segunda-feira, 30 de junho de 2014

Jalaluddin Rumi - Quatro Poemas





Há uma libertação que vem 
Quando você deixa de comer restos gordurosos
A passa a comer alimentos mais nobres e belos.

Um tipo de comida lhe traz flatulência e diarreia,
Um peso no estômago.

 O outro lhe mantém leve
Enquanto você cavalga o oceano.

 Jejue e observe o que surge.

Uma pessoa materialmente cheia não está alerta
Para pratos que degradam.
 
Não coma sempre o que é oferecido.
Seja altivo. Recuse o primeiro prato.
Espere e o anfitrião mandará comida melhor.

 Erga sua cabeça como a montanha mais alta no escuro
Que o amanhecer torna vermelha
e então dourada.


________________________


Quando está frio e chovendo,
Você é ainda mais lindo.

E a neve traz-me ainda mais perto
Dos seus lábios 

O segredo interior, 
aquilo que ainda nem nasceu, 
você é aquele frescor 
e eu estou com você agora

Não posso explicar as idas ou as vindas. 
Você entra de repente,
E estou novamente em lugar nenhum
Dentro da majestade.

__________________________

Há um beijo que desejamos toda a nossa vida,
O toque do espírito no corpo.

A água do mar implora á pérola 
para que ela rompa sua concha.

E o lírio, 
quão apaixonadamente ele precisa 
de algum querido companheiro selvagem.

À noite, abro a janela 
e peço para a lua 
vir e apertar seu rosto contra o meu. 
Respirar dentro de mim.


Feche a porta da linguagem 
e abra a janela do amor. 
A lua não usará a porta, 
somente a janela.
_________________________________________



Você pode encontrar um outro mercado como este?
Onde com sua única rosa
você pode comprar centenas de jardins?
Onde com uma semente
pode conseguir toda a selva?
Em troca de uma respiração fraca,
um sopro divino?

Você tem tido medo de ser absorvido pelo chão
e tragado pelo ar.

Agora, seu pingo se rende
e cai no oceano de onde ele veio.
Ele já não tem mais a forma que tinha,
mas ainda é água.
A essência é a mesma.

Essa rendição não é um arrependimento.
É honrar profundamente a si mesmo.

Quando o oceano vier a você como um amante,
case de imediato, rapidamente,
pelo amor de Deus. Não adie!

A existência não tem presente melhor pra dar.
Não há busca suficiente que encontre isso.

Um falcão perfeito, sem motivo nenhum
pousou no seu ombro
e tornou-se seu.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Bhagavan Ramana Maharshi - Discursos em 1935 e 1936


30 de janeiro de 1935

Evans-Wentz: A solidão é necessária para um jnani?
Baghavan Ramana Maharshi: A solidão está na mente do homem. É possível estar no meio dos afazeres do mundo e manter a serenidade de espírito; tal pessoa está em solidão. Outra pode ficar em uma floresta, mas ainda ser incapaz de controlar sua mente. Não pode ser dito que ele esteja na solidão. A solidão é uma função da mente. Um homem ligado aos desejos não consegue solidão independente de onde ele estiver; um homem desapegado está sempre em solidão.
Pergunta: Então, uma pessoa pode estar envolvida no seu trabalho e estar livre de desejo e manter-se na solidão. É assim?
B: Sim. Trabalho realizado com apego é uma algema, enquanto que o trabalho realizado com desapego não afeta o realizador.  Mesmo enquanto trabalha, ele está na solidão.
P: É dito que existem muitos Santos no Tibete, que permanecem em solidão e ainda assim são muito úteis para o mundo. Como é possível?
B: Pode acontecer mesmo. A Realização de Ser é a maior ajuda que pode ser concedida para a humanidade. Portanto, é dito que os Santos sejam úteis, embora permaneçam reclusos, em florestas, cavernas, etc. Mas não deve esquecer que a solidão não está nas florestas apenas. Ela pode ser obtida até mesmo nas cidades, no meio das ocupações mundanas.
P: Não seria necessário que os Santos devessem se misturar com as pessoas e serem úteis para elas?
B: O Ser apenas é a Realidade; o mundo e todo o resto não são. O ser Realizado não vê o mundo como diferente de si mesmo.
P: Então, a realização do Santo traz elevação para a humanidade sem que ela esteja ciente disso. É assim?
B: Sim. A ajuda é imperceptível, mas ainda assim está lá. Um santo ajuda a toda a humanidade, e isso permanece desconhecido para ela.
P: Não seria melhor ele se misturar com as pessoas?
B: Não existe ‘os outros’ para se misturar. O Ser é a primeira e única realidade.
P: Se houvesse uma centena de homens que tivessem a realização do Ser não seria um grande benefício para o mundo?
B: Quando você diz 'Ser' você se refere ao ilimitado, mas quando você adiciona 'homens' a ela, você limita o significado. Há apenas um Ser infinito.
P: Sim, sim, entendo! Sri Krishna disse no Bhagavad Gita que trabalho deve ser realizado sem o apego e tal trabalho é melhor do que a ociosidade. Isso é Karma Yoga?
B: O que é dito é dado de acordo com o temperamento dos ouvintes.
P: Para os Europeus, é incompreensível que um homem em reclusão possa ser útil. Imagina-se que somente os homens que trabalham no mundo podem ser úteis. Quando cessará esta confusão? Será possível que a mente Europeia venha a perceber a Verdade?
B: Não se preocupe com a Europa ou a América. Onde estão eles, exceto em sua mente? Realize o seu Ser e então todos serão Realizados. Se você sonha e vê vários homens e depois acorda e recorda do seu sonho, você tenta determinar se as pessoas fruto da criação do seu sonho também acordaram?
P: O que você pensa sobre a teoria da ilusão universal (Maya)?
B: O que é Maya? É a realidade apenas.
P: Não é ilusão que Maya significa?
B: O termo Maya é usado para significar as manifestações da Realidade. Assim sendo, Maya é a Realidade apenas.
P: Alguns dizem que Sri Sankaracharya era só um intelectual e não homem realizado. É esse o caso?
B: Por que se preocupar com Sankaracharya? Realize o seu próprio Ser. Os outros podem cuidar de si mesmos.
P: Jesus Cristo curou pessoas de suas doenças. Isso era apenas resultado poderes ocultos (siddhis)?
B: Jesus estava consciente no momento que ele estava curando os homens de suas doenças? Ele não poderia ter sido consciente dos seus poderes. Há uma história relacionada como isso: Jesus uma vez tinha curado um homem de sua cegueira. No decorrer do tempo, o homem virou um ímpio. Ao encontrá-lo depois de alguns anos, Jesus observou sua maldade e perguntou-lhe porque ele estava assim. Ele respondeu dizendo que, quando ele era cego, ele não poderia cometer qualquer pecado. Mas depois que Jesus tinha lhe curado da cegueira, ele tornou-se mau e que Jesus foi responsável pela sua maldade.
P: Mas Jesus não era um Ser perfeito que possuía poderes ocultos (siddhi)?
B: Ele não poderia ter sido consciente de seus poderes (siddhis).
P: Não é bom para adquirir tais poderes como a telepatia, etc.?
B: A telepatia ou o rádio permitem ver e ouvir de longe. É tudo igual, ouvir e ver. Se a pessoa ouve de perto ou longe não faz qualquer diferença na audiçãoou visão. O fator fundamental é o ouvinte, o sujeito. Sem o ouvinte ou o vidente, não pode haver nenhuma audição ou visão. As quais são funções da mente. Os poderes ocultos (siddhis) estão, portanto, apenas na mente. Eles não são naturais ao Ser. O que não é natural, mas sim adquirido, não pode ser permanente e não vale se esforçar para adquirir. Eles denotam poderes aumentados. Um homem possui poderes limitados e é miserável, ele quer expandir seus poderes para que ele possa ser feliz. Mas considere se ele conseguir isso; se com percepções limitadas ele é miserável, com percepções estendidas a miséria deve aumentar proporcionalmente. Poderes ocultos não trarão felicidade a ninguém, mas trarão mais infelicidade! Além do mais, para quê são esses poderes? Aquele de deseja tais poderes deseja exibir esses siddhis, para que os outros o apreciem. Ele busca a valorização e se não conseguir isso ele não será feliz. Deve haver os outros para apreciá-lo. Ele pode até achar outro possuidor de poderes superiores e isso vai causar ciúme e infelicidade. O maior ocultista (siddha) pode conhecer um siddha ainda maior e assim por diante até que virá um que vai explodir tudo num instante. O maior adepto (siddha) é Deus ou o Ser. Qual é o poder verdadeiro? É aumentar a prosperidade ou trazer a paz? O que resulta em paz é a mais alta perfeição (siddhi).
P: Mas as pessoas comuns na Europa e na América não apreciam tal atitude e desejam uma exibição de poderes e instruções por palestras, etc.
B: Palestras podem entreter os indivíduos por algumas horas sem melhorá-los. O silêncio, por outro lado, é permanente e beneficia toda a humanidade.
P: Mas o silêncio não é compreendido.
B: Não importa. Por silêncio quero dizer eloquência. Palestras orais não são tão eloquentes quanto o silêncio. O silêncio é a eloquência incessante. O mestre Primal, Dakshinamurti, é o ideal. Ele ensinou seus discípulos através do silêncio.
P: Mas naquela ocasião haviam discípulos para ele. Agora é diferente os discípulos devem ser procurados e ajudados.
B: Esse é um sinal de ignorância. O poder que criou você, criou o mundo. Se ele pode tomar conta de você, ele pode similarmente cuidar do mundo também.
P: O que Bhagavan pensa da "alma perdida" mencionada por Jesus Cristo?
B: Pense no que há para ser perdido. existe algo a ser perdido? O que importa é apenas o que é natural. Tal coisa deve ser eterna e não pode ser experimentada. O que nasce deve morrer; o que é adquirido deve ser perdido. Você nasceu? Você é sempre existente. O Ser nunca pode ser perdido.
P: Buda aconselha o caminho de oito partes como sendo o melhor, de modo que ninguém fique perdido.
B: Sim. Tal caminho é chamado de Raja Yoga pelos Hindus.
P: Yoga é aconselhado para um aspirante espiritual?
B: Yoga ajuda a controlar a mente.
P: Mas isso não leva a adquirir poderes (siddhis) que são ditos serem perigosos?
B: Mas você qualificou sua pergunta pelas palavras "um aspirante espiritual" e não disse um buscador de poderes (siddhis)?
  
P: Quanto tempo pode a mente ficar ou ser mantida no coração?
B: O período estende-se atravéz da prática.
P: O que acontece ao final do período?
B: A mente retorna ao presente estado normal. A unidade no Coração é substituída pela variedade de fenômenos percebidos. Isso é chamado de a mente voltada para fora. A mente voltada para o coração é chamada de mente em repouso.
P: Todo esse processo é meramente intelectual ou envolve o sentimento predominantemente?  
B: O sentimento.
P: Como todos os pensamentos cessam quando a mente está no coração?
B: Por força de vontade, com uma forte fé na verdade e efecácia do ensinamento do Mestre.
P: Qual é o benefício desse processo?
B: A Conquista da vontade e o desenvolvimento da concentração; a conquista das paixões e o desenvolvimento de desapego; o aumento da prática das virtudes (samatva); e a igualdade para com todos.
P: Por que se deve adotar essa auto- hipnose, pensando no ponto impensável? Por que não adotar outros métodos sugeridos, como fixar o olhar em uma luz, segurar a respiração, ouvir música, ouvir sons internos, repetir sílabas sagradas (Pranava) ou outros mantras?
B: A fixação do olhar na luz entorpece a mente e produz catalepsia da vontade durante aquele momento, no entanto, não assegura nenhum benefício permanente. O controle da respiração entorpece a vontade por um período apenas. Ouvir sons e recitar mantras produzem resultados semelhantes, a menos que o mantra seja sagrado e traga a ajuda de um poder superior para purificar elevar os pensamentos.


18 de Junho de 1936


Baghavan: É o suficiente que a pessoa se renda. A Rendição é dar a si mesmo para a causa original do seu ser. Não se iluda imaginando que a fonte seja algum Deus fora de você. A nossa fonte está de dentro de nós mesmos. Entregue-se a ela. Isso significa que você deveria procurar a fonte e se fundir com ela. É porque você imagina estar fora dela, que você levanta a questão: "Onde está a fonte? " Algumas tradições afirmam que o açúcar não pode provar a sua própria doçura e que um provador deve provar e desfrutar a douçura dele. E que da mesma forma, um indivíduo não pode ser o Supremo e desfrutar da felicidade desse Estado. Por conseguinte, a individualidade deve ser mantida de um lado e do outro o Supremo, de modo que a apreciação possa ocorrer. Por acaso Deus é insensível como o açúcar? Como alguém pode se render e ainda assim manter sua individualidade para desfrutar do supremo? Além disso, eles também dizem que a alma ao atingir a região divina e permanecendo lá, serve ao Ser Supremo. Pode o som da palavra "serviço" alcançar o Senhor? Será que Ele não sabe? Ele está esperando pelo serviço dessas pessoas? Ele -a Pura Consciência- não perguntaria por sua vez : "Quem é você separado de mim que tem a pretensão de servir-Me?
Ainda mais, eles assumem que a alma individual torna-se pura ao se despojar do ego e fica apta para ser o corpo do Senhor. Assim, o Senhor é o Espírito e as almas purificadas constituem Seu corpo e membros. Mas pode haver uma alma para as almas? Quantas almas existem? A resposta deles nesse caso é: "Há muitas almas individuais e uma Alma Suprema". O que é a alma nesse caso? Ela não pode ser o corpo, os membros, etc. O que resta após tudo ser eliminado deve-se dizer ser a alma . Assim, mesmo depois de ter a realizar da alma como aquilo que não pode ser descartado, a existência da Alma Suprema deve ser conhecida. Nesse caso, como foi a alma realizada como sendo a realidade última, depois de descartar tudo o que era estranho a ela? Se isso é correto, a alma que foi descrita como aquela realidade inalienável não é a verdadeira alma. Toda essa confusão é devido à palavra "alma" (atma). A mesma palavra atma é usada para significar o corpo, os sentidos, a mente, o princípio vital, a alma individual e o Ser Supremo. Essa ampla aplicação da palavra deu origem à idéia de que a alma individual (jivatma), vai constituir o corpo do Supremo (Paramatma) . 
No Bhagavad Gita está escrito: "Eu, ó Arjuna! Sou o Ser, localizado no coração de todos os seres" (X- 20).

A estrofe mostra que o Senhor é o Atma (Ser) de todos os seres. Ele não disse "Alma das almas?” Se, por sua vez, você se fundir no Ser não haverá individualidade restante. Você vai se tornar a própria Fonte. Nesse caso, o que é a rendição? Quem irá render o que e para quem? Isso constitui a devoção, a sabedoria e a investigação. 
Dentre os Vaishnavitas também, o Sainto Nammalvar disse, “Eu estava num labirinto, preso ao ‘eu’ e o ‘meu’; Eu vagava sem conhecer meu Ser. Ao realizar meu Ser entendi que eu mesmo sou Você é que ‘meu’ (minhas posses) é só Você.” Portanto, a devoção não é nada além de conhecer a Si mesmo. A escola do Monismo qualificado também admite isso. Ainda assim, em sua doutrina tradicional eles persistem em afirmar que os indivíduos são parte do Supremo - seus membros por assim dizer. Sua doutrina tradicional diz também que a alma individual deveria se tornar pura e então se render ao Supremo; assim o ego é perdido é a pessoa vai para as regiões de Vishnu depois de sua morte; então finalmente há o desfrute do Supremo (ou do Infinito). Dizer que estamos separados da fonte Primal é em sim pretensioso; comentar que a pessoa despojada do ego se torna pura e ainda assim retém a individualidade para desfrutar do ou servir ao Supremo, é uma estratagema enganosa. Que duplicidade é essa - primeiro se apropriar do que é na verdade Dele e então fingir experimentar ou servir a Ele! Isso tudo já não é conhecido por Ele?


terça-feira, 8 de abril de 2014

São Silouan, do monte Athos - Alguns Escritos


É impossível manter a paz espiritual se não cuidarmos da mente, isto é, se não expulsarmos os pensamentos que estão desagradando a Deus e, ao contrário, mantermos os pensamentos que agradam a Deus. É preciso olhar dentro do coração com a mente e ver o que é feito lá. Está tranquilo ou não? Se não, descubra em que você pecou.

Quando os maus pensamentos são plantados em você, clame a Deus: "Senhor, meu Feitor e Criador, Você vê que a minha alma está em agonia devido aos maus pensamentos. Tenha piedade de mim." Ensine a si mesmo a erradicar os pensamentos imediatamente. Mas quando você esquece de eliminá-los imediatamente, traga então o arrependimento. Trabalhe nisso, para que você crie um hábito.

O amor por aquilo que é terreno torna a alma vazia, e assim dessa forma ela fica triste e torna-se selvagem, não querendo orar a Deus. Então, o inimigo, vendo que a alma não está em Deus, chacoalha a alma e livremente coloca na mente o que ele quiser e ele conduz a alma de um pensamento para o outro e assim o dia todo, dessa forma a alma permanece em grande desordem não podendo contemplar puramente o Senhor.

Quando a alma conhece o amor de Deus pelo Espírito Santo, sente claramente que o Senhor é o nosso Pai, o mais próximo, mais querido Pai, o melhor. E não há maior felicidade que amar a Deus com toda a mente e coração e amar ao próximo como a nós mesmos. E quando esse amor está na alma todas as coisas trazem alegria para a alma.

Não se aflija se você não sente o amor de Deus em si mesmo, mas pense sobre o Senhor, que Ele é misericordioso e proteja-se dos pecados, assim a graça de Deus vai lhe ensinar.

A alma que chegou a conhecer plenamente a Deus não deseja nenhuma outra coisa, nem se apega a coisa alguma na terra. E se você colocar um reino diante dela, ela não vai desejá-lo, pois o amor de Deus dá tanta doçura e alegria para a alma que mesmo a vida de um rei já não pode dar-lhe doçura nenhuma.

O Senhor não mostra-se a uma alma orgulhosa. A alma orgulhosa, não importa quantos livros lê, nunca vai conhecer a Deus, uma vez que pelo seu orgulho não dá lugar para a graça do Espírito Santo, uma vez que Deus somente é conhecido por uma alma humilde

Cada um de nós pode discutir Deus de acordo com a medida que conhece a graça do Espírito Santo; pois como podemos pensar ou discutir o que ainda não vimos, ou avistamos ou não conhecemos? Os santos dizem que viram a Deus, mas há pessoas que dizem que Deus não existe. Claramente, eles dizem isso porque eles ainda não conheceram Deus, mas isso não significa de forma alguma que ele não existe. Os Santos falam daquilo que eles realmente viram e conhecem.

O orgulho não permite que a alma enverede pelo caminho da fé. Eis aqui o meu conselho para o incrédulo: que ele diga: "Senhor, se você existe então me ilumine e eu irei servi-lo com todo meu coração e alma". E devido a esse pensamento humilde e prontidão para servir a Deus, o Senhor irá iluminá-lo imediatamente. E então a sua alma irá sentir o Senhor; Ela irá sentir que o Senhor perdoou-lhe e a ama e você saberá disso por experiência própria e a graça do Espírito Santo será uma testemunha em sua alma de sua salvação, e você vai querer gritar ao mundo inteiro: "O senhor nos ama muito!"

O senhor quer amemos uns aos outros. Aqui reside a liberdade: no amor a Deus e ao próximo. Nesta liberdade há igualdade. Nas ordens terrenas pode não haver igualdade, mas isso não é importante para a alma. Nem todo mundo pode ser um rei, nem um patriarca ou um chefe. Mas em qualquer posição é possível amar a Deus e agradá-Lo, e só isso é importante. E quem amar a Deus mais na terra estará em maior glória em Seu reino.

"Eu amo os que Me amam e glorifico os que Me glorificam." (Provérbios 08:17, 1 reis 2:30) diz o Senhor de Seus santos. O Senhor deu o Espírito Santo aos Santos e eles nos amam no Espírito Santo. Os santos ouvem nossas orações e tem o poder de Deus para nos ajudar. Toda a raça cristã sabe disso.

Muitos pensam que os santos estão longe de nós. Mas eles estão longe daqueles que se distanciam deles e muito perto daqueles que guardam os mandamentos de Cristo e tem a graça do Espírito Santo. Nos céus, todas as coisas são movidas pelo Espírito Santo. Mas o Espírito Santo está na terra também. Ele vive na nossa igreja. Ele vive nos mistérios. Ele está nas escrituras sagradas. Ele está nas almas dos fiéis. O Espírito Santo une todas as coisas, e, portanto, os santos estão perto de nós. E quando oramos a eles, o Espírito Santo ouve nossas orações e nossas almas sentem que eles estão orando por nós.
 
Nós temos uma lei: se você perdoar, isso significa que Deus lhe perdoou; Mas se você não perdoar seu irmão, isso significa que seu pecado permanece com você.

Quem não amar seus inimigos não poderá conhecer o Senhor e a doçura do Espírito Santo. O Espírito Santo nos ensina a amar os nossos inimigos, de tal forma que temos pena de suas almas como se fossem nossos filhos.

O Senhor ama muito o pecador que se arrepende e misericordiosamente o traz para o seu lado: "onde você estava, meu filho? Eu estava esperando há muito tempo por você." O Senhor chama a todos para Si com a voz do Evangelho e Sua voz é ouvida em todo o mundo: "Venham a mim, minhas ovelhas. Eu criei vocês e Eu lhes amo. Meu amor por vocês Me trouxe para a terra e sofri todas as coisas por causa de sua salvação, e quero que todos saibam do meu amor e digam, como os apóstolos no Tabor: “Senhor, é bom estar com você. "

É um grande bem se resignar à vontade de Deus. Assim, apenas o Senhor está na alma e nenhum outro pensamento e ela reza para Deus com uma mente pura. Quando a alma está inteiramente entregue à vontade de Deus, o próprio Senhor começa a guiá-la e a alma aprende diretamente com Deus. Um homem orgulhoso não quer viver de acordo com a vontade de Deus. Ele gosta de dirigir a si mesmo e não entende que o homem não tem suficiente entendimento para dirigir-se sem Deus.

Como você pode descobrir se você está vivendo dentro da vontade de Deus? Eis o sinal: se você está preocupado com qualquer coisa, isso significa que você não se resignou completamente à vontade de Deus. Uma pessoa que vive dentro da vontade de Deus não fica preocupada com coisa alguma. E se precisar de alguma coisa, ela oferece essa coisa e a si mesma para Deus. E se não receber a coisa necessária, ela permanece calma, de qualquer forma, como se tivesse aquilo. A alma que deu-se à vontade de Deus não tem medo de nada, nem de trovão nem de ladrões - nada. Mas aconteça o que acontecer, ela diz: “É dessa forma que agrada a Deus." Se ela está doente, ela pensa: isso significa que preciso ficar doente, ou então Deus não teria dado isso para mim. Assim, a paz é preservada tanto no corpo quanto na alma.

O Senhor deu o Espírito Santo à terra, e em quem quer que ele habite, essa pessoa sente o paraíso dentro de si mesma. Pode-se dizer: por que isso não aconteceu comigo? Porque você não se resignou à vontade de Deus, mas vive de acordo consigo mesmo. Olhe para aquele que ama a sua própria vontade, ele nunca tem paz em si mesmo e está sempre descontente com alguma coisa. Mas aquele que se resignou à vontade de Deus terá perfeitamente a oração pura. Sua alma ama o Senhor e tudo é aceitável e bom para ele.

Quem conhece o amor de Deus ama todo o mundo e nunca reclama de seu destino, pois o fardo da tristeza pelo amor de Deus traz alegria eterna.

Alguns sofrem muito com a pobreza e a doença, mas não se tornam humildes, e então eles sofrem sem lucro algum. Mas quem é humilde será feliz em todas as circunstâncias, porque o Senhor é a sua riqueza e alegria, e todas as pessoas se maravilharão com a beleza de sua alma."

Obediência é necessária não apenas para os monges, mas para todas as pessoas. Até mesmo o Senhor era obediente. Os orgulhosos e os que só pensam em si não permitem que a graça viva neles, e, portanto, nunca têm paz espiritual, enquanto que na alma obediente a graça do Espírito Santo entra facilmente e dá alegria e paz. Aquele que hospeda mesmo que apenas um pouco de graça em si mesmo, alegremente se submete a todas as direções dadas. Ele sabe que Deus dirige até os céus e os submundos, e a Si mesmo e Seus negócios e a tudo no mundo, e, portanto, ele está sempre em paz.

Um alma pecadora, cheia de paixões, não pode ter paz e alegrar-se no Senhor, mesmo se tivesse primazia sobre todas as riquezas terrenas, mesmo se governasse o mundo inteiro. Se, de repente, fosse dito a tal rei que estivesse refestelando-se alegremente e sentado em seu trono: "rei, agora você vai morrer", sua alma ficaria extremamente perturbada, ele iria tremer de medo e veria sua impotência. Mas quantos mendigos existem, cuja única riqueza é o amor de Deus e que, se lhes fosse dito: "você vai morrer agora", responderia tranquilamente: "Deixe a vontade de Deus ser feita. Glória ao senhor, por ele se lembrar de mim e querer me levar para Si."

Há pessoas que, quando se deparam com a incapacidade de compreender não pedem ao Senhor. Mas devemos imediatamente dizer: "Senhor, eu sou um pecador e não compreendo como deveria. Conceda-me entendimento, ó Misericordioso, sobre como devo proceder. E o Senhor Misericordioso então irá inspirá-lo sobre o que fazer e o que não fazer.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Lao Tzu - O mestre de cada momento


O que procuramos além do que é visto
E chamamos de invisível,
Tentamos escutar além do que é audível
E chamamos de inaudível,
Queremos segurar além do alcance
e chamamos de inatingível.

Funda-se além da compreensão
Em uma unidade
Que não se limita a surgir e dar a luz
e a sumir e deixar a escuridão,
Mas envia sempre uma sucessão de coisas vivas tão misteriosas
quanto a existência não-gerada para a qual elas retornam.

É por isso que os homens as chamaram de fenômenos vazios,
Imagens sem sentido,
numa miragem que não encontra uma face,
Ninguém para seguir.

No entanto, aquele que está antigamente consciente da existência
É o mestre de cada momento,
Não sente interrupção desde o tempo além do tempo
Na maneira como a vida flui.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Ibn Arabi - O mistério da Essência Divina

 Deus é o seu espelho, isto é, o espelho em que você contempla o seu ser (nafs, anima), e você por sua vez, é o espelho Dele, isto é, o espelho em que Ele contempla Seus Nomes divinos. Aqui temos uma relação recíproca entre dois espelhos de frente um para o outro e que refletem a mesma imagem um para o outro. A imagem não está fora dele, mas dentro de seu ser, ou melhor ainda, é o seu próprio ser, a forma do nome divino que ele mesmo trouxe consigo ao tornar-se existente. E o círculo da dialética do amor fecha-se nessa experiência fundamental: "O Amor está mais perto do amante do que é a sua veia jugular". Tão excessiva é essa proximidade que ela age em princípio como um véu. É por isso que o novato inexperiente, embora dominado pela imagem pela qual ele investe todo o seu ser interior, vai procurá-lo fora de si mesmo, em uma busca desesperada de forma a forma do mundo sensível, até que retorna ao santuário de sua alma e percebe que o verdadeiro Amado está profundamente dentro de seu próprio ser e, a partir daquele momento, ele busca o Amado apenas através do Amado. O sujeito ativo dentro dele continua a ser a imagem interior de beleza irreal, um vestígio da contraparte transcendente ou celeste de seu ser.


Deus não está limitado à maneira pela qual Ele é epifanizado por você e se faz adequado para a sua dimensão (para que você possa recebê-Lo). E é por isso que as outras criaturas não têm obrigação de obedecer a Deus, que exige a sua adoração, porque suas teofanias assumem outras formas. A forma que Ele é epifanizado por você é diferente daquela que ele é epifanizado pelos outros. Deus, como tal, transcende todas as formas inteligíveis que se possa imaginar, que se possa sentir. Entretanto, quando considerado em Seus nomes e atributos, ou seja, suas teofanias, Ele é, pelo contrário, inseparável dessas formas, de determinadas configurações e de uma certa posição no espaço e no tempo.


Nada além de Deus é amado nas coisas existentes. É Ele que se manifesta dentro de cada amado aos olhos de todos os amantes - e não há nada no reino existente que não seja um amante.


Ó amante, quem quer que você seja, saiba que os véus entre você e seu amado, quem quer que ele seja, não são nada senão o seu emaranhamento com as coisas, não as coisas em si, como é dito por aquele que não provou o sabor de realidades. Você se deteve com as coisas por causa da deficiência de sua percepção, ou seja, a falta de penetração, expressa como o véu, e o véu é a não-existência e a não-existência é a nulidade. Assim, não há véu algum, se os véus fossem verdadeiros, você também deveria ter sido velado daquele que foi velado de você.


O Amado torna-se um espelho que reflete a face secreta do amante místico, enquanto o amante, purificado da opacidade de seu ego, por sua vez, torna-se um espelho dos atributos e ações do Amado.


A Caaba mística é o coração do ser. Foi dito: "O Templo que Me contém está em seu coração." O mistério da Essência Divina não é outro senão o Templo do coração e é em torno do coração que circumbulam os peregrinos espirituais.


Tudo o que nós chamamos de diferente de Deus, tudo o que chamamos de universo, está relacionado com o Ser Divino como a sombra está relacionada com a pessoa. O mundo é a sombra de Deus. A sombra é ao mesmo tempo Deus e algo diferente de Deus. Tudo o que percebemos é o Ser Divino nos protótipos eternos das possíbilidades.


Não é do nada que Sua criação brota, ou de algo diferente Dele mesmo, de um não-Ele, mas de Seu Ser fundamental, das potencialedades e virtualidades latentes em Seu próprio ser não revelado.


O Ser Total é a união deste Senhor e do Seu vassalo. As duas dimensões referem-se, na verdade, o mesmo Ser, mas para a totalidade daquele Ser, um é adicionado (ou multiplicado) ao outro, eles não podem negar um ao outro, ou ser confundidos com o outro, ou substituído pelo outro.



 
Meu coração pode assumir qualquer forma:
Um prado para as gazelas,
Um claustro para os monges,
Para os ídolos, solo sagrado,
Caaba para o peregrino circundar,
As plataformas da Torá,
Os pergaminhos do Alcorão.
Meu credo é Amor;
Onde quer que a caravana do amor se dirija ao longo do caminho,
Essa é a minha crença,
A minha fé.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

P. D. Ouspensky - O Estudo de Si Mesmo

 


Neste sistema, que estuda o homem como ser incompleto, dá-se ênfase especial ao estudo de si mesmo e, desse modo, a ideia do estudo de si mesmo está necessariamente ligada à ideia de aperfeiçoamento. Como somos, podemos utilizar muito pouco de nossos poderes, mas o estudo os desenvolve. O estudo se si mesmo começa com o estudo dos estados de consciência. O homem tem direito a ser consciente de si mesmo, tal como ele é, sem qualquer mudança. A consciência objetiva requer muitas mudanças nele, mas a consciência de si mesmo ele pode ter agora. Contudo, não a tem, embora creia que a tenha. Como começou essa ilusão? Por que o homem se atribui a lembrança de si mesmo? Ele o faz, porque ela é seu estado legítimo. Se não é consciente de si mesmo, o homem vive abaixo do seu nível legítimo, usa apenas um décimo dos seus poderes. Mas, enquanto atribuir a si mesmo o que é somente uma possibilidade, não trabalhará para alcançar esse estado.


 Vem em seguida, a pergunta: por que o homem não tem consciência de si mesmo, se dispõe de todos os órgãos necessários para isso? A razão está no seu sono. Não é fácil despertar porque o sono tem muitas causas. Muitas vezes as pessoas perguntam: todos os homens tem possibilidade de despertar? Não, absolutamente.
São muito poucos os que podem dar-se conta de que estão dormindo e fazer os esforços necessários para despertar. Antes de tudo, o homem deve estar preparado, deve compreender a sua situação; depois, deve ter bastante energia e um desejo suficientemente forte para poder sair dela.
 Em toda essa estranha combinação que é o homem, a única coisa que pode mudar é a consciência. Mas, inicialmente o homem deve dar-se conta de que é uma máquina a fim de poder apertar alguns parafusos, afrouxar outros, etc. Ele deve estudar; é aí que a possibilidade de mudança começa.  Quando compreender que é uma máquina e conhecer alguma coisa a respeito da sua máquina, verá que ela pode funcionar em diferentes condições de consciência e dessa forma tratará de dar-lhe melhores condições. 
 Nesse sistema dizem-nos que o homem tem a possibilidade de viver em quatro estados de consciência, mas que tal como é vive apenas em dois. Sabemos também que as nossas funções se dividem em quatro categorias. Assim, estudamos quatro categorias em dois estados de consciência.  Ao mesmo tempo, tomamos conhecimento de que ocorrem lampejos de consciência de si mesmo e de que aquilo que nos impede de ter mais lampejos é o fato de não nos lembrarmos de nós mesmos, de estarmos dormindo.
A primeira condição necessária a um estudo sério de si mesmo é a compreensão de que a consciência tem graus. Devemos nos lembrar de que não passamos de um estado de consciência a outro, de que esses estados se adicionam um ao outro. Isso significa que se estivermos no estado de sono, quando despertamos, o estado de consciência relativa ou “sono desperto” será acrescentado ao estado de sono; se nos tonarmos conscientes de nós mesmos, esse estado será adicionado ao “sono desperto” e, se adquirirmos o estado de consciência objetiva, esse estado se adicionará ao de consciência de si mesmo. Não existem transições nítidas de um estado para outro. Por que não? Porque cada estado consiste em camadas distintas. Assim como, no sono, podemos estar mais ou menos adormecidos, da mesma forma, no estado em que estamos agora, podemos estar mais próximos ou mais distantes da consciência de nós mesmos.
A segunda condição necessária a um estudo de si mesmo é o estudo das funções pela observação delas, aprendendo a dividi-las de maneira correta, a reconhecer cada uma separadamente. Cada função tem sua própria manifestação, a sua própria especialidade. Devem ser estudadas separadamente e devemos compreender claramente as suas diferenças, lembrando-nos de que elas são controladas por centros ou mentes diferentes. É muito útil pensar sobre as nossas diferentes funções - ou centros – e compreender que são completamente independentes. Não nos damos conta de que há quatro seres independentes em nós, quatro mentes independentes. Tratamos sempre de reduzir tudo a uma só mente. O centro instintivo pode existir de maneira totalmente independente dos outros centros; os centros motor e emocional podem existir sem o intelectual. Podemos imaginar quatro seres vivos em nós. O que chamamos homem instintivo é o homem físico. O homem motor é também um homem físico, mas com inclinações diferentes. Há, em seguida, o homem sentimental ou emocional e o homem teórico ou intelectual. Se nos encararmos desse ponto de vista, será mais fácil ver onde cometemos o equivoco principal a nosso respeito, porque nos consideramos como se fossemos um, sempre o mesmo. 
Não podemos ver os centros, mas podemos observar as funções: quanto mais observarmos, maior será a quantidade de material que teremos.  Essa divisão das funções é muito importante. Só poderemos controlar cada função, se conhecermos as peculiaridades de velocidade de cada uma delas.
 A observação das funções deve estar ligada ao estudo dos estados e graus de consciência. É necessário compreender claramente que consciência e funções são completamente diferentes. Andar, pensar, sentir, ter sensações são funções que se manifestam de maneira completamente independente do fato de estarmos conscientes ou não. Noutras palavras, podem se manifestar mecanicamente. Estar consciente é algo muito diferente. Mas, se estivermos mais conscientes, isso imediatamente fará crescer a intensidade das nossas funções. 
 As funções podem se comparar a máquinas que trabalham em vários graus de iluminação. Essas máquinas são de tal ordem, que podem trabalhar melhor com luz do que com escuridão; quando há mais iluminação, as máquinas trabalham melhor. A consciência é a luz e as máquinas são as funções.
A observação das funções exige um trabalho prolongado. É necessário encontrar muitos exemplos de cada uma delas. Estudando-as, inevitavelmente veremos que nossa máquina não funciona de maneira adequada, algumas funções estão bem enquanto outras são indesejáveis, do ponto de vista de nossa meta. Porque é preciso ter uma meta, do contrário nenhum estudo dará resultado. Se nos dermos conta de que estamos dormindo, nossa meta deverá ser acordar.  Se percebermos que somos máquinas, a nossa meta deverá deixar de ser máquinas. Se quisermos ser mais conscientes, devemos estudar o que nos impede de nos lembrarmos de nós mesmos. Desse modo, temos que estabelecer uma determinada avaliação das funções, baseada na ideia de que são úteis ou prejudiciais à lembrança de si. Há assim duas linhas de estudo: o estudo das funções de nossos centros e o estudo das funções desnecessárias ou prejudiciais.

sábado, 30 de novembro de 2013

G. I. Gurdjieff - Instruções Variadas

 

 

Nova Iorque, 29 de dezembro de 1932

O homem não tem energia para atingir metas voluntárias porque toda a força que ele adiquire à noite durante o seu estado passivo é usada em suas manifestações negativas. Essas são suas manifestações automáticas, o oposto de suas manifestações positivas ou decididas por ele voluntariamente.
Para ganhar energia há um exercício para aqueles que já estão aptos a lembrar automaticamente e com frequência de sua meta, mas que não possuem a força para realizá-la. - Sente-se por um periodo de pelo menos uma hora. Deixe todos os músculos relaxados. Permita que as associações prossigam, mas não seja absorvido por elas. Diga para elas: "se vocês deixarem eu fazer o meu trabalho agora, eu concederei todos os seus desejos depois". Olhe para as associações como se elas fossem um outro ser para não se identificar com elas. Ao final de uma hora pegue um papel e escreva a sua meta nele. Torne esse papel o seu "deus". Todo o resto não tem valor. Pegue o papel do seu bolso e leia constantemente todos os dias. Dessa maneira ela se torna parte de você. Primeiro teoricamente, depois de fato.
Para ganhar energia pratique esse exercício de sentar-se quieto e deixar os seus músculos mortos. apenas quando tudo em você estiver quieto por uma hora tome sua decisão sobre a sua meta. Não deixe as associações lhe absorverem.  
 
 
 
Nova Iorque, 9 de dezembro de 1932

Os movimentos agitados e nervosos que uma pessoa realiza, fazem com que todos, consciente ou inconscientemente, percebam que ela não tem autoridade, que ela é estúpida. Com esses movimentos inquietos ela não poder ser nada. A primeira coisa para essa pessoa fazer é parar esses movimentos. Ela deve tornar essa a sua meta, o seu "deus". Deve até mesmo pedir ajuda aos seus familiars. Apenas depois disso talvez ela possa adquirir atenção. Esse é um exemplo de "fazer".
Outro exemplo, um aprendiz de piano não pode aprender senão pouco a pouco. Se você quiser tocar melodias logo de início sem praticar, você não poderá tocar melodias reais e as melodias que você tocar serão cacofônicas e farão as pessoas sofrerem e odiarem você. Também é assim na vida com as coisas psicológicas. Para adquirir algo real uma longa prática é necessária.
Tente realizer coisas bem pequenas no início. Se você objetivar coisas grandes de início você jamais será coisa alguma. Suas ações atuarão cacofonicamente como melodias ruins em todos e farão com que eles lhe odeiem.



O homem tem duas substâncias em si, a substância dos elementos ativos do corpo físico e as substâncias compostas dos elementos ativos da material astral. Essas duas formam uma terceira substância pela combinação das duas. Essa terceira substância é uma "substância mista" ou combinada, ela se acumula em algumas partes de uma pessoa e forma também uma atmosfera ao redor dela assim como ocorre num planeta. As atmosferas planetárias estão continuamente ganhando ou perdendo substâncias por causa dos outros planetas. As pessoas são rodeadas de outras pessoas assim como os planetas são rodeados de outros planetas. Quando dentro de certos limites duas atmosferas se encontram, e se essas atmosferas são "compatíveis", uma conexão é estabelecida entre elas e resultados legítimos ocorrem. Algo flui. A quantidade de atmosfera permanence a mesma, mas a qualidade muda. A pessoa pode controlar sua atmosfera.
É como a eletricidade - a parte positiva e a parte negativa. Uma parte pode ser aumentada e ser feita fluir como uma corrente. Tudo tem uma eletricidade positiva e negativa. Em um homem as atrações e repulsões são positivas e negativas. A matéria astral sempre se opôe à matéria física.
Na antiguidade os Padres podiam curar doenças ao abençoar com as mãos. Alguns padres tinham apenas que colocar suas mãos na pessoa doente. Alguns podiam curar de pequenas distâncias, alguns de distâncias maiores. Um padre era um homem que tinha "substância mista" e assim podia usá-la para curar os outros. Um padre era um magnetizador. Jesus Cristo era um magnetizador.
As pessoas doentes não têm suficiente "substância mista", "magnetismo" ou "vida"
Essa "substância mista" pode ser vista se estiver concentrada. Uma aura ou um halo eram algo real e podiam ser vistos em lugares sagrados e em algumas igrejas.
Mesmer redescobriu o uso dessa substância. Para poder usá-la você deve primeiro TER essa substância.
É o mesmo com a atenção - ela é adquirida apenas através de labores conscientes e sofrimentos voluntarios - ao fazer pequenas coisas voluntariamente.
Torne alguma meta pequena o seu "deus" e assim adquira magnetismo. O magnetismo, assim como a eletrecidade, pode ser concentrado e ser feito fluir pela mente.   


Nova Iorque, 9 de dezembro de 1932

Existem dois tipos de fazer. O fazer automático e o fazer de acordo com a vontade.
Pegue algo que você gostaria de fazer, que você não consegue fazer e torne isso o seu "deus". Não deixe nada interferir. Objetive apenas isso. Então, se você conseguir fazer isso eu poderei lhe dar uma tarefa maior. Hoje em dia você tem um apetite por fazer coisas grandes demais para você. Esse é um apetite anormal. Você não consegue fazer essas coisas nunca e esse apetite o impede de fazer coisas menores que você poderia fazer. Destrua esse apetite, esqueça as coisas grandes. Estabeleça a meta de quebrar algum hábito pequeno.
Se você "deseja" pode "pode". Sem "desejar" você jamais "poderá". Desejar é a coisa mais poderosa do mundo. Com o desejo consciente todas as coisas vêm.


Suportar as manifestações desagradáveis dos outros é algo muito grande. É uma das últimas coisas para um homem. Apenas um homem perfeito pode faze-lo. Comece por tornar a sua "meta", ou o seu "deus" ter a habilidade de suportar uma manifestação de uma pessoa que você agora não pode aguentar sem nervosismo. Assumir uma meta volutária e atingí-la cria magnitismo e a habilidade de "fazer"



Nova Iorque, 6 de fevereiro de 1932

Existem duas partes do ar, a parte involutiva e a evolutiva. Apenas a parte involutiva tem o poder de vivificação do "Eu". Apenas o suficiente para o processo trogo-auto-ego-crático* é assimilado dessa parte. Enquanto não tiver um desejo consciente você não poderá assimilar mais dessa parte boa do ar. Essa parte involutiva vem da Fonte Primordial. O segredo de tornar-se apto a assimilar a parte involutiva do ar está em tentar perceber sua própria insignificância e a insignificância dos outros à sua volta. Você é mortal e irá morrer algum dia. A pessoa cuja sua atenção repousa é seu semelhante. Ela também morrerá. Vocês são ambos nulidades. Atualmente a maioria do seu sofrimento é "sofrimento em vão" proveniente de um sentimento de raiva ou ciúmes perante os outros. Se você obter dados para perceber sempre a inevitabilidade da morte deles e da sua própria morte, você sentirá sempre pena dos outros e será justo, pois a maioria das manifestações deles que desagradam a você só causam isso porque alguém pisa nos "calos" deles ou também por causa da sensibilidade dos seus "calos", mas você não consegue ver isso. Coloque-se na posição dos outros. Eles têm o mesmo valor que você. Eles irão morrem assim como você. Eles sofrem assim como você.
Apenas se você conseguir sentir essa insignificância; até que isso se torne um hábito quando quer que você veja alguém, apenas então, você estará apto a assimilar a parte boa do ar  e ter um "Eu" real. 
Todas as pessoas têm desejos e coisas que lhe são queridas, as quais ela irá perder quando morrer. Ao olhar para os seus semelhantes e perceber a sua insignificância, ao perceber que eles irão morrer, pena e compaixão surgirão em você por eles e por fim você irá amá-los.

 
 
Na minha opinião, a essência de todas as qualidades espirituais existentes exclusivamente no homem, são engendrados para o seu future desenvolvimento da força e pelo grau de seu amor por seus pais. Não é à toa que num dos ensinamentos filosóficos antigos é dito:
 
"Acima de tudo na Terra, até mesmo acima de Deus, está o amor pelos nosso pais, especialmente aos pais ainda vivos.
Enquanto os pais ainda estão vivos, deus Deus deve ser considerado apenas um futuro substituto no coraçao do homem para o lugar deixado vazio pela morte deles. E é por isso que Deus ama apenas aqueles que amam seus pais, porque esse homem certamente torna-se o future receptáculo para Ele."   


* Para a compreesão do termo Trogoautoegocrático e das leis de criação e manutenção do universo é recomendada a leitura do livro "Relatos de Belzebu a Seu Neto"

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Philokalia - São Gregório Pálamas - A oração interior

 
Que ninguém pense, meus queridos Cristãos, que apenas os monges e os padres precisam orar sem cessar e que os leigos não. De modo algum, não: todo Cristão sem exceção deve residir sempre na oração. Gregório, o Teólogo, ensina a todos os Cristãos que o Nome de Deus deve ser lembrado em oração tão frequentemente quanto inalamos o ar.

Quando o Apóstolo nos ordena: “Orai sem cessar” (1 Thess v. 17), ele quer dizer que devemos orar internamente com nossa mente; e isso é algo que podemos fazer sempre. Pois quando estamos engajados em algum trabalho manual, quando andamos ou estamos sentados, quando comemos ou quando bebemos, internamente podemos sempre orar e praticar a prece interior da mente, a verdadeira oração que agrada a Deus. Vamos, portanto, trabalhar com nossos corpos e orar com nossa alma. Que nosso homem exterior realize o trabalho físico e nosso homem interior esteja concentrado total e completamente no serviço de Deus e que nunca enfraqueçamos o trabalho espiritual da oração interior. Isso é também ordenado por Jesus, o Deus-homem, quando Ele diz no Santo Evangelho: “Tu, porém, quando orardes, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu Pai, que vê em segredo” (Mat. 6:6). O quarto da alma é o corpo, as postas são os cinco sentidos. A alma entra no seu quarto quando a mente não vagueia aqui e ali sobre as coisas mundanas, mas permanece dentro do nosso coração. Nossos sentidos são fechados e permanecem assim quando não permitimos que eles se apeguem a coisas visíveis e externas, dessa forma nossa mente fica livre de todo apego mundano e através de sua oração secreta e interna é unida a Deus nosso Pai.
Você se lembra da afirmação de São Paulo: “nosso corpo é o templo de Espírito Santo dentro de nós” (1Cor.6:9) e: “somos a casa de Deus” (Ref. Heb.3:6), como o próprio Deus confirma quando diz: “Eu habitarei e caminharei neles e serei Seu Deus”(2Cor. 6:16). Portanto, uma vez que o corpo é a morada de Deus, que pessoa sã iria se opor a manter seu intelecto nele? E como foi que de início Deus estabeleceu o intelecto no corpo? Ele fez isso de maneira errada?

Quando lutamos com uma sobriedade diligente para guardar vigília sobre nossas faculdades racionais, para controlar e corrigi-las, de que maneira podemos ter êxito nessa tarefa a não ser ao coletar nossa mente que está dispersa por aí através dos sentidos e trazê-la de volta para o mundo interno, para o próprio coração, que é o armazém de todos os pensamentos?

Quando a oração de Jesus está ausente, somos atacados por todas as sortes de coisas danosas, não sobrando espaço para nenhuma coisa boa na alma. Mas quando nosso Senhor está presente na oração, tudo o que é estrangeiro é banido.

‘Fica atento a ti mesmo’, disse Moisés (Deut.15:9) – isto é, à totalidade de ti mesmo, não apenas a poucas coisas que pertencem a você, negligenciando o resto. De que maneira? Indubitavelmente, com o intelecto. Esteja em guarda, portanto, vigiando sua alma e seu corpo, pois assim você prontamente irá se livrar das paixões malignas do corpo e da alma. Desse modo, assuma o controle sobre si, fique atento a si mesmo, analise-se minuciosamente, ou melhor, guarde, observe e teste a si mesmo, pois dessa maneira você irá subjugar seu ser rebelde e não regenerado ao Espírito, e assim jamais haverá ‘alguma iniquidade em seu coração’ (Deut.15:9). Se, por acaso, o Pregador (o espírito que governa os demônios e paixões do mal) se erguer contra você, não deserte seu posto (ref. Ecl.10:4) – ou seja, não deixe nenhuma parte da sua alma ou do seu corpo sem ser vigiada. Dessa forma você dominará os espíritos do mal que lhe assaltam e irá audaciosamente apresentar-se Àquele que examina os corações e as mentes (ref. Sal.7:9) e Ele não irá examiná-lo minuciosamente porque você já o fez. Como disse São Paulo: ‘Se examinássemos a nós mesmos, não seríamos julgados’ (1Cor.11:31).
Então você experimentará a bênção que Davi experimentou e dirá para Deus: ‘A escuridão não será escuridão junto a Ti, e a noite será clara como o dia para mim, pois tomaste posse de minha mente’ (Sal.139:12:13). É como se Davi estivesse dizendo que Deus não apenas tornou-se o único objeto de desejo de sua alma, mas também que qualquer fagulha desse desejo em seu corpo retornou para a alma que produziu esse desejo, e através da alma elevou-se a Deus, juntando e unindo-se a Ele. Pois da mesma forma que aqueles que se unem aos prazeres perecíveis dos sentidos expandem todos os desejos da alma ao satisfazerem suas propensões carnais, assim tornando-se tão completamente materialistas que o Espirito de Deus não pode habitar neles (ref.Gen.6:3), também, no caso daqueles que elevaram o intelecto a Deus e que através do anseio divino anexaram sua alma a Ele, a carne também é transformada, é exaltada juntamente com a alma e comunga com a alma no Divino tornando-se posse e morada de Deus, não abrigando mais nenhum inimigo Dele ou quaisquer desejos que sejam contrários ao Espírito (ref.Gal.5:17).

domingo, 22 de setembro de 2013

Hazrat Inayat Khan - O Impulso Divino


Meu tema esta noite é o impulso divino. A primeira pergunta a ser considerada no que se refere a esse assunto é: De onde é que todo impulso vem? Cada movimento, cada vibração, cada onda tem uma única fonte. Vemos uma referência na Bíblia sobre esse assunto, quando é dito: "E o Verbo era Deus" (João 1:1). O verbo significa vibração e vibração significa movimento. Entre os hindús no Vedanta, Nada Brahma significa Deus o som. A vibração foi o aspecto primeiro ou original de Brahma, o Criador.
No Alcorão Ele disse Seja, e tudo se tornou. Cada impulso, cada ação em qualquer plano de existência tem sua origem em uma única fonte. Vou citar outra Sura do Alcorão onde é dito: "Deus é todo poder. Não há nenhum outro poder além de Deus." Todas as coisas que são feitas são feitas com o Seu poder. E agora vem a pergunta: Se todas as escrituras dizem isso, onde é que Satanás entra? Qual é o significado por trás do poder de Satanás? Outro poder é sugerido além do poder de Deus e às vezes o poder atribuido a Satanás parece mais forte do que o poder atribuido a Deus. Esse é um enigma para muitos que se perguntam: Onde é que a ação de Satanás entra?
A explicação encontra-se no entendimento da metafísica e das leis da natureza. Existe uma lei chamada de lei natural e tudo o que vem dirigido pela lei da natureza é harmonioso. Os jardins que o homem pode fazer parecem por um momento melhorar as florestas, mas no final ao examinarmos o jardim com suas estruturas artificiais ele prova ser limitado em beleza e harmonia. A inspiração que obtemos nas florestas, nos desertos, etc, é muito maior do que num jardim feito pelo homem, pois aqui o homem tornou a inspiração limitada, pois a vida que ele irradia é limitada.
 O homem faz uma lei e descobre que não pode obedecê-la, então ele faz uma outra lei e nunca fica satisfeito, pois ele não leva em conta a lei da natureza, da paz e da harmonia. Os homens dizem que a natureza é cruel, sim, mas o homem é muito mais cruel do que os animais. Os animais nunca destruiram tantas vidas quanto os homens têm feito. A natureza com toda a sua crueldade aparente não pode comparar-se com a crueldade, a ignorância e a injustiça do homem.
Jesus Cristo disse: "Seja feita a Vossa vontade" (Mat. 6:10). Há muito para aprendermos nesse dizer. O homem cria um outro mundo no qual vive, diferente do plano de Deus, das leis da natureza e dessa forma não é feita a vontade de Deus. A oração ensina ao homem que ele deve descobrir qual é a vontade de Deus. Não é necessário para os animais e as aves descobrirem a vontade de Deus, pois eles são dirigidos pelo impulso da natureza, eles estão mais perto da natureza do que o homem. A vida do homem é tão distante da vida da natureza e desse modo cada movimento é difícil. Nós não vemos isso agora. Com todo o nosso conhecimento tornarnos a vida cada vez mais complicada e assim o conflito torna-se cada vez maior. Para cada pessoa, jovem ou velha, rica ou pobre, a vida é uma luta difícil, pois nós nos afastamos cada vez mais do impulso que vem direto da fonte da qual todo impulso vem.
Do ponto de vista metafísico, existem diferentes ritmos que descrevem a condição do homem, falados no Vedanta como Sattva, Rajas e Tamas. Sattva refere-se a um ritmo harmonioso, Rajas é um ritmo que não está em perfeita harmonia com a natureza e Tamas é um ritmo que é caótico e destrutivo por natureza, e cada impulso que vem ao homem enquanto nesse ritmo caótico é seguido por resultados destrutivos. Qualquer impulso que vem quando a pessoa está no impulso proveniente de Rajas é realizado, mas o impulso que vem quando ele está no ritmo de sattva é inspirado e está em harmonia com o ritmo do universo.
A vida ativa do homem dá pouco tempo para a concentração e para colocar a mente e o corpo numa condição em que ele possa experimentar o ritmo que dá inspiração e que vá de encontro com a vontade de Deus. Essa experiência vem em resposta à oração de Cristo: "Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no Céu." Ao produzir essa condição da mente e do corpo, a pessoa sintoniza-se com a um certo tom que é harmonioso e celestial e no qual a vontade divina é feita facilmente, como é feita no céu. É nesse ritmo apenas que a vontade de Deus pode ser feita.
Não foi nenhum preconceito contra o mundo que fez os grandes sábios abandonarem o mundo e irem para as florestas e cavernas. Eles foram a fim de sintonizarem-se com esse ritmo no qual eles pudessem experimentar o céu. O céu não é um país ou um continente, é um estado, uma condição dentro de nós mesmos, somente experimentada quando o ritmo está em perfeita ordem de operação. Se sabemos disso, percebemos que a felicidade é uma propriedade do próprio homem. O homem é o seu próprio inimigo, ele busca a felicidade na direção errada e nunca encontra. É uma ilusão contínua. O homem pensa: Se eu tivesse isso ou aquilo eu seria feliz para sempre e ele nunca chega a isso, porque persegue uma ilusão em vez da verdade. A felicidade só pode ser encontrada dentro, e quando o homem sintoniza-se ele encontra tudo o que sua alma anseia dentro de si mesmo.
A natureza de cada impulso é tal que ele passa por três fases e após o processo de três fases ele se realiza como um resultado. Seja ele certo ou errado, traga benefícios ou desvantagens, assim que o impulso surge de dentro ele passa por três fases. Não há impulso que no seu início seja errado ou sem propósito ou desarmonioso, pois na soma total de todas as coisas, todos os impulsos tem a sua finalidade. É nossa visão limitada que julga. A justiça por trás é tão grande que no resultado final tudo se encaixa em seu devido lugar. Mas no processo através do qual o impulso passa, ele torna-se certo ou errado, não no início ou no fim, pois o início tem um propósito e o fim responde à demanda.
Essa é uma questão da metafísica e é preciso estudá-la a partir de diferentes pontos de vista ou a pessoa ficará muito confusa. O homem com seu conhecimento limitado está pronto para condenar ou admirar e milhares de vezes ele falha em julgar corretamente. Todas as grandes almas que tiveram a Realização perceberam isso. Cristo disse: "Não julgueis, e não sereis julgados" (Mat. 7:1). Então a tolerância vem e quando percebemos o que está por trás do impulso, dizemos muito pouco.
O primeiro processo por meio do qual o impulso surge está na região do sentimento, e, nessa região, o impulso é reforçado ou destruído. O sentimento pode ser amor, ódio, bondade, justiça, etc, mas qualquer que seja o sentimento, quando o impulso surge, ele pode ganhar força para seguir em frente ou ele é destruído. Por exemplo, uma pessoa pode ter um grande sentimento de bondade, então em algum momento o impulso de vingança pode aparecer, mas ele é destruído. Outra pessoa tem um grande sentimento de amargura predominante, mas se o impulso de perdoar surgir, ele será destruído antes de sequer tocar a razão.
Ou a pessoa tem um grande sentimento de amargura e o impulso de fazer um serviço de bondade vem, ele será destruído antes de atingir o reino do pensamento, ou se o impulso eleva-se até atingir a região do pensamento, a pessoa pensa: Por que eu deveria ajudar, por que eu deveria servir? Será que ele merece, ele vai se beneficiar com isso, isso é certo? Todos estes problemas são resolvidos nessa região.
Em seguida, vem o terceiro, o reino da ação. Se a mente consume o impulso, ele não vai mais longe, mas se a mente permite que ele prossiga, ele vem para a região de ação e é realizado como um resultado.
E agora a pergunta é: como sábios e pensadores distinguiram o impulso divino entre os diferentes impulsos que surgem no coração do homem. Primeiro temos que entender o que significa a palavra divino. Divino em um estado de perfeição. Esse estado é experimentado por Deus através do homem, em outras palavras, quando o homem elevou-se para o estágio de desenvolvimento onde ele pode ser o instrumento perfeito de Deus, quando nada de seu próprio ser fica no caminho contra o impulso direto que vem de dentro, aquele espírito pode ser chamado de perfeito. A coisa mais preciosa, que é o propósito da vida do homem, é chegar a esse estado de perfeição no qual ele pode ser o instrumento perfeito de Deus. Uma vez que um homem tenha alcançado esse estágio, ele primeiro começa a dar-se conta disso em alguns momentos, então, conforme ele se desenvolve, por tempos maiores; e aqueles que se desenvolvem ainda mais, passam a maior parte de seu tempo nessa realização, em seguida, o sentimento e o pensamento já não atrapalham mais o impulso divino, pois eles surgem livremente e resultam em um propósito divino.
A mensagem dos profetas e mestres de todos os tempos tem sido ensinar ao homem como fazer as pazes com Deus. O cumprimento do propósito da vida está em harmonizar-se com Deus e isso é feito ao distinguir o impulso divino.
A pergunta: Como se pode distinguir o impulso divino, é respondida que é assim como na música pode-se distinguir uma nota verdadeira de uma falsa, o acorde harmonioso do acorde discordante. É apenas uma questão de treinamento auditivo. Quando o ouvido é treinado pode-se descobrir a menor discordância, quanto maior o músico, mais capaz ele é de descobrir a harmonia e a discórdia, a nota verdadeira e a nota falsa.
Muitos pensam que o que chamamos de certo ou errado, bom ou ruim, é algo que aprendemos ou adquirimos. Isso é verdade quando trata-se de um certo e errado criado pelo homem, mas do certo ou errado da natureza toda criança pequena tem um sentido. A criança sente uma vibração errada de imediato. A criança sente se os seus arredores são harmoniosos ou desarmoniosos. Mas o homem confunde-se de modo que ele não pode mais distinguir com clareza. Para o homem aprender a saber por si mesmo é um grande avanço no caminho espiritual. Quando o homem tem clareza quanto ao sentimento que ele recebe de cada impulso, ele avançou muito. Há alguns que dizem após o resultado: “eu sinto muit.”. Mas aí é tarde demais. Não houve um verdadeiro treinamento do ouvido.
O impulso divino é um impulso cheio de amor, ele traz felicidade, é criador de paz. A dificuldade é que o homem não observa o início do impulso, apenas observa o resultado. Ele é como alguém intoxicado e com o tempo, assim como acontece com um homem embriagado, ele fica confuso e deprimido, há luta e contenda, mas o homem não nasceu para isso. Ele nasceu para a felicidade. A paz, o amor, a bondade e a harmonia são partes do seu próprio ser; e quando uma pessoa está infeliz isso significa que ela se perdeu, ela não sabe onde ela está.
Os homens estão procurando por fenômenos, querem milagres, comunicação com fantasmas ou espíritos. Procuram por algo complexo e ainda a coisa mais simples e mais valiosa na vida é encontrar o nosso verdadeiro Ser.  

domingo, 11 de agosto de 2013

Bernard de Clairvaux - Sobre o Cântico dos cânticos


As várias formas de ver Deus
 
"Diga-me, amado de minha alma, onde levas seu rebanho pastar, onde o faz descansar ao meio-dia?" (Cânt.1:7) A Palavra, a qual é o Noivo, muitas vezes se faz conhecido sob mais de uma forma para aqueles que são fervorosos. Por que isso? Sem dúvida, porque Ele não pode ser visto ainda como Ele é. Essa visão é imutável, pois a forma na qual Ele será então visto é imutável; pois ele é e não pode sofrer nenhuma mudança determinada pelo presente, passado ou futuro. Elimine o passado e o futuro, onde então pode haver alteração ou qualquer sombra de mudança? Pois tudo o que evolui do passado e não cessa de se mover na direção do desenvolvimento futuro atravessa o instante que é o presente, mas não se pode dizer: isso é. Como podemos dizer: isso é, quando isso nunca permanece no mesmo estado?
Só é verdadeiramente aquilo que não é alterado de seu modo passado de ser, nem destruído por um modo futuro. "É", é predicado Dele apenas, inexpugnável  e imutavelmente e Ele continua a ser o que é. Nenhuma referência ao passado pode negar que Ele é desde toda a eternidade, nem qualquer referência ao futuro que Ele é para toda a eternidade. Dessa forma, isso prova que Ele realmente é, ou seja, é não-criado, interminável, imutável. Portanto, quando Aquele que existe dessa forma – o qual não pode ser ora de uma jeito ora de outro – é visto apenas como Ele é, essa visão perdura, como eu disse, uma vez que nenhuma alteração pode interrompe-la. Este é o momento quando aquele denário mencionado no evangelho é dado na visão que é oferecida a todos que vêem. Pois Aquele que é visto é imutável em Si mesmo, Ele está presente imutavelmente a todos que contemplam-No; para eles não existe nada mais desejável a ser visto, nada mais sedutor que pudessem ver.
Pode, então, seu apetite voraz se cansar, ou aquela doçura afastar-se, ou essa verdade provar ser enganosa ou essa eternidade chegar ao fim? E se a capacidade e a vontade de contemplar forem prolongadas eternamente, o que estará faltando para a felicidade total? Aqueles que O contemplam sem cessar não carecem de nada, aqueles cuja vontade está fixada Nele não têm mais nada a desejar.
Mas essa visão não é para a vida presente; está reservada para a próxima, pelo menos para aqueles que podem dizer: "Sabemos que quando Ele se manifestar seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é." (1 João 3:2-3). Mesmo agora Ele aparece a quem lhe apraz, mas como Lhe agrada, não como Ele é. Nem sábio nem Santo nem profeta pode ou poderia vê-Lo como Ele é, enquanto ainda está neste corpo mortal. Mas sim quem for considerado digno será capaz de fazê-lo quando o corpo tornar-se imortal. Portanto, embora Ele seja visto aqui abaixo, é na forma que parece boa para Ele, não como Ele é.
Por exemplo, considere esta poderosa fonte de luz, falo deste sol que você vê todos os dias; mesmo assim você não o vê como ele é, mas de acordo como ele ilumina o ar, ou uma montanha ou uma parede. Você não seria capaz de ver nem mesmo nessa medida, se a luz de seu corpo, o olho, devido à sua natural firmeza e clareza, não tivesse algum grau de semelhança com essa luz nos céus. Sendo que todos os outros membros do corpo carecem dessa semelhança, eles são incapazes de ver a luz. Até mesmo o olho em si, quando sofre de alguma perturbação, não pode aproximar-se da luz por ter perdido essa semelhança.
Assim como o olho com problemas não pode olhar o sol sereno por causa de sua falta de semelhança, o olho sadio pode contemplá-lo com alguma eficácia por causa de uma certa semelhança. Se de fato fosse totalmente igual a ele em pureza, com uma visão completamente clara ele o veria como ele é, por causa da semelhança completa.
E assim, quando você é iluminado, até mesmo agora pode ver o Sol da Justiça que "ilumina todo homem que vem a este mundo," de acordo com o grau de luz  que Ele concede, através do qual você é tornado numa certa medida como Ele; mas vê-Lo como Ele é você não pode, por ainda não ser perfeitamente como Ele. É por isso que o salmista diz: "Contemplai-o e sereis iluminado, vosso rosto nunca ficará envergonhado."(Sal. 34-5) Isso é muito verdadeiro, desde que sejamos iluminados como precisamos, para que "com nossa face desvelada, contemplemos como num espelho a glória do Senhor, sendo transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é Espírito." (2 Cor. 3-18). Observe que devemos nos aproximar suavemente e não nos intrometer com Ele, para que o buscador irreverente da Majestade não seja arrebatado pela Glória.
Esta abordagem não é um movimento de lugar para lugar, mas de brilho para brilho, não no corpo, mas no espírito pelo Espírito do Senhor. Evidentemente pelo Espírito do Senhor, não pelo nosso, embora no nosso. Quanto mais brilhante nos tornamos, mais próximo é o fim; e, ser absolutamente claro e brilhante significa ter chegado. Para aqueles que assim chegaram à Sua presença, vê-Lo como Ele é significa ser como Ele é e não ser colocado sob vergonha por qualquer forma falta de semelhança. Mas, como eu já disse, isso é para a próxima vida. Enquanto isso, esta imensa variedade de formas, estas inúmeras espécies de criaturas, o que são senão raios emanando da Divindade, mostrando Aquele de quem elas vêm realmente é, mas não explicando totalmente o que Ele é. Portanto, o que você vê é o que emana Dele, não Ele mesmo. No entanto, embora não veja Ele mesmo, mas o que vem Dele, você é cientificado além de toda dúvida de que Ele existe e que Você deve procurá-Lo. A Graça não vai ser insuficiente para o buscador, nem a ignorância vai desculpar o negligente. Todos têm acesso a esse tipo de visão. De acordo com o apóstolo Paulo, é comum a todos que utilizam a razão: "os atributos invisíveis de Deus tem sido claramente percebidos nas coisas que foram feitas".
Outro tipo de visão é aquela através da qual em épocas passadas os Patriarcas muitas vezes eram graciosamente admitidos na doce comunhão com Deus, que tornava-se presente a eles, embora eles não o vissem como Ele é, mas apenas na forma que Ele achava apropriada assumir. E Ele também não aparece para todos de maneira parecida, mas como diz o Apóstolo: "em muitas e diferentes maneiras," ainda permanecendo um em Si mesmo, de acordo com a Sua palavra a Israel: "O Senhor teu Deus é um Deus." Essa manifestação, embora não aparente para todos, realizou-se exteriormente e consistiu de imagens ou palavra falada.                           
Mas há uma outra forma de contemplação divina, muito diferente da anterior, porque ela ocorre no interior, quando o próprio Deus agrada-se em visitar a alma que busca por Ele, desde que ela esteja comprometida em buscá-lo com todo o seu desejo e amor. É dito qual é o sinal de tal visita por uma pessoa que a experimentou: "O fogo avança à sua frente devorando seus adversários ao redor." (Sal. 97-3). O fogo do desejo santo deve preceder o Seu advento a cada alma que Ele visitará, para queimar a ferrugem dos maus hábitos e então preparar um lugar para o Senhor. A alma saberá que o Senhor está perto, quando perceber-se estar inflamada com esse fogo e puder dizer como fez o Profeta: "Ele enviou um fogo do alto até os meus ossos e me iluminou;" e outra vez: "meu coração se tornou quente dentro de mim e o fogo de minha meditação irrompeu."
Quando o Amado que é dessa forma procurado faz uma visita em seu amor misericordioso a alma que está cheia de anseio, que reza frequentemente, até mesmo sem pausa, que humilha-se no ardor de seu desejo, aquela alma apropriadamente pode dizer como São Jeremias: "Tu és bom, Senhor, para aqueles que esperam em Ti, para a alma que Vos procura." E aquele anjo da alma, um dos amigos do Noivo e por ele comissionado para ser o ministro e testemunha dessa troca secreta e mútua - aquele anjo, digo, deve estar dançando de alegria! Não participa ele de sua alegria e felicidade e virando-se para o Senhor dizendo: "Eu Vos agradeço, Senhor da Majestade, porque 'Você concedeu-lhe o desejo do seu coração, não negou-lhe o que seus lábios suplicaram"? Ele é em todos lugares o atendente incansável da alma, nunca deixando de atraí-la e orientá-la com inspirações constantes, conforme sussurra: "põe tua alegria no Senhor e Ele realizará o desejo do teu coração;" e outra vez: "Espera o Senhor e guarda o Seu caminho." Ou: "Se ele parece lento, espere-o; Ele certamente virá, Ele não tardará". Voltando-se para o Senhor, ele diz: "como um cervo anseia por águas correntes, assim minha alma brame por Ti, Ó Deus.'(sal. 42-2) Ela tem ansiado por Ti no meio da noite e seu Espírito dentro dela olhou para Ti da manhã em diante." E novamente: "o dia todo esta alma vai na Tua direção; conceda o que ela deseja, pois ela está gritando atrás de você; ceda um pouco e mostre Sua misericórdia. Olhe para baixo do céu e visite este espírito desolado." Este padrinho leal, sem inveja, observando esse intercâmbio de amor, busca a glória do Senhor ao invés de sua própria; Ele é o elo entre o amante e seu Amado, tornando conhecidos os desejos de um, transportando os presentes do outro. Ele estimula a afeição da alma, ele concilia o Noivo. Às vezes também, embora raramente, leva-os à presença um do outro, levando-a até Ele ou trazendo-O até ela: pois ele é um membro da família, uma figura familiar no palácio, alguém que não tem medo de ser rejeitado, que diariamente vê o rosto do Pai.                                                                  
Tenha cuidado, contudo, de não concluir que vemos uma coisa corpórea ou perceptível aos sentidos nessa união entre a Palavra e a alma. Minha opinião é a mesma que a do Apóstolo que disse: "aquele que está unido ao Senhor torna-se um espírito com Ele." Eu tento expressar com as palavras mais apropriadas que consigo reunir a ascensão extática da mente purificada para Deus e a descida amorosa de Deus sobre a alma, entregando as verdades espirituais aos homens espirituais. Portanto, que essa União seja no espírito, porque "Deus é um espírito", que amorosamente é atraído pela beleza daquela alma que Ele percebe ser guiada pelo espírito e que é desprovida de qualquer desejo de submeter-se aos ditames da carne, especialmente se Ele vê que ela arde de amor por Ele.                
Aquele que possui tal disposição e é assim amado não ficará de forma alguma contente com essa manifestação do Noivo dada a muitos no mundo das criaturas, ou a poucos em visões e sonhos. Por um privilégio especial ela quer recebê-lo do céu no lugar mais íntimo do seu coração, em seu mais profundo amor. Ela quer ter de presente para si Aquele que ela deseja, não em forma corporal, mas através de uma infusão interna; não ao aparecer externamente, mas esperando-a internamente. É inquestionável que a visão é mais maravilhosa quanto mais interna ela é e não externa. É a Palavra, que penetra sem som que é eficaz embora não se pronuncie, que ganha os afetos sem soar aos ouvidos. Sua face, embora sem forma, é a fonte da forma. Ela não deslumbra os olhos do corpo, mas alegra o coração vigilante; seu prazer está no dom do amor e não na cor do amante.
Eu ainda não cheguei a dizer que Ele apareceu como Ele é, embora nessa visão interna Ele não se revele totalmente diferente do que Ele é. E também Ele não faz com que Sua presença seja continuamente sentida, nem mesmo para os Seus mais fervorosos amantes e nem da mesma forma para todos. Para os vários desejos da alma é essencial que o gosto da presença de Deus seja variado também; e que o sabor infundido do deleite divino deve excitar de múltiplas maneiras o paladar da alma que O busca. Você já deve ter notado quantas vezes Ele muda seu semblante no decurso deste Seu cântico de amor, como Ele se deleita em transformar-se de um disfarce encantador para outro na presença da amada: em um momento como um Noivo tímido arrumando meios para conseguir de maneira oculta os abraços de Sua amante sagrada, a bem-aventurança dos seus beijos; num outro momento vindo como um médico com óleo e pomadas, porque as almas fracas e tenras ainda precisam de remédios e medicamentos desse tipo, que é motivo delas serem chamadas delicadamente de donzelas.
Ninguém deve achar isso uma falha, saibam que "não é o saudável quem precisa do médico, mas os doentes." Às vezes, também, Ele junta-se com a noiva e as donzelas que acompanham-na como um viajante na estrada e clareia as dificuldades da viagem para todos com Sua conversa fascinante, de modo que quando Ele parte elas perguntam: "Não estavam nossos corações queimando dentro de nós conforme ele falava conosco na estrada?" Um companheiro persuasivo que pelo feitiço de suas palavras e boas maneiras convence a todos a segui-lo, como que numa nuvem de doce fragrância vinda das pomadas. Portanto, elas dizem: "Vamos correr atrás do aroma de suas pomadas."
Em outro momento Ele vem encontrá-las como um rico pai de família "com pão suficiente e de sobra" em sua casa; ou novamente como um rei poderoso e magnífico, dando coragem a Sua noiva pobre e tímida, aguçando o seu desejo ao mostrar para ela os ornamentos de Sua glória, as riquezas de Suas prensas de vinho e armazém, os produtos de Seus jardins e campos e, finalmente, apresentando a ela Seus apartamentos particulares. Pois "o coração do seu marido tem confiança nela", e dentre todos os Seus bens não há nada que Ele ache que deva ser oculto dessa a quem Ele redimiu da indigência, cuja fidelidade Ele comprovou, cuja atratividade ganha Seus abraços. Assim, Ele nunca cessa, de uma maneira ou de outra, de revelar-Se aos olhos interiores daqueles que O buscam, cumprindo assim a promessa que Ele fez: "tenha certeza de que estou sempre com você, até o fim dos tempos.”
Em todas essas ocasiões Ele é simpático e gentil, cheio de amor misericordioso. Em Seus beijos Ele mostra que é amoroso e encantador; com o óleo e as pomadas mostra que é infinitamente atencioso, compassivo e misericordioso; na viagem Ele é alegre, cortês, sempre gracioso e pronto para ajudar; na exibição de Suas riquezas e posses, Ele revela uma liberalidade real, uma generosidade beneficente na outorga de recompensas. Através de todo o contexto desse cântico você encontrará imagens dessa natureza para delinear a Palavra. Portanto, sinto que o Profeta estava pensando nessas linhas quando disse: "Cristo, o Senhor, é um espírito diante de nossa face; sob sua sombra viveremos entre as nações," porque agora vemos em espelho obscuramente e ainda não face a face.
Assim será enquanto vivermos entre as nações; entre os anjos será diferente. Pois então deveremos apreciar a mesma felicidade que eles; até mesmo O veremos como Ele é, sob a forma de Deus, não mais na sombra. Assim como dizemos que os nossos antepassados possuíam apenas sombras e imagens, enquanto que a verdade propriamente dita brilha em nós pela graça de Cristo presente na carne, também ninguém negará que em relação ao mundo vindouro nós ainda vivemos na sombra da verdade, a menos que Ele deseje negar o que afirma o Apóstolo: "o nosso conhecimento é imperfeito e nossa profecia é imperfeita;" ou quando ele diz: "não acredito que eu tenha conseguido me apossar disso ainda". Por que não haveria uma distinção entre aquele que caminha pela fé e aquele que caminha pela visão? Portanto, se o homem justo vive pela fé, o abençoado alegra-se na visão; a pessoa santa aqui abaixo vive na sombra de Cristo, o santo anjo acima é glorificado no esplendor de Sua face brilhante.                               
É uma bênção que a fé esteja relacionada com a sombra, ela tempera a luz para a fraqueza dos olhos e prepara os olhos para a luz; Pois está escrito: "Eles limparam seus corações através da fé." A fé, portanto, não extingui a luz, mas protege-a. O que quer que seja que o anjo vê, isso é preservado para mim pela sombra da fé, armazenado em seu seio fiel, até que seja revelado no seu devido tempo. Se você ainda não pode compreender a verdade nua e crua, não vale a pena possuí-la envolta num véu? A própria mãe do nosso Senhor viveu à sombra da fé, pois lhe foi dito: "Bem-aventurados aquele que acreditaram." Até mesmo o corpo de Cristo era uma sombra para ela, como está implícito nas palavras: "o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra."                       
Aquilo que é formado pelo poder do Altíssimo de maneira nenhuma é sombra. Certamente havia poder na carne de Cristo que ofuscou a Virgem, uma vez que por meio do invólucro de Seu corpo vivificante ela foi capaz de suportar sua presença majestosa e suportar a luz inacessível, uma coisa impossível para a mulher mortal. Esse era o poder, de fato, pelo qual todas as forças opostas foram superadas. Tanto o poder quanto a sombra mandaram os demônios para longe e tornaram-se um abrigo para os homens: um poder revigorante com certeza, uma sombra irradiando frescor.
Nós, portanto, que caminhamos pela fé vivemos na sombra de Cristo; somos alimentados com sua carne como a fonte de nossa vida. Pois a carne de Cristo é a comida verdadeira. E talvez por isso Ele é agora descrito aparecendo sob o disfarce de um pastor, quando a noiva trata-o como se fosse um dos pastores: "Diga-me, onde levas seu rebanho pastar, onde o faz descansar ao meio-dia." O Bom Pastor, que abdica-se de Sua vida por suas ovelhas! Ele lhes dá a sua vida, a sua carne; Sua vida é o resgate deles, Sua carne a comida deles. Que maravilhoso! Ele é seu pastor, sua comida, sua redenção. Mas este sermão está ficando muito longo, o assunto é extenso e contém grandes verdades que não podem ser explicadas em poucas palavras. Isso exige que nós interrompamos ao invés de terminarmos esse assunto. Sendo que o assunto está meramente suspenso, devemos mantê-lo vivo em nossas memórias, a fim de retomar em breve de onde paramos e continuá-lo com a ajuda de nosso Senhor Jesus Cristo, Noivo da Igreja, que é Deus bendito para sempre. Amém.