domingo, 31 de março de 2013

Siddharameshwar Maharaj - 13 de outubro de 1935

Brahman é o Ser, o Atman e “Atman” significa o nosso “Ser” apenas.  As dez experiências dos dez órgãos sensoriais não são dez sensações diferentes, são todas a ação única do Ser uno. Há uma história que diz que vários órgãos entraram em greve não querendo mais fazer seu trabalho. O Ser é o rei e é para Ele que os órgãos trabalham. Ele apenas é o Maior de todos. A identificação com o corpo é a natureza do Jiva, o indivíduo. Até mesmo o senso de “eu sou Brahman  também é dissolvido no caso daquele que tornou-se Brahman. “Aquele” é o estado onde não existe “eu” e não existe “você”. Não está existindo nem não existindo, é algo além de ambos. O orgulho de que “eu sou o Ser” também não está presente no Ser. Não há algo como “é” e “não é”. A onda do mar é apenas “Mar”, mas em vez de estar separada ela deve aquietar-se. A explicação de que Aquilo não é “algo” é que Tudo o que tem aparência não é “Aquilo”. Todas as diferenças são percebidas em relação à ilusão. No que diz respeito à Verdade não há graus como mau, melhor, médio, inferior, etc. Foi perguntado a um homem de Sabedoria, um Jnani, “quem é você” e ele permaneceu em silêncio, porque a Realidade não pode ser descrita. Ele apenas disse: “os Vedas (as escrituras) nos dizem para ficarmos em silêncio.
O sábio Pippalaian disse: ” Vou descrever o que Maya é. Ela não é. E é isso o que vou descrever. Vou contar como muitos navios naufragaram nas águas da miragem.”     
Há algo em nós que responde a um chamado dizendo “O”. Esse que responde é o “Om”. As três sílabas “A U M” formam esse OM. Sattva, Rajas e Tamas * estão respectivamente relacionados a essas letras. Om é o poder de “conhecer”, o qual é a Consciência, o princípio “Mahat”, também chamado de “poder de ação” e o “poder da matéria”. Dizer “Eu Sou” é Brahman, mas se você quer dizer “eu sou o corpo” então você não é Brahman, você é apenas um indivíduo, o Jiva. O “Tesouro” está dentro de nós e tem valor imensurável. É Brahman, a própria divindade. Se ele passa a orgulhar-se na forma física sua perfeição é diminuída e sofre grande pesar. Entretanto, se abandona esse orgulho mesquinho do corpo, esse tesouro é Deus. Nós nunca esquecemos que nós somos, mas nunca dizemos: “eu sou”. A experiência do nosso ser existindo está aí sem dizer nada a respeito. É como é e isso é Brahman.
Quando vem para este mundo o Jiva chega chorando. Todos chegam chorando e vêm para chorar apenas. O único objetivo de vir para este mundo é para chorar. O destino da pessoa que nasce é chorar. Todos seguem em frente chorando. Ninguém olha para trás, se a pessoa olhasse para trás (para  a Fonte) não haveria nenhum motivo para chorar. Aquilo que é muito natural é Brahman. O que você está estudando? Todo estudo não é nada além de choro. Deixe tudo o que é ser como é, não diga nada e será como é. As escrituras (os Vedas) dizem que você não é nada, então por que você está chamando-se de alguém à força?
Você deve ficar em silêncio, assim como um homem morto. Estar em silêncio como Deus é ser Deus. Brahman é silêncio. Nossos conceitos são nossos inimigos. Não importa o quão grandiosas e ricas sejam suas conquistas, no fim você será insignificante. Todas as suas conquistas não terão utilidade no fim, sendo que você irá morrer com o conceito de que você é um mesquinho indivíduo. Você não pode obter grandeza real sendo um indivíduo. O que quer que você tenha ganhado será destruído na sua frente ou posteriormente e você morrerá como um Jiva mesquinho. Portanto, na realidade você não obtém nada. Mesmo que o Jiva seja realmente uma parte de Deus, mesmo um Deus morre como um Jiva insignificante, pagando as dívidas de suas ações a cada momento com medo em seu coração e sem a realização de sua divindade. Todas as riquezas provam ser inúteis. O que quer que aconteça é ilusão e o que é como é sem se tornar coisa alguma é Brahman. Repetidamente as pessoas viram presas da grande ilusão, tentando fazer algo ou tornar-se algo. O que quer que você possa se tornar é tornar-se algo “diferente” e o diferente é sempre mesquinho. O silêncio é a qualidade dos grandes homens. O que quer que você dê um nome significa um rebaixamento da Realidade, portanto não tente ser alguém.    
Não há autoridade maior do que Brahman. Não toque nada “diferente”. Assim que você toca algo (assume como sendo verdadeiro) isso estraga e você é manchado. Porque você profere palavras dizendo que você é “tal e tal”, Brahman é chamado de um indivíduo. Do que quer que você chame a si mesmo você será chamado pelas pessoas. Você pode chamar-se do que quiser, mas fazer isso significa descender, vir para baixo. É apenas o ouro que é chamado pelo nome de bracelete. Ao dar ênfase ao nome você esqueceu-se da “coisa original”. O ouro jamais tornou-se o ornamento, foi sempre Ouro o tempo todo. Devido ao nome, a coisa original vai para trás de uma cortina, é coberta por um rótulo. A coisa original se torna invisível. O nome é usado e a coisa original é eclipsada. É como se ela ficasse fora de vista e em alguma outra parte. Pelo orgulho do nome ele torna-se importante e seu império se espalha. A coisa original fica encoberta. A ilusão é assim, não existe cabelo na língua, dizer que existe é ilusão. Os objetos dos sentidos dão como frutos dor e pesar e um pouco de prazer. O indivíduo pensa que os objetos são reais e assim sofre dor e prazer. Embora ele seja o Ser, pela força dos desejos e da luxúria torna-se um pequeno indivíduo.
Os três poderes, o de Conhecimento, de Ação e de Matéria são um na totalidade de Brahman. Somente Brahman é aquele que "É" desde o início. Os cinco elementos são todos apenas Brahman. Dentre tudo há apenas Um sozinho. Neste corpo também, é Ele apenas que está aí. Tudo é Ele. Brahman é o Único. 
Se uma jaca é feita de açúcar, todas as suas partes como a casca, os gomos, os caroços são simplesmente açúcar. Similarmente, isso que é chamado de “este mundo” em suas formas numerosas é apenas Brahman. A forma do corpo cresce através do poder de Brahman, é Brahman apenas. Como uma boneca feita de pano, nela, tudo é apenas pano. Similarmente, o corpo é todo apenas o Auto Poderoso Brahman. Ele está em toda a manifestação e é natural. De maneira alguma é perturbado por nenhuma aparência e jamais foi corrompido. O Ghee (a manteiga clarificada) estando no estado sólido ou no estado líquido é sempre apenas Ghee. O ignorante pensa que eles são diferentes; para o sábio o Ghee é o mesmo, seja sólido ou liquido. Entender a nossa “Existência” não corrompida dessa maneira significa conhecer Brahman, o qual permanece puro não poluído por coisa alguma. Se há um cheque de mil rúpias e se há mil moedas de uma rúpia cada, o valor não muda. O desenho e a forma são uma distorção do valor que está por trás. Estar sólido é uma distorção do Ghee. A forma sólida é um resultado cumulativo, um processo de armazenamento.
A “Existência” básica é Brahman apenas. Aquele que diz que Brahman passou por alguma mudança é um estúpido. Brahman não tem pais, não pode ser diminuído e nem aumentado. Ateísmo e Teísmo não têm lugar nele, Ele é sempre como é. Apenas o que é criado tem crescimento e modificação. Se você toma banho nas águas de um rio, o rio não perde nada. A água retorna para o mesmo rio. Os estados de infância, juventude e a velhice são experimentados apenas pelo corpo. Brahman não se torna uma criança, um jovem ou um velho. A pessoa não é nem homem nem mulher, embora esteja no corpo, sua existência é diferente dos estados do corpo. Saiba que você é Paramatman. Mas lembre-se bem que é Ele que está aí e não “você”. Quando isso é confirmado o objetivo é alcançado.     

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Nisargadatta Maharaj - 2, 3 e 6 de outubro de 1979


2 de outubro de 1979

Pergunta: O que é a testemunha? É a mente ou é algo além da mente?
Maharaj: É o conhecedor da mente.
P: Se digo “eu sou”, isso vem da mente?
M: O sentido de ser (beingness) expressa-se através da mente com as palavras “eu sou”.
P: Nos livros dos seus discursos traduzidos para o inglês as palavras destino e justiça são usadas. Elas são o mesmo que o Karma?
M: Justiça é a decisão dada. Destino é o depósito de impressões do qual toda esta manifestação flui. É o princípio do qual você emanou. É algo como o negativo de um filme; a consciência já está presente naquela fonte da qual você emanou e dessa forma o filme está sendo projetado. O que será projetado já está gravado. Assim, quaisquer atividades que aconteçam através desse sentido de ser– o qual é você – são o seu destino. Cada ação ou cada passo que esse sentido de ser irá tomar já estará registrado no filme.
P: São as estrelas que apresentam esse negativo, como dizem alguns astrólogos?
M: Isso é um perjúrio. Nove meses antes de seu nascimento o destino foi criado.
P: Por quem?
M: Ninguém, simplesmente acontece.
P: O negativo existe antes do destino começar? Onde esse negativo é impresso?
M: Esse é um atributo de Mula-Maya (a ilusão primordial).
P: Muitas pessoas acreditam que elas colhem o que plantam, dessa forma em algum momento anterior elas plantaram a estrutura negativa.
M: É apenas boato isso. Você tem alguma evidência disso?
P: Não.
M: Maya é a fonte primária da ilusão. Naquele momento o amor por Ser inicia-se. O “eu sou”, o amor por existir. Sua expressão é toda esta manifestação.
P: Por que algumas pessoas têm mais amor por esse falso ser do que outras?
M: Não é o caso de uma pessoa amar mais do que a outra, o estado de amor está presente e você tem que desfrutar ou sofrer dele. Mesmo quando sofremos nós amamos esse sentido de ser.
P: Quando praticamos o testemunhar isso ocorre conscientemente?
M: O que você quer dizer com praticar o testemunhar? O que você está tentando fazer é intensificar seu próprio sentido de ser. O testemunhar acontecerá automaticamente, mas o Ser deve abrir-se. Ainda antes do testemunhar você é.
P: Maharaj pediu-me para aquietar-me, mas meu estilo de vida dificulta que isso aconteça, meu trabalho tem um monte de pressão e atividade. Você recomendaria que eu mudasse de trabalho?
M: Eu não falo faça isso faça aquilo. Faça o que quiser, saiba apenas que você não é o ator, as coisas simplesmente acontecem. O destino que veio à existência no primeiro dia da concepção está desenrolando-se. Não há nenhuma ação que você possa alegar autoria. Uma vez que você sabe quem você é, esse destino não lhe limita mais.
P: O que as pessoas que morrem fazem para perceber que elas não têm corpo?
M: Nada aconteece, ninguém morre. Os textos sagrados dizem que aqueles que morrem com conceitos indissolvidos irão renascer.
P: Quando renascem eles têm escolha de corpos diferentes ou de ir para a família A ou B?
M: Por que você se preocupa com assuntos alheios a você assim? Concentre em converser a si mesmo que você não é o corpo. Este corpo é feito dos cinco elementos e é realmente um corpo comida, você não tem parte nisso. Este corpo-comida não se refere a você. A força vital, a respiração e o sentido de ser dependem de comida e água. Sem comida e água o sentido de “eu sou” (I amness) fica ausente.
P: Mas o sentido de “eu sou” retorna posteriormente então?
M: Você não é nenhuma dessas coisas. Não há a questão de renascimento.
P: Parece que algo com o nome de comida está pairando no ar. Você pode constituir um corpo a partir disso e se você tiver conceitos errados você aterriza naquele corpo. Na verdade, me parece que está implícito no ensinamento que não existe tal coisa como a comida e o corpo-comida, eles são apenas um conceito.
M: De que nível você está falando agora? Como você entende que o corpo não está aí, que ele vem da mente?
P: Estou compreendendo isso a partir do que Maharaj diz no livro.
M: Você teve essa realização?
P: Se tivesse realizado teria me tornado um Jnani.
M: Exatamente. Até que isso ocorra o corpo nasce da maneira como todos os corpos nascem.
P: Da maneira que as coisas são para nós agora, temos um conceito de um corpo que deveríamos aceitar e não criar um outro conceito de que não existe o corpo?
M: Vá para a fonte. Quem sabe que existe o corpo? Algo é anterior à criação do corpo.
P: Todos os esforços que fazemos a esse respeito têm algum efeito em destruir o sentido de “eu sou”, ou isso é parte do filme? De modo que os esforços que as pessoas pensam que estão fazendo para alcançar o objetivo não têm efeito, está tudo contido naquele filme?
M: Esteja naquela fonte que é a luz por trás da consciência, entenda ela. O que está acontecendo naquele Mula-Maya.
A fita cassete grava o que estou falando, mas o que quer que esteja na fita não sou eu. Do mesmo modo que a voz original não está na fita também você está separado da química, do corpo, do sentido de eu sou, da consciência.
P: A realização está no filme?
M: Não pode estar no filme porque você é o conhecedor daquele filme. Agora pondere sobre o que você escutou e volte as cinco horas.
Essa mente é apenas um acúmulo de pensamentos que estão presentes na manifestação. Todas as suas atividades dependem da mente e a mente depende de todas as suas memórias e daquilo que você ouviu neste mundo.
Estamos absorvendo aquilo que acontece no mundo e estamos olhando para isso do nosso próprio ponto de vista, colocando nossos próprios conceitos nessas coisas. E por essa consciência corpo-mente absorver tudo o que acontece no mundo, nós vamos dando a essa consciência “eu sou”o crédito de ter outras vidas, nascimento, karma, etc. Você aceita certas coisas como virtuosas e boas e rejeita outras como pecaminos e más, mas esses são apenas conceitos que você adquiriu no mundo e não há base para distinção.
P: Ontem Maharaj falou sobre os chakras (centro de energia psíquica no corpo) e sobre brahma-randra. Questiono-me se devemos se devemos nos ater a essas coisas em nossa meditação.
M: Esqueça a respeito dos chakras. Atenha-se ao conhecimento “eu sou” e torne-se um com ele, isso é meditação.
P: Quem é que vai segurar-se no “eu sou”?
M: Quem está fazendo essa pergunta?
P: Estamos aptos a ir além de nossos pensamentos, ou no estado absoluto os pensamentos são apenas parte do filme? E se são, temos apenas que ter paciência com eles?
M: Quem quer ir além dos pensamentos? Quem é esse? Antes da consciência aparecer no estado de vigília, esse é o Absoluto, assim que a consciência aparece os pensamentos surgem. Você não tem que ter paciência com eles, nem descartá-los, apenas conheça-os.
P: Todas as outras coisas que determinam quem você chama de Original, elas não existem?
M: Mas isso é apenas quando você atinge o estado original, quando você é um Jnani.
P: Nós já somos isso.
M: Se fossem não haveriam questões e vocês não estariam aqui.
 

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3 de outubro de 1979

Pergunta: A respeito do filme que Maharaj estava falando ontem, fiquei me perguntado se quando questionamos “quem sou eu?” a resposta é a idéia daquilo que está se sucedendo no filme. Ou seja, “quem sou eu?” e “quem está fazendo isso?” estão conectados no filme. Isso é correto?
Maharaj: Desde que o sentido de ser (beingness) apareceu sobre você, o que quer que esteja sendo feito através desse conhecimento (beingness) é inteiramente o resultado dos cinco elementos operando através de você e através de qualquer conhecimento de “eu sou” que você tenha recebido desses elementos. O “eu sou” é anterior ao “conhecimento eu sou”, mas isso que está operando através do conhecimento no momento – essa personalidade que você assumiu para si – é o resultado da essência da comida que vem dos cinco elementos. A menos que você estiver absolutamente quieto e que se estabileze no “conhecimento eu sou” esse resultado das atividades mundanas irão separar-se do “eu sou”. Você deve estabilizar-se ali primeiramente.
P: A testemunha é uma parte do filme testemunhando parte do filme?
M: Assim que o “eu sou” aparece em você quando você desperta, ele é a testemunha, mas depois desse momento toda a manifestação vem dentro da visão do“eu sou” e ele testemunha toda a manifestação.
Depois do sono profundo, assim que a consciência do “eu sou” alvorece em você – essa é a testemunha. Antes daquele momento você não sabia que você era, não havia testemunha, nem conhecimento do “eu sou”.
Você teve evidência de que você é assim que a consciência apareceu em você, mas assim que a evidência foi recebida essa consciência apegou-se ao corpo. Assim que o “eu sou” apegou-se ao corpo ele teve de comportar-se de acordo com os pensamentos que estavam aparecendo nesta manifestação. Chamos isso de disposição ou mente.
P: O “eu sou” – o conceito primordial – é que está testemunhando ou esse testemunhar é um aspecto, como o testemunho impessoal?
M: A consciência é para mim ou para você um corpo individual. Eu digo que eu estou consciente, você diz que você está consciente; entretanto, separado dessa consciência há um princípio que está ciente dessa consciência.
P: Portanto, é o estado original que é a testemunha da consciência, mas isso não é algo pessoal. Na condição original Maharaj diz que testemunhar não requer esforço, acontece automaticamente.
M: O que quer que exista é a consciência, esse é todo o capital que temos. Uma vez que essa consciência é limpa de qualquer coisa, você atinge o estado original automaticamente. Mas se você quer saber o que esse estado é, todo esse conhecimento estará lá. Porque para saber qual é o seu estado original você deve compreender e você deve abandonar essa auto-identificação com o corpo.
Enquanto você se identificar com o corpo-mente você será condicionado. Uma vez que você se estabiliza no conhecimento “eu sou” incondicionalmente, você torna-se a “eu sou ência” (I amness) manifesta – não mais um indivíduo. Nos estado manifesto de “eu sou ência” (I amness) não existe a questão de você fazer, porque você não é mais um indivíduo. O que quer que aconteça, acontece na sua consciência.
O que quer que aconteça através disto, você também sabe que irá acontecer, mas não há a questão de fazer ou de ser coisa alguma.
Da água da chuva coisas boas e coisas ruins crescem, nenhum pecado é atribuído à água da chuva pelo crescimento de coisas ruins e nenhum mérito pelas coisas boas. Onde está a questão do renascimento para a água da chuva e onde está o pecado ou o mérito para a água da chuva?
P: O “eu” e o “eu sou” sem palavras não são o eu do qual pensamos?
M: Antes de nomeá-lo você já sabe que você é. Nesse estágio tudo é o seu Ser, incluindo a sujeira, o sol e a lua. Esse é o Ser. Tudo é manifestação sua, mas você está ainda além disso.
Um passo adiante agora: a consciência significa este mundo, esta manifestação, a “eu sou ência”, o sentido de ser, de existência (beingness). Esta consciência tem todas as cores, é ampla, repleta, infinita. Eu, o Absoluto, não sou a terra, o fogo, a água, o ar nem o espaço. Sou imaculado, não sou tocado por nada. Mas se considerarmos “Eu” como a “eu sou ência” – o sentido de existência – então toda esta manifestação sou eu e nesta “eu sou ência manifesta" também não sou tocado por nenhum pecado ou mérito.
P: Gostaria de saber por que a concepção é mais importante do que qualquer outro momento para determinar o futuro.
M: A concepção é o momento onde, inadvertida e espontaneamente, a fotografia dos pais é tirada, juntamente com a situação do mundo naquele momento.
P: O budismo tibetano afirma que é só talvez no terceiro ou quarto mês que a alma entra no últero.
M: O que é o útero?
P: A idéia não é minha. Estou apenas repetindo o que ouvi.
M: Todo este mundo manifesto é uma combinação dos cinco elementos. Estamos nos cinco elementos, fazemos parte dos cinco elementos, toda a peça desenrola-se nos cinco elementos.
P: Quando surgiram os cinco elementos?
M: Naquela ocasião não havia o tempo.
P: Não podemos vencer!
M: Não tente.
P: Quem concebeu os cinco elementos, seja dentro ou fora do tempo?
M: Aquele conceito primordial, Mula-Maya, a fonte da ilusão. Quem concebeu todas estas casas e prédios? O conceito mental.

Pergunta: A consciência e a testemunha são a mesma coisa?
Maharaj: Para qualquer coisa que seja visível a consciência é a testemunha. Porém existe um outro princípio que testemunha a consciência e esse princípio está além do mundo.
P: Como você testemunha a consciência?
M: Como você testemunha o fato de que você está sentado? É com esforço ou sem esforço?
P: Sem esforço.
M: Da mesma forma. Onde quer que você coloque esforço isso acontece do ponto de vista corporal. O conhecimento “eu sou” é a alma do mundo todo. A testemunha do conhecimento “eu sou” é anterior ao conhecimento “eu sou”.Tente entender-se a si mesmo como você é, não adicione nenhuma qualificação. Você quer fazer algo do mesmo modo que você prepara seus alimenos com vários ingredientes. O testemunhar ou esse awareness é assim como você observa o seu sono profundo. Igual.
P: Eu não entendo.
M: Isso não é compreensível. Você deve contemplar a si mesmo. O que quer que surja na tela de sua contemplação certamente desaparecerá. O contemplador permanece.

 
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6 de outubro de 1979
 
Pergunta: Como sabemos qual é o primeiro filme?
Maharaj: O primeiro filme é quando a faculdade de conhecer (de estar ciente) aparece em você. Naquele conhecimento ‘eu sou’ tudo está contido.
P: Mas o que quero dizer é que nós nascemos e depois morremos. Quero saber agora se teremos a memória disso?
M: De acordo com sua própria experiência essa faculdade de conhecer, esse sentido de eu sou, foi o primeiro a aparecer ou apareceu depois de algo?
P: Para mim ele é o primeiro.
M: Isso é tudo que você tem que tomar como garantido. Jogue fora tudo que você escutou ou ouviu. Diga-me apenas o que for da sua própria experiência.
Certa vez, uma pessoa me disse que me conhecia já há onze vidas. Eu disse a ela: “Esse é um conceito seu. Eu não lhe conheço.” Eu não tenho fé em nada a menos que eu tenha experimentado aquilo por mim mesmo.
P: Existe violência por toda a parte, guerras e todos os tipos de horrores. Ansiamos por nos separar disso e ao mesmo tempo estamos unidos a isso.
M: Ninguém foi capaz de mudar Maya. Apenas observe, sem aceitar ou rejeitar. A solução poderá existir quando você residir no seu Ser. Investigue como você veio a existir.
P: Porque fui criado pelos meus pais.
M: Isso apenas nesse filme; no momento quando o filme começou a conhecer a si mesmo, o “eu sou”; foi aí que você veio a conhecer tudo isso. Você conhecia alguma coisa anteriormente?
P: Não havia nada.
M: Exatamente. Isso o que você tem de entender. Dirija sua questão para o “quem sou eu?” e “o que sou eu?”
Havia um homem que tinha o hábito de beber chá todas as manhãs as cinco horas. Infelizmente, aquele princípio abandonou seu corpo as três. Aquele corpo morto vai querer chá as cinco? Vocês não tocam em áreas que deveriam ponderar, mas querem saber tudo sobre as outras áreas que são apenas uma fase passageira.
P: Não deveríamos mudar para podermos estar aptos a obter esse conhecimento?
M: Você não é aquele que muda. O que muda é a sua mente, seu intelecto e seu corpo. Quando você vem aqui e escuta, você é inspirado a pensar internamente, posteriormente sua natureza muda. O mais importante é escutar e ao escutar essas palavras sábias, gradualmente a mente irá mudar.
Aquele conhecimento “eu sou” é nascido do amor, mas a ilusão apoderou-se dele tanto que o amor pelo sentido de ser (I am-ness) foi para o pano de fundo. Permanecer com ele ficou cada vez mais difícil. Antes do sugimento da manifestação o amor era total.
P: O “eu sou” é identico à consciência?
M: Sim, mas esse “sentido de eu sou”(I am-ness) estará presente apenas enquanto o combustivel durar.
P: O combustivel, em ultima instância, deve ser o amor.
M: Sim. Esse amor permeia a tudo. Estas flores são uma expressão do meu amor. O desabrochar das flores não é uma expressão de amor do individuo, mas uma expressão universal de amor.
P: Como o movmento se iniciou?
M: Não há motivo, causa, propósito. Está acontecendo espontaneamente.
P: Maya é do ponto de vista do primeiro movimento ou do ponto onde as formas são criadas?
M: Tudo está contido dentro desta consciência, o show todo.
P: Até mesmo a aparição da própria ilusão?
M: Sim, tudo é ilusão. Sua convicção de que você nasceu é uma ilusão.
P: Quem é a vítima da ilusão e quem será libertado dela?
M: O conhecimento de que você é, é a vítima e é ele que será libertado.
Um fazendeiro semeia e colhe a produção. Ele cria e ele consome. Ilusão, Maya ou Brahma são todos nomes seus. Quem é libertado e que é aprisionado? Você apenas.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Tilopa - Instruções orais sobre o Mahamudra


(Tilopa, Índia 988 - 1069)

1. Por respeito à linhagem que desenvolveu estas instruções para combater um oceano de sofrimento em Samsara, deixe-me despejar essa visão em suas mentes, meus amigos.
2. Embora o Mahamudra não seja algo que eu realmente possa explicar.
Apenas deixe fluir e mantenha este ponto de vista da mente, sem estratégias de meditação artificiais e sem conceitualização.
Da mesma forma que o espaço em si não tem nenhuma substância, a verdadeira natureza da mente, Mahamudra, também não tem nenhuma substância que possa servir como um suporte sobre o qual se concentrar.
3. Não se apegue a nada conforme eu falo e não haverá dúvida, a liberação virá. Tome essa Visão como se você estivesse olhando diretamente para a própria consciência (awareness), como o espaço,  como se você não estivesse tentando ver, porque a partir desse ponto de vista a consciência vê a si mesma através de si mesma. E quando todas as tentativas de conceituar cessarem, você alcançará o despertar perfeito.
4. As nuvens flutuam pelo espaço, mas não vão ou ficam em lugar algum. Da mesma forma, a conceitualização surge na mente, mas do ponto de vista da natureza real da mente, os pensamentos são como ondas que se tornam calmas.
5. Assim como o espaço não tem cor, não tem forma, não tem escuridão nem luz e é imutável, também a verdadeira natureza da mente não tem cor, nem forma, nem é tingida pela escuridão do mal, nem pela luz das ações virtuosas.
6. Por milhares de éons o sol que brilha todos os dias nunca foi encoberto pela escuridão. Da mesma forma, a verdadeira natureza da clara luz da consciência da mente nunca foi encoberta pelo ciclo de Samsara.
7. Você provavelmente vai criar conceitos sobre a mente de muitas maneiras,
chamando-a de espaço "vazio" ou "luz clara", mas você não pode realmente explicar isso em palavras. Essa mente é ... insubstancial e as palavras não farão o despertar acontecer.
8. A verdadeira natureza da mente está sempre bem aqui, sem começo, sem fim, como o vasto espaço que satura todas as coisas! Portanto, meus queridos amigos, parem agora de fazer qualquer coisa para acertar a sua postura corporal, calem a boca, fiquem quietos e não pensem em coisa alguma. Apenas tome este ponto de vista como o ensinamento além de todas as práticas.
9. O corpo não tem substância, como o interior oco de uma haste de bambu.
A mente, como o próprio espaço, está além de qualquer objeto de meditação pretendido. Sendo assim, abandone quaisquer estratégias artificiais de meditação. Deixe de meditar e quando essa mente refletir a si mesma para si mesma, bem aqui será o despertar do Mahamudra.
10. Você não verá a luz clara do Mahamudra ao entoar mantras, lendo os textos de sabedoria ou sutras sobre o vazio ou praticando preceitos éticos.
Enquanto a mente ordinária incessantemente reage ao afastar-se de práticas que ela não gosta e mover-se em direção a práticas que gosta, você permanecerá obscurecido e não verá a luz clara do despertar do Mahamudra.
11. Ter idéias sobre como você costuma manter seus votos, tentando conceituar como você poderá despertar, só lhe fará desviar desta Verdade.
Esta Verdade está além da reatividade da mente movendo para longe ou para perto de qualquer coisa.
Não particularize nada e o que quer que pareça surgir por si mesmo imediatamente se tornará calmo por si mesmo, e assim, a mente permanecerá como uma piscina de água sem movimento.
12. Nunca deixe Aquilo, mas não permaneça Nele também e não tente representá-Lo. Simplesmente jure nunca mais deixá-Lo e nada vai ofuscar as chamas do despertar! Além da reatividade da mente ordinária se aproximando e se afastando, sem tentar ficar, nem mesmo tentar vê-Lo, você verá tudo o que há para ser visto!
13. Realize uma meditação examinadora agora sobre a Verdade e você vai se libertar da prisão de Samsara. Então, em sua meditação-samadhi, agora, as chamas dessa Verdade queimarão todo o Karma ruim e todos os obscurecimentos.
Aqueles que são incapazes de apreciar essa Verdade são lançados no mar de Samsara.
14. Esses seres tolos que continuamente são pegos em estados negativos de miséria e tristeza, todas essas pessoas tristes que desejam ser livres, precisam apenas depender dos apontamentos e instruções do professor.
15. Então, meus amigos, tudo o que existe dentro de Samsara é apenas a causa do sofrimento, não a causa da Verdade. A essência deste ensinamento é: não fazer nada que não seja tomar o ponto de vista daquela que é a essência da Verdade.
16. O Rei de todas as visões: Ir além da dualidade do sujeito / objeto.
O Rei das meditações é: Manter este ponto de vista ininterruptamente.
O Rei das práticas é: Não fazer nada. Não procurar por nada. Não ter qualquer expectativa de ganho ou medo de fracasso e sua realização virá a ser concretizada diretamente.
17. Então, mova-se agora para além de qualquer objeto de meditação pretendido para a natureza real da consciência da mente auto-iluminando a si mesma para si mesma.
Não há caminho para trilhar... e você já está defrontando-se com a Mente-Buda como sendo a sua própria mente. E quando você está familiarizado com o que é meditar dessa forma, sem qualquer objeto de meditação pretendido e a meditação estiver perfeita, você então despertará!
18. Portanto, meus amigos, por favor entendam bem. Tudo o que parece existir neste mundo é impermanente, como uma miragem ou um sonho e, sendo assim, miragens e sonhos não são a Verdade.
19. Desse modo, pelo menos por agora deixe de lado as atividades cotidianas, quebre a conexão com as experiências sensoriais ordinárias. Elas só geram mais desejo e aversão. Resida nas florestas ou nas montanhas e medite. No entanto, acima de tudo permaneça nesse ponto de vista da não-meditação e quando você não tentar alcançá-lo, você atingirá o despertar do Mahamudra.
20. As folhas e galhos de uma árvore murcham e caem quando suas raízes são cortadas. Da mesma forma, corte as raízes da mente e as folhas e galhos de Samsara se acabarão.
21. A menor lâmpada pode eliminar a escuridão que se acumulou durante milhares de eras. Da mesma forma, uma única chama da luz clara da consciência da mente auto-iluminando-se para si mesma, em um único instante, elimina toda a ignorância, os obscurecimentos e as impurezas que se acumularam por eras.
22. Sendo assim, meu amigo, não crie conceitos a esse respeito ou você não verá a Verdade que está além de toda conceitualização. Não se envolva em quaisquer estratégias de meditação artificiais ou você não verá a Verdade que está além de todas as ações. Portanto, se você quer essa Verdade, ela está além de toda conceitualização e de todas as estratégias de meditação artificiais.
23. Use sua espada de vazio por toda parte e corte a raiz, mantendo o ponto de vista sempre renovado. Purifique a água barrenta da conceitualização até que fique clara. Afrouxe para que você deixe qualquer coisa que surja nascer no seu próprio direito [auto-contentadamente]. Não faça nada. Não faça nada acontecer, nem evite que algo aconteça.
24. Não se agarre a nada, nem deixar nada passar e bem aqui estará o despertar do Mahamudra e você será libertado de Samsara.
Tudo o que obscurece, até mesmo as mais sutis propensões cessam.
A mente desperta, sempre aqui, auto-ilumina o depósito de todas as experiências potenciais.
25. A liberação completa de todas visões extremas. Esta é a visão Suprema. Abrangente, profunda e sem limites. Esta é a meditação Suprema.
Além de qualquer intenção ou exclusão. Esta é a prática Suprema. Além de todas as expectativas de resultado ou medo do fracasso, a mente liberta a si mesma. Esta é a realização Suprema.
26. Primeiramente, o despertar da mente é como uma cachoeira em movimento rápido. Em seguida, flui suavemente como o vasto Ganges, e, finalmente, é um grande oceano em que a criança da consciência individual e a consciência mãe do dharmakaya fluem uma para a outra.
27. Para os menos inteligentes que não podem ficar continuamente no ponto de vista da sabedoria desperta uma vez que tenham sentido o gosto disso, vocês podem mais uma vez concentrar na respiração e destilar o néctar da consciência com muitas práticas de concentração e quando a sua concentração estiver forte novamente, acima de tudo aprenda a segurar o ponto de vista da própria consciência.
28. Se você tomar esse ponto de vista como o seu suporte, a Sabedoria desperta surgirá, seu brilho, seu vazio.
Através da capacitação, entrando em samadhi e então no insight, as sementes dessa Sabedoria Desperta serão suavemente atraídas para a mandala em seu coração e depois se manifestarão em vários locais de seu corpo, por fim saturarando todo o seu ser. Quando você não quiser agarrá-la, a Sabedoria Desperta surgirá, seu brilho, seu vazio.
29. Você vai parecer não ter idade e  ser saudável como a lua crescente.Você se tornará radiante. Parecerá ter a força de um leão e todos os poderes ordinários e especiais de um Buda irão florescer. Este é o meu conselho oral para vocês, meus amigos, sobre a essência do despertar do Mahamudra. Deixe-o ficar ininterruptamente em seu coração e nos corações de todos os seres sencientes!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Philokalia - São Maximos, o Confessor - Da ilusão para a Verdade

Deus, que criou toda a natureza com sabedoria e que plantou secretamente em cada ser inteligente o conhecimento de Si mesmo como seu primeiro poder, como um generoso Senhor deu a nós homens um desejo natural e um anseio por Ele, combinando-o de uma maneira natural com o poder de nossa inteligência. Usando nossa inteligência, lutamos para aprender com tranquilidade e sem nos desviarmos, a como atender esse desejo natural. Impelidos por isso somos levados a buscar a verdade, a sabedoria e a ordem manifestas harmoniosamente em toda a criação, aspirando atingir através delas Aquele de quem recebemos (através da graça) esse desejo.
O mundo é um lugar finito e possui uma estabilidade limitada. O tempo é um movimento circunscrito. E segue-se que o movimento das coisas vivas dentro do tempo está sujeito a mudanças. Quando a natureza vai além do tempo e do espaço de maneira interna e ativa - ou seja, quando ela vai além daquelas coisas que sempre acompanham os seres criados, como, por exemplo, um estado de estabilidade limitada e de movimento limitado – ela se une diretamente à Providência e encontra na Providência um princípio que por natureza é simples, estável, sem limitações e, portanto, completamente sem movimento.
Uma vez que a natureza existe no mundo de um modo temporal, seu movimento está sujeito à mudança por causa da estabilidade limitada do mundo e de seu compromisso com a alteração e a corrupção através da passagem do tempo. Quando a natureza vem a existir em Deus através de sua unidade essencial com Aquele no qual ela foi criada, ela passa a possuir uma estabilidade provida sempre de mobilidade e de uma forma de movimento estável e imutável gerado eternamente ao redor daquilo que é um, único e sempre o mesmo.
Nosso Senhor é verdadeiramente uma luz para os gentis (ref. Isa. 49-6) – através do verdadeiro conhecimento Ele abre os olhos de suas mentes, fechados por terem estado na escuridão da ignorância. Ademais, através de Sua conduta divina Ele tornou-se um nobre exemplo de virtude aos fiéis, tornando-se um modelo e padrão. Olhando para Ele como o autor de nossa salvação, nós atingimos as virtudes ao O imitarmos em nossa conduta, na medida em que for possível para nós.
Nosso intelecto possui o poder de apreensão através do qual ele percebe as realidades inteligíveis; ele também possui a capacidade para a união que transcende sua natureza e que o une com aquilo que está além de seu escopo natural. É através dessa união que as realidades divinas são apreendidas, não por meio de nossas capacidades naturais, mas em virtude do fato de que transcendemos completamente a nós mesmos e pertencemos inteiramente a Deus. É melhor pertencer a Deus do que a nós mesmos, pois é sobre aqueles que pertencem a Deus que os dons divinos são outorgados.
Assim como a ignorância divide aqueles que estão iludidos, a presença da luz espiritual une e aproxima aqueles a quem ela ilumina. Ela torna-os perfeitos e trazem-nos de volta para aquilo que realmente existe; converte-os de uma multiplicidade de opiniões unindo seus pontos de vista variados, ou melhor, suas fantasias, em um conhecimento espiritual puro, simples e verdadeiro preenchendo-os com uma luz unificadora.
O conhecimento espiritual une o conhecedor com o conhecido, enquanto a ignorância é sempre uma causa de mudança e auto divisão no ignorante. Portanto, nada, de acordo com as escrituras, mudará aquele que crê a partir do alicerce de sua fé verdadeira, onde reside a permanência de sua identidade imutável e inalterável. Pois aquele que foi unido com a verdade tem a segurança de que tudo está bem consigo, mesmo que a maioria das pessoas repreendem-no por estar fora de si. Pois sem que notem ele moveu-se da ilusão para a verdade da fé real e ele sabe com certeza que não corre nenhum risco, tal como dizem as pessoas, mas que através da verdade – simples e imutavelmente a mesma – ele foi libertado das agitações flutuantes e volúveis das múltiplas formas da ilusão.
A função da filosofia prática é purificar o intelecto de todas as fantasias veementes. A função da contemplação natural é a de iniciar o intelecto no conhecimento verdadeiro que é encontrado nas coisas criadas de acordo com o qual elas possuem existência. A função da teologia mística  é de através da graça tornar o intelecto semelhante a Deus e igual a Ele, na medida do possível, de modo que ele fique totalmente alheio a qualquer coisa além de Deus devido a seu estado transcendente.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Santo Isac, o Sirio - O Pão Celestial


Ofereço louvor à sua natureza sagrada, Senhor, pois Você fez minha natureza um santuário para seu ocultamento e um tabernáculo para seus santos mistérios, um lugar onde Você pode habitar e um templo sagrado para Sua divindade.
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Bendito seja Deus que usa continuamente objetos corpóreos para atrair-nos de uma maneira simbólica para perto de um conhecimento de natureza invisível de Deus. Ó nome de Jesus, a chave para todos os dons, abra para mim a grande porta para a casa do Tesouro, para que eu possa entrar e louvá-lo com o louvor que vem do coração.
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Entre ansiosamente na casa do tesouro que reside dentro de você e dessa forma você verá a casa do tesouro do céu: pois as duas são a mesma e há apenas uma entrada para ambas. A escada que conduz ao Reino está oculta dentro de você e é encontrada na sua própria alma. Mergulhe dentro de você mesmo e na sua própria alma você descobrirá os degraus pelos quais ascender.
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O que é um coração compassivo? É um coração em chamas por toda a criação, pela humanidade, pelos pássaros, animais, pelos demônios e tudo o que existe. Pela lembrança deles os olhos de uma pessoa misericordiosa derrama lágrimas em abundância. Pela misericórdia forte e veemente que aperta o coração de tal pessoa e por tal grande compaixão, o coração é tornado humilde e a pessoa não pode suportar ouvir ou ver qualquer injúria ou dor, por menor que seja, na criação. Por essa razão, tal pessoa oferece continuamente uma chorosa oração, mesmo para as bestas irracionais, os inimigos da verdade e para aqueles que prejudicam-na, para que eles sejam protegidos e recebam misericórdia. E da mesma forma, tal pessoa reza para a família dos répteis por causa da grande compaixão que queima sem medida em um coração que é a semelhança de Deus.
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Quando encontramos o amor, compartilhamos do pão celestial e somos fortalecidos sem trabalho e labuta. O pão celestial é Cristo, que desceu do céu e deu vida ao mundo. Esse é o alimento dos anjos. A pessoa que encontrou o amor come e bebe Cristo a cada dia e a cada hora e é assim tornada imortal.
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Quando ouvimos Jesus dizer: "Deveis comer e beber na mesa de meu Reino", o que iremos supor que devemos comer se não amor? O Amor, em vez de comida e bebida, é suficiente para alimentar uma pessoa. Esse é o vinho "que faz feliz o coração." Bem-aventurado é aquele que partilha desse vinho! Pessoas licenciosas beberam esse vinho e tornaram-se castas; os pecadores beberam e esqueceram os caminhos do erro; bêbados beberam esse vinho e se tornaram jejuadores; os ricos beberam-no e desejaram a pobreza, os pobres beberam-no e foram enriquecidos com esperança; os doentes beberam-no e tornaram-se fortes; os incultos tomaram-no e tornaram-se sábios
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No amor Deus trouxe o mundo à existência; no amor Deus irá trazê-lo para aquele maravilhoso estado transformado e no amor o mundo será engolido no grande mistério Daquele que criou todas essas coisas; no amor todo o curso da governança da criação será por fim envolto.
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A pessoa que vive no amor colhe os frutos da vida de Deus e enquanto ainda neste mundo, mesmo agora respira o ar da Ressurreição. 
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O paraíso é o amor de Deus, aonde está o desfrute de todas as Bênçãos.

domingo, 2 de setembro de 2012

G. I. Gurdjieff - Fontainebleau, 24 de maio de 1923

Existem dois tipos de amor. Um é o amor de um escravo, o outro é o que precisa ser adquirido através do trabalho. O primeiro não tem valor de maneira alguma, apenas o segundo tem valor, isto é, o amor adquirido através do trabalho. Esse é amor do qual a religião fala a respeito. Se você ama quando “isso”* ama, isso não depende de você e não tem mérito algum. É o que chamamos de amor escravo. Você ama mesmo onde você não deveria amar. As circunstâncias fazem-no amar mecanicamente.
O amor real é Cristão, o amor religioso – ninguém nasce com esse amor, a pessoa deve ser treinada especialmente nele. Alguns são treinados desde a infância, outros mais velhos. Se alguém possui esse amor, significa que ele o adquiriu durante sua vida. Mas é muito difícil aprender esse amor. E é impossível começar a aprendê-lo de maneira direta, nas pessoas. Cada homem toca o outro no ponto fraco, o atrapalha, da pouca chance a ele de exercitar.
O amor pode ser de tipos diferentes. Para entender que tipo de amor estamos falando a respeito e necessário definí-lo. Agora falamos do amor da “vida”. Em toda parte há vida, começando com as plantas (pois elas também têm vida) e os animais – em suma, onde quer que exista vida há amor. Toda a vida é uma representação de Deus. Aquele que vê a representação verá Aquele que é representado. Toda vida tem amor e é sensível ao amor. Até mesmo as coisas inanimadas tais como as flores, que não tem consciência, entendem se você as ama ou não. Até mesmo a vida inconsciente reage de uma maneira correspondente a cada homem e reage a ele de acordo com suas reações.
De acordo com como você planta, você irá colher e não apenas no sentido de que se você planta trigo você colherá trigo. A questão é COMO você planta. Mesmo de maneira literal isso é um fato, por exemplo, com a relva. Suponha que pessoas diferentes plantem as mesmas sementes no mesmo solo – os resultados serão diferentes. Mas essas são apenas sementes o homem, inconscientemente, é muito mais sensível ao que é plantado em si. Os animais também são muito sensíveis, embora menos do que o homem. Por exemplo, a pessoa X é designada para cuidar de alguns animais. Muitos ficam doentes e morrem, as galinhas botam menos ovos, etc. Até mesmo uma vaca irá dar mais leite se você amá-la. A diferença é realmente surpreendente.
O homem é mais sensível do que uma vaca, porém inconscientemente. E é assim se você sente simpatia ou antipatia, ou se você odeia outra pessoa, é apenas porque essa outra pessoa igualmente planta algo ruim contra você. Aquele que deseja aprender a amar o próximo deve começar praticando o amor em relação às plantas e aos animais. Começa logo de primeira tentando amar um homem é impossível, porque o outro homem é igual a você e ele vai repulsar o seu esforço. Mas um animal irá pacata e silenciosamente se resignar, portanto é mais fácil começar a praticar nos animais. Aquele que não ama a vida não ama a Deus.
É muito importante para um homem que trabalha sobre si mesmo entender que nenhuma mudança pode ser esperada nele até que ele mude sua atitude para com o mundo externo. Em geral, você não sabe o que deve ser amado o que não deve ser amado. Embora existam coisas objetivas que devemos amar ou que devemos não amar. Portanto, é mais produtivo e prático esquecer a respeito de bom e ruim e começar a agir apenas quando você tiver aprendido a escolher por você mesmo.
Se você quer trabalhar sobre si mesmo, você deve adquirir mais e mais atitudes variadas. Exceto em coisas grandes e que claramente são inegavelmente ruins, você deve treinar-se, por exemplo, se você gosta de rosas, tente não gostar delas, se você não gosta tente gostar. É melhor começar com o mundo das plantas. Tente a partir de amanhã com as plantas, tente olhar para elas de uma maneira que você não tenha feito ainda. Cada pessoa é atraída por certas plantas e repelida por outras. Vocês não tinham notado isso até então. Primeiramente, você deve tentar olhar bem para a planta, depois tentar analisar e entender o porquê dessa atração ou aversão está ali. Tenho certeza que ninguém percebe ou sente isso. A mente não vê um processo que é genuinamente subconsciente. Se você começar a olhar conscientemente, você verá muitas coisas e descobrirá muitas Américas. As plantas têm as mesmas relações mútuas que existem entre os homens e certas relações existem também entre as plantas e os homens, que mudam de tempos em tempos. Toda a vida está conectada. Por vida quero dizer tudo que vive, todas as coisas dependem umas das outras.
As plantas afetam os humores de um homem e o os humores de um homem afetam o humor das plantas. Enquanto vivermos devemos fazer experimentos. Até mesmo flores vivas num vaso irão morrer por causa de um humor artificial.         

 
*Referência à maquina (termo utilizado por Gurdjieff para se referir ao organismo físico)

sábado, 30 de junho de 2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Meher Baba - Trechos do livro "The Everything and the Nothing"


            O amante e o Amado

Deus é amor. E o amor deve amar. E para se amar deve haver um amado. Mas como Deus é Existência infinita e eterna, não há ninguém para Ele amar além Dele mesmo. E para poder amar a Si mesmo ele deve imaginar-se como o amado a quem Ele como o amante imagina amar. A relação amado e amante implica separação. E a separação cria anseio e o anseio resulta em procura. E quanto mais ampla e intensa é a procura maior será a separação e mais terrível será o anseio. Quando o anseio é o mais intenso a separação está completa e a finalidade da separação, que tinha a finalidade de permitir que o amor pudesse experimentar a si mesmo como o amante e o amado, é cumprida; e a União é o que resulta. E quando a União é atingida, o Amante vem a saber que o tempo todo ele próprio era o Amado a quem ele amou e com quem desejou a União e que todas as situações impossíveis que Ele superou eram obstáculos que Ele mesmo colocou no caminho para Si mesmo.  Atingir a União é tão incrivelmente difícil porque é impossível tornar-se o que você já é! A união não é nada além do conhecimento de si mesmo como o Sujeito Único. 

O vinho e o Amor 

Os poetas-mestres Sufi frequentemente comparam o amor com o vinho. O vinho é a figura mais apropriada para o amor porque ambos intoxicam. Mas enquanto o vinho causa o auto-esquecimento, o amor leva à auto-realização (A realização do Ser).  O comportamento do bêbado e do amante são semelhantes; ambos ignoram os padrões de conduta do mundo e são indiferentes à opinião do mundo. Mas há mundos de diferença entre o curso e o objetivo dos dois: um leva à escuridão subterrânea e à negação; o outro dá asas à alma para seu vôo para a liberdade. A embriaguez do bêbado começa com um copo de vinho que exalta seu espírito e afrouxa suas afeições e dá-lhe uma nova visão da vida que promete um esquecimento de suas preocupações diárias. Ele passa de um copo para dois copos, para uma garrafa; do companheirismo para o isolamento, do esquecimento ao oblívio — esquecimento, que, na realidade, é o estado Original de Deus, mas que, com o bêbado, é um estupor vazio — e ele dorme em uma cama ou uma sarjeta. E ele desperta em um amanhecer de futilidade, um objeto de repulsa e ridículo para o mundo. A embriaguez do amante começa com uma gota do amor de Deus que lhe faz esquecer o mundo. Quanto mais bebe mais perto ele se aproxima de seu Amado e mais indigno do amor do Amado ele se sente. E ele anseia sacrificar sua própria vida aos pés de seu Amado. Ele também não se importa se dorme em uma cama ou em uma sarjeta e torna-se um objeto de ridículo para o mundo; mas ele repousa em êxtase e Deus, o Amado, cuida do seu corpo fazendo com que nem os elementos e nem doença alguma possam tocá-lo. Um dentre os muitos amantes desse tipo vê Deus face a face. Então, seu anseio torna-se infinito. Ele é como um peixe jogado na praia, pulando e se contorcendo para recuperar o oceano. Ele vê Deus em toda parte e em tudo, mas não pode encontrar o portão da União. O Vinho que ele bebe transforma-se em fogo no qual ele queima continuamente numa bem-aventurada agonia. E o fogo torna-se eventualmente o Oceano da Consciência Infinita, no qual ele se afoga. 

Deus tem vergonha de estranhos 

Deus existe. Se você está convencido da existência de Deus, então cabe a você procurá-Lo, vê-Lo e perceber-Lo.  Não procure por Deus fora de você. Deus só pode ser encontrado dentro de você, pois sua única morada é o coração.  Mas você tem enchido Sua morada com milhões de estranhos e Ele não pode entrar, pois ele é tímido com estranhos. A menos que você esvazie sua morada desses milhões de estranhos com os quais você preencheu-a, você nunca irá encontrar Deus. Esses estranhos são seus velhos anseios — seus milhões de desejos. Eles são estranhos a Deus porque os desejos são uma expressão de incompletude e são fundamentalmente estranhos Àquele que é todo-suficiente e que não deseja nada. A honestidade em suas relações com os outros irá limpar os estranhos para fora de seu coração.  Então você vai encontrá-Lo, vê-Lo e perceber-Lo. 

Eu sou a Infinita Consciência 

Acredite que eu sou o Antigo. Não duvide disso nem por um momento. Não há nenhuma possibilidade de eu ser alguém mais. Eu não sou este corpo que você vê. É só um casaco que coloco quando venho visitá-los. Eu sou a Consciência Infinita. Eu sento com vocês, brinco e riu com vocês, mas estou trabalhando simultaneamente em todos os planos de existência.  Perante a mim estão os santos e os mestres e santos perfeitos das fases iniciais do caminho espiritual. Eles são formas diferentes de mim. Eu sou a Raiz de cada um e de cada coisa. Um número infinito de ramos brotam de mim. Trabalho através de cada um e sofro em cada um de vocês e para cada um de vocês. Minha felicidade e meu infinito senso de humor sustentam-me em meu sofrimento. Os incidentes divertidos que acontecem aliviam meu fardo. Pense em mim; mantenha-se alegre em todos os seus desafios e eu estarei com você ajudando-lhe.