quinta-feira, 15 de março de 2012

Rodney Collin - Sobre a morte consciente de Ouspensky


1 De Maio de 1949 

Há muito a dizer sobre os últimos meses de Ouspensky na Terra. Ele retornou à Inglaterra em Janeiro de 1947, um homem muito doente, mas longe de estar derrotado, um homem livre por fim. Eu o segui em Abril, fiquei em Lyne, onde encontrava-se sua casa no campo e tive sorte o bastante para estar com ele durante todo aquele verão. Ele realizou três ou quatro grandes reuniões em Londres em março, abril e maio, nas quais ele falou de uma maneira nova. Ele disse: 'Abandonei o sistema*', e se recusou a ouvir qualquer coisa referente às palavras ou à teoria dele, forçando as pessoas a penetrar no que elas realmente entendiam e queriam em seus corações. Essas reuniões confundiram algumas pessoas, mas causaram uma impressão muito extraordinária.
Então, silenciosamente retirou-se para o campo pelo resto do verão. Ele praticamente quase não falou mesmo com as pessoas que comiam e sentavam-se com ele. Ainda assim tínhamos a sensação de que tudo o que era feito era uma espécie de demonstração, e gradualmente, desenvolveu-se uma atmosfera que dificilmente pode ser descrita. Olhando para trás, esse parece ter sido o período mais feliz e mais vívido de minha vida. Ele mostrou para os poucos que estavam com ele, sem explicação, o que significa para um homem passar conscientemente para o Reino do Espírito. Ele disse que iria voltar para a América em 4 de setembro e que deveríamos fazer todos os preparativos. Fizemos o que ele pediu. Naquele dia fomos para Southampton, colocamos nossa bagagem a bordo e estávamos prontos para sair. Poucas horas antes do barco partir, ele chegou no porto e de repente disse calmamente, 'Eu não vou para a América neste momento.' Foi como o exercício do 'stop' na escala de todo o Trabalho**. Uma parada foi feita em muitas vidas, os planos pessoais de todos foram virados de cabeça para baixo e um espaço foi criado no momentum do tempo onde algo muito novo podia ser feito.
 Então o período mais extraordinário e indescritível teve início. No último mês de sua vida, terrivelmente fraco e doente, ele viajou por todo o sul da Inglaterra a lugares que ele tinha conhecido, permaneceu acordado dia e noite, exigiu tarefas cada vez mais impossíveis de si mesmo e parecia subir em uma crescente de esforços para encontrar o momento da morte. Durante esse período, muitas coisas que chamamos de milagrosas ocorreram. Naquele mês ele criou um novo caminho para o seu pessoal e pagou suas dívidas para eles. Então, no final, ele disse numa estranha manhã, 'agora vocês devem reconstruir tudo, desde o princípio." Ele faleceu em 2 de outubro de 1947. No momento antes e após a sua morte, para mim mesmo e para muitos outros, a ideia e a finalidade do nosso trabalho revelou-se de forma diferente. Ficou claro que antes tínhamos tomado tudo de uma forma extraordinariamente simples e incompleta. Ao demonstrar uma morte consciente, Ouspensky pareceu mostrar que nisso reside todas as possibilidades.
Os significados de reconstruir tudo são ilimitados. Mas em um sentido, parecia que o complemento exato de seu 'abandono do sistema' de seis meses antes. Tudo deve abandonado e, depois, refeito — para cada pessoa e para o sistema como um todo.



1 De novembro de 1949

Vou tentar dizer como estou. Tenho que ir para trás para o recomeço de tudo para mim — a morte do senhor Ouspensky. Para mim não há nenhum outro lugar para começar. Pois ele mostrou tais coisas sobre a morte que fez com que jamais pudéssemos ter medo dela e ainda menos de tudo o que pode vir na vida. Ele mostrou-a simplesmente como o anverso da vida, a colheita do que sentimos e desejamos na vida. Ao mesmo tempo, ele mostrou a morte como o maior dos mistérios, onde tudo se torna possível e nada é impossível. E por ele ter dominado a morte, extraído todas as possibilidades dela, como pudemos ver, ele criou um caminho aberto para outras pessoas, fez com que não fosse impossível para nós trilhá-lo. De modo que, de uma certa maneira toda a nossa vida e a vida de todas as pessoas foi mostrada como sendo uma preparação para encontrar todas as possibilidades na morte. Eu sei que interpretado de uma certa forma isso soa estranho, até mesmo mórbido. Mas quando nossa relação com a morte é clara, então, a vida e todos os detalhes da vida são preenchidos de interesse e doçura de uma maneira que era impossível anteriormente. E, por vezes, parece que nós vivemos realmente apenas quando temos em uma correta relação com a morte.



10 De agosto de 1948

É claro que a conquista de algum nível superior pelo senhor Ouspensky no momento da sua morte liberou uma energia muito grande que podia tocar e afetar a todos os que estavam intimamente ligados a ele, e que era independente do espaço e do tempo. Se for possível abandonar nossa visão fraca e distorcida do tempo, podemos compreender que aqueles que foram afetados por essa energia e por esse nível de homem podem continuar a tirar compreensão e direção daquela conexão, mesmo que as circunstâncias pareçam separá-los e isolá-los.

22 De Março de 1951
Sei que há uma parte em nós que, se pudermos encontra-la e recorrer a ela, pode saber e fazer o impossível. A mente lógica não conhece esses segredos e não pode conhecê-los. Mas há um lugar escondido no coração que sabe e pode nos dizer. Apenas temos de ouvir muito profundamente para ouvi-la e depois que ela tiver falado não devemos deixar a mente lógica explicar para afastar aquilo ou dizer-nos que é impraticável ou que é imaginação. Tenho conhecido pessoas que perdem um entendimento muito grande que lhes foi dado ao explicá-lo, afastando-o posteriormente como imaginação.
Mais tarde, a pessoa vai descobrir que todas as coisas que ela compreende ou que são requeridas dela dessa forma estão de acordo com as leis e os conhecimentos que foram dados a nós. Apenas não devemos esperar que elas concordem com a nossa interpretação dessas leis. Pelo contrário, essa nova compreensão revelará leis sob uma luz completamente nova e insuspeita. Por exemplo, todas as coisas literalmente milagrosas que aconteceram na morte de Ouspensky e tudo o que tem se desenvolvido desde então — tanto para mim pessoalmente e em relação ao seu trabalho como um todo — convence-me que ele não morreu como morrem os homens comuns, mas que ele atingiu um nível onde um homem se torna imortal*, ou de outra maneira, onde ele não está limitado ao tempo como nós o conhecemos, mas pode agir e fazer ligações através do tempo. Eu poderia ter chegado a esta conclusão através de minha experiência pessoal.
Mas percebo que de tudo de extraordinário, miraculoso e até mesmo fantástico que aconteceu e continua a acontecer, não há uma única coisa cuja possibilidade ele não tenha nos explicado em detalhes enquanto ele estava vivo. Além disso, se ele de fato tornou-se independente do tempo, ou se adquiriu o quarto corpo * (se você gosta de ser técnico), então ele está agora acessível a qualquer pessoa que deseje a sua ajuda com crença e urgência suficientes.
As palestras, todo o sistema conforme ele explicou, era de fato a explicação de como fazer o impossível, de como os milagres são alcançados. Como, então, podemos nos surpreender que o próprio Ouspensky realmente tenha colocado este conhecimento em prática, usando-o para o fim que foi destinado e que, evidentemente, é esperado daqueles que o seguiram levem-no da mesma forma? Olhando para trás, fico chocado em lembrar como nós considerávamos tudo como um método de fazer pequenos ajustes à nossa psicologia pessoal e até mesmo julgávamos as possibilidades finais e ele mesmo também nesse nível.
As ideias que ele explicou referem-se ao mundo objetivo e se pensarmos sobre elas e trabalharmos com elas, nós de fato nos prepararemos para orientar a nós mesmo nesse mundo objetivo quando chegarmos lá. Elas são um mapa muito exato daquele lugar. Mas para chegar lá temos de passar por nós mesmos e sair do outro lado. 'Acredite no impossível, pois então você vai acha-lo possível. 'Aquiete-se, pergunte ao seu coração o que você deve crer e creia, então agarre-se a isso e faça-o com toda a força que você pode reunir. E nunca deixe a voz da lógica e a probabilidade impedi-lo.


1 De fevereiro de 1949 

Há algo muito interessante sobre a lei de causa e efeito. Parece claro que todas as causas que nós criamos em nossas vidas e cujos efeitos não conhecemos, devem estar dormentes até o dia inesperado quando — tomados de surpresa, chamamos o resultado inevitável de acidente. Mais cedo ou mais tarde todos os negócios inacabados devem ser terminados e todos os livros equilibrados. O homem sábio tenta pagar suas dívidas antes que as contas sejam apresentadas; tenta atar as pontas soltas de sua vida, pelo menos em sua mente, se não é possível fazê-lo de fato. E a cada pagamento requerido dele na vida, ele atende prontamente, feliz em pagar outra parcela. De alguma forma esse entendimento parece produzir o desejo de aceitar tudo que vem, de não lutar contra isso. Assim como Ouspensky aceitou e até mesmo intensificou, a doença, a idade, a dor, a solidão. Uma pessoa se torna livre ao engolir — uma respiração profunda, um gole, e ele tudo vai.
Em seguida, juntamente com a questão de nos tornarmos livre de nossa própria cadeia de causa e efeito, vem a questão de como tornar-se ligado à uma causa e efeito de uma natureza diferente. Isto parece ligado com a possibilidade de aceitar como seus próprios os efeitos de causas criadas pelo seu professor. Durante todos aqueles anos, Ouspensky ofereceu inúmeras sugestões sobre diferentes linhas de trabalho e de experiência; ao pegá-las agora, tornamo-nos parte das causas e efeitos da vida dele. Ele ou seus livros tocaram inúmeras pessoas e despertaram uma certa curiosidade, o que, por força das circunstâncias, jamais poderia ser realizado diretamente por ele. Ao instigarmos essa curiosidade nas pessoas que encontramos e ao alimentá-la da melhor que pudermos, nós novamente tornamo-nos de alguma forma conectados com sua cadeia de causa e efeito, que pouco a pouco pode tender a superar a nossa própria.
O que significa se tornar livre? Livre de que? Livre para quê? E como isso é feito? Essa é a questão. Naquela última vez, Ouspensky parecia mostrar tão claramente como. Ao aceitar tudo o que a vida e a morte podiam trazer, ao não resistir, ele tornou-se livre. Nós lutamos e debatemos porque não vemos o futuro. Se visse o futuro, como ele evidentemente o via, você aceitaria — não haveria mais nada a fazer. E ao aceitar, você mesmo se torna livre. Agora eu começo a ver o significado de querer saber o futuro. O homem que sabe o futuro não matar a si mesmo tentando alterar aquilo que necessariamente deve acontecer. Ele aceita o que deve ser, engole aquilo e desse modo eleva-se acima daquilo. Em seguida, tudo se torna possível para ele.


23 De setembro de 1950
É minha convicção que o senhor Ouspensky alcançou um estado no qual ele não estava e não está confinado ao tempo como nós estamos. Algumas das implicações disso eu tentei desenvolver na ‘Teoria da Vida Eterna’. Outras atingirão cada pessoa individualmente. Mas, entre outras, isso deve significar que um homem assim, dirigindo de fora do tempo, por assim dizer, pode desenvolver um plano de trabalho envolvendo pessoas em todo o mundo e cobrindo dezenas ou até centenas de anos. Tudo o que aconteceu desde a morte de Ouspensky confirma a minha certeza de que esse grande plano está de fato sendo aplicado. E que qualquer um que deseje sinceramente tem um lugar nele.
Eu nunca gostei e ainda não gosto da ideia de 'comunicações'. Pois embora essas coisas certamente sejam possíveis para o homem superior elas são inevitavelmente entendidas erradamente e logo que se fala sobre isso dá-se margem para a superstição em alguns e a incredulidade em outros. E em breve o supersticioso e o incrédulo inevitavelmente discutem.
Mas eu tenho que contar uma história. Não muito tempo depois da morte de Ouspensky, entrei no seu quarto e sentei lá em um humor muito curioso, supersticioso. Depois de um minuto ou dois uma voz em mim — poderia ter sido uma memória da voz de Ouspensky — disse com uma risada que eu também me lembro muito bem: 'você quer uma comunicação dos mortos. Bem, você não vai obter nenhuma!' Ao mesmo tempo, sempre ouvi cuidadosamente essas vozes, pois quase sempre elas têm algo interessante a dizer. 


19 de novembro de 1948

Do meu próprio professor só posso dizer que ele também produziu entre seus amigos uma peça, da qual eles inconscientemente, mas perfeitamente, atuaram seus papeis, e cujo enredo foi sua própria morte. Silenciosamente, ele instruiu-nos em nossos corações, alguns reconhecendo isso e outros não. “Eu estarei sempre com vocês”, ele também poderia dizer — mas de maneira leve e fumando um cigarro, para que ninguém notasse. Deitado na cama em Surrey, ele possuiu com sua própria mente um jovem que voava sobre o Atlântico, o qual ele já havia livrado de uma ilusão. Naquela manhã, morto, ele andou com um viajante — atravessando a ponte de Londres; e a um outro ao volante de um carro ele mostrou a natureza do universo. No entanto, essas histórias são difíceis de acreditar. Que este presente livro seja a testemunha daquilo que ele alcançou depois, livro escrito este ano após sua morte, tratando de um conhecimento imerecido por mim. Que os que podem compreender entendam. Pois assim é.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Siddharameshwar Maharaj - 17 de outubro de 1935

Não deveríamos nos sentir tristes quando acontece algo que não gostamos. Se tudo é Deus e vem de Deus, qual é a diferença e onde ela está? Deveríamos saber disso plenamente. Saber que tudo é Deus é a verdadeira Devoção da mente.
Um homem pode pertencer a uma casta inferior, a chamada casta do intocáveis, ou pode ser muito mal em seu comportamento, mas em seu estado original ele ainda é Deus. Nele é apenas Deus que torna sua existência possível. Deus significa que nós mesmos somos o Ser Supremo, Paramatman. Somos aquela fundação sobre a qual todas as experiências acontecem.  Paramatman não termina, mas as experiências começam e terminam. Aquela Consciência que é a ciência (awareness) sutil presente no início e no fim das experiências é chamada de Ser ou Atman e esse pano de fundo sobre o qual todas as experiências acontecem é chamado de Paramatman (Para significa além de, anterior a). Aquilo que permanece depois da experiência, que existe antes da experiência começar e depois dela terminar somos nós, Paramatman. “Essa Raiz de todas as coisas” não é destrutível.
A serpente e o escorpião são o mesmo; mesmo neles pulsa nossa própria existência. Quando temos esse sentimento, dá-se o nome de “Consciência Divina”. Aquele que sabe que todas as criaturas são Deus, jamais usará palavras grosseiras para com os outros. Nenhuma pessoa insulta alguém que ela ama, mas muitas vezes é grosseira com os outros. Esse é o hábito do ego que acredita ser ele mesmo o indivíduo, o Jiva. Quando compreendemos que todas as coisas e todos os seres são Paramatman, não devemos dizer nada sobre ninguém, como por exemplo: “O que me importa ele?” “Eu não ligo para ele.” Tudo é o nosso Ser apenas, Paramatman. Mesmo a custo de nossa vida não deveríamos falar sobre os defeitos dos outros ou ferir alguém com palavras ou ações.  Deveríamos agir de modo a sermos úteis aos outros. Se tivermos dinheiro ou algum recurso deveríamos compartilhá-lo de modo que ele traga felicidade aos outros. Deveríamos agir de uma maneira que deixe os outros satisfeitos. Isso é chamado de Devoção Física ou devoção com nosso corpo. Deveríamos ser gentis mesmo com aqueles que nos fazem mal. O sábio Vasishtha perdoou o sábio Vishwamitra.
Aqueles que ainda são aspirantes ainda ficam com raiva; um aspirante ou alguém que estuda algum sistema de yoga pode ainda não ter um sentido apropriado de autocontrole e, portanto, os desejos e a raiva ainda podem perturbar tal pessoa. Eles podem às vezes praguejar com os outros e trazer muitos problemas a eles, como no caso de filhos de pessoas ricas que fazem Sadhana sem ter o autocontrole. Deveríamos nos tornar aptos a ver Deus todo poderoso, o Ser Supremo, até mesmo em nossos inimigos, pois esse é o sinal do estado de ausência de ego. Aquele cujo ego se foi é o verdadeiro Sadhu (o Santo). A natureza das pessoas consiste em encontrar faltas nos outros, mas a natureza do Sábio não é olhar os pontos ruins ou o que está faltando nos outros. Como pode alguém que está preocupado com o que é bom ou ruim nos outros ser um sábio? O sábio é diferente de tais pessoas, ele se comporta de maneira diferente das pessoas do mundo.  A natureza de um homem mau é não ver nada de bom nos outros. O homem que é realmente grande vê o que é bom nos outros e sabe que é a própria “Luz de Deus” que está brilhando dentro de si.
Seja gentil com todos e você não sentirá necessidade de nada. A compaixão por todos os seres é a melhor maneira de destruir a rede da Ilusão. Não há nenhum pecado pior do que a fofoca maldosa. Fale bem, mas nunca fale mal dos outros. Aquele que acusa os outros jamais conseguirá um bom alimento para comer. Se você quer boa comida você deveria falar boas palavras. Aquele que fala lixo come lixo. A língua que não fala de maneira doce não obtém alimento doce. As escrituras dizem que as pessoas de língua maligna nascem como porcos e comem esterco na próxima vida. Aquele que fala coisas boas e verdadeiras tem o poder da fala que é sempre verdadeira.
O senhor Krishna disse: “Ordenei que o caminho da devoção fosse muito puro. Não há dificuldade na devoção e o devoto obtém êxito. Mesmo que haja muitos livros sagrados e religiosos, o caminho da devoção é maior que todos eles. O buscador é ajudado por todos e as calamidades jamais mostram sua face para ele. Ele sabe que ele, que todos os seres do mundo e Paramatman são um. Assim como a serpente tem medo da águia e o homem tem medo da morte, as calamidades têm medo do devoto. Querido Uddhava, este é meu caminho da devoção, do qual não falei nem para minha mãe, mas agora falei a você.”

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Philokalia - São Marco o Asceta - Sobre a Lei Espiritual (parte 2)

Sem a lembrança de Deus não pode haver conhecimento verdadeiro,  apenas o conhecimento que é falso.
De um coração que ama os prazeres surgem pensamentos e palavras doentios; pela fumaça de um fogo reconhecemos o combustível.
Guarde sua mente e você não será perturbado pelas tentações. Porém, se você falhar em guarda-la, aceite pacientemente qualquer suplício que vier.
Rejeite todos os pensamentos de cobiça e você conseguirá ver os truques do demônio.
Aquele que diz que conhece todos os truques do demônio, sem saber cai na sua armadilha.
Quanto mais o intelecto se afasta das preocupações mundanas mais claramente ele vê as artimanhas do inimigo.
Um homem que é carregado por seus pensamentos é cegado por eles. E embora ele possa ver os trabalhos dos pecados, não pode ver suas causas.
A perversidade é uma rede intrincada e se uma pessoa é descuidada quando está parcialmente presa à rede, ela será totalmente enredada.
Alguns chamam os homens de inteligentes porque eles têm o poder de discernimento num plano sensível. Mas as pessoas realmente inteligentes são aquelas que controlam seus próprios desejos.
Até que você tenha erradicado o mal não obedeça o seu coração, pois ele irá buscar mais daquilo que já está contido dentro dele.
Assim como algumas cobras vivem em vales e outras em casas, também algumas paixões tomam forma em nossos pensamentos enquanto outras expressam-se em ação. Porém, é possível que elas mudem de um tipo para o outro.
Nenhuma nuvem é formada sem o sopro do vento e nenhuma paixão é nascida sem um pensamento.
Se nós não mais satisfazermos os desejos da carne, tudo de mal que há dentro de nós será eliminado com a ajuda de Deus.
A consciência é o livro da natureza. Aquele que aplica o que lê ali experimenta a ajuda de Deus.
Aquele que não escolhe sofrer por amor à verdade será punido mais dolorosamente por sofrimentos que ele não escolheu .
Aquele que conhece a vontade de Deus e cumpri-a de acordo com suas forças, escapa de um sofrimento mais severo ao sofrer um pouco.
O Senhor está oculto em Seus mandamentos e Ele é descoberto ali na medida em que é procurado.
Não diga: “Cumpri os mandamentos, mas não encontrei o Senhor.” Pois, frequentemente, você descobriu ‘o conhecimento espiritual com a retidão', como diz a escritura, e 'aqueles que buscam-No corretamente encontrarão a paz’. (Prov. 16:8)
A paz é a libertação das paixões e ela não é encontrada exceto através da ação do Espírito Santo.
As coisas espirituais são governadas pela graça de Deus.
Uma boa consciência é encontrada através da oração e uma oração pura através da consciência. Uma precisa da outra por natureza.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Farid-Ud-Din Attar - Oito Poemas


No caminho da taberna você embriagou-se.

Seria bom que você encontrasse uma casa lá.

Procure por essa casa para que você possa ver mais claramente

que o mundo e suas criaturas são uma miragem.

Nessa casa não importará para você

se o mundo for consumido pelas chamas ou pelas águas.


Há uma taberna fora dos dois mundos,

Os dois mundos estão adormecidos em seu abraço.

Veja como o aroma do vinho que vem de lá

seduz dia e noite os céus a entrarem.


Adentrar o âmago da questão é difícil;

É um assunto complicado e tem um coração alusivo.

Não deixe a razão ser o seu guia nesta estrada.

A razão deste mundo é um asno na lama.


No canto da taberna você é como uma sombra na presença do sol.

Como posso recontar este conto,

quando minha alma está tão intoxicada e arruinada pelo amor?


Se você perguntar qual é o segredo dessa questão,

o que poderei dizer,

pois o silêncio é a resposta.


No procurar e encontrar dessa realidade

milhares de pescoços são colocados nas cordas da misericórdia.

A dor dessa verdade tornou vermelhas as barbas

dos anciões desta jornada com o sangue de seus corações.

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O fogo de Seu amor na alma é mais doce.
A vida inflamada por Seu amor é mais doce.

Para aqueles que tiveram uma gota da taça de Seu amor

a embriaguez até o dia do Julgamento é mais doce.


Eu estava escondido até que Você emergiu,

pois ficar escondido com o Amado é mais doce.

Mesmo se a dor de Seu amor que queima a alma seja um veneno,

ela é mais doce que a vida.

Derrame dor para mim e não ofereça cura

Pois sua dor é mais doce que qualquer cura.


Não construa-me até que tenha me queimado,

queimar por Seu amor é mais doce.

Uma vez que ninguém pode alcançar a união com Você,

alcançar o muro da separação é mais doce.


Prevejo uma longa seca em nossa relação;
sem dúvida prever uma inundação seria mais doce.

Na Sua ausência todas as noites são como uma vela

e o choro de Attar até o amanhecer é mais doce.

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O amor de Sua beleza é um oceano de fogo.

Se você é um amante, queimará,
assim é o Caminho.

Onde a chama brilhante de uma vela se elevar

A mariposa passando ali certamente queimará.


Se você quer o segredo do amor,
abandone a crença e a descrença.

Que espaço há para elas com a chegada do amor?

O amante que chega ao primeiro estágio do Caminho

cai na fragilidade como uma sombra no chão.

Um pouco depois não resta nada da sombra

pois o sol fica esperando num lugar distante.


Muitos milhares de viajantes fingiram para o Amor.

Mansur é como uma pedra preciosa no selo do Caminho.

Aquele que busca a pérola da verdade neste oceano

é para sempre acariciado nas cortes dos dois mundos.

A tarefa deste Caminho é extremamente árdua,

uma pessoa a cada milênio vê o caminho por completo.

Como você conhecerá as Pessoas do Caminho?

Pois elas primeiro caminham nesta Via,
depois no Sétimo Céu.


Pelo caminho Attar chegou a um lugar

maior que o corpo e que a alma,
fora do amor e do ódio.

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 Ah, o sol, uma criança na sombra de Sua beleza.

Saboreou o leite e o açúcar de Sua fonte resplandecente.

Os dois mundos são acesos pelo brilho de Sua face,

As Nove Esferas são presas na armadilha de Seus cachos.


O coração oferece o canto de nossa separação ao vento.

Adormecida, a alma sonha com nossa união.

A Razão está totalmente desperta no reino da realidade,

embriagada, cochila e sonha até o Julgamento.

O sol, que abre as canções do épico do céu,

não eleva-se nem a uma nota do épico de Sua beleza.


Ó Turco dos céus, seu Hindu sempre vagueia nu

pelos vales da perfeição.

Você é o supremo Si-murgh empoleirado no monte Qaf;

Criando os dois mundos sob suas asas.

Seus cílios contêm hordas de assassinos.

Uma centena de corações foram esmagados por seus assassinos.

Attar tornou-se um fio cabelo na ausência de Sua face ensolarada,

Esperando encontrar um caminho em Seus anéis noturnos.

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Derrame um trago da taça da manhã. 

O amanhecer chegou.

Sacou sua espada para cortar a cabeça da noite.

A face de Mercúrio ocultou-se e a face do sol foi mostrada.

A lua rapidamente virou suas costas, o amanhecer chegou.


A lua é como um chapéu na negra cabeça da noite.

O amanhecer como uma chave no cadeado da manhã.

O harpista celestial toca a música dos ébrios,

pois a manhã rasgou o véu da face Hindu da noite.


O amanhecer escalou as montanhas.

Levante-se para o trago da manhã!

A manhã tocou sua trombeta na direção do ignorante.

A fagulha incendiou as brasas queimadas.

A fronte do domo turquesa foi partida pelo amanhecer.

A doce fragrância da alvorada é tão almiscarada,

como se tivesse provado do almíscar da cauda de um veado chinês.

Mas não foi assim que o amanhecer espalhou o almíscar.

Ele pegou a fragrância da bolsa perfumada de Attar.


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Todo coração que aniquila a si mesmo

torna-se digno da confiança do Rei.

A flor que não assume a coloração do coração

será afligida por sua própria essência enlameada.


O coração e a argila estão juntos hoje,

mas não estarão separados um do outro amanhã?

A argila de seu corpo irá transformar-se em átomos e

cada átomo irá transformar-se em um pássaro espiritual.


Se o coração permanecer na argila do ser,

como poderá abandonar o confinamento do túmulo?


O coração é um espelho com as costas manchadas.

Se for limpo ele revelará sua face.

A argila torna-se coração assim como as costas viram face.

Quando a escuridão se for tudo iluminará.

Toda vez que as costas e a frente se integram

o espelho submerge em magnificência.

Não é possível para nenhuma criatura

tornar-se como Deus ou tornar-se o Criador.


Mas algo verdadeiro poderia ser dito

se a essência e a qualidade do ser desaparecessem gradualmente.

Toda vez que uma pessoa torna-se aniquilada perdendo isso

ela subsiste na essência da Unidade.


A Presença ao falar desse estado diz:

A pessoa não torna-se Nós, mas torna-se de Nós.

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 Quando alguma coisa irá se tornar o Existente?

Quando o temporal se tornará o Eterno?

Se você está procurando por essa vida desconhecida,

familiarize-se com estas tarefas:

Sente-se à sombra de um mestre,

pois os cegos ficam em melhor situação com bengalas.

Torne-se palha e tombe a montanha

enquanto o mestre lhe transforma como âmbar.

Se não fizer como Attar lhe falou

cada pesar que você sofrer se tornará poeira.

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O ser que nulifica a si mesmo

torna-se digno de uma União imediata.

Uma madeira que não removeu o ser

não pode tornar-se incenso.


Esse incrível negócio tem lugar

no Caminho de nosso ser e não-ser.

Cada vez que sua existência torna-se nada

de imediato sua nulidade torna-se ser.


Ó amante do ser,
não chegou a hora de seu Iblis curvar-se em oração?

Você apostou seu coração no caminho do desejo

para que seu desejo lhe trouxesse benefício.

O coração tornou-se desejo e você ainda fica surpreso

com a conversão celestial em crenças mundanas.


Cada respiração que você toma em prol dos desejos

torna-se como que fumaça nos olhos do coração.

Inquestionavelmente tal fumaça transforma seu coração

em algo chamuscado e sem visão.



E dessa forma, Attar disse tudo o que sabe;

O resto depende daqueles que escutarem.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Prefácio do livro: "Master of Self-Realization", os discursos de Siddharameshwar Maharaj


 
Por Nisargadatta Maharaj

Estes são os discursos cujas palavras são de meu Mestre. Não posso explicar Suas palavras e, portanto, fico em silêncio a respeito delas.
Quando o “ego”, o “eu”, silencia-se, “Soham” (Eu sou Ele) automaticamente começa a operar. Soham é infindo, sem limites, imensurável e é o mensageiro da Verdade, a qual é auto-evidente. A mensagem e o mensageiro não estão separados Nele. Esse mensageiro é em si a alegria que é o desfrute do infindo. A descrição do desfrute do Ser é chamada de “discurso” neste mundo, que é realmente um comentário. A voz do Mestre é também chamada de “a Divina Palavra”. Seu discurso, o que ele proferia, são palavras, sentenças e dizeres.
O céu é o espaço e o espaço é a vasta expansão da fala, a qual é a palavra. A palavra é a qualidade natural do céu, fato bem conhecido desde os tempos dos Vedas. Primeiro há vibração no céu (o vento), então há o som e então as palavras aparecem. Em seguida, as palavras tornam-se a base da subsistência de todas as criaturas e coisas. O céu é o oceano de palavras do Imensurável. Esse oceano canta em louvor do Imensurável. O propósito de se cantar em louvor de algo é mudar todas as más qualidades. Esse divino discurso está fazendo o trabalho de descartar a dualidade ou o sentido de separação da Unidade Essencial da Existência, através da boca do Mestre.
No exato momento e no exato lugar onde toda a reverência para com o Mestre surge em nosso coração, a separação desaparece como um pequeno inseto insignificante. Mas infelizmente tais coisas raramente acontecem. É raro que aconteça de uma dentre as bilhões de pessoas chagar à Realização de que o Mestre é a própria Verdade, Parabrahman, a Realidade última encarnada. Quando o ensinamento do Mestre é algo muito estimado pela pessoa e é totalmente aceitável, e quando ela entende que os pés do Mestre são a fonte da experiência espontânea do Ser Divino dentro de nós, que dirige e realiza todas as ações e funções do corpo, quando a pessoa segura-se firme nos pés do Mestre dentro de seu coração sem nenhuma sombra de dúvida, então infalivelmente a corrente de bênçãos e a graça do Mestre reverenciado fluem muito naturalmente de dentro, o que é o movimento da “Vida que Permeia a Tudo”. Onde a total confiança nos divinos pés do Mestre está ativa, ali a graça da bem-aventurança do Mestre vem para residir na natureza do desfrute espiritual, chamado de “Pralhad”. Assim, a não-dualidade, sem as máculas da separação do “você” e do “eu” na Consciência, flui livremente. Não existe satisfação além da satisfação da Graça do Mestre, a qual é a bem-aventurança do Ser, sólida e impenetrável.
Na época que Shri Siddharameshwar Maharaj estava dando seus discursos, este que lhes escreve este prefácio tinha acabado de chegar no caminho e era apenas um novato. A única coisa que ele sabia era que tinha sido apresentado ao Maharaj e tido a oportunidade de vê-Lo. O trabalho de ouvir os discursos de Maharaj e anotá-los em sentenças quebradas era feito por ele. Nem sabia se o que estava escrevendo estava correto ou não, mas a capacidade de tomar nota de tudo o que era ouvido estava aumentando e pode-se dizer que quase tudo que era ouvido em Sua presença estava sendo anotado. Haviam outros co-discípulos que eram instruídos e que tiveram a oportunidade de estar com Maharaj por muitos anos, eles também estavam anotando os ensinamentos de Maharaj. Há muitos discursos de Maharaj na posse deles.
Já fazem 25 anos desde que Maharaj abandonou seu corpo físico. Durante os últimos dois ou três anos as anotações foram lidas e reescritas corretamente. Havia a intenção de publicá-las, mas os esforços feitos para isso não tiveram êxito. Entretanto, hoje, no vigésimo quinto aniversário da morte de Shri Maharaj isso está se tornando possível pela boa graça de tempos auspiciosos. Meus co-discípulos mais velhos que são grandiosos e muito experientes na espiritualidade, também publicarão as palestras de meu Mestre que estão em sua posse. Digo de minha convicção do Conhecimento do Ser (o Auto-Cnhocimento) que tal Mestre e tais ensinamentos são muito raros neste mundo. Digo isso a partir de minha fé na sabedoria de nosso Professor e minha própria Auto-Confiança (Confiança no Ser). Estas palavras são a expressão de minha fé. A experiência de uma pessoa é de acordo com o que ela conquistou ou realizou, e de acordo com isso também é o seu contentamento, sua paz e sua satisfação. Tudo isso é o resultado da lealdade da pessoa. Desde que conheci meus co-discípulos mais experientes, sempre fui humilde perante eles e rogo a meu Mestre que eu continue a ser humilde perante eles no futuro também.
A razão de eu ter total reverência a esses discípulos mais antigos é que eles conseguiram de alguma forma manter meu mestre em Mumbai por um longo tempo ao oferecerem o doce prato de sua devoção e eu pude ter a oportunidade de encontrar o Mestre que é o “Oceano do Conhecimento”. Eles não apenas tiveram o benefício de vê-Lo e servi-Lo com devoção, mas tendo sido liberados através do Autoconhecimento (o conhecimento do Ser), eles mesmos tornaram-se os salvadores para os outros. O Cosmos que é o Espírito e Forma Universal reside Nele. Toma refúgio Nele e esses discípulos mais velhos puderam ter um relacionamento íntimo com Ele e, portanto, foram salvos e tornaram-se liberadores de outras pessoas. Esse era e é o imperecível poder do lampejo (Darshan) do Mestre e de Seus ensinamentos. Mesmo aqueles que são almas simples sem muito aprendizado são purificados por terem visto apenas uma vez o Grande Mestre que é o “Oceano da Luz e do Mérito”, a “Encarnação do Conhecimento”, o “Conhecedor da Ciência” e “Oceano da Sabedoria”. Os ditos e discursos de tal Mestre Grandioso formam o conteúdo deste livro. Aqueles que os lerem repetidamente, aprenderem de cor e pensarem profundamente sobre o significado verdadeiro desses Ensinamentos, se tornarão o significado encarnado e se tornarão eles mesmos cheios de significado do Ser.
Estou colocando estas palavras diante de vocês como um prefácio deste livro. Cada sentença deste livro tem a potência de dar-lhes o fruto da Realização do Ser. Aquele que lê-los regularmente e ponderar sobre estes discursos irá tornar-se um canal para a expressão do espírito inerente a estas palavras. Os registros celestiais contêm as impressões de todos os Santos e do panteão de Deuses, seus esquemas projetados, o que eles proferiram, seus significados e sua própria Vida interior. Os “Realizados” verdadeiramente falam a partir da fonte de sua própria experiência e há grande convicção em sua fala. Sua fala tem a capacidade de descartar a ignorância do ego e cada linha deste livro irá erradicar a ignorância do leitor a respeito de seu Verdadeiro Ser, trazendo à tona a Verdadeira Natureza de seu Ser.

Nisargadatta, 4 de novembro de 1961


* Há vários discursos do livro mencionado traduzidos no blog.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Trechos do livro: "While the World Slept"

Toda vez que eu ia fazer a vigília noturna, Baba sempre dava três instruções. Elas eram: “Não fazer nenhum barulho. Não se mexer. E manter-se acordado”. Uma noite em Satara Baba repetiu essas instruções umas quatro ou cinco vezes. Então ele me disse para ir sentar lá fora. Eu fui, fechei a porta e sentei como uma estátua na cadeira. Frequentemente, durante a noite, Baba batia palma a cada quinze ou vinte minutos e o vigía da noite abria a porta e entrava para atendê-lo. Mas naquela noite Baba não chamava. Nem depois de quinze minutos, nem depois de meia hora, nem depois de uma hora, nem mesmo depois de duas horas! E havia uma porção de mosquitos furiosamente me importunando! Fiquei cansado de sentar rigidamente na mesma posição, mas continuei tentando me conformar com o pensamento que Baba iria me chamar e eu teria algum alívio. Finalmente escutei Baba roncando bem alto. Eu pensei: “Ah, até que enfim, aqui está a minha chance. Tenho pelo menos que mudar minha posição. Ele está dormindo profundo e não irá me escutar.” Muito cuidadosamente, sem fazer o menor barulho, comecei a levantar a minha perna. No instante que comecei a levantá-la, Baba bateu palma e eu entrei. Baba perguntou: “Por que você se mexeu?” Fiquei pasmo. Eu não tinha feito nenhum barulho. A porta e as janelas estavam completamente fechadas, ele estava dormindo. Como ele podia saber? Baba olhou para mim e explicou: “Você se moveu achando que eu estava dormindo. Mas lembre-se, meus olhos vagueiam pelo universo inteiro mesmo quando estou dormindo! Se posso ver tão longe eu não veria você que está tão perto de mim? Meu sono é um sono consciente. Eu estou sempre desperto.”
Uma outra noite, os mosquitos estavam particularmente irritantes e eu lentamente levantei a mão para espantá-los. Naquele exato momento Baba bateu palma e me repreendeu  por ter me movido! Enquanto vigiávamos, tínhamos que sentar absolutamente imóveis como uma estátua. Era quase impossível estar em vigília fora do quarto de Baba. E depois do acidente de automóvel de 1956, quando o vigia tinha que ficar dentro do quarto do Baba, ficou ainda mais difícil.
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Após o segundo acidente, Baba usava seu quarto que ficava no andar de cima em Meherazad e era carregado todo dia numa cadeira de rodas. O vigia da noite sempre sentava dentro do quarto. Isso era necessário porque Baba frequentemente tinha espasmos em sua perna enquanto descansava e quando isso ocorria quem estava no serviço sentava na cama para massagear seus pés. Uma noite eu estava sentado na cama de Baba com uma perna pendendo para fora da cama enquanto segurava e apertava os pés de Baba. Mesmo já tendo testemunhado a onisciência de Baba em Satara relacionado com isso, ainda assim um pensamento me importunava: “Baba está dormindo como um homem comum. Como pode ser que o Avatar tem sono consciente?”  De repente Baba começou a estalar os dedos agitadamente. Eu levantei e assim que coloquei os pés no chão, vi uma cobra venenosa há apenas alguns centímetros dos meus pés! Certamente eu teria sido mordido se ele não tivesse atraído minha atenção naquela direção. Baba falou para eu matar a cobra, o que consegui fazer com muita dificuldade pois nunca havia matado uma cobra em minha vida. Baba então perguntou: “Que tipo de sono eu tenho?” Eu ri e Baba gesticulou: “Apenas lembre que eu jamais posso dormir como um homem comum. Eu estou sempre desperto. Estou sempre consciente fazendo meu trabalho Universal.”

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Trecho do livro: "It's Up to Ourselves: A Mother, a Daughter, and Gurdjieff"


"...Nicolette tinha visto os efeitos da pobreza nas pessoas idosas; sua própria mãe tinha morrido sozinha e com frio em um pequeno quarto sujo nas ruas dos fundos de Paris durante a guerra. Mas havia lá 'Le vielle Marchand du Viand' (o velho mercador de Viand), o estranho armênio que tinha conseguido armazenar alimentos do nada, bem debaixo dos narizes das forças de ocupação e que dava parcelas de alimentos para sua mãe. Era sempre uma ocasião de alegria ir visitá-lo. Lá ele sentava em seu 'escritório' na Rue des Colonels Renard com cordões de salsichas pendurados sobre sua cabeça, frascos de estranhos frutos e pickles, metades inteiras de salmão defumado, doces, presuntos, ervas, alho, cordões de cebolas, creme, ovos, riquezas no deserto! E grande parte disso ele dava aos pobres do distrito, aos pobres e aos velhos. E ele tocava músicas num antigo acordeom, músicas que cortavam o coração, e dizia coisas para uma pessoa que não podiam ser faladas. E foi por causa dele que sua mãe disse que estava contente em morrer e não estava angustiada. Algum tipo de amor tinha passado para sua velha e surrada vida junto com as parcelas de alimentos. E quando ele morreu milhares e milhares de pessoas estiveram em seu funeral, uma longa fileira de pessoas chorando. Um homem misterioso. E conforme Nicolette pensava no velho homem ela também ficou repleta de uma nostalgia inexplicável ..."

No link abaixo é possível ouvir uma gravação de 1949 do Sr. Gurdjieff tocando acordeom e ver agumas imagens dele.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

G. I. Gurdjieff - Visões de um Mundo Real

Para um estudo exato, uma linguagem exata é necessária. Mas a linguagem comum na qual falamos, que estabelece o que conhecemos e compreendemos, na qual escrevemos livros na vida ordinária, não corresponde nem mesmo numa pequena medida a uma expressão exata.
Um discurso inexato não pode servir a um conhecimento exato. As palavras que compõem a nossa língua são demasiadamente abrangentes, muito nebulosas e indefinidas, enquanto que o sentido colocado nelas é muito arbitrário e variável.
Todo homem que pronuncia qualquer palavra sempre atribui este ou aquele nuance de significado a ela através de sua imaginação, exagera ou coloca à frente este ou aquele lado dela, às vezes, concentrando todo o significado da palavra numa única característica do objeto, ou seja, designando por esta palavra não todos os atributos, mas aqueles atributos acidentais
externos que vierem primeiro à sua atenção. Outro homem falando com o primeiro atribui à mesma palavra outra nuance de significado, toma aquela palavra em um outro sentido, o qual muitas vezes é exatamente o oposto. Se um terceiro homem se junta à conversa, novamente ele coloca na mesma palavra seu próprio significado. E, se dez pessoas falarem, cada uma delas, mais uma vez dará o seu próprio significado e a mesma palavra terá dez significados. E os homens falando dessa forma pensam que podem compreender uns aos outros, que podem transferir seus pensamentos uns aos outros. Pode-se dizer com plena confiança que a linguagem na qual os homens contemporâneos falam é tão imperfeita que no que quer que eles falem, especialmente em questões científicas, nunca poderão ter certeza que chamam as mesmas ideias pelas mesmas palavras.
Pelo contrário, pode-se dizer quase com certeza que eles entendem cada palavra de forma diferente e, que enquanto parecem falar sobre o mesmo assunto, de fato, falam de coisas completamente diferentes. Além disso, para cada homem o sentido de suas próprias palavras e o significado que ele coloca dentro delas muda de acordo com seus próprios pensamentos e humores, com as imagens que ele associa no momento com as palavras, bem como com o que e como seu interlocutor fala, pois por uma imitação involuntária ou ao ser contradito ele pode involuntariamente alterar o significado de suas palavras. Além disso, ninguém é capaz de definir exatamente o que ele quer dizer com esta ou aquela palavra, ou se esse significado é constante ou se está sujeito a alterações, como, porquê e por que razão.
Se vários homens falam, todos falam de sua própria maneira e nenhum deles entende o outro. Um professor uma palestra, um estudioso escreve um livro e sua audiência e seus leitores ouvem lêem não a eles, mas a combinações de palavras dos autores com seus próprios pensamentos, idéias, humores e emoções do dado momento.
As pessoas de hoje estão, até certo ponto, conscientes da instabilidade de sua linguagem. Dentre os diversos ramos da ciência, cada um desenvolve sua própria terminologia, sua própria nomenclatura e linguagem. Na filosofia tentativas são feitas, antes de usar qualquer palavra, de deixar claro em que sentido ela é considerada, mas por mais que as pessoas hoje em dia tenham tentado estabelecer um significado constante para as palavras, elas não tiveram êxito até omomento. Cada escritor fixa a sua própria terminologia, muda a terminologia de seus antecessores, contradiz sua própria terminologia, em suma, todo mundo contribui com sua parte para a confusão geral.
Este ensinamento aponta a causa disso. Nossas palavras não têm e não podem ter qualquer significado constante e em primeiro lugar, não temos meios de indicar a cada palavra o significado e o tom particular que damos a essa palavra, isto é, as relações em que ela é tomada por nós, e em segundo lugar não visamos isso, pelo contrário, invariavelmente desejamos estabelecer nosso significado constante para uma palavra e tomá-la sempre nesse sentido, o que é obviamente impossível, sendo que a mesma palavra usada em momentos diferentes e em várias relações tem significados diferentes.
Nosso uso errado das palavras e as qualidades das próprias palavras tornaram-nas instrumentos não confiáveis ​para um discurso
exato e um conhecimento exato, sem mencionar o fato que para muitas noções acessíveis a nossa razão não temos nem palavras nem expressões.

Apenas a linguagem dos números
pode servir para uma expressão exata de pensamento e conhecimento, mas a linguagem dos números é aplicada apenas para designar e comparar quantidades. Mas as coisas não diferem apenas no tamanho e sua definição do ponto de vista das quantidades não é suficiente para um conhecimento e análise exatos.
Nós não sabemos como aplicar a linguagem dos números aos atributos das coisas. Se soubéssemos como fazê-lo e
pudéssemos
designar
todas as qualidades das coisas por números em relação a um número imutável, essa seria uma linguagem exata.
O ensinamento cujos princípios vamos expor aqui tem como uma de suas tarefas trazer o nosso pensamento mais próximo de uma designação matemática exata das coisas e dos eventos e dar aos homens a possibilidade de compreenderem a si mesmos e uns aos outros.

Se tomarmos
qualquer uma das palavras mais usadas e tentarmos ver que variedade de significado essa palavra tem de acordo com quem a utiliza e em que contexto, veremos por que os homens não têm poder de expressar os seus pensamentos exatamente e por que cada coisa que o homem diz e pensa é tão instável e contraditória. Além da variedade de significados que cada palavra
pode ter, essa confusão e contradição é causada pelo fato de que os homens nunca dão-se conta para si do sentido em que eles tomam esta ou aquela palavra e apenas se perguntam por que os outros não a entendem, sendo que é tão claro para eles mesmos. Por exemplo, se dissermos a palavra "mundo" na frente de dez ouvintes, cada um deles entenderia a palavra de sua própria maneira. Se os homens soubessem como captar e anotar os seus pensamentos, veriam que não tinham idéias
relacionadas
com
a palavra "mundo", mas que apenas uma palavra bem conhecida e um som familiar foi proferido, o significado da qual é suposto ser conhecido. É como se todos que escutássem essa palavra disséssem para si mesmos: "Ah, o" mundo ", eu sei
o que
ele é.
" Na verdade, ele não sabe realmente de maneira nenhuma. Mas a palavra é familiar, e, portanto, tal pergunta e resposta não ocorre a ele. Ela é apenas aceita. A pergunta vem apenas em relação a novas palavras desconhecidas e, em seguida, o homem tende a substituir a palavra desconhecida por uma conhecida.
Ele chama isso de "entendimento."
Se agora perguntarmos ao homem o que ele entende pela palavra "mundo", ele fica perplexo com tal pergunta. Normalmente, quando ouve ou usa a palavra "mundo" numa conversa ele não pensa de forma alguma sobre o que ela significa, tendo decidido de uma vez por todas que ele sabe e que todo mundo sabe. Agora
, se alguém chamasse sua atenção sobre essa palavra e pela
primeira vez ele visse que não sabe e que nunca pensou nisso, e disso ele não seria capaz, ele não conseguiria descansar
com o pensamento de sua ignorância. Os homens não são capazes de suficiente observação e não são suficientemente sinceros consigo mesmos para poder fazê-lo. Ele iria recuperar-se em breve, isto é, ele muito rapidamente iria enganar a si mesmo e lembrando-se ou compondo apressadamente uma definição da palavra "mundo" de uma fonte familiar de conhecimento ou pensamento, ou da primeira definição de alguma outra pessoa que entra sua cabeça, ele iria expressá-la como se fosse sua própria compreensão do significado da palavra, embora na verdade ele nunca tenha pensado sobre a palavra "mundo" desta forma e não sabe como pensava que sabia.
O homem interessado em astronomia vai dizer que o "mundo" consiste em um número enorme de sóis rodeados por planetas, colocados a distâncias incomensuráveis ​​uns dos outros e que compõem o que chamamos de Via Láctea, além da qual existem distâncias ainda maiores e que estão além dos limites da investigação, onde outras estrelas e outros mundos podem ser supostos residir. Aquele que é interessado em física vai falar sobre o mundo de vibrações e descargas elétricas, sobre a teoria da energia ou talvez sobre a semelhança do mundo dos átomos e dos elétrons com o mundo de sóis e dos planetas. O homem inclinado à filosofia começará a falar sobre a irrealidade e o caráter ilusório de todo o mundo visível criado no tempo e no espaço pelos nossos sentimentos e sentidos. Ele vai dizer que o mundo dos átomos e elétrons, a terra com suas montanhas e mares, sua vida
vegetal e
animal, os homens e as cidades, o sol, as estrelas e a Via Láctea, todos esses são o mundo dos fenômenos, um mundo enganoso, falso e ilusório, criado por nossa própria concepção. Além deste mundo, para além dos limites de nosso conhecimento, existe um mundo incompreensível para nós, de noumenos - do qual o mundo fenomênico é uma sombra, um reflexo. O homem familiarizado com a teoria moderna do espaço multi-dimensional vai dizer que o mundo é geralmente considerado como uma esfera tridimensional infinita, mas que na realidade o mundo tridimensional como tal, não pode existir e representa apenas a seção imaginária de outro, um mundo de quatro dimensões, a partir do qual todos os nossos eventos vêm e para onde todos vão. Um homem cujo conceito de mundo é construído sobre o dogma da religião vai dizer que o mundo é a criação de Deus e depende da vontade de Deus, que para além do mundo visível, onde a nossa vida é curta e depende de circunstâncias ou acidentes, um mundo invisível existe onde a vida é eterna e onde o homem vai receber uma recompensa ou punição porudo o que ele fez nesta vida. Um teosofista vai dizer que o mundo astral não abraça o mundo visível como um todo, mas que sete mundos existem penetrando uns aos outros mutuamente e compostos de uma matérial mais ou menos sutil.
Um camponês russo ou um camponês de alguns países do oriente vai dizer que o mundo é a comunidade da aldeia da qual ele é membro. Este mundo está mais próximo a ele. Ele até mesmo dirige-se aos seus concidadãos nas assembleias gerais, chamando-nos de "mundo".
Todas essas definições da palavra "mundo" têm os seus méritos e defeitos: o seu principal defeito consiste em que cada uma delas exclui o seu oposto, enquanto que todas retratam um lado do mundo e examinam apenas de um ponto de vista dele. A definição correta seria formada da combinação de todas as compreensões separadas, mostrando o lugar de cada uma e, ao mesmo tempo dando em cada caso a possibilidade de declarar de que lado do mundo o homem fala, de que ponto de vista e em que relação.
Este ensinamento diz que se a questão sobre o que o mundo é fosse abordada da meneira certa, seria possível estabelecer com bastante precisão o que entendemos por esta palavra. E esta definição de um entendimento correto incluiria em si todas as visões sobre o mundo e todas as abordagens para a questão. Tendo, assim, concordado com essa definição, os homens seriam capazes de entender uns aos outros quando falassem sobre o mundo. Somente a partir de tal definição podemos falar sobre o mundo.

Mas como encontrar essa definição? O ensinamento ressalta que a primeira coisa é aproximar-se da questão da maneira mais simples possível, isto é, tomar as expressões mais usadas com que falamos sobre o mundo e considerar sobre que mundo estamos falando. Em outras palavras, olhar para a nossa própria relação com o mundo e tomar o mundo em sua relação com nós mesmos. Veremos que, ao falarmos do mundo, com frequência falamos da Terra, do globo terrestre, ou melhor, da superfície do globo terrestre, isto é, apenas o mundo em que vivemos. Se olharmos agora para a relação da Terra com o universo, veremos que, por um lado o satélite da Terra está incluído na esfera de sua influência, enquanto que por outro lado a Terra entra como uma parte componente do mundo planetário de nosso sistema solar. A Terra é um dos pequenos planetas girando em volta do sol. A massa da Terra forma uma fração quase desprezível em comparação com toda a massa dos planetas do sistema solar e os planetas exercem uma influência muito grande sobre a vida da Terra e em todas as organismos vivos existentes, uma influência muito maior do que o nossa ciência imagina. A vida dos homens individuais, de grupos coletivos, da humanidade, depende de influências planetárias em muitas coisas. Os planetas também vivem, como nós vivemos sobre a terra. Mas o mundo planetário, por sua vez, entra no sistema solar e entra como uma parte muito pouco importante porque a massa de todos os planetas juntos é muitas vezes menor que a massa do sol.
O mundo do sol é também um mundo em que vivemos. O sol por sua vez, entra no mundo das estrelas, na enorme acumulação de sóis que formam a Via Láctea.
O mundo estelar é também um mundo em que vivemos. Tomado como um todo, mesmo de acordo com a definição de astrônomos modernos, o mundo estelar parece representar uma entidade separada, tendo uma forma definida, cercado por espaço além dos limites que a investigação científica pode penetrar. Mas a astronomia supõe que a distâncias imensuráveis ​​de nosso mundo estelar, outras acumulações podem existir. Se aceitarmos essa suposição, diremos que o nosso mundo estelar entra como uma parte componente da quantidade total desses mundos. Esta acumulação de mundos de "Todos os Mundos" é também um mundo em que vivemos.
A ciência não pode olhar mais longe, mas o pensamento filosófico vai ver o último princípio que se encontra além de todos os mundos, isto é, o Absoluto, conhecido na terminologia hindu como Brahman.

Tudo o que foi dito sobre o mundo pode ser representado por um simples diagrama. Vamos designar a terra por um equeno círculo e marcá-lo com a letra A. Dentro do círculo vamos colocar um círculo menor que representa a lua e amos marcá-lo com a letra B. Em volta do círculo da terra vamos desenhar um círculo aior mostrando o mundo em que Terra entra e vamos arcá-lo com a letra . Em volta desse vamos desenhar o círculo representando o sol e marcá-lo com a letra D. Em seguida, em volta desse círculo desenhamos novamente um círculo representando o mundo estelar que vamos marcar com a letra E, e, então, o círculo de todos os mundos que marcaremos com a letra F. Em volta do círculo F vamos colocar o círculo G para designar o princípio filosófico de todas as coisas, o Absoluto.
O diagrama aparecerá como sete círculos concêntricos. Mantendo esse diagrama em vista, um homem ao pronunciar a palavra "mundo" sempre será capaz de definir exatamente de qual mundo ele está falando a respeito e em que relação a este mundo ele se encontra.
Como iremos explicar mais tarde, o mesmo diagrama nos ajudará a entender e combinar a definição astronômica do mundo, as definições filosóficas, físicas e físico-químicas, bem como a matemática (o mundo das muitas dimensões), e a definição teosófica (os mundos interpenetrantes uns aos outros) e outras.
Isso também deixa claro por que os homens falando sobre o mundo jamais poderão entender uns aos outros. Vivemos ao mesmo tempo em seis mundos, assim como vivemos em um andar de tal e tal casa, na rua tal e tal, em tal e tal cidade e tal estado, e em
tal parte do mundo.
Se um homem fala sobre o lugar onde ele vive sem indicar se ele refere-se ao andar ou à cidade ou à parte do mundo, ele certamente não vai ser compreendido por seus interlocutores. Mas os homens sempre falam desta maneira sobre qualquer coisa não tendo importância prática, e, como vimos no exemplo do "mundo", eles designam muito rapidamente
por uma única palavra
uma série de
noções que estão relacionadas umas as outras como uma parte insignificante está relacionada com um enorme conjunto, e assim por diante. Mas um discurso exato deveria salientar sempre e muito exatamente em que relação cada noção é tomada e o que ela inclui nela mesma. Isto é, de que partes ela consiste e em que ela entra como um componente.
Logicamente, é compreensível e inevitável, mas, infelizmente, nunca passa pela cabeça que os homens muitas vezes não sabem, e não sabem como encontrar as diferentes partes e as relações da noção dada.
É uma parte importante dos princípios deste ensinamento deixar claro a relatividade de cada noção, tomando-a não no sentido da idéia geral abstrata que tudo no mundo é relativo, mas indicando exatamente o em que e como se relaciona com o resto.


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Pergunta: Qual é o método do Instituto para o desenvolvimento harmonioso do homem?
Gurdjieff: O método é subjetivo, isto é, depende das peculiaridades individuais de cada pessoa. Existe
apenas
uma regra
geral que pode ser aplicada a todos – a observação. Isso é indispensável para todos. No entanto, essa observação não é para mudar, mas para ver a si mesmo. Todos têm suas peculiaridades próprias, seus hábitos próprios que um homem não costuma ver. É preciso ver essas peculiaridades. Dessa forma pode-se "descobrir muitas Américas." Cada pequeno fato tem a sua própria causa básica. Quando você tiver coletado material sobre si,
será possível falar; no momento, a conversa é apenas teórica. Se colocarmos peso de um lado, temos de equilibrar de alguma forma. Ao tentar observar a nós mesmos, adquirimos prática na concentração, o que será útil até mesmo na vida cotidiana.

P: Qual é o papel do sofrimento no autodesenvolvimento?
G: Existem dois tipos de sofrimento: o consciente e o inconsciente. Somente um tolo sofre inconscientemente. Na vida existem dois rios, duas direções. No primeiro, a lei é para o próprio rio, não para as gotas de água. Somos gotas. Em um deterinado momento uma gota está na superfície, em outro, no fundo. O sofrimento depende de sua posição. No primeiro rio o sofrimento é completamente inútil, porque é acidental e inconsciente. Paralelamente a este rio há outro rio. Neste outro rio existe um tipo diferente de sofrimento. A gota no primeiro rio tem a possibilidade de passar para o segundo rio. Hoje a gota sofre porque ontem ela não sofreu o suficiente. Aqui a lei da retribuição opera. A gota também pode sofrer com antecedência. Cedo ou tarde se paga por tudo. Para o Cosmos não há tempo. O sofrimento pode ser voluntário e só o sofrimento voluntário tem valor. A pessoa pode sofrer simplesmente porque se sente infeliz. Ou pode sofrer pelo ontem e para preparar para o amanhã.
Repito, somente o sofrimento voluntário tem valor.

P: Cristo era um mestre com uma preparação de escola, ou ele era um gênio acidental?
G: Sem conhecimento ele não poderia ter sido o que ele era, nem poderia ter feito o que fez. Sabe-se que onde ele estava havia conhecimento.
P: Se somos apenas mecânicos, que sentido tem a religião?
G: Para alguns a religião é uma lei, uma orientação, uma direção; para outros, um policial.
P: Em que sentido foi dito em uma palestra anterior que a Terra é viva?
G: Não somos apenas nós que estamos vivos. Se a parte está viva, então o todo estará vivo. Todo o universo é como uma corrente e a terra é um elo desta corrente. Onde há movimento, há vida.
P: Em que sentido é dito que aquele que não morreu não pode nascer?
G: Todas as religiões falam sobre a morte durante esta vida na Terra. A morte deve vir antes do renascimento. Mas o que deve morrer? A falsa confiança no seu próprio conhecimento, o amor próprio e o egoismo. Nosso egoísmo deve ser quebrado. Devemos entender que somos máquinas muito complicadas e portanto esse processo de quebra está fadado a ser uma tarefa longa e difícil. Antes que o crescimento real possa tornar-se possível nossa personalidade deve morrer.
P: Será que Cristo ensinou danças?
G: Eu não estava lá para ver. É necessário distinguir entre danças e ginástica, são coisas diferentes. Nós não sabemos se seus discípulos dançavam, mas sabemos que onde Cristo teve sua formação, eles certamente ensinavam "ginásticas sagradas".
P: Existe algum valor nas cerimônias e ritos católicos?
G: Eu não estudei o ritual católico, mas conheço os rituais da Igreja grega muito bem, e neles,
sublinhando
a
forma e a cerimônia, há um significado real. Toda cerimônia, se ela continua a ser praticada sem alteração, tem valor. Os rituais são como as danças antigas que eram guias nos quais a verdade era escrita. Mas, para entender devemos ter uma chave.
As danças folclóricas antigas também tem significado, algumas até contêm coisas como receitas para fazer geléia.
Uma cerimônia é um livro em que há muita coisa escrita. Qualquer um que entenda pode lê-lo. Em uma cerimônia há mais coisas contidas do que em uma centena de livros. Normalmente, tudo muda, mas os costumes e as cerimônias podem permanecer inalterados.

P: A reencarnação das almas existe?
G: A alma é um luxo. Ninguém ainda nasceu com uma alma totalmente desenvolvida. Antes de podermos falar de reencarnação, devemos saber que tipo de homem estamos falando, que tipo de alma e que tipo de reencarnação. A alma pode disintegrar imediatamente após a morte ou pode fazê-lo depois de um certo tempo. Por exemplo, uma alma pode ser cristalizada dentro dos limites da terra e pode permanecer lá, e ainda não ser cristalizada para o sol.
P: As mulheres podem trabalhar assim como os homens?
G: Diferentes partes estão mais altamente desenvolvidas nos homens e nas mulheres. Nos homens, é a parte intelectual, a que chamaremos A; nas mulheres a parte emocional, ou B. O trabalho no Instituto é por vezes mais ao longo da linha A, e nesse caso é muito difícil para B. Em outros momentos, é mais ao longo da linha B, em cujo caso é mais difícil para A. Mas o que é essencial para a compreensão real é a fusão de A e B. Isso produz uma força que chamaremos de C.
Sim, há chances iguais para homens e para mulheres.