terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

G. I. Gurdjieff - Transcrição de uma reunião em Paris



Pergunta: Quando vejo minha nulidade, fico completamente desencorajado. Em seguida, ao ver que consegui vê-la, isso me traz a esperança de volta e uma grande satisfação de mim mesmo. Eu deveria permitir isso?


Gurdjieff: Não. Olhe, aprenda sempre a ver mais e mais. Procure no seu passado. Na sua vida toda. Sofra por todas as suas falhas. Diga para si mesmo que você já tem vinte e cinco anos, que já é tarde demais para fazer algo, que o tempo está contado. Mesmo quando se tem um ano de idade já é tarde. Sempre veja mais e mais seus erros e repare.


Pergunta: Vejo-me em meus sonhos tão claramente, com tal força e desgosto que isso me desperta.


Gurdjieff: Se a pessoa dorme bem por uma noite, ela pode então ter um bom estado desperto. Eu passei quinze anos aprendendo a não sonhar. Não devemos sonhar, devemos fazer. Existem dois estados, o sono e o estado de vigília. Quando dormimos, devemos dormir. Tome um banho gelado, esfregue-se vigorosamente, fique dez minutos com os braços esticados paralelos ao chão e você irá dormir. Se a pessoa dormir bem, a pessoa vigia bem. Se ela sonha, tudo é feito pela metade. As associações nunca param até o fim. Isso é a vida. Mas pode-se parar de prestar atenção às associações. Os sonhos ou associações que continuam são aqueles que são mais habituais e portanto que recorrem.


Pergunta: Apenas a minha cabeça participa no exercício. Como posso evitar isso?


Gurdjieff: A cabeça é apenas o diretor. Ela é o policial com o cassetete que mostra o caminho. A pessoa deve sentir e ter a sensação. Trabalhe sobre o sentir, sobre ter a sensação de você mesmo. “Eu-sou”, “eu-sou”. Não apenas a sua cabeça – o homem todo. Repita, repita, repita. Exercite, exercite, milhares e milhares de vezes. Apenas isso trará resultados.




Pergunta: Quando tenho minhas aulas, preciso parar por um momento para coletar-me. Elas parecem para mim vazias, inúteis, vãs. Como posso impedir isso?


Gurdjieff: Você deve fazer com que suas obrigações entrem no seu trabalho (sobre si). Tudo o que você faz deve se tornar parte do seu trabalho. Essa deve ser sua tarefa. Sua aula deve ser parte da sua tarefa. Sua tarefa é ajudar. Você não deve ver as crianças em suas manifestações, mas no futuro delas. Você deve desejar ajudar esse futuro. Você deve colocar-se no lugar delas. Lembre-se como você era na idade delas. Então você fará com que elas vejam de maneira diferente. Quando você pensar “eu sou” ao mesmo tempo deseje ajudar. Você verá então o quanto as crianças irão lhe amar. Você vai então poder falar para elas matarem os pais e as mães e elas irão fazer isso. Não será nada para elas. Eu vi isso lá com os mestres reais (Magi). Esse é o fermento do trabalho, as crianças. É uma oportunidade para você. Você deve tornar-se um bom trabalhador.


Pergunta: Quando me coloco no lugar de alguém, há sempre uma parte de mim que se recusa, que não participa, que se esconde, que está ocupada consigo mesma e que se satisfaz consigo mesma. É algo que escapa e que não consigo capturar. Por outro lado, assim que obtenho um pequeno resultado no meu trabalho, a vaidade toma conta dele - “Fui eu que fiz isso”- e isso estraga tudo.


Gurdjieff: Vou lhe contar um segredo sagrado. Você se lembra do Belzebu* - existem duas correntes, dois rios. Você tem de atravessar de um para o outro; você é como o peixe cujo elemento natural é a água e que é obrigado a viver no ar. Você deve agora aprender a viver em ambas as correntes de uma só vez. Existe a corrente habitual que é a vida ordinária na qual você vive, e então em você deve existir a outra corrente, a segunda corrente, que é a sua vida interior. Até agora você tem tido contato consigo mesmo apenas quando esteve sozinho, quieto, agora você precisa aprender a fazê-lo com os outros. Quando você está com uma pessoa, permaneça em sua própria corrente, na sua corrente interna.


Pergunta: No sistema, parece que as satisfações, os prazeres, são rejeitados? Todos eles são? Entendi corretamente?


Gurdjieff: Todos os prazeres são merda. Todos os prazeres tornam você um escravo. Sua satisfação. Existem duas qualidades de prazer; se você trabalha bem e obtém um resultado, você pode ter satisfação de si mesmo. Essa é uma satisfação boa que coroa o esforço. A outra, dos prazeres mecânicos, destrói você. Você fica perdido nelas. São todas danosas, exceto para darem à pessoa um relaxamento voluntário, necessário para a meta.


Pergunta: Noto em mim mesmo uma secura, uma ausência de emoções. Vivo ou na indiferença ou na hostilidade. O que deve ser feito?


Gurdjieff: Você me interessa. Quero lhe ajudar. Seus pais ainda estão vivos? Nós não os conhecemos, mas talvez eles tivessem almas. Talvez eles tenham sofrido. Eles não podem fazer nada mais onde estão, eles não têm corpos. Você deve fazer algo por eles. Você deve pensar neles. Você deve retratá-los para si mesmo, vê-los novamente, ter o rosto deles diante de seus olhos, você deve pensar em tudo o que você deve a eles. Você é um pedacinho deles, da vida deles. Você deve amá-los, expressar a sua gratidão a eles. Pense no que eles fizeram por você. Você deve ver seus erros para com eles. Persista nisso, reconstrua as cenas quando você os fez sofrer, chore talvez. Reavive os momentos que você foi um mau filho. Você tem de ter remorso de consciência. Remorso. Deve-se sofrer voluntariamente para reparar. Deve-se pagar pelo passado. O passado deve ser reparado. Procure no seu passado. Crie remorso.

Doutor, faça você também esse exercício. Por hora, seus pais são seu Deus. Você não pode conhecer Deus. Ele está muito longe. Não há lugar para Ele em você. Seus pais são Deus, eles são o futuro lugar para Deus em você. Você deve a eles tudo, a vida, todas as coisas. Trabalhe primeiro com ele, depois haverão outros exercícios.


Pergunta: Tenho feito o trabalho que você deu para nós. Realmente eu amo muito meus pais e descobri uma qualidade de emoção muito especial, durante um segundo talvez, uma partícula do amor real, também um grande sofrimento, um sofrimento real por meus pecados em relação a eles. De remorso. As duas emoções estavam lá ao mesmo tempo, um sofrimento muito vívido e uma felicidade trazida pelo sentimento de amor. Foi o remorso que trouxe a felicidade, pois depois que ele desapareceu, a felicidade também desapareceu. Algumas vezes, quando estou atendendo meus pacientes tenho descoberto em mim mesmo, por um segundo, emoções de amor da mesma qualidade. E naquele momento eu pude aliviar os sofrimentos físicos e trazer a eles um sentimento de felicidade. Há uma conexão?


Gurdjieff: O amor real é a base de tudo, a fundação, a Fonte. As religiões perverteram e deformaram o amor. Era através do amor que Jesus fazia milagres. Amor real junto com magnetismo. Todas as vibrações acumuladas criam uma corrente. Essa corrente traz a força do amor. O amor real é uma força cósmica que passa por nós. Se a cristalizarmos, ela se torna um poder – o maior poder no mundo. Mais para frente você estudará magnetismo em livros, não importa quais, isso irá lhe dar material. E com o amor como base, você vai poder curar paralíticos e fazer os cegos verem.


Pergunta: Tenho me surpreendido pela precisão das sensações observadas por um longo período, tão intensas, tão vívidas, com todas as impressões que eu tinha em mim e que voltaram.


Gurdjieff: Isso é normal. Nossos centros registram tudo, desde a hora do nosso nascimento. Se eu lhe colocar num sono hipnótico, você pode me contar o que aconteceu na primeira semana após o seu nascimento. Tudo está escrito, tudo está lá. Um sujeito colocado para dormir por mim, me disse a pulsação da pessoa que estava ao lado dele no momento em que fiz ele reviver. Tudo está escrito, como numa fotografia, mas mil vezes mais sensível. É por isso que você deve ter cuidado com o que é inscrito. Escolha isso. (Belzebu: “Observe a pureza dos seus rolos”)




Pergunta: Este trabalho traz algo para meus pais? Ele toca meus pais, dá algo a eles?


Grudjieff: Você deve fazer isso por você mesmo, para reparar. Ter remorso. Faça com que o seu remorso fique o mais forte possível. É esse remorso que conta; é o sofrimento que importa; sofrimento voluntário que paga pelo passado, que repara os erros.


Pergunta: Descobri a mesma qualidade de emoções das quais nós falamos, mas ela me dá tamanha plenitude interior, uma tamanha sensação de felicidade que eu não sinto mais remorso; eu reluto em ter essa felicidade, pois veio sem ser merecida.


Gurdjieff: Você tem imaginação e fantasia. Sempre disse isso. Você é um representante da arte. Um tolo. Não tem peso. É leve. Filosofia, imaginação. Um estado é um resultado. É isso que dá peso. Esse é o contrapeso da felicidade real que segue passo a passo com isso; ao mesmo tempo para que possa ser genuíno, não se deve ter um sem o outro. Sua natureza tem uma tendência (o resultado da inércia); você se permite ir na direção dessa tendência de ter estados extraordinários sem uma base real, sem peso. Você deve eliminar isso, mandar embora. Assim que um estado de satisfação surgir, faça “tchik”. Esmague-o, elimine-o. Trabalhe sobre remorso, lembre de si, reavive as cenas em que você foi um mau filho, quando você fez seus pais chorarem, talvez. Sinta novamente em todos os detalhes, encontre seus erros novamente. Busque no seu passado. Sofra. Nesse sofrimento você pode obter felicidade real dada pelo amor real.


Existem duas coisas diferentes sob leis diferentes: (1) o corpo orgânico; (2) o corpo psíquico. O corpo orgânico obedece suas leis. Ele apenas deseja satisfazer suas necessidades – comer, dormir, fazer sexo. Ele não conhece nada mais. Ele não quer mais nada. É um verdadeiro animal. Devemos senti-lo como um animal. Devemos senti-lo como um estranho. Devemos subjugá-lo, treiná-lo e fazê-lo obedecer, em vez de obedecê-lo.


O corpo psíquico sabe algo diferente do que o corpo orgânico. Ele tem outras necessidades, outras aspirações, outros desejos. Ele pertence a um mundo diferente, ele é de uma natureza diferente. Há um conflito entre esses dois corpos – um deseja, o outro não. É uma luta que devemos reforçar voluntariamente, através do nosso trabalho, através da nossa vontade. Essa luta que existe naturalmente é o estado específico do homem, o que devemos usar para criar uma terceira coisa, um terceiro estado diferente dos outros dois: o Mestre, e que está unido a algo mais.


A tarefa é, portanto, algo preciso que reforça essa luta, pois através da luta, e apenas através da luta, pode uma nova possibilidade de ser nascer. Por exemplo, meu organismo tem o hábito de fumar. Essa é uma necessidade dele. Eu não quero fumar – eu elimino esse hábito. A necessidade está sempre lá mas eu recuso satisfazê-la. Há uma luta, uma voluntária luta consciente que chama a terceira força. É a terceira força que será o fator - “eu” - que irá conciliar e criar o equilíbrio.


O corpo é um animal. A psique é uma criança. Devemos educar os dois. Pegue o corpo, faça-o entender que ele deve obedecer e não comandar. Ponha cada um em seu lugar. Devemos conhecer a nós mesmos. Devemos ver o que acontece. Assuma uma tarefa que esteja dentro da sua possibilidade, bem pequena para começar. Em relação a comer, por exemplo. Relacionada a um hábito. Cada um conhece a si mesmo e pode encontrar uma tarefa, é uma coisa interior da pessoa. Uma vontade que seja oposta a uma necessidade e crie luta. A única possibilidade de criar um segundo corpo é através do acúmulo de uma substância diferente. A única meta é que tudo deve servir a essa meta.


Pergunta: Eu entendi totalmente durante a semana tudo o que você me falou a semana passada sobre o corpo físico e o corpo psíquico e trabalhei nessa direção; eu lutei. Uma noite estava dormindo, e fui acordado por meu filho – tenho um filho de quatro anos - que tinha sido picado por mosquitos e que estava com dor e começou a chorar e chamar por mim. Ele estava chorando e sofrendo. Eu fui até ele e porque ele estava chorando e sofrendo, antes mesmo que eu tivesse tempo de me ver, eu bati nele. Eu não me permiti ir dormir novamente. Como posso subjugar essa violência em mim mesmo? Vi o que meu corpo é, do que ele é capaz e suas reações após uma semana de trabalho sobre ele.


Gurdjieff: Existem forças ao seu redor, estranhas a você. É possível que quando um homem realmente trabalha, realmente deseja lutar, elas produzam um evento como esse. Elas podem até mesmo criar os mosquitos. De qualquer forma, se foi isso ou se foi o acaso, nada poderia ter sido melhor. Ali você sentiu, você entendeu, não com a sua cabeça apenas. Eu estou muito contente e peço que a partir de agora você tome nota de tudo o que acontece no seu trabalho por uma semana, duas semana, três semanas e você irá falar sobre isso aqui, pois isso vai ser útil para os seus companheiros. E não esqueça que agora seu filho é seu mestre. Agradeça-o. Por mim, ele é meu amigo. Eu responsabilizo você com uma comissão para ele; cinco doces por dia durante um ano.



*Referência ao livro '"Relatos de Belzebu a seu neto”

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Meher Baba - A Remoção dos Sanskaras (parte 1)


O Cessar, o desgaste e o desenrolamento dos Sanskaras

Os seres humanos não têm iluminação de Si mesmos porque sua consciência está apoiada nos Sanskaras, ou nas impressões acumuladas de experiências passadas. Na forma humana a vontade-de-ser-consciente (lahar-o impulso do absoluto de conhecer a si mesmo) com a qual a evolução começou, teve sucesso em criar consciência. Entretanto, a consciência não chega ao conhecimento da Sobre-alma (Paramatma), porque a alma individual (atman) está impelida a usá-la para experimentar os Sanskaras em vez de utilizá-la para experimentar a própria natureza da alma como a Sobre-alma. A experiência dos Sanskaras mantém-na confinada à ilusão de ser um corpo finito tentando se ajustar ao mundo das coisas e das pessoas. As almas individuais são como gotas no oceano. Assim como cada gota no oceano é fundamentalmente idêntica ao oceano, a alma (que é individualizada devido à ilusão, ou bhas) ainda é a Sobre-alma e realmente não se separa da Sobre-alma. Todavia, o invólucro dos Sanskaras, pelo qual a consciência está coberta, impede a gota-alma de ter a iluminação de Si mesma e mantém-na dentro do domínio da dualidade.
Para que a alma conscientemente realize sua identidade com a Sobre-alma, seria necessário que a consciência fosse retida e que os Sanskaras fossem inteiramente removidos.
Os Sanskaras, que contribuem na evolução da consciência, tornam-se impedimentos à sua eficácia em iluminar a natureza da Sobre-alma. Daqui por diante o problema com o qual a vontade-de-ser-consciente é confrontada não é o de evoluir a consciência, mas sim o de liberá-la dos Sanskaras.

A liberação dos Sanskaras acontece das cinco maneiras seguintes:

1. Cessar a criação de novos Sanskaras.
Isso consiste em colocar um fim à atividade sempre renovadora de criar novos Sanskaras. Se a formação dos Sanskaras for comparada ao enrolamento de uma corda em volta de um bastão, este passo atinge a cessação do enrolamento da corda.

2. O desgaste dos velhos Sanskaras.
Se os Sanskaras são impedidos de expressarem a si mesmos em ação e em experiência, eles são gradualmente desgastados. Na analogia da corda, este processo é comparável ao desgaste da corda no lugar em que ela está.

3. O desenrolamento dos Sanskaras passados.
Este processo consiste em anular Sanskaras passados ao reverter mentalmente o processo que leva à sua formação. Continuando nossa analogia, é como desenrolar a corda.

4. A dispersão e exaustão de alguns Sanskaras.
Se a energia mental que estiver encerrada nos Sanskaras for sublimada e desviada para outros canais, eles serão dispersados e exauridos e tenderão a desaparecer.

5. O apagamento dos Sanskaras.
Isso consiste em aniquilar completamente os Sanskaras. Na analogia da corda, é comparável a cortar a corda com uma tesoura. O apagamento final dos Sanskaras pode ser efetuado apenas pela graça de um Mestre Perfeito.

Deve-se notar cuidadosamente que muitos dos métodos concretos para desfazer os Sanskaras mostram-se efetivos em mais de uma maneira e as cinco maneiras mencionadas acima não visam classificar esses métodos em tipos precisamente distintos, mas sim, representam os princípios diferentes de caracterizar os processos espirituais que acontecem enquanto os Sanskaras estão sendo removidos.
Por melhor convir, esta parte irá lidar apenas com aqueles métodos que de forma preeminente ilustram os primeiros três princípios (particularmente, a cessação da criação de novos Sanskaras e o desgaste e o desenrolamento de Sanskaras passados). Os métodos que ilustram predominantemente os dois últimos princípios (a dispersão e a exaustão através da sublimação dos Sanskaras e do apagamento dos Sanskaras) serão explicados nas Partes II e III.

Para a mente ser libertada das amarras dos Sanskaras que estão sempre sendo acumulados, é necessário que haja um fim na criação de novos Sanskaras.
As novas multiplicações de Sanskaras podem ser cessadas através da renúncia. Renúncia pode ser externa ou interna. A renúncia externa, ou física, consiste em abandonar tudo aquilo que a mente é apegada - casa, parentes, casamento, filhos, amigos, riqueza, confortos e prazeres grosseiros. A renúncia interna, ou mental, consiste em abandonar todos os desejos ardentes, particularmente o desejo por objetos sensuais. Embora a renúncia externa em si mesma não seja necessariamente acompanhada pela renúncia interna, ela frequentemente prepara o caminho para a renúncia interna.
A liberdade espiritual consiste na renúncia interna e não na renúncia externa, mas a renúncia externa é uma grande ajuda para alcançar a renúncia interna. A pessoa que renuncia suas posses desconecta-se de tudo que ela possuiu ou possui. Isso significa que as coisas que ela renuncia não são mais uma fonte de novos Sanskaras. Ela então dá um importante passo na direção de emancipar-se de seus Sanskaras ao colocar um fim no processo de formar novos Sanskaras.
Isso não é tudo que é alcançado através da renúncia externa. Com a renúncia de todas as coisas, ela também renuncia suas ligações passadas. Os velhos Sanskaras conectados com suas posses desapegam-se de sua mente e uma vez que são impedidos de expressarem a si mesmos, eles são desgastados. Para a maioria das pessoas, renúncia externa cria uma atmosfera favorável para o desgaste dos Sanskaras.
Um indivíduo que possua riqueza e poder está exposto a uma vida de indulgência e extravagância. Suas circunstâncias são mais favoráveis para as tentações. O homem é principalmente o que ele se torna ao ser talhado, cinzelado e esculpido pelo escultor do ambiente. Se ele pode ou não sobrepujar seu ambiente, depende da sua força de caráter. Se ele é forte, ele permanece livre em seu pensamento e ação, mesmo no meio da ação e reação com seu meio. Se ele é fraco, ele sucumbe a estas influências. Mesmo se ele é forte, ele está sujeito a seus pés serem varridos por uma poderosa onda do modo coletivo de vida e de pensamento. É difícil resistir às investidas de uma corrente de idéias e evitar virar presa das circunstâncias. Se ele resiste às circunstâncias, ele está sujeito a ser levado embora por alguma onda selvagem da paixão coletiva e ser pego pelos moldes de pensamento que ele não consegue renunciar. Embora seja difícil resistir e superar essas influências e arredores, é mais fácil escapar delas. Muitas pessoas viveriam uma vida casta e honesta se não fossem circundadas por luxúrias e tentações. A renúncia de todas as coisas supérfluas ajuda a exaurir os Sanskaras e é, portanto, contribuinte para a vida de liberdade.

As duas formas importantes de renúncia externa que têm valor espiritual especial são a solidão e o jejum. O afastar-se da tempestade e do esforço das múltiplas atividades mundanas e um ocasional retiro em solidão são valiosos para gastar os Sanskaras conectados com o instinto gregário. Mas isso não deve ser visto como um objetivo em si.
Assim como a solidão, jejuar tem igualmente grande valor espiritual. Comer é satisfação; jejuar é negação. Jejuar é físico quando o alimento não é consumido, apesar da ânsia pela apreciação de comer; e é mental quando o alimento é consumido não para seus prazeres e apegos, mas meramente para a sobrevivência do corpo. O jejum externo consiste em evitar o contato direto com o alimento a fim de conseguir o jejum mental.
A comida é uma necessidade direta da vida e sua negação continuada está fadada a ser desastrosa à saúde. Portanto, o jejum externo deve ser periódico e somente por um curto período de tempo. Tem de ser continuado até que haja uma vitória completa sobre o anseio pelo alimento. Trazendo em ação as forças vitais para suportar o anseio pela comida, é possível livrar a mente do apego à comida.
O jejum externo não tem nenhum valor espiritual quando é empreendido com a intenção de assegurar a saúde do corpo ou para a auto-afirmação. Não deveria ser usado como um instrumento para a auto-afirmação. Da mesma maneira, não deve ser levado ao extremo - a auto-mortificação proveniente do jejum prolongado não promove necessariamente a liberdade do anseio pela comida. Ao contrário, é passível de convidar uma reação subsequente a uma vida de extravagante indulgência na comida.
Se, entretanto, o jejum externo for empreendido com moderação e para finalidades espirituais, ele facilita a realização do jejum interno. Quando o jejum externo e interno são sinceros e fiéis, causam o desenrolamento dos Sanskaras conectados com o anseio por comida.

O desenrolamento de muitos outros Sanskaras pode ser provocado através de penitências. Isto consiste em aumentar e expressar o sentimento de remorso que um indivíduo sente após ter percebido que fez algum ato errôneo.
O arrependimento consiste em reavivar mentalmente os erros com severa auto-condenação. É facilitado ao aproveitar-se das diferentes circunstâncias e situações que a penitência incita, ou ao permanecer vulnerável durante períodos de irrupções emocionais, ou por esforços deliberados para recordar os incidentes passados com um coração imbuído de remorso e uma desaprovação aguda. Tal penitência desgasta os Sanskaras que são responsáveis pelas ações.
A auto-condenação acompanhada de um sentimento profundo pode negar os Sanskaras de raiva, avidez e luxúria.
Suponha que uma pessoa tenha cometido um erro irreparável a alguém por meio da avidez, da raiva, ou da luxúria descontroladas. Uma hora ou outra ela estará fadada a ter a reação de um remorso auto-mortificante e experimentar os ferrões da consciência. Se nessa hora ela percebe vividamente o mal pelo qual ela foi responsável, a intensidade de ciência emocional pela qual ela é acompanhada consome as tendências pelas quais ela fica auto-condenada. A auto-condenação algumas vezes expressa-se através de diferentes formas de auto-mortificação. Alguns aspirantes até mesmo fazem feridas em seus corpos quando estão dispostos a cumprir penitência, mas tal expressão drástica de remorso deve ser desencorajada como um uso geral.
Alguns aspirantes Hindus tentam cultivar humildade ao tornar uma regra cair aos pés de todos a quem encontram.
Para aqueles de vontade forte e caráter estável, a penitência pode trazer o efeito desejado pela auto-humilhação, que desenrola e erradica os diferentes Sanskaras conectados com as ações boas e más. Outras pessoas que são fracas na sua força de vontade também derivam benefícios da penitência se estiverem sobre uma direção solidária e amorosa.
Quando a penitência é nutrida cuidadosamente e praticada, ela inevitavelmente resulta na revogação mental das indesejáveis formas de conduta e pensamento, e torna a pessoa sujeita a uma vida de pureza e serviço.
Deve-se, entretanto, notar cuidadosamente que há sempre o perigo na penitência que a mente possa ficar muito tempo voltada para os males feitos e assim desenvolver o hábito mórbido de choramingar e lamentar por coisas insignificantes. Tal extravagância sentimental é frequentemente uma perda indiscriminada de energia e de maneira nenhuma é de ajuda no desgaste e desenrolar dos Sanskaras.
A penitência não deveria ser como o arrependimento diário que acompanha as fraquezas diárias. Não deveria tornar-se um habito tedioso e estéril de imoderada e obscura ponderação sobre suas falhas. A penitência sincera não consiste em perpetuar o pesar por causa dos erros, mas em resolver evitar no futuro aqueles atos que trazem remorso. Se levar à falta de auto-respeito ou de auto-confiança ela não serviu seu propósito, que é meramente tornar impossível a repetição de certos tipos de ação.

O desgaste e desenrolamento dos Sanskaras podem ser também efetuados ao negarmos os desejos e suas expressões e satisfações. As pessoas diferem na sua capacidade e aptidão de rejeitar os desejos. Aquelas nas quais os desejos surgem com grande velocidade impulsiva, ficam inaptas a refreá-los em sua origem, mas podem refrearem-se de buscar a satisfação deles através de ações.
Mesmo se a pessoa não tem controle sobre o surgimento dos desejos, pode preveni-los de serem traduzidos para ação. A rejeição dos desejos ao controlar as ações evita a possibilidade de plantar sementes de futuros desejos. Por outro lado, se uma pessoa traduz seus desejos em ação, ela pode desgastar e desenrolar algumas impressões. Mas ela está criando novas impressões durante o próprio processo de satisfazer os desejos e está assim semeando sementes para desejos futuros, que por sua vez estão fadados a demandar sua própria satisfação.
O processo de desgastar e desenrolar as impressões pela expressão e satisfação em si não contribue para assegurar a liberação dos Sanskaras. Quando os desejos surgem e sua liberação em ação é barrada, existe abundante oportunidade para cogitação espontânea sobre esses desejos. Essa reflexão resulta na exaustão dos Sanskaras correspondentes. Deve ser notado, entretanto, que tal reflexão espontânea não traz os resultados desejados se toma a forma de indulgência mental nos desejos.
Quando há uma tentativa deliberada e dissoluta de receber e abrigar os desejos na mente, tal reflexão não apenas não terá valor espiritual como pode ser responsável por criar Sanskaras sutis. A reflexão não deveria ser acompanhada por nenhuma sanção consciente para os desejos que surjam na consciência, e não deveria haver nenhum esforço para perpetuar a memória desses desejos. Quando os desejos são negados de se expressarem e satisfazerem-se e são permitidos passarem pela intensidade do fogo de uma consciência reflexiva que não os sanciona, as sementes desses desejos são consumidas. A rejeição dos desejos e a inibição da resposta física efetuam, com o tempo, uma negação automática e natural dos Sanskaras.
A rejeição dos desejos é uma preparação para o estado de ausência dos desejos, ou o estado do não querer, que unicamente pode trazer a liberdade real. As vontades são necessariamente um fator limitador, sejam elas satisfeitas e atendidas ou não. Quando são satisfeitas, levam a vontades subsequentes e assim perpetuam a prisão do espírito. Quando as vontades não são satisfeitas, levam ao desapontamento e sofrimento, que - através de seus Sanskaras - acorrenta a liberdade do espírito à sua própria maneira.
Não há fim para as vontades porque os estímulos externos e internos da mente estão constantemente atraindo-a para um estado de ter vontade de algo ou de desgostar (que é uma outra forma de vontade) de algo.
Os estímulos externos são as sensações da visão, audição, olfato, paladar e tato. Os estímulos internos são aqueles que surgem na mente do homem das memórias desta vida presente e da totalidade de Sanskaras agrupados pela consciência durante o período evolucionário e durante as vidas como ser humano.
Quando a mente é treinada a permanecer imóvel e equilibrada na presença de todos os estímulos externos e internos, ela chega ao estado do não-querer. E ao não querer nada (exceto a Realidade absoluta, que está além dos opostos dos estímulos) é possível desenrolar os Sanskaras das vontades. Ter desejos é um estado de equilíbrio perturbado da mente, e o não-querer é um estado de equilíbrio estável.

O equilíbrio do não-querer só pode ser mantido através de um incessante desapego de todos os estímulos, sejam eles prazerosos ou dolorosos, agradáveis ou desagradáveis.
Para poder permanecer imobilizada pelas alegrias e tristezas deste mundo, a mente deve estar completamente desapegada dos estímulos externos e internos. Embora a mente esteja constantemente fortificando-se através de suas próprias reflexões construtivas, há sempre a chance dessas produções de defesa serem apagadas por uma repentina onda inesperada surgindo no oceano do entorno natural e mental. Quando isso acontece você pode, por um tempo, sentir-se completamente perdido, mas a atitude de não-apego pode mantê-lo a salvo. Essa atitude consiste na aplicação do princípio do neti-neti (não-isto, não-aquilo). Ela implica um constante esforço para manter um desapego zeloso em relação às seduções dos opostos da experiência limitada.
Não é possível negar apenas os estímulos desagradáveis e permanecer internamente apegado aos estímulos agradáveis. Para a mente não ser afetada pelas investidas dos opostos, ela não pode continuar apegada às expressões dos estímulos agradáveis e ser influenciada por eles. O equilíbrio consiste em encarar ambas as alternativas com completo desapego.
A idéia “Sim, sim” dos Sanskaras positivos pode somente ser anulada com a defesa negativa “não, não”. Esse elemento negativo está necessariamente presente em todos os aspectos do ascetismo, quando expressado através da renúncia, solidão, jejum, penitência, de impedir a satisfação dos desejos e do não-querer. A mistura feliz de todos esses métodos e atitudes cria uma forma saudável de ascetismo em que não há nenhuma labuta ou esforço. Mas para assegurar tudo isso, o elemento negativo neles deve vir naturalmente sem causar nenhuma perversão ou limitações futuras. Tentar forçar a mente a uma vida de ascetismo não tem utilidade. Todo o ajuste forçoso da vida em linhas ascéticas é provável de atrofiar o crescimento de certas boas qualidades. Quando as qualidades saudáveis da natureza humana são permitidas de desenvolverem-se natural e lentamente, elas abrem o conhecimento de valores relativos e, desse modo, pavimentam o caminho para uma vida espontânea de ascetismo. Enquanto que toda a tentativa de forçar ou acelerar a mente para uma vida ascética é passível de atrair reação.

O processo de ser libertado de alguns apegos é frequentemente acompanhado pelo processo de formar alguns outros novos apegos.
A forma mais grosseira de apego é aquela que é dirigida ao mundo dos objetos; mas quando a mente está sendo desapegada do mundo dos objetos, ela tem uma tendência de chegar em alguns apegos mais finos de um tipo subjetivo. Depois que a mente sucedeu em cultivar um determinado grau de desapego, ela pode facilmente desenvolver aquela forma sutil de egoísmo que se expressa através de uma distância e de um ar superior. O desapego não deve receber permissão de formar nenhum núcleo sob o qual o ego possa se ligar; e ao mesmo tempo, não deve ser uma expressão de sua inabilidade de lidar com as tempestades e o estresse da vida mundana.
As coisas que limitam o Ser puro e infinito deveriam ser abandonadas através de uma atitude de imensa força, que é nascida da pureza e da iluminação, e não de um sentido de desamparo face aos conflitos e esforços. Ademais, o desapego verdadeiro não consiste em apegar-se à mera fórmula do neti neti, que se transforma às vezes numa obsessão da mente sem nenhum sentimento profundo de anseio pela iluminação.
Tal interesse em uma mera fórmula de negação frequentemente existe lado a lado com uma permanência interna nas tentações. O desapego pode ser integral e sincero somente quando se transforma em uma parte inseparável da natureza da pessoa.
A afirmação negativa do “não, não” é a única maneira de desenrolar os Sanskaras positivos reunidos durante a evolução e as vidas na forma humana. Embora este processo destrua os Sanskaras positivos, conduz à formação dos Sanskaras negativos, que de suas próprias maneiras condicionam a mente e criam um novo problema. A afirmação do “não, não” tem de ser suficientemente poderosa para efetuar a erradicação de todos os Sanskaras físicos, sutis e mentais; mas depois que tenha servido seu propósito, tem de finalmente ser abandonada. A finalidade da experiência espiritual não consiste na simples negação. Trazê-la para uma fórmula negativa é limitá-la por meio de um conceito intelectual. A fórmula negativa tem de ser usada pela mente para descondicionar a si mesma e deve ser renunciada antes que o objetivo último da vida possa ser alcançado. O pensamento tem de ser usado a fim de superar as limitações impostas por seu próprio movimento; mas quando isso é feito, ele próprio tem de ser abandonado. Isso se eleva ao processo de ir além da mente e torna-se possível com a não-identificação com a mente ou seus desejos. Olhar objetivamente para o corpo, bem como para todos os pensamentos e impulsos mais baixos, é estabelecer-se num desapego feliz e negar todos os Sanskaras. Isso significa libertar a alma de suas ilusões auto-impostas - como “eu sou o corpo,” “eu sou a mente,” ou “eu sou desejo” - e ganhar terreno na direção do estágio iluminado do “eu sou Deus” (“Anal Haqq,” ou “AhamBrahmasmi").

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Philokalia - Nikitas Stithatos - Sobre o Conhecimento Espiritual (parte 2)

Ainda antes da criação de todas as coisas a partir do nada, o Criador possuía em Si mesmo o conhecimento, os princípios intrínsecos e as essências de tudo aquilo que Ele trouxe à existência, pois Ele é soberano sobre as eras e tem presciência de todas elas. De maneira correspondente, quando à Sua própria imagem Ele moldou o homem como o soberano da criação, Ele dotou-lhe com o conhecimento, os princípios intrínsecos e as essências de todas as coisas criadas. Dessa forma, através de sua criação o homem possui as qualidades secas e frias dos fluídos gástricos vindas da terra, as qualidades quentes e úmidas do sangue vindas do ar e do fogo, as qualidade úmidas e frias da fleuma vindas da água, o poder de crescimento das plantas, o poder de nutrição dos zoófitos, seu aspecto passivo proveniente dos animais, seu aspecto espiritual e místico preveniente dos anjos e, finalmente, para poder existir e viver, sua respiração imaterial – sua alma incorpórea e imortal, entendida como intelecto, consciência e o poder do Espírito Santo – vinda de Deus.

Deus criou-nos à Sua imagem e semelhança (Gen.1,26). Nós somos Sua semelhança se possuímos virtude e compreensão, pois 'Sua virtude cobre os céus e a terra está cheia de Sua compreensão' (Hab. 3,3). A virtude de Deus é Sua justiça, Sua santidade e verdade: como diz Davi: 'Tu és justo, Ó Senhor, e Tua verdade está ao redor de Ti' (Sal. 89,8), e novamente: 'O Senhor é justo e sagrado' (Sal.145,17). Nós também estamos na semelhança de Deus se possuirmos retidão e bondade, pois 'bom e direito é o Senhor' (Sal. 25,8); ou se estivermos conscientes da sabedoria e do conhecimento espiritual, pois esses estão dentro Dele e Ele é chamado de Sabedoria e de Logos; ou se possuirmos santidade e perfeição, uma vez que Ele mesmo disse: 'Deveis ser perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito' (Mat. 5,48), e: 'Deveis tornar-vos santos, pois eu sou santo' (Lev.11,44); ou se formos gentis e humildes no coração, pois está escrito: 'Aprendei de mim, pois sou gentil e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas' (Mat.11,29).

Uma vez que nosso intelecto é uma imagem de Deus, ele é verdadeiro consigo mesmo quando permanece entre as coisas que são propriamente dele mesmo e não divaga de sua própria dignidade e natureza. Sendo que ele ama permanecer dentre as coisas próximas a Deus e busca unir-se a Ele, no Qual ele tem sua origem, por Quem ele é ativado e na direção do Qual ele ascende por meio de suas capacidades naturais, desejando imitá-Lo em Sua compaixão e simplicidade.

Aquele que adere dedicadamente àquelas atividades do intelecto que estão de acordo com sua natureza e afirma a dignidade da inteligência, é mantido imaculado pelas preocupações materiais, está envolvido com a gentileza, a humildade, amor e compaixão e é iluminado pelo Espírito Santo. Sua atenção está focada nas esferas superiores da atividade contemplativa, ele é iniciado nos mistérios ocultos de Deus, através de suas palavras de sabedoria ele amorosamente ensina àqueles que são capazes de aprender a respeito dessas coisas. Dessa forma ele não usa seu talento apenas para seu próprio benefício, mas também compartilha sua bênção com seus companheiros.

Exalte o Um sobre a dualidade – o singular sobre o dual – e liberte a nobreza dele de todo o comércio com o dualismo e você irá imaterialmente consorciar-se com espíritos imateriais, pois você próprio terá se tornado um espírito místico, mesmo que pareça viver fisicamente entre os outros homens.

Uma vez que você houver trazido a limitação da dualidade para a subordinação da dignidade e natureza do Um, você terá subordinado toda a criação a Deus, pois terá trazido para a unidade o que estava dividido e terá reconciliado todas as coisas.

Enquanto a natureza dos poderes dentro de nós está num estado de discórdia interior e dispersa entre muitas coisas contrárias, nós não participamos dos dons supranaturais de Deus. E se nós não participarmos nesses dons, também estaremos longe da eucaristia mística do santuário celeste, celebrada pelo intelecto através de sua atividade espiritual. Quando através de assíduos labores ascéticos tivermos expurgado a nós mesmos da crueldade do mal e tivermos reconciliado nossa discórdia interior através do poder do Espírito, desse modo participaremos das inefáveis bênçãos de Deus e dignamente concelebraremos os mistérios divinos da eucaristia mística do intelecto cm Deus, o Logos e Seu santuário espiritual e supra-celestial, pois tornamo-nos iniciados e eclesiásticos de Seus mistérios imortais.

Nosso ser caído deseja de uma maneira que opõe nosso ser espiritual e nosso ser espiritual deseja de uma maneira que opõe nosso ser caído; e nessa batalha implacável entre os dois cada um almeja pela vitória e pelo controle sobre o outro. Essa contrariedade dentro de nós também é chamada de 'discórdia', 'ponto de inflexão', 'equilíbrio' e 'luta dupla'; e se o intelecto pende a balança para um ato da paixão humana a alma é dividida.

Enquanto formos assolados pela perturbação dos nossos pensamentos e enquanto formos governados e aprisionados por nosso ser caído, seremos auto-fragmentados e cortados da Mónada* divina, uma vez que não tornamos nossa as riquezas de sua unidade. Mas quando nossa mortalidade for engolida pelo poder unificador da Mónada e adquirirmos um desapego supranatural, quando o intelecto tornar-se mestre de si mesmo, iluminado por suas intelecções engendradoras de sabedoria, então a alma, num abraço sagrado com o Um, será libertada da discórdia tornando-se uma unidade: envolvida na Mónada divina, ela é unificada numa simplicidade sublime. Assim é a natureza da restauração da alma a seu estado original e assim é nossa renovação num estado ainda mais exaltado.

Simples e unificada, a presença da luz divina reúne dentro de si mesma as almas que participam dela convertendo-as em si mesma, unindo-as com sua própria unidade e aperfeiçoando-as com sua própria perfeição. Leva-as a descobrir as profundezas de Deus, de modo que elas contemplem os grandes mistérios e tornem-se iniciadas e guias dos mistérios religiosos. Aspire, portanto, ficar completamente purificado através de labor ascético e você verá esses mistérios estimados por Deus – dos quais eu falei- de fato operando dentro de você.

Os raios da Luz Primordial que iluminam as almas purificadas com o conhecimento espiritual não apenas preenchem-nas de bênção e luminosidade, eles também, por meio da contemplação das essências internas das coisas criadas, conduzem-nas para os céus místicos. Os efeitos da energia divina, entretanto, não páram aqui; eles continuam através da sabedoria e através do conhecimento das coisas indescritíveis até que unam as almas purificadas com o Um, tirando-as do estado de multiplicidade para o estado de unidade Nele.

*União perfeita do espírito e da matéria constitutiva de Deus

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Kabir - Cinco Poemas


O Todo Secreto está dentro de nós;

os planetas em todas as galáxias

passam pelas mãos dele como pérolas.

Esse é um colar de pérolas que deveríamos olhar

com olhos luminosos.

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O que sai da harpa? Música!

E há uma dança onde nenhum pé ou mão dançam.

Nenhum dedo a toca, nenhum ouvido a escuta,

pois o Todo Sagrado é o ouvido

e quem está escutando também.


As grandes portas permanecem fechadas, mas a fragrância

da primavera vem para dentro mesmo assim,

e ninguém vê o que acontece lá.

Homens e mulheres que entraram por ambas

as portas de uma só vez entenderão este poema.
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Estive pensando a respeito da diferença entre a água

e as ondas nela. Ao se erguer,

a água continua sendo água, ao arrebentar,

ela é água, você vai me dar uma dica


de como distingui-las?


Porque alguém criou a palavra

“onda”, tenho de distingui-la

da água?

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Não saia de casa para ver flores.

Meu amigo, não se preocupe com aquela excursão.

Dentro do seu corpo existem flores.

Uma flor tem mil pétalas.

Ela irá prover um lugar para sentar.

Sentando ali você terá um lampejo da beleza

dentro do corpo e fora dele,

diante de jardins e depois deles.

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Respire naquela palavra da qual toda a Via-Láctea surgiu!

Aquela palavra é o seu Professor; eu escuto aquele som e sou

seu discípulo.

Quantos que absorveram o seu significado estão vivos?

Escute, estudante, segure-se a essa

palavra! Faça isso!

Todos os textos antigos e poemas sagrados falam sobre ela.

O mundo tem suas raízes profundas nessa palavra.

Os Rishas e os devotos balbuciam sobre ela,

mas ninguém compreende o quão misteriosa a palavra é!

O Pai levanta-se da ceia e sai para a rua quando a escuta.

O asceta retorna ao amor quando a escuta.

Os Seis Grandes Sistemas mantêm-na completamente fixa.

O animal da renunciação dirige-se a essa palavra.

O mundo com todos os seus elefantes e micróbios brotou dessa palavra.

Dentro da palavra tudo é cheio de luz.


Kabir diz: Verdade. Mas quem sabe de onde a palavra

surgiu em primeiro lugar?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ramesh S. Balsekar - A Consciência é tudo o que existe


Ramesh: No que diz respeito ao “Eu Sou”, não faz diferença se há a manifestação ou não. A manifestação veio do Eu Sou. O funcionamento da manifestação está no Eu Sou. É como o reflexo num espelho. Então o que você aceita, é que o que quer que aconteça é meramente um reflexo no Eu Sou. Toda a manifestação é um reflexo na Fonte – de outro modo, haveriam dois.

Peter: Portanto, não pode ser um reflexo da fonte, é um reflexo na Fonte?

Ramesh: Apenas pode ser na Fonte. Tudo isto é um reflexo na Fonte porque a Fonte é tudo que existe. Portanto, para qualquer coisa que aconteça, você escolhe um conceito. Você não pode ficar sem conceitos, senão você teria de ficar em silêncio. E se a questão “Quem sou eu?” surge, de todos esse é o primeiro pensamento que precisa de uma resposta. A resposta é um conceito, um conceito sendo algo que aponta para a Verdade. O valor ou a utilidade de um conceito está apenas no quanto ele aponta para a Verdade. Você vê? E esse conceito – que a totalidade da manifestação e o funcionamento desta manifestação é um reflexo na Fonte – é um apontador para a Verdade, a qual é a Fonte.


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“Assim como a superfície de um espelho existe dentro e fora da imagem refletida no espelho, também o Ser supremo existe tanto dentro quanto fora do corpo físico.” (Ashtavakra)


Ramesh: Nesse verso importante, Ashtavakra aponta que o que nós somos como sujeitos definidamente não é uma coisa ou um objeto, que o pronome pessoal inevitavelmente sugere, mas mais um processo ou um pano de fundo, como a tela na qual um filme é visto. Na ausência de um pano de fundo não poderia haver nenhuma aparência de modo algum, embora no caso da manifestação fenomenal, o próprio “pano de fundo” - a Consciência – constitui a aparência e é responsável por ela. O ponto é que a menos que haja um total “afastamento” para a impessoalidade, a consideração “quem ou o que sou eu?” pode significar de fato uma transferência simples demais - do objeto para o sujeito (da fenomenalidade para a não-fenomelalidade / do manifesto para o não-manifesto). Isso não teria força suficiente para quebrar o condicionamento trazido pela noção de identidade que conduz à suposta limitação. É apenas um afastamento direto para a impessoalidade que é mais provável de trazer a alarmante transformação conhecida como metanoesis, onde há uma convicção repentina e imediata de que a identificação com uma entidade individual separada, na verdade, nunca existiu realmente e era essencialmente nada além de uma ilusão.


Talvez seja por essa razão que Ashtavakra sugere a analogia do espelho para a Consciência, a qual reflete tudo, não retém nada e em Si mesma não tem existência perceptível. Isto é, a Consciência é o pano de fundo do que parecemos ser como objetos (fenômenos), e ainda assim ela não é algo objetivo (um objeto). Da mesma forma que um reflexo no espelho é uma mera aparência sem nenhuma existência e o espelho é o que tem existência mas não é afetado de maneira nenhuma pelo que está refletido, assim também o aparato psicossomático (o organismo corpo-mente), sendo apenas uma aparência na Consciência, não tem existência independente. A Consciência na qual ele aparece não é afetada de forma alguma pela aparência dos objetos nela.



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Ramesh: A Fonte, que criou esta manifestação dentro de Si como um reflexo, está fazendo esta manifestação funcionar. Portanto, a manifestação e seu funcionamento, aos quais chamamos vida – são tudo um reflexo na Fonte.

Primeiro há a Fonte. A Fonte cria um reflexo. O reflexo é o Eu Sou. Agora, Ramana Maharshi diz que a Fonte é o “Eu-Eu”. Ele A nomeia de “Eu-Eu” meramente para distingui-la do Eu Sou. O “Eu-Eu” é a Energia latente (potencial). A Energia Potencial torna-se ativa na forma de manifestação como o Eu Sou, e torna-se ciente da manifestação. O Eu Sou é a Consciência (awareness) impessoal da manifestação e do seu funcionamento. Então, para o funcionamento da manifestação acontecer, a Fonte – ou Deus, ou o Eu Sou – cria estes organismos corpo-mente e por conseguinte “eu's” individuais, ao identificar a Si mesma com esses organismos corpo-mente. Portanto, a Energia Universal, a Energia Potencial, torna-se ativa nesta manifestação. O “Eu-Eu” ao sair do estado latente, torna-se o Eu Sou, e o Eu Sou torna-se o eu sou Markus. Por que o Eu Sou torna-se Markus? Porque sem o Markus e os outros bilhões de nomes, a vida como conhecemos não aconteceria.


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Então, a manifestação é real? Ela é real e irreal. A questão – a manifestação é real ou não? Está errada. A manifestação é tanto real quanto irreal: real na medida em que ela pode ser observada, irreal com base em que ela não tem existência independente própria dela mesma sem a Consciência. Desse modo, a única coisa que tem existência independente dela própria é a Realidade e essa Realidade é a Consciência. A Consciência é a única Realidade. Todo o resto é um reflexo dessa Realidade dentro de Si mesma.



Lance: Estou tendo problemas em entender o “Eu-Eu” e o Eu Sou.

Ramesh: Não existe problemas pois eles não são dois. Eles não são dois. A Consciência-em-repouso é o Eu-Eu. Quando ela está em movimento ela é o Eu Sou. Portanto, o Eu-Eu é um conceito que realmente não lhe interessa. É apenas um conceito. O que realmente lhe interessa é o Eu Sou.

Lance:O Eu sou é a totalidade da manifestação.

Ramesh: Correto.

Lance: Então quando estamos no estado de sono o que ele vira?

Ramesh: Eu Sou, pois há um corpo ali e ele está na fenomenalidade.

Lance: Portanto, quando não existe a manifestação há somente o Eu-Eu.

Ramesh: Sim.

Lance: Num livro sobre Ramana Maharshi é dito que quando investigamos a fundo 'Quem sou eu?”, encontramos o nada.

Ramesh: Está vendo, Ramana Maharshi, portanto, não distingue realmente entre o “Eu-Eu” e o “Eu sou” porque é inútil. O Eu-Eu é meramente um conceito a respeito do qual ele falou, por que se preocupar? O que interessa a você é o Eu Sou e o eu sou Lance. E quando o Lance não está aí, o Eu Sou está.

Lance: O que é o estado de sonhos então?

Ramesh: O estado de sono com sonhos é a Consciência-em-ação identificada. O que é o sonho da vida, então? O sonho da vida é o sonho do Eu Sou. O Lance tem um sonho pessoal e o Eu Sou tem o sonho vivo. Desse modo, o que acontece na verdade é que você acorda do seu sonho pessoal para o sonho vivo.

Lance: No sono profundo existe o Eu-Eu?

Ramesh: O Eu Sou! O Eu-Eu realmente não lhe interessa.

Lance: Mas agora sinto necessidade de saber.
Ramesh: Então de onde vem o Eu Sou? Essa é uma questão conceitual. E para essa pergunta conceitual a resposta conceitual é que o Eu Sou é a Energia impessoal tornada ativa na forma de manifestação e o Eu-Eu é a Energia Potencial (latente). O “eu” pessoal que o Lance pensa que é ele, é a Energia impessoal identificando-se como um ego que pensa que ele é o fazedor e que precisa saber. Quando verdadeiramente não há mais questões, então não há fazedor. Onde não há fazedor não há ego. E onde não há ego, aí o Eu Sou brilha a partir de um organismo corpo-mente sem identificação pessoal. Quando o organismo corpo-mente morre, o Eu Sou continua como Eu Sou. E quando a totalidade da manifestação chega a um fim, aí o Eu Sou é Eu-Eu, a Consciência-em-repouso. E tudo isso é um conceito.


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Peter: Você disse que o “eu” no Eu Sou não é o Ego. Mas o que é ele? Eu não entendi quando você disse o Eu-Eu.

Ramesh: Você vê, a Consciência não ciente de Si mesma, a Energia Potencial, é um conceito. Não cometa enganos! Eu-Eu, Eu Sou, eu sou Peter – a coisa toda é um conceito com o intuito de compreender a sua natureza real. Assim o Eu-Eu é a Energia Potencial antes da manifestação.

Peter: A manifestação de mim?

Ramesh: Não. A totalidade da manifestação.

Peter: Portanto, esse Eu é totalmente não individual?

Ramesh: Isso. Bem, na verdade, seja Eu-Eu, Eu Sou – eles não são dois. O Eu-Eu torna-se Eu Sou na manifestação. O Eu-Eu torna-se ciente de Si mesmo na forma de Eu sou. Mas é a mesma Consciência una.

Peter: É um nome para a Consciência? Um rótulo para a Consciência?

Ramesh: Isso mesmo. Um conceito. É por isso que falo sempre que o Eu Sou torna-se um conceito quando você fala sobre ele. Essa pura Ciência (awareness) da Existência é a Verdade, mas a partir do momento que eu falo a respeito dela, Ela se torna um conceito.

Peter: Qual é a relação entre a Consciência e a palavra “Eu”?

Ramesh: Esse é apenas um nome dado para a Consciência.

Peter: Sim, é o que você acabou de chamar de rótulo.

Ramesh: Sim. Você vê, até “Consciência” é um rótulo. “Deus” é um rótulo.

Peter: É confuso usar o “eu” que usamos para nossa individualidade nesse contexto.

Ramesh: Portanto, eu digo Eu-Eu, Eu Sou e eu sou Peter.

Peter: São três “eus” diferentes.

Ramesh: Ou é a mesma Consciência, mas a relevância é para um ponto diferente.

Peter: O último indica o ego.

Ramesh: O último indica o ego.

Peter: O do meio, Eu Sou ...

Ramesh: A Consciência impessoal.

Peter: E o Eu-Eu ...

Ramesh: É a Consciência impessoal antes ...

Peter: Da potencialização, da manifestação.

Ramesh: Sim, correto. De novo, são palavras para explicar a mesma coisa.

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Pergunta: Num certo momento perguntaram para Nisargadatta Maharaj: “Existe algo que seja real nesse jogo?” Ele disse algo parecido com, “A ação do amor.” Foi tudo o que ele disse, eu acho.

Ramesh: A ação do amor? De qualquer forma, o que quer que ele tenha dito, eu lhe digo o que ele estava querendo dizer. (risos)

A questão é: “O que é real?” O que é real é a conexão inseparável entre o real real e o falso real. Tem de haver uma conexão senão seriam dois. Então, o que os mantém juntos, unidos? É o amor. Chame isso de compaixão, de como você quiser, o melhor é não chamá-lo de nada. Isso é o que ele quis dizer.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Lao Tzu - Tao Te Ching


Meus ensinamentos são fáceis de entender

e fáceis de colocar em prática.

Ainda assim, seu intelecto jamais conseguirá capturá-los

e se você tentar praticá-los, irá falhar.


Meus ensinamentos são mais antigos que o mundo.

Como pode você compreender seu significado?


Se quiser me conhecer,

olhe dentro de seu coração.


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Não saber é o conhecimento verdadeiro

Presumir saber é uma doença.

Primeiro perceba que você está doente,

depois poderá sair em busca da cura.


O mestre é seu próprio médico

Ele curou-se de todo saber.

Portanto, ele é verdadeiramente completo.

Jalaluddin Rumi - O Artesão e o Vazio


Eu disse antes que todo artesão

procura pelo que não está ali

para praticar seu artesanato.


Um empreiteiro procura por um buraco apodrecido

onde o telhado cedeu. Um carregador de água

pega o pote vazio. O carpinteiro

pára na casa sem porta.


Os trabalhadores correm na direção de alguma indicação

de vazio, o qual eles então começam

a preencher. O que eles esperam, entretanto,

é pelo vazio, então não pense

que você deve evitá-lo. Ele contém

o que você necessita!


Querida alma, se você não fosse amiga

daquele vasto nada interior,

por que você estaria sempre jogando sua rede

nele e esperando tão pacientemente?


Esse oceano invisível tem lhe dado tão grande abundância

mas você ainda chama de “morte”

isso que lhe provê sustento e trabalho.


Deus permitiu que uma inversão mágica ocorresse,

de modo que você visse a fenda do escorpião

como um objeto de desejo

e toda a vastidão em volta dela

como perigosa e infestada de serpentes.


E assim é o quão estranho o seu medo da morte

e do vazio é, e quão perverso o apego pelo que você quer.


Agora que você me escutou falar

a respeito de seus equívocos, querido amigo,

ouça a história de Attar sobre o mesmo assunto.


Ele encordoou pérolas a esse respeito

contanto sobre o rei Mahmud, que dentre os despojos

de sua campanha militar na Índia houve um garoto hindu,

que ele adotou como um filho. Ele educou

e proveu ao garoto todo o digno de um rei

e mais tarde tornou-o vice-regente, sentado

num trono de ouro ao seu lado.


Um dia ele encontrou o jovem homem chorando.

“Por que estás chorando? És o companheiro

de um imperador! A nação inteira está enfileirada

diante de ti como estrelas que podes comandar!”


O jovem respondeu, “Estou lembrando

da minha mãe e do meu pai e de como eles

me assustavam quando criança com ameaças a seu respeito!

'Xi, ele está indo para a corte do rei Mahmud!

Nada poderia ser mais infernal!' Onde estão eles agora

quando deveriam ver-me sentado aqui?”


Esse incidente fala sobre o seu medo de mudar.

Você é o garoto hindu. Mahmud, que significa,

Louvor ao Fim, é a pobreza ou o vazio

do espírito.


A mãe e o pai são o seu apego

às crenças e laços de sangue

e desejos e hábitos de conforto.


Não dê ouvidos a eles!

Eles parecem proteger,

mas na verdade, aprisionam.


Algum dia você vai chorar lágrimas de deleite naquela côrte,

lembrando dos seus equivocados pais!


Saiba que seu corpo nutre o espírito,

ajuda-o a crescer e depois dá conselhos errados a ele.


O corpo torna-se, eventualmente, uma armadura

em anos de paz,

quente demais no verão e fria demais no inverno.


Mas os desejos do corpo, de outra maneira, são como

um sócio imprevisível, com o qual você deve ser

paciente. E esse acompanhante é útil,

pois a paciência expande a sua capacidade

de amar e de sentir paz.


A paciência da uma rosa perto de um espinho

mantém-na cheirosa. É a paciência que dá leite

ao camelo amamentando-o ainda no seu terceiro ano,

e a paciência é o que os profetas nos mostram.


A beleza de cuidadosamente costurar uma camisa

está na paciência contida nisso.


A amizade e a lealdade têm a paciência como

a força de suas conexões.


Sentir-se só e desprezível indica

que você não foi paciente.


Fique com aqueles que se misturam com Deus

como o leite mistura-se com o mel, e diga,


“Qualquer coisa que vem e vai,

que nasce e se põe,

não é o que eu amo.”


Viva naquele que criou os profetas,

senão você ficará como uma caravana em chamas

deixada flamejando sozinha na beira da estrada.

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Quando você está com todo mundo menos comigo,

você não está com ninguém.

Quando não está com ninguém além de mim,

você está com todo mundo.

Em vez de ficar tão atado com todo mundo,

seja todo mundo.

Quando se torna tudo isso, você é o nada.

O Vazio.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Bhagavan Ramana Maharshi - A Natureza de Deus

Pergunta: Deus é descrito como manifesto e não-manifesto. No primeiro caso Ele é dito incluir o mundo como parte de Seu Ser. Se for assim, nós como parte deste mundo, deveríamos facilmente tê-Lo conhecido na forma manifesta.

Bhagavan: Conheça a si mesmo antes de procurar decidir sobre a natureza de Deus e do mundo.

Pergunta: Conhecer a mim mesmo implica em conhecer a Deus?

Bhagavan: Sim, Deus está dentro de você.

Pergunta: Então, o que se coloca no meu caminho de conhecer a mim mesmo ou conhecer Deus?

Bhagavan: Sua mente errante e seus modos pervertidos.

Pergunta: Deus é pessoal?

Bhagavan: Sim, ele é sempre a primeira pessoa, o Eu, permanecendo sempre diante de você. Por você dar precedência às coisas mundanas, Deus parece ter recedido para o pano de fundo. Se você abandonar tudo e buscar apenas Ele, e somente Ele, Ele irá permanecer como o 'Eu', o Ser.

Pergunta: Deus está separado do Ser?

Bhagavan: O Ser é Deus, o “eu sou” é Deus. Essas perguntas surgem porque você está se segurando ao ser-ego. Elas não surgirão se você se segurar no verdadeiro Ser. Pois o Ser real não irá perguntar e nem pode perguntar o que é absurdo. Somente Deus, que parece ser não-existente, verdadeiramente existe, enquanto que o indivíduo, que parece estar existindo, é sempre não-existente. Os sábios dizem que apenas o estado no qual a pessoa conhece sua própria não-existência (sunya) é o glorioso conhecimento supremo.

Agora você pensa que você é um indivíduo, que existe o universo e que Deus está além do cosmos. Portanto, há a idéia do sentido de separação. Essa idéia deve ir. Pois Deus não está separado de você ou do cosmos. O Gita também diz:

"O Ser sou Eu, ó Deus do sono,

Alojado no coração de cada criatura.

Sou o alvorecer e o meio-dia de toda forma,

Também sou seu destino final."

(Bhagavad Gita, X – 20)

Portanto, Deus não apenas está no coração de todos, ele é o suporte de todos, a fonte de todos, a morada e o fim de todos. Tudo procedeu Dele, tem sua estada Nele, e finalmente se resolve Nele. Portanto, Ele não está separado.

Pergunta: Como devemos entender esta passagem do Gita: 'Todo este Cosmos forma uma partícula de mim”?

Bhagavan: Isso não significa que uma pequena partícula de Deus se separa Dele e forma o universo. Seu poder (Shakti) está agindo. Como resultado de uma fase dessa atividade o cosmos tornou-se manifesto. Similarmente, a afirmação no Purusha Sukta, 'Todos os seres formam um pé Dele', não significa que Brahman está dividido em várias partes.

Pergunta: Entendo, Brahman certamente não é divisível.

Bhagavan: Portanto, o fato é que Brahman é tudo e permanece indivisível. Está sempre realizado mas o homem não está ciente disso. Ele deve chegar a saber disso. Conhecimento significa vencer os obstáculos que obstruem a revelação da eterna verdade que - o Ser é o mesmo que Brahman. Os obstáculos tomados juntos formam a sua idéia de separatividade como um indivíduo.

Pergunta: Deus é o mesmo que o Ser?

Bhagavan: O Ser é conhecido por todo mundo, mas não claramente. Você sempre existe. A existência é o Ser. O “eu sou” é o nome de Deus. De todas as definições de Deus , nenhuma, de fato, é tão bem colocada quanto a afirmação Bíblica “Eu sou aquele Eu sou” no Êxodo 3. Existem outras afirmações, como no Brahmaivaham (Brahman sou Eu), Aham Brahmasmi (Eu sou Brahman) e Soham (Eu sou Ele). Mas nenhuma é tão direta como o nome de Jeová que significa “eu sou”. O Ser absoluto é o que é. Ele é o Ser. É Deus. Ao conhecer o Ser, Deus é conhecido. De fato, Deus não é nada além do que o Ser.

Pergunta: Deus é conhecido por muitos nomes diferentes. Algum deles é justificado?

Bhagavan: Dentre os milhares de nomes de Deus, nenhum nome se adequa a Deus - o qual reside no Coração, desprovido de pensamento - tão verdadeira e lindamente quanto o nome “Eu” ou “eu sou”. De todos os nomes conhecidos de Deus, o nome de Deus “eu” - “eu” apenas ressoará triunfante quando o ego for destruído, emergindo como a suprema palavra silenciosa (mouna-para-vak) no espaço do Coração daqueles cuja atenção está direcionada para a tutela do Ser. Mesmo se a pessoa meditar incessantemente no nome “eu-eu” com sua atenção no sentimento “eu”, isso levará a pessoa e a submergirá na fonte da qual o pensamento surge, destruindo o ego, o embrião, que está unido ao corpo.

Pergunta: Qual é a relação entre Deus e o mundo? Ele é o criador ou o sustentador dele?

Bhagavan: Os seres sencientes ou não-sencientes de todos os tipos estão realizando ações apenas pela mera presença do sol, que nasce no céu sem nenhuma volição. Similarmente, todas as ações são feitas pelo Senhor sem nenhuma volição ou desejo da parte Dele. Na mera presença do sol, as magníficas lentes emitem fogo, a flor de lótus desabrocha, a flor-de-lis se fecha e todas as incontáveis criaturas realizam ações e descansam.

A ordem da grande multidão de mundos é mantida pela mera presença de Deus da mesma maneira que a agulha se move diante de um imã, e a selenite emite água, a flor-de-lis desabrocha e o lótus se fecha diante da lua.

Na mera presença de Deus, que não tem a mínima volição, os seres vivos, que estão engajados em inúmeras atividades, após embarcarem em muitos caminhos para os quais são atraídos de acordo com o curso determinado por seus próprios karmas, finalmente realizam a futilidade da ação, voltam-se para o Ser e atingem a liberação.

As ações dos seres vivos não chegam ou afetam a Deus, o qual transcende a mente, da mesma maneira que as atividades do mundo não afetam o sol e as qualidades dos quatro elementos conspícuos (terra, água, fogo e ar) não afetam o espaço sem limites.

Pergunta: Por que samsara (a criação e a manifestação como finitas) é tão cheio de mal e tristeza?

Bhagavan: É a vontade de Deus!

Pergunta: Por que Deus quer que seja assim?

Bhagavan: Isso é incompreensível. Nenhum motivo pode ser atribuído àquele poder - nenhum desejo, nenhum fim a ser atingido pode ser afirmado a respeito daquele um infinito, todo-poderoso, todo-sábio Ser. Deus é intocado pelas atividades que ocorrem em Sua presença. Compare o sol e as atividades do mundo. Não há nenhum sentido em atribuir responsabilidade e motivo ao um antes que ele se torne muitos.

Pergunta: Tudo acontece através da vontade de Deus?

Bhagavan: Não é possível ninguém fazer alguma coisa oposta ao que Deus determine, Ele que tem a habilidade de fazer todas as coisas. Portanto, ficar em silêncio aos pés de Deus, tendo abandonado todas as ansiedades da mente perversa, imperfeita e enganadora, é o melhor.

Pergunta: Existe um ser separado, Iswara (Deus pessoal), que é o recompensador das virtudes e o punidor dos pecados? Existe um Deus? Como ele é?

Bhagavan: Sim, existe. Iswara tem individualidade num corpo e mente que são perecíveis, mas ao mesmo tempo, internamente ele tem a consciência transcendental e a liberação.

Iswara, o Deus pessoal, o criador supremo do universo, realmente existe. Mas isso é verdade apenas do ponto de vista relativo daqueles que não realizaram a Verdade, aquelas pessoas que acreditam na realidade das almas individuais. De um ponto de vista absoluto, o sábio não pode aceitar nenhuma outra existência além do Ser impessoal, uno e sem forma.

Iswara tem um corpo físico, uma forma e um nome, mas não tão grosseiro quanto esse corpo material. Ele pode ser visto em visões na forma criada pelo devoto. As formas e os nomes de Deus são muitos e variados, e diferem em cada religião. Sua essência é a mesma que a nossa, o Ser real sendo apenas um e sem forma. Portanto, as formas que ele assume são apenas criações e aparências.

Iswara é imanente em cada pessoa e cada objeto do universo. A totalidade de todas as coisas e todos os seres constitui Deus. Há uma força da qual uma pequena fração tornou-se todo este universo e o restante está em reserva. Esse poder reservado e esse poder manifesto na forma do mundo constituem juntos Iswara.

Pergunta: Iswara existe em algum lugar ou em alguma forma particular?

Bhagavan: Se o indivíduo é uma forma, mesmo o Ser, a Fonte, que é o Senhor, também parecerá ter uma forma. Se a pessoa não é uma forma, uma vez que não pode haver conhecimento das outras coisas, será correta essa afirmação de que Deus tem uma forma? Deus assume qualquer forma imaginada pelo devoto através de pensamento repetido em meditação prolongada. Assim, embora Ele assuma nomes infindáveis, apenas a real consciência sem forma é Deus.

No que diz respeito à sua localização, Deus não reside em nenhum outro lugar além do Coração. É devido à ilusão criada pelo ego, a idéia 'eu sou o corpo', que o reino de Deus é concebido como estando em outra parte. Esteja certo que o Coração é o reino de Deus.

Saiba que você é a resplandescente luz perfeita, que não apenas torna a existência do reino de Deus possível, mas que também permite que Ele seja visto como um maravilhoso céu. Apenas o saber disso já é Jnana. Portanto, o reino de Deus está dentro de você. O espaço ilimitado do turiyatita (além dos quatro estados – o Ser), que brilha repentinamente, em todo seu resplendor, dentro do Coração de um aspirante altamente maduro durante o estado de completa absorção da mente, como se fosse uma experiência nova e anteriormente desconhecida, é o raramente atingido reino de Deus (Siva-Loka), que brilha através da luz do Ser.

Philokalia - Philotheu do Sinai - Textos sobre a sobriedade (parte 2)

Uma alma (amante dos pecados), estando cercada e rodeada por espíritos do mal como um muro, está atada pelos grilhões da escuridão e por causa dessa escuridão envolvente não pode orar como deveria, pois está limitada pela escuridão em segredo (nas suas próprias profundezas secretas e inconscientemente) e seus olhos internos estão cegos. Mas quando (voltando para si mesma) ela começa a correr para Deus em oração e enquanto ora, luta para praticar a sobriedade da melhor maneira que pode, então, através do poder da prece ela começa pouco a pouco, a ser libertada dessa escuridão; de outra maneira ela não tem qualquer possibilidade de se tornar livre. Desse modo, ela aprende que existe no coração uma outra batalha interior, uma luta nos pensamentos, instigada pelos espíritos do mal, como atestam as escrituras, dizendo: “Se o espírito do governante levantar-se contra ti, não abandones teu posto” (Ecl. X, 4). O posto da mente é ela manter-se firme na virtude e na sobriedade. Um homem pode tomar um posto na vida virtuosa ou na vida pecaminosa. Pois as escrituras dizem: “Abençoado é o homem que não segue o conselho dos ímpios, nem se põe no caminho dos pecadores” (Sal. I,1). E o Apóstolo ensina: “Portanto, ponde-vos de pé e cingi os rins com a verdade” (Efés.vi,14).


A doce memória de Deus, isto é, de Jesus, acoplada à indignação e à contrição benigna sentidas no coração, pode sempre aniquilar toda a fascinação dos pensamentos, a variedade de sugestões, palavras, sonhos, imaginações sombrias e, resumindo, tudo com que o todo-destrutivo inimigo se arma para atacar, buscando ardentemente devorar nossas almas. Jesus, quando invocado, facilmente queima tudo isso. Pois, em nenhuma outra parte podemos encontrar a salvação exceto em Jesus Cristo. O próprio Salvador confirmou isso dizendo: “Sem mim, nada podeis fazer” (João xv,5)


E, portanto, a cada hora e a cada momento guardemos zelosamente nosso coração de pensamentos que obscureçam o espelho da alma que deveria conter, desenhada e impressa em si, apenas a imagem radiante de Jesus Cristo, o Qual é a sabedoria e o poder de Deus, o Pai. Busquemos constantemente o reino dos céus no coração e certamente encontraremos misteriosamente dentro de nós a semente, a pérola, a bebida e tudo mais, se limparmos o olho de nossa mente. É por isso que nosso Senhor Jesus Cristo disse: “O reino de Deus está dentro do vós” (Lucas xvii, 21), querendo dizer com isso a Divindade que habita no coração.


A sobriedade purifica a consciência até que ela brilhe resplandescente. Estando assim purificada, a consciência afasta toda a escuridão de dentro, como uma luz que repentinamente resplandece quando um véu que a cobria é removido. Se for verdadeira e constante a sobriedade é mantida depois que a escuridão for afastada, a consciência mostra novamente o que foi esquecido ou o que esteve escondido sem ser percebido. Ao mesmo tempo, novamente por meio da sobriedade, ela ensina a luta invisível com os inimigos, empreendida pela mente e a batalha dos pensamentos. Ela ensina como lançar tochas nesse combate solitário, como atirar dardos de bons pensamentos (contra o inimigo) e como prevenir as flechas do inimigo de ferirem a mente, fazendo-a rápida como uma flecha buscar proteção em Cristo, e assim ganhar o refúgio da luz de nossos desejos, em vez da escuridão da destruição. Aquele que provou essa luz entende o que estou falando. Uma vez que foi experimentada, essa luz tortura a alma ao máximo pelo anseio por ela, pois a alma alimenta-se dela mas nunca fica saciada e quanto mais ela prova essa luz, mais ardentemente a deseja. Essa luz que ofusca a mente, da maneira como o sol ofusca os olhos, essa luz inexplicável em si mesma, mas que entretanto torna-se explicável, só que não em palavras, mas através da experiência daquele que recebe sua influência ou que é ferido por ela – essa luz manda que eu fique em silêncio, embora a mente ainda gostaria de falar desse assunto.

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“Procurai a paz com todos e a santificação, sem as quais ninguém verá o Senhor” (Heb. Xii,14) com o intento de adquirir amor e pureza: pois esses são a paz e a santificação. A raiva deveria ser despertada somente contra os demônios com os quais empreendemos gerra mental e que estão enfurecidos contra nós. Mas ouça como essa guerra, empreendida a cada hora em nós, deveria ser conduzida e faça o seguinte: com a sobriedade combine oração e a sobriedade irá fortalecer a oração e esta fortalecerá a sobriedade. Observando tudo internamente de forma constante, a sobriedade nota o inimigo tentando ganhar passagem e barrando o caminho com toda sua força, ao mesmo tempo evoca a ajuda do Nosso Senhor Jesus Cristo para afastar esses combatentes do mal. Assim, a atenção barra o caminho por meio de oposição e Jesus, quando invocado, afasta os demônios e suas fantasias.


Guarde sua mente com extrema intensidade de atenção. Assim que você notar um pensamento (hostil), imediatamente resista a ele e ao mesmo tempo se apresse em chamar Cristo Nosso Senhor para se vingar. Enquanto você ainda está chamando por Ele, o doce Jesus dirá: Estou com você para protegê-lo. Mas quando os inimigos são subjugados pela sua oração, você deve novamente, diligentemente prestar atenção à sua mente. Aqui vêm ondas (de pensamentos), mais numerosas do que nunca, novamente avançando contra você, uma após a outra, de modo que a alma é quase engolida por elas e fica a ponto de perecer. Mas Jesus, sendo Deus, quando o discípulo apela, novamente proíbe os maus ventos (de pensamentos) e eles são subjugados. Mas você, tendo encontrado uma hora ou um momento de folga dos ataques do inimigo, glorifique Aquele que lhe salvou e mergulhe fundo numa meditação sobre a morte.


Um homem que com sucesso redime o tempo de sua vida e está constantemente ocupado com pensamentos e memória da morte e através disso, sabiamente remove sua mente das paixões, geralmente vê as constantes aparências das sugestões do mal com mais precisão do que um homem que passa sua vida sem lembrar da morte e que espera purificar seu coração apenas pela ação da razão, em vez de manter-se sempre com esse pensamento triste e que provoca lágrimas. Contando com a rapidez da sua mente de manter em mãos todas as paixões ruins e não percebendo o quanto ele está atado por uma delas, acontece o pior de tudo: ele cai na presunção (como alguém que espera ter êxito em qualquer coisa) sem Deus. Tal homem deve praticar uma sobriedade muito estrita, para que não perca sua razão por causa de sua arrogância. Pois o Apóstolo Paulo diz (I Cor.Vii,I) que as pessoas que coletam conhecimento aqui e ali se vangloriam diante daqueles que, em sua opinião, sabem menos do que eles. E penso que o motivo disso é que falta neles a fagulha do amor que edifica. Um homem que mantém uma constante lembrança da morte tem olhos mais aguçados do que um homem que carece dela. Ele nota as sugestões dos demônios e facilmente mantendo-os sob seus pés manda-os embora.