segunda-feira, 30 de abril de 2012

Bhagavan Ramana Maharshi - História de uma Discípula


Rajapalayam Ramani Ammal: Quando eu era bem jovem, por volta dos dezoito anos de idade, Bhagavan apareceu para mim em um sonho. No sonho Bhagavan caminhava em minha direção, eu podia ver até um Shivalinga no sonho. Antes disso, krishna costumava aparecer nos meus sonhos com frequência, mas dessa vez era uma pessoa que eu nunca tinha visto antes; fiquei cativada por tê-lo visto. A deidade de nossa família era Vishnu e costumávamos oferecer Puja para Vishnu e para Krishna, entretanto ver  o Shivalinga no sonho me deixou intrigada. Naquela época eu não podia entender o sonho. Mas daquele momento em diante minha mente mudou, tendo sido muito covarde desde a infância eu não podia nem mesmo andar até a porta de casa a noite. Mas depois de ter sonhado com o darshan de Bhagavan, o medo que me perseguia abandonou-me.
Foi só aos vinte anos que consegui um livro de Bhagavan. Era o Ramanavydia. Simplesmente ao tocar no livro perdi a consciência do corpo, meu corpo todo ficou dormente e foi com grande dificuldade que consegui voltar e sentar ao lado de minha amiga, percebendo meu estado ela comentou: ‘você não deveria ler todos os tipos de livros. Os membros de sua família ficarão zangados com você, não precisa ler tais livros com tão pouca idade. Ler alguma coisa pode ser bom, mas não passar vinte e quatro horas por dia lendo livros desse tipo’.  Naquela época eu passava o tempo todo lendo livros espirituais como o Bhagavad-Gita, etc.  Eu curiosamente abri o Ramanavydia pela primeira vez e assim que o fiz vi uma foto do jovem Bhagavan, cai no chão com o impacto de ver a foto. Que livro é esse eu pensei. ‘Não leia esse livro, minha amiga avisou-me, acho que esse livro vai mudar a sua vida’. Eu não dei ouvidos a ela e levei o livro para a cama comigo, estava com medo que eu pudesse desmaiar de novo. Então, deitei na cama para ler. Conforme li o livro fiquei tão absorvida, meus olhos ficavam fechando, meu estado foi mudando, ali eu entendi que aquilo que eu estava experimentando era meditação como descrita por Bhagavan.
Naquela época, não era permitido que as mulheres deixassem suas casas, muito menos que saíssem de sua cidade. Entretanto, após ter lido o Ramanavidya senti que antes de morrer eu deveria encontrar Ramana Maharshi, não importando o que acontecesse. O livro me deu essa determinação, porém eu não podia deixar minha casa imediatamente, demoraram dois anos até que tive êxito. Sai de casa ardilosamente com a ajuda de meu irmão. Ele também era uma pessoa espiritual e é um Sadhu hoje. Cheguei à Tiruvanamalai com a ajuda de um servo. Chegando lá, fiquei tomada de culpa por ter fugido de casa e de remorso por ter feito a coisa errada para conseguir coisas boas. Sentia que queria ter nascido em alguma outra família, fiquei muito deprimida. Fui até Bhagavan no Domingo. Na parte de fora do antigo salão, fui até o escritório perguntar sobre Bhagavan e me disseram que ele estava perto do poço. Quando cheguei no poço não consegui ver Bhagavan, mas apenas uma grande chama. ‘Perguntei onde encontrar Bhagavan e eles me mandaram para um local de sacrifícios’, pensei comigo mesma. Conforme permaneci ali Bhagavan apareceu naquele exato local. Na hora pensei que tinha tido aquela ilusão de ter visto o fogo porque eu tinha vindo do sol quente. Foi apenas depois que percebi que Bhagavan tinha me concedido o Shudi Darshana, eu podia sentir seu Purana em meu coração. Bhagavan disse: ‘você chegou em casa, sente-se’. Sentei na frente dele, mas não perguntei nada. Haviam tantas pessoas por lá e eu não estava acostumada com isso. Eu não fazia ideia do que perguntar a ele. Fiquei três dias sentada na frente dele, entretanto, o sentimento de culpa por ter fugido de casa continuava me assolando. Um dia Bhagavan disse: ‘eu fugi de casa também, temia que alguém me capturasse e me levasse de volta para casa, eu fugia como um ladrão, se foi tão difícil para mim, quão mais difícil seria para uma mulher’. Essas palavras dele varreram completamente meu sentido de culpa. Aquelas palavras removeram também qualquer resíduo de medo em mim. Desde lá eu fui até a montanha sozinha inúmeras vezes até mesmo a noite, sem falar para ninguém. Não havia mais medo. Se tivesse medo como poderia ficar por aqui nas montanhas sozinha.
A respeito de minha fuga, Bhagavan disse que talvez isso fosse necessário. ‘Eu tinha 16 quando vim para este lugar. Ademais ela é uma jovem mulher, é assim que a pessoa deve fazer se for necessário. O que há de errado nisso’.
Na ocasião da morte de Bhagavan, vi naquela noite uma linda luz azul subindo aos céus, naquele momento eu sabia que ele tinha abandonado o corpo físico. Eu não queria mais viver depois disso, então comecei a jejuar esperando morrer daquele jeito. Por seis dias não toquei em comida. E durante aquele período tive várias visões. Em uma delas fui levada para dentro de uma caverna na montanha, onde vi alguns rishis realizando um ritual. Sri Bhagavan estava sentado entre eles, ele disse: ‘Por que você está chorando? Por que esta angústia? Você diz que eu fui embora, mas para onde eu fui, estou aqui você não pode me ver?’ Alguns rishis trouxeram prasad, Sri Bhagavan pegou um pouco e ofereceu a mim. Eu não lembrava no sonho que estava de jejum e comi a prasad, por 5 dias depois disso o cheiro daquela prasad ficou comigo. Então, aquilo foi um sonho ou foi realidade? Eu considero isso como sendo a graça de Bhagavan. No dia seguinte comecei a comer. Daquele dia em diante eu não tenho essa dúvida se Bhagavan nos deixou, ele permeia a tudo. Está em toda parte. Não senti mais tristeza em meu coração. Certamente ele está aqui também.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Coleman Barks - Sobre seu trabalho com Rumi

Pergunta: Uma das coisas que eu pensei que poderia ser de interesse para os nossos ouvintes, é começar contando a história de como você chegou à poesia de Rumi. 
Coleman Barks: Eu já contei essa história em vários lugares. Bem, eu tive esse sonho no qual eu estava dormindo ao lado do rio Tennessee. É o lugar onde eu cresci nas proximidades de Chattanooga.  E no sonho uma bola de luz emergiu da ilha de Williams. E eu acordei dentro do sonho. Foi um daqueles momentos lúcidos iguais quando estou acordado, entretanto eu estava ainda dormindo no sonho, mas tinha acordado dentro do sonho. E essa bola de luz veio e clareou de dentro para fora. Havia um homem sentado dentro da bola de luz. Ele levantou a cabeça e disse: "Eu te amo". E eu disse: "eu te amo também."
E em seguida, a paisagem toda ficou molhada com orvalho. E o orvalho e a umidade eram o amor. E de alguma forma, embora tudo tenha acontecido no sonho, senti que algo ficou estabelecido ali.  Então, cerca de um ano e meio depois disso, eu estava viajando para o norte para fazer algumas leituras de poesia. Encontrei com Jonathan Granoff. Ele me levou para ver seu professor lá na Filadélfia. Era Bawa Muhaiyaddeen. E ele era o homem no sonho, que estava sentado lá em uma bola de luz.
Não há nenhuma maneira que eu possa provar que aquilo aconteceu exceto para mim mesmo. Isso aconteceu. E eu estava lá dentro do sonho e o encontrei. E ele tinha vindo a mim e me ensinado coisas no sonho. E, em seguida, na Filadélfia eu queria contar-lhe a respeito do sonho. E ele apenas dirigiu-se a mim dizendo: "eu estava lá. você não precisa me contar o sonho. O que você quer saber?" 
Ele me disse para fazer este trabalho do Rumi. Falou que isso tinha de ser feito. Portanto, a única credencial que eu tenho para trabalhar com as palavras deste grande ser iluminado é que eu estive diante daquela presença por nove anos, indo e voltando quatro ou cinco vezes por ano para visitar esse homem, que também espontaneamente cantava canções e louvava a existência.
Portanto, essa é a principal ligação que me conecta com Rumi. Quando trabalho nesses poemas sinto que estou fortalecendo a amizade com meu professor.
* Esse trabalho de Coleman Barks de tradução dos poemas de Rumi foi o principal responsável por tornar a poesia de Rumi conhecida no ocidente. Os poemas de Rumi presentes no blog são todos traduções do trabalho de Barks.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Kabir - Três Poemas

Segundo os Vedas,
o Incondicionado está além do mundo das condições.
Que proveito há em discutir se Ele
está além de todas as coisas ou em todas as coisas?
Veja tudo como sendo Seu próprio lugar de moradia e
a névoa do prazer e dor jamais entrará nela.
Ali Brahma é revelado dia e noite.
Ali a luz é Sua vestimenta, a luz é Seu assento,
a luz repousa sobre Sua cabeça.
Kabir diz: "O mestre que é verdadeiro é toda a luz."

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Ó Sadhu! Ouça minhas palavras imortais.
Se você quer seu próprio bem,
examine e considere-as com atenção.

Você afastou-se do Criador, do Qual você brotou.
Você perdeu sua razão, comprou a morte.
Dele surgiram todas as doutrinas e todos os ensinamentos,
eles crescem Dele, saiba disso com certeza e não tenha medo.
Ouça de mim as novidades desta grande Verdade!
De quem é o nome que você canta
e em quem você medita?
Por favor, saia desse emaranhamento!
Ele habita no coração de todas as coisas,
então por que se refugiar nessa desolação vazia?
Se colocar o Guru a uma distância de você,
então, será apenas a distância que você honrará.
Se o Amo estivesse longe de fato,
quem mais estaria criando este mundo?
Quando pensa que ele não está aqui,
você se afasta cada vez mais
e procura-O em vão com lágrimas.
Se está longe, Ele torna-se é inatingível;
se está perto, Ele é a própria bem-aventurança.
Kabir diz:
"Para que seu servo não sofra dores
Ele permeia-lhe por completo.
Portanto, conheça a si mesmo, ó Kabir;
pois ele está em você da cabeça aos pés.
Cante com alegria e mantenha seu assento imóvel
dentro do seu coração.

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O verdadeiro Nome é diferente de qualquer outro nome!
A distinção entre o Condicionado e o Incondicionado
é apenas uma palavra: O Incondicionado é a semente,
o condicionado é a flor e o fruto.
O conhecimento é o ramo e o Nome é a raiz.
Procure e veja onde está a raiz:
a felicidade será sua quando você chegar à raiz.
A raiz irá leva-lo ao ramo, à folha,
à flor e ao fruto.
Esse é o encontro com o Senhor,
essa é a realização da felicidade,
é a reconciliação do condicionado
e do Incondicionado.

sábado, 31 de março de 2012

Hazrat Inayat Khan - A Mensagem Sufi

O movimento Sufi consiste em um grupo de possoas pertencentes a diferentes religiões, que não abandonaram suas religiões, mas que aprenderam a compreendê-las melhor. E seu amor está na vida, na forma de amor por Deus e pela humanidade, em vez de direcionado para um secto particular.
O trabalho principal que o movimento Sufi deve realizar é o de criar um melhor entendimento entre o oriente e o ocidente e entre as nações e raças do mundo. E a nota que a mensagem Sufi está soando agora neste tempo é a nota que ressoa a divindade da alma humana - para fazer com que os seres humanos reconheçam a divindade na alma humana, algo que até então foi negligenciado, pela razão de que o tempo ainda não havia chegado. A coisa principal que a mensagem deve atingir nesta era é criar a percepção da centelha divina em cada alma, que cada alma de acordo com o seu progresso possa começar a perceber por si mesma a centelha da divindade interior. Essa é a tarefa que está diante de nós.
Agora você pode perguntar: Qual é a Mensagem? A Mensagem é esta: a humanidade é como um único corpo e todas as nações, comunidades e raças são os diferentes órgãos; e a felicidade e bem-estar de cada uma delas é a felicidade e bem-estar do corpo todo. Se há algum órgão do corpo com dor, o corpo todo tem de suportar e dividir essa tensão. Que através dessa Mensagem a humanidade comece a pensar que o seu bem-estar não é alcançado ao cuidar de si mesma, mas está em cuidar dos outros e quando houver reciprocidade em todos, amor e bondade recíprocos, uma era melhor virá.
O conhecimento Sufi é de serventia para todas as pessoas, não apenas para ajudá-las a viverem suas vidas corretamente, mas em sua própria religião. O movimento Sufi não chama ninguém para sair de sua crença ou religião, mas convida as pessoas a viverem suas crenças e religiões. Em suma, é um movimento através do qual Deus pretende unir a humanidade em irmandade e em Sabedoria 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Ramesh S. Balsekar - Sobre Nisargadatta Maharaj

Embora pareça surpreendente, Maharaj era um ator soberbo. Seus traços tinham muita mobilidade e ele tinha olhos grandes e expressivos. Quando narrava um incidente ou discutia algum assunto seus traços respondiam espontaneamente a suas palavras e ações. Sua fala era muito articulada e quando falava ele fazia uso livre de gestos. Portanto, uma coisa era ouvir as fitas com as gravações de seus discursos e outra bem diferente escutar sua voz vibrante acompanhada das gesticulações apropriadas. Ele era um tremendo ator, uma estrela.
Certa manhã, dentre os ouvintes havia um ator europeu muito conhecido. Maharaj estava explicando como a imagem que temos de nós mesmos não é muito fiel. Ela fica mudando de tempos em tempos de acordo com as mudanças de circunstâncias. Ele percorreu por toda a gama de nosso tempo de vida, descrevendo a imagem que temos de nós mesmo quando crianças, não desejando nada além de mamar no peito; depois como um adolescente cheio de saúde e com ambições de conquistar o mundo, depois um homem apaixonado, seguindo para um provedor do sustento da família, com responsabilidades familiares e passando finalmente para um homem doente, que mal consegue abrir a boca incapaz até mesmo de controlar as funções de seu corpo. Qual é o verdadeiro você? Qual dessas diferentes imagens? Ele perguntava.
A narração de Maharaj era viva com ações e efeitos sonoros apropriados aos vários estágios da vida que ele descrevia. Era um puro drama! Escutávamo-nos com uma perplexa admiração e o ator profissional ficou espantado. “Nunca antes vi uma performance tão brilhante”, ele disse, embora ele não entendesse nenhuma palavra da língua que Maharaj falava de maneira tão efetiva. Ele ficou simplesmente encantado.    
Enquanto ele estava maravilhado, Maharaj, com um brilho malicioso em seus olhos disse-lhe: “Sou um bom ator, não sou?” E acrescentou: Contudo, você entende realmente onde estou querendo chegar? Sei que você apreciou essa pequena performance minha. Mas o que você viu agora não é nem mesmo uma parte infinitesimal do que eu sou capaz de fazer. O universo inteiro é meu palco. Eu não apenas atuo, mas construo o palco e o equipamento, escrevo o roteiro e dirijo os atores. Sim, eu sou o ator atuando os papeis das milhões de pessoas, e tem mais, este show nunca termina! O roteiro está sendo escrito continuamente, novos papeis estão sendo criados, novos cenários estão sendo erguidos para muitas situações diferentes. Não sou um ator/diretor/produtor maravilhoso?
A verdade, entretanto, ele adicionou, é que cada um de vocês pode dizer o mesmo sobre si mesmo. Mas é irônico, de fato, que embora você possa realmente sentir com uma profunda convicção que é assim, o show acaba para você! Você pode perceber que é apenas você que está atuando o papel de cada personagem no mundo? Ou você irá confinar-se ao pequeno papel que você designou para si mesmo e viverá e morrerá nesse insignificante papel?

quinta-feira, 15 de março de 2012

Rodney Collin - Sobre a morte consciente de Ouspensky


1 De Maio de 1949 

Há muito a dizer sobre os últimos meses de Ouspensky na Terra. Ele retornou à Inglaterra em Janeiro de 1947, um homem muito doente, mas longe de estar derrotado, um homem livre por fim. Eu o segui em Abril, fiquei em Lyne, onde encontrava-se sua casa no campo e tive sorte o bastante para estar com ele durante todo aquele verão. Ele realizou três ou quatro grandes reuniões em Londres em março, abril e maio, nas quais ele falou de uma maneira nova. Ele disse: 'Abandonei o sistema*', e se recusou a ouvir qualquer coisa referente às palavras ou à teoria dele, forçando as pessoas a penetrar no que elas realmente entendiam e queriam em seus corações. Essas reuniões confundiram algumas pessoas, mas causaram uma impressão muito extraordinária.
Então, silenciosamente retirou-se para o campo pelo resto do verão. Ele praticamente quase não falou mesmo com as pessoas que comiam e sentavam-se com ele. Ainda assim tínhamos a sensação de que tudo o que era feito era uma espécie de demonstração, e gradualmente, desenvolveu-se uma atmosfera que dificilmente pode ser descrita. Olhando para trás, esse parece ter sido o período mais feliz e mais vívido de minha vida. Ele mostrou para os poucos que estavam com ele, sem explicação, o que significa para um homem passar conscientemente para o Reino do Espírito. Ele disse que iria voltar para a América em 4 de setembro e que deveríamos fazer todos os preparativos. Fizemos o que ele pediu. Naquele dia fomos para Southampton, colocamos nossa bagagem a bordo e estávamos prontos para sair. Poucas horas antes do barco partir, ele chegou no porto e de repente disse calmamente, 'Eu não vou para a América neste momento.' Foi como o exercício do 'stop' na escala de todo o Trabalho**. Uma parada foi feita em muitas vidas, os planos pessoais de todos foram virados de cabeça para baixo e um espaço foi criado no momentum do tempo onde algo muito novo podia ser feito.
 Então o período mais extraordinário e indescritível teve início. No último mês de sua vida, terrivelmente fraco e doente, ele viajou por todo o sul da Inglaterra a lugares que ele tinha conhecido, permaneceu acordado dia e noite, exigiu tarefas cada vez mais impossíveis de si mesmo e parecia subir em uma crescente de esforços para encontrar o momento da morte. Durante esse período, muitas coisas que chamamos de milagrosas ocorreram. Naquele mês ele criou um novo caminho para o seu pessoal e pagou suas dívidas para eles. Então, no final, ele disse numa estranha manhã, 'agora vocês devem reconstruir tudo, desde o princípio." Ele faleceu em 2 de outubro de 1947. No momento antes e após a sua morte, para mim mesmo e para muitos outros, a ideia e a finalidade do nosso trabalho revelou-se de forma diferente. Ficou claro que antes tínhamos tomado tudo de uma forma extraordinariamente simples e incompleta. Ao demonstrar uma morte consciente, Ouspensky pareceu mostrar que nisso reside todas as possibilidades.
Os significados de reconstruir tudo são ilimitados. Mas em um sentido, parecia que o complemento exato de seu 'abandono do sistema' de seis meses antes. Tudo deve abandonado e, depois, refeito — para cada pessoa e para o sistema como um todo.



1 De novembro de 1949

Vou tentar dizer como estou. Tenho que ir para trás para o recomeço de tudo para mim — a morte do senhor Ouspensky. Para mim não há nenhum outro lugar para começar. Pois ele mostrou tais coisas sobre a morte que fez com que jamais pudéssemos ter medo dela e ainda menos de tudo o que pode vir na vida. Ele mostrou-a simplesmente como o anverso da vida, a colheita do que sentimos e desejamos na vida. Ao mesmo tempo, ele mostrou a morte como o maior dos mistérios, onde tudo se torna possível e nada é impossível. E por ele ter dominado a morte, extraído todas as possibilidades dela, como pudemos ver, ele criou um caminho aberto para outras pessoas, fez com que não fosse impossível para nós trilhá-lo. De modo que, de uma certa maneira toda a nossa vida e a vida de todas as pessoas foi mostrada como sendo uma preparação para encontrar todas as possibilidades na morte. Eu sei que interpretado de uma certa forma isso soa estranho, até mesmo mórbido. Mas quando nossa relação com a morte é clara, então, a vida e todos os detalhes da vida são preenchidos de interesse e doçura de uma maneira que era impossível anteriormente. E, por vezes, parece que nós vivemos realmente apenas quando temos em uma correta relação com a morte.



10 De agosto de 1948

É claro que a conquista de algum nível superior pelo senhor Ouspensky no momento da sua morte liberou uma energia muito grande que podia tocar e afetar a todos os que estavam intimamente ligados a ele, e que era independente do espaço e do tempo. Se for possível abandonar nossa visão fraca e distorcida do tempo, podemos compreender que aqueles que foram afetados por essa energia e por esse nível de homem podem continuar a tirar compreensão e direção daquela conexão, mesmo que as circunstâncias pareçam separá-los e isolá-los.

22 De Março de 1951
Sei que há uma parte em nós que, se pudermos encontra-la e recorrer a ela, pode saber e fazer o impossível. A mente lógica não conhece esses segredos e não pode conhecê-los. Mas há um lugar escondido no coração que sabe e pode nos dizer. Apenas temos de ouvir muito profundamente para ouvi-la e depois que ela tiver falado não devemos deixar a mente lógica explicar para afastar aquilo ou dizer-nos que é impraticável ou que é imaginação. Tenho conhecido pessoas que perdem um entendimento muito grande que lhes foi dado ao explicá-lo, afastando-o posteriormente como imaginação.
Mais tarde, a pessoa vai descobrir que todas as coisas que ela compreende ou que são requeridas dela dessa forma estão de acordo com as leis e os conhecimentos que foram dados a nós. Apenas não devemos esperar que elas concordem com a nossa interpretação dessas leis. Pelo contrário, essa nova compreensão revelará leis sob uma luz completamente nova e insuspeita. Por exemplo, todas as coisas literalmente milagrosas que aconteceram na morte de Ouspensky e tudo o que tem se desenvolvido desde então — tanto para mim pessoalmente e em relação ao seu trabalho como um todo — convence-me que ele não morreu como morrem os homens comuns, mas que ele atingiu um nível onde um homem se torna imortal*, ou de outra maneira, onde ele não está limitado ao tempo como nós o conhecemos, mas pode agir e fazer ligações através do tempo. Eu poderia ter chegado a esta conclusão através de minha experiência pessoal.
Mas percebo que de tudo de extraordinário, miraculoso e até mesmo fantástico que aconteceu e continua a acontecer, não há uma única coisa cuja possibilidade ele não tenha nos explicado em detalhes enquanto ele estava vivo. Além disso, se ele de fato tornou-se independente do tempo, ou se adquiriu o quarto corpo * (se você gosta de ser técnico), então ele está agora acessível a qualquer pessoa que deseje a sua ajuda com crença e urgência suficientes.
As palestras, todo o sistema conforme ele explicou, era de fato a explicação de como fazer o impossível, de como os milagres são alcançados. Como, então, podemos nos surpreender que o próprio Ouspensky realmente tenha colocado este conhecimento em prática, usando-o para o fim que foi destinado e que, evidentemente, é esperado daqueles que o seguiram levem-no da mesma forma? Olhando para trás, fico chocado em lembrar como nós considerávamos tudo como um método de fazer pequenos ajustes à nossa psicologia pessoal e até mesmo julgávamos as possibilidades finais e ele mesmo também nesse nível.
As ideias que ele explicou referem-se ao mundo objetivo e se pensarmos sobre elas e trabalharmos com elas, nós de fato nos prepararemos para orientar a nós mesmo nesse mundo objetivo quando chegarmos lá. Elas são um mapa muito exato daquele lugar. Mas para chegar lá temos de passar por nós mesmos e sair do outro lado. 'Acredite no impossível, pois então você vai acha-lo possível. 'Aquiete-se, pergunte ao seu coração o que você deve crer e creia, então agarre-se a isso e faça-o com toda a força que você pode reunir. E nunca deixe a voz da lógica e a probabilidade impedi-lo.


1 De fevereiro de 1949 

Há algo muito interessante sobre a lei de causa e efeito. Parece claro que todas as causas que nós criamos em nossas vidas e cujos efeitos não conhecemos, devem estar dormentes até o dia inesperado quando — tomados de surpresa, chamamos o resultado inevitável de acidente. Mais cedo ou mais tarde todos os negócios inacabados devem ser terminados e todos os livros equilibrados. O homem sábio tenta pagar suas dívidas antes que as contas sejam apresentadas; tenta atar as pontas soltas de sua vida, pelo menos em sua mente, se não é possível fazê-lo de fato. E a cada pagamento requerido dele na vida, ele atende prontamente, feliz em pagar outra parcela. De alguma forma esse entendimento parece produzir o desejo de aceitar tudo que vem, de não lutar contra isso. Assim como Ouspensky aceitou e até mesmo intensificou, a doença, a idade, a dor, a solidão. Uma pessoa se torna livre ao engolir — uma respiração profunda, um gole, e ele tudo vai.
Em seguida, juntamente com a questão de nos tornarmos livre de nossa própria cadeia de causa e efeito, vem a questão de como tornar-se ligado à uma causa e efeito de uma natureza diferente. Isto parece ligado com a possibilidade de aceitar como seus próprios os efeitos de causas criadas pelo seu professor. Durante todos aqueles anos, Ouspensky ofereceu inúmeras sugestões sobre diferentes linhas de trabalho e de experiência; ao pegá-las agora, tornamo-nos parte das causas e efeitos da vida dele. Ele ou seus livros tocaram inúmeras pessoas e despertaram uma certa curiosidade, o que, por força das circunstâncias, jamais poderia ser realizado diretamente por ele. Ao instigarmos essa curiosidade nas pessoas que encontramos e ao alimentá-la da melhor que pudermos, nós novamente tornamo-nos de alguma forma conectados com sua cadeia de causa e efeito, que pouco a pouco pode tender a superar a nossa própria.
O que significa se tornar livre? Livre de que? Livre para quê? E como isso é feito? Essa é a questão. Naquela última vez, Ouspensky parecia mostrar tão claramente como. Ao aceitar tudo o que a vida e a morte podiam trazer, ao não resistir, ele tornou-se livre. Nós lutamos e debatemos porque não vemos o futuro. Se visse o futuro, como ele evidentemente o via, você aceitaria — não haveria mais nada a fazer. E ao aceitar, você mesmo se torna livre. Agora eu começo a ver o significado de querer saber o futuro. O homem que sabe o futuro não matar a si mesmo tentando alterar aquilo que necessariamente deve acontecer. Ele aceita o que deve ser, engole aquilo e desse modo eleva-se acima daquilo. Em seguida, tudo se torna possível para ele.


23 De setembro de 1950
É minha convicção que o senhor Ouspensky alcançou um estado no qual ele não estava e não está confinado ao tempo como nós estamos. Algumas das implicações disso eu tentei desenvolver na ‘Teoria da Vida Eterna’. Outras atingirão cada pessoa individualmente. Mas, entre outras, isso deve significar que um homem assim, dirigindo de fora do tempo, por assim dizer, pode desenvolver um plano de trabalho envolvendo pessoas em todo o mundo e cobrindo dezenas ou até centenas de anos. Tudo o que aconteceu desde a morte de Ouspensky confirma a minha certeza de que esse grande plano está de fato sendo aplicado. E que qualquer um que deseje sinceramente tem um lugar nele.
Eu nunca gostei e ainda não gosto da ideia de 'comunicações'. Pois embora essas coisas certamente sejam possíveis para o homem superior elas são inevitavelmente entendidas erradamente e logo que se fala sobre isso dá-se margem para a superstição em alguns e a incredulidade em outros. E em breve o supersticioso e o incrédulo inevitavelmente discutem.
Mas eu tenho que contar uma história. Não muito tempo depois da morte de Ouspensky, entrei no seu quarto e sentei lá em um humor muito curioso, supersticioso. Depois de um minuto ou dois uma voz em mim — poderia ter sido uma memória da voz de Ouspensky — disse com uma risada que eu também me lembro muito bem: 'você quer uma comunicação dos mortos. Bem, você não vai obter nenhuma!' Ao mesmo tempo, sempre ouvi cuidadosamente essas vozes, pois quase sempre elas têm algo interessante a dizer. 


19 de novembro de 1948

Do meu próprio professor só posso dizer que ele também produziu entre seus amigos uma peça, da qual eles inconscientemente, mas perfeitamente, atuaram seus papeis, e cujo enredo foi sua própria morte. Silenciosamente, ele instruiu-nos em nossos corações, alguns reconhecendo isso e outros não. “Eu estarei sempre com vocês”, ele também poderia dizer — mas de maneira leve e fumando um cigarro, para que ninguém notasse. Deitado na cama em Surrey, ele possuiu com sua própria mente um jovem que voava sobre o Atlântico, o qual ele já havia livrado de uma ilusão. Naquela manhã, morto, ele andou com um viajante — atravessando a ponte de Londres; e a um outro ao volante de um carro ele mostrou a natureza do universo. No entanto, essas histórias são difíceis de acreditar. Que este presente livro seja a testemunha daquilo que ele alcançou depois, livro escrito este ano após sua morte, tratando de um conhecimento imerecido por mim. Que os que podem compreender entendam. Pois assim é.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Siddharameshwar Maharaj - 17 de outubro de 1935

Não deveríamos nos sentir tristes quando acontece algo que não gostamos. Se tudo é Deus e vem de Deus, qual é a diferença e onde ela está? Deveríamos saber disso plenamente. Saber que tudo é Deus é a verdadeira Devoção da mente.
Um homem pode pertencer a uma casta inferior, a chamada casta do intocáveis, ou pode ser muito mal em seu comportamento, mas em seu estado original ele ainda é Deus. Nele é apenas Deus que torna sua existência possível. Deus significa que nós mesmos somos o Ser Supremo, Paramatman. Somos aquela fundação sobre a qual todas as experiências acontecem.  Paramatman não termina, mas as experiências começam e terminam. Aquela Consciência que é a ciência (awareness) sutil presente no início e no fim das experiências é chamada de Ser ou Atman e esse pano de fundo sobre o qual todas as experiências acontecem é chamado de Paramatman (Para significa além de, anterior a). Aquilo que permanece depois da experiência, que existe antes da experiência começar e depois dela terminar somos nós, Paramatman. “Essa Raiz de todas as coisas” não é destrutível.
A serpente e o escorpião são o mesmo; mesmo neles pulsa nossa própria existência. Quando temos esse sentimento, dá-se o nome de “Consciência Divina”. Aquele que sabe que todas as criaturas são Deus, jamais usará palavras grosseiras para com os outros. Nenhuma pessoa insulta alguém que ela ama, mas muitas vezes é grosseira com os outros. Esse é o hábito do ego que acredita ser ele mesmo o indivíduo, o Jiva. Quando compreendemos que todas as coisas e todos os seres são Paramatman, não devemos dizer nada sobre ninguém, como por exemplo: “O que me importa ele?” “Eu não ligo para ele.” Tudo é o nosso Ser apenas, Paramatman. Mesmo a custo de nossa vida não deveríamos falar sobre os defeitos dos outros ou ferir alguém com palavras ou ações.  Deveríamos agir de modo a sermos úteis aos outros. Se tivermos dinheiro ou algum recurso deveríamos compartilhá-lo de modo que ele traga felicidade aos outros. Deveríamos agir de uma maneira que deixe os outros satisfeitos. Isso é chamado de Devoção Física ou devoção com nosso corpo. Deveríamos ser gentis mesmo com aqueles que nos fazem mal. O sábio Vasishtha perdoou o sábio Vishwamitra.
Aqueles que ainda são aspirantes ainda ficam com raiva; um aspirante ou alguém que estuda algum sistema de yoga pode ainda não ter um sentido apropriado de autocontrole e, portanto, os desejos e a raiva ainda podem perturbar tal pessoa. Eles podem às vezes praguejar com os outros e trazer muitos problemas a eles, como no caso de filhos de pessoas ricas que fazem Sadhana sem ter o autocontrole. Deveríamos nos tornar aptos a ver Deus todo poderoso, o Ser Supremo, até mesmo em nossos inimigos, pois esse é o sinal do estado de ausência de ego. Aquele cujo ego se foi é o verdadeiro Sadhu (o Santo). A natureza das pessoas consiste em encontrar faltas nos outros, mas a natureza do Sábio não é olhar os pontos ruins ou o que está faltando nos outros. Como pode alguém que está preocupado com o que é bom ou ruim nos outros ser um sábio? O sábio é diferente de tais pessoas, ele se comporta de maneira diferente das pessoas do mundo.  A natureza de um homem mau é não ver nada de bom nos outros. O homem que é realmente grande vê o que é bom nos outros e sabe que é a própria “Luz de Deus” que está brilhando dentro de si.
Seja gentil com todos e você não sentirá necessidade de nada. A compaixão por todos os seres é a melhor maneira de destruir a rede da Ilusão. Não há nenhum pecado pior do que a fofoca maldosa. Fale bem, mas nunca fale mal dos outros. Aquele que acusa os outros jamais conseguirá um bom alimento para comer. Se você quer boa comida você deveria falar boas palavras. Aquele que fala lixo come lixo. A língua que não fala de maneira doce não obtém alimento doce. As escrituras dizem que as pessoas de língua maligna nascem como porcos e comem esterco na próxima vida. Aquele que fala coisas boas e verdadeiras tem o poder da fala que é sempre verdadeira.
O senhor Krishna disse: “Ordenei que o caminho da devoção fosse muito puro. Não há dificuldade na devoção e o devoto obtém êxito. Mesmo que haja muitos livros sagrados e religiosos, o caminho da devoção é maior que todos eles. O buscador é ajudado por todos e as calamidades jamais mostram sua face para ele. Ele sabe que ele, que todos os seres do mundo e Paramatman são um. Assim como a serpente tem medo da águia e o homem tem medo da morte, as calamidades têm medo do devoto. Querido Uddhava, este é meu caminho da devoção, do qual não falei nem para minha mãe, mas agora falei a você.”

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Philokalia - São Marco o Asceta - Sobre a Lei Espiritual (parte 2)

Sem a lembrança de Deus não pode haver conhecimento verdadeiro,  apenas o conhecimento que é falso.
De um coração que ama os prazeres surgem pensamentos e palavras doentios; pela fumaça de um fogo reconhecemos o combustível.
Guarde sua mente e você não será perturbado pelas tentações. Porém, se você falhar em guarda-la, aceite pacientemente qualquer suplício que vier.
Rejeite todos os pensamentos de cobiça e você conseguirá ver os truques do demônio.
Aquele que diz que conhece todos os truques do demônio, sem saber cai na sua armadilha.
Quanto mais o intelecto se afasta das preocupações mundanas mais claramente ele vê as artimanhas do inimigo.
Um homem que é carregado por seus pensamentos é cegado por eles. E embora ele possa ver os trabalhos dos pecados, não pode ver suas causas.
A perversidade é uma rede intrincada e se uma pessoa é descuidada quando está parcialmente presa à rede, ela será totalmente enredada.
Alguns chamam os homens de inteligentes porque eles têm o poder de discernimento num plano sensível. Mas as pessoas realmente inteligentes são aquelas que controlam seus próprios desejos.
Até que você tenha erradicado o mal não obedeça o seu coração, pois ele irá buscar mais daquilo que já está contido dentro dele.
Assim como algumas cobras vivem em vales e outras em casas, também algumas paixões tomam forma em nossos pensamentos enquanto outras expressam-se em ação. Porém, é possível que elas mudem de um tipo para o outro.
Nenhuma nuvem é formada sem o sopro do vento e nenhuma paixão é nascida sem um pensamento.
Se nós não mais satisfazermos os desejos da carne, tudo de mal que há dentro de nós será eliminado com a ajuda de Deus.
A consciência é o livro da natureza. Aquele que aplica o que lê ali experimenta a ajuda de Deus.
Aquele que não escolhe sofrer por amor à verdade será punido mais dolorosamente por sofrimentos que ele não escolheu .
Aquele que conhece a vontade de Deus e cumpri-a de acordo com suas forças, escapa de um sofrimento mais severo ao sofrer um pouco.
O Senhor está oculto em Seus mandamentos e Ele é descoberto ali na medida em que é procurado.
Não diga: “Cumpri os mandamentos, mas não encontrei o Senhor.” Pois, frequentemente, você descobriu ‘o conhecimento espiritual com a retidão', como diz a escritura, e 'aqueles que buscam-No corretamente encontrarão a paz’. (Prov. 16:8)
A paz é a libertação das paixões e ela não é encontrada exceto através da ação do Espírito Santo.
As coisas espirituais são governadas pela graça de Deus.
Uma boa consciência é encontrada através da oração e uma oração pura através da consciência. Uma precisa da outra por natureza.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Farid-Ud-Din Attar - Oito Poemas


No caminho da taberna você embriagou-se.

Seria bom que você encontrasse uma casa lá.

Procure por essa casa para que você possa ver mais claramente

que o mundo e suas criaturas são uma miragem.

Nessa casa não importará para você

se o mundo for consumido pelas chamas ou pelas águas.


Há uma taberna fora dos dois mundos,

Os dois mundos estão adormecidos em seu abraço.

Veja como o aroma do vinho que vem de lá

seduz dia e noite os céus a entrarem.


Adentrar o âmago da questão é difícil;

É um assunto complicado e tem um coração alusivo.

Não deixe a razão ser o seu guia nesta estrada.

A razão deste mundo é um asno na lama.


No canto da taberna você é como uma sombra na presença do sol.

Como posso recontar este conto,

quando minha alma está tão intoxicada e arruinada pelo amor?


Se você perguntar qual é o segredo dessa questão,

o que poderei dizer,

pois o silêncio é a resposta.


No procurar e encontrar dessa realidade

milhares de pescoços são colocados nas cordas da misericórdia.

A dor dessa verdade tornou vermelhas as barbas

dos anciões desta jornada com o sangue de seus corações.

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O fogo de Seu amor na alma é mais doce.
A vida inflamada por Seu amor é mais doce.

Para aqueles que tiveram uma gota da taça de Seu amor

a embriaguez até o dia do Julgamento é mais doce.


Eu estava escondido até que Você emergiu,

pois ficar escondido com o Amado é mais doce.

Mesmo se a dor de Seu amor que queima a alma seja um veneno,

ela é mais doce que a vida.

Derrame dor para mim e não ofereça cura

Pois sua dor é mais doce que qualquer cura.


Não construa-me até que tenha me queimado,

queimar por Seu amor é mais doce.

Uma vez que ninguém pode alcançar a união com Você,

alcançar o muro da separação é mais doce.


Prevejo uma longa seca em nossa relação;
sem dúvida prever uma inundação seria mais doce.

Na Sua ausência todas as noites são como uma vela

e o choro de Attar até o amanhecer é mais doce.

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O amor de Sua beleza é um oceano de fogo.

Se você é um amante, queimará,
assim é o Caminho.

Onde a chama brilhante de uma vela se elevar

A mariposa passando ali certamente queimará.


Se você quer o segredo do amor,
abandone a crença e a descrença.

Que espaço há para elas com a chegada do amor?

O amante que chega ao primeiro estágio do Caminho

cai na fragilidade como uma sombra no chão.

Um pouco depois não resta nada da sombra

pois o sol fica esperando num lugar distante.


Muitos milhares de viajantes fingiram para o Amor.

Mansur é como uma pedra preciosa no selo do Caminho.

Aquele que busca a pérola da verdade neste oceano

é para sempre acariciado nas cortes dos dois mundos.

A tarefa deste Caminho é extremamente árdua,

uma pessoa a cada milênio vê o caminho por completo.

Como você conhecerá as Pessoas do Caminho?

Pois elas primeiro caminham nesta Via,
depois no Sétimo Céu.


Pelo caminho Attar chegou a um lugar

maior que o corpo e que a alma,
fora do amor e do ódio.

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 Ah, o sol, uma criança na sombra de Sua beleza.

Saboreou o leite e o açúcar de Sua fonte resplandecente.

Os dois mundos são acesos pelo brilho de Sua face,

As Nove Esferas são presas na armadilha de Seus cachos.


O coração oferece o canto de nossa separação ao vento.

Adormecida, a alma sonha com nossa união.

A Razão está totalmente desperta no reino da realidade,

embriagada, cochila e sonha até o Julgamento.

O sol, que abre as canções do épico do céu,

não eleva-se nem a uma nota do épico de Sua beleza.


Ó Turco dos céus, seu Hindu sempre vagueia nu

pelos vales da perfeição.

Você é o supremo Si-murgh empoleirado no monte Qaf;

Criando os dois mundos sob suas asas.

Seus cílios contêm hordas de assassinos.

Uma centena de corações foram esmagados por seus assassinos.

Attar tornou-se um fio cabelo na ausência de Sua face ensolarada,

Esperando encontrar um caminho em Seus anéis noturnos.

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Derrame um trago da taça da manhã. 

O amanhecer chegou.

Sacou sua espada para cortar a cabeça da noite.

A face de Mercúrio ocultou-se e a face do sol foi mostrada.

A lua rapidamente virou suas costas, o amanhecer chegou.


A lua é como um chapéu na negra cabeça da noite.

O amanhecer como uma chave no cadeado da manhã.

O harpista celestial toca a música dos ébrios,

pois a manhã rasgou o véu da face Hindu da noite.


O amanhecer escalou as montanhas.

Levante-se para o trago da manhã!

A manhã tocou sua trombeta na direção do ignorante.

A fagulha incendiou as brasas queimadas.

A fronte do domo turquesa foi partida pelo amanhecer.

A doce fragrância da alvorada é tão almiscarada,

como se tivesse provado do almíscar da cauda de um veado chinês.

Mas não foi assim que o amanhecer espalhou o almíscar.

Ele pegou a fragrância da bolsa perfumada de Attar.


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Todo coração que aniquila a si mesmo

torna-se digno da confiança do Rei.

A flor que não assume a coloração do coração

será afligida por sua própria essência enlameada.


O coração e a argila estão juntos hoje,

mas não estarão separados um do outro amanhã?

A argila de seu corpo irá transformar-se em átomos e

cada átomo irá transformar-se em um pássaro espiritual.


Se o coração permanecer na argila do ser,

como poderá abandonar o confinamento do túmulo?


O coração é um espelho com as costas manchadas.

Se for limpo ele revelará sua face.

A argila torna-se coração assim como as costas viram face.

Quando a escuridão se for tudo iluminará.

Toda vez que as costas e a frente se integram

o espelho submerge em magnificência.

Não é possível para nenhuma criatura

tornar-se como Deus ou tornar-se o Criador.


Mas algo verdadeiro poderia ser dito

se a essência e a qualidade do ser desaparecessem gradualmente.

Toda vez que uma pessoa torna-se aniquilada perdendo isso

ela subsiste na essência da Unidade.


A Presença ao falar desse estado diz:

A pessoa não torna-se Nós, mas torna-se de Nós.

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 Quando alguma coisa irá se tornar o Existente?

Quando o temporal se tornará o Eterno?

Se você está procurando por essa vida desconhecida,

familiarize-se com estas tarefas:

Sente-se à sombra de um mestre,

pois os cegos ficam em melhor situação com bengalas.

Torne-se palha e tombe a montanha

enquanto o mestre lhe transforma como âmbar.

Se não fizer como Attar lhe falou

cada pesar que você sofrer se tornará poeira.

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O ser que nulifica a si mesmo

torna-se digno de uma União imediata.

Uma madeira que não removeu o ser

não pode tornar-se incenso.


Esse incrível negócio tem lugar

no Caminho de nosso ser e não-ser.

Cada vez que sua existência torna-se nada

de imediato sua nulidade torna-se ser.


Ó amante do ser,
não chegou a hora de seu Iblis curvar-se em oração?

Você apostou seu coração no caminho do desejo

para que seu desejo lhe trouxesse benefício.

O coração tornou-se desejo e você ainda fica surpreso

com a conversão celestial em crenças mundanas.


Cada respiração que você toma em prol dos desejos

torna-se como que fumaça nos olhos do coração.

Inquestionavelmente tal fumaça transforma seu coração

em algo chamuscado e sem visão.



E dessa forma, Attar disse tudo o que sabe;

O resto depende daqueles que escutarem.