quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Bhagavan Ramana Maharshi - A Luz e a Testemunha de Tudo

Pergunta: Os métodos Karma marga (o caminho da ação) e Jnana marga (o caminho do conhecimento) são separados e independentes um do outro? Ou o Karma marga é apenas preliminar e após ter sido praticado com êxito deve ser seguido pelo Jnana marga para a consumação do objetivo? O Karma defende o não apego à ação e ainda assim continuando a manter uma vida ativa, enquanto é dito que o Jnana significa renúncia. Qual é o verdadeiro significado de renúncia? A subjugação das paixões, da luxúria, da ganância, etc., é comum a todos e constitui a etapa preliminar essencial a qualquer caminho. A liberdade das paixões não indica renúncia? Ou a renúncia é diferente, significando a cessação da vida ativa? Essas questões estão me incomodando e rogo que luz seja lançada sobre essas dúvidas.

Bhagavan (sorrindo disse): Você já disse tudo. Sua pergunta também contém a resposta. A liberdade das paixões é o requisito essencial. Quando isso é alcançado tudo mais é alcançado.
P: Sri Shankaracharya enfatiza o Jnana marga e diz que a renúncia é preliminar a ele. Mas claramente há dois métodos mencionados no Gita. Eles são Karma e Jnana (Lokesmin dwividha nishtha...).
B: Sri Acharya comentou sobre o Gita e sobre essa passagem também.

P: O Gita parece salientar o Karma, pois Arjuna é convencido a lutar; o próprio Sri Krishna define o exemplo através de uma vida ativa de grandes explorações.

B: O Gita começa dizendo que você não é o corpo.

P: Qual é o significado disso?
B: Que devemos agir sem pensarmos que somos o ator. As ações prosseguirão a despeito de seu estado de ausência do sentido de ego. As pessoas adentram na manifestação por um propósito determinado. Esse propósito será cumprido esteja ela se considerando o ator ou não.
P: O que é Karma yoga? É o não apego ao Karma ou ao seu fruto?

B: Karma yoga é aquele yoga em que a pessoa não arroga a si mesma a função de ser o ator. As ações dão-se automaticamente.

P: É o não apego aos frutos das ações?
B: A questão surgirá apenas se houver o ator (o ego). O tempo todo tem sido dito que você não deve considerar-se o ator.

P: Então Karma yoga é kartrtva buddhi rahita karma - ação sem sentido de ser o agente.

B: Sim. Isso mesmo.
P: O Gita ensina vida ativa do começo ao fim.
B: Sim, a ação sem o ator.
P: É necessário, então, abandonar nossa casa e levar uma vida de renúncia?

B: A casa está em você? Ou você está em casa?

P: Está na minha mente.
B: Sendo assim, o que se passará com você quando você deixar o ambiente físico?
P: Agora eu vejo. Renúncia é apenas a ação sem a sensação de ser o agente. Não há ação para um jivanmukta (para uma alma liberada)?
B: Quem levanta a questão? É um jivanmukta ou outra pessoa?

P: Não é um jivanmukta.

B: Deixe a questão ser levantada após a libertação espiritual (jivanmukti) seja adquirida se isso for necessário. Mukti (a liberação) é admitido ser também a liberdade das atividades mentais. Pode um mukta pensar em ação?

P: Mesmo se ele abandona a ação, a ação não vai abandonar-lhe. Não é assim?

B: Com o que ele está identificado a fim de que esta questão possa se aplicar?
P: Sim, vejo tudo corretamente agora. Minhas dúvidas foram esclarecidas.

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P: Como conseguirei vencer minhas paixões?

B: Localize a raiz delas e então será fácil. Quais são as paixões? Kama (luxúria), krodha (raiva), etc. Por que elas surgem? Por causa da atração e da repulsão pelos objetos vistos. Como os objetos projetam-se na sua visão? Por causa de sua ignorância. Ignorância do que? Do Ser. Assim, se você encontrar o Ser e habitar nele não haverá nenhuma dificuldade proveniente das paixões.
Novamente, qual é a causa das paixões? O desejo de ser feliz ou de desfrutar do prazer. Por que o desejo por felicidade surge? Porque a sua natureza é ela mesma a felicidade e é natural que você vá para o que é seu. Essa felicidade não é encontrada em lugar algum além do Ser. Não procure-a em outros lugares, mas busque o Ser e resida nele. Ainda mais uma vez, essa felicidade que é natural é simplesmente redescoberta, portanto, ela não pode ser perdida. Enquanto que a felicidade decorrente dos outros objetos é externa e, portanto, suscetível de ser perdida. Por conseguinte, ela não pode ser permanente e por isso não vale a pena ser perseguida.
Além disso, a ânsia pelos prazeres não deveria ser incentivada. Não podemos extinguir o fogo vertendo gasolina sobre ele. Uma tentativa de satisfazer os seus desejos por aquele momento para que a paixão possa ser suprimida mais tarde é simplesmente tolice. Sem dúvida, existem outros métodos para a supressão das paixões. Eles são: (1) a regulação alimentar, (2) o jejum, (3) a prática de yoga, (4) alguns medicamentos. Mas seus efeitos são transitórios. As paixões reaparecem com maior vigor assim que o controle é removido. A única maneira de superá-las é erradicá-las. Isso é feito ao encontrarmos sua fonte, como indicado acima.

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P: Com cada pensamento o sujeito e o objeto aparecem e desaparecem. O 'eu' não desaparece quando o sujeito desaparece assim? Se é assim, como pode a busca pelo 'eu' proceder?

B: O sujeito (o conhecedor) é apenas uma modulação da mente. Embora a modulação (vritti) passe, a realidade por trás dela não cessa. O plano de fundo da modulação é o 'Eu' no qual as modulações da mente emergem e submergem.

P: Depois que as escrituras descrevem o Ser como srota (o ouvinte), manta (o pensador), vijnata ( o conhecedor), etc., ele é novamente descrito como asrota, amanta, avijnata, ou seja, não-ouvinte, não-pensador, não-conhecedor, É assim?

B: Justamente assim. O homem comum fica consciente de si mesmo apenas quando as modificações surgem no intelecto (vijnanamaya kosa); essas modificações são transitórias, elas surgem e desaparecem. Portanto, o ijnanamaya (intelecto) é chamado de kosa ou invólucro. Quando sobra apenas a pura consciência, ela é o próprio Chit (Ser) ou o Supremo. Estar em nosso estado natural com o apaziguamento dos pensamentos é em si felicidade e graça. Se essa felicidade é transitória – se ela vem e vai - então esse é só o invólucro da felicidade (Anandamaya kosa), não o puro Ser. O que é necessário é fixar a atenção sobre o puro 'Eu' após o apaziguamento de todos os pensamentos e não perder a conexão com ele. Isso tem de ser descrito como um pensamento extremamente sutil; de outra forma não se pode falar disso de maneira nenhuma, uma vez que ele não é nada além do que o verdadeiro Ser. Quem há para falar dele? Para quem? E como?

Isso está bem explicado no Kaivalyam e no Viveka Chudamani*. Assim, embora no sono a consciência do Ser não é perdida, a ignorância do jiva (ego) não é afetada por isso. Para essa ignorância ser destruída, esse estado sutil da mente (vrittijnanam) é necessário; na luz do sol o algodão não queima, mas se o algodão for colocado sob uma lente, ele pega fogo e é consumido pelos raios do sol que passam através da lente. Da mesma forma, embora a consciência do Ser esteja presente em todos os momentos, ela não é hostil à ignorância. Se através da meditação o estado sutil do pensamento é obtido, a ignorância é destruída. Também no Viveka Chudamani está escrito: sukshmam paramatma tattvam na sthoola drishtya (o extremamente sutil Ser Supremo não pode ser visto pelo olho grosseiro) e esha jyotirasesha sakshi (este é o Ser - a luz e a testemunha de tudo). Esse estado mental sutil não é uma modificação da mente chamada de vritti. Porque os estados mentais são de dois tipos. Um é o estado natural e o outro é uma transformação nas formas dos objetos. O primeiro é a Verdade e o outro é de acordo com o agente (kartrutantra). Quando esse último morre, Djallé kataka renuvat (como pasta de amendoim dissolvida em água) o primeiro permanecerá. O meio para alcançar esse fim é a meditação. Embora ela seja iniciada com a tríade da distinção (o meditador, o objeto meditado e o processo de meditação), finalmente terminará na consciência pura (jnanam). A meditação precisa de esforço, já o jnanam é sem esforço. A meditação pode ser praticada ou não praticada ou pode ser mal feita, jnanam não é assim. A meditação é descrita como kartru-tantra (como sendo própria do meditador), jnanam é descrito como vastutantra (do próprio Supremo).

P: O que significa o Atma?

B: O Ser.
P: Não é o amor por alguma coisa?
B: O desejo por felicidade (sukha prema) é uma prova da felicidade sempre presente do Ser. Caso contrário como poderia esse desejo surgir em você? Se a dor de cabeça fosse natural para os seres humanos ninguém tentaria se livrar dela. Mas toda a pessoa que tem uma dor de cabeça tenta se livrar dela, porque ela conheceu o tempo quando ela tinha nenhuma dor de cabeça. Ela deseja apenas o que é natural a ela. Assim também as pessoas desejam a felicidade porque a felicidade é natural para elas. Sendo natural, ela não é adquirida. As tentativas do homem só podem ser para se livrar da miséria. Se isso for feito o a felicidade e bem-aventurança sempre presentes serão sentidas. A felicidade primordial é obscurecida pelo não-ser que é sinônimo de não-felicidade ou miséria. Duhkha nasam = Suree prapti (a perda da infelicidade resulta no ganho da felicidade). Felicidade misturada com miséria é apenas miséria. Quando a miséria é eliminada, a felicidade sempre presente é dito ser adquirida. O prazer que termina em dor é miséria. As pessoas devem evitar tal prazer.
Os prazeres são de três tipos: priya, moda e pra-moda. Quando um objeto desejado está próximo à mão surge priya, quando se toma posse desse objeto surge moda, quando ele está sendo apreciado prevalece o pra-moda. A razão para o caráter prazeiroso desses estados é que um pensamento exclui todos os outros e então este único pensamento também se funde com o Ser. Esses estados são apreciados somente no Anandamaya Kosa (no invólucro da felicidade). Como regra, o Vijnanamaya kosa (o invólucro do intelecto) prevalece no estado desperto. No sono profundo todos os pensamentos desaparecem e o estado de obscurecimento é um estado de bem-aventurança, ali o corpo que prevalece é o Anandamaya. Esses são os invólucros e não o cerne que é interior a todos esses. Ele está além da vigília, do sono com sonhos e do sono profundo. Ele é a Realidade e consiste na verdadeira felicidade (nijananda).
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Seis versos sobreo Ser

1. Para sempre verdadeiro, forte e novo permanace o Ser. A partir Dele, na verdade, brotam o corpo fantasma e o mundo fantasma. Quando esta ilusão é destruída e não remanece nenhuma partícula, o Sol do Ser brilha claro e real na vasta extensão do Coração. Morre a escuridão, terminam as aflições e a bem-aventurança jorra abundantemente.

2. O pensamento "eu sou o corpo" é o cordão onde são amarrados os vários pensamentos. Ao questionarmos internamente: "Quem sou eu?” e “De onde vem este pensamento?" Todos os outros pensamentos se esvaem. E o Ser brilha por si mesmo como o Eu na caverna do Coração. Essa autoconsciência é o único Céu, essa quietude, essa morada da bem-aventurança.

3. De que adianta conhecer coisas diferentes do Ser? E sendo o Ser conhecido, que outra coisa há para conhecermos? É aquela luz una que brilha como os muitos seres, vendo internamente esse relâmpago da consciência, o jogo da Graça, a morte do ego e o florescimento da bem-aventurança.


4. Para afrouxar as amarras do karma e acabar com os nascimentos, este caminho é mais fácil do que todos os outros caminhos. Permaneça em quietude, sem nenhuma agitação da língua, do corpo ou da mente. E eis o esplendor do Ser interior; a experiência da eternidade, a ausência de todo o medo, o vasto oceano da Graça.

5. Annamalai - o Ser, o Olho atrás do olho da mente, que vê o olho e todos os outros sentidos, que conhece o céu e os outros elementos. O Ser que contém, revela e percebe o céu interior que brilha dentro do Coração. Quando a mente livre de pensamentos se volta para dentro, Annamalai aparece como meu próprio Ser. Verdade, a Graça é necessária, o Amor é adicionado. O êxtase divino eclode.
6. No núcleo mais íntimo, o coração brilha como Brahman sozinho, como "Eu-Eu”, o Ser consciente. Entre profundamente no coração em busca do Ser ou mergulhe fundo com a respiração sob controle. Assim, habite sempre no Atman.
* Pesquizar no Blog trechos do Viveka Chudamani de Sri Shankara

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Kabir - Onze Poemas


Segure-se no balanço do amor hoje!
Coloque o corpo e a mente entre os braços do Amado,
no êxtase da alegria do amor:
Traga as torrentes lacrimejantes das nuvens chuvosas
para os seus olhos e cubra seu coração com a sombra da escuridão:
Traga a sua face mais perto do ouvido Dele
e fale dos anseios mais profundos do seu coração.
Kabir diz: “Ouça-me, irmão!
Traga a visão do Amado ao seu coração.”
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Oh Narada! Sei que meu Amado não pode estar longe.
Quando Ele desperta, eu desperto;
quando Ele dorme, eu durmo.
Quando as pessoas cantam em Seu louvor,
ali vivo eu;
Quando Ele se move, caminho diante dele,
meu coração anseia por meu Amado.
A peregrinação infinita encontra-se aos pés Dele,
um milhão de devotos estão sentados ali.
Kabir diz:
“O próprio Amante revela a glória do verdadeiro amor.”

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O mês de março aproxima-se:
Ah, quem irá unir-me a meu Amante?
Como poderei encontrar palavras para a beleza de meu Amado?
Pois ele está mesclado em toda a beleza.
Sua cor está em todas as imagens do mundo,
e ela enfeitiça o corpo e a mente.

Aqueles que sabem disso,
sabem o que é este jogo indescritível da Primavera.
Kabir diz:
"Escute, irmão, poucos foram os que descobriram isso."

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Oh Sadhu! minha Terra é uma Terra sem tristezas.
Eu clamo em voz alta para todos,
para o rei e o mendigo, para o imperador e o faquir.

Aqueles que procuram por abrigo no Altíssimo,
venham e estabeleçam-se na minha Terra!
Que os que estão cansados coloquem seus fardos aqui!
Viva aqui, meu irmão,
para que você possa cruzar com facilidade para a outra margem.
É uma Terra sem terra ou céu, sem lua ou estrelas;
Pois apenas o esplendor da Verdade bri
lha na corte de meu Senhor.
Kabir diz: "Ó amado irmão!
Nada é essencial exceto a Verdade".
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Sob o grande guarda-chuva de meu Rei
milhões de sóis, luas e estrelas estão brilhando!
Ele é a Mente dentro de minha mente.
Ele é o Olho dentro de meu olho.

Ah, possam minha mente e meus olhos serem um!
Possa meu amor chegar a meu Amante!
Possa o calor impetuoso de meu coração ser resfriado!

Kabir diz:
"Quando você unir o amor com o Amante,
você terá a perfeição do amor."
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Aprendi o idioma sânscrito,
então deixei todos os homens chamarem-me de sábio:
mas qual é a utilidade disso,
quando estou flutuando à deriva ressecado de sede
e queimando com o calor do desejo?
Por propósito nenhum você ostenta em sua cabeça
essa carga de orgulho e vaidade.

Kabir diz:
"Coloque-a na poeira e vá em frente encontrar o Amado.
Dirija-se a Ele como seu Senhor."
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Existe algum sábio que escutará
a Música solene que surge no céu?
Pois Ele, a Fonte de toda música,
enche todos os vasos por completo
e permanece repleto em Si mesmo.

Aquele que está no corpo está sempre sedento,
pois busca o que está na parte.
Mas sempre ali mais profundo brota o som
"Ele é isto - isto é Ele";
fundindo o amor e renúncia em um.
Kabir diz: "Ó irmão! Essa é a palavra Primal".

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Este dia é mais caro para mim do que todos os outros dias,
pois hoje o Senhor Amado é um convidado em minha casa;
meu quarto e o pátio de meu lar estão lindos com Sua presença.
Meus anseios cantam Seu nome e perdem-se em Sua grande beleza.
Eu lavo Seus pés e olho para Sua Face;
coloco diante Dele como uma oferenda
meu corpo, minha mente e tudo o que tenho.
Que dia de alegria é o dia em que meu Amado,
o Qual é meu tesouro, vem a minha casa!
Todos os males voam para longe de meu coração
quando vejo meu Senhor.
"Meu amor tocou-Lhe;
meu coração está buscando o nome que é a Verdade. "
É assim que canta Kabir, o servo de todos os servos.
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Nuvens adensam-se no céu!
Ouça a voz profunda de seu rugido;

A chuva do leste vem com seu sopro monótono.
Cuide das cercas e fronteiras de seus campos,
para que as chuvas não os inundem.
Prepare o solo da libertação
e deixe as trepadeiras do amor e da renúncia
serem embebidas nesta chuva.

É o agricultor prudente que trará sua colheita para casa.
Ele deve preencher ambos os seus vasos e alimentar os sábios e Santos.
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Sirva seu Deus,
Ele veio para este templo da vida!
Não faça o papel de louco,
pois a noite está chegando rapidamente.
Ele me aguardou por incontáveis eras,
por amor a mim Ele perdeu Seu coração:
Ainda assim eu não conhecia o êxtase que estava tão perto de mim,
pois meu amor ainda não havia despertado.
Mas agora meu Amante tornou conhecido para mim
o significado da nota que assolou meu ouvido:
agora, a minha sorte veio.
Kabîr diz:
"Veja quão grande é a minha sorte!
Recebi o cuidado interminável de meu Amado"!
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Oh meu coração!
Você não conheceu os segredos da cidade do amor;
na ignorância você veio e na ignorância retornou.
Amigo, o que você fez com esta vida?
Carregou na sua cabeça o fardo de pedras pesadas.
Quem irá aliviá-lo para você?
Seu Amigo permanece na outra margem,
mas você não pensa nunca em como irá encontrá-Lo.
O barco está quebrado e você fica sempre sentado
no banco de areia sendo surrado sem propósito pelas ondas.
O servo Kabir está lhe pedindo para considerar:
Quem irá lhe auxiliar no final?
Você está sozinho, não tem companhia.
Você irá sofrer as consequências de seus atos. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Philokalia - São Máximo o Confessor - Sobre o amor (parte 2)

Uma vez que Deus é existência absoluta, bondade absoluta e sabedoria absoluta, ou melhor, para colocar de maneira mais exata, uma vez que Deus está além de tais coisas, não há nada que seja verdadeiramente oposto a Ele. As criaturas, por outro lado, existem todas através da participação e da graça, sendo que aquelas dotadas com inteligência e intelecto também têm uma capacidade para a bondade ou a sabedoria. Dessa forma, elas têm opostos. Como o oposto da existência elas têm a não existência, como oposto à capacidade para a bondade e a sabedoria têm o mal e a ignorância. Se irão existir eternamente ou não, está dentro do poder de seu Criador. Mas se as criaturas inteligentes irão participar ou não em Sua bondade e sabedoria depende de sua própria vontade.

Assim como o mal é uma privação do bem e a ignorância é uma privação do conhecimento, também o não-ser é uma privação do ser – não do ser num sentido substantivo, pois isso não tem nenhum oposto, mas do ser que existe através da participação no Ser substantivo. As duas primeiras privações mencionadas dependem da vontade das criaturas, a terceira depende da vontade do Criador, que em Sua bondade deseja que os seres existam sempre e que sempre recebam Suas bênçãos.

Todas as criaturas, ou são dotadas de inteligência e intelecto, e dessa forma possuem uma capacidade para opostos tais como virtude e vício, conhecimento e ignorância, ou são corpos físicos de vários tipos constituídos de opostos, ou seja, de terra, ar, fogo e água. Os primeiros são totalmente incorpóreos e imateriais, embora alguns deles estejam unidos a corpos, os últimos são compostos de matéria e forma.

Por natureza todos os corpos carecem da capacidade de movimento, é através da alma que eles recebem o movimento, seja por uma que seja inteligente ou um sem inteligência, ou por uma que seja insensata.

A alma tem três poderes: o primeiro, o poder de nutrição e de crescimento; o segundo, o de imaginação e instinto; o terceiro, o da inteligência e do intelecto. As plantas compartilham apenas do primeiro desses três poderes, os animais do primeiro e do segundo, os homens compartilham de todos os três. Os dois primeiros poderes são perecíveis, o terceiro é claramente imperecível e imortal.

Através de um amor genuíno por Deus nós podemos afugentar as paixões. O amor por Deus é o seguinte: escolher a Deus em vez do mundo e a alma em vez da carne, ao desprezarmos as coisas deste mundo e nos devotarmos constantemente a Ele através do autocontrole, do amor, da oração e assim por diante.

A recompensa do autocontrole é a liberdade das paixões e a recompensa da fé é o conhecimento espiritual. A liberdade das paixões engendra a discriminação e o conhecimento espiritual engendra o amor por Deus.

Quando o intelecto pratica as virtudes corretamente ele avança na compreensão moral. Quando ele pratica a contemplação, avança no conhecimento espiritual. A primeira conduz o aspirante espiritual a discriminar entre a virtude e o vício, o segundo conduz o aspirante às qualidades internas das coisas incorpóreas e corpóreas. Finalmente, é garantida ao intelecto a graça da teologia quando, carregado nas asas do amor para além desses estágios precedentes, ele é absorvido em Deus e com a ajuda do Espírito Santo discerne – na medida do possível ao intelecto humano – as qualidades de Deus.

Se você estiver prestes a entrar no reino da teologia, não tente delimitar a natureza mais íntima de Deus, pois nem o intelecto humano nem o de nenhum ser sob Deus pode experimentar isso; mas tente discernir, na medida do possível, as qualidades que pertencem à Sua natureza – as qualidades da eternidade, infinidade, indeterminabilidade, bondade, sabedoria e o poder de criar, preservar e julgar as criaturas e assim por diante. Pois aquele que descobre essas qualidades, não importa em que medida, é um grande teólogo.

Aquele que combina a prática das virtudes com o conhecimento espiritual é um homem de poder. Pois com a primeira ele enfraquece seus desejos e doma sua insensatez e com o segundo, dá asas a seu intelecto e sai de si mesmo para Deus.

Para aquele que é perfeito no amor e que atingiu o cume da liberdade das paixões não há diferença entre o seu e o do outro ou entre os Cristãos e os descrentes, ou entre o escravo e o liberto, ou entre o masculino e o feminino. Mas porque ele elevou-se acima da tirania das paixões e fixou sua atenção na natureza única do homem, ele olha para todos da mesma maneira e mostra a mesma disposição para com todos. Pois nele não há nem Grego nem Judeu, masculino ou feminino, aprisionado ou livre, e sim Cristo que “é tudo e está em todos” (Col. 3:11; Gal. 3:28)

A pessoa que veio a conhecer as fraquezas da natureza humana adquiriu experiência do poder divino. Tal homem, tendo alcançado algumas coisas e ávido por atingir outras através desse poder divino, nunca menospreza a ninguém. Pois ele sabe que assim como Deus ajudou-o e libertou-o de muitas paixões e dificuldades, também, quando Deus desejar, Ele pode ajudar a todos os homens, especialmente aqueles que perseguem o caminho espiritual por Seu amor. E se em Sua providência ele não libera das paixões todos os homens juntos, não obstante, como um bom e amável médico, ele cura com um tratamento individual cada um daqueles que estão tentando fazer progresso.

Quando uma provação cair sobre você inesperadamente, não culpe a pessoa através da qual ela vier, mas tente descobrir o motivo pelo qual ela veio e então você descobrirá uma maneira de lidar com ela. Pois, seja através dessa pessoa ou através de outra, de qualquer maneira você terá de beber o absinto do Julgamento de Deus.

Enquanto você tiver maus hábitos não rejeite as dificuldades, de modo que através delas você possa ser tornado humilde e possa expelir o seu orgulho.

Às vezes, os homens são testados através do prazer, às vezes, através da dor ou do sofrimento físico. Por meio de Suas prescrições, o Médico das almas administra o remédio de acordo com a causa das paixões que se encontram ocultas na alma.

O homem sensível, levando em consideração o efeito medicinal das prescrições divinas, alegremente sustenta os sofrimentos que elas lhe trazem, uma vez que ele está ciente que elas não têm nenhum motivo além de seu próprio pecado. Mas quando o tolo, ignorante da sabedoria suprema da providência de Deus, peca e é corrigido, ele considera ou Deus ou os homens como responsável pelas dificuldades que ele sofre.

Certas coisas interrompem o movimento das paixões e não permitem que elas cresçam, outras subjugam-nas e fazem-nas diminuir. Por exemplo, no que diz respeito ao desejo, o jejum, os labores e vigílias não permitem que ele cresça; enquanto que o afastamento, a contemplação, a oração e o intenso anseio por Deus subjugam-no e fazem-no desaparecer. O mesmo é verdadeiro no que diz respeito à raiva. A abstenção, a liberdade do rancor, a gentileza, por exemplo, capturam-na e impedem-na de crescer, enquanto que o amor, os atos de caridade, a brandura e a compaixão fazem-na diminuir.

Quando o intelecto de um homem está constantemente com Deus, seu desejo cresce além de toda medida em um anseio intenso por Deus e sua aspereza é completamente transformada em amor divino. Pois através de uma contínua participação no esplendor divino seu intelecto torna-se totalmente preenchido de luz; e quando ele reintegra o aspecto passível de seu intelecto ele redireciona-o para Deus, como dissemos, preenchendo-o com um anseio intenso e incompreensível por Ele e com um amor incessante, assim afastando-o totalmente das coisas mundanas e atraindo-o para Deus.

Guarde-se contra a mãe de todos os vícios, o amor-próprio, que é o impensado amor pelo corpo. Pois ele dá origem a justificações plausíveis para os três primeiros e mais comuns pensamentos dominados pelas paixões. Quero dizer, os pensamentos provenientes da glutonia, da avareza e da autoestima, que tomam como pretexto alguma suposta necessidade do corpo. Todos os demais vícios são gerados por esses três. Você deve estar em guarda e lutar contra o amor-próprio com grande vigilância, pois quando esse vício é erradicado todos os outros são erradicados também.

Os principais vícios: a estupidez, a covardia, a libertinagem, a injustiça – são a ‘imagem’ do homem ‘mundano’. As principais virtudes: a inteligência, a coragem, a auto restrição, a justiça – são a ‘imagem’ do homem ‘celestial’

Se um homem ama alguém, ele naturalmente faz todo tipo de esforço para ter serventia àquela pessoa. Se, portanto, um homem ama a Deus, ele naturalmente se esforça arduamente para agir de acordo com a Sua vontade. Mas se ele ama a carne, ele serve de alcoviteiro para a carne.

O amor, a auto restrição, a contemplação e a oração conformam-se à vontade de Deus, enquanto que a glutonia, a libertinagem e as coisas que as aumentam alcovitam a carne. É por isso que “aqueles que estão na carne não podem se conformar à vontade de Deus” (Rom. 8:8). Mas “aqueles que são de Cristo crucificaram a carne junto com as paixões e os desejos” (Gal. 5:24).

O intelecto de um homem que desfruta do amor de Deus não luta contra as coisas ou contra as imagens conceituais delas. Ele luta contra as paixões que estão conectadas com essas imagens. Ele não luta, por exemplo, contra uma mulher ou contra um homem que lhe ofendeu, ou mesmo com as imagens que ele forma deles, mas luta contra as paixões que estão conectadas com as imagens.

Se o intelecto inclina-se para Deus, ele trata o corpo como seu servo e não lhe provê com nada além do necessário para sustentar a vida. Mas se ele inclina-se para a carne, torna-se servo das paixões e está sempre pensando em como satisfazer os seus desejos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Hakim Sanai - Poemas Místicos

Quando o caminho incendeia uma alma,
não é mais possível permanecer num só lugar.
Os pés tocam o solo, mas não por muito tempo.

O caminho onde o amor conta seu segredo
está sempre em movimento e não há nem você e nem razão ali.
O cavaleiro incita seu cavalo a galopar e ao fazê-lo
é lançado sob os cascos voadores.

Na unidade do amor não existe velho ou novo.
Tudo é nada. Somente Deus é.
Para os amantes o véu dos fenômenos é muito transparente
e os delicados decalques sobre ele
não podem ser explicados com a linguagem.

As nuvens se queimam quando o sol nasce
e o mundo do amor é inundado com luz.
Mas as nuvens de água podem tanto obscurecer,
quanto serem úteis.

Há uma afeição que cobre a glória,
ao invés de dissolver-se nela.
É uma diferença sutil,
como a mudança da palavra "amizade" em persa
para a palavra "trabalho".
Ela ocorre com apenas um ponto acima ou abaixo da terceira letra.

Há uma visão da beleza da união
que não trabalha ativamente para a conversa interior.
Suas mãos e pés devem se mover como rio corre,
trabalhando como seu Ser para chegar ao oceano.
Então não há mais menção à busca.
Ser famoso ou ser uma vergonha,
quem está à frente ou quem está atrás,
essas considerações são rochas e lugares obstruídos
que fazem você diminuir sua velocidade.
Seja tão nu como um grão de trigo fora de sua casca
e elegante como Adão.

Não peça por outra coisa além da presença.
Não fale de um "você" separado Daquilo.
Um recipiente cheio não pode ficar mais cheio.
Seja inteiro, seja nada.

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Se você me perguntar o caminho, meu amigo,
lhe direi claramente:

É voltar a sua face para o mundo da vida
e dar as costas para classificações e reputação.
Desprezando a prosperidade externa,
você deve curvar suas costas duplamente em serviço a Ele;
deve afastar-se da companhia daqueles
que negociam com palavras
e tomar o seu lugar na presença sem palavras.

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Quando Ele admitir você em Sua presença,
não Lhe peça nada além Dele mesmo.
Quando Ele tiver lhe escolhido como amigo,
você já terá visto tudo o que há para ser visto.

Não há dualidade no mundo do amor:
o que é toda essa conversa de 'você' e 'eu'?
Como é possível encher uma taça que já esteja cheia?
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O conquistador do amor é aquele a quem o amor conquista.
Aplique-se, coloque pés e mãos na busca,
mas quando você alcançar o mar,
pare de falar do riacho.

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Não fale de seu sofrimento
- ele está falando.

Não fique procurando por Ele em toda parte
- Ele está procurando você.

Os pés de uma formiga tocam uma folha, Ele sente.
Um seixo rola a margem do rio, Ele sabe disso.
Se há um verme escondido fundo em uma rocha,
Ele conhece o seu corpo menor que um átomo,
conhece o som de seu louvor, seu êxtase secreto
- tudo isso Ele conhece através de Seu divino saber.

Ele deu ao mais ínfimo verme seu alimento;
Ele abriu a você o caminho dos Santos.

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Alguém que se mantém distante do sofrimento não é um amante.
Escolho o Seu amor acima de todas as coisas.
Quanto à riqueza, se ela vier ou se for, que assim seja.
A riqueza e o amor habitam mundos separados.
Mas, contanto que Você viva aqui dentro de mim,
não posso dizer que estou sofrendo.

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A crença e a descrença têm sua origem no coração do hipócrita;
O caminho só é longo porque você demora em começar a trilha-lo:
Um único passo o levaria a Ele;
Torne-se um escravo e você será um rei.

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Seu fogo pungente me fez florescer como uma rosa.
Eu morri aos seus pés e voltei rapidamente à vida.
Minha liberdade inata não ofereceu nada em troca,
mas agora eu sou livre,
desde que me tornei seu escravo.

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Colete os fragmentos da sua mente para que pouco a pouco
você possa preencher-se de Significado:
o escravo que medita sobre os mistérios da criação por sessenta minutos
ganha mais mérito do que com sessenta anos de jejum e oração.

A meditação é o falcão que paira alto, o intelecto,
finalmente descansando sobre o ramo florido do coração:
este mundo e o próximo estão ocultos abaixo de sua asa dobrada.
Ora empoleirado diante da cabana de barro - a Terra,
ora segurando com suas garras um galho da árvore do paraíso,
pairando aqui, batendo lá –
a cada momento presa fresca devorando um bocado de luar
rodopiando para além do sol
lançando-se entre os raios da grande roda do conjunto de estrelas,
ele parte em pedaços o trono e o banquinho de madeira,
a pena de um pombo em seu bico ou um cometa —
até que finalmente livre de tudo
ele pousa em silencio sobre um galho mais alto.

Caçar é um esporte dos reis e apenas um passatempo
para as pessoas comuns. Você, entretanto, vendou o falcão,
amarrou e cortou suas asas...
- O que posso dizer?

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Meu querido!
Você não tem os pés para trilhar este caminho.
Por que lutar?
Você não faz ideia de onde o ídolo pode ser encontrado –
o que é todo este discurso místico?
O que pode ser feito com companheiros de viagem briguentos,
orgulhosos idiotas do mercado?

Se fosse realmente um amante
você veria que a fé e a infidelidade são o mesmo.
Ah, qual é a utilidade?
Especulações vãs sobre essas coisas
são um hobby para cérebros dormentes.

Você é puro espírito, mas pensa ser um cadáver!
Água pura que pensa que é o jarro!

Qualquer coisa que você queira deve ser procurada
- exceto o Amigo.
Se não encontrá-Lo você jamais será capaz
até mesmo de começar a olhar.

Sim, pode ter certeza: você não é Ele
- a menos que você possa remover-se
do espaço entre você e Ele - nesse caso você é Ele.
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Nenhuma língua pode dizer o Seu segredo,
pois a medida das palavras obscurece Sua natureza.
Mas o dom do ouvido é que ele ouve o que a língua não pode dizer.

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Leve embora tudo e deixe-me sozinho com você.
Feche todas as portas e abra aquela que leva até Você.

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Há uma grande alegria na escuridão. Aprofunde-a.
Embaraços que envergonham à meia luz confundem,
mas uma face chamuscada, escurecida,
pode rir como um Etíope ou como uma mariposa nas chamas,
chegando mais perto de Deus.

Mais brilhante do que qualquer Lua,
Bilal, o amigo negro de Maomé,
encobriu-lhe na viagem noturna.

Guarde seu segredo mais fundo.
Escondido no escuro debaixo da revelação da luz do dia
e do extensivo véu da noite.
Tudo o que lhe for dado por esses dois é para os seus desejos.
Eles envenenam, eventualmente.

Mais profundo, mais abaixo, quando seu rosto é apagado,
onde a água da vida corre silenciosamente,
há uma prisão, sem alimento ou bebida ou nenhuma instrução moral,
abrindo-se para jardim onde há apenas Deus.
Nenhum eu, somente a palavra da criação: SEJA.

Você que me ouve, enrole o carpete do tempo e do espaço.
Dê um passo além, para dentro da palavra una.
Na cegueira, receba o que eu digo.
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O caminho até Você encontra-se claramente em meu coração
e não pode ser visto ou conhecido pela mente.
Conforme minhas palavras transformam-se em silêncio,
Sua doçura me circunda.

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Enquanto você estiver incompleto,
uma ponte será preparada;
mas uma vez que tenha se tornado completo,
o que serão ponte e rio para você?
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Tentamos raciocinar uma estratégia para chegarmos até Ele.
Não funcionou;
mas no momento que desistimos,
nenhum obstáculo permaneceu.

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Seu intelecto é apenas uma confusão
de adivinhações e pensamentos
se arrastando sobre a face da Terra.
Onde quer que eles estejam, Ele não está.
Eles estão contidos dentro de Sua criação.
O homem e sua razão são apenas as últimas plantas
a serem colhidas em Seu jardim.

Em tudo o que você afirmar sobre a Sua natureza,
você estará fadado a ser sempre um novato inexperiente,
como um cego que tenta descrever a aparência de sua mãe.

Enquanto a razão ainda estiver rastreando o segredo,
sua busca terminará no campo aberto do amor.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Farid-Ud-Din Attar - Seleção de Poemas

As ondas de sua brisa reavivam a respiração de Jesus;

o brilho de sua face revela a visão de Moisés.
.
Vá para o jardim beber o orvalho ao amanhecer.
.

A brisa dá notícias das flores ao rouxinol.

As aspirações espirituais anulam os anseios físicos.
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Deseje o Amado; rejeite o maná e os desânimos.
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Se apenas você emergisse de trás dos véus
e queimasse o manto da pretensão e desse a luz à Verdade!
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Meu coração demanda o toque dos seus cachos,
mas com o coração em cada fio de cabelo, necessito de quê?
.
Sou abstinente há trinta anos,
mas irei tornar-me vendedor de vinhos
para que você reflita o seu esplendor em minha taça.
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Se meu Amado arrancasse os véus
a galeria de Mani seria maravilhosamente adornada.
.

Se meu Amado erguesse os véus

você veria apenas os puros na taberna.
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Nos fossos do inferno, Attar ficaria em débito com você

se você resplandecesse a sua glória no Céu.

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Meu coração está em chamas,
Ó taberneiro, onde está você?
.

Onde está Taberneiro?

.

Venha! Venha!

O desejo de ver a sua face deixa-me entre as chamas.

.

Ó Taberneiro,

a vida de uma planta depende de água.
.

Tenho uma alma muito parecida com essa planta.

Como um cão, quando minha alma é alimentada,
ela fica dócil, torna-se uma vida cheia de esplendor.
.

A respiração pára, a vida é extinta e o coração arde;

não resta nada de status ou pretensão.
.

Meu ser mudou de cor para a vida,

como se o ser fosse o cobre e a vida a alquimia.
Isso trouxe nossa morte e transformou-nos
de pó em matéria celestial.
.

Hoje é o nosso dia, portanto, sirva o vinho;

o vinho da vida na taça dos santos.
.
Encha o moinho com o sangue dos olhos e rodopie,
rodopie como a pedra do moinho.
.

Sacrifique-se como Attar e cante:

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isto não é para mim e nem é meu’.

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Tal beleza visitou-nos esta noite,

ela fez o mundo todo ser iluminado por sua face.
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Não há necessidade de velas nem do luar,

nem da luz de Vênus nos céus esta noite.
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Em nosso encontro sua face brilha

e o sol envergonhado esconde-se esta noite.
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Tal felicidade emana desse anoitecer!

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Vênus e Júpiter estão em conjunção.

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Tamanha alegria, não há inimigos em nossa festa!

Encontrar os amigos é a recompensa hoje à noite.
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Não deixe essa bem-aventurança ser acordada

pelo cruel amanhecer,

pois estou íntimo de um amigo muito gentil esta noite.
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Ninguém pode se colocar entre você e eu agora,

pois nossa solidão está oculta pela noite.
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Trovador, toque suas músicas apaixonadas;

toque a música do louvor para os amantes esta noite.
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Toda a história está estampada pela dor de Attar;

nas doces canções dos trovadores esta noite.

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Cedo pela manhã fui à taverna

rogar aos ébrios que obedecessem a Deus.
Com um cajado nas mãos e o tapete de orações nos ombros
eu era um puro trabalhador de milagres.
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Um dos bebedores disse para mim:

Ó Sheik, diga-nos o que há de tão importante nesta hora.
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Eu lhe disse: “Vim aqui fazê-lo arrepender-se.

Caso se arrependa, você obterá socorro divino.”
.
Ele me disse: “Vá embora, seu asceta seco!
Vá se molhar na borra do vinho da taverna!
Se eu respingasse uma gota de vinho em você
você abandonaria a sua mesquita e suas preces.
Não saia por aí vendendo sua fé, sua vaidade;
sua virtude não irá comprar-lhe obediência aqui.
Para mim você parece o tipo de pessoa
que adoraria ídolos na Kaaba!”
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Ao dizer isso ele deu-me um pouco de vinho;

minha mente apagou; deixei a superstição para trás.
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Conforme minha vida desgastada desvanecia

eu encontrava-me em união com o Amado.
Conforme era libertado do Faraó do ser
tornava-me Moisés na montanha escolhida.
.
Enquanto encontrava-me acima dos dois mundos
via-me entre as mais nobres posições.

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Um tal sol emergiu de dentro de mim

que fui virado do avesso nos céus.
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Eu disse a ele: “Ó conhecedor dos mistérios,
diga-me: quando irei alcançar meu Amado?”
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Ele me disse: “Seu tolo ignorante!
Ninguém jamais ‘alcança’. Nunca! Nunca!
Você pode brincar com seus jogos para sempre,
mas no fim ficará cansado
e será colocado fora do jogo.
.

Os átomos do mundo estão todos embriagados de amor

submersos entre a negação e a afirmação.
No lugar onde o sol lança sua luz
Não há nem vida nem morte para os átomos.
.
Qual é a sua última palavra então, Attar?
Quem conhece esse mistério e essas alusões?”
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O aluno perguntou a seu mestre:
“Por que Adão foi expulso do Éden?”
.
“Seu coração foi enrijecido por imagens,
uma centena de amarras que enlameiam a terra
acorrentaram Adão ao ciclo da morte após o nascimento.
Vivendo para algo diferente de Deus,
Ele ficou cego para esta equação,
e sendo assim,
foi conduzido para fora do paraíso.
.
Sua alma foi amarrotada
junto com a capa de seu corpo mortal.
Adão, a mais nobre das criaturas de Deus, caiu com culpa,
como uma mariposa chamuscada pela chama de uma vela
na história que ensinou a vergonha para a humanidade.
.
Como Adão não entregou seu coração ao apego a Deus,
não havia lugar para ele no paraíso,
onde o único amigo É Deus.
Adão não se curvou à Sua vontade.”
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Alegria! Alegria! Eu triunfei!

Agora não me conheço mais simplesmente como eu.
Queimo com o amor em mim mesmo e sepulto-me no amor.
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O centro está dentro de mim e sua maravilha
Encontra-se como um círculo em toda parte de mim.
.
Alegria! Alegria!
Nenhum pensamento mortal pode sondar-me.
Eu sou o comerciante e a pérola ao mesmo tempo.
.
Vejam, o tempo e o espaço estão esmagados pelos meus pés.
.
Alegria! Alegria!
A revelação veio num arrebatamento.
Mergulhei em mim mesmo e conheci todas as coisas.
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Seu rosto não é infinito nem efêmero.

Você jamais pode ver seu próprio rosto,
apenas um reflexo, não o rosto em si.
Assim você se olha em frente aos espelhos
e embaça sua superfície.
.
É melhor manter sua respiração fria.
Segure-a, como faz um mergulhador no oceano.
.
Um leve movimento e a imagem no espelho se esvai.
.
Não seja morto ou adormecido ou acordado.
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Não seja nada.
.
O que você mais deseja,
aquilo pelo qual você viaja por aí desejando encontrar:
perca a si mesmo como fazem os amantes e você será isso.
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Como a Essência Dele permeia todo o mundo,

nada na criação é, salvo Ele apenas.
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Sobre as águas Ele fixou Seu Trono,
suspendeu esta Terra no espaço estrelado,
ainda assim o que são os mares e o que é o ar?
.
Se tudo É Deus,
o céu e a terra são apenas um talismã para velar a Divindade.
Pois se o céu e a Terra não fossem permeados por Ele
seriam apenas nomes.
.
Saiba, portanto, que tanto este mundo visível
quanto aquele que é invisível são o próprio Deus.
Nada é, exceto Deus:
e tudo o que é, é Deus.
.
E ainda, infelizmente, por quão poucos Ele é visto,
cegos são os olhos dos homens,
embora tudo brilhe de maneira resplandecente
e o mundo seja iluminado pela luz da Divindade.
.
Ó Você, a quem os homens não percebem,
embora dignifique-se a tornar-se deles conhecido;
Você é toda Criação,
a tudo contemplamos, exceto Você.
.
A alma dentro do corpo fica escondida,
E Você oculta a Si mesmo dentro da alma,
Ó alma na alma!
Mistério que se esconde no mistério!
.
Antes de tudo Você era e é mais do que tudo!
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Enquanto não morrermos para nós mesmos,
e nos identificarmos com alguém ou alguma coisa,
jamais seremos livres.
.
O caminho espiritual
não é para aqueles enredados na vida exterior.

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Esforce-se para descobrir o mistério

antes que a vida lhe seja tirada.
.
Se enquanto estiver vivo
você falhar em encontrar a si mesmo,
em conhecer a si mesmo,
.

como será capaz de entender o segredo de sua existência

quando tiver morrido?

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O mundo inteiro é um mercado para o Amor,

nada que exista permanece remoto do amor.
.
A Sabedoria Eterna fez todas as coisas no Amor.
Do amor todas elas dependem,
ao Amor todas retornam.
.
A terra, o céu, o sol, a lua, as estrelas –
o centro de suas órbitas encontra-se no Amor.
.
Pelo amor todos estão perplexos,
estupefatos, intoxicados pelo vinho do amor.
.
De cada um, o amor exige um silêncio místico.
.
O que todos procuram mais sinceramente?
.
É o amor.
Amor é o assunto de seus pensamentos mais íntimos.
.
Já não existe 'você' e 'eu' no amor,
pois o ser morreu no Amado.
.
Agora tirarei o véu do Amor
e no Templo interno de minha alma:
.
Eis o Amigo, o Amor incomparável.
.
Quem descobrir o segredo dos dois mundos
saberá que o segredo de ambos é o amor.
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Hatim al-Asamm disse:
.
"Escolhi quatro coisas para saber
e descartei todas as outras coisas do conhecimento.
.
A primeira é a seguinte:
Eu sei que meu pão de cada dia é dado a mim
e não será aumentado nem diminuído,
dessa forma eu parei de tentar aumentá-lo.
.
A segunda é:
eu sei que tenho com Deus uma dívida
que ninguém mais pode pagar por mim,
assim, estou ocupado em pagá-la.
.
A terceira:
eu sei que há alguém me perseguindo
.
- a morte –
.
da qual não posso escapar,
assim, tenho me preparado para encontrá-la.
.
E a quarta:
eu sei que Deus está me observando,
por isso tenho vergonha de fazer o que eu não deveria".
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Estamos ocupados com a luxúria das coisas.
Seu grande número e suas múltiplas faces trazem-nos
a confusão a que chamamos conhecimento.
.
Diga: Deus criou o mundo, ligou a noite ao dia,
fez as montanhas para dar-lhe peso,
os mares para lavar sua face,
as criaturas vivas com apelos
ansiando por um lugar neste mistério
que flutua no espaço infinito.
.
Deus colocou a Terra no lombo de um touro,
O touro sobre um peixe
dançando em um feixe de luz prateada
tão fino quanto o ar; o qual, por sua vez repousa sobre nada,
sem nada que o nada possa compartilhar.
.
Todas as coisas são apenas máscaras
nos sinais e chamados de Deus,
são símbolos que nos ensinam que Deus é tudo.