domingo, 19 de junho de 2011

P. D. Ouspensky - Trechos do Livro 'A Further Record' (parte 2)


Sr. Ouspensky: Tente pensar o que é que torna o trabalho tão difícil, tente encontrar quais são as coisas que levam grande parte da sua atenção. Tudo isso tem de ser encontrado. Quero que você compreenda que cada pessoa separadamente tem um certo obstáculo definido que fica no caminho de seu trabalho, algum ponto definido que impede a possibilidade do trabalho correto. É esse obstáculo que você tem de encontrar. Cada pessoa tem muitas dificuldades — quero dizer dificuldades na compreensão — mas uma é maior do que as outras. Por isso é necessário para cada um de vocês separadamente, encontrar sua própria dificuldade principal. Quando encontrá-la, o trabalho contra ela poderá ajudá-lo por um tempo determinado e, em seguida, talvez você terá de encontrar outra dificuldade e depois outra e mais outra. Até que você encontre sua presente dificuldade você não será capaz de trabalhar da maneira correta. Evidentemente, a primeira dificuldade para todos é a palavra 'eu'. Você diz 'eu' e não percebe que é apenas uma pequena parte de você que fala. Mas por trás e além dessa parte deve haver algo mais, e isso é para que cada um de vocês encontre pessoalmente.
Essa dificuldade pode ser um tipo específico de emoção negativa, um tipo específico de identificação ou de imaginação ou muitas outras coisas.
Pergunta: Ficar sempre adiando as coisas poderia ser a grande dificuldade?
Sr. O: Muito possivelmente — muito bom. Mas isso não é exatamente o que eu quero dizer. Essa é uma dificuldade em fazer, e eu quis dizer dificuldade de compreensão. Você já entendeu esse 'ficar adiando', já pensou nisso, portanto, não é o tipo de dificuldade da qual quero falar. Tente pensar o que torna as coisas muito difíceis ou toma grande parte da sua atenção. Todas essas coisas devem ser encontradas.
P: Minha dificuldade é que eu deveria dar mais tempo para o Trabalho, mas tenho medo de abandonar algo que gosto. O que posso fazer a esse respeito?
Sr. O: Talvez ao concordar em abandonar alguma coisa. Você não pode obter coisa alguma sem abrir mão de algo. Mas há muitas coisas imaginárias que você sempre pode abandonar. Então você deve abrir mão de coisas imaginárias e manter para si mesmo coisas reais. Mais uma vez, seu infortúnio é que você não sabe o que é imaginário e o que é real.
Vocês podem trabalhar nessas linhas quando se reunirem. Se quiserem, podem falar sobre as teorias — caso tenham esquecido de algo, podem perguntar a outras pessoas — contudo, mais importante do que isso é tentar encontrar as dificuldades pessoais. Não me refiro a dificuldades pessoais de um tipo externo, mas dificuldades pessoais internas — características pessoais, inclinações pessoais, repulsões pessoais, atitudes, preconceitos, atividades que podem parar sua compreensão impedindo-os de trabalhar. Essas dificuldades pessoais internas podem ser divididas em três categorias. Para algumas pessoas a principal dificuldade está nas emoções negativas — elas simplesmente não podem deixar de ficar negativas, geralmente em alguma direção específica. Para outras pessoas, a principal dificuldade está na imaginação — elas não conseguem parar de imaginar certas coisas que são completamente erradas e que distorcem a sua visão das coisas. Não me refiro à imaginação no sentido de devaneios, quero dizer a imaginação no sentido de alguma ideia errada persistente. A terceira categoria é o pensamento formatório. É muito útil tentar entender o que o pensamento formatório significa, encontrar alguns bons exemplos de pensamento formatório e manter esses exemplos em mente. Então, não será difícil reconhecer e perceber, seja quando você se vê pensando formatoriamente ou quando você ouve alguém falando formatoriamente. Estes são os principais tipos de dificuldades que vocês têm de encontrar em si. Para uma pessoa, uma dificuldade é mais permanente, para outra uma outra dificuldade e para uma terceira, uma terceira ainda — às vezes duas juntas, mas melhor tentar pensar qual é a principal em você, pensamento formatório, emoção negativa ou imaginação. Certamente, além disso, pode ser que você não ouça bem. Talvez você não saiba de coisas que deveria saber. Talvez você não tenha ouvido. Não me refiro apenas aos diagramas mas também ao lado psicológico. As pessoas podem ajudar umas às outras. Uma pode lembrar algo melhor, outra pode se lembrar de algo mais.
P: Há uma grande parte de mim que não quer se desenvolver. Como posso fazer a parte que deseja se desenvolver ficar mais forte?
Sr. O: Você deve fazer o que é possível para você, e além disso não pode fazer nada. Este 'eu' que quer crescer vai crescer, mas ele só poderá crescer por causa de seus esforços. Posteriormente, de alguma forma ele vai fazer com que os outros ‘eus’ não interfiram.
P: Como posso tentar construir uma direção real, um objetivo mais forte?
Sr. O: Novamente a mesma coisa — através da construção de si mesmo. Você pode ser mais forte do que você mesmo.
P: Somos uma soma total de diferentes ‘eus’. Como podemos saber em que 'eu' confiar? Como saber se o 'eu' que tomou a decisão é o certo?
Sr. O: Você não pode saber — este é o nosso estado. Temos de lidar com o que somos até que mudemos, mas trabalhamos com a ideia de mudança possível e quanto mais percebermos o estado lastimável em que estamos mais energia teremos.
P: É algo em nós mesmos que não desejamos mudar o suficiente? Se desejássemos o suficiente poderíamos obter ajuda?
Sr. O.: Sim, certamente, mas eu não colocaria assim. Você tem toda a ajuda que é possível. É a sua vez agora de trabalhar, sua vez de fazer algo. Certamente, com condições diferentes, preparação diferente e também circunstâncias diferentes, as coisas poderiam ser melhor organizadas, ou até mesmo mais poderia ser dado. Mas a questão não é quanto é dado, e sim o quanto é tomado, porque geralmente apenas uma pequena parte do que é dado é tomado efetivamente.
P: O que posso fazer para alcançar a unidade?
Sr. O: Ser um. Conquistar toda esta pluralidade dos muitos ‘eus’.
P: Como podemos mudar o ser?
Sr. O: Esta é a mudança de ser — ser um. Não para sempre. Mas tente durante cinco minutos, depois dez minutos.
P: O que é vontade própria?
Sr. O: Vontade própria é contra a unidade. É dito para você: 'Não faça isso' e você diz: 'Eu quero fazer isso'.
P: Eu não entendo a resposta que você deu sobre a tentativa de ter unidade por cinco minutos por dia.
Sr. O: Bem, o que mais posso dizer? Tentar não deixar os diferentes ‘eus’ interromperem e discutirem entre si. Se não der por cinco minutos, tente quatro, três. Não o suficiente para dizer que você não pode fazê-lo.

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P: Ver a nós mesmos significa uma combinação da auto-observação e da lembrança de si?
Sr. O: Não, significa apenas ter uma correta imagem de si mesmo.
P: É possível ter uma visão completa de nós mesmos?
Sr. O: Sim, sem dúvida, este é o começo. Antes de alcançar isso você não pode iniciar nenhum trabalho sério, você pode apenas estudar, mas mesmo isso será fracionário.
P: É muito difícil termos certeza de que estamos dizendo a verdade para nós mesmos.
Sr. O: Sim, é por isso que eu disse para ver a si mesmo, não para conhecer. Temos muitos retratos de nós mesmos. Temos de vê-los, um após o outro e, em seguida, compará-los. Mas não podemos dizer à primeira vista qual é o correto.
P: Qual é a maneira de verificar que estamos vendo a nós mesmos?
Sr. O: A experiência repetida.
P: Mas a experiência repetida também não pode estar errada?
Sr. O: Nossa capacidade de enganar a nós mesmos é tão grande que podemos enganarmo-nos até mesmo nisso.
P: Queria saber se haveria alguma forma de verificação?
Sr. O: Não, mas quando entrar um elemento emocional — a consciência — essa será a verificação.
P: Você quer dizer quando acordamos repentinamente e ficamos envergonhados?
Sr. O: Esse é o acompanhamento emocional. Falo apenas sobre ver.
P: Ver o que não somos é a mesma coisa?
Sr. O: Uma coisa inclui a outra.
P: É possível ficar vendo a si mesmo sem que haja uma grande mudança?
Sr. O: É difícil de responder. As pessoas se acostumam a tudo, até mesmo a ver a si mesmas.
P: Você disse que a pessoa não começa a trabalhar até que tenha visto a si mesma.
Sr. O: Sim. Não é possível falar a uma pessoa de maneira séria até que ela comece a ver-se, ou, pelo menos, perceba que é necessário ver a si mesma e que ela não se vê.
P: Às vezes, eu me vejo como extremamente confuso e atraído em todas as direções, mas não vejo como sair dessa confusão.
Sr. O: Esta é uma imagem. Tente encontrar outra imagem. Isso é o que, no primeiro grupo de Petersburgo, era chamado de tirar fotografias de nós mesmos em preparação para vermos a nós mesmos.P: Ver a nós mesmos significa alguma percepção permanente? Porque às vezes o que eu vejo em um dado momento mais tarde se torna algo abstrato e não emocional.
Sr. O: Isso significa que você deixa de ver a si mesmo. Nada é permanente em nós.
P: Ver a si mesmo significa que você vê suas falhas e também o que fazer com elas?
Sr. O: Às vezes pode ser assim. Mas novamente, você tenta encontrar definições e explicações e eu não falei sobre definição e explicação, mas sobre a prática real — não como definir isso ou como isso pode ser traduzido em palavras diferentes — é ver de fato. Suponha que você fala sobre um determinado retrato e nunca o viu, mas só ouviu falar sobre ele. Você pode saber tudo o que for possível sobre esse retrato, mas se você ainda não o viu, é necessário primeiro de tudo vê-lo e, em seguida, verificar tudo o que você sabe.
P: O que nos atrai para o sono é a mecanicidade?
Sr. O: Certamente.
P: Você disse para tentarmos parar os pensamentos durante cinco minutos ou tentarmos estar conscientes de nós mesmos.
Sr. O: É a mesma coisa — dá o mesmo resultado. Para algumas pessoas é mais fácil de fazer uma coisa e para outras pode ser mais fácil fazê-lo de outra maneira. Certamente o parar os pensamentos é um esforço mais mecânico, por isso às vezes é mais fácil. Não importa, o resultado é o mesmo, se você fizer bem. Não o resultado de cada cinco minutos em particular, mas de modo geral.
P: Como posso aprender a pensar em um nível diferente?
Sr. O: Você deve olhar para os temas para pensar e tentar encontrar alguma ligação pessoal com uma ou duas questões, algum interesse pessoal, então isso irá crescer e se desenvolver. Por pessoal quero dizer o que você pensava antes, questões que vieram antes por si mesmas, que você nunca poderia responder ou algo parecido. E quando você encontrar algo que você pode ver mais, isso poderá fazer surgir outras coisas.
P: Quando penso sobre um determinado assunto, sinto que posso tentar pensar em tudo o que tenho ouvido sobre ele e tentar compreender aspectos novos ou novas conexões. Ou posso tentar impedir qualquer pensamento, e às vezes até mesmo sentirei algo sobre o assunto. Ambos os métodos são úteis?
Sr. O: Você fala sobre 'fazer', mas realmente o que você pode obter com este programa é: você pode ver e observar as diferentes formas de pensar, porque um dia você pensa de uma maneira e outro dia você pode pensar sobre a mesma coisa de outra maneira. Você deve observar isso, não tente 'fazer'. Você não pode 'fazer' nada.
É importante lembrar que não podemos fazer nada. Se você se lembrar disso, se lembrará de muitas outras coisas. Em geral, há três ou quatro grandes obstáculos principais e se a pessoa não cair em um, cairá em outro. O fazer é um deles. Existem alguns princípios fundamentais que você nunca deve esquecer. Por exemplo, que você deve olhar para si mesmo e não para as outras pessoas, que as pessoas não podem fazer nada por si mesmas, mas, se é possível mudar, é só com a ajuda do sistema, de organização e do próprio trabalho das pessoas, do estudo do sistema. É preciso encontrar coisas como essas e lembrar-se delas.
P: Como podemos nos certificar de que lembramos delas? Sr. O: Imagine começar a planejar algo para fazer, é só quando você realmente tenta fazer alguma coisa diferente da forma como ela acontece que você percebe que é absolutamente impossível fazer de modo diferente. Um enorme esforço é necessário para alterar até mesmo uma coisa pequena. A menos que você tente, nunca poderá perceber isso. Você não pode alterar nada, exceto através do sistema. Isso geralmente é esquecido. Metade das perguntas são sempre sobre fazer — como mudar isso, destruir aquilo, evitar isso e assim por diante. P: Você pode esclarecer sobre a importância de lembrar que não podemos fazer? Sr. O: Tudo acontece. As pessoas não podem fazer nada. Desde o momento que nascemos até a hora da morte as coisas acontecem, acontecem, acontecem e nós pensamos que estamos fazendo. Este é o nosso estado comum normal na vida. E mesmo a menor possibilidade de fazer alguma coisa vem apenas através do Trabalho e primeiro somente em nós mesmos, não externamente. Mesmo em nós mesmos o fazer muito frequentemente começa com o não fazer. Antes que você possa fazer algo que você não pode fazer, você deve deixar de fazer muitas coisas que fazia antes. Você não pode despertar apenas por querer despertar, mas você pode impedir-se, por exemplo, de dormir por muito tempo ou algo parecido.P: Algumas vezes temos uma escolha entre dois acontecimentos possíveis?
Sr. O: Em coisas muito pequenas. E mesmo assim, se você notar que as coisas estão indo numa determinada maneira e decide alterá-las, você vai descobrir como é extremamente incômodo mudar as coisas. E assim você volta para as mesmas coisas.
P: Quando realmente começarmos a entender que não podemos fazer, será necessária uma grande dose de coragem. Isso virá ao livrarmo-nos da falsa personalidade? Sr. O: Não se chega a esse entendimento dessa forma. Ele vem depois de algum tempo de trabalho em si mesmo, de modo que quando a pessoa chega a essa realização ela tem muitas outras realizações além dela, principalmente de que existem maneiras de mudar se aplicarmos o instrumento certo no lugar certo e na hora certa. Devemos ter esses instrumentos e novamente, eles são dados apenas pelo trabalho. É muito, muito importante chegar a essa realização. Antes disso a pessoa não vai fazer as coisas certas. Vai arrumar desculpas.P: Não entendi o que você quis dizer quando disse que a menos que tenhamos essa percepção iremos arrumar desculpas. Sr. O: Não queremos desistir desta ideia de que podemos fazer e mesmo se percebemos que as coisas acontecem, encontramos desculpas como: ‘isso é acidental, amanhã será diferente’. É por isso que não podemos nos dar conta dessa ideia. Em toda a nossa vida podemos ver como as coisas acontecem, mas ainda as explicamos como acidente, como exceções à regra de que podemos fazer. Ou esquecemos, ou não vemos ou não prestamos suficiente atenção. Sempre pensamos que a todo momento podemos começar a fazer. Essa é a nossa maneira ordinária de pensar nisso. Se você tentar encontrar em sua vida momentos onde tentou fazer algo e falhou, esse será um exemplo. Mas você explicou seu fracasso como um acidente, uma exceção. Se as coisas se repetirem, novamente você pensará ser capaz de fazer, e se ver isso novamente, mais uma vez a falha será apenas um acidente. É muito útil recordar a sua vida desse ponto de vista. Você pretendia uma coisa e algo diferente aconteceu. Se você for sincero, você vai ver. Caso contrário, você irá convencer-se de que o que aconteceu era exatamente o que você queria. P: Não existe algo como forçar uma situação? Sr. O: Pode parecer que é assim, mas realmente aquilo aconteceu. Se não pudesse acontecer dessa forma, então não aconteceria. Quando as coisas acontecem de uma determinada maneira somos carregados pela corrente, mas pensamos que somos nós que carregamos a corrente. P: Se sentimos por um momento que somos capazes de fazer, digamos, de executar um serviço específico no trabalho ordinário, qual é a explicação disso?Sr. O: Se a pessoa é treinada para fazer alguma coisa, ela aprende a seguir certos tipos de acontecimentos ou, se você preferir, a começar certos tipos de acontecimentos e, em seguida, eles se desenvolvem e a pessoa corre atrás, apesar de pensar que está comandando.
P: Se temos a atitude correta....Sr. O: Não, atitude não tem nada a ver com isso. A atitude pode estar correta, a compreensão pode estar correta, mas você ainda descobre que as coisas acontecem de uma determinada maneira. Quaisquer coisas comuns. É muito útil tentarmos e lembrarmos de casos onde tentamos fazer diferente e como sempre acabamos voltando para a mesma coisa, mesmo se fizermos algum ligeiro desvio, forças enormes nos conduzirão de volta para as formas antigas.P: Quando você diz que não podemos evitar que as mesmas coisas aconteçam, você quer dizer até que nosso ser seja mudado? Sr. O: Não falo sobre o Trabalho. Eu disse que era necessário compreender que por nós mesmos não podemos fazer. Quando isso for suficientemente entendido você poderá pensar o que é possível fazer: que condições, que conhecimentos, que tipo de ajuda são necessários. Mas, primeiro, é necessário perceber que na vida ordinária, se você tentar fazer algo diferente, vai descobrir que você não pode. Quando isso for emocionalmente entendido, só então será possível ir mais longe. Enquanto você não estiver bem certo disso, será impossível continuar. P: Quando tornamo-nos conscientes de ‘eus’ contraditórios em nós mesmos temos desejo de fazer algo drástico a esse respeito. Existe alguma coisa que podemos fazer? Sr. O: Em quase todos os casos para fazer algo é necessário saber mais, particularmente no caso de contradições. Por exemplo, eu me defronto muitas vezes com este caso: alguém diz que sabe o que há de errado consigo e quer fazer algo para pará-lo. Começo a falar com ele e, depois de eu ter falado por algum tempo, percebo que ele acha que quer, mas na realidade não quer tanto quanto ele diz. Se alguém realmente quiser, vai encontrar uma maneira, mas às vezes é necessário algum tipo de conhecimento especial. A pessoa pode conhecer algum tipo de contradição, desejar interrompê-la e mesmo assim ela ainda permanece lá. Às vezes, é necessário saber como.P: A plena realização de que não podemos fazer coisa alguma já é um longo passo no caminho para fazer?
Sr. O: Às vezes o passo é longo demais, porque a pessoa pode perceber que não pode fazer algo que ela deve fazer e percebe tarde demais.
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Sr. O: Voltemos à questão da Justiça. É interessante a título de linguagem. O que é Justiça? P: Algo que é justo para duas pessoas. Sr. O: Quem seria justo? Como um arranjo condicional, pode ser entendido. Como uma coisa geral, é fantástico. Você esquece que a vida orgânica está baseada em assassinato. Uma coisa come a outra: gatos e ratos. O que é justiça entre os gatos e ratos? Esta é a vida. Não é algo muito bonito. Então, onde está a justiça? P: Por que as pessoas pensam que a natureza é bela se é assim que ela funciona? Sr. O: O que é bonito? O que você gosta. P: Como pode Deus ser amor se Ele criou a natureza dessa forma?Sr. O: Por um determinado propósito. Além disso, o que você chama de natureza? Um terremoto também é natureza. Mas por hora nós aplicamos o termo 'natureza' com relação à vida orgânica. Evidentemente, foi criada assim porque não havia nenhum outro meio. Como podemos perguntar o por quê? Foi feito assim. Se não gostarmos disso, podemos estudar métodos de como escapar. Essa é a única possibilidade. Só não devemos tentar imaginar que ela é muito bonita. Não devemos fingir que os fatos são diferentes do que são. P: Você vai colocar o homem em pé de igualdade com o resto da vida orgânica? Sr. O: Não há nenhuma diferença, só que as outras unidades são totalmente desenvolvidas e o homem é apenas parcialmente desenvolvido. P: O homem pode ficar além da lei do assassinato? Sr. O: Ele tem a possibilidade de escapar. P: Quais são as maneiras de escapar do assassinato? Sr. O: O homem está sob 192 leis. Ele deve escapar de algumas delas.P: Você disse que os homens são responsáveis pelo que eles fazem e os animais não são? Sr. O: Os homens 1, 2 e 3 são menos responsáveis. Homens no. 4 e assim por diante, são mais responsáveis, a responsabilidade cresce. P: O que significa responsabilidade? Sr. O: Em primeiro lugar, um animal não tem nada a perder, mas o homem tem. Em segundo lugar, o homem tem de pagar por cada erro que ele fizer, caso ele já tenha começado a crescer. P: Isso implica justiça. Sr. O: Não, ninguém chamaria isso de justiça se você tivesse de pagar por seus erros. P: Justiça não significa obter o que merecemos?
Sr. O: A maioria das pessoas pensa que estamos recebendo o que queremos e não o que merecemos. Justiça deve significar alguma coordenação entre as ações e os resultados das ações. Isso certamente não existe e não pode existir sob a Lei do Acidente. Quando conhecemos as principais leis, entendemos que vivemos em um lugar muito ruim, um lugar realmente ruim. Mas, como não podemos estar em nenhum outro lugar, temos de ver o que podemos fazer aqui. Apenas não devemos imaginar que as coisas são melhores do que são.
P: As coisas permanecerão como estão a menos que todo mundo fique consciente?Sr. O: As coisas permanecerão como são, mas podemos escapar. É preciso muito conhecimento para saber do que é possível escapar e do que não é. Mas a primeira lição que temos de aprender, a primeira coisa que nos impede de escapar é que nem sequer percebemos a necessidade de conhecer a nossa posição. Aquele que conhece já está em uma posição melhor.P: Cada vez que repasso as coisas diferentes para pensar no programa de Trabalho, vejo que não estou fazendo nenhum progresso em pensar sobre elas. Não posso fazer mais do que repetí-las. Sr. O: Repetir não vai ajudar. Você deve tentar pensar. Você deve tentar encontrar algo novo de uma forma que você não tenha visto antes, ou alguns novos pontos de vista ou ângulos. Tente falar com outras pessoas sobre isso, é muito útil fazer assim. P: Minha incapacidade de pensar de uma forma nova ou ter quaisquer pensamentos novos sobre os mesmos assuntos tem me mostrado realmente como minha mente é muito mecânica e formatória. De que forma posso tentar? Sr. O: Mais lembrança de si. Essa é a única coisa; é por isso que durante cinco minutos você realmente deve lutar para estar consciente de si mesmo ou para colocar para fora todos os pensamentos, e se você fizer a sério, isso vai ajudar. P: Tenho notado que muitas vezes pensamentos de um frescor e lucidez extraordinários surgem repentinamente em minha mente. Como podemos tentar obter esses lampejos sobre o assunto que desejamos?Sr. O: Lembre mais de si mesmo — mais profundamente — melhor. Não há outra resposta; e, em seguida, tente pensar também de pontos de vista diferentes, ou escalas diferentes. Tente conectar um ponto, as coisas que você pensava antes ou fazia antes ou que não podia responder antes. Se você conectar um ponto corretamente, todo o resto ficará mais claro. P: É difícil manter uma linha de pensamento em comparação com as coisas comuns que acontecem em nossa cabeça — o material é tão limitado. Sr. O: Não, o material é muito grande — outra coisa é limitada. Ou o desejo é limitado ou esforço é limitado. Algo é limitado, mas não o material. P: Eu gostaria de saber qual é a causa da resistência para manter os pensamentos de fora — os pensamentos fortes que entram sorrateiramente. Sr. O: Existem duas causas — a causa da resistência é uma coisa e a causa dos pensamentos que vêm interromper é outra. A segunda mostra o modo ordinário de pensamento — não podemos nunca manter uma linha porque as associações acidentais entram. A resistência é outra coisa, é o resultado de uma falta de habilidade, falta de saber como lidar com isso, falta de experiência se quiser — não pensar intencionalmente, numa determinada linha. Mas esta capacidade deve ser educada.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Rodney Collin - Teoria da Harmonia Consciente (parte 2)

(Notas sobre o 'Trabalho sobre si', baseado na tradição do Quarto Caminho)

A coisa principal, a coisa mais difícil, é despertar o coração. De alguma forma temos de aprender a sermos capazes de viver no coração, de julgar a partir do coração, assim como normalmente vivemos na mente mecânica e julgamos dali. É a mudança do centro da atenção em nós mesmos. Pois os movimentos do coração são tão rápidos que apenas se pudermos aprender a viver lá por algum tempo, será possível capturá-los quando eles passarem e obedecê-los. Isso também significa que temos de aprender a alimentar o coração, tomar impressões emocionais diretamente de lá, assim como agora tomamos o conhecimento diretamente da mente.

Existem métodos para ajudar nesse sentido. Ouspensky disse: 'Faça grandes exigências sobre si mesmo'. Essa é a chave. Só que não devem ser apenas exigências de Faquir*, mas demandas de todos os tipos — particularmente exigências emocionais. E tudo isso deve sempre ser combinado com o esforço para a lembrança de si* — e nunca separar-se disso.

Fomos ensinados (e entendo isso melhor a cada dia) que a compreensão não é o produto de uma função no homem, mas é a resultante das várias funções trabalhando em harmonia. Por exemplo, se a pessoa aprecia algo com a mente, ela 'conhece'; se aprecia com as emoções, ela 'sente’; se aprecia com os órgãos físicos externos, ela 'tem a sensação’ de. Mas se simultaneamente aprecia com a mente, as emoções e os sentidos físicos, então ela realmente compreende aquilo. Como somos atualmente, isso é muito raro de ocorrer. Pode ser desenvolvido. Mas para fazê-lo, algo como a 'lembrança de si’ é necessário — ou seja, é preciso lembrar de todas as nossas funções e de suas relações com a coisa em questão.

A matemática moderna é uma ferramenta poderosa de pensamento, não só nas ciências físicas, mas também em relação à própria vida. Só que para isso, é preciso compreender a matemática não só com a mente, mas também com as emoções e com todo o organismo físico. A 'matemática emocional' pode resolver qualquer problema no universo. Afinal, o que mais é a ideia da Santíssima Trindade?

Através da compreensão tudo se torna simples. Vemos aquilo que é, objetivamente; onde estamos, objetivamente; o que podemos fazer, objetivamente. A compreensão previne atritos inúteis, lutas inúteis. Torna-nos constantes, tolerantes, gentis, 'compreensivos'. Dá-nos peso. Para chegar à real compreensão devemos estudar mais, muito mais, verificar em termos mundanos tudo o que foi dito ou sentido. É necessário estarmos abertos. Tudo está disponível, esperando por nós. Estamos sendo banhados em radiações cósmicas, temos toda ajuda. Mas temos de tornarmo-nos abertos. Abrir nossos poros. Pegar tudo. O que nos impede de estarmos abertos e de recebermos o que está acontecendo, é o fato de estarmos preocupados com nós mesmos, pensando em nós mesmos. Se nos esquecermos de nós mesmos, tudo virá a nós.
Polaridades: Sol - Terra, polo norte - polo sul, polo positivo - polo negativo, homem - mulher. Tudo real é criado pela intervenção de uma força invisível no campo de tensão entre dois polos. Os dois polos são reconciliados por alguma corrente superior, algo não reconhecido. Então, começa a criação. Se o terceiro elemento não está presente ou não é reconhecido, a polaridade pode transformar-se em hostilidade, violência, destruição, ódio. Os polos parecem "inimigos". Sempre que a terceira força é evocada, eles tornam-se complementos. Ver a reconciliação das polaridades pela terceira força é o começo da harmonia. Certa vez, há muito tempo, Ouspensky disse: ' há ideias que poderiam parar todas as brigas; uma delas é a ideia da lei de três.'*

Enormes quantidades de informações detalhadas sobre todos os ramos concebíveis do conhecimento estão disponíveis e sendo constantemente adicionadas pelo método dedutivo. Mas tudo isso só leva a mais confusão e divisão porque tal conhecimento não está unido por nenhum princípio. É claro que apenas princípios podem reunir os diferentes ramos do conhecimento e os diferentes lados da vida que se tornaram tão separados e antagônicos. É verdade que uma apresentação qualquer de princípios não será aceita pelos estudiosos e cientistas ordinários — mas apenas por aqueles que já tenham farejado a existência de certas leis universais* e que começaram a procurar por elas. Para os outros, essas ideias continuarão a ser invisíveis.

Certamente novas expressões de princípios vão ser mal interpretadas, tal como foram as religiosas, as alquímicas, mágicas e outras expressões. 'A má utilização' de princípios é outra coisa e só é possível, creio eu, depois que um indivíduo tenha tido algum treinamento e preparação consideráveis. Leitores ordinários não podem utilizar nem bem nem mal — só é possível ser influenciado por eles ou não conseguir vê-los.

Aqueles que foram capazes de assimilar todo o ensinamento em uma imagem mental coerente são muito afortunados — pois ele é um todo e nisso reside o seu poder milagroso. Fazer essa compreensão mental viver com nossa própria experiência e experimentação é uma outra coisa. Isso pode levar um tempo muito longo. Uma vida inteira ou mais. Mas isso virá. Num primeiro momento não reconhecemos a experiência que a vida traz como tendo algo a ver com a teoria que conhecemos tão bem. Só depois podemos ver a conexão, e quando o fazemos, isso nos permite digerir a experiência da vida de um modo muito especial. Isso transforma experiência em compreensão.

Ouvi Ouspensky por onze anos, em palestras, com amigos e sozinho. No final dessa época, quando em sua morte ele realmente realizou de fato o milagre da mudança, eu percebi que nem uma única coisa que ele disse foi irrelevante, que cada frase, pública ou privada, era designada para ajudar-nos a compreender os grandes mistérios quando estes viessem a cruzar nosso caminho.

Portanto, não podemos esquecer o 'conhecimento'. Apenas lutar para viver, para sermos sinceros, verdadeiros e honestos. Lembrarmos de nós mesmos (do nosso ser) e esquecer nossa auto importância - verdadeira e simplesmente - isso implica sermos. O resto virá com o tempo.

Toda pessoa precisa de companheiros. Se ela se junta a algum grupo formal daqueles que conheceram Ouspensky, Gurdjieff ou Nicoll é uma questão diferente. Mas da companhia daqueles que estão se esforçando para viajar pelo mesmo caminho, ela precisa. Pois essas verdades são demasiadamente difíceis para um único homem sozinho desvendar. Ele tem de encontrar outras pessoas com quem possa trocar experiências e compreensões e compartilhar experimentos. Então, se puderem colocar junto o que eles descobriram individualmente, poderão criar um campo suficientemente forte de compreensão para atrair atenção e ajuda. Desse modo, as pessoas devem manter seus olhos abertos para seus companheiros. Elas podem encontrá-los em lugares muito inesperados.

Evidentemente abrir mão da capacidade de compreensão é um pecado muito mais grave no caminho do desenvolvimento do que parece. E nenhuma quantidade de outros esforços pode neutralizá-lo. A razão é que a compreensão está muito estreitamente conectada com a consciência, e aquele que desiste da luta para compreender e simplesmente aceita, deve em um certo ponto sufocar sua própria consciência. E disso só se pode recuperar com um sofrimento muito grande. A compreensão dá força e confiança e a ausência de compreensão cria sofrimento e fraqueza — mesmo que o indivíduo lute duramente.

Neste contexto, é interessante as pessoas dizerem: 'Collin Smith vai ensinar, não vai ensinar'. Elas não entendem que estou aprendendo e esta é a única maneira que eu ou outra pessoa pode fazê-lo. Lembro-me muito claramente, sentado com Ouspensky em Longchamps, Nova York, em 1945, eu perguntando por que tudo parecia ter chegado a uma parada. Ele disse: 'você esquece de uma coisa; muitas pessoas esquecem — para aprender mais, você tem de ensinar.' Desde então, tenho visto como muitas pessoas que tinham chegado muito longe, começaram a compreender cada vez menos, porque elas não estavam dispostas a aceitar a responsabilidade de passar para os outros o que entendiam. A compreensão não pode permanecer estática — ela somente pode aumentar ou diminuir; e a maneira mais segura de aumentar sua compreensão é ajudar os outros a compreenderem. Na verdade isso se aplica a todos os níveis — embora naturalmente isso não possa ser dito até que a distinção entre compreensão e opinião esteja clara e até que as várias ilusões de auto importância sejam destruídas. Mas esse é um princípio geral.

Compreender mais, ver as coisas mais objetivamente, vem em primeiro lugar. Quando isso se aprofunda suficientemente, a pessoa começa a ser diferente, a agir de forma diferente. Não há nenhuma outra maneira.


Naqueles momentos quando a compreensão amplia repentinamente, dia a dia, mais e mais, devemos deixar traços de como a fenda que foi aberta permitiu a luz da nova compreensão entrar. Esses traços têm um sabor e força muito especiais, e um dia, por sua vez produzirão efeitos. Eles também ajudam a fixar a nova compreensão. Pois quando de repente, sem aviso, encontrarmo-nos no meio daquilo pelo qual estivemos procurando, devemos lembrar a necessidade de fixar o estado que nos foi dado, para que ele se torne permanentemente nosso.

Esses períodos de iluminação súbita e de compreensão são parte do aspecto mais misterioso e milagroso do Trabalho. Nós não podemos antecipá-los, não podemos merecê-los. 'Não sabemos o dia nem a hora...' como é dito nos evangelhos. Mas quando eles vêm, todos os valores são perturbados. E eles fixam a direção e o curso de toda a fase que se segue.
Em um estado altamente emocional somos inundados por emoções e visões. A onda de emoção inevitavelmente irá retroceder. Mas a tarefa é fixar a compreensão que isso traz, a fim de que essa compreensão possa permanecer mesmo quando a emoção que a trouxe tiver ido embora. Fixar uma nova atitude — com relação a nós mesmos, às outras pessoas, ao nosso professor e com relação a Deus — essa é a questão. A pessoa na qual novas atitudes são fixadas de maneira permanente, confiável, pode ser o instrumento das forças superiores.

Fico contente quando as pessoas me contam suas experiências e novas compreensões. Mas temos também de estar preparados para os dias magros. Devemos armazenar compreensões incompletas para digeri-las e nos nutrirmos com elas naqueles períodos em que não nos é dado mais daquele ‘pão consubstancial'. Há tanto para se fazer — temos de trabalhar para os maus momentos, bem como para os bons.

Destruir a falsa personalidade parece ser metade do trabalho todo. Algo que temos e não precisamos tem de morrer e algo que não temos, mas precisamos, tem de nascer. Todo o Trabalho é uma preparação para uma ou outra dessas duas coisas. Não acho que podemos 'destruir' a falsa personalidade nós mesmos, mas gradualmente podemos nos descolar dela, ficarmos menos comprometidos com ela, de modo que um dia quando exteriormente o choque certo vier sobre nós, ela vai desabar por si mesma e nós poderemos emergir livres. Enquanto isso, penso que temos de aprender a aceitar a nós mesmos, do mesmo modo que temos de aprender a aceitar os outros. Aceitar nossas próprias tolices, imposturas, falhas e seguir para um novo ponto de vista imparcial que fica para além delas. É difícil de descrever, mas tem que ser sem nenhuma violência, mesmo contra nós mesmos.

No ‘Fragmentos de um ensinamento desconhecido’, Ouspensky escreveu que ele chegou à realização de que nunca algo certo poderia ser alcançado por meios violentos. E eu sinto que isso se aplica até mesmo para o que é chamado de 'trabalho sobre si mesmo’. Assim como os nós das relações pessoais na vida não podem ser cortados, mas apenas unidos, eu acredito que o processo de mudança interna consiste em pacientemente, continuamente, afrouxar os laços da fascinação e substituir apegos, interesses e uma sensibilidade interna por influências superiores. A violência pode dar às vezes algum material interessante. Eu não creio que seja um método de construção permanente. Essa ideia é muito bem expressa no antigo problema Zen: 'há uma galinha viva em uma garrafa — como você pode tirá-la sem quebrar a garrafa ou matar a galinha?' Nada deve ser quebrado. E quase sempre a violência quebra as coisas.

Ninguém pode inventar a 'pressão' do trabalho. A pressão é produzida pelas condições da vida, ao vermos a vida como ela é. Todos nós temos nossos hábitos, físicos e mentais — que funcionam como amortecedores — para diminuir ou suavizar a pressão da vida. Ao libertarmo-nos desses hábitos, a pressão cresce por si só — a pressão da responsabilidade, dos compromissos, das investigações a serem feitas e objetivos a serem atingidos.

O nosso trabalho é realizarmos a harmonia consciente. Primeiro em nós mesmos individualmente. Em seguida, em nosso grupo. Então, gradualmente entre os grupos e então projetada para fora infinitamente no mundo. Individualmente, temos de alcançar a harmonia entre todas as nossas funções, todos os nossos interesses, todas as nossas tarefas, todos os lados de nossa vida — dedicando o todo harmonioso para Deus e para o Trabalho. É para isso que nossos estudos estão nos preparando. Eles não têm nenhuma outra finalidade. Cada pessoa tem de recriar todo o Sistema* intelectualmente para si mesma e em si mesma. Esta é a estrutura de sua nova criação. Ninguém mais pode fazer isso por ela, e o que ela descobre torna-se propriedade dela. Ao mesmo tempo, a construção do nosso próprio 'modelo do universo’ representa apenas a estrutura. Esse é o esqueleto. Um novo tipo de carne vivente deve crescer nele, um novo corpo. O que isso significa? Significa aprender a viver na alma e a partir da alma. Quando fazemos isso, toda a estrutura complexa de ideias que criamos resolve-se em algo muito simples, muito direto.

Todos os que vão longe neste Trabalho devem aprender a descansar. Caso contrário, as tensões que encontram serão fortes demais para eles. Na verdade, há apenas um tipo verdadeiro de descanso —  no pensamento de Deus, na lembrança de Deus, em Deus.

Existem duas visões do universo. E nós temos de aprender a cultivá-las alternadamente. Uma é a visão da hierarquia de seres, da escada ascendente que nós e todos os outros devemos lutar através de trabalho, sacrifício, serviço e compreensão. Este é o caminho de Escola. A outra é a visão direta de Deus, de uma vibração divina que permeia e sustenta todos os seres em todos os lugares, desde a pedra até Cristo, da Lua ao Sol. Essas duas visões são o dia e a noite do nosso Trabalho. Temos de trabalhar em uma e descansar na outra. Tem de ser assim. É por isso que a nossa Tradição não é um substituto para a religião. É o complemento dela. Todo homem precisa de uma religião e, provavelmente, de uma Igreja para sustentá-lo na visão de Deus.

Todos temos boas qualidades e todos temos características repulsivas. No nível das qualidades, boas ou ruins, nada pode ser feito. Mas nós temos um espírito que é imortal e todos os nossos esforços na lembrança de si são para criarmos uma conexão consciente com ele. Podemos pensar a respeito do corpo como sendo um instrumento lindo e maravilhosamente engenhoso — ou um velho saco de ossos, como quisermos. Em ambos os casos ele só terá significado se servir ao espírito, por intermédio da alma consciente que estamos tentando criar. Dessa forma, temos de olhar para o alto, elevar nosso anseio, sempre tentar sentir, no espaço. Quando obtivermos essa sensação nunca iremos perdê-la. E tudo o que é repulsivo permanecerá abaixo de nós.

*Para a melhor compreensão dos termos empregados é recomendada a leitura dos textos de P. D. Ouspensky que se encontram no Blog.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Farid-Ud-Din Attar - Dez Histórias


Uma conversa do filho com seu pai
O filho disse a seu pai: "Se não houvesse esse desejo carnal e se não houvessem as relações privadas entre marido e mulher, não haveria a continuidade das criaturas deste mundo e não restaria nenhuma ordem no universo. Se não fosse por esta distribuição e mistura, todo esse reino ficaria desordenado.
Sim, mil e uma pessoas devem estar colocadas de forma adequada antes que você possa colocar um pedaço de comida em suas bocas. É através da sabedoria que aqueles que servem este caminho continuem o trabalho mês a mês.
A Terra brilha da espuma e os céus da fumaça, porque se algo não fosse necessário, não existiria. Se não fosse pelo desejo carnal, nem você nem eu estaríamos neste mundo. Você deseja expulsar o desejo carnal dos homens – informe ao meu coração o seu segredo."
Seu pai lhe disse: “Que o céu impeça-lhe de pensar que eu iria acabar completamente com o pensamento do desejo carnal. Mas sendo que você escolheu isso do mundo e tem falado e ouvido a esse respeio, é como se, de uma centena de mundos de segredos você estivesse familiarizado apenas com os do desejo carnal. Eu lhe disse em particular que você poderia sair desse desejo.
Quem gostaria de ser o companheiro de um asno, quando é possível ser o confidente de Jesus?
Por que você se associa a um asno no desejo carnal, quando poderia associar-se intimamente com Jesus? Quando, afinal, essa luxúria é uma coisa de um momento apenas, não é melhor ter privacidade eterna com o Amado? Uma vez que o Eterno lhe permite ficar a sós com Ele para sempre, renuncie ao efêmero, ou seja, ao desejo carnal. Tal privacidade não é desejada pelo desejo carnal e aquele que não possui esse segredo é imperfeito.
Quando o desejo carnal atinge o seu ápice, dele é nascido o amor apaixonado, sem limites.
Mas quando o amor apaixonado torna-se muito forte, surge o amor espiritual. Quando o amor espiritual atinge seu limite extremo, a sua alma torna-se aniquilada no Amado. Abandone o desejo carnal, pois ele não é o objetivo: a raiz de tudo é o Amado, o Amado.
Ainda que você fosse cruelmente aniquilado nesse caminho, seria melhor do que ficar preso ao desejo carnal.


A história da mulher que se apaixonou por um príncipe
"Um rei tinha um filho tão lindo que em seus cachos até a própria Lua se enredou. Não havia ninguém que quando visse o rosto do príncipe não virasse a face de seu coração para aquele formoso rapaz. Tanto era ele a maravilha do mundo, que o mundo todo era seu amante.
Uma mulher tornou-se perdidamente apaixonada por aquele belo; seu coração lamentou muito e se transformou em sangue. Quando a separação venceu-a, deixando dessa forma seu coração confuso e ferido, ela espalhou cinzas por baixo de si e, sendo ela fogo, fez das cinzas sua morada. Todas as noites ela chorava por aquele belo, ora chorava sangue, ora soltava suspiros.
Se algum dia o principe saísse para o campo, a infeliz mulher corria ao longo da estrada. Ela ia olhando para trás na direção dele e espalhava suas lágrimas sobre a estrada em forma de chuva. Uma centena de sargentos batiam nela consecutivamente com os seus bordões, mas ela não gritava nem fazia grande alarido. Uma grande multidão de pessoas que costumava assistir a isso apontava a mulher para os homens e todos ficavam surpreendidos com ela e ainda assim a pobre mulher permanecia em seu estado confuso.
No final, quando a questão já havia ultrapassado todos os limites, o coração do príncipe entristeceu-se com esse fardo. Ele disse a seu pai: 'Quanto mais dessa mendicância? Livre-me da desgraça dessa mulher.'
O nobre rei ordenou o seguinte: 'Traga aquela infeliz para a praça. Amarre-a nas patas traseiras do cavalo pelos cabelos e faça-o galopar bem rápido por toda a estrada, de modo que essa mulher miserável seja rasgada em pedaços e o mundo se livre de seu caso.
O cavalo irá matá-la na estrada como um elefante no cio e assim o peão não voltará a olhar para o rei.' Então, o rei e o príncipe seguiram para a praça e uma grande multidão de pessoas ficou observando, todos derramando lágrimas de sangue de tristeza por aquela mulher e daquele sangue o chão se tornou como um canteiro de flores de romã. Quando os soldados correram juntos para amarrar os cabelos dela aos pés do cavalo, a pobre mulher perturbada se prostrou diante do rei, jogando-se diante dele a fim de fazer um pedido. Ela disse: 'Já que você quer me matar dessa forma cruel, tenho um último pedido – será que poderá concedê-lo a mim?' O rei disse a ela: 'Se o seu pedido for para eu poupar a sua vida, saiba que pretendo tirá-la. E se você disser para não ser arrastada pelos cabelos, vou derramar o seu sangue aos pés do cavalo. Se pedir que lhe seja dada a graça por alguns instantes, isso não é possível sem perdão. E se pedir-me para ficar junto com o príncipe por um tempo, você não verá o seu rosto.' A mulher disse-lhe: 'Eu não peço por minha vida nem peço por um pouco de graça. Não lhe peço para não me arrastar até a morte pelos pés do cavalo. Se o rei do mundo puder conceder-me este pedido, ele é tudo o que rogo por toda eternidade'. O rei disse: 'Fale. Qual é esse pedido? Porque, se não for nenhum desses que citei concederei o que me pede'.
A mulher disse: 'Se hoje você ordeneu que eu fosse morta de forma miserável sob os cascos de um cavalo, este é o meu pedido: Ó Senhor, amarre meu cabelo aos pés do cavalo dele, para que quando o cavalo galopar para esse propósito, ele me mate abjetamente sob os pés do cavalo do príncipe, de modo que quando eu for morta por essa beleza eu possa dessa forma estar viva para sempre. Sim, se eu for morta por meu amado, da luz do amor, estarei acima da estrela Aiyuq.
Sou uma mulher mas tenho muita hombridade. Meu coração se transformou em sangue. É como se não me tivesse restado vida. Neste momento conceda isso a uma mulher como eu, que merece este pequeno pedido e que é fácil de ser concedido'".
Por causa da sinceridade e da devoção da mulher, o coração do rei foi amolecido. O que posso dizer? De suas lágrimas a terra tornou-se lama. Ele perdoou-a e mandou-a para o palácio como alguém com uma nova vida, ele mandou-a para seu amado.
Venha, ó homem, se você é nosso companheiro, aprenda com uma mulher o que é o verdadeiro amor. E se você é menos que as mulheres, cubra a sua cabeça. Você não é menos que um maricas. Ouça este conto.


A história do Alid, do erudito e de um gay que foram feitos prisioneiros em Rum

"Um Alid, um estudioso e um gay estavam carregando todos os seus bens para Rum. Essas três pessoas foram assaltadas pelos infiéis e arrastadas inesperadamente para diante do ídolo.
Os infiéis disseram aos três: 'Vocês devem obrigatoriamente adorar o ídolo, caso contrário vamos derramar o sangue de todos os três, vamos dar-lhes qualquer graça, mas derramaremos seu sangue agora mesmo.'
Esses três mestres disseram aos infiéis: 'Vocês devem nos conceder a graça de uma noite, de modo que possamos considerar nesta noite se é possível praticar a idolatria'.
Eles deram a essas três pessoas uma noite para que pudessem meditar a respeito.
O Alid falou: 'Devo zombar no cinturão cristão diante do ídolo, pois tenho plena autoridade dos meus antepassados, eles irão interceder em meu nome amanhã'.
O estudioso disse: 'Eu também não posso dizer adeus ao corpo e alma. Se eu curvar a cabeça diante do ídolo, levantarei um intercessor no meu aprendizado na Fé'.
O gay disse: "Eu estou perdido, pois já fiquei sem a ajuda de um intercessor. Uma vez que vocês têm um intercessor e eu não tenho, essa adoração não é de acordo com a lei para mim.
Se eles cortarem minha cabeça como uma vela, por que eu deveria temer? Não posso adorar um ídolo, pois isso é a perdição. Não vou curvar minha cabeça no chão diante do ídolo, mesmo que eles impiedosamente separem a cabeça de meu corpo'."- Quando aqueles dois preferiram a vida, o rapaz em tal situação renunciou-a como um homem. A coisa estranha é que no momento crucial este último é aquele elogiado pela virilidade!
Quando Qaruns anda nu por este caminho, os leões buscam a proteção das formigas. Se você é menos do que um covarde em seu amor pelo que deseja, certamente você é não menos do que uma formiga nesta estrada.





A história de Salomão, o filho de David e a formiga apaixonada

"Salomão, no meio de todas as suas ocupações, passou por um enxame de formigas na beira da estrada. Todas as formigas apareceram para prestar reverência. Em uma hora muitas milhares vieram. Mas uma formiga não veio tão prontamente, porque havia um monte de terra em frente a sua casa. Com a velocidade do vento aquela formiga carregava cada partícula separada de terra para que esse monte pudesse ser removido. Salomão chamou-a e disse: 'Ó formiga, percebo que você está sem força ou resistência, e ainda que tivesse o tempo de vida de Noé e a paciência de Jó, sua tarefa não seria realizada. Esta não é uma tarefa para um braço como o seu, você não irá fazer esse monte desaparecer '.
A formiga abriu a boca e disse: 'Ó rei, por um grande esforço podemos prosseguir ao longo desta estrada. Não olhe a minha forma e constituição, leve em conta a perfeição de meu esforço.
Há uma certa formiga fêmea que é invisível para mim e que me atraiu para a cilada de um outro amor. Ela me disse: 'Se você remover este monte de terra daqui e limpar o caminho, eu colocarei de lado a pedra da separação de você e me sentarei junto de si.
Agora os meus quadris estão latejando por causa dessa tarefa, não conheço mais nada além deste transporte de terra. Se esta terra desaparecer, poderei alcançar a união com ela e se eu morrer nesta empreitada, pelo menos não serei um fanfarrão ocioso e mentiroso'.” - Amigo, aprenda sobre o amor de uma formiga; aprenda a respeito de tal visão de alguém que é cego. Embora o manto da formiga seja muito preto, ela é um dos atendentes na estrada. Não olhe com desprezo para uma formiga, pois ela também tem paixão em seu coração. Eu não sei quais são as condições que se apresentam nesta estrada quando um leão é censurado por uma formiga.



A história de Ali o Comandante dos Fiéis e a formiga

“Ali estava andando ao meio-dia quando aconteceu de ele ferir uma formiga na estrada. A formiga estava impotente balançado suas patas no ar e Ali ficou cheio de aflição ao ver sua impotência. Ele estava com medo e ficou excessivamente agitado: um leão como ele foi derrubado por uma formiga.
Ele chorou muito e tentou de várias formas fazer a formiga caminhar novamente. À noite ele viu Maomé em um sonho. Maomé disse-lhe: 'Ó Ali, não se apresse ao longo da estrada, porque durante os dois últimos dias você encheu o céu de luto por conta de uma formiga. Você é indiferente ao que pisa e por isso feriu uma formiga no caminho? Aquela formiga estava cheia de significado secreto e sua atividade era louvar o nome de Deus?'
Ali começou a tremer com todos os seus membros, o Leão de Deus caiu em uma armadilha por causa de uma formiga. O Profeta disse: 'Seja alguém de bom coração e não se preocupe, pois essa mesma formiga intercedeu por você a Deus dizendo: 'Ó Senhor, eu não queria acusar Haidar. Se ele era um inimigo para mim, ele já não é mais agora.'” -
Saiba, ó generoso, que foi por devoção à Fé que tal leão se comportou de tal maneira em relação à formiga. Que homem, com a bravura de um leão como Haidar, você já viu amarrado à sela de uma formiga? Feliz é aquele que é informado da Verdade e levanta e abaixa seus pés em conformidade com o mandamento de Deus! Se você caminha em absoluta ignorância, você é um mendigo absoluto mesmo sendo filho de um rei. É preciso olhar e então dar um passo, pois não podemos dar um passo na estrada sem olhar. Se der um passo na estrada sem olhar, no final a adversidade será a sua recompensa. Quando caminha às cegas como um asno, você não é distinguido dos outros pelo seu entendimento. Conte seus passos conforme caminha se você é um homem do caminho, pois tudo é contado desde a lua até o peixe. Se der um passo sem qualquer mandamento, você receberá muitos ferimentos que não terão remédio. Se você erguer seu pé aqui por um curto período de tempo, você não caminhará na sua sepultura por uma eternidade. Quem quer que ande aqui por um tempo, considera que vai andar por uma centena de eras.
Enquanto você caminha aqui por um único momento, lá será por uma centena de eternidades. Se hoje você der um passo limpo, você não terá de andar quinhentos quilometros na poeira.
Que pena! você não vê o grande ganho, se visse não desistiria do seu trabalho nem por um momento. Para cada passo que der hoje você receberá um presente encantador de Deus.
Quando tal benefício é possível a cada momento, porque, por pura negligência, sofrer prejuízos?


A história de Nushirvan, o cultivator justo e experiente
"Nushirvan estava cavalgando com a velocidade de uma flecha quando viu na estrada um velho homem curvado como um arco. O velho homem estava plantando um certo número de árvores. O rei disse-lhe: 'Já que os seus cabelos tornaram-se leite e sendo que você viverá apenas mais alguns dias, porque está plantando árvores aqui?' O velho respondeu: 'Não há razão suficiente. Uma vez que muitos plantaram para nós, fazendo com que hoje tenhamos o benefício desse plantio, nós também estamos plantando para os outros. Devemos tomar cada passo de acordo com nossa capacidade, pois em cada passo deveria haver ordem'.
O rei agradou-se com o discurso do velho. Ele encheu a mão de ouro e disse: 'Pegue isto'.
O velho lhe disse: 'Ó rei vitorioso, já hoje minhas árvores deram frutos. Pois, se eu viver mais de setenta anos você sabe que eu não me saí mal nesse plantio. O plantio não me fez esperar dez anos, ele deu o ouro como fruto no dia de hoje'.
O rei ficou ainda mais satisfeito com essa resposta e deu-lhe a terra, a aldeia e a água.”
Você deve realizar hoje o seu trabalho, pois sem trabalho você não terá os frutos. Você deve colocar seus pés na estrada da Fé, deve deixar de lado a vaidade. Se você é um homem, então como um homem faça de sua barba uma vassoura para a latrina. Com toda essa força no braço você não se envergonha de colocar o seu peso na balança?
Você é menos do que um cão. Ouça esta história, caso você se considere mais do que um cão.


A história do Mestre Jandi e o cão

“Certo homem, que não tinha medo de ninguém, perguntou ao Mestre Jandi: 'Quem é melhor, você ou um cão?' Os discípulos de Jandi ameaçaram abertamente rasgá-lo em pedaços ali mesmo.
Seu mestre de imediato impediu-os. Ele disse ao homem: 'Não tenho conhecimento do decreto do Destino. Eu não constatei, caro amigo, qual é o meu caso, como posso então lhe responder?
Se minha fé é maior do que a da multidão, então posso dizer que sou melhor do que um cão.
E se minha fé não for maior do que a da multidão, então eu não seria em nada melhor do que um cão!'” Uma vez que o véu ainda não caíu, não considere-se superior a um cão de maneira alguma. Pois, se o caminho do cão é através da poeira, você está na mesma situação.


A história de Mashuq de Tus, do cão e do cavaleiro
“Mashuq de Tus estava caminhando ao longo de uma estrada ao meio-dia como alguém fora de si. Um cão veio em sua direção naquela estrada e em seu esquecimento ele de pronto jogou uma pedra nele. Ele viu ao longe um cavaleiro vestido de verde que vinha por trás dele, sua face toda luminosa. Ele golpeou-o duramente com um chicote e disse-lhe: 'Tome cuidado agora, insensato, tome cuidado! Sabe em quem você está jogando pedra ou que você é por origem da mesma natureza que ele? Você e ele não são feitos do mesmo molde? Por que considerá-o inferior a você?'” -
Uma vez que o cão não está de fora do molde da onipotência, não é de acordo com a lei exaltar a si mesmo acima de um cão. Os cães estão escondidos atrás da cortina, amigo. Veja se sua amêndoa é mais pura do que esta casca. Pois, embora a aparência do cão possa não ser atrativa, nele existem qualidades que garantem a ele uma posição elevada. O cão possui muitos segredos, mas sua aparência externa desmente isso.


A discussão do Sheikh Abu Sard com um Sufi a respeito de um cão

"Um Sufi que estava passando golpeou com seu bastão um cão deitado na estrada. O cão ficou com sua perna da frente ferida seriamente, começou a uivar e saiu correndo. Veio uivando para Abu Said e jogou-se no chão, seu coração fervendo de raiva. Quando mostrou para Abu Said sua pata, ele se levantou e procurou fazer justiça contra aquele Sufi negligente.
O Sheikh disse ao sufi: 'Ó homem sem fé, será que alguém já tratou com tanta crueldade uma criatura estúpida? Você quebrou sua pata fazendo-o cair e tornando-o fraco e indefeso?'
O Sufi disse: 'Ó senhor, a culpa não foi minha, mas sim do cachorro, por ter sujado minhas vestes ele recebeu de meu bastão um golpe que não havia sido premeditado'.
O cão que estava deitado, continuava a uivar e mexer sua pata. Aquele Sheikh inigualável disse ao cão: 'Por tudo que você fez, terei prazer em tomar as responsabilidades. Passe a sua sentença agora e não adie até o Dia do Julgamento. Se quiser que eu dê a ele sua resposta, vou puni-lo em seu nome aqui e agora. Não quero que você fique com raiva, quero que fique feliz'. O cão disse: 'Ó Sheikh inigualável, como vi que o traje dele era de um sufi, eu tinha certeza que ele não me faria mal nenhum. Como eu ia saber que ele iria queimar de dor as minhas patas? Se houvesse alguém vestido com uma armadura na estrada, eu teria ficado em guarda. Vendo a vestimenta do povo da paz senti-me seguro, porque não sabia a história completa.
Se quer puni-lo, despoje-o agora desse traje que é usado por homens verdadeiros, de modo que todos possam ficar a salvo de sua maldade: o prejuízo que ele me causou foi maior do que já me causaram os bêbados. Retire-lhe o manto do povo da paz e sua punição será suficiente até o Dia do Juízo'.” - Uma vez que o cão ocupa tal posição no Seu caminho, é proibido a você colocar-se acima de um cão. Se você se acha melhor do que um cão, certifique-se de que você pensa assim por causa da natureza em você que se assemelha a um cão.
Quando lhe atirarem abjetamente na terra, você cairá de cabeça para baixo, porque enquanto continuar a dar ouvidos à sua cabeça não há dúvida de que a sua cabeça será curvada ainda mais.
Por que vangloriar-se tanto por aquilo que é um punhado de terra? Pois foram para a terra os que cortaram o seu cordão umbilical. Aqueles que são mais baixos aqui certamente serão os mais puros lá. Quando os homens fizerem-se humildes como a terra tornarão o corpo e alma puros na dignidade. Os valentes nesta estrada são elevados na hierarquia porque renunciaram inteiramente as perversidades.


A história de Abul Fadi Hasan e suas palavras em seu leito de morte

"Quando Abul Fadi Hasan jazia em seu leito de morte, alguém lhe disse: 'Ó homem, por quem a Lei Sagrada é confirmada, quando o José de sua alma for salvo do poço, iremos enterrá-lo em tal e tal lugar ". O Sheikh disse: 'Deus me livre, pois esse é o lugar dos grandes e dos piedosos. Como poderia eu, que não sou melhor do que uma centena de outros miseráveis, querer ter a minha sepultura em tal lugar'. Eles disseram-lhe: 'Ó homem puro e de bom coração, onde quer que suas cinzas repousem?'
Ele abriu sua boca com uma alma cheia de agitação e disse: 'No alto daquela colina deve ser minha sepultura, pois ali estão muitos frequentadores de tabernas e também um número de ladrões inúteis.
Há também muitos jogadores por lá: todos são pecadores. Enterrem-me também com eles: coloquem minha cabeça sob seus pés. Eu sempre fui um companheiro adequado para eles, pois, essencialmente, sempre fui como um ladrão. Faço parte desses pecadores, não tenho a força para ficar entre os perfeitos. Pois, se essas pessoas estão em grande escuridão, ainda assim estão próximos à luz da Sua misericórdia. Quando há em um lugar sede ao extremo, no final, esse lugar atrairá água para si. Onde quer que haja fraqueza os olhos da misericórdia habitam lá mais vezes.'"

sábado, 28 de maio de 2011

Tukaram - Seleção de Alguns Poemas


Eu estava dormindo quando Namdev e Vitthala
entraram em meu sonho.

"Sua tarefa é fazer poemas.
Pare de perder tempo", disse Namdev.

Vitthala deu-me a medida e gentilmente
despertou-me de um sonho dentro de um sonho.
Namdev prometeu escrever um bilhão de poemas.

"Tuka, todos os poemas que faltam ser escritos
são de sua responsabilidade."
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Sem um adorador, como poderia Deus
assumir uma forma e aceitar a tarefa?

Um torna o outro belo,
como um cordão de ouro apresenta uma jóia.

Quem, senão Deus,
poderia tornar o adorador livre dos desejos?

Tuka diz:
"Eles são atraídos um pelo outro, como mãe e filho."
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Trate de adorar o Príncipe dos Yadavas, o Senhor dos Yogis.
Ele, o que enche de paixão as dezesseis mil donzelas reais,
Criaturas formosas, virgens divinas.

Ele fica na margem do rio com o brilho de um milhão de luas.
Com seu pescoço coberto de jóias cujo brilho funde-se
com o resplendor de sua forma.

Este Deus que suporta a roda é o chefe dos Yadavas.
A Ele os trinta e três núcleos de semideuses adoram.
Os demônios tremem diante Dele.

Seu semblante azul escuro destrói o pecado.
Que belos são os Seus pés manchados com açafrão!
Como é feliz o tijolo que é apertado por seus pés!

Meramente pensar Nele torna o fogo gelado.
Por isso, abraçe-o com sua própria experiência.

Os sábios, conforme vêem o Seu rosto
Contemplam-No em espírito,
O Pai do Mundo fica na forma corpórea diante deles.

Tuka está atrás Dele como um louco,
Sua forma púrpura devasta a mente.

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Se os homens são moradas de Deus,
deveríamos cair a seus pés.
Mas devemos desconsiderar seus hábitos e objetivos.
O fogo é bom para espantar o frio.
Mas não devemos amarrá-lo e carregá-lo em torno de um pano.
Tuka diz:
"Um escorpião ou uma serpente são uma morada de Narayana;
podemos adorá-Los de longe, mas não devemos tocá-Los."

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Você é mais amável que uma mãe, querido,

Mais suave que os raios da lua.

Seu amor é uma corrente de fluxo eterno
que bate muito mais fundo que qualquer riacho comum.

Não conheço nada que se iguale a Você –

Você é o melhor de todos os Deuses imortais.
Agito meu nome sobre sua cabeça
E parto-o aos seus pés sagrados.

Ah! Mais doce do que as coisas mais doces
E mais poderoso do que todos os elementos.

Você governa o Universo
E cuida para que tudo corra bem.

Em silêncio eu coloco minha cabeça a Seus pés
e rogo-lhe:

"Perdoa"

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Pode a água beber a si mesma?
Pode uma árvore saborear a sua própria fruta?
O adorador de Deus deve permanecer distinto Dele.

Somente assim ele virá a conhecer o alegre amor de Deus.

Mas se disséssemos que Deus e ele são um,

essa alegria e amor desapareceriam instantaneamente.

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Aquele que profere o nome de Deus enquanto caminha
recebe o mérito de um sacrifício a cada passo,
seu corpo torna-se um lugar de peregrinação.

Aquele que repete o nome de Deus enquanto trabalha
sempre encontra a paz perfeita.

Aquele que profere o nome de Deus enquanto come
recebe o mérito de um jejum
mesmo que tenha feito suas refeições.
Mesmo se uma pessoa doasse para caridade
todo o mundo cercado pelo mar
isso não se igualaria ao mérito de repetir o Nome.

Através do poder do Nome a pessoa
chega a conhecer o que não pode ser conhecido;
a ver o que não pode ser visto;
a falar o que não pode ser falado;
a encontrar o que não pode ser encontrado.

Tuka diz:

Incalculável é o ganho que deriva da repetição do nome de Deus.

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Eu não podia mais mentir
então comecei a chamar o meu cachorro de "Deus".

Primeiro ele pareceu confuso,
em seguida começou a sorrir,
mais tarde ele até mesmo dançou.
Eu continuei fazendo isso:
agora ele nem sequer morde mais.
Pergunto-me se isso funcionaria com as pessoas.

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Saiba que um homem verdadeiro é aquele que leva a seu coração
aqueles que estão em angústia.
Saiba que Deus reside no coração dessa pessoa.
Seu coração está completamente saturado de gentileza.
Ele recebe como seus somente aqueles que estão abandonados.

Ele concede a seus servos e servas
a mesma afeição que demonstra a seus filhos.

Tukaram diz:
Que necessidade há em descrevê-lo ainda mais?
Ele é a própria encarnação da divindade.

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O que devemos fazer para obtermos devoção a Seus pés sagrados?
Quando acontecerá de Você entrar e se estabelecer em meu coração?
Ó Deus,
quando é que você ordenará para que eu medite em Si
com um coração verdadeiro?
Remove minha inverdade, ó Verdade,
venha e habite em meu coração.
Tuka diz:
Ó Panduranga,
protege através de Seu poder os pecadores como eu.
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Para os servos de Vishnu não há anseio nem mesmo pela salvação;
eles não querem saber como é a roda de nascimento e morte;
Govinda fica firmemente estabelecido em seus corações.
Para eles o início e o fim são o mesmo.
Eles doam as felicidades e as misérias a Deus
e permanecem intocados por elas.
As músicas de louvor cantam sobre eles.
Sua força e seu intelecto são dedicados a utilizações benevolentes;
seus corações são repletos de ternura,
pois assim como Deus, eles estão cheios de misericórdia.

Eles não conhecem distinção entre o que é deles
e o que é dos outros.

Tuka diz:
"Realmente eles são mesmo como Deus
e Vaikuntha é o lugar de sua morada.
___________________________

Esta é minha última prece,
ouçam-na:

Ó Deus, não se esqueça de mim.
O que mais preciso dizer,
Seus pés sagrados sabem de tudo.
Tuka diz:
Prostro-me diante de Seus pés.
Faça com que a sombra de Sua graça descenda sobre mim.

___________________________


Ó Crítico Celestial,
para passar no seu teste
escrevo e novamente apago o que escrevi.
Escolho uma palavra apenas para trocá-la,
esperando encontrar uma que você goste mais.

Peço perdão de novo e de novo:
Senhor,
não deixe que as minhas palavras sejam desperdiçadas.
Tuka diz:

Por favor, pelo menos responda
para que este poema tenha algo a dizer.
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Onde é que começamos quando se trata de Você?
Ó Senhor, Você não tem nenhuma linha de abertura,
É tão difícil fazê-lo começar a ficar ativo.
Tudo que eu tentei deu errado.
Você gastou todas as minhas faculdades.
O que acabo de dizer desaparece no céu
E cai no chão novamente.
Tuka diz:

minha mente está atordoada;
não consigo encontrar uma palavra para dizer.

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Alguns de vocês podem dizer que sou o autor destes poemas,
mas acreditem em mim,
esta voz não é minha.

Não tenho nenhuma habilidade pessoal.
É o Ser cósmico quem me faz falar.
O que um pobre como eu saberia
sobre as sutilezas da compreensão?
Falo o que Govinda me faz dizer.

Ele indicou-me para medi-las.

A autoridade repousa sobre o Mestre, não em mim.
Tuka diz:
eu sou apenas o servo.

Você não vê?
Tudo isso leva o selo de seu Nome.

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Organizar as palavras em uma determinada ordem
não é o mesmo que o equilíbrio interior:

Isso é poesia.

A verdade da poesia é a verdade do ser.
Ela é uma experiência da Verdade.
Nenhum ornamento sobrevive
quando derretido em um cadinho.
O fogo revela somente ouro derretido.

Tuka diz:
Estamos aqui para revelar.
Não desperdiçamos palavras.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Philokalia - São Simeão o Novo Teólogo - Preceitos Práticos e Teológicos (parte 2)

Aquele que não assumiu a imagem de nosso Senhor Jesus Cristo (homem Divino e Deus) em seu homem interior ou espiritual, com percepção e consciência, não é nada além de sangue e carne e não pode apreender a glória de maneira direta, apenas através das palavras, da mesma forma que os cegos de nascença não podem conceber como é a luz do sol meramente ao ouvirem falar a seu respeito.

Portanto, aquele que vê, ouve e apreende conhece a força do que está sendo dito, uma vez que ele já assumiu a imagem do céu e tornou-se um “Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efé. iv. 13). Sendo assim, ele também está apto a guiar o rebanho de Cristo no caminho dos mandamentos de Deus. Mas se um homem não conhece isso e nem é assim, isso mostra que os sentidos de sua alma não estão iluminados e nem são saudáveis; e é muito melhor para ele ser guiado do que guiar os outros, para a segurança deles e dele próprio.
Um homem que vê com seus olhos físicos sabe quando é dia e quando é noite, mas um homem cego não sabe distingui-los. Da mesma forma é com o homem cujos olhos espirituais são abertos e que tem com eles a visão interna; se, depois de já ter visto a luz verdadeira e infinda ele retornar novamente à sua cegueira anterior e ficar privado da luz devido à negligência e à falta de zelo, ele sentirá profundamente, quando estiver no estado correto, a perda dessa luz e não será ignorante do motivo que o fez sofrer essa privação. Mas um homem cego (espiritualmente) de nascença não pode saber nada a esse respeito nem por experiência nem por sua ação. É apenas através de rumores que ele pode aprender sobre aquilo que nunca viu, podendo começar a falar para os outros sobre isso, embora ele e os que os escutam não tenham nenhum conhecimento real sobre as coisas das quais estão falando.
A graça do Espírito Santo é dada às almas que são as noivas de Cristo, como um sinal do noivado. Do mesmo modo que sem o noivado uma donzela não pode assegurar-se de que irá um dia unir-se ao seu marido por meio do matrimônio, também a alma nunca terá uma garantia definida de que tornar-se-á para sempre unida com seu Senhor e Deus, ou que de maneira misteriosa e inefável casar-se-á com Ele e desfrutará de Sua beleza inacessível, sem que antes lhe seja garantido o noivado, ou um sinal de Sua graça e sem conscientemente possuí-Lo dentro de si mesma.
Assim como um noivado não pode ser firmado até que o contrato de casamento seja assinado por testemunhas confiáveis, também a luz da graça não é assegurada antes da prática dos mandamentos e da aquisição das virtudes. Pois essa prática dos mandamentos e das virtudes é para o noivado espiritual como a testemunha que assina o contrato de casamento. Através dessas práticas todo homem que está para ser salvo adquire segurança total no noivado, isto é, a graça do Espírito Santo.
Primeiramente é como se as condições do contrato de casamento fossem escritas através da prática dos mandamentos e então ele é selado e assinado pelas virtudes; e, então, Cristo, o noivo, dá à noiva (a alma), um anel, ou seja, o noivado no Espírito.

Assim como antes do casamento a noiva recebe do noivo apenas um sinal do noivado, esperando obter a residência acordada e os outros presentes apenas após o casamento, também a noiva de Cristo recebe primeiramente Dele apenas o noivado do Espírito e espera por receber as bênçãos eternas e o reino dos céus após abandonar este mundo; e a alma é assegurada disso pelo sinal do noivado, o qual revela isso a ela como num espelho, confirmando com certeza a aquisição futura de tudo pactuado entre ela e o seu Senhor e Deus.
O noivado do Espírito Santo é inexplicável mesmo para aqueles a quem ele foi concedido, pois ele é compreendido incompreensivelmente, é visto invisivelmente; ele anima, fala e move aqueles que o conquistaram, ele voa de sua morada secreta e inexplicavelmente ainda é encontrado lá novamente. Isso prova que quando ele vem não é permanentemente ou para sempre e que quando parte não é para não retornar mais. Portanto, se um homem que alcançou-o não o tem (palpavelmente presente) é como se ele o tivesse e quando o tem é como se não tivesse.

Como um homem que está num quarto escuro com todas as portas e janelas fechadas, quando abre uma janela e a luz que jorra para dentro envolve-o num brilho tão intenso que, impossibilitado de suportá-lo ele fecha os olhos, cobre sua cabeça e se esconde; também se uma alma, totalmente aprisionada no mundo sensorial, permite que sua mente dê uma espiada no mundo supra-sensorial, como que para fora da janela, ela é banhada pelo esplendor do noivado com o Espirito Santo que está dentro dela e não é capaz de suportar o brilho da luz Divina desnuda, ele imediatamente estremece em sua mente, esconde-se em si mesma e foge como que para dentro de casa buscando cobrir-se com o que é sensório e humano.
A meta de todos aqueles que vivem em Deus é agradar nosso Senhor Jesus Cristo e tornarem-se reconciliados com Deus, o Pai através do recebimento do Espírito Santo, desse modo assegurando sua salvação, pois nisso consiste a salvação de todas as almas. Se essa meta e essa atividade estiverem faltando, todos os outros trabalhos serão inúteis e todos os outros esforços serão vãos. Cada caminho da vida que não conduz a isso não é vantajoso.

Na mesma medida que a alma é superior ao corpo, um homem sábio é superior e melhor do que o resto do mundo. Não olhe para a grandeza das criações existentes no mundo, pensando que elas são maiores do que você, ó homem, mas vendo a graça conferida a você e percebendo a posição de sua inteligência e a glória de sua alma, cante louvores a Deus, o Qual honrou-o acima de toda criação visível.

O homem que é cego em relação a uma coisa ( a Deus) é totalmente cego em relação a todas as coisas; e o homem que vê no um (em Deus), tem a visão de todas as coisas. Ele é removido da visão das coisas e ao mesmo tempo tem a visão de todas as coisas e está de fora de todas as coisas visíveis. Desse modo, estando no Um ele vê tudo e estando em tudo ele vê do todo. Vendo no Um através Dele ele vê a si mesmo, os outros e todas as coisas e estando escondido em si mesmo ele não vê nada do todo.

Se um homem olhar constantemente para o sol físico ele sofrerá involuntariamente uma mudança em sua visão, pois não poderá ver nada mais do visível e não verá nada além do sol em todas as coisas. É o mesmo com um homem que está sempre olhando para o sol da Verdade com sua mente e coração: involuntariamente ele sofrerá uma mudança em sua visão mental, pois não conseguirá imaginar nada mundano e verá apenas Deus em todas as coisas.
O sol físico é visto mas ele mesmo não vê, o sol do intelecto é visto pelos que são dignos e ele mesmo vê a todos, especialmente aqueles que olham em sua direção. O sol físico não fala e não dota ninguém com o dom e o poder da fala, mas o sol do intelecto fala com seus amigos e também dota todos eles com o poder e o dom da fala. O sol físico, iluminando o jardim físico, meramente seca a umidade do solo através do calor de seus raios, ele não fertiliza o solo nem alimenta as sementes e as plantas. O sol do intelecto, quando brilha na alma, faz ambas as coisas: ele seca a unidade das paixões, ao mesmo tempo purificando a alma da imundice e do cheiro fétido que elas produziramm, fertiliza o solo interno da alma (tornando-o rico) com a graça Divina alimentando as plantas das virtudes, de modo que elas possam gradualmente crescer e prosperar.

Ao nascer, o sol físico acende o mundo físico e tudo nele – as pessoas, os animais e todo o resto – despejando sua luz igualmente sobre todos, ele reina ao meio dia e depois esconde-se novamente, deixando na escuridão os lugares sobre os quais ele brilhou. Mas o sol do intelecto, uma vez que começa a brilhar, brilha sempre, de maneira imaterial e totalmente contido em todas a coisas e ao mesmo tempo permanecendo à parte de suas criaturas, inseparavelmente separado delas, uma vez que ele é um todo integral em todas as coisas e ao mesmo tempo não está de maneira exclusiva em nenhuma das criaturas (pois ao mesmo tempo está em outro lugar também). O todo dele está no visível e o todo dele está no invisível; ele está totalmente presente em toda parte e ainda assim exclusivamente presente em parte alguma.

Cristo é o início, o meio e o fim. Ele está naqueles que são os primeiros, nos que estão no meio e nos últimos e da mesma forma que Ele está no primeiro Ele está em todos. Para Ele não há diferença entre eles, do mesmo modo que para Ele “não há nem judeu nem grego, não há nem escravo nem livre, não há nem masculino e nem feminino: pois sois todos um só em Cristo Jesus.” (Gal. Iii. 28)

O amor sagrado, permeando a todos desde o primeiro até o último, da cabeça aos pés, une todas as coisas a si mesmo, conecta-as, ata e unifica-as, deixando-as fortes e inabaláveis. Em experiência, ele revela-se a cada homem como um e o mesmo. É Deus com o Qual os últimos serão os primeiros e os primeiros serão como os últimos.