quarta-feira, 12 de maio de 2010

P. D. Ouspensky - As primeiras tentativas de lembrança de Si e a divisão da atenção



Tudo que Gurdjieff disse, tudo o que eu mesmo pensei e, especialmente, tudo o que minhas tentativas de lembrança de si tinham me mostrado, muito em breve me convenceram que eu estava diante de um problema inteiramente novo com o qual a ciência e a filosofia não tinham se deparado até agora. Mas antes de fazer deduções, vou tentar descrever as minhas tentativas de lembrar de mim. A primeira impressão foi que as tentativas de me lembrar ou de ter consciência de mim mesmo, de dizer para mim mesmo: 'eu estou andando', 'eu estou fazendo' e continuamente sentir esse eu - paravam os pensamentos. Quando eu estava sentindo a mim mesmo, eu não podia pensar nem falar, mesmo as sensações se ofuscavam. Além disso, só era possível lembrar de si dessa forma por um tempo muito curto. Eu já tinha feito anteriormente algumas experiências em parar os pensamentos, que são mencionadas nos livros sobre práticas de Yoga. Por exemplo, há uma descrição desse tipo no livro de Edward Carpenter, 'Do pico de Adão à Elefanta', embora seja de uma forma muito geral. E minhas primeiras tentativas de lembrar de mim mesmo me recordaram exatamente aquelas minhas primeiras experiências. Na verdade, foi quase a mesma coisa, com a diferença que ao parar os pensamentos, a atenção é inteiramente direcionada para o esforço de não admitir pensamentos, enquanto que na lembrança de si a atenção se divide, uma parte é direcionada para o mesmo esforço e a outra parte para o sentimento de si (do Self). Essa última realização permitiu-me chegar a uma certa definição, possivelmente muito incompleta, da "lembrança de si", que, no entanto, provou ser muito útil na prática. Estou falando da divisão da atenção, que é o traço característico da lembrança de si. Eu representava isso para mim da seguinte forma: Quando eu observo algo, a minha atenção é dirigida para o que eu observo, uma linha com uma seta:

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Eu ----------------> o fenômeno observado.


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Quando ao mesmo tempo, eu tento lembrar de mim mesmo, a minha atenção é direcionada tanto para o objeto observado quanto para mim mesmo. Uma segunda seta aparece na linha: .

Eu <---------------> o fenômeno observado.


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Tendo definido isso, eu vi que o problema consistia em direcionar a atenção sobre si mesmo sem comprometer ou obliterar a atenção direcionada para outra coisa. Além disso, essa "outra coisa" poderia tanto estar dentro de mim como fora de mim. As primeiras tentativas de uma tal divisão de atenção me mostraram a sua possibilidade. Ao mesmo tempo, vi duas coisas claramente: Em primeiro lugar vi que a lembrança de si resultante desse método não tinha nada em comum com o "sentir-se", ou com "auto-análise." Era um estado novo e muito interessante, com um gosto estranhamente familiar. E em segundo lugar, percebi que os momentos de lembrança de si, ainda que raramente, podem ocorrer na vida. Apenas a produção intencional desses momentos criava a sensação de novidade. Na verdade eles tinham sido familiares a mim desde a infância. Eles vinham em ambientes novos e inesperados, em um lugar novo, entre pessoas novas durante uma viagem, quando, por exemplo, olhamos de repente ao nosso redor e dizemos: 'Que estranho! Eu e neste lugar', ou em momentos de grande emoção, em momentos de perigo, nos momentos em que é necessário se controlar para não perder a cabeça, quando ouvimos a nossa própria voz e nos vemos e nos observamos de fora. Eu vi muito claramente que minhas primeiras recordações da vida, que no meu caso eram bem prematuras, foram momentos de lembrança de si. Essa última realização revelou muito mais para mim. Ou seja, eu vi que eu só me lembrava realmente desses momentos do passado quando havia lembrado de mim mesmo. Dos outros eu só sabia que haviam ocorrido. Eu não sou capaz de revivê-los inteiramente, de experimentá-los novamente. Mas os momentos em que eu tinha lembrado de mim mesmo estavam vivos e não eram de maneira alguma diferentes do presente. Eu ainda estava receoso de chegar a conclusões. Mas já via que eu estava diante de uma descoberta muito grande. Sempre fiquei espantado com a fraqueza e a insuficiência de nossa memória. Tantas coisas desaparecem. Por algum motivo ou outro o principal absurdo da vida para mim consistia nisso. Por que experimentar tanta coisa para esquecê-las depois? Além disso, havia algo de degradante nisso. Um homem sente algo que lhe parece muito grande, muito importante, ele acha que nunca vai esquecê-lo; um ou dois anos passam e não resta mais nada daquilo. Agora ficava claro para mim porque isso era assim e porque não poderia ser diferente. Se nossa memória realmente mantém vivos apenas os momentos de lembrança de si, fica claro porque ela é tão pobre. Todas essas foram as percepções dos primeiros dias. Mais tarde, quando comecei a aprender a dividir a atenção, vi que a lembrança de si dava sensações maravilhosas que, de uma forma natural, isto é, por si só, vêm a nós só muito raramente e em condições excepcionais. Desse modo, por exemplo, naquele tempo eu costumava gostar muito de passear por São Petersburgo durante a noite e "sentir" as casas e as ruas. São Petersburgo está repleta dessas sensações estranhas. As casas, especialmente as antigas, eram muito vivas, eu não cessava de falar com elas. Não havia nenhuma "imaginação" nisso. Eu não pensava em nada, eu simplesmente caminhava enquanto tentava lembrar de mim e olhava à minha volta, as sensações vinham por si mesmas. Mais tarde vim a descobrir muitas coisas inesperadas da mesma maneira. Mas vou falar sobre isso mais adiante. Às vezes a lembrança de si não era bem sucedida, em outros momentos era acompanhada por observações curiosas.

Certa vez eu estava andando na rua Liteiny na direção da Nevsky, e apesar de todos os meus esforços eu não conseguia manter minha atenção na lembrança de si. O barulho, o movimento, tudo me distraía. A cada minuto eu perdia o fio da atenção, encontrava-o novamente e depois perdia novamente. Finalmente senti uma espécie de irritação ridícula comigo mesmo e virei para a rua à esquerda tendo firmemente decidido manter minha atenção sobre o fato de que eu me lembraria de mim mesmo pelo menos por algum tempo, pelo menos até que eu chegasse à rua seguinte. Cheguei à Nadejdinskaya sem perder o fio da atenção, exceto talvez por breves momentos. Então, eu novamente voltei para a Nevsky percebendo que, em ruas tranquilas, era mais fácil para mim não perder a linha de pensamento, e desejando, desse modo, testar-me nas ruas mais ruidosas. Cheguei à Nevsky ainda me lembrando de mim mesmo, e já estava começando a experimentar o estranho estado emocional de paz interior e confiança que vem depois de grandes esforços desse tipo. Ao virar a esquina na Nevsky havia uma tabacaria onde faziam meus cigarros. Ainda lembrando de mim mesmo pensei em tocar lá e encomendar alguns. Duas horas depois eu acordei na Tavricheskaya, ou seja, muito longe. Eu estava indo de trenó para a gráfica. A sensação de despertar foi extraordinariamente vívida. Posso quase dizer que tinha voltado a mim. Lembrei-me de tudo de imediato. Como eu vinha andando na Nadejdinskaya, como eu tinha lembrado de mim mesmo, como eu havia pensado sobre os cigarros e como durante esse pensamento pareceu-me de repente cair e desaparecer num sono profundo. Ao mesmo tempo, enquanto imerso nesse sono, eu tinha continuado a realizar ações coerentes e convenientes. Saí da tabacaria, telefonei para meu apartamento na Liteiny e depois para a gráfica. Escrevi duas cartas. Então outra vez saí de casa. Andei no lado esquerdo da Nevsky até o Dvor Gostinoy com a intenção de ir para a Offitzerskaya. Então mudei de idéia, pois estava ficando tarde. Eu tinha tomado um trenó e estava seguindo para Kavalergardskaya até a gráfica. E no caminho enquanto seguia pela Tavricheskaya eu comecei a sentir um desconforto estranho, como se eu tivesse esquecido de algo. E de repente, eu lembrei que tinha esquecido de lembrar de mim mesmo.

Falei de minhas observações e deduções para as pessoas no nosso grupo, bem como para vários de meus amigos do círculo literário e outros. Eu lhes disse que este era o centro de gravidade de todo o sistema e de todo o trabalho sobre si mesmo, que agora o trabalho sobre si mesmo não era apenas palavras vazias, mas um fato real cheio de significado, graças ao qual a psicologia se tornara uma ciência exata e ao mesmo tempo prática. Eu disse que a psicologia européia e ocidental, em geral, havia ignorado um fato de enorme importância, ou seja, que não nos lembramos de nós mesmos, que vivemos, agimos e raciocinamos num profundo sono, não metaforicamente, mas na realidade absoluta. E também que, ao mesmo tempo, podemos nos lembrar de nós se fizermos esforços suficientes, que podemos despertar. Fiquei impressionado com a diferença entre a compreensão das pessoas que pertenciam ao nosso grupo e das pessoas fora dele. As pessoas que pertenciam ao nosso grupo entendiam, embora não todos de uma vez, que havíamos entrado em contato com um "milagre", e que era algo "novo", algo que nunca existiu em nenhum lugar antes. As outras pessoas não entendiam isso, elas consideravam tudo de maneira muito leve e, às vezes até começavam a me provar que essas teorias tinham existido antes. A. L. Volinsky, que eu encontrava muitas vezes, com quem eu tinha falado muito desde 1909 e cujas opiniões eu valorizava muito, não achou na idéia da "lembrança de si" nada que não tivesse conhecido antes. "Isso é uma apercepção". Ele me disse: "Você já leu a Lógica de Wundt? Você vai encontrar lá sua mais recente definição de apercepção. É exatamente a mesma coisa que você fala. 'Simples observação', é percepção. Observação com a 'lembrança de si ', como você chama, é apercepção. Claro que Wundt sabia disso." Eu não queria discutir com Volinsky. Eu tinha lido Wundt. E é claro que o que Wundt havia escrito não era nada daquilo que eu tinha dito para Volinsky. Wundt havia chegado perto dessa idéia, mas outros tinham chegado igualmente perto e depois tinham ido em uma direção diferente. Ele não tinha visto a magnitude da idéia que estava escondida por trás de seus pensamentos sobre as diferentes formas de percepção. E não tendo visto a magnitude da idéia ele naturalmente não podia ver a posição central que a idéia da ausência de consciência e a idéia da possibilidade da criação voluntária dessa consciência deveria ocupar em nosso pensamento. Apenas pareceu-me estranho que Volinsky não pôde ver isso mesmo quando apontei para ele. Depois, eu me convenci de que essa idéia estava escondida por um véu impenetrável para muitas pessoas de outra maneira muito inteligentes, e ainda mais tarde, vi porque isso era assim.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Meher Baba - Meditação



Vou descrever e discutir os diversos métodos de diferentes Yogas e outras práticas que levam à Auto-realização. Mas antes de fazer isso, devo lhes dar informações sobre meditação, uma vez que isso está invariavelmente mais ou menos e de uma forma ou outra conectado com quase todas as práticas de Yoga e com os esforços práticos para a realização da Verdade. O que é meditação? Geralmente o termo é usado para expressar esforços mentais particulares e exercícios em conexão com idéias religiosas e espirituais, mas muitas pessoas na vida cotidiana mundana usam-na como recurso. Antes de fazer qualquer coisa, é preciso pensar a respeito, em outras palavras, é preciso meditar sobre a ação pretendida. O pensamento ou a meditação pode, na vida mundana, durar várias horas, ou apenas uma fração de um minuto, mas tem de ser efetuado, consciente ou inconscientemente, intencionalmente ou não, antes de qualquer coisa poder ser feita ou realizada. Agora, considere apenas que, se pensamento ou meditação são necessários para a obtenção de resultados grosseiros, o quanto eles devem ser necessários para alcançar as sutilezas espirituais que levam à Auto-Realização. Mas para esse último propósito o pensamento deve ser organizado com bases no princípio da Verdade, que é o da unidade, em contraste com o universo que é aparentemente baseado na multiplicidade. O pensamento é suposto ser, pelas pessoas do mundo, o processo que leva apenas à manifestação de força externa que é exibida numa ação grosseira. Mas esse não é o caso. Assim como até mesmo um pensamento aleatório pode manifestar força sob a forma de uma ação corporal, a meditação ou o pensamento profundo e apropriadamente organizado produz uma força própria que é muito útil e cooperante para um aspirante espiritual. A manifestação de tal força produzida através de profunda reflexão metódica pode não tornar-se evidente de imediato ou num curto período de tempo em todos os casos, mas a meditação está fadada a dar frutos a longo prazo. Existem vários métodos de meditação espiritual. Os seis seguintes são os mais importantes: 1) Para aqueles que estão inclinados a pensar no aspecto impessoal do Todo-Poderoso, ou seja, o Deus Impessoal, é aconselhável retirar-se em solidão e, achando um assento confortável, começar a refletir sobre Ele assim: "Deus é um. Deus é infinito. Deus está em toda parte. Deus está além de todas as coisas." Em seguida, deve-se trazer o espaço imensurável, comumente conhecido como o céu, ao olho de sua mente e começar a concentrar-se na idéia do Deus impessoal através deste pano de fundo imaginário do céu vazio e ilimitado por tanto tempo quanto possível. 2) Deve-se sentar para a meditação da mesma maneira mostrada no primeiro exemplo, mas a linha de pensamento neste método deve ser a seguinte: "Deus é verdade. Tudo o mais é falso. O mundo e tudo o que é visto e percebido é um sonho, uma miragem, um fenômeno irreal. Deus está vivo dentro de meu próprio Ser, como a Alma de minha alma." Depois de contemplar esses pensamentos por algum tempo, a pessoa deve voltar sua atenção para o coração - imaginar uma chama na forma do próprio Atman-Alma estando ali - e concentrar-se tanto tempo quanto possível sobre este lugar imaginário em chamas no coração. 3) A linha de pensamento a ser seguida neste tipo de meditação (as outras condições preliminares sendo as mesmas que a dos dois primeiros métodos) é a seguinte: "Eu não sou este corpo. Eu não sou finito. Eu sou o Ser. Eu sou eterno." Depois de um pouco de contemplação dessa forma, deve-se fechar subitamente os dois olhos externos, o mais cerrados possível mas de modo que não seja desconfortável, e depois mentalmente olhar atentamente para o centro da testa a partir do interior tanto quanto possível e pelo tempo que for possível, evitando todos os outros pensamentos, sejam eles elevados ou inferiores, durante esta concentração. 4) Este é um tipo de meditação ao mesmo tempo muito simples e muito difícil. Tudo o que a pessoa tem de fazer é retirar-se em solidão e se sentar numa posição confortável, com ambos os olhos externos fechados e tentar manter a mente vazia. Não se deve nem pensar sobre Deus nem sobre o diabo, nem sobre a imortalidade, nem sobre a eternidade, nem sobre a existência do mundo, nem sobre a sua não-existência. Em suma, nesta meditação é preciso tentar manter-se mentalmente vazio ao longo da sessão, por um período tão longo quanto possível. 5) A pessoa deve sentar-se sozinha, fechar os olhos, contemplar e mentalmente dizer e repetir o seguinte: "Deus é meu Amado. Eu sou Seu amante. Eu quero a união com o meu Amado, o Senhor, o grande Deus." Na sequência deste processo, por um tempo, deve-se começar a repetir mentalmente qualquer um dos nomes do Todo-Poderoso em qualquer idioma, mas de tal modo que metade do nome seja pronunciado (mentalmente, é claro) durante a inalação, e metade dele pronunciado durante a exalação. Durante a execução desta repetição rítmica, deve-se tentar concentrar toda a atenção sobre a repetição do nome apenas.



6) Aquele que está inclinado a pensar no aspecto pessoal do Senhor, isto é, o Deus pessoal, deve sentar-se com sua alma como companheira em um local tranquilo, fechar os olhos, em seguida, tentar trazer diante dos olhos da mente a totalidade da face de algum Profeta, alguma Encarnação de Deus, ou Sadguru, de épocas passadas ou do presente, e concentrar-se nele o maior tempo possível. A fim de facilitar a entrada dos traços de algum Mestre Perfeito nos olhos da mente, o seu retrato deve ser olhado profundamente, antes de fechar os olhos em meditação.


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a) Quando e onde for possível, deve-se selecionar um local calmo e solitário ou em torno de uma colina ou montanha, ou à beira de um rio para se sentar em meditação. Caso contrário, a pessoa deve retirar-se para um quarto sozinha e manter a porta fechada durante a meditação. b) Não é necessário estabelecer regras rígidas quanto à postura. Qualquer postura sentada, que a pessoa ache mais conveniente pode ser adotada. Mas uma vez que seja adotada, deve ater-se a ela e sentar-se da mesma forma diariamente. Sempre que houver uma necessidade de reiteração mental do nome de Deus, deve-se selecionar qualquer nome e aderir a ele diariamente. Portanto, a posição mais confortável sentada (não deitada) e o nome mais atraente devem ser cuidadosamente selecionados definitivamente. c) Não há período de tempo que possa ser chamado de muito longo para qualquer uma das meditações, e cada hora do dia e da noite é adequada para qualquer meditação, mas o melhor período para a meditação são as primeiras horas da manhã, das 4:00 às 07:00. d) É preferível, embora não seja absolutamente necessário, tomar um banho antes de sentar-se em meditação.


Agora, qual dos métodos é o melhor? Não o método, mas a força que se usa por trás de um método é que conta. O provérbio: "a comida de um homem é o veneno de outro homem", se aplica igualmente para meditação como para a gastronomia. Seria temerário dizer que este ou aquele determinado tipo de meditação é o melhor. Aquele que atende às próprias inclinações da pessoa ou que mais a atrai é o melhor tipo de meditação para aquela pessoa. A questão do sucesso depende do próprio ser da pessoa. A pureza conta tanto quanto a perseverança e a devoção tanto quanto a determinação. Não há dúvidas sobre os benefícios da meditação. O principais deles são os seguintes: 1. Quem medita com sinceridade pode, mais cedo ou mais tarde, tornar-se livre das garras de maya e ser atraído para a Verdade ou Deus. 2. Se, juntamente com a sinceridade, a meditação for praticada com regularidade e por um tempo suficientemente longo, ela é capaz de tornar a mente da pessoa pura e permanentemente inclinada ao caminho divino. 3. A terceira vantagem da meditação reside no fato de que, se a meditação for muito profunda e intensa, ela está suscetível a produzir o estado de Yoga Samadhi. Embora o Yoga Samadhi não tenha nada a ver com o Nirvikalpa Samadhi, e não deve ser confundido com a Perfeição espiritual, o aspirante deverá tirar benefícios dele. 4. Mas a maior vantagem da meditação é a que consiste numa oportunidade para Realização de Deus direta! Sim, não é impossível conseguir o Nirvikalpa Samadhi, o Haqikat, a realização completa do estado - "Eu sou Deus" - através da meditação. Mas é possível, desde que o praticante tenha se colocado sob a influência de um Mestre Perfeito vivo, que tenha um caráter puro e imaculado e seja possuidor de uma determinação obstinada que não conhece derrota. Mesmo que se trate da questão de abandonar sua própria vida pela causa. Com essas qualidades, é preciso meditar, sem qualquer outro objetivo em vista salvo o de tornar-se um com o Todo-Poderoso.

Tenha em mente que não deve haver limite ou um período fixo determinado apenas para a meditação. Se a meditação não pode ser mantida durante todo o estado de vigília, sem pausa, deve ser tão longa quanto possível. A intensidade da meditação é proporcional ao desejo pelo Objetivo. A cada hora, a cada minuto, é preciso ansiar por Deus, como um homem se afogando anseia pela vida. O anseio por Deus traz uma inquietação extrema, uma espécie de intensa tortura mental e essa tortura deve ser tão forte que nenhum pensamento exceto aqueles de Deus penetrem na mente do devoto. Esse desejo intenso é muito raro nesta era materialista. Para gerar esse anseio, a ajuda de um Mestre Perfeito é requerida na maioria dos casos. A graça de um Mestre que realizou Deus faz maravilhas, mas deve-se, por assim dizer, exortar essa graça Dele. Deve-se notar que a meditação, ou qualquer coisa feita em prol da Verdade, nunca passa em vão. Está, como já foi dito, fadada a dar frutos mais cedo ou mais tarde.

domingo, 9 de maio de 2010

Hazrat Inayat Khan - A vida do pensamento



Deus é onisciente, onipotente, todo-penetrante e o Único Ser. Isso sugere-nos que o Absoluto é um Ser vivo – o único Ser – que não existe tal coisa como a morte, que não existe tal coisa como o fim, que tudo, todos os seres, toda partícula tem uma continuidade, pois a vida é contínua.


O fim ou a morte é apenas uma mudança. Portanto, todo pensamento que uma vez passou por nossa mente, todo sentimento que já passou por nosso coração, toda palavra que foi uma vez dita e talvez nunca mais tenhamos pensado a respeito, cada ação feita e esquecida, recebe uma vida e continua a viver. É exatamente como um viajante que está viajando e que no seu percurso tem algumas sementes em suas mãos e que ele joga ao chão. Quando as plantas crescem naquele lugar, ele nunca as vê. Ele apenas joga as sementes e elas ficam ali. A terra as tomou, a água as criou, o sol e o ar ajudaram-nas a crescer.


A vida é uma acomodação e nela tudo – pensamento, palavra, ação ou sentimento – uma vez nascido, é cuidado, é criado e é tornado frutífero. Dificilmente pensaríamos que é possível que seja assim. Pensamos: foi falado e se foi – mas ainda está ali. Permanece e toma seu curso, pois está vivo. Como tudo é vida, não há morte.


Sem dúvida o nascimento e a morte, o começo e o fim são nomes dos diferentes aspectos deste trabalho mecânico de todo o universo. É um tipo de trabalho automático que nos dá a idéia de algo começando e algo terminando. Quando tocamos um sino a ação toma apenas um momento, mas a ressonância perdura. De acordo com nosso conhecimento ela dura tanto quanto é audível; então ela segue adiante e não é mais audível para nós – mas ela existe. Ela existe em alguma parte, ela prossegue.


Se uma pedrinha atirada no mar coloca a água em ação, dificilmente paramos para pensar até onde essa vibração age no mar. O que podemos ver são as pequenas ondas e círculos que a pedrinha produz diante de nós. Vemos isso, mas as vibrações que foram produzidas no mar chegam muito mais longe do que jamais poderíamos imaginar.


O que chamamos de espaço é um mundo muito mais fino. Se o chamarmos de mar, é o mar com o fluído mais sutil. Se o chamarmos de terra, é uma terra que é incomparavelmente mais fértil do que a terra que conhecemos. Essa terra toma todas as coisas para dentro de si e as cria, nutre, permite que elas cresçam – nossos olhos não vêem isso, nossos ouvidos não escutam.


Essa idéia não nos torna responsáveis por cada movimento que fazemos, por cada pensamento que pensamos, por cada sentimento que passa por nossa mente e coração? Não há um único momento de nossa vida que seja desperdiçado, se apenas soubermos como utilizar nossa atividade aqui, como direcionar nosso pensamento, como expressá-lo em palavras, como promovê-lo com nossos movimentos, como senti-lo de modo que ele crie sua própria atmosfera. Que responsabilidade! A responsabilidade que cada homem tem é maior que a responsabilidade de um rei. É como se cada homem tivesse um reino que fosse seu e pelo qual fosse responsável – um reino que de maneira alguma é menor que qualquer reino conhecido por nós e sim, incomparavelmente maior que os reinos da terra. Isso nos ensina a sermos cuidadosos, conscienciosos e a sentirmos nossa responsabilidade a cada movimento que fizermos. Quando um homem não sente isso, ele não está ciente de si mesmo, ele está inconsciente do segredo da vida. Ele segue como um bêbado andando pela cidade. Ele não sabe o que está fazendo, tanto para si mesmo quanto contra si mesmo.


Agora você pode perguntar: 'Como um pensamento pode viver?' De que maneira ele vive? Ele tem um corpo no qual viver, tem uma mente, tem uma respiração?' Sim. A primeira coisa que deveríamos saber é que um sopro que vem direto da fonte busca um corpo, uma acomodação onde possa funcionar. Um pensamento é um corpo. O sopro que vem da fonte – um raio do Espírito que pode ser comparado ao sol – faz do pensamento uma entidade e ele vive como uma entidade.


São essas entidades que são chamadas na terminologia Sufi de muwakkals, que significa elementais. Eles vivem, eles têm um certo propósito a cumprir. São produzidos pelo homem e por trás deles há um propósito dirigindo suas vidas. Imagine que terrível se num momento de absorção uma pessoa expressasse sua ira, sua cólera, seu ódio! Uma palavra expressada em tal momento deve viver e levar a cabo seu propósito. É como criar um exército de inimigos em torno de si mesmo. Talvez um pensamento tenha uma vida mais curta que outro, depende de que corpo lhe foi dado. Se o corpo é mais forte, então ele vive mais. A força do corpo daquele pensamento depende da energia da mente.


Elementais são criados pelo homem. Quando os ventos sopram e as tempestades se enfurecem, criando toda destruição, olhamos para isso como uma ação mecânica da natureza. Mas não é apenas ação mecânica, é dirigida por sentimentos humanos, pelos sentimentos intensos dos seres humanos. Esses sentimentos transformam-se em vidas imensas. Eles impulsionam como uma bateria por trás dos ventos e tempestades, das inundações e vulcões.


E também outros pensamentos que clamam por bênçãos, como a chuva, por exemplo, devem trazer a piedade de Deus sobre a terra. No oriente eles chamam a chuva de piedade divina. O brilho do sol, quando o céu está limpo, as as outras bênçãos da natureza – o ar puro que está animando, a primavera, as boas colheitas, as frutas, as flores e os vegetais, todas as diferentes bênçãos da terra ou do céu que nos são dadas – também são dirigidas pelas forças por trás deles.


Assim como o trabalho mecânico da natureza eleva para o céu os vapores que juntos tornam-se nuvens e causam a chuva, também os pensamentos e os sentimentos, as palavras e as ações têm seu trabalho mecânico a fazer. Esse trabalho dirige a ação do universo. Isso nos mostra que não é apenas um trabalho mecânico da natureza, mas inteligência humana, trabalhando mecanicamente, que dirige todo o trabalho da natureza.


Isso nos dá a idéia de que a responsabilidade do homem é maior do que a de qualquer outro ser no mundo. É dito no Alcorão que Deus disse: “Depositamos nossa confiança nas montanhas e elas não puderam suportar o fardo, depositamos nossa confiança nas árvores e elas não puderam sustentá-la; então, depositamos nossa confiança no homem e foi o homem que conseguiu suportá-la”. Essa confiança é a nossa responsabilidade, não apenas nossa responsabilidade por aqueles a nossa volta, que encontramos em nosso dia a dia, ou pelo trabalho com que estamos comprometidos, ou pelos interesses que temos na vida – mas nossa responsabilidade perante toda esta criação: o que contribuímos para esta criação, seja isso algo que traga condições melhores e mais harmoniosas na esfera, no mundo, na terra! Se fizermos assim então saberemos de nossa responsabilidade. Se não estivermos cientes disso, ainda não descobrimos o propósito de estarmos aqui.


Há a infância, onde a criança não sabe nada. Ela destrói coisas de valor e de beleza devido à sua curiosidade, seu desejo. Mas quando cresce, a criança começa a sentir sua responsabilidade. O sinal da maturidade é o sentimento de responsabilidade, então, quando a alma amadurece ela começa a sentir sua responsabilidade, e é a partir desse momento que a pessoa começa sua vida. É a partir desse momento que a alma é nascida de novo, e enquanto a alma não nascer de novo ela não entrará no reino de Deus. O reio de Deus está aqui. Enquanto o homem não está consciente de sua responsabilidade ele não conhece o reino de Deus. É o tornar-se consciente de sua responsabilidade que o desperta para o reino de Deus, no qual está o nascimento da alma.


Além do mais, apoiando essa idéia, há uma palavra que em Sanskrito é usada para as pessoas conscientes de Deus. Essa palavra é Brahman, que significa criador. Assim que uma alma realiza essa idéia ela começa a saber que cada momento de sua vida é criativo, seja automaticamente ou intencionalmente. E se ela for responsável por sua criação, ela é responsável por cada momento de sua vida. Desse modo não há nada na vida que é desperdiçado. Qualquer que seja a condição do homem, não importa o quanto miserável e desamparada seja, ainda assim sua vida não é desperdiçada, pois há o poder criativo operando através de cada movimento que ele faz, todo pensamento que ele pensa, todo sentimento que ele tem. Ele sempre está fazendo algo.


Há uma outra palavra em Sanskrito para Bramhan que é Duija, que significa a alma que nasce de novo. Pois no momento em que a pessoa percebe tudo isso, a alma nasce de novo: sua percepção da vida fica diferente, desse modo, seus planos de vida tonam-se diferentes, suas ações tornam-se diferentes.


Agora indo um pouco mais adiante, existem algumas almas que parecem não estar fazendo nada, e pensamos: “Sim, são pessoas muito espirituais, eu suponho – mas o que elas fazem?” - pois entendemos esse 'fazer algo' como movimentação, agitação, estar ocupado o tempo todo. Não importa o quão trivial, ainda assim algo é feito! Esse é o pensamento. Mas quando uma pessoa é evoluída, mesmo que externamente pareça não estar fazendo coisa alguma, ela está fazendo e pode fazer trabalhos muito maiores internamente do que possam ser externamente notados.


Há uma história de um madzub. Um madzub é alguém que não é considerado ser uma pessoa ativa no mundo. Muitos pensam que eles são pessoas não muito equilibradas. No oriente existem alguns que sabem a respeito de tais seres, e eles têm consideração por eles. Havia um madzub em Kashmir alguns séculos atrás, o qual era permitido pelo Marajá perambular por onde quer que ele desejasse no palácio e nos jardins, e foi-lhe dado um pedaço de terra onde ele podia residir.


Ele costumava andar por todos os cantos dos jardins do Marajá que lhe era permitido entrar. Havia uma miniatura de um canhão de brinquedo no jardim, e algumas vezes esse madzub gostava de brincar com ele. Ele costumava pegar a arminha e virá-la em direção ao norte, ao sul ou para uma outra direção. Então ele a virava novamente e fazia todo tipo de gestos. Após fazer aqueles gestos ele ficava deleitado. Era como se ele estivesse lutando e que após aquela luta ele fosse vitorioso e com isso deleitava-se. Era em tais momentos que o Marajá Ranjit Singh costumava dar ordens ao seu exército: 'Agora preparem-se para a luta!' E ele obtinha êxito. A guerra prosseguia a muitos e muitos anos e continuava lentamente; nada acontecia, mas toda vez que o madzub brincava com o canhão, resultados eram alcançados.


Eu mesmo vi em Hyderabad um madzub cujo hábito era insultar todo mundo, chamar as pessoas de tais nomes que elas se afastavam dele. Ainda assim, um homem ousava ir lá a despeito de todos os insultos. O madzub disse a ele: “O que você quer?” Ele disse: “Meu caso está indo à julgamento daqui a seis dias e eu não tenho dinheiro e nenhum meio. O que devo fazer?” “Diga-me qual é a condição” disse o madzub, “Mas diga-me a verdade”. Então o homem lhe contou tudo. O madzub escutou, e então escreveu no chão: “ Parece não haver nada neste caso, então ele deve ser encerrado”. Em seguida ele disse: “Vá, está concluído”. O homem foi ao tribunal. Do lado oposto haviam muitos advogados, do lado dele não havia ninguém, porque ele era um homem pobre. O juíz escutou o caso de ambas as partes e em seguida falou as mesmas palavras que o madzub tinha escrito no chão .


O que isso significa? Isso apenas nos explica as palavras que Cristo disse: “Entrai no Reino de Deus”, significando que cada alma tem em si mesma um reino de Deus. Tornar-se consciente desse mistério da vida é abrir os nossos olhos para o reino de Deus, e assim, o que quer que façamos tem um significado, uma influência. Nunca é perdido. Se não é materializado, não importa: é espiritualizado. Nada se vai, nada aqui é perdido. Se não foi produzido neste plano, é produzido em outro plano – mas desse modo é refletido neste plano, pois sempre há uma ação e uma reação entre os dois planos. Isso significa apenas que o que fazemos – se não for materializado neste plano – é refletido do outro plano neste plano, e então é materializado. Isso é tudo. Se uma pessoa pensa: “Eu tenho pensado repetidamente sobre certo assunto e ainda ele não foi realizado”, isso apenas significa que a hora e as condições não permitiram isso se materializar. Mas uma vez enviado, ele deve finalmente ser materializado.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Jetsun Milarepa - As Bolhas Fugazes



Quando viajava com seus discípulos, Milarepa chegou a Din Ri Namar onde ele perguntou pelo nome de um cidadão proeminente. Ao descobrir que o médico Yang Nge era um budista devotado, ele foi até a sua casa, onde o médico disse: "É dito que Jetsun Milarepa pode usar qualquer coisa à mão como uma metáfora para ensinar. Agora, por favor, use as bolhas de água nesta fossa diante de nós como uma metáfora e nos dê um discurso." Em resposta, Jetsun cantou uma canção ...


As bolhas fugazes Presto homenagem ao meu gracioso Guru - Rogo-o para fazer com que todos aqui pensem no Dharma! Como ele disse uma vez: "Esta vida é Como as bolhas, transitória e fugaz - Nela, nenhuma garantia pode ser encontrada". A vida de um leigo é como um ladrão Que entra sorrateiramente numa casa desocupada. Você não percebe a insensatez disso?


A juventude é como uma flor de verão - De repente, ela murcha. A velhice é como um fogo se espalhando Através dos campos - de repente está nos seus calcanhares. O Buda certa vez disse: "O nascimento e a morte São como o nascer e o pôr do sol - Ora vêm, ora vão." A doença é como um passarinho Ferido por um estilingue. Você não sabe que a saúde e a força uma hora irão lhe abandonar? A morte é como uma lâmpada cujo óleo secou (Após sua última centelha). Nada, eu lhe asseguro, Neste mundo é permanente. O Karma maligno é como uma cachoeira Que eu nunca vi fluir para cima. Um homem pecador é como uma árvore venenosa - Se você encostar nele, será prejudicado. Os transgressores são como ervilhas deterioradas pelo frio- Como a gordura estragada, estragam tudo. Os praticantes do Dharma são como os camponeses no campo - Com cuidado e vigor serão bem sucedidos. O Guru é como remédio e néctar - Confiando nele, a pessoa terá êxito. Disciplina é como uma torre de vigia - Observando-a, a pessoa atingirá a Realização. A Lei do Karma é como a roda de Samsara, Quem quebrá-la vai sofrer uma grande perda. Samsara é como um espinho venenoso Na carne - se não for retirado, O veneno irá aumentar e se espalhar. A vinda da morte é como a sombra De uma árvore no pôr do sol - Ela anda rápido e ninguém pode detê-la. Quando essa hora chega, O que mais pode ajudar a não ser o Dharma Sagrado? Embora o Dharma seja a fonte da vitória, Aqueles que aspiram a ele são raros. Milhares de homens estão emaranhados nas Misérias de Samsara; Nascidos neste infortúnio, Eles se esforçam para obter vantagens através de roubo e pilhagem. Aquele que fala sobre o Dharma É inspirado com exaltação, Mas quando uma tarefa lhe é colocada, Ele é arruinado e se perde. Caros cidadãos, não falem demais, Mas pratiquem o Dharma Sagrado.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Adi Shankaracharya - Vivekachudamani (seleção de alguns versos)


* O resultado do conhecimento deveria ser o afastamento das coisas irreais, ao passo que o apego a essas coisas é o resultado da ignorância. Isso é observado no caso de alguém que conhece a idéia de miragem e coisas assim, e alguém que não conhece. Se não for assim, que outro resultado tangível os conhecedores de Brahman obtêm?
* Se o nó da ignorância do coração é totalmente destruído, que causa natural pode haver para induzir um homem a ações egoístas, uma vez que ele é avesso aos prazeres dos sentidos?
* Quando os objetos dos sentidos não estimulam mais desejos, esse é o auge do desapego. A extrema perfeição do conhecimento é a ausência de qualquer impulso de idéia egoísta. E o limite da auto-revogação é atingido quando as funções da mente, que foram diluídas, não aparecem mais.
* Esse tipo de função mental que reconhece apenas a identidade do Ser com Brahman, purificada de todos os adjuntos, e que está livre da dualidade e que se preocupa apenas com Pura Inteligência, é chamada de iluminação. Aquele que tem isso perfeitamente estabilizado é chamado de um homem de iluminação constante.
* Conhecendo o seu próprio Ser indivisível através de sua própria realização e, assim, tornando-se perfeito, o homem deveria ficar cara a cara com o Atman, com sua mente livre de idéias dualistas.
* O veredito de todas as discussões sobre o Vedanta é que o Jiva (consciência individual) e todo o universo não são nada além de Brahman, e que a Liberação significa residir em Brahman, a Entidade indivisível. Enquanto que as própria escrituras (shrutis) são autoridade para declarar que Brahman é um sem um segundo.
* Realizando, num momento abençoado, a Verdade Suprema através das instruções do Guru, da autoridade das Escrituras e de sua própria razão, com os seus sentidos apaziguados e sua mente concentrada, o discípulo tornou-se imóvel na forma e perfeitamente estabelecido no Atman.
* Ao concentrar a mente por algum tempo no Supremo Brahman, ele levantou-se, e da Graça Suprema ele falou o que se segue:
Minha mente desapareceu, e todas as suas atividades derreteram-se pela realização da identidade do Ser e Brahman, eu não sei nem isto nem aquilo, nem o que ou quanto é a graça sem limites de Samadhi!
A majestade do oceano do Supremo Brahman, repleta com as ondas do néctar de Bem–aventurança do Ser, é impossível de ser expressa em palavras e nem mesmo pode ser concebida pela mente - em uma fração infinitesimal da qual minha mente derreteu-se como um granizo fundindo-se com o oceano, agora está satisfeita com a Essência do Êxtase.
Para onde foi o universo? Quem o removeu? Onde ele diluiu-se? Agora mesmo ele era visto por mim. Ele deixou de existir? Isso é extremamente estranho!
No oceano de Brahman preenchido com o néctar da beatitude absoluta, o que deve ser evitado e o que deve ser aceitado? O que é diferente do Ser?
Eu não vejo, nem ouço e nem sei a respeito de nada nesse sentido. Eu simplesmente existo como o Ser, a bem-aventurança eterna, distinto de todo o resto.
É o Upadhi (o atributo sobreposto) que vem, e é só isso que vai; ele, mais uma vez, realiza ações e experimenta seus frutos, somente ele se deteriora e morre, enquanto eu sempre permaneço firme como o monte Kula.
Para mim, que sou sempre o mesmo e desprovido de partes, não existe nem o empreender um trabalho, nem o seu cessar. Como pode aquele que é Um, concentrado, sem interrupção e infinito como o céu, jamais se esforçar?
Como pode haver méritos e deméritos para mim, que sou sem órgãos, sem mente, imutável e sem forma - que sou a realização da bem-aventurança absoluta? O Shruti também menciona isso na passagem "O Intocado".
Se acontece de o calor ou o frio, o bem ou o mal, tocarem a sombra do corpo de um homem, isso não afeta em nada o próprio homem, o qual é diferente da sombra.
As propriedades das coisas observadas não afetam a Testemunha (imutável e indiferente), que é diferente delas, como as propriedades de um quarto não afetam a lâmpada que o ilumina.
Assim como o sol é uma mera testemunha das ações dos homens, como o fogo queima tudo sem distinção, também sou eu, o Ser imutável, a Inteligência Absoluta.
* Oh nobre alma! Passa o teu tempo contemplando o Ser apenas em todas as circunstâncias, pensando no Ser, o Um sem um segundo, e desfrutando a bem-aventurança do Ser.
* Concepções dualistas no Atman, o Conhecimento Infinito, o Absoluto, são como imaginar castelos no ar. Portanto, identifica-te sempre com a Bem-aventurança Absoluta, o Um sem um segundo, e, atingindo assim a Paz Suprema, permanece em silêncio.
* Para o sábio que realizou Brahman, a mente, que é a causa de fantasias irreais, torna-se perfeitamente tranqüila. Esse é verdadeiramente o seu estado de quietude, no qual, identificado com Brahman, o Um sem um segundo, ele desfruta constantemente da Bem-aventurança Absoluta.
* Para o homem que realizou sua própria natureza, e bebe a Bem-aventurança concentrada do Ser, não há nada mais emocionante do que a quietude que vem de um estado de ausência de desejos.
* O que na verdade pode manifestar Aquele cujo brilho, como o sol, é a causa de todo o universo -insubstancial, irreal e insignificante - a aparecer?
* O que, de fato, pode iluminar o Sujeito Eterno através do qual os Vedas, os Puranas e as outros Escrituras, assim como todos os seres, são dotados de um sentido?
* Aqui, o auto-resplandescente Atman de infinito poder - além dessa cadeia de conhecimento condicionado e apesar da experiência comum de todos - está percebendo que apenas este incomparável conhecedor de Brahman vive sua vida gloriosa, livre da servidão.
* Através da destruição das limitações, o conhecedor perfeito de Brahman funde-se no Brahman Uno sem um segundo – o Qual ele tem sido o tempo todo - torna-se totalmente livre mesmo enquanto vivo, e alcança o objetivo de sua vida.
* A destruição do corpo, dos órgãos, dos Pranas e do Buddhi (intelecto) é como a de uma folha, uma flor ou fruto em relação a uma árvore. Ela não afeta o Atman, a Realidade, a personificação da bem-aventurança - que é nossa verdadeira natureza. Isso sobrevive, assim como a árvore.
* A passagem do Shruti: "Certamente esse Atman é imortal, meu querido”, menciona a imortalidade do Atman no meio de coisas perecíveis e sujeitas a alteração.
* Assim como quando um vaso é quebrado, o espaço que estava contido nele claramente torna-se o espaço ilimitado, assim também quando as limitações aparentes são destruídas, o conhecedor de Brahman, certamente torna-se o próprio Brahman.
* Assim como o leite derramado no leite, o óleo no óleo e a água na água, tornam-se unidos e um com eles, também o sábio que realizou o Atman torna-se um no Atman.
* Pode-se falar de aprisionamento e Liberação quando há a presença ou a ausência de um véu que encobre. Mas não pode haver nenhum véu cobrindo a Brahman, que está sempre descoberto por falta de uma segunda coisa além de si mesmo. Se existisse, a não-dualidade de Brahman seria contrariada, e os Shrutis jamais podem tolerar a dualidade.
* O aprisionamento e a libertação são atributos do Buddhi com o qual as pessoas ignorantes falsamente encobrem a Realidade, assim como o movimento do encobrir do sol por uma nuvem é transferido para o sol. Pois esse Brahman imutável é o Conhecimento Absoluto, o Um sem um segundo e desapegado.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Philokalia - São Simeão O Novo Teólogo - Preceitos Práticos e Teológicos

Aumentar o conhecimento de Deus diminui o conhecimento de todo o resto. Em outras palavras, quanto mais um homem conhece a Deus menos ele conhece de outros assuntos. E não apenas isso, mas ele começa também a perceber cada vez mais claramente que nem mesmo Deus ele conhece. Quanto mais radiante Deus brilha no espírito do homem, mais Ele se torna invisível e quanto mais os sentidos de um homem elevam-se acima dos sentidos, menos ele pode sentir o que é externo. Mas como podemos chamar de "sentido” um sentido que não sabe onde ele mesmo reside - nem onde está e o que ele mesmo é - e que é completamente incapaz de descobrir ou entender isso? E, de fato, como podem os sentidos conhecerem o que o olho não viu, nem o ouvido escutou e o que nunca entrou no coração do homem?
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Aquele Que nos dá o que está acima dos sentidos, também nos dota, através da Graça do Espirito Santo, com outro sentido que está acima dos sentidos, para que possamos apreender de maneira clara e pura Suas dádivas e bênçãos, as quais estão acima dos sentidos.
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Um homem que é surdo à Palavra de Deus é inteiramente surdo à Sua voz; e por sua vez, um homem que escuta as Palavras de Deus é capaz de ouvir qualquer palavra de Deus. Tal homem não escuta ninguém exceto àqueles que falam (ensinam) através da graça da Palavra, e não é a voz deles que ele escuta, mas apenas as palavras que suas vozes proferem em silêncio.
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Quando você estiver por baixo – em coisas mundanas, não investigue o que está no alto – as coisas divinas; e ao ascender ao alto não fique curioso a respeito das coisas que estão embaixo antes que você tenha alcançado o cume, caso contrário você irá escorregar e cair, ou pelo menos, para que você não fique embaixo imaginando que está subindo.
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Um homem enriquecido pelo tesouro celestial, - isto é, pelo advento de Cristo, o Qual faz nele a Sua morada, como Ele diz: “Meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (João xiv.23) - sabe em sua alma (através da experiência, da consciência e do sentimento), que alegria ele recebeu e que grande tesouro ele possui na tesouraria real de seu coração. Falando com Deus como de amigo para amigo, ele permanece audaciosamente na presença Daquele que habita dentro dele numa luz inacessível.
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Abençoado é o homem que acredita no que eu falei. Três vezes abençoado é aquele que luta através de santos trabalhos para ganhar esse conhecimento (para saber por experiência). Um homem que, através da ação e da contemplação, atingiu o auge de tal estado e alcançou Deus como um filho, é, para não dizer mais, um anjo.
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Uma pessoa à beira-mar vê uma imensa extensão de água, mas seus olhos conseguem abarcar apenas uma pequena parte e não podem alcançar seu limite. Da mesma maneira um homem que, através da contemplação, é concedido a ver o oceano sem limites da glória Divina e ver Deus com os olhos de sua mente, vê a Deus e a vastidão infinita de Sua glória, embora não veja o todo como ele realmente é, mas apenas o quanto é possível para ele ver.
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Um homem à beira-mar não apenas vê o mar mas também pode caminhar até ele quantas vezes quiser, também é assim com os homens que alcançaram a perfeição espiritual: eles também podem entrar na luz Divina quando desejarem, contemplando-a e participando dela conscientemente na proporção de seus trabalhos, de seus esforços e das aspirações de seu desejo.
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Enquanto um homem à beira-mar está em terra firme, ele vê ao seu redor e alcança com seus olhos a extensão do mar. Mas se ele começa a avançar para as águas e a mergulhar nelas, quanto mais fundo ele entra menos ele vê o que está fora. É assim com os participantes da luz Divina: quanto maior o conhecimento de Deus eles alcancem, de maneira correspondente, maior se torna sua ausência de conhecimento (de tudo externo a Deus).
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Um homem que entra no mar até seus joelhos ou até sua cintura pode claramente ver tudo fora da água, mas quando ele vai para as profundezas e fica submerso, não pode mais ver as coisas no exterior e sabe apenas uma coisa, que ele todo está na água. O mesmo acontece com aqueles cuja conquista espiritual aumenta e que ascendem em direção à visão perfeita e à contemplação.
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Homens aproximando-se da perfeição, que vêem apenas parcialmente a infinitude (das coisas espirituais) e estão cientes do caráter incompreensível daquilo que vêem, são preenchidos de maravilhamento e reverência. Mas quanto mais eles misteriosamente entram na luz do conhecimento, mais eles ficam cientes de suas próprias fraquezas. O que aparece para eles um tanto escuro, como num espelho de adivinhação, ilumina apenas parcialmente a mente assim ocupada. Mas quando deseja revelar-se numa luz mais plena e se une, através da participação, com o homem, ela ilumina levando-o completamente para dentro de si mesmo, de modo que ele todo fica nas profundezas do Espírito como nas profundezas de um mar de luz imensurável, então, o homem é inefavelmente mergulhado numa total ausência de conhecimento como alguém que ascendeu a um lugar onde tudo está além do conhecimento.
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Nossa mente é pura e simples, assim, quando é livrada de todos os pensamentos alheios, ela entra na pura e simples luz Divina e torna-se totalmente contida nela e encoberta por ela, não pode encontrar mais nada ali para movê-la para o pensamento de qualquer outra coisa, residindo dentro da luz Divina e não olhando para fora. Isso é mostrado pelo dito: Deus é luz – a luz mais elevada. Desse modo quando o que foi descrito ocorre, é seguido por uma quietude que contempla tudo.
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A mente móvel torna-se imóvel e sem pensamentos quando ela é inteiramente englobada pela luz e nuvem Divinas, ao mesmo tempo permanecendo em contemplação e apreensão conscientes, alimentando-se das bênçãos que a circundam. As profundezas do Espírito Santo não são como as profundezas do mar, elas são as águas vivificantes da vida eterna. Tudo nessas profundezas do Espírito Santo está além da compreensão e explicação. A mente entra lá dentro após abandonar todas as coisas visíveis e mentais, vira-se e move-se sem movimento por entre aquelas coisas incompreensíveis, vivendo uma vida mais que vida, sendo uma luz mesmo estando dentro da luz, contudo sem luz quando em si mesma. Então, ela vê não a si mesma mas Aquele, o Qual está acima dela, e, sendo transformada pela glória que a circunda, perde todo conhecimento de si mesma.
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Um homem que atingiu o último grau de perfeição está morto e ainda não morreu, mas é infinitamente mais vivo em Deus com Quem ele vive pois ele não mais vive sozinho, como diz o Apóstolo: “Eu vivo; contudo não eu, mas Cristo vive em mim” (Gal. ii.20). Ele também é cego e ainda não está cego: ele não vê com seus olhos naturais, pois ele está acima de todas as visões naturais, recebendo olhos novos, infinitamente melhores que seus olhos naturais e através deles ele olha sobre a natureza. Ele fica inativo e em repouso, como aquele que chegou ao fim de todas as ações de sua autoria. Ele está sem pensamentos, uma vez que tornou-se um com Aquele que está além de todo pensamento e veio repousar onde o movimento da mente, isto é, movimento de recordação, pensamento ou reflexão, não pode ter lugar. Ele não pode nem conhecer nem entender o incompreensível e o milagroso; ainda assim ele encontra repouso perfeito ali através dessa quietude abençoada dos sentidos; sem objeções, ele desfruta de bênçãos inefáveis, mas com certeza também de uma apreensão definida.
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Um homem ao qual não foi garantida tal medida de perfeição e não atingiu tais bênçãos, deveria culpar a si mesmo apenas, e não dizer em auto-justificação que tal coisa é impossível, e nem que é possível obtermos a perfeição, mas uma perfeição da qual não estamos cientes. Ele deveria saber a partir do testemunho das Escrituras Sagradas que tal coisa é possível, que isso realmente acontece em sua força total e é acompanhado de perfeita ciência e consciência, mas que, através da negligência e da transgressão dos mandamentos de Deus, todo homem priva-se dessas bênçãos de acordo com o grau de sua negligência.
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No princípio Deus criou dois mundos, o visível e o invisível, e fez um rei para reinar sobre o visível que carrega em si mesmo os traços característicos de ambos os mundos – um em sua metade visível e o outro na sua metade invisível – em sua alma e em seu corpo. Dois sóis brilham nesses mundos, um visível e o outro intelectual. No mundo visível dos sentidos há o sol, e no mundo invisível do intelecto há Deus, o Qual é chamado de, e é o Sol da Verdade. O mundo físico e todas as coisas nele são iluminados pelo sol físico e visível, mas o mundo do intelecto e aqueles que estão nele são iluminados pelo Sol da Verdade no intelecto.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Kabir - Dois Poemas


 Enfim as notas de sua flauta adentram, 
e eu não consigo parar de dançar em torno do salão ...
 As flores se abrem, mesmo ainda não sendo primavera, 
as abelhas já sabem disso.
 O ar sobre o oceano fica agitado.
Há um relâmpago, mares revoltos erguem-se em meu peito.
 A chuva cai lá fora;
e dentro anseio pelo Convidado,
 Algo dentro de mim chegou ao lugar
onde o mundo está respirando.
 As bandeiras que não podemos ver estão flamulando ali.
 Kabir diz: meu corpo-desejo está morrendo, e ele vive!
__________________________________________________________
O Convidado está dentro de você e também dentro de mim;
você sabe que o botão está escondido dentro da semente.
Estamos todos lutando; nenhum de nós tem ido longe. 
Deixe sua arrogância ir e olhe ao redor internamente.
 
 O céu azul expande-se cada vez mais,
a diária sensação de falha vai embora,
os danos que tenho causado a mim mesmo se desvanecem,
milhões de sóis avançam com a luz
quando sento-me firmemente naquele mundo.
 
 Ouço sinos que ninguém tocou, badalando.
Dentro do “amor” há mais alegria do que supomos.
A chuva cai, embora o céu esteja límpido e sem nuvens.
Há rios inteiros de Luz.
O universo projeta-se por todas as partes através de um único tipo de amor.
Como é difícil sentir aquela alegria em todos os nossos quatro corpos!
 
Aqueles que esperam ser racionais a esse respeito, falham.
A arrogância da razão nos separou desse amor.
Mesmo com a palavra “razão” você já se sente a milhas de distância.
 
Que sortudo é o Kabir, que rodeado por toda essa alegria
canta dentro de seu próprio barquinho.
Os poemas dele dizem respeito a uma alma encontrando a outra.
Esses cantos são sobre esquecer a morte e a perda.
Eles se elevam acima de ambos, entrando e saindo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Bhagavan Ramana Maharshi - Trechos de Discursos em fevereiro de 1937



Pergunta: O que é o estado Turiya?
Bhagavan: Existem apenas três estados, vigília, sonho e sono. Turiya não é um quarto estado, ele é o que sublinha esses três. Mas as pessoas não o compreendem de imediato. Por isso, é dito que esse é o quarto estado e é a única Realidade. Na verdade ele não está à parte de tudo, pois forma o substrato de todos os acontecimentos, ele é a única verdade e é o seu próprio Ser. Os três estados aparecem como fenômenos fugazes sobre ele e depois se afundam para dentro dele. Portanto, eles são irreais. As imagens em um cinema são apenas sombras passando sobre a tela. Elas tem seu aparecimento, movem-se para frente e para trás, mudam de uma para outra, dessa forma são irreais, enquanto que a tela o tempo todo mantém-se inalterada. Da mesma forma, numa pintura: as imagens são irreais e a tela é real. Assim também é conosco: o mundo dos fenômenos, dentro ou fora, é apenas um fenômeno passageiro e não é independente de nosso Ser. Somente o hábito de olhar para eles como sendo reais e localizados fora de nós é que é responsável por deixar escondido o nosso verdadeiro Ser e aparente todo o restante. A única Realidade sempre presente, o Ser, ao ser encontrado, fará todas as outras coisas irreais desaparecerem, deixando como resíduo o conhecimento de que elas não são nada além do Ser. Turiya é apenas um outro nome para o Ser. Cientes dos estados de vigília, sonho e sono, continuamos inconscientes do nosso próprio Ser. No entanto, o Ser está aqui e agora, é a única Realidade. Não há nada mais. Enquanto dura a identificação com o corpo o mundo parece estar fora de nós. Apenas realize o Ser e ele não estará mais fora.
P: Eu consigo entender a unidade na variedade, mas não consigo percebê-la.
B: Porque você está na variedade você diz que entende a unidade, que tem flashes da realidade, que se lembra dela, etc., você considera esta variedade como sendo real. Por outro lado, a Unidade é a realidade e a variedade é falsa. A variedade deve ir antes que a unidade se revele, antes que se revele a sua realidade. Ela é sempre Real. Ela não envia flashes de seu ser nesta variedade falsa. Pelo contrário, esta variedade obstrui a verdade.
P: A graça é necessária para a remoção da ignorância.
B: Com certeza. Mas a Graça está o tempo todo aí. A Graça é o Ser. Não é algo a ser adquirido. Tudo o que é necessário é conhecer sua existência. Por exemplo, o sol é só brilho. Ele não vê escuridão. Ao passo que as pessoas falam da escuridão fugindo do sol enquanto ele se aproxima. Da mesma forma, a ignorância também é um fantasma e não é real. Devido à sua irrealidade, ao descobrirmos sua natureza irreal, se diz que ela foi removida. Novamente, o sol está lá e também está brilhando. Você está rodeado pela luz solar. Ainda assim, para você conhecer o sol você tem de voltar seus olhos na direção dele e olhar para ele. Da mesma forma, a Graça só é encontrada através de práticas, embora esteja aqui e agora.
P: Espero eu, que pelo constante desejo de me render, uma Graça crescente seja experimentada.
B: Renda-se de uma vez por todas e acabe com os desejos. Enquanto o senso de ser o fazedor é mantido existem os desejos; isso também é a personalidade. Se isso for embora o Ser será descoberto brilhando de maneira pura. A sensação de ser o fazedor é aprisionamento, e não as próprias ações. "Aquietai-vos e sabeis que Eu sou Deus." Aqui, quietude é a rendição total, sem nenhum vestígio de individualidade. A quietude prevalecerá e não haverá agitação da mente. A agitação da mente é a causa do desejo, do sentimento de ser o fazedor e da personalidade. Se ela é interrompida, há serenidade. Desse modo, "Saber" significa "Ser". E não é um conhecimento relativo envolvendo a tríade - conhecimento, sujeito e objeto.
P: Após o retorno da consciência-corpo ...
B: O que é a consciência-corpo? Diga-nos isso primeiro. Quem é você à parte da consciência? O corpo é encontrado porque há a consciência-corpo que surge da "consciência-eu", que novamente surge da Consciência. Consciência → 'consciência-eu' → consciência-corpo → corpo. Há sempre a consciência e nada mais que isso. O que você está agora considerando ser a consciência-corpo deve-se à sobreposição. Se houvesse somente a consciência e nada além dela, o significado da Escritura 'Atmanastu kamaya bhavati priyam sarvam' - (Todos são queridos por causa do amor do Ser) se tornaria claro.

sábado, 17 de abril de 2010

Nisargadatta Maharaj - Conhece-te a Ti mesmo



Pergunta: Qual é o seu estado no momento presente?
Maharaj: Um estado de não-experiência. Nele, todas as experiências estão incluídas.
P: Você pode entrar na mente e no coração de outro homem e partilhar das experiências dele?
M: Não. Essas coisas requerem treinamento especial. Eu sou como um negociante de trigo. Sei pouco sobre pães e bolos. Mesmo o gosto de um mingau de trigo eu não conheço. Mas sobre o grão de trigo eu sei tudo e conheço muito bem. Eu conheço a fonte de toda a experiência. Mas as inúmeras formas particulares que a experiência pode assumir eu não conheço. Nem preciso conhecer. De momento a momento o pouco que preciso saber para viver a minha vida, de alguma forma eu venho a saber.
P: Sua existência particular e a minha existência particular existem na mente de Brahma?
M: O universal não tem conhecimento do particular. A existência como uma pessoa é uma questão pessoal. Uma pessoa existe no tempo e no espaço, tem nome e forma, começo e fim, o universal inclui todas as pessoas e o absoluto é a raiz de tudo e está além de tudo.
P: Eu não estou preocupado com a totalidade. Minha consciência pessoal e a sua consciência pessoal - qual é o elo entre as duas?
M: Qual pode ser o elo entre dois sonhadores?
P: Eles podem sonhar um com o outro.
M: Isso é o que as pessoas estão fazendo. Todo mundo imagina os “outros” e busca uma ligação com eles. O buscador é o elo, não há nenhum outro.

P: Certamente deve haver algo em comum entre os muitos pontos de consciência que nós somos.
M: Onde estão os muitos pontos? Em sua mente. Você insiste que seu mundo é independente da sua mente. Como pode ser? Seu desejo de conhecer a mente das outras pessoas é devido a você não conhecer a sua própria. Primeiro conheça sua própria mente e você verá que a questão das outras mentes não surgirá de modo algum, pois não há outras pessoas. Você é o fator comum, a única ligação entre as mentes. Existência é consciência, o "eu sou" se aplica a todos.
P: A Realidade Suprema (Parabrahman) pode estar presente em todos nós. Mas de quê ela serve para nós?
M: Você é como um homem que diz: "Eu preciso de um lugar onde guardar minhas coisas, mas de quê serve o espaço para mim? Ou “eu preciso de leite, chá, café ou refrigerante, mas de água eu não tenho nenhuma necessidade”. Você não vê que a Suprema Realidade é o que torna tudo possível? Mas se você perguntar de que ela serve para você, eu devo responder: 'De nada'. Em questões da vida diária o conhecedor do real não tem nenhuma vantagem: ao invés disso, ele talvez tenha desvantagens, estando livre da ganância e do medo, ele não se protege. A própria idéia de lucrar é estranha para ele, ele abomina acréscimos, sua vida é um constante despojar-se, compartilhar, doar-se.
P: Se não há nenhuma vantagem em ganhar o Supremo, então por que se preocupar com isso?
M: Há um problema apenas quando você se agarra a alguma coisa. Quando você não se prende a nada, nenhum problema surge. O abandono do menor significa a obtenção do maior. Abandone tudo e você ganha tudo. Então a vida torna-se o que ela deveria ser: a radiação pura de uma fonte inesgotável. Nessa luz o mundo parece vago como um sonho.
P: Se meu mundo é apenas um sonho e você é uma parte dele, o que você pode fazer por mim? Se o sonho não é real, não tendo existência, como a realidade pode afetá-lo?
M: Enquanto dura, o sonho tem existência temporária. É o seu desejo de mantê-lo que cria o problema. Deixe-o ir. Pare de imaginar que o sonho é seu.

P: Você parece tomar por garantido que pode haver um sonho sem um sonhador e que eu me identifico com o sonho criado por minha própria doce vontade. Mas eu sou o sonhador e o sonho também. Quem é que vai parar de sonhar?
M: Deixe o sonho desenrolar-se até o fim. Você não pode evitá-lo. Mas você pode olhar para o sonho como um sonho, recusar-lhe o carimbo da realidade.
P: Aqui estou eu, sentado diante de você. Eu estou sonhando e você está me assistindo falar em meu sonho. Qual é o elo entre nós?
M: A minha intenção de acordar você é o elo. Meu coração quer que você acorde. Eu vejo você sofrer em seu sonho e sei que você deve acordar para acabar com sua tristeza. Quando você vê seu sonho como sonho, você acorda. Mas em seu sonho propriamente dito, não estou interessado. Basta para mim saber que você precisa acordar. Você não precisa trazer o seu sonho a uma conclusão definida, ou torná-lo nobre, ou feliz, ou bonito, tudo que você precisa é perceber que você está sonhando. Pare de imaginar, pare de acreditar. Veja as contradições, as incongruências, a falsidade e a tristeza do estado humano, a necessidade de ir além. Dentro da imensidão do espaço flutua um minúsculo átomo de consciência e nele o universo inteiro está contido.
P: Existem afeições no sonho que parecem reais e permanentes. Elas desaparecem ao acordarmos?
M: No sonho você ama uns e não outros. Ao acordar você descobre que você é o próprio amor, abrangendo a todos. O amor pessoal, não importa o quão intenso e genuíno, invariavelmente limita, o amor na liberdade é o amor a todos.
P: As pessoas vêm e vão. Amamos a quem encontramos, não podemos amar a todos.
M: Quando você é o próprio amor, você está além do tempo e dos números. Ao amar um você ama todos, ao amar todos, você ama a cada um. Um e todos não são exclusivos.

P: Você diz que você está em um estado atemporal. Isso significa que o passado e o futuro estão abertos para você? Você conheceu Vashishta Muni, o Guru de Rama?
M: A questão está no tempo e refere-se ao tempo. Mais uma vez você está me perguntando sobre o conteúdo de um sonho. A atemporalidade está além da ilusão do tempo, ela não é uma extensão no tempo. Aquele que chamava-se Vashishta conhecia Vashishta. Estou além de todos os nomes e formas. Vashishta é um sonho em seu sonho. Como posso conhecê-lo? Você está muito preocupado com o passado e o futuro. É tudo devido ao seu desejo de continuar, é para proteger-se contra a extinção. E como você deseja continuar, você quer que os outros lhe façam companhia, daí a sua preocupação com a sobrevivência deles. Mas o que você chama de sobrevivência é apenas a sobrevivência de um sonho. A morte é preferível a isso. Há uma chance de acordar.
P: Você está ciente da eternidade, portanto não está preocupado com a sobrevivência.
M: É o contrário. Liberdade de todos os desejos é a eternidade. Todos os apegos implicam o medo, pois todas as coisas são passageiras e o medo torna a pessoa uma escrava. Essa liberdade do apego não vem com a prática, ela é natural quando a pessoa conhece seu verdadeiro ser. O amor não se apega; apego não é amor.
P: Então não há maneira de obter o desapego?
M: Não há nada a se ganhar. Abandone todas as fantasias e conheça a si mesmo como você é. O auto-conhecimento é desapego. Todo desejo é devido a uma sensação de insuficiência. Quando você sabe que não lhe falta nada, que tudo o que existe é você e é seu, os desejos cessam.
P: Para me conhecer devo praticar a consciência?
M: Não há nada para se praticar. Para conhecer a si mesmo, seja você mesmo. Para ser você mesmo, pare de imaginar-se sendo isto ou aquilo. Apenas seja. Deixe a sua verdadeira natureza emergir. Não perturbe a sua mente com procura.

P: Vai levar muito tempo se eu apenas esperar pela auto-realização.
M: Pelo quê você tem de esperar quando isso já está aqui e agora? Você só tem de olhar e ver. Olhe para você mesmo, em seu próprio ser. Você sabe que você é e você gosta disso. Abandone toda imaginação, isso é tudo. Não confie no tempo. Tempo é morte. Quem espera, morre. A vida é agora apenas. Não fale comigo sobre o passado e o futuro, eles existem apenas na sua mente.

P: Você também morrerá.
M: Eu já estou morto. A morte física não fará nenhuma diferença no meu caso. Eu sou o ser atemporal. Eu estou livre de desejo ou medo, porque eu não me lembro do passado ou imagino o futuro. Onde não há nomes e formas, como pode haver desejo e medo? Com a ausência de desejo vem a atemporalidade. Estou seguro porque o que não é, não pode tocar o que é. Você se sente inseguro porque você imagina o perigo. Naturalmente, o seu corpo, como tal, é complexo e vulnerável e precisa de proteção. Mas você não. Quando você realizar o seu próprio ser inatacável, você estará em paz.
P: Como posso encontrar paz quando o mundo sofre?
M: O mundo sofre por razões muito válidas. Se você quiser ajudar o mundo, você deve estar além da necessidade de ajuda. Então, todas as suas ações, bem como as não-ações irão ajudar o mundo da forma mais eficaz.

P: Como pode a não-ação ser útil, quando as ações são necessárias?
M: Sempre que é necessário agir, a ação acontece. O homem não é o ator. Sua ação é estar ciente do que está acontecendo. Sua própria presença é ação. A janela é a ausência da parede e ela dá o ar e a luz porque ela é vazia. Esteja vazio de todo o conteúdo mental, de toda imaginação e esforço, e a própria ausência de obstáculos fará a realidade invadir. Se você realmente quiser ajudar uma pessoa, mantenha-se afastado. Se você está emocionalmente comprometido em ajudar, vai falhar em ajudar. Você pode estar muito ocupado e muito feliz com o seu caráter caridoso, mas não terá feito muito. Um homem é realmente ajudado quando ele não está mais necessitando de ajuda. Todo o resto é apenas futilidade.
P: Não há tempo suficiente para sentar e esperar que a ajuda aconteça. É preciso fazer alguma coisa.

M: De todo jeito - faça. Mas o que você pode fazer é limitado, apenas o Ser é ilimitado. Dê ilimitadamente de si mesmo. Tudo o mais você pode dar em pequenas medidas apenas. Somente você é imensurável. Ajudar é a sua própria natureza. Mesmo quando você come e bebe você ajuda seu corpo. Para si mesmo, você não precisa de nada. Você é puro doar, sem começo, sem fim, inesgotável. Quando você vê tristeza e sofrimento, fique com eles. Não se apresse em agir. Nem a aprendizagem nem a ação podem realmente ajudar. Fique com a tristeza e revele as suas raízes - ajudar a entender é a verdadeira ajuda.
P: Minha morte está se aproximando.
M: O seu corpo é que tem um tempo curto, não você. O tempo e o espaço estão apenas na mente. Você não é limitado. Apenas compreenda a si mesmo, isso em si é a eternidade.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Jalaluddin Rumi - O Rubi do Nascer do Sol / Água da sua Fonte / Você Esfrega o Chão / Cada Nota / Granito e Taça de Vinho



Na primeira hora da manhã,


um pouco antes do amanhecer, o amante e a amada acordam


e tomam um gole de água.



Ela pergunta, “Você ama mais a mim ou a si mesmo?


Realmente, diga a verdade absoluta.”



Ele diz, “Não sobrou nada de mim.


Sou como um rubi erguido para o nascer do sol.


Ele ainda é uma pedra, ou um mundo


de vermelhidão? Ele não resiste


à luz do sol.”



Foi assim que Hallaj disse, eu sou Deus,


e disse a verdade!



O rubi e o nascer do sol são um.


Seja corajoso e discipline-se.



Torne-se completamente audição e orelha,


e use como brinco este sol-rubi.



Trabalhe, continue cavando o seu poço.


Não pense sobre largar o trabalho.


A água está lá em algum lugar.



Submeta-se a uma prática diária.


Sua lealdade a isso


é uma campainha na porta.



Continue tocando, e a alegria que está dentro


eventualmente abrirá uma janela


e olhará para fora para ver quem está lá.


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O que há na luz daquela vela


que abriu e consumiu-me tão rapidamente?



Volte, meu amigo! A forma do nosso amor


não é uma forma criada.



Nada pode me ajudar além daquela beleza.


Lembro-me de um amanhecer



em que minha alma ouviu algo


de sua alma. Eu bebi água



da sua fonte e senti


a correnteza me levar.


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O senhor da beleza entra na alma


conforme um homem caminha num pomar


na primavera.



Vem em mim daquele jeito de novo!



Acende a lâmpada


no olho de José. Cura a tristeza


de Jacó. Embora você nunca tenha partido,


venha e sente aqui e pergunte,


“Por que você está tão confuso?”



Como uma idéia nova na mente de um artista,


você forma as coisas antes delas surgirem.



Você varre o chão como o homem


que zela o portão.


Quando você esfrega


uma forma deixando-a limpa, ela se torna


o que ela realmente é.



Você guarda seu silêncio perfeitamente


como uma bolsa de água que não vaza.



Você vive onde Shams vive,


porque seu coração-asno foi forte o bastante para levá-lo até lá


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Conselhos não ajudam os amantes!


Eles não são o tipo de riacho da montanha


no qual você pode construir uma represa.



Um intelectual não sabe


o que o ébrio está sentindo!



Não tente adivinhar qual é a próxima coisa


que aqueles perdidos dentro do amor irão fazer!



Alguém no comando abandonaria todo seu poder,


se recebesse uma baforada do vinho almiscarado


do quarto onde os amantes


estão fazendo sabe-se lá o quê!



Um deles tenta cavar um buraco através de uma montanha.


Um foge das honras acadêmicas.


Outro ri de bigodes famosos!



A vida congela se ela não consegue ter um gosto


deste bolo de amêndoas.



As estrelas erguem-se girando


toda noite aturdidas de amor.



Elas se cansariam desse revolver,


se não estivessem nesse estado.



Elas diriam,


“Quanto tempo mais temos que fazer isto!”



Deus apanha a flauta de bambu do mundo e sopra.


Cada nota é uma necessidade surgida através de cada um de nós,


uma paixão, uma dor ardente.



Lembre-se dos lábios


de onde o sopro da respiração se originou,


e deixe sua nota ser clara.


Não tente terminá-la.


Seja sua nota.


Vou lhe mostrar como isso é o suficiente.



Suba no telhado esta noite


nesta cidade da alma.



Que todos subam em seus telhados


e cantem suas notas!



Cantem alto!


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Você é granito.


Eu sou uma taça de vinho vazia.



Você sabe o que acontece quando nos tocamos!


Você ri do mesmo modo que o sol nascendo ri


de uma estrela que desaparece nele.



O amor abre meu peito e o pensamento


retorna para seus confins.



A paciência e as considerações racionais se vão.


Apenas as paixões ficam, choramingando e febris.



Alguns homens caem na estrada como restos descartados.


Então, totalmente indiferentes, na manhã seguinte



eles saem galopando com novos propósitos. O amor


é a realidade e a poesia é o tambor



que nos chama para ele. Não fique reclamando


sobre a solidão! Deixe abrir uma fenda na linguagem


medrosa desse assunto fazendo-a flutuar para longe.



Que o sacerdote desça de sua torre,


e não volte para lá novamente.