 

Na sua beleza, 
como fazer poemas. 

Você dança dentro do meu peito 
onde ninguém lhe vê, 
mas às vezes eu vejo, 
e essa visão se torna esta arte. 


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O som dos tambores eleva-se no ar, 
sua pulsação, meu coração. 

Uma voz dentro da batida diz: 

"Eu sei que você está cansado, 
mas venha, este é o caminho. ” 


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Você está com ciúmes da generosidade do oceano? 

Por que você se recusaria a dar esse amor a alguém? 

Os peixes não guardam o líquido sagrado em copos! 

Eles nadam na enorme liberdade fluida. 


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A experiência espiritual é uma mulher modesta 
que olha com amor para um homem. 
É um grande rio onde patos vivem felizes 
e os corvos se afogam. 

A tigela visível das formas 
contém alimentos que são nutritivos 
e também uma fonte de azia.
 
Há uma presença invisível que honramos 
e que dá os presentes.
 
Você é a água. 
Nós somos a pedra de moinho. 
Você é o vento. 
Nós somos poeira transformada em formas. 
Você é espírito. 
Nós somos o abrir e fechar de nossas mãos. 
Você é a claridade. 
Somos essa linguagem que tenta descrevê-la. 
Você é uma alegria. 
Somos todas as diferentes formas de risada. 

Qualquer movimento ou som é uma profissão da fé, 
como o moinho girando 
está explicando como ele acredita no rio! 

Nenhuma metáfora pode dizer isso, 
mas não consigo parar de apontar para a beleza. 
Cada momento e cada lugar dizem: 

“Coloque este desenho no seu tapete!” 


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Uma formiga se apressa ao longo de uma eira 
com seu grão de trigo, 
movendo-se entre enormes pilhas de trigo, 
sem saber da abundância em toda a sua volta. 

Ela pensa que seu grão solitário 
é tudo o que há para amar. 

Assim, escolhemos uma pequena semente 
à qual devemos nos dedicar. 

Este corpo, um caminho ou um professor. 

Olhe mais longe e mais amplamente. 
A essência de cada ser humano pode ver, 
e aquilo que esse olho-essência capta, 
o ser se torna. 

Saturno. 

Salomão! 

O oceano derrama-se num jarro, 
e você pode dizer que ele nada dentro 
do Peixe! 

Este mistério pacifica o seu anseio 
e cria o caminho de casa. 


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Afrodite cantando ghazals. 

Um céu com listras douradas. 

Um bambu que encontra água na pedra. 

Jesus sentado quietamente perto dos animais.
 
Uma noite tão tranquila. 


Isso é o suficiente, 
sempre foi verdade. 
Apenas não temos visto isso. 


A poupa já usa uma coroa tufada. 
Para cada formiga é dado 
seu cinto elegante no nascimento. 

Esse amor que sentimos 
se derrama através de nós 
como uma música devocional. 

A fonte do agora está aqui 


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Lembro-me dos filhos de Uzayr, 
que estavam procurando o pai. 

Eles envelheceram, 
e seu pai milagrosamente rejuvenesceu! 

Eles o encontram e perguntam: 
“Perdoe-nos, senhor, mas o senhor viu Uzayr? 
Nós ouvimos que ele deveria estar vindo por esta estrada hoje." 
“Sim,” diz Uzayr, 
"Ele está bem atrás de mim." 

Um de seus filhos responde: 
"Boas notícias". 
O outro cai no chão. 
Ele reconheceu seu pai. 

“O que você quer dizer com notícias? 
Já estamos diante da doçura de sua presença.” 

Para a mente existe tal coisa como notícias, 
ao passo que para o conhecimento interior, 
tudo está no meio de seu acontecimento. 
Para os que duvidam, isso é uma dor. 
Para os crentes, é o evangelho. 


Para o amante e o visionário, 
é a vida como está sendo vivida. 


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A alma: 
um amplo céu a escutar com milhares de velas. 


Quando qualquer coisa é vendida, 
a alma é dada no dinheiro: 
pessoas esperando na porta, 
uma escada apoiada em um telhado, 
alguém descendo. 
A praça do mercado 
iluminada com compreensão. 

O escutar abre sua boca maravilhada. 


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O canto dos pássaros, 
o vento, 
a face da água. 

Cada flor, 
lembrando o cheiro: 

eu sei que você está por perto. 


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Isto é agora. 
Agora é. 
Não adie até então. 

Ascenda o fogo.
Sente-se à cabeceira da mesa. 
Mergulhe sua colher na tigela. 

Sente-se ao lado de seu amor 
e faça sua alma desperta servir o vinho. 

Ramos ao vento da primavera, 
A dança fácil do jasmim e do cipreste. 

O tecido para mantos verdes foi cortado da pura ausência. 
Você é o alfaiate, 
acomodado entre os produtos da loja, 
costurando discretamente. 


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Você ouviu que o inverno acabou? 

O manjericão e os cravos 
não podem conter suas risadas. 

O rouxinol, de volta de sua peregrinação, 
foi feito mestre do canto sobre todos os pássaros. 
As árvores estendem seus galhos parabenizando. 

A alma 
Passa dançando pela porta do rei. 

As anêmonas ficam coradas porque viram a rosa nua. 

A Primavera, 
a única Juíza justa, 
entra no tribunal 
e vários ladrões de dezembro roubam. 

Os milagres do ano passado logo serão esquecidos. 
Novas criaturas espiralam 
da não-existência, 
galáxias espalhadas ao redor de seus pés. 
Você as conheceu? 


Você ouve o menino Jesus cantando no berço? 

Uma única flor de narciso 
foi nomeada inspetora dos Reinos. 

Um banquete é estabelecido. 

Ouça. 

O vento está servindo o vinho! 
O amor costumava se esconder dentro de imagens. 
Não mais! 

O pomar pendura suas lanternas. 

Os mortos vêm tropeçando em mortalhas. 

Nada pode ficar atado ou emprisionado. 

Você diz: “Termine este poema aqui e 
espere o que vem a seguir. ” 

Eu vou. 
Poemas são comentários grosseiros 
para a música que somos. 


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Os filósofos têm dito que amamos música 
porque ela se assemelha aos sons das esferas da união. 

Já fizemos parte de uma harmonia antes, 
então esses momentos de agudos e graves 
mantêm nossas lembranças frescas. 

Mas como isso pode acontecer 
dentro desses corpos densos 
cheio de esquecimento, dúvida e pesar? 

É como a água passando por nós. 
Torna-se ácida e amarga, 
mas na forma de urina retém qualidades aquosas. 

Pode apagar um fogo! 

Portanto, há essa música fluindo por nossos corpos 
que pode dosar a inquietação. 

Ouvindo o som, ganhamos força. 
O amor acende com a melodia. 
A Música alimenta a compostura do amante 
e dá forma à imaginação. 

A Música respira no fogo pessoal 
e torna-o mais aguçado. 

O poço é fundo. 
Um homem com sede sobe em uma nogueira 
que cresce ao lado de um lago 
e joga as nozes uma a uma no lindo lugar. 
Ele ouve atentamente o som 
enquanto elas batem na água 
e observa as bolhas. 

Um homem mais racional dá o conselho: 
"Você vai se arrepender de fazer isso. 
Você está tão longe da água que, 
no momento em que descer para colher as nozes, 
a água as terá levado." 

Ele responde: 
"Não estou aqui para comer nozes, 
quero a música elas fazem quando acertam a água. ” 


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Neste momento, 
esse amor vem descansar em mim, 
muitos seres em um ser. 

Em um grão de trigo, 
milhares de feixes. 
Dentro do buraco da agulha, 
uma noite giratória de estrelas. 

A conta transparente no centro muda tudo. 

Não há limites para o meu amor agora. 


Você já ouviu falar que há uma janela 
que se abre de uma mente para outra, 

mas se não houver muro, 
não há necessidade de encaixar a janela 
ou o trinco. 


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Dentro deste novo amor, 
morra. 

Seu caminho começa do outro lado. 

Torne-se o céu. 

Leve um machado para a parede da prisão. 

Escape. 

Vá embora, 
como alguém que repentinamente 
tornou-se colorido. 

Faça isso agora. 

Você está coberto por uma nuvem espessa. 

Deslize para fora. 

Morra, 
e fique quieto. 
A quietude é o sinal mais seguro de que você morreu. 

Sua antiga vida era uma fuga frenética do silêncio. 

A lua cheia silenciosa surge agora. 



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Fiquem juntos, amigos. 
Não se espalhem e durmam. 

Nossa amizade é feita de estarmos acordados. 

A roda d'água aceita a água e gira 
e se doa, chorando. 

Dessa forma fica no jardim, 
enquanto outra roda 
rola por um leito seco de rio 
procurando o que pensa que deseja. 

Fique aqui, 
palpitando a cada momento 
como uma gota de mercúrio. 


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Depois de dias de banquete, 
jejue. 

Depois de dias dormindo, 
fique acordado uma noite. 

Após esses tempos de contação de histórias amargas, 
piadas e considerações sérias, 
devemos nos dar dois dias entre as camadas de baklava 
na reclusão quieta 
onde a alma adoça e prospera mais do que com a linguagem. 


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Um certo Sufi rasgou suas vestes de tristeza, 

e o rasgo trouxe tanto alívio 
que ele deu ao manto o nome de faraji, 
que significa rasgado, 
ou felicidade ou aquele que traz alegria 
de ser aberto. 
Vem do radical faraj, 
que também se refere aos órgãos genitais, 
masculino e feminino. 

Seu professor entendeu a pureza daquela ação, 
enquanto os outros apenas notaram 
a aparência esfarrapada. 

Se você quer paz e pureza, 
arranque as coberturas!
 
Este é o propósito da emoção, 
permitir que uma beleza radiante 
flua através de você. 

Chame-a de espírito, elixir 
ou de acordo original entre você e Deus. 

A abertura para isso dá paz, 
uma canção sobre estar vazio, 
puro silêncio. 

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A generosidade do solo 
absorve nossa compostagem 
e cultiva a beleza. 

Tente ser mais parecido com o solo. 
Retribua melhor, 
como a terra dura devolve uma espiga de milho, 
uma flor, uma cevada, 
este belo punhado de aveia. 

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Não dê ouvidos a nada do que eu digo. 

Devo entrar no centro do fogo. 

O fogo é meu filho, 
mas devo ser consumido 
e tornar-me fogo. 

Por que há crepitação e fumaça? 
Porque a lenha e as chamas 
ainda falam uma da outra. 

“Você é muito densa. Vá embora!" 

“Você está vacilando demais. 
Eu tenho uma forma sólida. ” 

Na escuridão, 
esses amigos continuam discutindo. 
Como um andarilho sem rosto. 
Como o pássaro mais poderoso que existe, 
sentado em seu poleiro, 
recusando-se a se mover. 

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Você destruiu minha loja, 
 minha casa 
e agora meu coração, 
mas como posso fugir daquilo que me dá vida? 

Estou cansado de preocupações pessoais, 
apaixonado pela arte da loucura! 
Rasgue minha vergonha 
e mostre o mistério. 

Quanto tempo mais terei que me preocupar 
com a autocontenção e o medo? 

Amigos, é assim: 
somos franjas costuradas dentro do forro de um manto. 
Em breve seremos afrouxados, 
os fios da costura serão arrancados. 

O amado é um leão. 
Somos um cervo de patas mancas.

 Considere quais escolhas nós temos. 


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O amor vem com uma faca, 
não com alguma pergunta tímida, 
e não temendo por sua reputação! 

Eu digo essas coisas desinteressadamente. 
Aceite-as da mesma maneira. 

O amor é um louco, 
trabalhando em seus esquemas selvagens, 
arrancando suas roupas, 
correndo pelas montanhas, 
bebendo veneno 
e agora escolhendo silenciosamente a aniquilação. 

Uma pequena aranha 
tenta embrulhar uma enorme vespa. 

Pense na teia de aranha tecida 
na caverna onde Maomé dormiu! 

Existem histórias de amor 
e existe uma destruição no amor. 

Você tem caminhado à beira do oceano, 
segurando suas vestes para mantê-las secas. 

Você deve mergulhar nu e no fundo,
 muito mais fundo, 
mil vezes mais fundo! 

O amor flui para baixo. 

O solo se submete ao céu e sofre o que vier. 

Diga-me, 
a terra é pior por ceder assim? 

Não coloque cobertores sobre o tambor! 
Abra completamente. 
Deixe que seu ouvido do espírito 
ouça o murmúrio apaixonado da cúpula verde. 

Que as cordas do seu manto sejam desamarradas. 

Estremeça neste novo amor 
além de tudo 
acima e abaixo. 

O sol nasce, 
mas para onde vai a noite? 

Eu não tenho mais palavras. 

Deixe a alma falar 
com a articulação silenciosa de um rosto.