quinta-feira, 28 de julho de 2011

Philokalia - Nikitas Stithatos - Sobre o Conhecimento Espiritual (parte 4)



Se você abraçar o conhecimento do Intelecto primordial - o qual é a origem e é a consumação de todas as coisas, que é infinito em Si mesmo e que existe dentro e fora de todas as coisas - você saberá como viver como um solitário tanto sozinho quanto com outros solitários. Pois você não sofrerá nenhuma perda na perfeição mesmo que esteja sozinho, e nenhuma perda na solidão, mesmo estando entre os outros. Pelo contrário, você será o mesmo em todo lugar e sozinho dentre todos. Você iniciará nos outros o movimento deles em direção à vida da solidão e incorporará a mais alta perfeição de virtude com a qual eles se confrontarão.


A perfeita união e conjunção da alma com o corpo, quando mantida em harmonia, constitui uma realidade única, seja no nível visível ou em seu ser interno. Quando não é hamoniosa, ocorre uma guerra civil na qual cada lado deseja a vitória. Mas quando a inteligência assume o controle, ela de imediato põe um fim ao ciúme e estabelece a concórdia, conformando toda a realidade corpo-alma a seu ser interno e seu Espírito.


Dos três aspestos principais de nosso ser, o primeiro rege os outros e não é regido por eles, o segundo tanto rege quanto é regido e o terceiro não rege, mas é regido. Desse modo, quando o aspecto regente cai sob o domínio de algum desses aspectos que são regidos, aquele que é livre por natureza, torna-se servo daqueles que são por natureza servos, ele perde sua justa pré-eminência e natureza e isso provoca uma grande discórdia entre os principais poderes da alma. Enquanto houver essa discórdia entre eles, todas as coisas ainda não terão tornado-se sujeitas ao Logos Divino. Mas quando o aspecto regente governa os outros colocando-os sob sua própria direção e controle, os elementos discordantes, desta vez unificados e tornados concordantes, são conduzidos pacificamente a Deus. E quando tudo é submetido ao Logos, Ele entrega o reino a Deus, o Pai. (ref. 1 Cor 15:24)


Quando os cinco sentidos são submetidos às quatro principais virtudes e mantêm sua obediência, eles possibilitam que o corpo, composto de quatro elementos, traquilamente complete a roda da vida. Quando o corpo é assim disposto, os poderes da alma não ficam em um estado de discórdia, o aspecto passível dos poderes apetitivo e inflamatório é unido com o poder da inteligência e o intelecto assume assim sua soberania natural. Ele faz das quatro virtudes principais sua carruagem e dos cinco sentidos subservientes, seu assento. E uma vez que ele tenha subjugado o ser não-regenerado e imperioso, o intelecto é capturado e conduzido ao céu em sua carruagem de quatro cavalos e trazido diante do Rei das Eras, sendo coroado com a coroa da vitória e descansando de sua longa empreitada.


Para aqueles que com o suporte do Espírito entraram na plenitude da contemplação, um cálice de vinho é servido e o pão de um banquete real lhes é oferecido. Um trono é preparado para o seu repouso e prata para sua riqueza. Próxima à mão está uma tesouraria de pérolas e pedras preciosas, riquezas indizíveis são conferidas a eles. Por causa da prontidão com a qual agem, sua vida ascética torna-os visionários e prepara-os para serem trazidos à presença não de preguiçosos, mas sim do Rei.


Se através da humildade e da oração você foi iniciado no conhecimento espiritual de Deus, isso significa que você é conhecido por Deus e enriquecido por Ele com um conhecimento autêntico de Seus mistérios supranaturais. Se você está manchado com presunção, você não foi iniciado, mas é governado pelo espírito deste mundo material. Portanto, mesmo que você imagine que sabe de algo, de fato você não sabe nada sobre as coisas divinas da maneira como deveria saber (ref. 1Cor. 8:2). Entretanto, se você ama a Deus e não considera nada mais precioso que o amor por Deus e por seus semelhantes, você também conhecerá as profundezas de Deus e os mistérios de Seu reino da maneira que alguém inspirado pelo Espírito Santo deve conhecê-los. E você é conhecido por Deus, pois você é um verdadeiro trabalhador no paraíso de Sua Igreja, cumprindo a vontade de Deus motivado pelo amor, isto é, convertendo os outros, tornando dignos os indignos através da compreensão dada a você pelo Espírito Santo e mantendo suas ações invioladas através da humildade e do remorso.


Todos fomos batizados em Cristo através da água e do Espírito Santo e todos comemos a mesma comida espiritual e bebemos a mesma bebida espiritual; ainda assim, mesmo que essa comida e bebida sejam o Próprio Cristo, Deus não se agrada com a maioria de nós (ref. 1 Cor. 10 : 4-5). Pois muitos daqueles fiéis e diligentes na prática ascética e na disciplina física mortificaram e enfraqueceram seus corpos, mas por carecerem do remorso que vem de um estado mental virtuoso e contrito e da compaixão que brota do amor por seus semelhantes, bem como por si mesmos, eles permaneceram carentes da plenitude do Espírito Santo, remotos do conhecimento espiritual de Deus. O útero de suas mentes é estéril e sua inteligência não tem sal ou iluminação.


O Logos não leva todos os Seus servos e discípulos com Ele quando revela Seus mistérios grandiosos e ocultos; Ele leva apenas aqueles aos quais um ouvido foi dado e cujos olhos foram abertos e nos quais uma nova língua foi treinada a falar claramente. Levando tais pessoas com Ele e separando-os dos outros, mesmo que esses últimos sejam igualmente Seus discípulos, Ele ascende no monte Tabor, a montanha da contemplação, e é transfigurado diante deles (ref. Mat. 17:2). Ele ainda não os inicia nos mistérios do reino dos céus, mas mostra-lhes a glória e a resplandescência da Divindade. E através da luz que Ele dá, Ele faz a vida e a inteligência deles brilharem como o sol no meio da Igreja dos fiéis. Ele transforma suas intelecções na brancura e pureza da luz mais brilhante, coloca neles Seu próprio intelecto e envia-os para proclamar coisas novas e velhas (ref. Mat. 13:52) para a edificação de Sua Igreja.


Muitos cultivaram seus próprios campos com grande diligência e plantaram sementes puras neles, ceifando os espinheiros e queimando seus cactos no fogo do arrependimento, mas porque Deus não regou esses campos com a chuva nascida do remorso do Espírito Santo, eles não colheram nada. Ressecados como estavam, eles não produziram o rico grão do conhecimento de Deus. Assim, mesmo se eles não perecerem por causa de uma escassez total do Logos divino, certamente morrerão pobres no conhecimento de Deus e com as mãos vazias, tendo fornecido para si mesmos uma nutrição escassa para o banquete divino.


O reino dos céus é dado já nesta vida a todos aqueles que estão avançados no caminho espiritual, ou aquele lhes é dado após a dissolução do corpo? Se é nesta vida, nossa vitória é indiscutível, nossa alegria inexprimível e nosso caminho para o paraíso desimpedido: estamos diretamente presentes no Oriente divino (ref. Gen. 2:8). Mas se é dado apenas após a morte e a dissolução, deveríamos pedir que nossa partida desta vida pudesse ocorrer sem medo; deveríamos aprender o quê o reino dos céus é, o quê o paraíso é e como um difere do outro, que natureza de tempo há em cada um deles e se endentramos todos os três, como e quando, e depois de quanto tempo. Se você entrar no primeiro enquanto ainda vivo e enquanto ainda na carne, não falhará em entrar nos outros dois.

O mundo acima está até agora incompleto e espera seu complemento do primogênito de Israel - daqueles que vêem a Deus; pois ele recebe seu complemento daqueles que atingem o conhecimento de Deus. Uma vez que estiver completo e que tiver levado ao fim o mundo inferior dos crentes e dos descrentes, ele constituirá uma única congregação, locando cada membro em seu lugar marcado, separando o que não pode ser reconciliado. Ele atrai para si as origens e os fins de todos os outros mundos, e, sendo ele mesmo ilimitado, define limites para eles. Ele não é afetado ou limitado por nenhum outro princípio, como algo que está sendo coagido. Pois ele é sempre ativo de tal maneira que nunca está confinado dentro de si ou extendido fora de seus próprios limites. Ele é o Sábado de descanso de todos os outros mundos e de todo outro princípio e atividade.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Bhagavan Ramana Maharshi - Índia, setembro de 1936

Bhagavan: O jnani (sábio) diz: "eu sou o corpo" e o ajnani (ignorante) também diz: "eu sou o corpo", qual é a diferença? O "Eu Sou" é a verdade. O corpo é a limitação. O ajnani limita o "eu" ao corpo. Durante o sono profundo, o 'Eu' permanece independente do corpo. O mesmo "Eu" está agora no estado de vigília. Embora seja comum pensar que ele está dentro do corpo, o "Eu" existe sem o corpo. A noção errada não é o 'eu sou o corpo', é o 'Eu' que diz isso. O corpo por si mesmo é inerte (inanimado) e não pode dizer isso. O erro está em pensar que o 'Eu' é o que ele não é. O 'Eu' não é inerte. O 'Eu' não pode ser o corpo inconsciente. Os movimentos do corpo são confundidos com o 'Eu' e o resultado disso é a miséria. Esteja o corpo funcionando ou não, o "Eu" permanece livre e feliz. O 'eu' do ajnani é apenas o corpo. Esse é todo o erro. O "Eu" do jnani inclui o corpo e tudo mais. Claramente alguma entidade intermediária surge e dá origem à confusão.Pergunta: Se o jnani diz "eu sou o corpo", o que lhe acontece na hora da morte?
B: Mesmo agora ele não se identifica com o corpo.
P: Mas você disse há pouco que o jnani diz: "eu sou o corpo."
B: Sim. Seu "Eu" inclui o corpo. Não pode haver nada separado do 'Eu' para ele. Se o corpo se vai, não há perda para o 'Eu'. O 'Eu' permanece o mesmo. Se o corpo sentir-se morto deixe-o levantar a questão. Sendo inerte ele não pode fazê-lo. O "Eu" nunca morre e não faz a pergunta. Quem então morre? Quem faz perguntas?
P: Para quem são todas as escrituras (sastras) então? Elas não podem ser para o 'Eu' real. Elas devem ser para o 'eu' irreal. O 'Eu' real não as requer. É estranho que o 'eu' irreal tenha tantas sastras direcionadas para si.
B: Sim. É isso mesmo. A morte é apenas um pensamento e nada mais. Aquele que pensa é que traz problemas. Deixe o pensador nos dizer o que acontece com ele na morte. O verdadeiro "Eu" é silencioso. Não se deve pensar "eu sou isto - eu não sou aquilo". Dizer 'isto ou aquilo" é errado. Essas também são limitações. Apenas o "Eu Sou" é a verdade. O silêncio é o 'Eu'. Se uma pessoa pensa 'eu sou isso ", outra pensa 'eu sou isso" e assim por diante, há um choque de pensamentos e tantas religiões são o resultado. A verdade permanece como é, ela não é afetada por quaisquer declarações, conflitantes ou não.
P: O que é a morte? Não é o desaparecimento do corpo?
B: Você deseja saber isso durante o sono? O que está errado então?
P: Mas eu sei que vou acordar.
B: Sim - novamente o pensamento. Há o pensamento precedente "eu irei acordar". Os pensamentos governam a vida. A liberdade de pensamentos é a nossa verdadeira natureza - a Graça.

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Bhagavan: A ignorância - ajnana - é de dois tipos:

(1) O esquecimento do Ser.
(2) A obstrução ao conhecimento do Ser.

As ajudas e apoios são destinados a erradicar os pensamentos; estes pensamentos são as manifestações de predisposições remanescentes na forma embrionária, eles dão origem à diversidade da qual todos os problemas surgem. Essas ajudas são: ouvir a Verdade transmitida pelo mestre (sravana), etc. Os efeitos de sravana podem ser imediatos e o discípulo percebe a Verdade de imediato. Isso só pode acontecer para o discípulo bem avançado. Caso contrário, o discípulo sente que é incapaz de perceber a Verdade, mesmo depois de ouvi-la repetidamente. Isso se deve a quê? Às impurezas em sua mente, à dúvida, à ignorância e à identidade errônea; esses são os obstáculos a serem removidos.

(a) Para remover a ignorância completamente, ele tem de ouvir a Verdade repetidamente, até que seu conhecimento sobre o assunto em questão torne-se perfeito. (b) Para remover as dúvidas, ele deve refletir sobre o que ouviu até que seu conhecimento fique livre de dúvidas de qualquer espécie. (c) Para remover a identidade errada do Ser com o não-Ser (com o corpo, os sentidos, a mente ou o intelecto) sua mente deve tornar-se unidirecionada.

Uma vez que todas essas coisas forem realizadas, os obstáculos são exterminados e com isso o estado de Samadhi é alcançado, isto é, a Paz reina. Alguns dizem que nunca devemos deixar de nos envolver no processo de ouvir a Verdade, de refletir sobre o conhecimento e de manter a unidirecionalidade. Isso não é realizado ao lermos livros, mas apenas pela prática contínua de manter a mente afastada (separada). O aspirante pode ser kritopasaka ou akritopasaka. O primeiro está apto a realizar o Ser, mesmo que com o menor estímulo, apenas algumas pequenas dúvidas impedem seu caminho e são facilmente removidas se ele ouvir a Verdade do Mestre ainda que uma só vez. Imediatamente ele ganha o estado de Samadhi. Presume-se que ele já havia concluído o sravana, a reflexão, etc em nascimentos anteriores, eles não são mais necessários para ele. Para o outro todas essas ajudas são necessárias; para ele as dúvidas surgem mesmo depois de ouvir repetidas vezes, por isso ele não deve desistir dessas ajudas até que ganhe o estado de Samadhi. O Sravana remove a ilusão do Ser como sendo o mesmo que o corpo, etc. A reflexão deixa claro que o Conhecimento é o Ser. A unidirecionalidade revela o Ser como sendo Infinito e Bem-aventurado.

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Pergunta: Nós temos ouvido falar de você, Maharshi, como a mais gentil e nobre das almas. Há muito tempo desejávamos ter seu Darshan. Eu vim aqui uma vez antes, no dia 14 do mês passado, mas não pude permanecer em sua santa presença tanto quanto eu desejava. Sendo uma mulher e também jovem, eu não pude aguentar a pressão das pessoas ao meu redor, e assim parti às pressas depois de fazer uma ou duas perguntas simples. Não há homens santos como você em nossa parte do país. Sou feliz no que diz respeito a ter tudo o que quero. Mas não tenho aquela paz de espírito que traz felicidade. Venho agora aqui em busca de sua bênção para que eu possa obter essa Paz.
Bhagavan: O Bhakti (a devoção) atenderia o seu desejo.
P: Quero saber como posso ganhar essa paz de espírito, essa paz mental. Por favor, faça a gentileza de aconselhar-me.
B: Sim, é necessário devoção e entrega.
P: Sou digna de ser uma devota?
B: Qualquer um pode ser um devoto. O caminho espiritual é comum a todos e nunca é negado a ninguém - seja a pessoa jovem ou velha, homem ou mulher.
P: É exatamente isso que estou ansiosa para saber. Sou jovem e dona de casa. Há deveres domésticos que devo desempenhar. A devoção está de acordo com tal posição como a minha?
B: Certamente. O que você é? Você não é o corpo. Você é a Pura Consciência. Os deveres domésticos e o mundo são apenas fenômenos aparecendo sobre essa Consciência Pura. Ela permanece inalterada. O que impede você de ser seu próprio Ser?
P: Sim, já estou familiarizada com a linha de ensinamentos do Maharshi. Trata da busca pelo Ser. Mas a minha dúvida persiste, tal busca é compatível com a vida de uma dona de casa?
B: O Ser está sempre aí. Ele é você. Não há nada além de você. Nada pode estar separado de você. A questão da compatibilidade ou coisas desse tipo não surge.
P: Vou ser mais definida. Apesar de ser uma estranha, sou obrigada a confessar a causa de minha ansiedade. Fui abençoada com filhos. Um menino - um bom brahmachari - faleceu em fevereiro. Fui assolada por uma grande agonia. Fiquei desgostosa com esta vida. Quero me dedicar à vida espiritual. Mas meus deveres como dona de casa não me permitem levar uma vida retirada. Daí vem a minha dúvida.
B: Retirar-se significa a permanência no Ser. Nada mais. Não significa deixar um conjunto de condições circundantes e se emaranhar em outro conjunto, nem mesmo deixar o mundo concreto e se envolver em um mundo mental. O nascimento do filho, a sua morte, etc, são vistos no Ser somente. Lembre-se do estado de sono. Você estava ciente de algo acontecendo? Se o filho ou o mundo fossem reais, eles não deveriam estar presentes com você no sono? Você não pode negar a sua existência no sono. Também não pode negar que você estava feliz naquele estado. Você é a mesma pessoa falando agora e levantando questões. Você não está feliz, de acordo com você. Mas você estava feliz no sono. O que aconteceu nesse meio tempo que fez a felicidade do sono ser quebrada? Foi o aparecimento do ego. Essa é a nova chegada no estado Jagrat. Não havia ego no sono. O nascimento do ego é chamado de o nascimento da pessoa. Não há outro tipo de nascimento. Qualquer coisa que nasça está fadada a morrer. Mate o ego: não há medo recorrente da morte para o que foi uma vez morto. O Ser permanece mesmo após a morte do ego. Isso é a Bem-aventurança - isso é a Imortalidade.
P: Como isso deve ser feito?
B: Veja para quem estas dúvidas existem. Quem é o sujeito da dúvida? Quem é o pensador? É o ego. Mantenha-se com ele. Os outros pensamentos vão morrer. O ego é deixado puro, veja de onde surge o ego. Essa é a consciência pura.
P: Isso parece difícil. Podemos proceder pelo caminho do Bhakti?
B: Isso é de acordo com o temperamento individual e com o histórico da pessoa. O Bhakti é o mesmo que o Vichara (a auto investigação).
P: Eu quero dizer a meditação, etc.
B: Sim. A meditação é em uma forma. Isso irá afastar os outros pensamentos. O pensamento único de Deus vai dominar os outros. Isso é a concentração. O objeto da meditação é, portanto, o mesmo que o do Vichara.
P: Nós vemos Deus em uma forma concreta?
B: Sim. Deus é visto na mente. A forma concreta pode ser vista. Ainda assim, é apenas na mente do devoto. A forma e a aparência da manifestação de Deus são determinadas pela mente do devoto. Mas essa não é a finalidade. Nesse caso há a sensação de dualidade. É como uma visão em um sonho. Depois que Deus é percebido, o Vichara começa. E ele termina na Realização do Ser. Vichara é a rota final. Mas claro, poucas pessoas acham o vichara praticável. Outros acham o Bhakti mais fácil.
P: O Sr. Brunton não encontrou você em Londres? Isso foi apenas um sonho?
B: Sim. Ele teve a visão. Ele me viu em sua mente.
P: Ele não viu esta forma concreta?
B: Sim, ainda em sua mente.
P: Como hei de alcançar o Ser?
B: Não existe alcançar o Ser. Se o Ser fosse para ser atingido, significaria que o Ser não está aqui e agora, que deveria ser obtido de nova maneira. O que é obtido também será perdido. Por isso será impermanente. Não vale a pena lutar por aquilo que não é permanente. Portanto eu digo, o Ser não é atingido. Você é o Ser. Você já é Aquilo. O fato é que você é ignorante de seu estado bem-aventurado. A ignorância sobrepõe-se e coloca um véu sobre a pura Bem-Aventurança. As tentativas são direcionadas somente para remover essa ignorância. Essa ignorância consiste no conhecimento errado. O conhecimento errado consiste na falsa identificação do Ser com o corpo, com a mente, etc. Essa identidade falsa deve sair de cena e ali o remanecente será o Ser.
P: Como é que isso acontece?
B: Ao inquirir sobre o Ser.
P: É difícil. É possível para mim Realizar o Ser, Bhagavan? Gentilmente me diga. Parece tão difícil.
B: Você já é o Ser. Portanto, a Realização é comum a todos. A Realização não conhece diferença nos aspirantes. Esta própria dúvida: "posso Realizar?" Ou o sentimento: "eu não Realizei" são os obstáculos. Livre-se deles também.
P: Mas deve haver a experiência. A menos que eu tenha a experiência como eu poderei livrar-me desses pensamentos que me afligem?
B: Eles também estão na mente. Estão lá porque você identificou a si mesma com o corpo. Se essa falsa identidade desaparecer, a ignorância desaparecerá e a Verdade será revelada.
P: Posso engajar-me na prática espiritual mesmo permanecendo em Samsara?
B: Sim, certamente. Devemos fazê-lo.
P: Samsara não é um obstáculo? Todos os livros sagrados não defendem a renúncia?
B: Samsara está apenas em sua mente. O mundo não fala: 'eu sou o mundo". Caso contrário, ele deveria estar sempre aí - sem excluir o seu sono. Uma vez que ele não existe no sono, ele é impermanente. Sendo impermanente ele não tem resistência. Não tendo resistência, ele é facilmente subjugado pelo Ser. Somente o Ser é permanente. A renúncia é a não-identificação do Ser com o não-Ser. Com o desaparecimento da ignorância o não-Ser deixa de existir. Essa é a verdadeira renúncia.
P: Por que, então, em sua juventude você deixou sua casa?
B: Esse é o meu destino (prarabdha). Nossa linha de conduta nesta vida é determinada por nosso destino. Meu destino era assim. Seu destino é dessa forma.
P: Eu não deveria também renunciar?
B: Se esse tivesse sido o seu destino a questão não teria surgido.
P: Eu deveria, portanto, permanecer no mundo e engajar-me na prática espiritual? Bem, posso conseguir a Realização nesta vida?
B: Isso já foi respondido. Você é sempre o Ser. Os esforços sinceros nunca falham. O sucesso está fadado a dar resultados.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Jetsun Milarepa - Trechos do Ensinamento




Homenageio-lhe, ó Marpa, o Tradutor. No imenso céu de sua compaixão estão de todos os lados reunidas as nuvens da misericórdia, das quais a produtiva chuva de graça cai. Ó, meu Guru, Perfeito Salvador, grande Compassivo, que mostra o inconfundível caminho para a Libertação, nunca me abandone, permaneça para sempre acima de minha cabeça como minha coroa de jóias! 

Aos olhos impuros daqueles a quem você visa libertar, você manifesta-se em uma variedade de formas, mas àqueles de seus seguidores que foram purificados, o Senhor aparece como um Ser Perfeito. Prestemos homenagem a Você! No esplendor celeste da Consciência Absoluta do Dharmakaya, não existe sombra de coisa ou conceito, ainda assim ela permeia todos os objetos do conhecimento. Prestemos homenagem à Consciência Imutável e Eterna. 

A Sabedoria Original Inata é a Esfera Primordial. Sem "exterior" ou "interior" é a esfera da Consciência. Sem brilho ou escuridão é a esfera da Revelação. Onipresente e toda-abrangente é a esfera do Dharma. Sem mutação ou transição é a esfera da Verdade absoluta. Sem interrupção é a esfera da pura Experiência.

Toda a manifestação, o próprio universo, estão contidos na Mente, e a natureza da Mente é o reino da Iluminação, o qual não pode ser concebido nem tocado - esse é o ponto-chave da Visão correta. Os pensamentos errantes são liberados no Dharmakaya (o Absoluto); a Consciência, a Iluminação é sempre cheia de graça; meditar em um modo de não-ação e não-esforço - esses são os pontos-chave da Prática. As dez virtudes crescem espontaneamente na ação da naturalidade, todos os dez Vícios são assim purificados. Por correções ou remédios o Vazio Iluminador nunca é perturbado - esses são os pontos-chave da Ação. Não há Nirvana para se alcançar em outra parte (como um estado especial); não há Samsara aqui para se renunciar; conhecer verdadeiramente a mente-Ser é ser o próprio Buda - esses são os pontos-chave da Realização. Reduza internamente esses três pontos-chave em um. Essa é a Natureza Vazia do Ser, a qual somente um Guru maravilhoso pode ilustrar de maneira clara. Muita atividade não é de nenhum proveito; se a pessoa vê a Sabedoria Nascida Simultaneamente (a Sabedoria inata, eterna, sempre presente antes e depois do nascimento), ela alcança seu objetivo. 

A mente não tem substância, é vazia, é menos do que o menor dos átomos. Quando aquele que vê e aquilo que é visto são eliminados, a Visão é realmente realizada. Quanto à prática, na Corrente da Iluminação não podem ser encontrados estágios. A perseverança na prática é confirmada quando o ator e a ação são anulados. No Reino da Iluminação, onde o sujeito e o objeto são um, não vejo nenhuma causa, pois tudo é vazio. Quando a ação e o ator desaparecem, todas as ações tornam-se corretas. Os pensamentos finitos dissolvem-se na Totalidade (Dharmadhatu); os oito ventos mundanos (perda e ganho, prazer e dor, louvor e culpa, saúde e doença) não trazem nem esperança nem medo. Quando o preceito e o detentor dos preceitos desaparecem, as disciplinas morais são melhor observadas. Ao sabermos que a mente-Ser é o Dharmakaya, o Corpo Absoluto de Buda, as ações e o ator delas desaparecem. Assim, o glorioso Dharma triunfa. Os seis caminhos que conduzem à Liberação são: grande fé e confiança em um Guru sábio e rigoroso, boa disciplina, solidão, prática determinada e perseverante e a meditação.

A Manifestação, o Vazio e a Não-diferenciação, esses três são a quintessência da Visão. A Iluminação, a ausência de pensamentos e a não-distração são a quintessência da Meditação. O não-apego, o desprendimento e a completa indiferença são a quintessência da Ação. A ausência de esperança, de medo e de confusão são a quintessência da Realização. Não atentar, não ocultar e não discriminar são a quintessência dos Preceitos. 

Feliz é a iluminação sem pensamentos e sem mutação! Feliz é a grande bênção na pureza do Dharmadhau (do Infinito)! Feliz é o Reino incessante da Forma! Este pequeno canto de grande felicidade que flui livremente de meu coração é inspirado pela meditação, pela fusão do conhecimento com a ação.

A fusão da mente-Ser com o Guru é realmente uma coisa feliz. A própria manifestação é em si a essência da Realidade. Através da realização deste Dharmakaya não-nascido, fundi a mim mesmo no Reino do Não-esforço.

Apegar-se à realidade da mente é a causa de Samsara (o ciclo de renascimentos); perceber que o não apego e a autoconsciência iluminanda são não-nascidos e imanentes, é o sinal da consumação do Estágio de Unidirecionalidade. Se uma pessoa fala sobre o Dois-em-Um (Sabedoria e Compaixão), mas ainda medita sobre a forma, se reconhece a verdade do Karma, mas ainda comete injustiça, ela está realmente meditando com cegueira e paixão! Tais coisas nunca são encontradas no verdadeiro Estágio de Unidirecionalidade.
A não-diferenciação da Manifestação e da Vacuidade é o Dharmakaya no qual Samsara e Nirvana são sentidos como sendo o mesmo. É uma fusão completa do Buda com os seres sencientes. Esses são os sinais do Estágio do Gosto Único (uma Consciência Absoluta compreendendo todas as experiências).

A natureza da Mente é a Luz e o Vazio. Ao perceber a consciência da Luz-Vazio, fundi-me no estado original de Não-esforço. Às boas e más experiências sou indiferente. Com uma mente de Não-esforço, sinto felicidade e alegria. O Seis Sentidos e os Objetos Sensoriais dissolveram-se por si mesmos (no Dharmadhatu), onde a não-diferenciação do sujeito e do objeto é realizada. Fundi a felicidade e tristeza em um só, adentrei o estado original de Não-esforço.

Apegar-se à noção de ego é característico desta consciência. Se olhamos para essa consciência em si, não veremos nenhum ego, nada é visto dele! Aqueles que praticam o Dharma com suas bocas falam muito e parecem saber muito sobre o ensinamento, mas quando chega a hora de o observador deixar o corpo na hora da morte, o pregador preso à boca é lançado no espaço. Quando a Luz Clara brilha por um momento precioso no estado do bardo intermediário, uma chance para que todos possam despertar para o Absoluto é camuflada pela cegueira do ignorante; a chance de ver o Dharmakaya no momento da morte é perdida devido ao medo e à confusão. Mesmo que a pessoa passe sua vida estudando o Canon, isso não ajuda no momento da partida da mente. Ai de mim! Aqueles Iogues proficientes que praticaram meditação por tanto tempo, confundiram a experiência psíquica da iluminação com a Sabedoria Transcendental e ficaram felizes com esta forma de auto-engano. Na hora da morte eles ainda correm perigo de passar pelo renascimento em reinos inferiores. Quando a postura do seu corpo está justamente colocada e sua mente absorvida em meditação profunda, você pode sentir que o pensamento e a mente desaparecem. Ainda assim, essa é apenas a experiência superfícial de Dhyana (meditação). Através da prática constante e da concentração nela, sentimos a radiante autoconsciência brilhando como uma lâmpada resplandescente. Ela é pura e brilhante como uma flor, é como a sensação de olhar para o céu vasto e vazio. A Consciência do Vazio é límpida e transparente, ainda assim, é vívida. Essa ausência de pensamentos, essa experiência radiante e transparente é apenas o sentimento de Dhyana. Com essa boa fundação, complementarmente devemos orar para as Três Preciosidades e penetrar a Realidade através de pensamento e contemplação profundos. Assim, podemos amarrar a Sabedoria sem ego com a benéfica corda da vida da meditação profunda. Com o poder da bondade e da compaixão e com o voto altruísta do Coração Desperto, podemos ver clara e diretamente a verdade do Caminho Iluminado, do qual nada pode ser visto, mas tudo é claramente percebido. Sem chegar, alcançamos nosso lugar de Buda; sem ver, visualizamos o Dharmakaya; sem esforço, fazemos todas as coisas naturalmente.

A própria natureza do Dharmakaya é identificada através de suas inúmeras formas. As miríades de formas são o corpo físico de Buda (Nirmanakaya). Com essa compreensão em mente, em qualquer circunstância que eu possa me encontrar, estou livre no alegre reino da Liberação! Não tenho nenhum anseio por retornar para a casa de Buda (o reino da ausência de formas). Feliz, de fato, é esta mente de não-esforço.

Se você pretende praticar os ensinamentos de Buda, tome refúgio nas Três Preciosidades (o Buda ou o despertar; o Dharma, o ensinamento da sabedoria; e o Sangha, a comunidade de praticantes). Os Seres sencientes nos seis reinos deveriam ser considerados como sendo seus pais. Dê aos pobres e ofereça ao Guru! Dedique os seus méritos para o benefício de todos. Lembre-se sempre de que a morte pode vir a qualquer momento. Identifique o seu corpo com o corpo de Buda. Identifique a sua própria voz com o mantra de Buda. Contemple Shunyata (o Vazio) da Sabedoria do auto-despertar e sempre tente ser o mestre de sua mente!

Eu percebi que nada é, libertei-me da dualidade entre o passado e o futuro, aprendi que os Seis Reinos não existem. Fui libertado de uma vez por todas da vida e da morte e compreendi que todas as coisas são iguais. Dei-me conta de que tudo o que percebo é ilusão, fui libertado de entrar e sair. Dei-me conta da verdade da não-diferenciação e fui libertado tanto do Samsara quanto do Nirvana. Também percebi como ilusões a prática, os passos e os estágios. Minha mente está, portanto, destituída de esperança e medo.
Encontrei o Samadhi das coisas como elas são. Agora não tenho medo da fome. Por causa do medo da sede, busquei por algo para beber; a bebida celestial que encontrei é o vinho da atenção plena. Agora não tenho medo da sede. Por causa do medo da solidão, procurei por um amigo; o amigo que encontrei é a felicidade do perpétuo shunyata (abertura, vazio). Agora não tenho medo da solidão. Por causa do medo de desviar-me, busquei o caminho certo a seguir. O amplo caminho que encontrei é o Caminho do dois-em-um (Sabedoria e Compaixão). Agora eu não temo perder meu caminho. Sou um Iogue com todos os bens desejáveis, um homem sempre feliz onde quer que eu esteja. 

Medite sobre a vastidão sem centro e sem margens. Como um oceano infinitamente grande e insondavelmente profundo, absorva-se na mais profunda contemplação. Dessa forma, medite sobre a sua mente-Ser.

Se você sentir-se bem ao meditar sobre o céu, então esteja com as nuvens. As nuvens são apenas manifestações do céu, Por isso, descanse bem ali na esfera do céu! As ondas são apenas o movimento do oceano; se você pode meditar bem sobre o oceano, porque não meditar sobre as ondas? Portanto, dissolva-se bem ali no oceano! O perturbador fluxo de pensamentos manifesta a mente; se você puder meditar bem sobre a mente, então esteja com o fluxo de pensamentos! Portanto, dissolva-se na própria essência da Mente! 

Você não sabe que este mundo é transitório e irreal? Quando você vier diante do rei dos Mortos o seu dinheiro de homem rico não será de nenhum proveito. O templo onde moro é a mente interior não-nascida. As experiências de Graça, Iluminação e de ausência de pensamentos são as lindas flores em meu jardim! Cercando o templo das Dez Virtudes está a vala da minha vacuidade. Isso é meu, o templo Iogue.
A fundação de toda prática do Dharma está na crença na lei do Karma (você colhe o que você semeia) e, portanto, é muito importante que você se dedique inteiramente à eliminação das más ações e à prática das virtudes. Embora no início eu fosse incapaz de compreender o significado do Vazio, confiei na lei do Karma. É por isso que, depois de ter acumulado muitos crimes, fui obrigado a venerar meu Lama e me dedicar à meditação.

O Dharma é tão eficaz que até mesmo um grande pecador como eu chegou a um estágio não muito longe da Iluminação perfeita de Buda devido à minha crença no Karma, minha subsequente renúncia dos objetivos da vida mundana, e, especialmente devido à minha devoção firme e determinada à meditação. É possível para cada pessoa comum perseverar como eu o fiz. Considerar um homem de tal perseverança como uma reencarnação de Buda é um sinal de não acreditar no caminho curto do Dharma. Coloque sua fé na grande lei de causa e efeito. Contemple a vida dos mestres iluminados; reflita sobre o Karma, sobre a miséria do ciclo de renascimentos, sobre o verdadeiro valor da vida humana e sobre a incerteza da hora da morte. Dedique-se à prática do Vajrayana.

Como resultado de meus anos de meditação, atingi o despertar total onde o objeto meditado, a ação de meditar e o sujeito que medita se fundem num só, de modo que agora já não sei mais como meditar. 

Volte sua mente para dentro e você encontrará o seu caminho. Quando meditar com perseverança e determinação, você deve pensar sobre os males de Samsara (o ciclo de renascimentos) e sobre a incerteza da morte. Evite o desejo pelos prazeres mundanos e a coragem e a paciência crescerão então em você, e você encontrará o seu caminho. Acima de tudo, lembre-se em todos os momentos e lugares de nunca ser arrogante nem orgulhoso de si mesmo, senão você será subjugado por sua auto-estima e será sobrecarregado pela hipocrisia. Se abandonar o engano e o fingimento, você encontrará o seu caminho. A pessoa que encontrou o caminho pode passar os graciosos ensinamentos para os outros; dessa forma ela ajuda a si própria e aos outros também. Dar é, então, o único pensamento restante em seu coração.

Se você deseja tornar-se um Buda em uma só vida, você não deve almejar as coisas desta vida, nem intensificar seu auto-anseio, senão você será enredado entre o bem e o mal e poderá cair no reino da miséria. Quando se envolver em estudos e aprendizagens, não se prenda às palavras com orgulho. Quando tiver adquirido Experiência e Realização, não exiba seus poderes milagrosos, nem profetize. Seja humilde e modesto e você encontrará seu caminho.

Pratique interiormente a concentração e a contemplação. A renúncia dos assuntos externos é o seu adorno. Permaneça sereno com auto-compostura e atentamente. A Glória é a equanimidade da mente e da fala! A Glória é a renúncia das muitas ações! Se você encontrar condições desagradáveis que perturbem a sua mente, vigie a si mesmo e fique alerta: mantenha-se alertando a si mesmo: "O perigo da raiva está a caminho". Quando você se encontrar com riquezas ou prazeres sedutores, vigie a si mesmo e esteja alerta, mantenha um controle sobre si mesmo: "o perigo do desejo está a caminho". Você deveria contemplar o vazio e a natureza ilusória do que quer que você encontre em suas ações diárias. Mesmo que uma centena de santos e estudiosos estivessem reunidos aqui, eles não poderiam dizer mais do que isso. Que todos vocês sejam felizes e prósperos! Que todos vocês se dediquem com o coração alegre à prática do Dharma!

quinta-feira, 30 de junho de 2011

São Teófanes o Recluso - Segure a Espada da Humildade


Se a humildade e o amor estiverem ausentes, tudo que é espiritual estará ausente.

Você diz que não tem humildade ou amor. Enquanto esses dois estiverem ausentes, tudo que é espiritual estará ausente. O que é espiritual é nascido quando essas duas virtudes nascem e conforme crescem. Elas são para a alma o que o controle da carne é para o corpo. A humildade é adquirida através de atos de humildade, o amor através de atos de amor.


A medida da humildade

Mantenha os dois olhos abertos. Esta é a medida da humildade: se um homem é humilde ele nunca pensa que foi tratado pior do que ele merecia. Ele coloca-se num lugar tão baixo à sua própria estima que ninguém, por mais que tente, pode pensar mais pobremente dele do que ele pensa de si mesmo. Esse é o principal segredo dessa questão.

Defeitos de caráter

O Senhor às vezes deixa em nós alguns defeitos de caráter para que possamos aprender a humildade. Porque sem eles nós iríamos imediatamente pairar acima das nuvens em nossa estima e colocaríamos nosso trono lá. Nisso reside a perdição.


O caminho para a humildade - a obediência

Não há necessidade de eu repitir para você que a arma invencível contra todos os nossos inimigos é a humildade. Ela não é facilmente adquirida. Nós podemos pensar que somos humildes sem termos nem mesmo um único traço de humildade verdadeira. E não podemos nos tornar humildes meramente ao pensarmos sobre isso. O melhor caminho, ou melhor, o único caminho certo para a humildade é através da obediência e da renúncia de nossa própria vontade. Sem isso é possível desenvolver um orgulho satânico em nós mesmos, enquanto em palavras e posturas corporais demonstramos ser humildes. Suplico que você preste atenção neste ponto e, com todo temor, examine a ordem da sua vida. Isto inclui obediência e renúncia de sua vontade: De todas as coisas que você faz, quantas são feitas contrárias à sua vontade própria ou às suas ideias e reflexões? Você faz alguma coisa a que não esteja disposto simplesmente porque lhe foi ordenado, por mera obediência? Por favor, examine isso cuidadosamente e diga-me. Se não há nada desse tipo de obediência, o tipo de vida que você leva não lhe conduzirá à humildade. Não importa o quanto você se humilhe em pensamento, sem feitos que levem ao auto rebaixamento a humildade não virá. Dessa forma você deve pensar cuidadosamente em como preparar-se para isso.


Presunção e censura

Humilhar-se ainda não é humildade, mas apenas o desejo e a busca pela humildade. Possa o Senhor ajudá-lo a adquirir essa virtude. Há um espírito de ilusão que de alguma maneira desconhecida engana a alma com sua astúcia. Ele confunde tanto os nossos pensamentos que a alma pensa ser humilde enquanto que internamente ela esconde uma opinião arrogante e presunçosa de seu próprio valor. Dessa forma, devemos seguir procurando cuidadosamente em nosso coração. Os relacionamentos externos que nos levam à humildade são os melhores meios aqui.
De alguma forma você tem sido negligente. O temor a Deus abandonou-lhe, logo depois aquela atenção deixou-lhe também e você caiu no hábito de censurar as pessoas. Você diz que você pecou internamente e isso é verdade. Arrependa-se rapidamente e rogue o perdão de Deus. Tal falta como essa traz sua própria retribuição: a falta é interior e também é interior a punição. Podemos condenar os outros não apenas em palavras mas também com um movimento interno do coração. Se a alma, quando pensa em alguém, critica adversamente então ela já condenou aquela pessoa.



Ofender-se e dar a outra face

Ficar ofendido por causa de falta de atenção é considerar-se merecedor de atenção e consequentemente, dar um alto valor a si mesmo no coração, em outras palavras, ter um coração inflado de orgulho. Isso é bom? Não é nosso dever suportar acusações injustas? Certamente que sim. Como devemos então começar a praticar esse dever? Afinal, quando somos ordenados a suportar, temos de tolerar tudo o que for desagradável, sem excessão, e suportar alegremente sem perder nossa paz interior. O Senhor nos disse que quando nos baterem em uma das faces devemos oferecer a outra também, mas somos tão sensíveis que se uma mosca ao passar encostar em nós com sua asa, já ficaremos em pé de guerra. Diga-me, você está preparado para obedecer esse mandamento do Senhor referente a dar a outra face? Provavelmente você dirá que sim, que está preparado. Esse ser golpeado na face não deveria ser tomado literalmente. Deveríamos entender por isso qualquer ação de nossos semelhantes onde nos pareça não recebermos a devida atenção e respeito - qualquer ação através da qual nos sintamos degradados e com nossa honra ferida. Cada feito desse tipo - não importa o quão trivial, um olhar, uma expressão - é um tapa no rosto. Não apenas deveríamos suportar isso mas também deveríamos estar prontos para uma degradação ainda maior, o que corresponderia a dar a outra face. Devemos considerar: eu mereço alguma atenção? Se tivéssemos esse sentimento de ausência de mérito e dignidade em nosso coração não nos ofenderíamos.



Segure a espada da humildade

A inquietação espiritual e as paixões prejudicam o sangue e causam efetivamente danos a nossa saúde. O jejum e uma abstinência geral em nossa vida diária são a melhor maneira de manter a nossa saúde sólida e vigorosa. A oração introduz o espírito humano no reino de Deus onde a pedra da vida reside. E o corpo também, conduzido pelo espírito, compartilha dessa vida. Um espírito contrito, os sentimentos de arrependimento e as lágrimas, não diminuem nossa força física mas aumentam-na, pois trazem a alma a um estado de conforto. Você deseja que essa contrição e essas lágrimas nunca lhe abandonem, mas seria melhor desejar que o espírito da humildade reine sempre em você. Ele traz lágrimas e contrição e também impede que nos enchamos de orgulho ao possuí-los. Pois o inimigo dá um jeito de introduzir veneno mesmo através de tais coisas como essas.
Há também a hipocrisia espiritual que pode acompanhar a contrição. A verdadeira contrição não interfere na pura alegria espiritual, mas pode existir em harmonia com ela, oculta por trás dela.
E a respeito da auto apreciação? Tome a espada da humildade e da mansidão, segure-a sempre em suas mãos e corte impiedosamente a cabeça de seu principal inimigo.  



Confusão e paz

Quando há confusão na alma, de qualquer tipo, não confie no seu julgamento em tal momento, pois o que a alma lhe disser ali não será a verdade. Em tais momentos seu conselheiro é Satã e seu conselho certamente não é para a sua salvação - a pobre alma é rasgada de todos os lados.
"A ira do homem não é capaz de cumprir a justiça de Deus" (Tiago 1-20). O que vem de Deus é completamente pacífico, calmo e doce e deixa essa douçura na alma bem como despeja-a em abundância por toda a volta, mesmo que a primeira vista ela às vezes tenha uma aparência proibida.



Pensamentos errantes

Você está sujeito aos pensamentos errantes porque dá ouvidos à conversa fiada e às memórias dela que permanecem com você. A partir dessas memórias o inimigo tece uma teia em frente ao olho de sua mente a fim de enredá-la. Quando isso acontecer, você deveria descer no seu coração, tirando seus olhos das imagens ilusórias apresentadas pelo inimigo e chamar o Senhor.

sábado, 25 de junho de 2011

Kabir - Nove Poemas



Aposse-se de sua espada e tome parte na luta.
Lute, ó meu irmão, enquanto ainda dura a vida.
Golpeie a cabeça do inimigo e finalize-o rapidamente.
Então, venha curvar-se na corte de seu Rei.

Aquele que é valente nunca abandona a batalha:
quem foge não é um verdadeiro lutador.
No campo deste corpo uma grande guerra procede,
contra as paixões, contra a raiva,
contra o orgulho e contra a arrogância:

é pelo Reino da verdade, do contentamento e da pureza
que esta batalha está estourando;
e a espada que ressoa mais alto é a espada de Seu Nome.

Kabir diz:

"quando um bravo cavaleiro adentra o campo,
uma tropa de covardes é botada para correr.

É difícil e cansativa essa luta do buscador da verdade,
pois os votos do buscador são mais fortes
que os de um guerreiro
ou os de uma viúva pela vida de seu marido.

Pois o guerreiro luta por algumas horas
e a luta da viúva com a morte logo termina:
mas a batalha do buscador da verdade segue dia e noite,
enquanto a vida dura ela nunca cessa."

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O cadeado do erro tranca o portão,
abra-o com a chave do amor:
Abrindo a porta dessa forma,
você a de despertar o Amado.

Kabir diz:

"ó irmão!
não negligencie essa boa fortuna assim".

____________________________

A flauta do infinito é tocada incessantemente
e seu som é o amor:
quando amor renuncia todos os limites,
ele atinge a verdade.

Quão amplamente se espalha a fragrância!
Ela não tem fim, nada fica em seu caminho.

A forma desta melodia brilha como um milhão de sóis:
Incomparavelmente soa a Vina das notas de verdade.

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Querido amigo,
estou ansioso para encontrar meu Amado!

Minha juventude floriu
e a dor da separação incomoda meu peito.

Estou ainda perambulando sem propósito
nos becos do conhecimento,
mas recebi notícias Suas nessas vielas do saber.

Tenho uma carta do meu amado:
Nela há uma mensagem indescritível,
agora meu medo da morte se foi.

Kabir diz:

"ó meu amigo amoroso!
Como presente recebi o Imortal."

____________________________

Quando eu estou separado de meu Amado,
meu coração fica cheio de miséria:
não tenho nenhum conforto durante o dia,
não tenho sono durante a noite.
Para quem devo exprimir minha tristeza?

A noite é escura, as horas se esvaem.
Por meu Senhor estar ausente, tremo de medo.

Kabir diz:

"Ouça, meu amigo!
A única satisfação que existe
é no encontro com o Amado."

___________________________________

Ó homem, se não conhece seu próprio Senhor,
por que você está tão orgulhoso?
Afaste a sua esperteza:
meras palavras nunca lhe unirão a Ele.

Não se engane com o testemunho das Escrituras:
o amor é algo diferente disso.
Aquele que O procurou verdadeiramente encontrou-o.

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Quando por fim você vier ao oceano da felicidade,
não vão volte com sede.

Desperte, homem tolo!
Pois a morte o está espreitando.

Aqui está a água pura diante de você.
Beba dela a cada respiração.

Não siga a miragem a pé, mas anseie pelo néctar.
Dhruva, Prahlad e Shukadeva beberam dele,
e Raidas também provou dele:
os Santos estão embriagados de amor,
sua sede é por amor.

Kabir diz:
“escute, irmão!
O ninho do medo se quebrou.

Nem por um instante você esteve diante do mundo:
você está tecendo sua escravidão à falsidade,
suas palavras estão cheias de engano:

com esta carga de desejos que você carrega em sua cabeça,
como poderá ficar leve?

Kabir diz:

"Mantenha dentro de você verdade, desapego e amor".

__________________________________


Por que tanta impaciência, meu coração?
Aquele que cuida das aves, das bestas e dos insetos,
que cuidou de você
enquanto você estava ainda no ventre de sua mãe,
por que não cuidaria de você agora que você saiu?

Ó meu coração,
como poderia se desviar do sorriso do seu Senhor
e vagar para tão longe dele?

Você deixou seu Amado e está pensando em outros:
e é por isso que todo o seu trabalho é em vão.

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Aquele que é humilde e contentado,
que tem uma visão equânime,
cuja mente está preenchida
com a plenitude da aceitação e do repouso;

Aquele que viu a Ele e tocou-lhe,
é liberado de todos os medos e problemas.

Para ele o pensamento perpétuo de Deus
é como pasta sândalo espalhada no corpo,
para ele não há deleite em nada mais,

seu trabalho e seu descanso são preenchidos com música:
ele exala por toda parte o esplendor do amor.

Kabir diz:

"toque os pés daquele que é um e indivisível, imutável e pacífico,
que preenche todos os frascos até a borda com alegria
e cuja forma é amor".

domingo, 19 de junho de 2011

P. D. Ouspensky - Trechos do Livro 'A Further Record' (parte 2)


Sr. Ouspensky: Tente pensar o que é que torna o trabalho tão difícil, tente encontrar quais são as coisas que levam grande parte da sua atenção. Tudo isso tem de ser encontrado. Quero que você compreenda que cada pessoa separadamente tem um certo obstáculo definido que fica no caminho de seu trabalho, algum ponto definido que impede a possibilidade do trabalho correto. É esse obstáculo que você tem de encontrar. Cada pessoa tem muitas dificuldades — quero dizer dificuldades na compreensão — mas uma é maior do que as outras. Por isso é necessário para cada um de vocês separadamente, encontrar sua própria dificuldade principal. Quando encontrá-la, o trabalho contra ela poderá ajudá-lo por um tempo determinado e, em seguida, talvez você terá de encontrar outra dificuldade e depois outra e mais outra. Até que você encontre sua presente dificuldade você não será capaz de trabalhar da maneira correta. Evidentemente, a primeira dificuldade para todos é a palavra 'eu'. Você diz 'eu' e não percebe que é apenas uma pequena parte de você que fala. Mas por trás e além dessa parte deve haver algo mais, e isso é para que cada um de vocês encontre pessoalmente.
Essa dificuldade pode ser um tipo específico de emoção negativa, um tipo específico de identificação ou de imaginação ou muitas outras coisas.
Pergunta: Ficar sempre adiando as coisas poderia ser a grande dificuldade?
Sr. O: Muito possivelmente — muito bom. Mas isso não é exatamente o que eu quero dizer. Essa é uma dificuldade em fazer, e eu quis dizer dificuldade de compreensão. Você já entendeu esse 'ficar adiando', já pensou nisso, portanto, não é o tipo de dificuldade da qual quero falar. Tente pensar o que torna as coisas muito difíceis ou toma grande parte da sua atenção. Todas essas coisas devem ser encontradas.
P: Minha dificuldade é que eu deveria dar mais tempo para o Trabalho, mas tenho medo de abandonar algo que gosto. O que posso fazer a esse respeito?
Sr. O: Talvez ao concordar em abandonar alguma coisa. Você não pode obter coisa alguma sem abrir mão de algo. Mas há muitas coisas imaginárias que você sempre pode abandonar. Então você deve abrir mão de coisas imaginárias e manter para si mesmo coisas reais. Mais uma vez, seu infortúnio é que você não sabe o que é imaginário e o que é real.
Vocês podem trabalhar nessas linhas quando se reunirem. Se quiserem, podem falar sobre as teorias — caso tenham esquecido de algo, podem perguntar a outras pessoas — contudo, mais importante do que isso é tentar encontrar as dificuldades pessoais. Não me refiro a dificuldades pessoais de um tipo externo, mas dificuldades pessoais internas — características pessoais, inclinações pessoais, repulsões pessoais, atitudes, preconceitos, atividades que podem parar sua compreensão impedindo-os de trabalhar. Essas dificuldades pessoais internas podem ser divididas em três categorias. Para algumas pessoas a principal dificuldade está nas emoções negativas — elas simplesmente não podem deixar de ficar negativas, geralmente em alguma direção específica. Para outras pessoas, a principal dificuldade está na imaginação — elas não conseguem parar de imaginar certas coisas que são completamente erradas e que distorcem a sua visão das coisas. Não me refiro à imaginação no sentido de devaneios, quero dizer a imaginação no sentido de alguma ideia errada persistente. A terceira categoria é o pensamento formatório. É muito útil tentar entender o que o pensamento formatório significa, encontrar alguns bons exemplos de pensamento formatório e manter esses exemplos em mente. Então, não será difícil reconhecer e perceber, seja quando você se vê pensando formatoriamente ou quando você ouve alguém falando formatoriamente. Estes são os principais tipos de dificuldades que vocês têm de encontrar em si. Para uma pessoa, uma dificuldade é mais permanente, para outra uma outra dificuldade e para uma terceira, uma terceira ainda — às vezes duas juntas, mas melhor tentar pensar qual é a principal em você, pensamento formatório, emoção negativa ou imaginação. Certamente, além disso, pode ser que você não ouça bem. Talvez você não saiba de coisas que deveria saber. Talvez você não tenha ouvido. Não me refiro apenas aos diagramas mas também ao lado psicológico. As pessoas podem ajudar umas às outras. Uma pode lembrar algo melhor, outra pode se lembrar de algo mais.
P: Há uma grande parte de mim que não quer se desenvolver. Como posso fazer a parte que deseja se desenvolver ficar mais forte?
Sr. O: Você deve fazer o que é possível para você, e além disso não pode fazer nada. Este 'eu' que quer crescer vai crescer, mas ele só poderá crescer por causa de seus esforços. Posteriormente, de alguma forma ele vai fazer com que os outros ‘eus’ não interfiram.
P: Como posso tentar construir uma direção real, um objetivo mais forte?
Sr. O: Novamente a mesma coisa — através da construção de si mesmo. Você pode ser mais forte do que você mesmo.
P: Somos uma soma total de diferentes ‘eus’. Como podemos saber em que 'eu' confiar? Como saber se o 'eu' que tomou a decisão é o certo?
Sr. O: Você não pode saber — este é o nosso estado. Temos de lidar com o que somos até que mudemos, mas trabalhamos com a ideia de mudança possível e quanto mais percebermos o estado lastimável em que estamos mais energia teremos.
P: É algo em nós mesmos que não desejamos mudar o suficiente? Se desejássemos o suficiente poderíamos obter ajuda?
Sr. O.: Sim, certamente, mas eu não colocaria assim. Você tem toda a ajuda que é possível. É a sua vez agora de trabalhar, sua vez de fazer algo. Certamente, com condições diferentes, preparação diferente e também circunstâncias diferentes, as coisas poderiam ser melhor organizadas, ou até mesmo mais poderia ser dado. Mas a questão não é quanto é dado, e sim o quanto é tomado, porque geralmente apenas uma pequena parte do que é dado é tomado efetivamente.
P: O que posso fazer para alcançar a unidade?
Sr. O: Ser um. Conquistar toda esta pluralidade dos muitos ‘eus’.
P: Como podemos mudar o ser?
Sr. O: Esta é a mudança de ser — ser um. Não para sempre. Mas tente durante cinco minutos, depois dez minutos.
P: O que é vontade própria?
Sr. O: Vontade própria é contra a unidade. É dito para você: 'Não faça isso' e você diz: 'Eu quero fazer isso'.
P: Eu não entendo a resposta que você deu sobre a tentativa de ter unidade por cinco minutos por dia.
Sr. O: Bem, o que mais posso dizer? Tentar não deixar os diferentes ‘eus’ interromperem e discutirem entre si. Se não der por cinco minutos, tente quatro, três. Não o suficiente para dizer que você não pode fazê-lo.

_________

P: Ver a nós mesmos significa uma combinação da auto-observação e da lembrança de si?
Sr. O: Não, significa apenas ter uma correta imagem de si mesmo.
P: É possível ter uma visão completa de nós mesmos?
Sr. O: Sim, sem dúvida, este é o começo. Antes de alcançar isso você não pode iniciar nenhum trabalho sério, você pode apenas estudar, mas mesmo isso será fracionário.
P: É muito difícil termos certeza de que estamos dizendo a verdade para nós mesmos.
Sr. O: Sim, é por isso que eu disse para ver a si mesmo, não para conhecer. Temos muitos retratos de nós mesmos. Temos de vê-los, um após o outro e, em seguida, compará-los. Mas não podemos dizer à primeira vista qual é o correto.
P: Qual é a maneira de verificar que estamos vendo a nós mesmos?
Sr. O: A experiência repetida.
P: Mas a experiência repetida também não pode estar errada?
Sr. O: Nossa capacidade de enganar a nós mesmos é tão grande que podemos enganarmo-nos até mesmo nisso.
P: Queria saber se haveria alguma forma de verificação?
Sr. O: Não, mas quando entrar um elemento emocional — a consciência — essa será a verificação.
P: Você quer dizer quando acordamos repentinamente e ficamos envergonhados?
Sr. O: Esse é o acompanhamento emocional. Falo apenas sobre ver.
P: Ver o que não somos é a mesma coisa?
Sr. O: Uma coisa inclui a outra.
P: É possível ficar vendo a si mesmo sem que haja uma grande mudança?
Sr. O: É difícil de responder. As pessoas se acostumam a tudo, até mesmo a ver a si mesmas.
P: Você disse que a pessoa não começa a trabalhar até que tenha visto a si mesma.
Sr. O: Sim. Não é possível falar a uma pessoa de maneira séria até que ela comece a ver-se, ou, pelo menos, perceba que é necessário ver a si mesma e que ela não se vê.
P: Às vezes, eu me vejo como extremamente confuso e atraído em todas as direções, mas não vejo como sair dessa confusão.
Sr. O: Esta é uma imagem. Tente encontrar outra imagem. Isso é o que, no primeiro grupo de Petersburgo, era chamado de tirar fotografias de nós mesmos em preparação para vermos a nós mesmos.P: Ver a nós mesmos significa alguma percepção permanente? Porque às vezes o que eu vejo em um dado momento mais tarde se torna algo abstrato e não emocional.
Sr. O: Isso significa que você deixa de ver a si mesmo. Nada é permanente em nós.
P: Ver a si mesmo significa que você vê suas falhas e também o que fazer com elas?
Sr. O: Às vezes pode ser assim. Mas novamente, você tenta encontrar definições e explicações e eu não falei sobre definição e explicação, mas sobre a prática real — não como definir isso ou como isso pode ser traduzido em palavras diferentes — é ver de fato. Suponha que você fala sobre um determinado retrato e nunca o viu, mas só ouviu falar sobre ele. Você pode saber tudo o que for possível sobre esse retrato, mas se você ainda não o viu, é necessário primeiro de tudo vê-lo e, em seguida, verificar tudo o que você sabe.
P: O que nos atrai para o sono é a mecanicidade?
Sr. O: Certamente.
P: Você disse para tentarmos parar os pensamentos durante cinco minutos ou tentarmos estar conscientes de nós mesmos.
Sr. O: É a mesma coisa — dá o mesmo resultado. Para algumas pessoas é mais fácil de fazer uma coisa e para outras pode ser mais fácil fazê-lo de outra maneira. Certamente o parar os pensamentos é um esforço mais mecânico, por isso às vezes é mais fácil. Não importa, o resultado é o mesmo, se você fizer bem. Não o resultado de cada cinco minutos em particular, mas de modo geral.
P: Como posso aprender a pensar em um nível diferente?
Sr. O: Você deve olhar para os temas para pensar e tentar encontrar alguma ligação pessoal com uma ou duas questões, algum interesse pessoal, então isso irá crescer e se desenvolver. Por pessoal quero dizer o que você pensava antes, questões que vieram antes por si mesmas, que você nunca poderia responder ou algo parecido. E quando você encontrar algo que você pode ver mais, isso poderá fazer surgir outras coisas.
P: Quando penso sobre um determinado assunto, sinto que posso tentar pensar em tudo o que tenho ouvido sobre ele e tentar compreender aspectos novos ou novas conexões. Ou posso tentar impedir qualquer pensamento, e às vezes até mesmo sentirei algo sobre o assunto. Ambos os métodos são úteis?
Sr. O: Você fala sobre 'fazer', mas realmente o que você pode obter com este programa é: você pode ver e observar as diferentes formas de pensar, porque um dia você pensa de uma maneira e outro dia você pode pensar sobre a mesma coisa de outra maneira. Você deve observar isso, não tente 'fazer'. Você não pode 'fazer' nada.
É importante lembrar que não podemos fazer nada. Se você se lembrar disso, se lembrará de muitas outras coisas. Em geral, há três ou quatro grandes obstáculos principais e se a pessoa não cair em um, cairá em outro. O fazer é um deles. Existem alguns princípios fundamentais que você nunca deve esquecer. Por exemplo, que você deve olhar para si mesmo e não para as outras pessoas, que as pessoas não podem fazer nada por si mesmas, mas, se é possível mudar, é só com a ajuda do sistema, de organização e do próprio trabalho das pessoas, do estudo do sistema. É preciso encontrar coisas como essas e lembrar-se delas.
P: Como podemos nos certificar de que lembramos delas? Sr. O: Imagine começar a planejar algo para fazer, é só quando você realmente tenta fazer alguma coisa diferente da forma como ela acontece que você percebe que é absolutamente impossível fazer de modo diferente. Um enorme esforço é necessário para alterar até mesmo uma coisa pequena. A menos que você tente, nunca poderá perceber isso. Você não pode alterar nada, exceto através do sistema. Isso geralmente é esquecido. Metade das perguntas são sempre sobre fazer — como mudar isso, destruir aquilo, evitar isso e assim por diante. P: Você pode esclarecer sobre a importância de lembrar que não podemos fazer? Sr. O: Tudo acontece. As pessoas não podem fazer nada. Desde o momento que nascemos até a hora da morte as coisas acontecem, acontecem, acontecem e nós pensamos que estamos fazendo. Este é o nosso estado comum normal na vida. E mesmo a menor possibilidade de fazer alguma coisa vem apenas através do Trabalho e primeiro somente em nós mesmos, não externamente. Mesmo em nós mesmos o fazer muito frequentemente começa com o não fazer. Antes que você possa fazer algo que você não pode fazer, você deve deixar de fazer muitas coisas que fazia antes. Você não pode despertar apenas por querer despertar, mas você pode impedir-se, por exemplo, de dormir por muito tempo ou algo parecido.P: Algumas vezes temos uma escolha entre dois acontecimentos possíveis?
Sr. O: Em coisas muito pequenas. E mesmo assim, se você notar que as coisas estão indo numa determinada maneira e decide alterá-las, você vai descobrir como é extremamente incômodo mudar as coisas. E assim você volta para as mesmas coisas.
P: Quando realmente começarmos a entender que não podemos fazer, será necessária uma grande dose de coragem. Isso virá ao livrarmo-nos da falsa personalidade? Sr. O: Não se chega a esse entendimento dessa forma. Ele vem depois de algum tempo de trabalho em si mesmo, de modo que quando a pessoa chega a essa realização ela tem muitas outras realizações além dela, principalmente de que existem maneiras de mudar se aplicarmos o instrumento certo no lugar certo e na hora certa. Devemos ter esses instrumentos e novamente, eles são dados apenas pelo trabalho. É muito, muito importante chegar a essa realização. Antes disso a pessoa não vai fazer as coisas certas. Vai arrumar desculpas.P: Não entendi o que você quis dizer quando disse que a menos que tenhamos essa percepção iremos arrumar desculpas. Sr. O: Não queremos desistir desta ideia de que podemos fazer e mesmo se percebemos que as coisas acontecem, encontramos desculpas como: ‘isso é acidental, amanhã será diferente’. É por isso que não podemos nos dar conta dessa ideia. Em toda a nossa vida podemos ver como as coisas acontecem, mas ainda as explicamos como acidente, como exceções à regra de que podemos fazer. Ou esquecemos, ou não vemos ou não prestamos suficiente atenção. Sempre pensamos que a todo momento podemos começar a fazer. Essa é a nossa maneira ordinária de pensar nisso. Se você tentar encontrar em sua vida momentos onde tentou fazer algo e falhou, esse será um exemplo. Mas você explicou seu fracasso como um acidente, uma exceção. Se as coisas se repetirem, novamente você pensará ser capaz de fazer, e se ver isso novamente, mais uma vez a falha será apenas um acidente. É muito útil recordar a sua vida desse ponto de vista. Você pretendia uma coisa e algo diferente aconteceu. Se você for sincero, você vai ver. Caso contrário, você irá convencer-se de que o que aconteceu era exatamente o que você queria. P: Não existe algo como forçar uma situação? Sr. O: Pode parecer que é assim, mas realmente aquilo aconteceu. Se não pudesse acontecer dessa forma, então não aconteceria. Quando as coisas acontecem de uma determinada maneira somos carregados pela corrente, mas pensamos que somos nós que carregamos a corrente. P: Se sentimos por um momento que somos capazes de fazer, digamos, de executar um serviço específico no trabalho ordinário, qual é a explicação disso?Sr. O: Se a pessoa é treinada para fazer alguma coisa, ela aprende a seguir certos tipos de acontecimentos ou, se você preferir, a começar certos tipos de acontecimentos e, em seguida, eles se desenvolvem e a pessoa corre atrás, apesar de pensar que está comandando.
P: Se temos a atitude correta....Sr. O: Não, atitude não tem nada a ver com isso. A atitude pode estar correta, a compreensão pode estar correta, mas você ainda descobre que as coisas acontecem de uma determinada maneira. Quaisquer coisas comuns. É muito útil tentarmos e lembrarmos de casos onde tentamos fazer diferente e como sempre acabamos voltando para a mesma coisa, mesmo se fizermos algum ligeiro desvio, forças enormes nos conduzirão de volta para as formas antigas.P: Quando você diz que não podemos evitar que as mesmas coisas aconteçam, você quer dizer até que nosso ser seja mudado? Sr. O: Não falo sobre o Trabalho. Eu disse que era necessário compreender que por nós mesmos não podemos fazer. Quando isso for suficientemente entendido você poderá pensar o que é possível fazer: que condições, que conhecimentos, que tipo de ajuda são necessários. Mas, primeiro, é necessário perceber que na vida ordinária, se você tentar fazer algo diferente, vai descobrir que você não pode. Quando isso for emocionalmente entendido, só então será possível ir mais longe. Enquanto você não estiver bem certo disso, será impossível continuar. P: Quando tornamo-nos conscientes de ‘eus’ contraditórios em nós mesmos temos desejo de fazer algo drástico a esse respeito. Existe alguma coisa que podemos fazer? Sr. O: Em quase todos os casos para fazer algo é necessário saber mais, particularmente no caso de contradições. Por exemplo, eu me defronto muitas vezes com este caso: alguém diz que sabe o que há de errado consigo e quer fazer algo para pará-lo. Começo a falar com ele e, depois de eu ter falado por algum tempo, percebo que ele acha que quer, mas na realidade não quer tanto quanto ele diz. Se alguém realmente quiser, vai encontrar uma maneira, mas às vezes é necessário algum tipo de conhecimento especial. A pessoa pode conhecer algum tipo de contradição, desejar interrompê-la e mesmo assim ela ainda permanece lá. Às vezes, é necessário saber como.P: A plena realização de que não podemos fazer coisa alguma já é um longo passo no caminho para fazer?
Sr. O: Às vezes o passo é longo demais, porque a pessoa pode perceber que não pode fazer algo que ela deve fazer e percebe tarde demais.
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Sr. O: Voltemos à questão da Justiça. É interessante a título de linguagem. O que é Justiça? P: Algo que é justo para duas pessoas. Sr. O: Quem seria justo? Como um arranjo condicional, pode ser entendido. Como uma coisa geral, é fantástico. Você esquece que a vida orgânica está baseada em assassinato. Uma coisa come a outra: gatos e ratos. O que é justiça entre os gatos e ratos? Esta é a vida. Não é algo muito bonito. Então, onde está a justiça? P: Por que as pessoas pensam que a natureza é bela se é assim que ela funciona? Sr. O: O que é bonito? O que você gosta. P: Como pode Deus ser amor se Ele criou a natureza dessa forma?Sr. O: Por um determinado propósito. Além disso, o que você chama de natureza? Um terremoto também é natureza. Mas por hora nós aplicamos o termo 'natureza' com relação à vida orgânica. Evidentemente, foi criada assim porque não havia nenhum outro meio. Como podemos perguntar o por quê? Foi feito assim. Se não gostarmos disso, podemos estudar métodos de como escapar. Essa é a única possibilidade. Só não devemos tentar imaginar que ela é muito bonita. Não devemos fingir que os fatos são diferentes do que são. P: Você vai colocar o homem em pé de igualdade com o resto da vida orgânica? Sr. O: Não há nenhuma diferença, só que as outras unidades são totalmente desenvolvidas e o homem é apenas parcialmente desenvolvido. P: O homem pode ficar além da lei do assassinato? Sr. O: Ele tem a possibilidade de escapar. P: Quais são as maneiras de escapar do assassinato? Sr. O: O homem está sob 192 leis. Ele deve escapar de algumas delas.P: Você disse que os homens são responsáveis pelo que eles fazem e os animais não são? Sr. O: Os homens 1, 2 e 3 são menos responsáveis. Homens no. 4 e assim por diante, são mais responsáveis, a responsabilidade cresce. P: O que significa responsabilidade? Sr. O: Em primeiro lugar, um animal não tem nada a perder, mas o homem tem. Em segundo lugar, o homem tem de pagar por cada erro que ele fizer, caso ele já tenha começado a crescer. P: Isso implica justiça. Sr. O: Não, ninguém chamaria isso de justiça se você tivesse de pagar por seus erros. P: Justiça não significa obter o que merecemos?
Sr. O: A maioria das pessoas pensa que estamos recebendo o que queremos e não o que merecemos. Justiça deve significar alguma coordenação entre as ações e os resultados das ações. Isso certamente não existe e não pode existir sob a Lei do Acidente. Quando conhecemos as principais leis, entendemos que vivemos em um lugar muito ruim, um lugar realmente ruim. Mas, como não podemos estar em nenhum outro lugar, temos de ver o que podemos fazer aqui. Apenas não devemos imaginar que as coisas são melhores do que são.
P: As coisas permanecerão como estão a menos que todo mundo fique consciente?Sr. O: As coisas permanecerão como são, mas podemos escapar. É preciso muito conhecimento para saber do que é possível escapar e do que não é. Mas a primeira lição que temos de aprender, a primeira coisa que nos impede de escapar é que nem sequer percebemos a necessidade de conhecer a nossa posição. Aquele que conhece já está em uma posição melhor.P: Cada vez que repasso as coisas diferentes para pensar no programa de Trabalho, vejo que não estou fazendo nenhum progresso em pensar sobre elas. Não posso fazer mais do que repetí-las. Sr. O: Repetir não vai ajudar. Você deve tentar pensar. Você deve tentar encontrar algo novo de uma forma que você não tenha visto antes, ou alguns novos pontos de vista ou ângulos. Tente falar com outras pessoas sobre isso, é muito útil fazer assim. P: Minha incapacidade de pensar de uma forma nova ou ter quaisquer pensamentos novos sobre os mesmos assuntos tem me mostrado realmente como minha mente é muito mecânica e formatória. De que forma posso tentar? Sr. O: Mais lembrança de si. Essa é a única coisa; é por isso que durante cinco minutos você realmente deve lutar para estar consciente de si mesmo ou para colocar para fora todos os pensamentos, e se você fizer a sério, isso vai ajudar. P: Tenho notado que muitas vezes pensamentos de um frescor e lucidez extraordinários surgem repentinamente em minha mente. Como podemos tentar obter esses lampejos sobre o assunto que desejamos?Sr. O: Lembre mais de si mesmo — mais profundamente — melhor. Não há outra resposta; e, em seguida, tente pensar também de pontos de vista diferentes, ou escalas diferentes. Tente conectar um ponto, as coisas que você pensava antes ou fazia antes ou que não podia responder antes. Se você conectar um ponto corretamente, todo o resto ficará mais claro. P: É difícil manter uma linha de pensamento em comparação com as coisas comuns que acontecem em nossa cabeça — o material é tão limitado. Sr. O: Não, o material é muito grande — outra coisa é limitada. Ou o desejo é limitado ou esforço é limitado. Algo é limitado, mas não o material. P: Eu gostaria de saber qual é a causa da resistência para manter os pensamentos de fora — os pensamentos fortes que entram sorrateiramente. Sr. O: Existem duas causas — a causa da resistência é uma coisa e a causa dos pensamentos que vêm interromper é outra. A segunda mostra o modo ordinário de pensamento — não podemos nunca manter uma linha porque as associações acidentais entram. A resistência é outra coisa, é o resultado de uma falta de habilidade, falta de saber como lidar com isso, falta de experiência se quiser — não pensar intencionalmente, numa determinada linha. Mas esta capacidade deve ser educada.