segunda-feira, 26 de abril de 2010

Kabir - Dois Poemas


 Enfim as notas de sua flauta adentram, 
e eu não consigo parar de dançar em torno do salão ...
 As flores se abrem, mesmo ainda não sendo primavera, 
as abelhas já sabem disso.
 O ar sobre o oceano fica agitado.
Há um relâmpago, mares revoltos erguem-se em meu peito.
 A chuva cai lá fora;
e dentro anseio pelo Convidado,
 Algo dentro de mim chegou ao lugar
onde o mundo está respirando.
 As bandeiras que não podemos ver estão flamulando ali.
 Kabir diz: meu corpo-desejo está morrendo, e ele vive!
__________________________________________________________
O Convidado está dentro de você e também dentro de mim;
você sabe que o botão está escondido dentro da semente.
Estamos todos lutando; nenhum de nós tem ido longe. 
Deixe sua arrogância ir e olhe ao redor internamente.
 
 O céu azul expande-se cada vez mais,
a diária sensação de falha vai embora,
os danos que tenho causado a mim mesmo se desvanecem,
milhões de sóis avançam com a luz
quando sento-me firmemente naquele mundo.
 
 Ouço sinos que ninguém tocou, badalando.
Dentro do “amor” há mais alegria do que supomos.
A chuva cai, embora o céu esteja límpido e sem nuvens.
Há rios inteiros de Luz.
O universo projeta-se por todas as partes através de um único tipo de amor.
Como é difícil sentir aquela alegria em todos os nossos quatro corpos!
 
Aqueles que esperam ser racionais a esse respeito, falham.
A arrogância da razão nos separou desse amor.
Mesmo com a palavra “razão” você já se sente a milhas de distância.
 
Que sortudo é o Kabir, que rodeado por toda essa alegria
canta dentro de seu próprio barquinho.
Os poemas dele dizem respeito a uma alma encontrando a outra.
Esses cantos são sobre esquecer a morte e a perda.
Eles se elevam acima de ambos, entrando e saindo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Bhagavan Ramana Maharshi - Trechos de Discursos em fevereiro de 1937



Pergunta: O que é o estado Turiya?
Bhagavan: Existem apenas três estados, vigília, sonho e sono. Turiya não é um quarto estado, ele é o que sublinha esses três. Mas as pessoas não o compreendem de imediato. Por isso, é dito que esse é o quarto estado e é a única Realidade. Na verdade ele não está à parte de tudo, pois forma o substrato de todos os acontecimentos, ele é a única verdade e é o seu próprio Ser. Os três estados aparecem como fenômenos fugazes sobre ele e depois se afundam para dentro dele. Portanto, eles são irreais. As imagens em um cinema são apenas sombras passando sobre a tela. Elas tem seu aparecimento, movem-se para frente e para trás, mudam de uma para outra, dessa forma são irreais, enquanto que a tela o tempo todo mantém-se inalterada. Da mesma forma, numa pintura: as imagens são irreais e a tela é real. Assim também é conosco: o mundo dos fenômenos, dentro ou fora, é apenas um fenômeno passageiro e não é independente de nosso Ser. Somente o hábito de olhar para eles como sendo reais e localizados fora de nós é que é responsável por deixar escondido o nosso verdadeiro Ser e aparente todo o restante. A única Realidade sempre presente, o Ser, ao ser encontrado, fará todas as outras coisas irreais desaparecerem, deixando como resíduo o conhecimento de que elas não são nada além do Ser. Turiya é apenas um outro nome para o Ser. Cientes dos estados de vigília, sonho e sono, continuamos inconscientes do nosso próprio Ser. No entanto, o Ser está aqui e agora, é a única Realidade. Não há nada mais. Enquanto dura a identificação com o corpo o mundo parece estar fora de nós. Apenas realize o Ser e ele não estará mais fora.
P: Eu consigo entender a unidade na variedade, mas não consigo percebê-la.
B: Porque você está na variedade você diz que entende a unidade, que tem flashes da realidade, que se lembra dela, etc., você considera esta variedade como sendo real. Por outro lado, a Unidade é a realidade e a variedade é falsa. A variedade deve ir antes que a unidade se revele, antes que se revele a sua realidade. Ela é sempre Real. Ela não envia flashes de seu ser nesta variedade falsa. Pelo contrário, esta variedade obstrui a verdade.
P: A graça é necessária para a remoção da ignorância.
B: Com certeza. Mas a Graça está o tempo todo aí. A Graça é o Ser. Não é algo a ser adquirido. Tudo o que é necessário é conhecer sua existência. Por exemplo, o sol é só brilho. Ele não vê escuridão. Ao passo que as pessoas falam da escuridão fugindo do sol enquanto ele se aproxima. Da mesma forma, a ignorância também é um fantasma e não é real. Devido à sua irrealidade, ao descobrirmos sua natureza irreal, se diz que ela foi removida. Novamente, o sol está lá e também está brilhando. Você está rodeado pela luz solar. Ainda assim, para você conhecer o sol você tem de voltar seus olhos na direção dele e olhar para ele. Da mesma forma, a Graça só é encontrada através de práticas, embora esteja aqui e agora.
P: Espero eu, que pelo constante desejo de me render, uma Graça crescente seja experimentada.
B: Renda-se de uma vez por todas e acabe com os desejos. Enquanto o senso de ser o fazedor é mantido existem os desejos; isso também é a personalidade. Se isso for embora o Ser será descoberto brilhando de maneira pura. A sensação de ser o fazedor é aprisionamento, e não as próprias ações. "Aquietai-vos e sabeis que Eu sou Deus." Aqui, quietude é a rendição total, sem nenhum vestígio de individualidade. A quietude prevalecerá e não haverá agitação da mente. A agitação da mente é a causa do desejo, do sentimento de ser o fazedor e da personalidade. Se ela é interrompida, há serenidade. Desse modo, "Saber" significa "Ser". E não é um conhecimento relativo envolvendo a tríade - conhecimento, sujeito e objeto.
P: Após o retorno da consciência-corpo ...
B: O que é a consciência-corpo? Diga-nos isso primeiro. Quem é você à parte da consciência? O corpo é encontrado porque há a consciência-corpo que surge da "consciência-eu", que novamente surge da Consciência. Consciência → 'consciência-eu' → consciência-corpo → corpo. Há sempre a consciência e nada mais que isso. O que você está agora considerando ser a consciência-corpo deve-se à sobreposição. Se houvesse somente a consciência e nada além dela, o significado da Escritura 'Atmanastu kamaya bhavati priyam sarvam' - (Todos são queridos por causa do amor do Ser) se tornaria claro.

sábado, 17 de abril de 2010

Nisargadatta Maharaj - Conhece-te a Ti mesmo



Pergunta: Qual é o seu estado no momento presente?
Maharaj: Um estado de não-experiência. Nele, todas as experiências estão incluídas.
P: Você pode entrar na mente e no coração de outro homem e partilhar das experiências dele?
M: Não. Essas coisas requerem treinamento especial. Eu sou como um negociante de trigo. Sei pouco sobre pães e bolos. Mesmo o gosto de um mingau de trigo eu não conheço. Mas sobre o grão de trigo eu sei tudo e conheço muito bem. Eu conheço a fonte de toda a experiência. Mas as inúmeras formas particulares que a experiência pode assumir eu não conheço. Nem preciso conhecer. De momento a momento o pouco que preciso saber para viver a minha vida, de alguma forma eu venho a saber.
P: Sua existência particular e a minha existência particular existem na mente de Brahma?
M: O universal não tem conhecimento do particular. A existência como uma pessoa é uma questão pessoal. Uma pessoa existe no tempo e no espaço, tem nome e forma, começo e fim, o universal inclui todas as pessoas e o absoluto é a raiz de tudo e está além de tudo.
P: Eu não estou preocupado com a totalidade. Minha consciência pessoal e a sua consciência pessoal - qual é o elo entre as duas?
M: Qual pode ser o elo entre dois sonhadores?
P: Eles podem sonhar um com o outro.
M: Isso é o que as pessoas estão fazendo. Todo mundo imagina os “outros” e busca uma ligação com eles. O buscador é o elo, não há nenhum outro.

P: Certamente deve haver algo em comum entre os muitos pontos de consciência que nós somos.
M: Onde estão os muitos pontos? Em sua mente. Você insiste que seu mundo é independente da sua mente. Como pode ser? Seu desejo de conhecer a mente das outras pessoas é devido a você não conhecer a sua própria. Primeiro conheça sua própria mente e você verá que a questão das outras mentes não surgirá de modo algum, pois não há outras pessoas. Você é o fator comum, a única ligação entre as mentes. Existência é consciência, o "eu sou" se aplica a todos.
P: A Realidade Suprema (Parabrahman) pode estar presente em todos nós. Mas de quê ela serve para nós?
M: Você é como um homem que diz: "Eu preciso de um lugar onde guardar minhas coisas, mas de quê serve o espaço para mim? Ou “eu preciso de leite, chá, café ou refrigerante, mas de água eu não tenho nenhuma necessidade”. Você não vê que a Suprema Realidade é o que torna tudo possível? Mas se você perguntar de que ela serve para você, eu devo responder: 'De nada'. Em questões da vida diária o conhecedor do real não tem nenhuma vantagem: ao invés disso, ele talvez tenha desvantagens, estando livre da ganância e do medo, ele não se protege. A própria idéia de lucrar é estranha para ele, ele abomina acréscimos, sua vida é um constante despojar-se, compartilhar, doar-se.
P: Se não há nenhuma vantagem em ganhar o Supremo, então por que se preocupar com isso?
M: Há um problema apenas quando você se agarra a alguma coisa. Quando você não se prende a nada, nenhum problema surge. O abandono do menor significa a obtenção do maior. Abandone tudo e você ganha tudo. Então a vida torna-se o que ela deveria ser: a radiação pura de uma fonte inesgotável. Nessa luz o mundo parece vago como um sonho.
P: Se meu mundo é apenas um sonho e você é uma parte dele, o que você pode fazer por mim? Se o sonho não é real, não tendo existência, como a realidade pode afetá-lo?
M: Enquanto dura, o sonho tem existência temporária. É o seu desejo de mantê-lo que cria o problema. Deixe-o ir. Pare de imaginar que o sonho é seu.

P: Você parece tomar por garantido que pode haver um sonho sem um sonhador e que eu me identifico com o sonho criado por minha própria doce vontade. Mas eu sou o sonhador e o sonho também. Quem é que vai parar de sonhar?
M: Deixe o sonho desenrolar-se até o fim. Você não pode evitá-lo. Mas você pode olhar para o sonho como um sonho, recusar-lhe o carimbo da realidade.
P: Aqui estou eu, sentado diante de você. Eu estou sonhando e você está me assistindo falar em meu sonho. Qual é o elo entre nós?
M: A minha intenção de acordar você é o elo. Meu coração quer que você acorde. Eu vejo você sofrer em seu sonho e sei que você deve acordar para acabar com sua tristeza. Quando você vê seu sonho como sonho, você acorda. Mas em seu sonho propriamente dito, não estou interessado. Basta para mim saber que você precisa acordar. Você não precisa trazer o seu sonho a uma conclusão definida, ou torná-lo nobre, ou feliz, ou bonito, tudo que você precisa é perceber que você está sonhando. Pare de imaginar, pare de acreditar. Veja as contradições, as incongruências, a falsidade e a tristeza do estado humano, a necessidade de ir além. Dentro da imensidão do espaço flutua um minúsculo átomo de consciência e nele o universo inteiro está contido.
P: Existem afeições no sonho que parecem reais e permanentes. Elas desaparecem ao acordarmos?
M: No sonho você ama uns e não outros. Ao acordar você descobre que você é o próprio amor, abrangendo a todos. O amor pessoal, não importa o quão intenso e genuíno, invariavelmente limita, o amor na liberdade é o amor a todos.
P: As pessoas vêm e vão. Amamos a quem encontramos, não podemos amar a todos.
M: Quando você é o próprio amor, você está além do tempo e dos números. Ao amar um você ama todos, ao amar todos, você ama a cada um. Um e todos não são exclusivos.

P: Você diz que você está em um estado atemporal. Isso significa que o passado e o futuro estão abertos para você? Você conheceu Vashishta Muni, o Guru de Rama?
M: A questão está no tempo e refere-se ao tempo. Mais uma vez você está me perguntando sobre o conteúdo de um sonho. A atemporalidade está além da ilusão do tempo, ela não é uma extensão no tempo. Aquele que chamava-se Vashishta conhecia Vashishta. Estou além de todos os nomes e formas. Vashishta é um sonho em seu sonho. Como posso conhecê-lo? Você está muito preocupado com o passado e o futuro. É tudo devido ao seu desejo de continuar, é para proteger-se contra a extinção. E como você deseja continuar, você quer que os outros lhe façam companhia, daí a sua preocupação com a sobrevivência deles. Mas o que você chama de sobrevivência é apenas a sobrevivência de um sonho. A morte é preferível a isso. Há uma chance de acordar.
P: Você está ciente da eternidade, portanto não está preocupado com a sobrevivência.
M: É o contrário. Liberdade de todos os desejos é a eternidade. Todos os apegos implicam o medo, pois todas as coisas são passageiras e o medo torna a pessoa uma escrava. Essa liberdade do apego não vem com a prática, ela é natural quando a pessoa conhece seu verdadeiro ser. O amor não se apega; apego não é amor.
P: Então não há maneira de obter o desapego?
M: Não há nada a se ganhar. Abandone todas as fantasias e conheça a si mesmo como você é. O auto-conhecimento é desapego. Todo desejo é devido a uma sensação de insuficiência. Quando você sabe que não lhe falta nada, que tudo o que existe é você e é seu, os desejos cessam.
P: Para me conhecer devo praticar a consciência?
M: Não há nada para se praticar. Para conhecer a si mesmo, seja você mesmo. Para ser você mesmo, pare de imaginar-se sendo isto ou aquilo. Apenas seja. Deixe a sua verdadeira natureza emergir. Não perturbe a sua mente com procura.

P: Vai levar muito tempo se eu apenas esperar pela auto-realização.
M: Pelo quê você tem de esperar quando isso já está aqui e agora? Você só tem de olhar e ver. Olhe para você mesmo, em seu próprio ser. Você sabe que você é e você gosta disso. Abandone toda imaginação, isso é tudo. Não confie no tempo. Tempo é morte. Quem espera, morre. A vida é agora apenas. Não fale comigo sobre o passado e o futuro, eles existem apenas na sua mente.

P: Você também morrerá.
M: Eu já estou morto. A morte física não fará nenhuma diferença no meu caso. Eu sou o ser atemporal. Eu estou livre de desejo ou medo, porque eu não me lembro do passado ou imagino o futuro. Onde não há nomes e formas, como pode haver desejo e medo? Com a ausência de desejo vem a atemporalidade. Estou seguro porque o que não é, não pode tocar o que é. Você se sente inseguro porque você imagina o perigo. Naturalmente, o seu corpo, como tal, é complexo e vulnerável e precisa de proteção. Mas você não. Quando você realizar o seu próprio ser inatacável, você estará em paz.
P: Como posso encontrar paz quando o mundo sofre?
M: O mundo sofre por razões muito válidas. Se você quiser ajudar o mundo, você deve estar além da necessidade de ajuda. Então, todas as suas ações, bem como as não-ações irão ajudar o mundo da forma mais eficaz.

P: Como pode a não-ação ser útil, quando as ações são necessárias?
M: Sempre que é necessário agir, a ação acontece. O homem não é o ator. Sua ação é estar ciente do que está acontecendo. Sua própria presença é ação. A janela é a ausência da parede e ela dá o ar e a luz porque ela é vazia. Esteja vazio de todo o conteúdo mental, de toda imaginação e esforço, e a própria ausência de obstáculos fará a realidade invadir. Se você realmente quiser ajudar uma pessoa, mantenha-se afastado. Se você está emocionalmente comprometido em ajudar, vai falhar em ajudar. Você pode estar muito ocupado e muito feliz com o seu caráter caridoso, mas não terá feito muito. Um homem é realmente ajudado quando ele não está mais necessitando de ajuda. Todo o resto é apenas futilidade.
P: Não há tempo suficiente para sentar e esperar que a ajuda aconteça. É preciso fazer alguma coisa.

M: De todo jeito - faça. Mas o que você pode fazer é limitado, apenas o Ser é ilimitado. Dê ilimitadamente de si mesmo. Tudo o mais você pode dar em pequenas medidas apenas. Somente você é imensurável. Ajudar é a sua própria natureza. Mesmo quando você come e bebe você ajuda seu corpo. Para si mesmo, você não precisa de nada. Você é puro doar, sem começo, sem fim, inesgotável. Quando você vê tristeza e sofrimento, fique com eles. Não se apresse em agir. Nem a aprendizagem nem a ação podem realmente ajudar. Fique com a tristeza e revele as suas raízes - ajudar a entender é a verdadeira ajuda.
P: Minha morte está se aproximando.
M: O seu corpo é que tem um tempo curto, não você. O tempo e o espaço estão apenas na mente. Você não é limitado. Apenas compreenda a si mesmo, isso em si é a eternidade.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Jalaluddin Rumi - O Rubi do Nascer do Sol / Água da sua Fonte / Você Esfrega o Chão / Cada Nota / Granito e Taça de Vinho



Na primeira hora da manhã,


um pouco antes do amanhecer, o amante e a amada acordam


e tomam um gole de água.



Ela pergunta, “Você ama mais a mim ou a si mesmo?


Realmente, diga a verdade absoluta.”



Ele diz, “Não sobrou nada de mim.


Sou como um rubi erguido para o nascer do sol.


Ele ainda é uma pedra, ou um mundo


de vermelhidão? Ele não resiste


à luz do sol.”



Foi assim que Hallaj disse, eu sou Deus,


e disse a verdade!



O rubi e o nascer do sol são um.


Seja corajoso e discipline-se.



Torne-se completamente audição e orelha,


e use como brinco este sol-rubi.



Trabalhe, continue cavando o seu poço.


Não pense sobre largar o trabalho.


A água está lá em algum lugar.



Submeta-se a uma prática diária.


Sua lealdade a isso


é uma campainha na porta.



Continue tocando, e a alegria que está dentro


eventualmente abrirá uma janela


e olhará para fora para ver quem está lá.


___________________________________


.


O que há na luz daquela vela


que abriu e consumiu-me tão rapidamente?



Volte, meu amigo! A forma do nosso amor


não é uma forma criada.



Nada pode me ajudar além daquela beleza.


Lembro-me de um amanhecer



em que minha alma ouviu algo


de sua alma. Eu bebi água



da sua fonte e senti


a correnteza me levar.


__________________________________


.


O senhor da beleza entra na alma


conforme um homem caminha num pomar


na primavera.



Vem em mim daquele jeito de novo!



Acende a lâmpada


no olho de José. Cura a tristeza


de Jacó. Embora você nunca tenha partido,


venha e sente aqui e pergunte,


“Por que você está tão confuso?”



Como uma idéia nova na mente de um artista,


você forma as coisas antes delas surgirem.



Você varre o chão como o homem


que zela o portão.


Quando você esfrega


uma forma deixando-a limpa, ela se torna


o que ela realmente é.



Você guarda seu silêncio perfeitamente


como uma bolsa de água que não vaza.



Você vive onde Shams vive,


porque seu coração-asno foi forte o bastante para levá-lo até lá


_____________________________________


.


Conselhos não ajudam os amantes!


Eles não são o tipo de riacho da montanha


no qual você pode construir uma represa.



Um intelectual não sabe


o que o ébrio está sentindo!



Não tente adivinhar qual é a próxima coisa


que aqueles perdidos dentro do amor irão fazer!



Alguém no comando abandonaria todo seu poder,


se recebesse uma baforada do vinho almiscarado


do quarto onde os amantes


estão fazendo sabe-se lá o quê!



Um deles tenta cavar um buraco através de uma montanha.


Um foge das honras acadêmicas.


Outro ri de bigodes famosos!



A vida congela se ela não consegue ter um gosto


deste bolo de amêndoas.



As estrelas erguem-se girando


toda noite aturdidas de amor.



Elas se cansariam desse revolver,


se não estivessem nesse estado.



Elas diriam,


“Quanto tempo mais temos que fazer isto!”



Deus apanha a flauta de bambu do mundo e sopra.


Cada nota é uma necessidade surgida através de cada um de nós,


uma paixão, uma dor ardente.



Lembre-se dos lábios


de onde o sopro da respiração se originou,


e deixe sua nota ser clara.


Não tente terminá-la.


Seja sua nota.


Vou lhe mostrar como isso é o suficiente.



Suba no telhado esta noite


nesta cidade da alma.



Que todos subam em seus telhados


e cantem suas notas!



Cantem alto!


_____________________________________


.


Você é granito.


Eu sou uma taça de vinho vazia.



Você sabe o que acontece quando nos tocamos!


Você ri do mesmo modo que o sol nascendo ri


de uma estrela que desaparece nele.



O amor abre meu peito e o pensamento


retorna para seus confins.



A paciência e as considerações racionais se vão.


Apenas as paixões ficam, choramingando e febris.



Alguns homens caem na estrada como restos descartados.


Então, totalmente indiferentes, na manhã seguinte



eles saem galopando com novos propósitos. O amor


é a realidade e a poesia é o tambor



que nos chama para ele. Não fique reclamando


sobre a solidão! Deixe abrir uma fenda na linguagem


medrosa desse assunto fazendo-a flutuar para longe.



Que o sacerdote desça de sua torre,


e não volte para lá novamente.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Meher Baba - O Amor


A vida e o amor são inseparáveis um do outro. Onde há vida, há amor. Mesmo a consciência mais rudimentar está sempre tentando romper seus limites e experimentar algum tipo de unidade com outras formas. Embora cada forma esteja separada das outras formas, na realidade, são todas as formas da mesma unidade da vida. O sentimento latente por essa realidade interior escondida, indiretamente se faz sentir até mesmo no mundo da ilusão através da atração que uma forma tem por outra forma. A lei da gravitação, a qual todos os planetas e as estrelas estão sujeitos, é à sua maneira um tênue reflexo do amor que permeia todas as partes do universo. Mesmo as forças de repulsão, na verdade, são expressões do amor, pois as coisas são repelidas umas das outras porque são mais fortemente atraídas para outras coisas.



Repulsão é uma consequência negativa da atração positiva. As forças de coesão e de afinidade, que prevalecem na própria constituição da matéria, são expressões positivas do amor. Um exemplo flagrante do amor nesse nível é encontrado na atração que o ímã exerce sobre o ferro. Todas essas formas de amor são do tipo mais baixo, uma vez que estão necessariamente condicionadas pela consciência rudimentar em que elas aparecem. No mundo animal o amor se torna mais explícito na forma de impulsos conscientes que são direcionados para diferentes objetos no ambiente. Esse amor é instintivo e toma a forma do satisfazer a desejos diferentes através da apropriação de objetos convenientes. Quando um tigre tenta devorar um cervo, ele está em um sentido muito real apaixonado pelo cervo. A atração sexual é outra forma de amor neste nível. Todas as expressões de amor, nesta fase, têm uma coisa em comum, ou seja, todas elas procuram satisfazer um impulso ou desejo físico por meio do objeto de amor.



O amor humano é muito mais elevado que todas essas formas inferiores de amor, porque os seres humanos têm a consciência plenamente desenvolvida. Embora o amor humano seja contínuo com as formas inferiores subumanas de amor, de certa forma ele é diferente delas. Pois, daqui por diante as suas operações devem ser executadas lado a lado com um novo fator, que é a razão. Às vezes o amor humano se manifesta como uma força que está separada da razão e é paralela a ela. Às vezes manifesta-se como uma força que se mistura à razão e entra em conflito com ela. Finalmente, ele se expressa como um componente do conjunto harmonizado onde o amor e a razão foram equilibrados e fundidos em uma unidade integral.



Assim, o amor humano pode entrar em três tipos de combinação com a razão. No primeiro tipo, a esfera do pensamento e a esfera do amor são mantidas o mais separadas possível, ou seja, a esfera do amor é praticamente inacessível para a operação da razão, e ao amor é permitido pouco ou nenhum acesso à esfera do pensamento. A completa separação entre esses dois aspectos do espírito, naturalmente, nunca é possível. Mas quando há um funcionamento alternado do amor e da razão (oscilante em sua predominância), temos o amor que não deixa de ser iluminado pela razão ou a razão que não deixa de ser vivificada pelo amor.



No segundo tipo, o amor e a razão estão simultaneamente operando, mas eles não trabalham em harmonia um com o outro. Embora esse conflito gere confusão, é uma fase necessária na evolução do estado superior onde existe uma verdadeira síntese do amor e da razão. No terceiro tipo de amor, essa síntese entre o amor e a razão é um fato consumado, com o resultado que tanto o amor quanto a razão são transformados tão completamente, que precipitam o surgimento de um novo nível de consciência que, em comparação com a consciência humana normal, é melhor descrito como superconsciência.



O amor humano faz a sua aparição na matriz da consciência-ego, que tem desejos incontáveis. O amor é colorido por esses fatores de muitas maneiras. Assim como temos uma variedade de desenhos em constante mudança em um caleidoscópio através de várias combinações de elementos simples, encontramos uma variedade qualitativa quase sem limites na escala do amor devido a novas combinações de fatores. E assim como existe uma infinidade de tonalidades de cores em flores diferentes, existem diversas diferenças delicadas no amor humano.



O amor humano é cercado por uma série de fatores obstrutivos, como a paixão, a luxúria, a ganância, a raiva e a inveja. Num certo sentido, mesmo esses fatores obstrutivos ou são formas inferiores de amor ou subprodutos inevitáveis dessas formas inferiores de amor. Paixão, luxúria e cobiça podem ser encarados como formas pervertidas e inferiores de amor. Na paixão uma pessoa está enamorada de um objeto sensual; na luxúria ela desenvolve um desejo por sensações em relação a ele, e na cobiça ela deseja possuir esse objeto. Dessas três formas de amor inferior, a cobiça tem uma tendência de se estender do objeto original para os meios de obtê-lo. Assim, uma pessoa torna-se ávida por dinheiro, poder ou fama, que podem ser instrumentos para a posse de diferentes objetos ansiados. A raiva e o ciúme passam a existir quando essas formas inferiores de amor são negadas ou ameaçadas de serem negadas.



Essas formas inferiores de amor obstruem a liberação do amor puro. A corrente do amor nunca pode tornar-se clara e uniforme até que seja desembaraçada dessas formas limitantes e pervertidas de amor inferior. As formas mais baixas são o inimigo da forma mais elevada. Se a consciência é pega no ritmo das formas inferiores, ela não pode emancipar-se dos sulcos auto-criados, encontrando dificuldades para sair deles e avançar adiante. Assim, as formas inferiores de amor continuam a interferir com o desenvolvimento da forma mais elevada e tem que ser abandonadas a fim de permitir o aparecimento desimpedido da forma mais elevada de amor.





A emersão do amor superior de dentro da concha do amor inferior é ajudada pelo exercício constante da discriminação. Portanto, o amor tem de ser cuidadosamente distinguido dos fatores obstrutivos da paixão, luxúria, cobiça e raiva. Na paixão, a pessoa é uma vítima passiva da magia da atração concebida pelo objeto. No amor há uma apreciação ativa do valor intrínseco do objeto do amor. O amor é também diferente da luxúria. Na luxúria há uma dependência de um objeto sensual e uma consequente subordinação espiritual de si para com ela, enquanto que o amor coloca a pessoa numa relação direta e coordenada com a realidade por trás da forma. Portanto, a luxúria é experimentada como sendo pesada e o amor como sendo leve. Na luxúria há um estreitamento da vida e no amor não há uma expansão do ser. Ter amado alguém é como adicionar uma outra vida à sua própria. Sua vida é, por assim dizer, multiplicada, e você praticamente vive em dois centros. Se você ama o mundo inteiro, do mesmo modo você vive no mundo todo; mas na luxúria há um refluxo da vida para baixo e uma sensação geral de dependência desesperada por uma forma que é considerada uma outra. Assim, na luxúria há a acentuação da separação e do sofrimento, enquanto que no amor há o sentimento de unidade e de alegria. A luxúria é dissipação, o amor é restauração. A luxúria é um desejo dos sentidos, o amor é a expressão do espírito. Luxúria busca satisfação, mas o amor experimenta satisfação. Na luxúria há excitação e no amor há tranquilidade.



O amor é igualmente diferente da cobiça (ganância). A cobiça é a possessividade em todas as suas formas grosseiras e sutis. Ela visa se apropriar de pessoas e de objetos grosseiros, bem como de coisas abstratas e intangíveis tais como fama e poder. No amor, a anexação de outra pessoa à vida individual da outra está fora de questão, e há uma efusão livre e criativa que aviva e reabastece o ser do amado independentemente de quaisquer expectativa para si. Temos o paradoxo de que a cobiça, que visa a apropriação de outro objeto, de fato conduz a um resultado oposto de colocar o ser sob a tutela do objeto. Enquanto que o amor, que só visa dar-se para o objeto, de fato leva a uma incorporação espiritual do amado no próprio ser do amante. Na cobiça o ser tenta possuir o objeto, mas ele próprio é possuído pelo objeto. No amor, o ser oferece-se para o amado sem reservas, mas nesse próprio ato ele descobre que ele incluiu o amado em seu próprio ser.



Paixão, luxúria e cobiça constituem uma doença espiritual, que muitas vezes torna-se mais virulenta pelos sintomas agravantes da raiva e do ciúme. O amor puro, num contraste nítido, é a floração da Perfeição espiritual. O amor humano está tão amarrado por essas condições limitantes que o aparecimento espontâneo de amor puro vindo de dentro, torna-se impossível. Assim, quando tal amor puro surge no aspirante, é sempre um presente. O amor puro surge no coração do aspirante, em resposta à descida da graça de um mestre perfeito. Quando o amor puro é recebido como um presente do Mestre pela primeira vez, ele se aloja na consciência do aspirante como uma semente num solo favorável; e no curso do tempo a semente se desenvolve em uma planta e depois em uma árvore adulta. A descida da graça do Mestre está condicionada, no entanto, pela preparação espiritual preliminar do aspirante. Esta preparação preliminar para a graça nunca está completa até que o aspirante tenha construído em sua composição espiritual alguns atributos divinos. Por exemplo, quando uma pessoa evita falar mal dos outros e pensa mais nos pontos positivos dos outros do que em seus pontos fracos, e quando ela pode praticar a tolerância suprema e deseja o bem para os outros, mesmo às custas de si mesma, ela está pronta para receber a graça do mestre. Um dos maiores obstáculos que impede essa preparação espiritual do aspirante é a preocupação. Quando, com um esforço supremo, este obstáculo da preocupação for ultrapassado, um caminho será pavimentado para o cultivo dos atributos divinos que constituem a preparação espiritual do discípulo. Tão logo o discípulo esteja pronto, a graça do Mestre descende; quanto ao Mestre, que é o oceano do amor divino, ele está sempre à espreita por uma alma na qual sua graça irá dar frutos. O tipo de amor que é despertado pela graça do Mestre é um privilégio raro. A mãe que está disposta a sacrificar tudo e morrer por seu filho e o mártir que está preparado para desistir de sua própria vida pelo seu país, são de fato extremamente nobres, mas não necessariamente eles provaram esse puro amor nascido através da graça do Mestre. Mesmo os grandes yogis que sentam-se em cavernas e nos cumes das montanhas e estão completamente absorvidos em profundo Samadhi (em transe meditativo) não têm necessariamente esse amor precioso.



O amor puro despertado pela graça do Mestre é mais valioso do que qualquer outro estímulo que possa ser utilizado pelo aspirante. Esse amor não só combina em si o mérito de todas as disciplinas, mas supera-as todas em sua eficácia para conduzir o aspirante ao objetivo. Quando o amor nasce, o aspirante tem apenas um desejo, que é ser unido com o Amado divino. Essa retirada da consciência de todos os outros desejos leva à pureza infinita; portanto, nada purifica o aspirante mais completamente do que esse amor. O aspirante está sempre disposto a oferecer tudo para o amado divino e nenhum sacrifício é difícil demais para ele. Todos os seus pensamentos estão afastados de si e passam a ser exclusivamente centrados no Amado divino. Através da intensidade desse amor sempre crescente, ele finalmente rompe as algemas do ego e se une com o Amado. Essa é a consumação do amor. Quando, desse modo, o amor encontrou a sua fruição, ele tornou-se divino. O amor divino é qualitativamente diferente do amor humano. O amor humano é para os muitos no Um e o amor divino é para o Um nos muitos. O amor humano leva a inúmeras complicações e emaranhamentos, mas o amor divino leva à integração e à liberdade. No amor divino o aspecto pessoal e o impessoal são igualmente equilibrados; no amor humano, os dois aspectos estão em ascendência alternada. Quando a nota pessoal for predominante no amor humano, ela leva à cegueira total para o valor intrínseco de outras formas.



Quando, como num sentido de dever, o amor é predominantemente impessoal, ele muitas vezes torna a pessoa rígida, fria e mecânica. Uma sensação de dever vem para o indivíduo como uma restrição externa sobre o comportamento, mas no amor divino há liberdade irrestrita e espontaneidade sem limites. O amor humano, no seu aspecto pessoal e impessoal é limitado, o amor divino com sua fusão do aspecto pessoal e impessoal é infinito em ser e expressão.



Mesmo o tipo mais elevado de amor humano está sujeito às limitações da natureza individual, que persiste até o “sétimo plano de involução da consciência”*. O amor divino surge depois do desaparecimento da mente individual e é livre dos empecilhos da natureza individual. No amor humano a dualidade do amante e do amado persiste, mas no amor divino o amante e o amado se tornam um. Nesta fase o aspirante sai do domínio da dualidade e se torna um com Deus; pois Deus É o Amor Divino. Quando o amante e o Amado são um, esse é o fim e o começo. É pelo amor que todo o universo veio à existência, e é por causa do amor que ele é mantido. Deus descende ao reino da Ilusão porque a aparente dualidade do Amado e do amante é eventualmente contributiva para Sua apreciação consciente de Sua própria divindade. O desenvolvimento do amor é condicionado e sustentado pela tensão da dualidade. Deus tem de sofrer uma aparente diferenciação em uma multiplicidade de almas, a fim de exercer o jogo do amor. As almas são as próprias formas Dele, e em relação a elas, de uma só vez Ele assume o papel do divino amante e do divino Amado. Como o Amado, Ele é o objeto real e o final de apreciação das almas. Como o divino Amante, Ele é o salvador real e definitivo das almas, chamando-as de volta para si próprio. Assim, apesar de todo o mundo da dualidade ser apenas uma ilusão, esta ilusão veio a ser por um propósito significativo. O amor é o reflexo da unidade de Deus no mundo da dualidade. Constitui toda a importância da criação. Se o amor fosse excluído da vida, todas as almas no mundo assumiriam completa externalidade umas às outras, e as únicas relações e contatos possíveis, de tal mundo sem amor, seriam superficiais e mecânicas. É por causa do amor que os contatos e as relações entre as almas individuais se tornam significativos. É o amor que dá sentido e valor a todos os acontecimentos no mundo da dualidade. Mas enquanto o amor dá significado para o mundo da dualidade, é ao mesmo tempo um desafio permanente à dualidade. Quando o amor reúne força, ele gera uma inquietação criativa e se torna a principal força motriz daquela dinâmica espiritual que finalmente consegue recuperar a unidade original de Ser da consciência.


*o último e mais elevado estágio que a consciência pode atingir, de acordo com Meher Baba

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Farid ud-Din Attar - O Vale do Amor



“Depois do primeiro vale”, continuou a poupa, “encontra-se o vale do amor. Para entrar nele deve-se mergulhar inteiramente no fogo; o que digo!?, deve-se ser o próprio fogo, pois de outra forma não se poderia viver ali. O verdadeiro amante deve de fato parecer-se com o fogo; é necessário que ele tenha o rosto inflamado, que seja ardente e impetuoso como o fogo. Para amar não se deve ter segundas intenções; deve-se estar disposto a atirar prazerosamente cem mundos ao fogo; não há de conhecer nem a fé nem a infidelidade, não é preciso nem dúvida nem certeza. Neste caminho não há diferença entre o bem e o mal.


Ó tu que vives na despreocupação! Este discurso não poderia tocar-te; tu o rejeitas, teus dentes não podem mordê-lo. Aquele que age com lealdade aposta dinheiro de verdade, arrisca sua cabeça para unir-se ao Amigo. Os demais contentam-se com a promessa que se lhes faça para amanhã; porém somente o amante recebe o prêmio de verdadeiro valor. Se aquele que se engaja na via espiritual não consome a si mesmo por completo, como poderá ser libertado da tristeza que o oprime? Enquanto toda a essência não for radicalmente consumida, poderás fazer de teu coração um mostruário de rubis e vendê-lo? O falcão é presa do fogo da agitação enquanto não atinge seu objetivo. Se o peixe cai do oceano para a praia, ele se agita até retornar à água.


Neste vale o amor é representado pelo fogo e sua fumaça é a razão. Quando o amor vem, a razão foge o mais rapidamente possível. A razão não pode coabitar com a loucura do amor; o amor não tem nada a ver com a razão humana. Se adquirisses uma visão realmente clara do mundo invisível, só então poderias conhecer a fonte do amor misterioso que te anuncio. A existência do amor é, folha por folha, completamente destruída pela própria embriaguez do amor. Se possuísses a visão espiritual, os átomos do mundo visível também te seriam desvelados; mas se olhas com o olho da inteligência humana, jamais compreenderás o amor assim como ele é. Somente um homem experiente e livre pode sentir esse amor espiritual. Pois bem, és tu que não tens a experiência requerida, e ademais, não estás verdadeiramente enamorado. Tu estás morto! Como estarias pronto para o amor? Seria necessário para aquele que se compromete nessa via possuir milhares de corações vivos, a fim de poder sacrificá-los às centenas a cada instante.”




O Hodja Enamorado




O amor levou um hodja pelos caminhos da miséria; ele errava sem lugar e sem família, desgraçado por causa do amor que experimentava por um jovem vendedor de cerveja. O excesso desse amor transformou-se em loucura, e a infâmia que disso resultou teve ressonâncias. Todos os objetos, imóveis e escravos que possuía, ele os vendeu para comprar cerveja daquele moço. Quando mais nada restava a esse homem que havia perdido seu coração e caído na indigência, seu amor cresceu ainda cem vezes mais. Mesmo quando lhe davam todo o pão que queria ele ainda continuava faminto, porém contente da vida, porque cada bocado que recebia trocava por cerveja; permanecia faminto, a fim de beber em um instante cem copos de cerveja. Um dia alguém lhe perguntou: “Tu, cujo estado é desolador, o que é o amor? Desvela-me esse segredo.” O hodja respondeu: “O amor é tal que deves vender a mercadoria de cem mundos para comprar cerveja.”


Enquanto o homem não agir dessa maneira, conhecerá o verdadeiro sentido do amor?



Outra história sobre Majnun



Os pais de Laila jamais permitiram que Majnun entrasse em sua tribo; porém Majnun, ébrio de amor, pediu emprestada a pele de um cordeiro a um pastor que estava no deserto onde a tribo de Laila levantava suas tendas. Ele curvou então sua cabeça, cobriu-a com essa pele e tomou assim a aparência de um cordeiro. Depois Majnun disse ao pastor: “Eu te suplico, em nome de Deus! Deixa-me entre tuas ovelhas. Leva teu rebanho para perto de Laila para que eu possa sentir o perfume daquela que amo, e, escondido de minha amiga sob esta pele, possa desfrutar de sua presença.”


Se pudesses sentir tal amor por um instante, tu serias digno de pertencer à humanidade até a raiz de cada um de teus cabelos. Ai! Tu não sentes a dor amorosa dos homens espirituais, ignoras a boa sorte das pessoas do jardim espiritual.


Majnum foi sob essa pele ao encontro de sua amiga, escondido entre as ovelhas. Ao ver Laila, foi invadido por tal alegria que acabou por desmaiar. Quando o amor produziu esse efeito sobre ele e a água (a honra) deixou seu rosto, o pastor tomou-o nos braços e levou-o para a sombra da planície; lançou água sobre a face desse jovem tão profundamente embriagado de amor, para que essa água acalmasse um pouco aquele fogo.


Dias depois, quando Majnun, ainda ébrio de amor, estava sentado com algumas pessoas no deserto, um dos membros dessa reunião lhe disse: “ Ó tu, que és bem nascido! Como podes estar sem roupas? Se desejares, eu te trarei agora mesmo a vestimenta que preferires.” - “Nenhuma vestimenta é digna de minha amiga”, respondeu Majnun, “assim, não há para mim roupa mais conveniente que a pele do cordeiro; ela serviu-me de ispand para afastar o mau olhado. Majnun vestiria com prazer ricas vestes de brocado tecido em ouro, porém agrada-lhe essa pele por meio da qual ele pode agradar Laila. Se é graças a essa pele que posso ver minha amiga, como poderia desejar outra vestimenta? É sob essa pele que meu coração tem notícias do amor; e, como não posso alcançar sua essência, essa pele permite-me ter ao menos uma idéia dela.”


É preciso que o amor te arranque da sabedoria, é necessário que ele transforme tuas inclinações. A menor coisa no aniquilamento dessas inclinações é dar tua vida e abandonar os prazeres vulgares. Se tens os elevados sentimentos de que falo, põe o pé neste caminho, pois não é um jogo jogar assim a própria vida.



O Árabe na Pérsia



Um árabe foi à Pérsia e admirou-se dos costumes que ali encontrou. Quando visitava o país, esse ignorante passou por acaso diante de uma casa de calândares e viu um punhado de gente turbada que havia abandonado os dois mundos e não dizia palavra. Todos sem mulher, sem dinheiro, mas de coração puro; todos isentos de mancha, um mais que o outro. Se pareciam com ladrões sujos, e eram no entanto mais limpos que qualquer um que o mundo pudesse enxergar, e apesar de parecerem mergulhados na embriaguês, o êxtase que conheciam não é de se beber. Cada um deles tinha nas mãos uma garrafa de vinho turvo, que havia tido o cuidado de encher antes de sentar-se. Logo que o árabe viu essas pessoas sentiu-se inclinado por elas: seu espírito e seu coração detiveram-se no grande caminho de sua vida. Quando os calândares viram-no assim destituído de honra, de razão e de espírito, disseram-lhe todos: “Entra, ó ninguém!” Ele então entrou, por bem ou por mal. Assim foi, e eis tudo. Tornou-se libertino como os outros. Embriagado pelo efeito de um só copo de vinho ele apagou-se, renunciou a si mesmo e seu vigor foi aniquilado. Esse homem tinha muitos objetos de valor, muito ouro e prata, que um dos calândares tomou-lhe num instante. Um outro deu-lhe ainda mais vinho e depois jogaram-no para fora daquela casa inteiramente nu. Então o árabe viu-se obrigado a vagar, tonto, pobre, com a alma transtornada e os lábios secos, até chegar a seu país. Os árabes lhe disseram: “O que se passou contigo?” Onde está teu ouro e tua prata? Talvez tenhas adormecido e fostes roubado. Tinhas dinheiro e agora estás pobre e na agitação; fizeste mal em ir à Pérsia, não dizes palavra e pareces tão diferente. Explica o que te aconteceu, para que conheçamos a situação em que te encontras.” - “Enquanto vagava cheio de orgulho pelo caminho”, ele respondeu, “ encontrei-me de repente entre calândares. De nada sei além disso, a não ser que meu ouro e minha prata se foram e que perdi tudo.” Sua mente estava em outro lugar e tudo que ouvia parecia-lhe tagarelice inútil e absurda. Pediram-lhe que descrevesse aquela gente, e ele contou: “ Eles disseram simplesmente: Entra.”

terça-feira, 30 de março de 2010

Hafiz - Estou cheio de amor / A Festa / Gostaria de poder falar como a música

Estou cheio de amor esta noite

Venha olhar em meus olhos e vamos partir

Navegando, meu querido, num longo passeio no oceano.


Este mundo não irá tocá-lo,

Vou mantê-lo aconchegado em meu assento.

Vamos conspirar

Para deixar a Lua enciumada

Com um resplendor saltando de nossos rostos.

Estarei cheio de amor esta noite,


Venha olhar dentro destes antigos olhos!

E vamos partir navegando, meu querido,

Com nossos espíritos entrelaçados.

Seu corpo é apenas um velho banco de areia

Numa ampulheta onde o tempo está passando.

O amor vai virar a tristeza

De cabeça para baixo. Deixe seu coração começar seu destinado

Carrilhão de risos! Hafiz estará cheio de amor até a borda esta noite,

Por que ficar tímido? Venha olhar os divertidos olhos de meu verso,

Eles estão eternamente marcados,

Marcados com o Sol!


__________________________________________



O ouvido fica alerta quando a musica diz:

"Estou aqui.”

O olho se põe de plantão,

Coloca-se em boas condições,

Quando a beleza assovia e aponta para o seu vestido


No chão. Deus enviou dez mil mensageiros

Anunciando uma grande festa que alguns dos planetas

Estarão dando esta noite

Onde o cantor principal é Deus,

Ele próprio. Mas a maior parte desses mensageiros

Embriagou-se, foi atacada de surpresa,

Ficaram tão completamente desorientados

Com uma notícia tão exaltada como essa,

Que não conseguem mais lembrar


A hora e o local.

O quê isso tem a ver com você? Muito.


Hafiz o substituirá depois

Se necessário.


________________________________________


Gostaria de poder falar como a música.

Gostaria de colocar o esplendoroso balançar dos campos nas palavras

Para que você pudesse abraçar a Verdade

Contra seu corpo

E dançar.

Estou tentando o melhor que posso

Com este pincel cru - a língua -

Cobrir você de luz.

Gostaria que eu pudesse falar como a música divina.

Quero dar-lhe os ritmos sublimes

Desta terra e os braços do céu

enquanto eles giram e se entregam alegremente,

Entregam-se

à respiração luminosa de Deus.

Hafiz quer que você me segure


Contra seu corpo precioso

E dance,


Dance.

Tukaram - Ensinamentos Místicos

A santidade não pode ser comprada no mercado, nem pode ser adquirida ao vagarmos pelas florestas e montanhas. Também não pode ser comprada com grandes quantidades de riquezas, nem pode ser encontrada nos mundos superiores e no além. A santidade pode ser adquirida apenas a custo da vida. Aquele que não está preparado para sacrificar sua vida não deveria vangloriar-se da espiritualidade.
Para o santo não sobrou nenhum lugar para pecado e mérito, ou para felicidade e miséria. A morte ocorreu durante a vida e a distinção entre o Ser e o não-Ser desapareceu. Não há lugar para casta, cor ou credo ou para a verdade ou inverdade. Quando o corpo foi sacrificado para Deus toda adoração foi realizada.
O Santo também foi além da influência de todos os tipos de ações: ele não pode fazer nenhuma ação que carregue qualquer fruto. Deus assumiu o lugar da ação e preencheu o Santo por dentro e por fora. De fato, agora não sobrou nenhuma distinção entre Deus e o Devoto; e se agora Deus é encontrado em algum lugar, é para ser encontrado em tal Santo.
Viemos a conhecer agora Tua natureza real. Agora vi meu Ser real.
Da semente cresce uma árvore e da árvore vem o fruto. Desse modo, Tu e eu somos como semente e árvore. As ondas são o oceano e o oceano as ondas. A imagem e o reflexo agora fundiram-se um no outro.
Quando o Ser se transformou em Deus e quando a mente inundou-se na iluminação, toda a criação parece divina e de repente o influxo de Deus preenche o mundo todo.
Se eu proferir louvores para alguém além de Ti, que minha língua caia. Se minha mente desejar pensar em algo além de Ti, que minha cabeça quebre ao meio. Se meus olhos tiverem paixão por verem alguma coisa além de Ti, que eles ceguem-se no mesmo momento. Se meus ouvidos se recusarem a ouvir Teus louvores, eles serão imprestáveis. Minha própria vida não teria razão de ser se fosse para eu ficar esquecido de Tua presença mesmo que por um momento.
Teus pés e mãos tem de trabalhar pelo amor a Deus. Tens fala para louvá-Lo e ouvido para ouvir Sua grandeza. Tens olhos para ver Sua forma.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Siddharameshwar Maharaj - Permaneça Alerta Internamente

(Mumbai, 5 de outubro de 1935)

Não importa o quão erudito ou estudado você possa ser no mundo, isso é um show externo. Sua consciência deveria ficar firme e internamente constante. Um homem que tenha ganho grande fama no mundo, estará desperdiçando sua vida se não estiver livre e desperto internamente. Aquele que deixou escapar o Deus Um, jogou sua vida fora. Qual é a utilidade de ser famoso na vida pública? Quando a pessoa não tem Auto-Conhecimento, ela é ignorante do Ser. Se você é um devoto de Deus, o lugar onde você está agora, e seu lugar depois da morte, é o “Mundo de Deus”. Se você está apenas inclinado para as coisas mundanas, você voltará para o mundo. Quando você é devotado ao Ser, você permanece no Ser - Um com Ele.


O propósito de falar tudo isso é que você tem de queimar todo o lixo desnecessário e ser Um com “A Totalidade do Absoluto”. Se você dissolveu os desejos do corpo e os elementos que constituem o corpo estão fundidos nos vastos elementos do universo, então você está livre ainda que tenha um corpo externo. Isso em si é a Liberdade. Um homem que constantemente pense em mulheres, no próximo nascimento nasce mulher. De acordo com o que você pensa e medita, é naquilo que você se torna. Alguém cuja atenção está sempre voltada para as coisas mundanas, tem de vir repetidamente para este mundo.


Em outra criaturas “Este Conhecimento” está ausente. Apenas os seres humanos tem este Conhecimento, e, portanto, somente na vida humana fazer tal meditação é acessível. Não é verdadeiro afirmar que com a completa saturação nos múltiplos prazeres, você eventualmente se tornará sem desejos. Não! Os desejos não morrerão nunca dessa maneira, apenas aumentarão. Os desejos de alguém que não teve chance de desfrutá-los já são grandemente aumentados.


Todos, ocasionalmente, dirão que estão desgostosos com a vida, mas é porque não podem encontrar a solução para seus problemas. Isso é frustração e não a real ausência de desejos (Virakti). Você não pode ter um sonho do jeito que você deseja. A experiência do sonho é causada por algum anseio contínuo. De acordo como você coloca a sua energia em algum sentimento particular, você obtém aquilo. Se você se concentrar em Brahman, o qual é sem atributos (Nirguna), você irá experimentar Isso. Ali, os atributos ou qualidades (Gunas) terminam. É quando os gunas (ou desejos), repetem-se constantemente e se multiplicam, que eles assumem a forma do Universo. Essa é a Ilusão Original, Moolamaya, ou a “Ilusão que Produz a Consciência”.


Através da meditação “Naquilo sem Atributos” (Nirguna Brahman), nós alcançamos a dissolução dos atributos (Gunas). Dessa maneira você pode tornar-se Singularmente Um.

É uma regra que um renunciado (Sanyasi) tem de remover seu cabelo e raspar sua cabeça. Isso significa que o orgulho dos atributos deveria ser removido. Simboliza que qualquer coisa que tenha crescido sobre o Ser devesse ser removida. O que estava lá Originalmente parece ter-se tornado outra coisa diferente. A “outra coisa” precisaria ser removida e aquele “Ser Original” deveria permanecer. O Estado Original não tinha qualidades, tais como Sattva, Rajas ou Tamas. Então, uma dessas qualidades apareceu. A natureza desse Guna é o poder de imaginação. Abraçando esse Guna, o Ser considerou-o erroneamente como sendo Sua própria natureza e esqueceu sua “Natureza Original”. Aí foi onde a confusão tomou conta. O Ser tem que estar muito alerta ali. Ele deve perceber que o poder da imaginação não é Sua Verdadeira Natureza e que ele é sem dualidade. Ele não tem qualidades, Ele é o “Ser Totalmente Livre”.


O fruto final de tudo é apenas reconhecer o Deus Uno. Reconhecer Deus é pensar sobre o que você é. O pensar está apenas no campo da ilusão, desse modo qual é o significado disso? Significa pensar que “eu não sou nada” e o Ser prevalece. Pelo menos isso deveria ser entendido. Conhecer a Verdade é chamado Conhecimento Correto. “Conhecer a Verdade” é Conhecimento. Quando a convicção firme de que “Eu sou Aquilo” (Soham) estiver fixada, saberemos que somos nada. O que quer que exista é apenas Brahman. Agora, por que lutar contra a lógica? O Ser está no seu Lugar Correto. Sem o Ser pode alguém até mesmo dizer seu próprio nome? A criança diz que um certo nome lhe deveria ser dado? Você pode dar qualquer nome para Aquilo que não pode ser descrito? O que tinha de acontecer já aconteceu, surgiu, e então o nome foi dado pela imaginação. O nome foi dado a partir daquilo que a mente escolheu. Foi apenas por convenção social que o nome foi dado ao usar-se uma certa palavra. O nome Wadhi é dado a uma garota que serve comida. Wadhi significa aquela que serve comida. Similarmente, o nome Shende significa último, e esse nome é dado para aquele que é o último. Os nomes estão simplesmente surgindo da imaginação. As vezes eles denotavam adequadamente as qualidades da pessoa e as vezes esses nomes não eram suficientes, portanto, os sobrenomes foram criados. Foram adicionados porque os primeiros nomes não eram adequados.


O Ser está onde está. Não há sentido de corpo para Ele. Os cinco elementos estão em seus lugares. O corpo não está ali. Nós não estamos ali. O corpo é uma forma falsa. Ninguém jamais teve realmente um corpo real. Brahman também não tem um corpo real. Ninguém pode ter um corpo real. Ninguém é real por causa do corpo. Qualquer que seja a forma, o corpo é falso. Tudo, na verdade, é sem forma. Todos deveriam olhar para si mesmos e alcançarem o que é para ser alcançado. Aquele que diz que o corpo é real, é um grande pecador. Ele é como o assassino de um Brahmin (um conhecedor de Brahman). Deus é sem forma. A partir de agora, sem mais conjecturas por favor. O Ser em Si mesmo, já é realizado (um siddha). Que práticas espirituais (sadhanas) mais Ele precisa? Uma vez que a cabeça está completamente raspada, como ela pode ser raspada de novo? Deveria a própria cabeça ser cortada? Como pode aquele que é livre ter aprisionamento? Práticas espirituais têm como seu propósito fazer com que encontremos o nosso Ser. Quando ele já foi encontrado, qual é a utilidade do Sadhana? Se um oleiro tornar-se rei, ele ainda ficará cuidando dos asnos? Por que ele se incomodaria em preparar o barro? Todos os vários tipos de esforços e práticas espirituais são os resultados de nossas próprias aptidões. Quando a pessoa está além delas, por que deveria se preocupar com elas?


Aquele que é um pecador, deveria fazer boas ações; se você pensa que algo de mau foi feito, você deve fazer algumas boas ações. Isso é uma atitude mental. Por que deveria aquele que renunciou, cair novamente nos humores da mente? O que há para ser atingido através de várias práticas? Que fruto é para ser obtido ao observarmos as regras de conduta? Quando a própria pessoa se tornou “Aquilo” que era o objetivo do Sadhana e “Aquilo” é experimentado internamente e embebido profundamente, então você pode continuar devoto do Guru por causa de seu amor por Ele. Entretanto, isso deveria acontecer sem desejo. Você já é “Um com Brahman”. De modo a manter em mente o que o Guru fez por você, você canta em louvor. Nós somos “Aquilo”. O corpo pertence aos cinco elementos. O indivíduo realmente é apenas Brahman. Pense profundamente a respeito apenas de “quem” você é e “onde” você está. Sem pensamento intencional, o que você sente que você é? Quando você pensa, você acaba por ver que você não é nada. O que é, é o Ser. O verbo “é” denota o Ser natural. Se você diz que você é um indivíduo, ou Jiva, você experimenta Jiva. O Ser verdadeiramente é Deus, LaxmiNarayana. Permeando em todos, Narayana é sua natureza, sua Grande Fortuna, ou “Laxmi”, é sua qualidade. Ele é RadhaKrishna. O Ser é Aquilo, qualquer que seja o nome que você o chame. Se você disser ilusão, ele é ilusão.


A “Totalidade do Ser” é “Tudo”, e aquele que é realmente uma pessoa sábia busca descobrir quem ele é. O homem examina tudo mas não pode reconhecer a si mesmo. Aquele que não pode reconhecer a si mesmo não pode ter a Realização. Quando a intenção de dizer “eu sou” é abandonada, então não há “coisa alguma”. O que sobra é Brahman, que realmente é o que você é. Estar convencido disso é muito profundo e é chamado de “A Realização da Espiritualidade”, e a “Ciência da Espiritualidade”. O caso não é que estamos separados do corpo e de Deus. O fruto não está separado, e nós não estamos separados. Somos o fruto. O objetivo é o Absoluto Final, o qual é Um conosco. A pessoa tornou-se o fruto quando esteve tentando obtê-lo. Um homem enquanto se preocupava a respeito de sua pobreza tornou-se Rei, então, por que ele deveria continuar se preocupando com sua pobreza? Nós já somos “Aquilo” que o buscador e o Mestre estavam tão ocupados fazendo Sadhanas para atingir.


É com o objetivo da pessoa encontrar a Si mesma que todos os caminhos são apresentados. Agora, nós somos “Aquilo”. Isso está provado, está Realizado. Agora, não há a questão de fazer ou não fazer algo. Aqueles que estavam com medo das ordens do Rei, tornaram-se Reis. O medo desapareceu junto com a pobreza. Que estudo a respeito dos Vedas os Vedas em si deveriam fazer? Como um local de peregrinação pode ir até si mesmo? Que Deus deveria ser encontrado por Deus? Que “Néctar da Imortalidade” deveria o néctar beber? Que “imensurável” deveria ser adorado pelo imensurável? Que “sem qualidades” deveria ser o objeto de adoração do sem qualidades? Que “Realidade” deveria desfrutar da Realidade? Como pode o “Brahman Imaculado” experimentar a Si mesmo? Como pode o “objeto da meditação” meditar sobre si mesmo? Quando você realiza a Si mesmo, tudo fica além das palavras. O “indescritível” está agora provado.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Bernard de Clairvaux - Felizes os Puros no Coração


“Felizes os puros de coração, pois verão a Deus”(Mat. 5:8). Essa é uma grande promessa, irmãos, e algo para ser desejado com todo o nosso coração. Pois ver dessa maneira é ser como Deus, como João, o Apóstolo diz: “Agora somos todos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que iremos ser. Pois sabemos que por ocasião dessa manifestação seremos como Ele, porque O veremos tal como Ele é.” (I João 3:2). Essa visão é a vida eterna, assim como a própria Verdade diz no Evangelho: “Esta é a vida eterna, que eles devem saber que Tu apenas é o verdadeiro Deus, Aquele que enviou Jesus Cristo.” (João 17:3)

Abominável é a deformidade que nos priva dessa visão abençoada. Detestável é a negligência que nos faz protelar a limpeza do olho. Pois, assim como nossa visão física é impedida tanto por um humor vindo de dentro quanto por poeira entrando no olho vinda de fora, também é a nossa visão espiritual perturbada pelos desejos de nossa própria carne ou pela curiosidade mundana e pela ambição. Nossa própria experiência nos ensina isso, não menos que a Página Sagrada, onde está escrito: “Um corpo corruptível pesa sobre a alma e esta tenda de argila faz o espírito pesar com muitas preocupações (Provérbios 9:15). Mas em ambos os casos é o pecado unicamente que entorpece e confunde a visão; nada mais parece se pôr entre o olho e a luz, entre Deus e o homem, pois, enquanto estivermos neste corpo, estaremos exilados do Senhor.

Isso não é culpa do corpo, exceto pelo fato dele ser mortal ainda; ao invés, é a carne que é um corpo pecaminoso, a carne onde não há boa coisa e onde reina a lei do pecado. Entretanto, assim como o olho físico que teve o cisco retirado ou soprado, mesmo sem a poeira em si, ainda parece obscurecido, da mesma maneira, e com frequência, experimenta aquele que caminha no espírito e vê profundamente. Pois, você não vai curar um membro ferido apenas retirando rapidamente a espada, só irá curá-lo se aplicar unguento para curá-lo. Porque ninguém deve achar que está purificado só porque saiu da fossa. Não. Em vez disso, primeiro é preciso perceber que estamos necessitando de uma lavagem completa. Também não podemos apenas ser lavados com água, precisamos ser purgados e refinados pelo fogo, para que possamos dizer: “passamos pelo fogo e pela água mas trouxeste-nos para um lugar de descanso.” (Sal. 66:12) “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mat. 5:8) “Agora vemos em espelho e de maneira obscurecida, mas, depois, veremos face a face.” (I Cor.13:12). Desse modo nossas faces verdadeiramente ficarão completamente limpas, para que Ele possa apresentar-se brilhante a elas, sem manchas ou rugas.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Rodney Collin - A Teoria da Vida Eterna (Parte 1)

A vida entre o nascimento e a morte *


O homem nasce e o homem morre. Entre esses dois pontos encontra-se uma linha de desenvolvimento que é chamada de vida.



Mas o nascimento não é o começo para um homem. Pois neste ponto o veículo físico que determina o que ele vai ser já está formado. Seus pontos fortes e fracos, suas inclinações inatas e potencialidades já estão estabelecidos. Na realidade, a carreira individual do homem começou muito antes, no momento da concepção, portanto:



Como deveria ser medida essa linha da carreira do homem? Contada em anos, a gestação é apenas a centésima parte dela. Mas a medida em anos é uma escala planetária, criada pelo movimento da Terra e não se refere ao tempo interior do homem. Para medir o seu desenvolvimento orgânico temos de encontrar uma escala completamente diferente. A chave para essa nova escala reside no fato de que o homem é concebido como uma única célula, sob as leis e escala de tempo do mundo das células, mas ele termina como um ser humano, com oitenta anos de memória atrás de si, sob as leis e escala de tempo dos homens.
Isso significa que durante o curso de sua carreira ele percorre todo o caminho do tempo celular para o tempo humano. Ele vive em um deslizamento ou numa escala logarítmica do tempo. Seus processos internos, lançados com velocidade quase inimagináveis no momento da concepção, ficam cada vez mais lentos, como um mecanismo de relógio desacelerando até sua cessação completa na morte. Nesta escala de trabalho realizado, o período de gestação não constitui apenas um centésimo, mas um terço da carreira do homem.
De outro ponto de vista, esse período pode ser tomado como o tempo de formação de um terço da natureza total do homem. Esse terço, a parte mais grosseira de seu organismo psico-físico final, consiste em seu veículo físico original, ou seu corpo orgânico. Após o nascimento o corpo de um homem pode ser mantido saudável ou ficar doente, uma ou outra função pode ser desenvolvida ou ser deixada dormente. Mas nunca pode ser transformado em um corpo diferente desse que já foi criado. Uma criança de cabeça redonda nunca poderá se transformar em um homem de cabeça alongada, nem uma de olhos castanhos num adulto de olhos azuis. Tanto a formação física fundamental quanto as reações que se originam dela já estão completamente determinadas no nascimento.
A formação da segunda parte da natureza do homem, sua personalidade, ocorre durante um segundo período chamado infância. Durante esse tempo o corpo físico, criado antes do nascimento, estabelece relações com o mundo exterior. Ele começa a considerar certos ambientes como naturais, familiares e reconfortantes, enquanto outros como estranhos e proibidos. Isso constitui a sua normalidade. Enquanto que dentro desse quadro determinado, suas próprias tendências físicas inatas estabelecem um gosto pessoal por companheiros, passatempos, estações do ano, lugares e assim por diante. No final da infância vem a capacidade de pensar em conceitos, em seu corolário civilizado, a arte da leitura. E dentre o número infinito de mundos da imaginação tornados disponíveis, o indivíduo vai escolher ou será escolhido para ele um ou dois que depois sempre irão influenciar o cenário de sua mente.
Por volta do final da infância, a personalidade, que é como se fosse o intermediário entre o organismo físico nu e o mundo em que ele existe, já está formada. Este mundo circundante é infinito, mas a personalidade assim criada na infância, como um filtro colorido, garante que o homem adulto veja-o sempre colorido de uma determinada cor, com todos os objetos dessa cor tendo valor muito elevado e os objetos de outras cores com valor diminuído ou completamente eliminados. Essa personalidade forma uma parte definitiva e duradoura do organismo do homem, e após a adolescência ela não é seriamente afetada até a morte. Este princípio é reconhecido por muitas ideologias religiosas e políticas que insistem num controle restrito sobre as crianças novas até à idade de sete ou dez anos, quando sua "doutrinação" é considerada segura. Durante o restante da vida, desde por volta dos sete anos até o fim do limite de tempo do homem, o organismo dual do corpo e da personalidade desenvolve todas as suas possíveis reações para as circunstâncias com as quais ele possa se defrontar. Este período, chamado de maturidade, é na maioria dos casos um resultado automático da exposição do ser já criado a novos problemas, lugares e pessoas e não envolve a criação de algo novo em si.
O significado desses três períodos da existência do homem pode ser explicado pela analogia de uma estátua. No primeiro período, a estátua é esculpida em pedra ou madeira; no segundo ela é pintada, decorada com jóias; no terceiro período a imagem terminada passa de mão em mão, é estimada por um proprietário que a aprecia, fica negligenciada em uma pilha de lixo - ora é limpa, ora suja, ora despojada de suas jóias, ora até mesmo redecorada. No entanto, até o momento da sua destruição final por desregramento, acidente ou decadência, ela continua a ser a mesma estátua que foi entregue ao mundo da oficina do artesão.
Assim é também com um homem comum. Mas nós temos evidências que sugerem que este terceiro período é potencialmente o do desenvolvimento de uma terceira parte, e normalmente uma parte latente da natureza do homem. Podemos chamá-la de alma. Mais tarde veremos porque podemos dizer que o homem comum tem apenas uma alma dormente e porque o despertar da alma pode ser considerado como a tarefa mais difícil a que um homem pode, eventualmente, propor-se. Comparável, na verdade, à transformação da estátua em um ser vivo. Como podemos compreender a escala dessa linha de vida na qual a gestação, a infância e a maturidade são de medida igual? O que esse desaceleramento dos processos vitais significa? Qual é a relação entre o tempo orgânico apresentado nessa escala e o tempo de meses e anos em que a idade humana é geralmente medida?
Imagine um peão que com um impulso normal gira por 75 segundos. No momento do lançamento, esse peão gira num ritmo de muitas dezenas de revoluções por segundo; no último segundo antes de cair imóvel ele pode completar somente uma única volta. A escala de segundos representa a nossa medida comum do tempo do homem por anos; a escala das voltas representa trabalho realizado, pois é cada volta e não cada segundo que representa uma quantidade fixa de energia gasta. Desta forma, é realizado dezenas de vezes mais trabalho no primeiro segundo do que no último. E assim é com os anos da vida do homem.
Vamos colocar uma duração média nos três períodos de vida já descritos. A gestação humana dura 280 dias ou 10 meses lunares; a infância dura cerca de sete anos ou 100 meses lunares, enquanto que o tempo tradicional de vida do homem, entre 70 e 80 anos, é equivalente a 1000 meses lunares.

Tal escala, abrangendo em distâncias iguais 1, 10, 100 e 1000 unidades, é chamada de uma escala logarítmica. Utilizando tal escala consistentemente, podemos obter as divisões mais finas numa base de trabalho orgânico igual:

Desta forma, a existência do homem é dividida em nove partes, cada uma dura um pouco mais do que todo o tempo que se passou antes.
Além disso, cada parte marca o surgimento de uma função de seu organismo. Todas essas funções estão presentes no homem, potencialmente ou em operação, durante toda a sua vida. Mas em cada marco uma função domina seu organismo, controla-o e empresta para a idade correspondente, sua própria cor específica.
Dois meses após a concepção, o embrião não é nada além de um organismo digeridor, uma máquina para transmutar a nutrição recebida na corrente sanguínea da mãe para o tecido celular de uma certa forma. De todas as funções depois familiares ao homem adulto - digestão, movimento, respiração, metabolismo instintivo, pensamento, emoção passional e função criativa ou sexual – apenas a primeira realiza-se plenamente no embrião nesta fase. O ponto 1 nessa escala logarítmica, portanto, pode ser dito como sendo dominado pela função da digestão.

Aos quatro meses e meio desde a concepção, uma nova função começa a se desenvolver. Ela está relacionada com a respiração e o movimento, que na verdade são dois aspectos da mesma coisa – a respiração, que determina o tempo do movimento e vice-versa, têm a mesma relação que há entre o fluxo de ar num forno de locomotiva e o potencial de velocidade do trem. Neste momento o embrião adquire movimento individual ou se mexe, como costumamos dizer, e, posteriormente, o seu sistema pulmonar começa a se desenvolver em prontidão para o início da respiração no instante do nascimento. Assim, no ponto 2, podemos dizer que entra a função do movimento e que no ponto 3 a da respiração.
No primeiro ano de vida o metabolismo físico conectado com o crescimento dos tecidos e com o aumento do volume está no seu máximo vigor. Neste ano, a criança ganha mais peso do que em qualquer outro ano da sua existência. Todas as melhores energias do organismo parecem agora ir para o metabolismo do crescimento físico, que, por falta de uma descrição melhor, podemos chamar de função característica do ponto 4.
No ponto 5, entre dois e meio e três anos, o rápido crescimento do cérebro dá ascendência à função intelectual; a criança adquire o poder da fala e de conceitos abstratos e através do agrupamento intelectual de impressões, culminando na capacidade de raciocinar, gradualmente, forma-se a personalidade. De maneira geral, o ponto 6 marca a conclusão deste processo.
O ponto 7 ou os quinze anos, marca a puberdade, onde a combinação das glândulas supra-renais e sexuais entram em jogo, e juntas estimulam o organismo à emoção passional e sua projeção. Essa projeção deve ser diferenciada de sexo verdadeiro, que é conscientemente criativo em sua natureza, enquanto que aqui está mais ligado aos impulsos violentos, agressivos e passionais, que marcam de maneira peculiar a adolescência, mas que para muitas pessoas permanecem como sua máxima expressão, mesmo na maturidade.
O sexo verdadeiro, no sentido da mais alta função criativa, que resulta na harmonização de todas as outras funções - seja na criação de filhos na imagem física de seus pais, na criação das artes ou na criação do verdadeiro papel do indivíduo na vida - é atingido apenas com o desenvolvimento de emoções mais elevadas no ponto 8, o auge da vida. Mas a plena expressão dessa função é dependente do crescimento de novos poderes e novas capacidades, potenciais no homem, mas só realizáveis com um trabalho e um conhecimento muito especiais. A chave para esses novos poderes reside na possibilidade do homem tornar-se consciente de si mesmo e de seu lugar no universo que o cerca. Pois a partir disso pode surgir - em casos muito afortunados - uma alma completamente formada ou um princípio permanente de consciência.

Comumente, não há nem permanência nem consciência no homem. Cada uma dessas funções fala nele automaticamente, com uma voz diferente, para seus próprios interesses, indiferente aos interesses das outras que formam a totalidade, mesmo que, usando língua e nome do indivíduo.
“Eu preciso ler o jornal!”, diz a função intelectual. “Eu vou caminhar!”, contradiz a função motora. “Estou com fome!", declara a digestão; “Estou com frio!", o metabolismo. E 'Eu não vou frustrar-me!" grita a emoção passional, em defesa de algumas delas.
Tais são os muitos 'eus' do homem. E neles reside a chave para todas as contradições internas e externas que mergulham-no em tal confusão, cancelam suas melhores intenções e mantêm-no ocupado pagando as dívidas que foram de forma imprudente efetuadas por cada um dos seus muitos lados. Cada função de sua essência, assim como cada imaginação de sua personalidade, faz promessas, incorre em obrigações pelas quais o homem como um todo deve aceitar a responsabilidade.
Assim, a primeira condição para uma alma ou um princípio unificador, reside no confinamento gradual de cada função a seu papel apropriado, através da auto-observação e da consciência e da remoção progressiva das contradições entre elas através do reconhecimento comum de todas elas desse objetivo único.
Um resumo das funções que entram em pontos sucessivos da linha da vida do homem vai, portanto, mostrar que apesar de que de um ponto de vista sua vida está se esgotando conforme ele envelhece, por outro ponto de vista novos poderes trabalhando com energias mais sutis e tendo possibilidades sempre maiores, periodicamente revelam-se nele.
Essas funções representam a ação no homem de diferentes níveis de energia, cada qual tendo seu próprio sistema adequado no corpo humano. Exatamente da mesma maneira que as diferentes energias e matérias que circulam em uma casa - água quente e fria, gás, luz elétrica e energia elétrica - são cada uma delas carregadas por seus próprios sistemas de tubos ou cabos. Mas, embora esses sistemas existam no organismo do homem desde seus primeiros dias, a energia ou matéria que opera através deles é liberada somente pela natureza numa certa idade, assim como a água, o gás e a eletricidade que servem a casa podem ser acionados de seus dispositivos apropriados, em datas diferentes e sucessivas.
Desse modo, a característica de todas as funções acima mencionadas e suas energias é que elas trabalham em um corpo orgânico, através de órgãos e tecidos de estrutura celular. Isso é evidente. Pois mesmo que as emoções superiores produzam fenômenos que pareçam ser supra-físicos, nós sabemos que ainda elas são transportadas por um cérebro tangível e um sistema nervoso cuja estrutura podemos examinar. Também não podemos normalmente conceber o seu funcionamento aparte desta máquina física.
No entanto, temos todas as razões para acreditar que o impacto das energias cada vez mais elevadas em fases sucessivas de desenvolvimento não termina no ponto 8, ou no auge da vida. No ponto 9 de uma escala logarítmica, o que equivale a cerca de setenta e cinco ou setenta e seis anos, uma energia ainda mais elevada e mais penetrante é projetada na existência do homem pela natureza.
Mas essa energia difere das outras porque é demasiadamente intensa para ser contida dentro de um corpo de estrutura celular, da mesma maneira que a energia de um raio é intensa demais para ser contida dentro do corpo de uma árvore, que ao ser atingida é imediatamente explodida e destruída. Essa energia cósmica final é de tal natureza que, com o seu impacto o corpo celular do homem é imediatamente cortado de qualquer princípio mais duradouro de vida que possa existir nele, e é deixado para se desintegrar. Este fenômeno surge para ele como a morte.
Negativamente, essa energia suprema destrói o corpo físico ou orgânico do homem. Mas, positivamente, o que ela faz? Podemos dizer que ela conecta a morte com a concepção. Isso significa que ela é de uma tal natureza que funciona fora do nosso tempo. Através dela a soma final ou a assinatura essencial de um indivíduo é transportada de volta para o momento em que os cromossomos do óvulo fertilizado executam a dança em pares pela qual todas as qualidades subsequentes do seu organismo virão a ser determinadas.
Como pode ser isso? O nosso sentido de tempo deriva do desdobramento fisiológico do corpo, assim como a nossa sensação de calor decorre da temperatura do sangue. O corpo celular é o nosso relógio e nosso termômetro. O choque que o destrói liberta-nos simultaneamente da temperatura e do tempo.
Na morte, entramos na atemporalidade ou na eternidade. A partir desse estado de atemporalidade, daquele prazer da eternidade, todos os pontos dentro do tempo estão igualmente acessíveis. Ou melhor, eles estão relacionados, não pelo tempo, mas pela intensidade da energia que os constitui.

Dois pontos no ciclo normal da vida humana são formados da energia mais poderosa e divina que conhecemos. Somente Deus dá a vida e só Deus leva a vida. A morte e a concepção estão conectadas fora do tempo pela intensidade divina da energia envolvida. Assim como um ímã, outro ímã e o Pólo Norte estão conectados fora do tempo por seu magnetismo comum, assim também a morte, a concepção e Deus estão ligados fora do tempo por sua potência comum.
A energia da morte reduz o ser total do homem, o produto de todos os seus dias, a uma essência invisível, como a destilação pode reduzir dezenas de milhares de flores a uma única gota de perfume essencial. E assim como este perfume tem o poder de passar através da fresta de uma porta, de uma forma que seria inconcebível para as flores na sua forma física original, desse modo a essência do homem destilada pela morte parece capaz de passar pelo tempo de uma forma bastante inconcebível do ponto de vista de seu corpo orgânico.
Portanto, a agonia da morte de um homem é idêntica ao êxtase de sua concepção; e o que ele tornou-se no primeiro momento deve controlar o que, inevitavelmente, surge do padrão criado no segundo.
Nossa figura agora assume a forma mostrada abaixo


O que pode ser dito da percepção comum do homem de sua vida em tal esquema? Qual é a natureza de sua consciência e memória do que tenha havido consigo? A consciência comum do homem de sua existência pode ser vista como um ponto fraco de luz ou de calor que viaja inexoravelmente ao redor deste círculo do nascimento à morte, suficiente, quando muito, para lançar seu brilho um ou dois dias para frente ou para trás, mas às vezes deixando em seu rastro uma certa energia residual que sentimos como a memória.
Para esse progresso da consciência e da memória, no estado frágil em que existem no homem comum, no entanto, o ponto de cima do círculo representa uma barreira insuperável. Além deste isolador da morte e da concepção, a consciência do homem comum não pode passar; e a respeito do que está além disso, quer para frente ou para trás, sua memória não lhe diz nada.
No entanto, por ele ser o maior de todos os mistérios, não podemos ignorá-lo. Todos devem chegar mais cedo ou mais tarde a esse ponto, e seria melhor que chegassem a ele com a total faculdade de compreensão de que dispõem na vida focalizada ali, ao invés de chegar de maneira cega e com medo. Pois do medo, nada além de aflição pode-se esperar como resultado.