quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Lao Tzu - Tao Te Ching


Meus ensinamentos são fáceis de entender

e fáceis de colocar em prática.

Ainda assim, seu intelecto jamais conseguirá capturá-los

e se você tentar praticá-los, irá falhar.


Meus ensinamentos são mais antigos que o mundo.

Como pode você compreender seu significado?


Se quiser me conhecer,

olhe dentro de seu coração.


_____________________________________


Não saber é o conhecimento verdadeiro

Presumir saber é uma doença.

Primeiro perceba que você está doente,

depois poderá sair em busca da cura.


O mestre é seu próprio médico

Ele curou-se de todo saber.

Portanto, ele é verdadeiramente completo.

Jalaluddin Rumi - O Artesão e o Vazio


Eu disse antes que todo artesão

procura pelo que não está ali

para praticar seu artesanato.


Um empreiteiro procura por um buraco apodrecido

onde o telhado cedeu. Um carregador de água

pega o pote vazio. O carpinteiro

pára na casa sem porta.


Os trabalhadores correm na direção de alguma indicação

de vazio, o qual eles então começam

a preencher. O que eles esperam, entretanto,

é pelo vazio, então não pense

que você deve evitá-lo. Ele contém

o que você necessita!


Querida alma, se você não fosse amiga

daquele vasto nada interior,

por que você estaria sempre jogando sua rede

nele e esperando tão pacientemente?


Esse oceano invisível tem lhe dado tão grande abundância

mas você ainda chama de “morte”

isso que lhe provê sustento e trabalho.


Deus permitiu que uma inversão mágica ocorresse,

de modo que você visse a fenda do escorpião

como um objeto de desejo

e toda a vastidão em volta dela

como perigosa e infestada de serpentes.


E assim é o quão estranho o seu medo da morte

e do vazio é, e quão perverso o apego pelo que você quer.


Agora que você me escutou falar

a respeito de seus equívocos, querido amigo,

ouça a história de Attar sobre o mesmo assunto.


Ele encordoou pérolas a esse respeito

contanto sobre o rei Mahmud, que dentre os despojos

de sua campanha militar na Índia houve um garoto hindu,

que ele adotou como um filho. Ele educou

e proveu ao garoto todo o digno de um rei

e mais tarde tornou-o vice-regente, sentado

num trono de ouro ao seu lado.


Um dia ele encontrou o jovem homem chorando.

“Por que estás chorando? És o companheiro

de um imperador! A nação inteira está enfileirada

diante de ti como estrelas que podes comandar!”


O jovem respondeu, “Estou lembrando

da minha mãe e do meu pai e de como eles

me assustavam quando criança com ameaças a seu respeito!

'Xi, ele está indo para a corte do rei Mahmud!

Nada poderia ser mais infernal!' Onde estão eles agora

quando deveriam ver-me sentado aqui?”


Esse incidente fala sobre o seu medo de mudar.

Você é o garoto hindu. Mahmud, que significa,

Louvor ao Fim, é a pobreza ou o vazio

do espírito.


A mãe e o pai são o seu apego

às crenças e laços de sangue

e desejos e hábitos de conforto.


Não dê ouvidos a eles!

Eles parecem proteger,

mas na verdade, aprisionam.


Algum dia você vai chorar lágrimas de deleite naquela côrte,

lembrando dos seus equivocados pais!


Saiba que seu corpo nutre o espírito,

ajuda-o a crescer e depois dá conselhos errados a ele.


O corpo torna-se, eventualmente, uma armadura

em anos de paz,

quente demais no verão e fria demais no inverno.


Mas os desejos do corpo, de outra maneira, são como

um sócio imprevisível, com o qual você deve ser

paciente. E esse acompanhante é útil,

pois a paciência expande a sua capacidade

de amar e de sentir paz.


A paciência da uma rosa perto de um espinho

mantém-na cheirosa. É a paciência que dá leite

ao camelo amamentando-o ainda no seu terceiro ano,

e a paciência é o que os profetas nos mostram.


A beleza de cuidadosamente costurar uma camisa

está na paciência contida nisso.


A amizade e a lealdade têm a paciência como

a força de suas conexões.


Sentir-se só e desprezível indica

que você não foi paciente.


Fique com aqueles que se misturam com Deus

como o leite mistura-se com o mel, e diga,


“Qualquer coisa que vem e vai,

que nasce e se põe,

não é o que eu amo.”


Viva naquele que criou os profetas,

senão você ficará como uma caravana em chamas

deixada flamejando sozinha na beira da estrada.

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Quando você está com todo mundo menos comigo,

você não está com ninguém.

Quando não está com ninguém além de mim,

você está com todo mundo.

Em vez de ficar tão atado com todo mundo,

seja todo mundo.

Quando se torna tudo isso, você é o nada.

O Vazio.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Bhagavan Ramana Maharshi - A Natureza de Deus

Pergunta: Deus é descrito como manifesto e não-manifesto. No primeiro caso Ele é dito incluir o mundo como parte de Seu Ser. Se for assim, nós como parte deste mundo, deveríamos facilmente tê-Lo conhecido na forma manifesta.

Bhagavan: Conheça a si mesmo antes de procurar decidir sobre a natureza de Deus e do mundo.

Pergunta: Conhecer a mim mesmo implica em conhecer a Deus?

Bhagavan: Sim, Deus está dentro de você.

Pergunta: Então, o que se coloca no meu caminho de conhecer a mim mesmo ou conhecer Deus?

Bhagavan: Sua mente errante e seus modos pervertidos.

Pergunta: Deus é pessoal?

Bhagavan: Sim, ele é sempre a primeira pessoa, o Eu, permanecendo sempre diante de você. Por você dar precedência às coisas mundanas, Deus parece ter recedido para o pano de fundo. Se você abandonar tudo e buscar apenas Ele, e somente Ele, Ele irá permanecer como o 'Eu', o Ser.

Pergunta: Deus está separado do Ser?

Bhagavan: O Ser é Deus, o “eu sou” é Deus. Essas perguntas surgem porque você está se segurando ao ser-ego. Elas não surgirão se você se segurar no verdadeiro Ser. Pois o Ser real não irá perguntar e nem pode perguntar o que é absurdo. Somente Deus, que parece ser não-existente, verdadeiramente existe, enquanto que o indivíduo, que parece estar existindo, é sempre não-existente. Os sábios dizem que apenas o estado no qual a pessoa conhece sua própria não-existência (sunya) é o glorioso conhecimento supremo.

Agora você pensa que você é um indivíduo, que existe o universo e que Deus está além do cosmos. Portanto, há a idéia do sentido de separação. Essa idéia deve ir. Pois Deus não está separado de você ou do cosmos. O Gita também diz:

"O Ser sou Eu, ó Deus do sono,

Alojado no coração de cada criatura.

Sou o alvorecer e o meio-dia de toda forma,

Também sou seu destino final."

(Bhagavad Gita, X – 20)

Portanto, Deus não apenas está no coração de todos, ele é o suporte de todos, a fonte de todos, a morada e o fim de todos. Tudo procedeu Dele, tem sua estada Nele, e finalmente se resolve Nele. Portanto, Ele não está separado.

Pergunta: Como devemos entender esta passagem do Gita: 'Todo este Cosmos forma uma partícula de mim”?

Bhagavan: Isso não significa que uma pequena partícula de Deus se separa Dele e forma o universo. Seu poder (Shakti) está agindo. Como resultado de uma fase dessa atividade o cosmos tornou-se manifesto. Similarmente, a afirmação no Purusha Sukta, 'Todos os seres formam um pé Dele', não significa que Brahman está dividido em várias partes.

Pergunta: Entendo, Brahman certamente não é divisível.

Bhagavan: Portanto, o fato é que Brahman é tudo e permanece indivisível. Está sempre realizado mas o homem não está ciente disso. Ele deve chegar a saber disso. Conhecimento significa vencer os obstáculos que obstruem a revelação da eterna verdade que - o Ser é o mesmo que Brahman. Os obstáculos tomados juntos formam a sua idéia de separatividade como um indivíduo.

Pergunta: Deus é o mesmo que o Ser?

Bhagavan: O Ser é conhecido por todo mundo, mas não claramente. Você sempre existe. A existência é o Ser. O “eu sou” é o nome de Deus. De todas as definições de Deus , nenhuma, de fato, é tão bem colocada quanto a afirmação Bíblica “Eu sou aquele Eu sou” no Êxodo 3. Existem outras afirmações, como no Brahmaivaham (Brahman sou Eu), Aham Brahmasmi (Eu sou Brahman) e Soham (Eu sou Ele). Mas nenhuma é tão direta como o nome de Jeová que significa “eu sou”. O Ser absoluto é o que é. Ele é o Ser. É Deus. Ao conhecer o Ser, Deus é conhecido. De fato, Deus não é nada além do que o Ser.

Pergunta: Deus é conhecido por muitos nomes diferentes. Algum deles é justificado?

Bhagavan: Dentre os milhares de nomes de Deus, nenhum nome se adequa a Deus - o qual reside no Coração, desprovido de pensamento - tão verdadeira e lindamente quanto o nome “Eu” ou “eu sou”. De todos os nomes conhecidos de Deus, o nome de Deus “eu” - “eu” apenas ressoará triunfante quando o ego for destruído, emergindo como a suprema palavra silenciosa (mouna-para-vak) no espaço do Coração daqueles cuja atenção está direcionada para a tutela do Ser. Mesmo se a pessoa meditar incessantemente no nome “eu-eu” com sua atenção no sentimento “eu”, isso levará a pessoa e a submergirá na fonte da qual o pensamento surge, destruindo o ego, o embrião, que está unido ao corpo.

Pergunta: Qual é a relação entre Deus e o mundo? Ele é o criador ou o sustentador dele?

Bhagavan: Os seres sencientes ou não-sencientes de todos os tipos estão realizando ações apenas pela mera presença do sol, que nasce no céu sem nenhuma volição. Similarmente, todas as ações são feitas pelo Senhor sem nenhuma volição ou desejo da parte Dele. Na mera presença do sol, as magníficas lentes emitem fogo, a flor de lótus desabrocha, a flor-de-lis se fecha e todas as incontáveis criaturas realizam ações e descansam.

A ordem da grande multidão de mundos é mantida pela mera presença de Deus da mesma maneira que a agulha se move diante de um imã, e a selenite emite água, a flor-de-lis desabrocha e o lótus se fecha diante da lua.

Na mera presença de Deus, que não tem a mínima volição, os seres vivos, que estão engajados em inúmeras atividades, após embarcarem em muitos caminhos para os quais são atraídos de acordo com o curso determinado por seus próprios karmas, finalmente realizam a futilidade da ação, voltam-se para o Ser e atingem a liberação.

As ações dos seres vivos não chegam ou afetam a Deus, o qual transcende a mente, da mesma maneira que as atividades do mundo não afetam o sol e as qualidades dos quatro elementos conspícuos (terra, água, fogo e ar) não afetam o espaço sem limites.

Pergunta: Por que samsara (a criação e a manifestação como finitas) é tão cheio de mal e tristeza?

Bhagavan: É a vontade de Deus!

Pergunta: Por que Deus quer que seja assim?

Bhagavan: Isso é incompreensível. Nenhum motivo pode ser atribuído àquele poder - nenhum desejo, nenhum fim a ser atingido pode ser afirmado a respeito daquele um infinito, todo-poderoso, todo-sábio Ser. Deus é intocado pelas atividades que ocorrem em Sua presença. Compare o sol e as atividades do mundo. Não há nenhum sentido em atribuir responsabilidade e motivo ao um antes que ele se torne muitos.

Pergunta: Tudo acontece através da vontade de Deus?

Bhagavan: Não é possível ninguém fazer alguma coisa oposta ao que Deus determine, Ele que tem a habilidade de fazer todas as coisas. Portanto, ficar em silêncio aos pés de Deus, tendo abandonado todas as ansiedades da mente perversa, imperfeita e enganadora, é o melhor.

Pergunta: Existe um ser separado, Iswara (Deus pessoal), que é o recompensador das virtudes e o punidor dos pecados? Existe um Deus? Como ele é?

Bhagavan: Sim, existe. Iswara tem individualidade num corpo e mente que são perecíveis, mas ao mesmo tempo, internamente ele tem a consciência transcendental e a liberação.

Iswara, o Deus pessoal, o criador supremo do universo, realmente existe. Mas isso é verdade apenas do ponto de vista relativo daqueles que não realizaram a Verdade, aquelas pessoas que acreditam na realidade das almas individuais. De um ponto de vista absoluto, o sábio não pode aceitar nenhuma outra existência além do Ser impessoal, uno e sem forma.

Iswara tem um corpo físico, uma forma e um nome, mas não tão grosseiro quanto esse corpo material. Ele pode ser visto em visões na forma criada pelo devoto. As formas e os nomes de Deus são muitos e variados, e diferem em cada religião. Sua essência é a mesma que a nossa, o Ser real sendo apenas um e sem forma. Portanto, as formas que ele assume são apenas criações e aparências.

Iswara é imanente em cada pessoa e cada objeto do universo. A totalidade de todas as coisas e todos os seres constitui Deus. Há uma força da qual uma pequena fração tornou-se todo este universo e o restante está em reserva. Esse poder reservado e esse poder manifesto na forma do mundo constituem juntos Iswara.

Pergunta: Iswara existe em algum lugar ou em alguma forma particular?

Bhagavan: Se o indivíduo é uma forma, mesmo o Ser, a Fonte, que é o Senhor, também parecerá ter uma forma. Se a pessoa não é uma forma, uma vez que não pode haver conhecimento das outras coisas, será correta essa afirmação de que Deus tem uma forma? Deus assume qualquer forma imaginada pelo devoto através de pensamento repetido em meditação prolongada. Assim, embora Ele assuma nomes infindáveis, apenas a real consciência sem forma é Deus.

No que diz respeito à sua localização, Deus não reside em nenhum outro lugar além do Coração. É devido à ilusão criada pelo ego, a idéia 'eu sou o corpo', que o reino de Deus é concebido como estando em outra parte. Esteja certo que o Coração é o reino de Deus.

Saiba que você é a resplandescente luz perfeita, que não apenas torna a existência do reino de Deus possível, mas que também permite que Ele seja visto como um maravilhoso céu. Apenas o saber disso já é Jnana. Portanto, o reino de Deus está dentro de você. O espaço ilimitado do turiyatita (além dos quatro estados – o Ser), que brilha repentinamente, em todo seu resplendor, dentro do Coração de um aspirante altamente maduro durante o estado de completa absorção da mente, como se fosse uma experiência nova e anteriormente desconhecida, é o raramente atingido reino de Deus (Siva-Loka), que brilha através da luz do Ser.

Philokalia - Philotheu do Sinai - Textos sobre a sobriedade (parte 2)

Uma alma (amante dos pecados), estando cercada e rodeada por espíritos do mal como um muro, está atada pelos grilhões da escuridão e por causa dessa escuridão envolvente não pode orar como deveria, pois está limitada pela escuridão em segredo (nas suas próprias profundezas secretas e inconscientemente) e seus olhos internos estão cegos. Mas quando (voltando para si mesma) ela começa a correr para Deus em oração e enquanto ora, luta para praticar a sobriedade da melhor maneira que pode, então, através do poder da prece ela começa pouco a pouco, a ser libertada dessa escuridão; de outra maneira ela não tem qualquer possibilidade de se tornar livre. Desse modo, ela aprende que existe no coração uma outra batalha interior, uma luta nos pensamentos, instigada pelos espíritos do mal, como atestam as escrituras, dizendo: “Se o espírito do governante levantar-se contra ti, não abandones teu posto” (Ecl. X, 4). O posto da mente é ela manter-se firme na virtude e na sobriedade. Um homem pode tomar um posto na vida virtuosa ou na vida pecaminosa. Pois as escrituras dizem: “Abençoado é o homem que não segue o conselho dos ímpios, nem se põe no caminho dos pecadores” (Sal. I,1). E o Apóstolo ensina: “Portanto, ponde-vos de pé e cingi os rins com a verdade” (Efés.vi,14).


A doce memória de Deus, isto é, de Jesus, acoplada à indignação e à contrição benigna sentidas no coração, pode sempre aniquilar toda a fascinação dos pensamentos, a variedade de sugestões, palavras, sonhos, imaginações sombrias e, resumindo, tudo com que o todo-destrutivo inimigo se arma para atacar, buscando ardentemente devorar nossas almas. Jesus, quando invocado, facilmente queima tudo isso. Pois, em nenhuma outra parte podemos encontrar a salvação exceto em Jesus Cristo. O próprio Salvador confirmou isso dizendo: “Sem mim, nada podeis fazer” (João xv,5)


E, portanto, a cada hora e a cada momento guardemos zelosamente nosso coração de pensamentos que obscureçam o espelho da alma que deveria conter, desenhada e impressa em si, apenas a imagem radiante de Jesus Cristo, o Qual é a sabedoria e o poder de Deus, o Pai. Busquemos constantemente o reino dos céus no coração e certamente encontraremos misteriosamente dentro de nós a semente, a pérola, a bebida e tudo mais, se limparmos o olho de nossa mente. É por isso que nosso Senhor Jesus Cristo disse: “O reino de Deus está dentro do vós” (Lucas xvii, 21), querendo dizer com isso a Divindade que habita no coração.


A sobriedade purifica a consciência até que ela brilhe resplandescente. Estando assim purificada, a consciência afasta toda a escuridão de dentro, como uma luz que repentinamente resplandece quando um véu que a cobria é removido. Se for verdadeira e constante a sobriedade é mantida depois que a escuridão for afastada, a consciência mostra novamente o que foi esquecido ou o que esteve escondido sem ser percebido. Ao mesmo tempo, novamente por meio da sobriedade, ela ensina a luta invisível com os inimigos, empreendida pela mente e a batalha dos pensamentos. Ela ensina como lançar tochas nesse combate solitário, como atirar dardos de bons pensamentos (contra o inimigo) e como prevenir as flechas do inimigo de ferirem a mente, fazendo-a rápida como uma flecha buscar proteção em Cristo, e assim ganhar o refúgio da luz de nossos desejos, em vez da escuridão da destruição. Aquele que provou essa luz entende o que estou falando. Uma vez que foi experimentada, essa luz tortura a alma ao máximo pelo anseio por ela, pois a alma alimenta-se dela mas nunca fica saciada e quanto mais ela prova essa luz, mais ardentemente a deseja. Essa luz que ofusca a mente, da maneira como o sol ofusca os olhos, essa luz inexplicável em si mesma, mas que entretanto torna-se explicável, só que não em palavras, mas através da experiência daquele que recebe sua influência ou que é ferido por ela – essa luz manda que eu fique em silêncio, embora a mente ainda gostaria de falar desse assunto.

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“Procurai a paz com todos e a santificação, sem as quais ninguém verá o Senhor” (Heb. Xii,14) com o intento de adquirir amor e pureza: pois esses são a paz e a santificação. A raiva deveria ser despertada somente contra os demônios com os quais empreendemos gerra mental e que estão enfurecidos contra nós. Mas ouça como essa guerra, empreendida a cada hora em nós, deveria ser conduzida e faça o seguinte: com a sobriedade combine oração e a sobriedade irá fortalecer a oração e esta fortalecerá a sobriedade. Observando tudo internamente de forma constante, a sobriedade nota o inimigo tentando ganhar passagem e barrando o caminho com toda sua força, ao mesmo tempo evoca a ajuda do Nosso Senhor Jesus Cristo para afastar esses combatentes do mal. Assim, a atenção barra o caminho por meio de oposição e Jesus, quando invocado, afasta os demônios e suas fantasias.


Guarde sua mente com extrema intensidade de atenção. Assim que você notar um pensamento (hostil), imediatamente resista a ele e ao mesmo tempo se apresse em chamar Cristo Nosso Senhor para se vingar. Enquanto você ainda está chamando por Ele, o doce Jesus dirá: Estou com você para protegê-lo. Mas quando os inimigos são subjugados pela sua oração, você deve novamente, diligentemente prestar atenção à sua mente. Aqui vêm ondas (de pensamentos), mais numerosas do que nunca, novamente avançando contra você, uma após a outra, de modo que a alma é quase engolida por elas e fica a ponto de perecer. Mas Jesus, sendo Deus, quando o discípulo apela, novamente proíbe os maus ventos (de pensamentos) e eles são subjugados. Mas você, tendo encontrado uma hora ou um momento de folga dos ataques do inimigo, glorifique Aquele que lhe salvou e mergulhe fundo numa meditação sobre a morte.


Um homem que com sucesso redime o tempo de sua vida e está constantemente ocupado com pensamentos e memória da morte e através disso, sabiamente remove sua mente das paixões, geralmente vê as constantes aparências das sugestões do mal com mais precisão do que um homem que passa sua vida sem lembrar da morte e que espera purificar seu coração apenas pela ação da razão, em vez de manter-se sempre com esse pensamento triste e que provoca lágrimas. Contando com a rapidez da sua mente de manter em mãos todas as paixões ruins e não percebendo o quanto ele está atado por uma delas, acontece o pior de tudo: ele cai na presunção (como alguém que espera ter êxito em qualquer coisa) sem Deus. Tal homem deve praticar uma sobriedade muito estrita, para que não perca sua razão por causa de sua arrogância. Pois o Apóstolo Paulo diz (I Cor.Vii,I) que as pessoas que coletam conhecimento aqui e ali se vangloriam diante daqueles que, em sua opinião, sabem menos do que eles. E penso que o motivo disso é que falta neles a fagulha do amor que edifica. Um homem que mantém uma constante lembrança da morte tem olhos mais aguçados do que um homem que carece dela. Ele nota as sugestões dos demônios e facilmente mantendo-os sob seus pés manda-os embora.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Farid ud-Din Attar - O Vale do Conhecimento

(Depois de falar sobre os dois primeiros vales a serem atravessados pelos pássaros, a Poupa começa a falar do terceiro vale)

“Depois do vale que acabo de falar, um outro se apresenta aos olhos do peregrino. É o vale do conhecimento, que não tem princípio e nem fim; não há ninguém que possa ter outra opinião a respeito da extensão do caminho que deve se percorrer nesse vale. Realmente não há conhecimento semelhante a este; porém um é o viajante temporal, outro o viajante espiritual. Neste vale, cada peregrino toma um caminho diferente; espíritos diferentes obedecem regras diferentes. A alma e o corpo, pela perfeição ou pelo debilitamento, estão sempre em progresso ou decadência. Necessariamente o caminho espiritual não se manifesta senão nos limites das respectivas forças de cada um. De fato, no caminho percorrido por Abraão, o amigo de Deus, como poderia a frágil aranha seguir o passo de elefante? A marcha de cada indivíduo será relativa à excelência que ele puder adquirir, e cada um se aproxima da meta na medida de sua disposição. Se um mosquito voasse com toda sua força poderia igualar a impetuosidade do vento? Nossas trilhas são diferentes, nenhum pássaro conhece a rota secreta pela qual o outro vai, e o discernimento nos chega por sinais diferentes. Assim, uma vez que há diversas maneiras de percorrer esse espaço, cada pássaro não pode voar da mesma maneira. O conhecimento espiritual tem diferentes faces. Uns encontram o mihab, outros o ídolo.”


Quando o sol da verdade brilhar na cúpula deste caminho que não se poderia descrever adequadamente, cada um será iluminado segundo seu mérito e encontrará a posição que lhe está assinalada no conhecimento da verdade. Quando o mistério da essência dos seres mostrar-se claramente, a fornalha do mundo se converterá num jardim de flores. O adepto verá a amêndoa, ainda que envolvida por sua casca. Ele não verá mais a si mesmo e não perceberá senão o Amigo; em tudo o que veja, verá a Sua face; em cada átomo verá o todo; contemplará sob o véu milhões de segredos tão brilhantes quanto o sol. Contudo, quantos se perderam nessa busca para que um só pudesse descobrir esses mistérios? Há que ser perfeito para descobrir este difícil caminho e mergulhar neste tormentoso oceano. Quando se tem o verdadeiro gosto por estes segredos, sente-se a cada instante um novo ardor para conhecê-los. Aquele que está realmente agitado pelo desejo de penetrar esses mistérios ofereceria mil vezes a vida em sacrifício para conhecê-los. Mesmo quando alcançares com tua mão o glorioso trono, não deixes de pronunciar as gloriosas palavras do Corão: “Há ainda algo mais?” Mergulha no oceano do conhecimento, ou ao menos lança a poeira do caminho sobre tua cabeça. Quanto a ti que estás adormecido e a quem não se pode cumprimentar pelo triunfo, por que não estás de luto? Se não tens a felicidade de unir-te ao objeto de teu afeto, levanta e veste ao menos o luto da ausência. Tu que ainda não contemplaste a beleza de teu Amigo, não permaneças mais sentado, levanta-te e procura esse segredo; e se não conheces a maneira de penetrá-lo, envergonha-te. Até quando serás como um asno sem cabresto?




O Amante adormecido


Um homem apaixonado, exausto e com o espírito turbado pelo excesso de seu amor, adormeceu gemendo sobre uma colina tumular. Sua amante passou pelo lugar onde ele repousava e encontrou-lhe adormecido e privado de sentimento. Imediatamente ela escreveu um bilhete apropriado à circunstância e pregou-o no manto do amante. Quando ele despertou de seu sono, leu a carta, e seu coração ficou ensanguentado. Estava escrito: “Ó tu, que estás surdo e mudo! Se és um mercador, o mercado está aberto, levanta-te e trabalha para ganhar dinheiro; se és um asceta, vela durante a noite, reza a Deus até a aurora e seja Seu escravo; porém, se és um amante, envergonha-te. O que tem a ver o sono com os olhos do amante? Ele mede o vento durante o dia, e à noite seu ardente coração toma o lugar da lua resplandescente. Como não és nem isto e nem aquilo, ó tu que estás destituído de todo o brilho! não te vanglories falsamente do amor. Se um amante pode dormir fora de sua mortalha, eu o chamarei de amante, mas amante de si mesmo. Uma vez que chegaste ao amor pela loucura, possa teu sono ser como tua ignorância, profundo e prolongado. Que o sono te seja agradável! Porém és digno de amar”.


O Amor Sentinela

Um amante encarregado de montar guarda durante a noite, enamorou-se perdidamente; estava dia e noite sem sono e sem repouso. Um de seus amigos lhe disse: “Ó tu que estás privado do sono!

Necessitas dormir ao menos uma noite”. - “Ó amor”, respondeu ele, “. Sou um amante e um vigia; como poderia eu dormir e assim quebrar meu voto duplo, é adequado às minhas funções de sentinela? Já que o sono não convém a um sentinela, é vantajoso que ele esteja apaixonado. Esse sentimento, que consiste em jogar com vida, apossou-se de mim, identificou-se com minhas funções, fazendo-as entrar em seu domínio. Como poderia dormir se não encontro sono em parte alguma, e nem posso tomá-lo emprestado de ninguém? A cada noite o amor me põe a prova, obrigando-me assim a manter a cautela. O amor está sempre vigilante, e não permite que seu sentinela adormeça.”

Às vezes, de dor, esse enamorado chegava a golpear seu roso e sua cabeça com a clava para ficar acordado. Se, por acaso, privado estava de sono e alimento, ele adormecia um instante e sonhava com seu amor. Durante a noite ele não deixava ninguém passar sem gritar: “Quem vive?”.

Um dia outro amigo lhe disse: “Ó tu, que te ocupas zelosamente de tuas funções e do ardor de teu amor! Não tens um instante de sono durante a noite”. O sentinela respondeu: “O sono deve ser estranho ao sentinela. Assim como não convém que haja no rosto do amante outra água que não seja lágrima, a vigília convém ao sentinela. Ele deve habituar-se à vigília, como os amantes à desonra. Pode ocorrer o sono quando se chora em vez de dormir? Quando se é ao mesmo tempo amante e sentinela, o sono abandona os olhos. O amor é agradável ao sentinela, pois a insônia integrou-se à sua essência. Aquele para quem a insônia é agradável estará alguma vez propenso ao sono?”



Se estás à procura das coisas espirituais, não durmas, ó homem! porém se te contentas em apenas falar, então o sono te convém. Guarda bem a fortaleza de tua oração, pois há salteadores nos arredores. O caminho está bloqueado por ladrões; protege pois desses bandidos a jóia de teu coração.

Quando tiveres a virtude que consiste em saber guardar teu coração, teu amor pela ciência espiritual manifestar-se-á prontamente. Pois bem, esse conhecimento virá ao homem sem dúvida nenhuma pela vigília em meio ao oceano de sangue de seu coração. Aquele que por muito tempo suporta a vigília tem seu coração desperto quando se aproxima de Deus. Já que é necessário privar-se do sono para ter desperto o coração, dorme pouco, a fim de conservar a fidelidade do coração. Quando tua existência arruinar-se, devo repetir-te: “Aquele que se perde no oceano dos seres não deve deixar ouvir um só grito de queixa. Os verdadeiros amantes partiram para afogar-se no sono, embriagados de amor. Golpeia tua cabeça, pois esses excelentes homens fizeram o que devia ser feito”. Aquele que tem realmente o gosto do amor espiritual tem em sua mão a chave dos dois mundos. Se é uma mulher, converter-se-á num homem admirável, e se é um homem, tornar-se-á um oceano profundo.



Sentença de Abbaçah sobre o Amor


Um dia Abbaçah disse: “Ó homem de amor, que irradia um pouco da paixão do verdadeiro amor, se é um homem pode tornar-se mulher e se é mulher pode tornar-se homem. Tu viste uma mulher sair de Adão e não ouviste falar de um homem nascido de uma virgem? Enquanto não fizeres tudo que deve ser feito, não alcançarás teus intentos. Quando o reino de Deus chegar, então obterás o resultado que desejas; tudo o que tens no coração se realizará.

Sabe que esse reino é o verdadeiro e esse império é o real. Não consideres este mundo mais que um átomo do mundo espiritual. Se te contentas com o reino deste mundo, perderás o da eternidade. A verdadeira realeza reside no conhecimento espiritual; esforça-te para possuí-lo. Aquele que se embriaga na contemplação das coisas espirituais é rei de todas as criaturas do mundo. Para ele o reino das nove cúpulas é somente um navio do Oceano. Se os reis do mundo pudessem saborear um só gole da água desse oceano sem limites, cairiam todos no luto da aflição e não ousariam olhar uns aos outros.”

domingo, 31 de janeiro de 2010

Hakim Sanai - O Jardim Amuralhado da Verdade

O Um é um

nem mais, nem menos:


o erro começa na dualidade;


a unidade não conhece erro.



O Lugar em si não tem lugar:


como poderia haver lugar


para o criador do lugar,


céu para o criador do céu?


Ele disse:


“Eu era um tesouro escondido;


a criação foi criada


para que você pudesse Me conhecer.”




Diga-me, se o que você busca


não existe em lugar nenhum, por que


você se propõe a viajar até lá a pé?


A estrada sobre a qual seu ser deve viajar


consiste em polir o espelho do seu coração.



Não é através de rebelião e discórdia


que o espelho do coração é polido e livrado do


ferrugem da hipocrisia e da descrença:


seu espelho é polido pela sua certeza,


pela completa pureza de sua fé.



Se você quer que o espelho reflita a face,


segure-o sem demora e mantenha-o brilhantemente polido;


embora o sol não dê sua luz de má vontade,


quando visto num nevoeiro ele parece apenas vidro;


e até as criaturas mais atraentes que os anjos


numa adaga parecem ter faces diabólicas.



Sua adaga jamais falará a verdade a partir do falso:


Ela jamais lhe servirá como espelho.


Melhor procurar sua imagem no seu coração


do que em seu barro mortal, liberte-se


das correntes que você forjou sobre si mesmo.


Você estará livre quando livrar-se do barro.


O corpo é escuro – o coração é resplandescente, brilhante;


o corpo é mero adubo – o coração é um jardim florido.



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O caminho até o amigo não é longe de você:


você mesmo é o caminho:


então enverede por ele.




Você que não sabe nada sobre a vida


que vem do suco da uva,


quanto tempo vai ficar intoxicado


pela forma externa da uva?


Por que você mente que está embriagado?




Se você toma vinho, mantenha-se em silêncio a esse respeito:


um bebedor de leite não diz nada, então por que deveria você dizer?


Quando beber uma taça de vinho


nesta casa arruinada, siga meu conselho:


não coloque os pés para fora da porta da sua embriaguez,


mas recoste sua cabeça onde você bebeu;


beba em segredo e quando tiver bebido,


esfregue o solo em seus lábios, e até que você tenha bebido

vinho e tido dor de cabeça ao menos duas vezes,


não direi de você, “Ali vai um homem!”




Como você pode ir adiante?


Não há lugar para ir;


como você irá saltar?


Você não tem pés.




Não é apenas hoje


que o não-existente veio para servir


na porta do verdadeiro Ser;


desde o começo dos tempos, desprovidos de riqueza e poder,


servidores têm, como formigas, se aglomerado


para esperar na porta do amante.




Arrume as coisas de modo que quando a morte chamar,


ela encontre sua alma esperando na rua.


Saia desta casa de vagabundos:


se você está na porta de Deus, fique aí;


se não está, torne-a seu caminho agora.




Ninguém sabe o quão longe é


da nulidade até Deus.


Enquanto você se agarrar a si mesmo


vai vagar para a esquerda e para a direita,


dia e noite, por milhares de anos;


e quando, depois de todo esse esforço


você finalmente abrir seus olhos,


verá o seu ser através de defeitos inerentes,


vagando em círculos como o gado no moinho;


mas, se, uma vez libertado do seu ser,


você finalmente começar a trabalhar,


essa porta se abrirá para você em dois minutos.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Nisargadatta Maharaj - Mumbai, 10 de janeiro de 1981


Visitante: A consciência opera através da mente?


Maharaj: Tudo acontece na consciência. Eu abandonei minha identidade independente um longo tempo atrás, não há a questão de uma entidade independente, todas as coisas são apenas uma aparência na consciência.

Assim como em qualquer pedaço de tecido o elemento principal é a linha, também em qualquer aparência a essência é a consciência. Isso deve ser percebido profundamente e não pode ocorrer enquanto há a identificação com o corpo. Enquanto a identificação estiver lá você pensará em beneficiar apenas esta pseudo-personalidade.

O universo todo está vivo enquanto você tem essa consciência, uma vez que ela estiver acabada para você, não haverá nada. Entenda, há uma diferença entre alguém que fala a partir do aprendizado de livros e de alguém que fala por experiência.

Um Jnani identifica-se com a consciência universal e assim há uma adaptação perfeita a todas as coisas em todo lugar. Apenas o processo de testemunhar está acontecendo. Este aparato psicossomático está lá tanto para o Jnani quanto para o ignorante, mas o ignorante que identifica-se com o corpo está feliz ou infeliz conforme a situação muda. O Jnani apenas testemunha, ele não está individualmente preocupado com o que acontece.

Eu repito de novo e de novo, por favor, escute: entenda o que é isso por causa do qual nós nos sentimos vivos, entenda a natureza disso, entenda o gosto disso e então a identificação com o corpo irá embora.

Esse Atman Prem (Amor do Ser/Auto-Amor), esse sentido de ser, surgiu sem nenhum esforço da sua parte. Qual é a natureza dele, o gosto dele, o que é ele? Isso você deve descobrir.

Fixe a sua identidade firmemente nesse sentido de ser, não dê a ele membros, formato ou forma, pois uma vez que você dê forma a ele você o limita.

Entenda esta energia que está por trás de toda a manifestação do universo.

Você faz muitas perguntas, você procura pelas respostas em livros e palavras, e não na experiência intuitiva. Isso não é conhecimento. O Conhecimento brota da consciência sem esforço, por si próprio.

Muitos nomes têm sido dados a essa energia que é a fonte de toda a manifestação. As pessoas oram para esses nomes e formas, elas não oram para esse sentido de ser, essa substância, que esses nomes representam. Ore para esse sentido de ser apenas.

Do mesmo modo que não há separação entre dois amigos genuínos, assim como um amigo genuíno sabe as necessidades do outro sem falar, se importa com ele e faz isso espontaneamente, também você deveria desenvolver tal amizade profunda com essa substância, não com a atitude de pedir favores, mas como um amigo procurando um amigo. Seja um com o conhecimento “eu sou”, a fonte da senciência, o próprio sentido de ser (sentido de existência).

As pessoas pensam e falam sobre tudo mais exceto a respeito dessa coisa básica que eu falo para elas. Elas estão interessadas em milagres científicos, fazem da ciência um Deus, elas se preocupam com essas formas que já estão manifestas. Elas não estão interessadas no milagre original - este corpo e sua força de vida.

Nós ignoramos este milagre. Se não há consciência não há Deus. A existência e a essência de Deus estão ambas nesta consciência, e, portanto, neste corpo.

Como estes templos e igrejas apareceram? Por causa da inspiração da consciência dentro do corpo. A consciência é a semente de Brahman, Deus, de tudo, os eventos apenas acontecem e manifestam-se quando a consciência está lá, e a consciência está no corpo.

Nada que eu diga irá beneficiar você neste mundo, eu apenas falo o que você é. Se você está buscando esse tipo de paz que é sem preço, só pode ser ao estabilizar a si mesmo na consciência com firme convicção. Por convicção eu quero dizer aquela que nunca duvida, firme, inabalável, que jamais hesita – tenha esse tipo de convicção em seu sentido de ser. Não pense em nada mais, não reze por nada mais. Atman Prem, por causa disso tudo é.

No momento daquilo que chamamos morte, o que acontece? Tudo o que significa é que esse grão de consciência foi abandonado. Esse grão é entregue para um conceito que você tem aceito como o tempo. Você relutantemente o entrega para o tempo. O Jnani entrega-o para a própria natureza real dele.

Esse Atman Prem, esta existência que nós temos protegido por tantos anos, para quem nós a entregaremos? Se ignorantes, para nosso conceito de tempo. Se Bhakti (devoto) ignorante, para um conceito de Deus. Se Jnani, para sua própria natureza verdadeira.

O que quer que você pense ter adquirido como uma identidade, você adquiriu através de esforço ou intenção? Há algo que você realmente adquiriu? Não. Este corpo, esta consciência, surgiram espontaneamente, deste modo o sono vem quando quer, mesmo despertar e dormir não estão no seu controle. O que é seu? Quem tem esse conhecimento do Ser através de seu próprio esforço?

Essa pseudo-identidade pensa que é ela que está ativa e fazendo. Estou falando com vocês agora como a consciência. Algum de vocês pode agora me dar uma indicação desse conhecimento, desse sentido de ser que é você?


Visitante: A consciência agradece a consciência repetidamente.


Maharaj: Aquilo sobre o qual nada pode ser falado, eu falei. Aceite essa gota, saboreie e engula.

Escute isto: Deus pode existir apenas no coração do homem, não em outro lugar. Você se identifica com o corpo e limita a si mesmo, e ainda, lembre-se, não negligencie este corpo, essa é a casa de Deus, tome conta dela. Apenas neste corpo Deus pode ser realizado.

É apenas para uma compreensão analítica que Deus, seu corpo, seu Ser, foram divididos, mas é um só Ser, cada um está intimamente relacionado.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Hafiz - Poemas Místicos

Espero que você não processe este velho homem

Não tenho

Nada a dizer,

Pois Deus empunhou sua afiada faca

E me esburacou

Completamente.


Mesmo assim vem um vento misterioso

E move o invisível.


Eu adentro sua alma.

Sua beleza, peregrino querido, me alarma,

Faz escorregar os pés do meu espírito

De encontro a uma das cordas do alaúde em

Seu coração.
.
Então Hafiz apenas traduz

Os clamores de seu amor

Como se eles fossem minhas próprias palavras.

Espero que você não processe este

Velho homem embriagado por isso.

______________________________________

Um amante fiel


A lua visitou-me a noite passada

Com uma doce pergunta.

Ela disse:


“O sol tem sido meu fiel amante

Por milhões de anos.


Quando quer que eu ofereça meu corpo a ele

Luz brilhante se despeja do seu coração.

Milhares de pessoas notam então minha alegria

E deleitam-se apontando para

Minha beleza.


Hafiz,

É verdade que o nosso destino

É tornarmo-nos a própria

luz?”

E eu respondi,


Querida lua,

Agora que seu amor está amadurecendo,

Precisamos nos sentar juntos

Assim pertinho com mais frequência


Para que eu possa lhe instruir

Como tornar-se

Quem você

É!

____________________________________________

Eu vi dois pássaros


Nossas bocas podem ambas

Se encaixar nessa flauta que carrego.


Minha música vai soar

Tão mais doce desse jeito

Com seu sopro e meu sopro

Empurrando um ao outro nas fissuras

E se beijando.


Eu vi dois pássaros num galho essa manhã

Rindo com o sol.


Eles me lembraram como

um dia iremos existir.


Meu querido,

Continue pensando em Deus,

Continue pensando no Amado

E em breve nosso ninho será

Todo o firmamento.

Esqueça todos os seus desejos pela verdade,

Já fomos bem além disso,

Pois agora é apenas

Pura necessidade.


Nossos corações estão destinados a cantar.

Nossas almas a tocar e beijar

Essa flauta sagrada que Deus carrega.

Meher Baba - O Indivíduo-Verdade (o Verdadeiro Indivíduo)

A Verdade Eterna tem três aspectos -Dnyana ou conhecimento, Shakti ou poder e Ananda ou graça. Sakshatkara ou a realização dessa Divindade ou Verdade tripla é o alvo do buscador. As pessoas que estão no caminho da ação tornam-se Mahatmas e obtêm seu poder eterno. Aqueles que buscam sabedoria obtêm seu conhecimento eterno. Aqueles que tomam o caminho do Prema ou do amor obtêm sua alegria eterna. Mas no final do caminho, todos têm de chegar à completude indivisível da Verdade, em todos os seus aspectos, embora seus caminhos possam ter sido diferentes. Aquele que atinge a meta é o Verdadeiro-Indivíduo (ou Indivíduo-Verdade).
O caminho do amor é o mais rápido. O amor despertado no aspirante pode ser comparado ao apetite físico. O apetite é seguido por pensamentos sobre comida e depois, sucessivamente, por ir conseguir esse alimento, receber a ajuda de um cozinheiro e, finalmente, pela ação de comer a comida. Assim, o amor espiritual é seguido por pensamentos sobre Deus, que, em seguida, sucessivamente vai resultar em anseio por Deus, receber a ajuda do Verdadeiro-Indivíduo e, finalmente, a realização de Deus. Essa é a herança da bem-aventurança eterna. É a concretização de todos os outros êxtases maiores ou menores do caminho.
O Prema-yoga ou o caminho do amor não deixa espaço para paradas ou descanso no meio da jornada. Ele leva o aspirante inevitavelmente para o Indivíduo-Verdade e por meio dele para a própria Verdade. Esse amor faz a pessoa esquecer de si e do mundo, trazendo em sua esteira os êxtases ascendentes que acompanham os vislumbres inebriantes do Ser Divino. Na poesia de Hafiz e de outros poetas da tradição Sufi, ele é comparado ao vinho. Amor Divino e o vinho são ambos de natureza diferente dos credos estabelecidos da religião. O primeiro está além dos credos e esse último é proibido por eles. Ambos são inebriantes e tornam o homem esquecido. Mas enquanto o vinho conduz ao auto-esquecimento, o Amor Divino leva ao auto-conhecimento.
O Indivíduo-Verdade vê a si mesmo em todos. Ele habita na não-dualidade. A mesma água, quando colocada em frascos de cores diferentes, parece ter diferentes cores, verde em um, no outro amarelo, vermelho num terceiro. A diferença está apenas nas cores aparentes, mas a água é a mesma. Do mesmo modo, nas diversas e variadas formas, o mesmo Ser é visto por aquele que conhece a Verdade. Uma criança pequena em sua ignorância, pode ser impelida a disputar com sua própria imagem no espelho. Mas a pessoa adulta sabe que é a sua própria imagem. Ela não tem nenhum impulso do tipo. Da mesma forma, o mestre está livre dos impulsos aprisionadores da dualidade.
Lenta e gradualmente, o mestre leva seus discípulos para a Verdade ilimitável. Se há pressa demais, há o risco do discípulo abandonar seu corpo físico ou de virar um majzoob*, pois, nesse caso, sua mente-ego é aniquilada prematuramente. Todo indivíduo necessita de um tratamento distinto e individual, assim como as diferentes partes do corpo, quando fora de ordem, requerem um tratamento específico de acordo com a natureza de sua doença. O tratamento específico permite que as diferentes partes sejam reabilitadas a seu funcionamento normal e saudável. E então, todas elas podem trabalhar em harmonia perfeita para um objetivo comum. Do mesmo modo, todos os indivíduos são, por assim dizer, partes da vida universal da Verdade e cada um requer um tratamento especial.
Nos estágios mundanos das religiões estabelecidas, bem como nas primeiras fases do caminho interior, existem diversas regras úteis de acordo com a abordagem adotada (Margo, Talim ou Rah). Mas o aspirante deve saber desde o início que na iluminação final, não existem regras de modo algum. Nem pode a iluminação final ser provocada pela observância de qualquer regra. Isso tem de ser deixado inteiramente a cargo da graça do Mestre realizado na Verdade. A mente do discípulo aceito é como uma roda, girando na maioria das vezes em apenas uma direção. Ela está desenrolando as impressões adquiridas (despendendo-as). Mas a mente dos outros, que estão buscando sem um Mestre, é como um pêndulo de um relógio. Como regra, ela se move em ambas as direções. Às vezes despende as impressões, mas muitas vezes também as acumula.
É, no entanto, muito raro a mente do homem ser finalmente afastada das seduções do mundo. Para despertar você de um sonho bom e agradável, algo assustador como um tigre tem de aparecer no sonho. Da mesma forma, alguma coisa medonha e indesejável tem de ocorrer na vida daqueles que estão imersos no mundo, se quiserem ser livrados da ilusão e reverter a direção de sua mente. Essa inversão da direção se expressa primeiro através de um crescente desapego do corpo.
O corpo físico não é nada além da comida que o homem come. O corpo assimila a porção do alimento que é útil para sua sustentação e joga fora a parte que é inútil. O que é jogado fora é alimento tanto quanto o que é assimilado. Se o homem é tão supremamente indiferente com os restos eliminados, por que ele não tem o mesmo desprendimento com o alimento assimilado que se torna seu corpo? Por que ele derrama lágrimas quando, após a morte, o próprio corpo tem de ser jogado fora?
Afinal, o próprio corpo é um tipo de alimento para a alma quando ele serve para algum propósito da alma. Mas quando torna-se inútil, ele é abandonado pela alma como algo que já não serve a qualquer um de seus propósitos. Não há absolutamente nenhum ponto em lamentar a perda do corpo físico, não importa se nós perdemos nosso corpo ou se outros perderam os deles. Quando um corpo é abandonado, a alma pode tomar outro corpo quando ela precisar de um. Enquanto a alimentação dá saúde ao corpo, ela é bem-vinda. Mas se está estragada e se torna um perigo para o corpo, ela é justamente evitada. Enquanto o corpo for útil para o espírito, há algum sentido em atribuir importância a ele. Mas se ele não pode servir a esse fim, é pura ignorância e fraqueza lamentar sua perda.
O corpo é perecível pela lei imutável da natureza. Por que chorar e se preocupar no momento da sua dissolução? A alma permanece intocada pela morte. Você é a alma, não o corpo. No entanto, é um erro subestimar o corpo físico, e é o maior erro espiritual tentar colocar um fim nele. É somente no corpo físico que a alma tem alguma chance de alcançar a realização de Deus. Mesmo os Devas anseiam por obter uma forma física na terra. É um ato de pura insensatez não tomar os cuidados apropriados com o corpo, ou pôr um fim nele por problemas banais e supostos sofrimentos. Mas, embora seja correto cuidar do corpo, é errado ser apegado a ele, mimá-lo ou ser dominado por ele.
Quando a pessoa vira as costas para o mundo, voltando seu rosto para Deus, ela pode ouvir doces melodias, sentir perfumes ou ver esferas de luz. Na esfera de luz ele geralmente vê a figura de seu Mestre, revelando-se em sua glória divina resplandecente e perfeição. O brilho requintado e o esplendor de tais esferas de luz, é tão encantador e desconcertante que o aspirante não busca mais nada e fica completamente absorvido em olhar fixamente para elas. Essa Noor ou esfera de luz é um objeto real. Não é sonho ou alucinação. Mas é apenas a primeira etapa de um longo caminho. Não deve ser confundida com o objetivo, que é tornar-se o oceano sem margens e sem forma da Verdade.
Olhe para a sua própria sombra. Ela parece tão perto de você. Está a seu lado. Mas você não pode agarrá-la ou ultrapassá-la em uma corrida. Você pode seguir sua sombra até o fim dos dias, mas ainda assim ela vai fugir e estará um pouco adiante de você. Buscar a Deus através da mente-ego é como tentar ir na frente da sua própria sombra. Isso não pode ser feito, não porque Deus esteja longe, de maneira nenhuma, mas porque você nunca pode chegar ao Real através do falso. Deus está mais perto de você do que sua própria sombra. Na verdade, Ele não está apenas dentro de você, mas é seu próprio Ser. Mas você nunca pode chegar a Ele, porque você O busca através da mente-ego, que o converte em um fogo-fátuo. Não é uma coisa fácil realizar Deus, como alguns podem pensar. A mente-ego deve de fato morrer, para Deus poder ser visto e realizado.
Uma pessoa que esteja aprisionada na ilusão do mundo é como ouro misturado com minério. Conforme ela se afasta do mundo, as impurezas nela gradualmente são eliminadas até que finalmente, ela torna-se como ouro puro, sem o minério. Agora, quando ela volta para o mundo, é como se aceitasse conscientemente as impurezas. É por isso que ela sofre. Mas ela sabe que ela é realmente ouro e não as impurezas. Esse conhecimento sustenta a pessoa. Quando seu trabalho no mundo acaba, ela novamente vai para o estado de pureza ilimitada. E mesmo durante seu trabalho, ela nunca permite que a impureza seja qualquer coisa mais do que sua cobertura superficial, que ela coloca e retira quando deseja, sem se misturar a ela. O processo realmente difícil é a primeira ascensão, durante a qual o ouro do Ser é separado da liga de metais da ilusão.
Mesmo uma pessoa que esteja posicionada no sexto plano** ainda está na ilusão. Alguém que está no sexto plano tem a experiência de que tudo procede de Deus (Hameh Az Oost), e também de que Deus é tudo (Hameh Oost). Essa é a visão e a experiência direta dos Walis, que vêem o universo como emanado de Deus. Mas essa experiência de que Deus é tudo não deve ser confundida com a experiência suprema - "Eu-sou-Deus". Essa experiência suprema só pode vir quando a mente é descartada. Assim como o conhecimento dado pelos sentidos físicos é múltiplo e variado, o conhecimento dado pelas percepções e revelações supra-sensoriais também pode ser variado. Mas, para alcançar a verdade, todos esses suportes e estacas das percepções supra-sensoriais devem, como as percepções ordinárias dos sentidos físicos, ser abandonadas no limiar da fusão final da alma no Infinito. A verdadeira experiência de Deus só vem quando o homem e Deus se unem de forma tão completa que não há nenhuma possibilidade de qualquer demarcação, muito menos de uma divisão real.
Na estágios finais da ascensão, quando a mente está metamorfoseada na Verdade, a regra geral é que todos os três mundos (o grosseiro, o sutil e o mental) desaparecem do âmbito da consciência. Em muito poucos casos, a Realização da Verdade pode vir simultaneamente com a alma tendo a experiência dos três mundos. A experiência do mundo triplo em tais casos extremamente raros, torna-se, por assim dizer, o receptáculo da consciência "eu-sou-tudo" da Realização da Verdade. Se o Indivíduo-Verdade teve uma ampla gama de consciência do mundo antes de sua realização, ele exerce maior influência sobre a relatividade na existência ilusória do que se ele tivesse um leque menor de consciência do mundo. Ele também goza de maior autoridade e tem para o uso de seu poder toda a extensão dos três mundos, que se tornam o campo de seu trabalho divino. Entretanto, esses são somente casos raros e excepcionais. Aqui, é a partir do material das experiências do mundo do indivíduo, que surgem precipitadamente as experiências transcendentes da Verdade ilimitada, a não-dualidade sendo o ponto culminante da dualidade entendida.
Mas, como regra geral, antes da realização da Verdade há um completo desaparecimento da consciência de todos os três mundos. Com a dissolução da mente-ego, a consciência é mantida no nada, e como resultado, o ego limitado fica sem sucessor. Mas quando a Verdade que é realizada nessa consciência-nada começa a afirmar-se, ela vem como um estado de "Eu-Sou-Deus". Na fusão, a alma é destituída de toda a individualidade, mas na afirmação, ela é agraciada com a divina e ilimitada Individualidade-Verdade. A Verdade Encarnada assume controle total sobre o corpo universal (algumas vezes chamado de Virat Swarupa), por meio da qual o Mestre pode aparecer em seu corpo físico em lugares diferentes ao mesmo tempo em resposta instantânea a qualquer chamado agonizante dos devotos de Deus. Esse corpo não entra em funcionamento, exceto em circunstâncias muito especiais.
Não é um progresso agradável para o Indivíduo-Verdade, descender depois de atingir Divindade. Ele está sempre relutante em descer para a ilusão da dualidade novamente. Isso significa muito sacrifício de sua parte e muito sofrimento. Mas às vezes ele vem; o seu único objetivo é cumprir a missão espiritual de salvar outros indivíduos. Sua missão toma forma concreta de acordo com a época e as circunstâncias em que ele realiza a sua descida. Ele mesmo não tem nada a ganhar com a descida do oceano ilimitado da Verdade para as relatividades da existência ilusória. Mas em tal descida, ele também não perde de forma alguma a sua realização espiritual. Agora, ele combina em si mesmo os dois tipos de conhecimento, isto é, o conhecimento da unidade e o conhecimento das relatividades.
O Indivíduo-Verdade que desce para o mundo da dualidade ilusória é referido como Qutub, que literalmente significa "o centro". O mestre perfeito se torna o centro do universo. Ele encontra-se como o único ponto absoluto e imutável em torno do qual todo o universo está girando constantemente. O universo é como um moinho e o Mestre Realizado na Verdade é como seu pino central. Como Kabir declarou, ninguém pode escapar do eterno esmagamento que se passa neste moinho do universo. Apenas o Mestre fica ileso pelos acontecimentos do universo, embora ele seja seu próprio centro. Cada Indivíduo-Verdade está no centro, mas o centro é apenas um. Cada um tem uma identidade própria distinta (Husti). Esse âmago de identidade torna-se o núcleo da individualidade divina afirmativa da Verdade-Encarnada, sem desfocar ou limitar a sua unidade com a Verdade todo-inclusiva.
*Majzoob - Um dos tipos de Mast (o intoxicado ou louco de Deus)
** Sexto Plano - A Jornada da Alma, segundo a tradução Sufi e que segundo Meher Baba tem sete estágios ou planos, sendo o sétimo o fim da jornada.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Ramakrishna - Calcutá, 11 de março de 1886

Ramakrishna: Brahman é imaculado. Os três Gunas estão em Brahman, mas Ele mesmo não está contaminado por eles. No ar podemos encontrar tanto bons odores quanto maus odores mas o ar em si não é afetado.

Shankaracharia caminhava por uma rua em Benares e um intocável que levava uma carga de carne tocou-o repentinamente. 'O que!' disse Shankara, 'você me tocou!' 'Senhor', disse o intocável, 'eu não toquei o senhor e nem o senhor tocou a mim. O Atman está acima de toda contaminação e você é esse puro Atman'. O Jnani rejeita Maya, entre Brahman e Maya. Maya é como um véu. Observe, eu seguro esta toalha entre vocês e esta lâmpada e vocês não vêem mais a luz da lâmpada. (Ele coloca a toalha entre ele e os discípulos) Agora vocês não podem ver meu rosto. Como disse Raprasad, 'levanta a cortina e vê!' O Bhakta, contudo, não ignora Maya, ele adora Mahamaya. Tomando refúgio nela ele diz, 'Ó Mãe, rogo-Te, aparta-Te de meu caminho, somente se Te apartares de meu caminho terei o Conhecimento de Brahman'.

O Jnani descarta com seu raciocínio os três estados – vigília, sonho e sono profundo. Mas o Bhakta vê que é Deus que tornou-se Maya, o universo, os seres viventes e os vinte e quatro princípios cósmicos.

Mas a teoria Maya é seca. Repete o que eu disse. (ele fala para Narendra)


Narendra: Maya é seca.


(Ramakrishna afaga carinhosamente o rosto e as mãos de Narendra)


Ramakrishna: Seu rosto e suas mãos demostram que você é um Bhakta. Os Jnanis tem traços diferentes – traços secos. Mesmo depois de alcançar jnana, o jnani pode viver no mundo, retendo vydiamaya, ou seja, bhakti, compaixão, renúncia e outras virtudes semelhantes. Isso lhe serve a um propósito duplo: primeiro, a ensinar aos homens e o segundo, a desfrutar da bem-aventurança divina. Se um Jnani permanece em silêncio, submergido em Samadhi, o coração dos homens não receberá a iluminação. Por isso, Shankaracharia manteve o 'ego do Conhecimento'. Ademais, um Jnani vive como um devoto, na companhia de Bhaktas, para desfrutar e beber profundamente a Benção de Deus.

O 'ego do Conhecimento' e o 'ego da Devoção' não podem trazer danos; é o 'eu perverso' que é danoso. Depois de alcançar a Deus um homem se torna como uma criança. O 'ego de uma criança' não faz mal. Ele é como o reflexo de um rosto num espelho: o reflexo não pode trazer injúrias. Ou também, é como uma corda queimada que conserva a aparência de uma corda mas desaparece com o menor sopro. O ego que foi queimado no fogo do Conhecimento não pode causar dano nenhum. É um ego somente no nome.

Voltar ao plano relativo depois de alcançar o Absoluto é como voltar para a margem de um rio depois de ter ido até a margem oposta. O retorno ao plano relativo serve para ensinar os homens e para desfrutar – participar no jogo divino no mundo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Siddharameshwar Maharaj – Bombei, 7 de outubro de 1935


Se você não está certo de si mesmo, qualquer trabalho realizado não é digno de ser chamado de trabalho. O mundo todo é varrido pela corrente da dúvida. Certeza ou convicção, nesse caso, são para serem entendidas em relação a sermos o Ser. Devemos ter certeza de quem somos nós. Senão, todas as coisas são inúteis. Nós somos o Ser, mas sem sermos definidos a esse respeito, qual é a utilidade de falar sobre isso? Devemos estar certos em nossas mentes e então podemos fazer o que quisermos. Só será útil prosseguir os estudos, se o coração do discípulo estiver muito puro em relação a seu Mestre. É aquela confiança no Guru que irá dar para a pessoa o fruto do esforço espiritual. Todas as outras conversas são sem sentido. Claramente sentimos que sem termos certeza, tudo é uma caricatura. Mas qual é o ponto em falar sobre isso? Não haverá benefício em tal discurso. Onde há Conhecimento sem nenhuma dúvida, há Contentamento. Esse “Contentamento” não é dependente de nada. Esse Contentamento não é produto de nenhum ritual ou de ações que a pessoa faça. O contentamento que é dependente de tais coisas não é o Contentamento Real. O Contentamento Independente é possível apenas através da Auto-Realização (a realização do Ser). Quando você estiver convencido a respeito de ser Brahman, isso em si é Contentamento. O Contentamento é uma indicação da conquista da Realidade. A ausência da dúvida deveria ser conhecida como uma indicação de Contentamento.

O ouvinte pede para que lhe seja dito qual é o sinal da convicção e o Guru diz para ele descobrir quem é o Todo-Poderoso Uno Absoluto e para que fique certo a respeito disso. Deus é aquele Poder através do qual este mundo veio a existir. Você tem agora em você “Aquilo” através do qual o mundo todo se move e você está usando isso agora. Através “Disso” apenas, você está experimentando a si mesmo, e o mundo. Veja o que você tem! O mundo é por causa Disso. Através “Disso” esse mundo é alimentado e nutrido. É “Disso” que o sol, a lua, as estrelas e os cinco elementos (terra, água, fogo, vento e céu) são feitos. Tudo isso está acontecendo sem nenhum problema, sem um monte de trabalho duro para construir ou destruir. Tal “Poder” (Chaitanya) está dentro de você. É através desse Poder que você está tendo a experiência do mundo. Entretanto, enquanto você não estiver convencido disso, sua mente não sossegará. Os Deuses feitos de bronze e cobre não são Deuses. O que significam as várias encarnações dos Deuses (Avatares) nos livros mitológicos, como, Brahma, Vishnu e Mahadev (Shiva)? Qual é a extensão da divindade deles? Apenas enquanto o “Poder” os aviva, eles são Deuses.

Qual é o sinal do devoto (Bhakta)? Ele tem de reconhecer Deus, ele tem de Realizar quem ele é. O que somos nós? Nós somos nada. Ao abandonar o apego com o corpo, você deveria permanecer apenas “Aquilo”, Brahman. Onde o “eu” está, há aprisionamento. Quando o ‘eu’ desaparece, o aprisionamento vai embora. A quem deveríamos chamar de devoto? Aquele que está procurando a si mesmo e está descobrindo a si mesmo, é o Devoto. Nós procuramos internamente o nosso Ser, e através da fala dele, meditamos em Deus. Estamos absortos em nossa Auto-busca e através de palavras faladas, estamos ocupados meditando em Deus. Quando encontramos o Ser, nós eliminamos tudo mais e selecionamos aquilo que nós somos. Tornamo-nos convencidos a respeito do nosso Ser e ficamos convictos. Convictos a respeito do que? A respeito da Realidade. Aqui a certeza completa tornou-se possível por causa da palavra falada. Assim, o grande momento da Realização de Deus chegou! O oceano é como é. Apenas as ondas surgem e desaparecem. O que é liberdade? Conhecer o nosso Ser é Liberdade. Os elementos nascem por meio dos elementos, mas também nascem da Energia-Vida, Chaitanya.

As abordagens persuasiva e discriminatória, ambas estão contidas dentro dessa Energia-Vida. A primeira abordagem contém o método da discriminação e eliminação (peneirando o não-essencial do Essencial). Isso é afirmado para provar que tudo o que tem aparência, é falso. No Siddhanta ou na afirmação final, é dito: “Tudo é Brahman”. Os quatro estados básicos da consciência (manas, bhudi, chitta, e aham), os três estados (vigília, sono com sonhos e sono profundo). As três qualidades (Rajas, Tamas e Sattva), e os dez órgãos dos sentidos (e as várias coisas, e as maneiras como essas coisas são apreciadas ou experimentadas) todos tomados juntos, não são nada além de Chaitanya, que é Dnyana, ou Conhecimento. Esse mesmo “Conhecimento Uno” é experimentado como o mundo inteiro, no momento do “conhecer”. O Conhecimento é experimentado, e aparte dele você não pode experimentar ou renunciar isso, nem pode tentar artificialmente anulá-lo. No mesmo momento do conhecer, a experiência é possível apenas por causa do Chaitanya Auto-Existente. Quando através de observação precisa e apurada, há certeza e convicção definida, isso se chama Siddhanta, ou “Verdade Final”. Então, muito serenamente, há certeza a respeito de Deus. Há a Realização de que existe apenas Um, e nada mais. Entretanto, pelo insistente apego ao corpo, essa paz e contentamento são destruídos. Por isso você deveria dizer, “Diga-me quem sou eu!” O demônio da dúvida deveria ser questionado, “Diga-me quem eu sou!” Entretanto, isso o mantém quieto, pois como ele pode mostrar algo além de Brahman?

Nós não deveríamos nos desviar da confiança a respeito da nossa Natureza Real. A consciência-corpo traz algo mais. Ela apenas aumenta a dúvida e as desconfianças e tenta colocá-lo para baixo. Não caia. Os Deuses e todas as várias deidades são todos ilusão. Eles são nossa própria imaginação. Não nutra falsas idéias ou falsas dúvidas.

A história do rei Nala da cidade de Nishadha nos conta que ele não lavou os pés depois de ter ido urinar. Ele entrou em sua casa e por causa dessa falta, o mal ou Kali, entrou no seu corpo e mente. Nessa história, “os pés”, significam a base ou a raiz que deveria ser purificada. Devemos examinar o que está na raiz de todas as coisas. Observe isso. Se você ver claramente na raiz e exterminar a dúvida, só sobrará então a pureza básica, a claridade fundamental. Aquilo que é basicamente limpo, é forte. Então há certeza e convicção e nenhum lugar para a dúvida. Enquanto a pureza fundamental não estiver aí, o mal ou a dúvida certamente entrarão. Tudo é cheio de dúvidas e isso é a tendência da mente de voltar-se na direção da consciência-corpo. Portanto, é dito que os aspirantes não devem se desviar do Ser.

O corpo está assumindo uma forma particular de acordo com seu estado (infância, juventude, velhice, etc.). Ele não pode se segurar a uma forma que desejar. Ele tem essa forma devido ao milagroso poder da Energia da Vida, Chaitanya. A Consciência, embora esteja no corpo, não tem nenhuma forma ou configuração particular. A Consciência tem a qualidade natural de fazer-nos sentir ou perceber algo. Essa qualidade é chamada “Chaitanya na qualidade de Conhecimento”. Essa Energia-Vida na qualidade de Conhecimento assume que ela é este ou aquele corpo e funciona conforme se identifique com alguma forma. Sem pensar que Ela é o Ser, a Consciência considera como verdadeiro tudo o que é visto ou o que quer que pareça estar existindo e funciona com essa confusão. Na verdade, esteja ela governando um corpo ou não, ela é a “Vida” sem limitações ou alguma forma particular.

Ela é sem falhas, mas assume que ela tem uma forma, ou mesmo que ela mesma é a forma do corpo, o que é um engano tolo. Com esse conceito de ser um corpo sendo mantido de maneira muito forte, ela busca propriedades e posses externas que são pertinentes a ela. Desse modo, por tornar-se ignorante de sua realidade, ela se enamora com o corpo que é perecível. Ela dá uma importância extraordinária para o corpo e sofre desnecessariamente muito pesares.

A forma do corpo não é a nossa Existência Original. Ela é apenas um estado momentâneo indesejado. Se você olhar para ela cuidadosamente você pode queimar a rede de desejos e anseios sem fogo. Os Santos nos falam: “Não seja seduzido pela consciência-corpo. Você não precisa de nada”. Portanto, o aspirante não deveria desviar-se de ser o SER. Você não deveria nunca permitir que o seu contentamento fosse perturbado. A sua Auto-Confiança (Confiança no Ser) deveria ser forte assim. Que dia ou hora é propício ou não propício para “ Aquilo” que é Brahman? O Ser é o poder que está acima do tempo. Que momento pode ser ruim para Ele? Ele próprio é o “mérito” no momento meritório. Tal coisa chamada de momento ruim não tem nada a ver com Ele. O Ser é o Deus dos Deuses, é quem dá o “Melhor” para todos. A consciência- corpo faz você esquecer o discernimento da Razão Pura. Portanto, você deve ficar muito alerta. Mesmo quando você dorme na sua cama você deve pensar que você é Brahman, O Deus dos Deuses e ter paz. Nunca esqueça a Verdade Brilhante – que você é sem forma, limpo, puro e sem mácula, você deve ficar estabilizado naquele Contentamento que permanece não movido por coisa alguma. O Deus Vitthala deixa de ser Brahman porque Rukmini está perto dele? (isso refere-se à unificação dos princípios masculino e feminino, da não-forma e a manifestação) Ambos são puros, sem forma, sagrados, são inteiramente apenas a Energia-Vida. Permaneça como Vitthala. Mantenha o conceito de que você é o Ser, Atman. Aqui a palavra Atman significa “Consciência sem forma”, Chaitanya. A convicção constante de que você é o Supremo Ser, é Liberação ou Liberdade. A liberdade está sempre existindo e não precisa ser cultivada. Ser o Ser é ser Livre.

Você não deveria esquecer nunca que você é o Ser. Eu lhe digo isso, mas isso não será impresso na sua mente a menos que você fique na companhia dos Santos. Renda-se aos Santos. Se você está internamente concordando e ficando alerta, mas secretamente está tendo dúvidas, que bem isso poderá trazer? Escute agora um “Grande Princípio” - aquele que não tem absolutamente nenhuma dúvida, é o Siddha, o Mestre. A história de Visoba Khechara conta que ele dormiu com seus pés na pedra de Shiva-Lingham. Quando perguntaram sobre isso para ele, ele disse “Existe algum lugar onde Shiva não esteja? Toda esta terra é um Shiva-Lingham, meus pés também são Shiva, eles não são algo diferente. Este Mundo inteiro é Shiva”. Isso não deve ser esquecido jamais. Essa determinação não deve esmorecer.

No estágio de Siddha, aquele que anteriormente era chamado de “Namya”, não está ali, (o qual tornou-se Santo Namdev, que visitou o sábio Visoba e foi iluminado a respeito do Deus Todo-Permeador). Não há nenhum “outro” ali. Não há nada como um “segundo”, ou alguém mais. O segundo não está lá. O “outro” não é relevante ali. Aquele que entendeu isso é o Siddha. Aquele que tem dúvida ainda é um buscador, um aspirante.

Não faltam pecados e méritos no mundo. Uma vez que você se identifica com o corpo, o oceano de pecados e méritos é preenchido. Todas essas coisas são faladas nos Vedas. Os Vedas nos ensinam como realizar ações enquanto pensamos que somos um corpo físico. Quando a inteligência do homem ultrapassa o limite do corpo, os Vedas não podem dar nenhuma instrução para aquele que é um Bhakta, um Devoto. Quando a pessoa está além do corpo físico, além do perceptível, o que pode ser dito sobre ela? Quais são os seus sinais? Sinais são apenas facetas, qualidades. O Ser é desprovido de qualquer formato. Quando percebemos que somos o Ser, como podemos descrever “Suas” qualidades ou falta de qualidades? Aquele que entende a si mesmo como o Ser, está além do mérito e do pecado e transcendeu as barreiras das formas visíveis. Ele é Vitorioso. Aquele é seu dia da Vitória (Vijaya-Dashmee). Esse dia é o Dia Dourado. Essa é a taça de Néctar Imortal. O nascimento e a morte se vão. O estado de ser um indivíduo, um “Jiva”, acaba. Os próprios Vedas colocaram suas próprias barreiras. Quando você atravessou, então está sem dúvida a respeito do Ser. O 'eu' que estava no corpo, tornou-se Shiva. Ele é Vitorioso. Ele é agora Mestre, com o poder absoluto de Brahman, o Poder do Ser, a Realidade do Si mesmo. Paramatma, o Ser Supremo, Rama, retomou Seu Reino. Essa conquista é o estado de “Vitória”.