terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Siddharameshwar Maharaj – Bombei, 7 de outubro de 1935


Se você não está certo de si mesmo, qualquer trabalho realizado não é digno de ser chamado de trabalho. O mundo todo é varrido pela corrente da dúvida. Certeza ou convicção, nesse caso, são para serem entendidas em relação a sermos o Ser. Devemos ter certeza de quem somos nós. Senão, todas as coisas são inúteis. Nós somos o Ser, mas sem sermos definidos a esse respeito, qual é a utilidade de falar sobre isso? Devemos estar certos em nossas mentes e então podemos fazer o que quisermos. Só será útil prosseguir os estudos, se o coração do discípulo estiver muito puro em relação a seu Mestre. É aquela confiança no Guru que irá dar para a pessoa o fruto do esforço espiritual. Todas as outras conversas são sem sentido. Claramente sentimos que sem termos certeza, tudo é uma caricatura. Mas qual é o ponto em falar sobre isso? Não haverá benefício em tal discurso. Onde há Conhecimento sem nenhuma dúvida, há Contentamento. Esse “Contentamento” não é dependente de nada. Esse Contentamento não é produto de nenhum ritual ou de ações que a pessoa faça. O contentamento que é dependente de tais coisas não é o Contentamento Real. O Contentamento Independente é possível apenas através da Auto-Realização (a realização do Ser). Quando você estiver convencido a respeito de ser Brahman, isso em si é Contentamento. O Contentamento é uma indicação da conquista da Realidade. A ausência da dúvida deveria ser conhecida como uma indicação de Contentamento.

O ouvinte pede para que lhe seja dito qual é o sinal da convicção e o Guru diz para ele descobrir quem é o Todo-Poderoso Uno Absoluto e para que fique certo a respeito disso. Deus é aquele Poder através do qual este mundo veio a existir. Você tem agora em você “Aquilo” através do qual o mundo todo se move e você está usando isso agora. Através “Disso” apenas, você está experimentando a si mesmo, e o mundo. Veja o que você tem! O mundo é por causa Disso. Através “Disso” esse mundo é alimentado e nutrido. É “Disso” que o sol, a lua, as estrelas e os cinco elementos (terra, água, fogo, vento e céu) são feitos. Tudo isso está acontecendo sem nenhum problema, sem um monte de trabalho duro para construir ou destruir. Tal “Poder” (Chaitanya) está dentro de você. É através desse Poder que você está tendo a experiência do mundo. Entretanto, enquanto você não estiver convencido disso, sua mente não sossegará. Os Deuses feitos de bronze e cobre não são Deuses. O que significam as várias encarnações dos Deuses (Avatares) nos livros mitológicos, como, Brahma, Vishnu e Mahadev (Shiva)? Qual é a extensão da divindade deles? Apenas enquanto o “Poder” os aviva, eles são Deuses.

Qual é o sinal do devoto (Bhakta)? Ele tem de reconhecer Deus, ele tem de Realizar quem ele é. O que somos nós? Nós somos nada. Ao abandonar o apego com o corpo, você deveria permanecer apenas “Aquilo”, Brahman. Onde o “eu” está, há aprisionamento. Quando o ‘eu’ desaparece, o aprisionamento vai embora. A quem deveríamos chamar de devoto? Aquele que está procurando a si mesmo e está descobrindo a si mesmo, é o Devoto. Nós procuramos internamente o nosso Ser, e através da fala dele, meditamos em Deus. Estamos absortos em nossa Auto-busca e através de palavras faladas, estamos ocupados meditando em Deus. Quando encontramos o Ser, nós eliminamos tudo mais e selecionamos aquilo que nós somos. Tornamo-nos convencidos a respeito do nosso Ser e ficamos convictos. Convictos a respeito do que? A respeito da Realidade. Aqui a certeza completa tornou-se possível por causa da palavra falada. Assim, o grande momento da Realização de Deus chegou! O oceano é como é. Apenas as ondas surgem e desaparecem. O que é liberdade? Conhecer o nosso Ser é Liberdade. Os elementos nascem por meio dos elementos, mas também nascem da Energia-Vida, Chaitanya.

As abordagens persuasiva e discriminatória, ambas estão contidas dentro dessa Energia-Vida. A primeira abordagem contém o método da discriminação e eliminação (peneirando o não-essencial do Essencial). Isso é afirmado para provar que tudo o que tem aparência, é falso. No Siddhanta ou na afirmação final, é dito: “Tudo é Brahman”. Os quatro estados básicos da consciência (manas, bhudi, chitta, e aham), os três estados (vigília, sono com sonhos e sono profundo). As três qualidades (Rajas, Tamas e Sattva), e os dez órgãos dos sentidos (e as várias coisas, e as maneiras como essas coisas são apreciadas ou experimentadas) todos tomados juntos, não são nada além de Chaitanya, que é Dnyana, ou Conhecimento. Esse mesmo “Conhecimento Uno” é experimentado como o mundo inteiro, no momento do “conhecer”. O Conhecimento é experimentado, e aparte dele você não pode experimentar ou renunciar isso, nem pode tentar artificialmente anulá-lo. No mesmo momento do conhecer, a experiência é possível apenas por causa do Chaitanya Auto-Existente. Quando através de observação precisa e apurada, há certeza e convicção definida, isso se chama Siddhanta, ou “Verdade Final”. Então, muito serenamente, há certeza a respeito de Deus. Há a Realização de que existe apenas Um, e nada mais. Entretanto, pelo insistente apego ao corpo, essa paz e contentamento são destruídos. Por isso você deveria dizer, “Diga-me quem sou eu!” O demônio da dúvida deveria ser questionado, “Diga-me quem eu sou!” Entretanto, isso o mantém quieto, pois como ele pode mostrar algo além de Brahman?

Nós não deveríamos nos desviar da confiança a respeito da nossa Natureza Real. A consciência-corpo traz algo mais. Ela apenas aumenta a dúvida e as desconfianças e tenta colocá-lo para baixo. Não caia. Os Deuses e todas as várias deidades são todos ilusão. Eles são nossa própria imaginação. Não nutra falsas idéias ou falsas dúvidas.

A história do rei Nala da cidade de Nishadha nos conta que ele não lavou os pés depois de ter ido urinar. Ele entrou em sua casa e por causa dessa falta, o mal ou Kali, entrou no seu corpo e mente. Nessa história, “os pés”, significam a base ou a raiz que deveria ser purificada. Devemos examinar o que está na raiz de todas as coisas. Observe isso. Se você ver claramente na raiz e exterminar a dúvida, só sobrará então a pureza básica, a claridade fundamental. Aquilo que é basicamente limpo, é forte. Então há certeza e convicção e nenhum lugar para a dúvida. Enquanto a pureza fundamental não estiver aí, o mal ou a dúvida certamente entrarão. Tudo é cheio de dúvidas e isso é a tendência da mente de voltar-se na direção da consciência-corpo. Portanto, é dito que os aspirantes não devem se desviar do Ser.

O corpo está assumindo uma forma particular de acordo com seu estado (infância, juventude, velhice, etc.). Ele não pode se segurar a uma forma que desejar. Ele tem essa forma devido ao milagroso poder da Energia da Vida, Chaitanya. A Consciência, embora esteja no corpo, não tem nenhuma forma ou configuração particular. A Consciência tem a qualidade natural de fazer-nos sentir ou perceber algo. Essa qualidade é chamada “Chaitanya na qualidade de Conhecimento”. Essa Energia-Vida na qualidade de Conhecimento assume que ela é este ou aquele corpo e funciona conforme se identifique com alguma forma. Sem pensar que Ela é o Ser, a Consciência considera como verdadeiro tudo o que é visto ou o que quer que pareça estar existindo e funciona com essa confusão. Na verdade, esteja ela governando um corpo ou não, ela é a “Vida” sem limitações ou alguma forma particular.

Ela é sem falhas, mas assume que ela tem uma forma, ou mesmo que ela mesma é a forma do corpo, o que é um engano tolo. Com esse conceito de ser um corpo sendo mantido de maneira muito forte, ela busca propriedades e posses externas que são pertinentes a ela. Desse modo, por tornar-se ignorante de sua realidade, ela se enamora com o corpo que é perecível. Ela dá uma importância extraordinária para o corpo e sofre desnecessariamente muito pesares.

A forma do corpo não é a nossa Existência Original. Ela é apenas um estado momentâneo indesejado. Se você olhar para ela cuidadosamente você pode queimar a rede de desejos e anseios sem fogo. Os Santos nos falam: “Não seja seduzido pela consciência-corpo. Você não precisa de nada”. Portanto, o aspirante não deveria desviar-se de ser o SER. Você não deveria nunca permitir que o seu contentamento fosse perturbado. A sua Auto-Confiança (Confiança no Ser) deveria ser forte assim. Que dia ou hora é propício ou não propício para “ Aquilo” que é Brahman? O Ser é o poder que está acima do tempo. Que momento pode ser ruim para Ele? Ele próprio é o “mérito” no momento meritório. Tal coisa chamada de momento ruim não tem nada a ver com Ele. O Ser é o Deus dos Deuses, é quem dá o “Melhor” para todos. A consciência- corpo faz você esquecer o discernimento da Razão Pura. Portanto, você deve ficar muito alerta. Mesmo quando você dorme na sua cama você deve pensar que você é Brahman, O Deus dos Deuses e ter paz. Nunca esqueça a Verdade Brilhante – que você é sem forma, limpo, puro e sem mácula, você deve ficar estabilizado naquele Contentamento que permanece não movido por coisa alguma. O Deus Vitthala deixa de ser Brahman porque Rukmini está perto dele? (isso refere-se à unificação dos princípios masculino e feminino, da não-forma e a manifestação) Ambos são puros, sem forma, sagrados, são inteiramente apenas a Energia-Vida. Permaneça como Vitthala. Mantenha o conceito de que você é o Ser, Atman. Aqui a palavra Atman significa “Consciência sem forma”, Chaitanya. A convicção constante de que você é o Supremo Ser, é Liberação ou Liberdade. A liberdade está sempre existindo e não precisa ser cultivada. Ser o Ser é ser Livre.

Você não deveria esquecer nunca que você é o Ser. Eu lhe digo isso, mas isso não será impresso na sua mente a menos que você fique na companhia dos Santos. Renda-se aos Santos. Se você está internamente concordando e ficando alerta, mas secretamente está tendo dúvidas, que bem isso poderá trazer? Escute agora um “Grande Princípio” - aquele que não tem absolutamente nenhuma dúvida, é o Siddha, o Mestre. A história de Visoba Khechara conta que ele dormiu com seus pés na pedra de Shiva-Lingham. Quando perguntaram sobre isso para ele, ele disse “Existe algum lugar onde Shiva não esteja? Toda esta terra é um Shiva-Lingham, meus pés também são Shiva, eles não são algo diferente. Este Mundo inteiro é Shiva”. Isso não deve ser esquecido jamais. Essa determinação não deve esmorecer.

No estágio de Siddha, aquele que anteriormente era chamado de “Namya”, não está ali, (o qual tornou-se Santo Namdev, que visitou o sábio Visoba e foi iluminado a respeito do Deus Todo-Permeador). Não há nenhum “outro” ali. Não há nada como um “segundo”, ou alguém mais. O segundo não está lá. O “outro” não é relevante ali. Aquele que entendeu isso é o Siddha. Aquele que tem dúvida ainda é um buscador, um aspirante.

Não faltam pecados e méritos no mundo. Uma vez que você se identifica com o corpo, o oceano de pecados e méritos é preenchido. Todas essas coisas são faladas nos Vedas. Os Vedas nos ensinam como realizar ações enquanto pensamos que somos um corpo físico. Quando a inteligência do homem ultrapassa o limite do corpo, os Vedas não podem dar nenhuma instrução para aquele que é um Bhakta, um Devoto. Quando a pessoa está além do corpo físico, além do perceptível, o que pode ser dito sobre ela? Quais são os seus sinais? Sinais são apenas facetas, qualidades. O Ser é desprovido de qualquer formato. Quando percebemos que somos o Ser, como podemos descrever “Suas” qualidades ou falta de qualidades? Aquele que entende a si mesmo como o Ser, está além do mérito e do pecado e transcendeu as barreiras das formas visíveis. Ele é Vitorioso. Aquele é seu dia da Vitória (Vijaya-Dashmee). Esse dia é o Dia Dourado. Essa é a taça de Néctar Imortal. O nascimento e a morte se vão. O estado de ser um indivíduo, um “Jiva”, acaba. Os próprios Vedas colocaram suas próprias barreiras. Quando você atravessou, então está sem dúvida a respeito do Ser. O 'eu' que estava no corpo, tornou-se Shiva. Ele é Vitorioso. Ele é agora Mestre, com o poder absoluto de Brahman, o Poder do Ser, a Realidade do Si mesmo. Paramatma, o Ser Supremo, Rama, retomou Seu Reino. Essa conquista é o estado de “Vitória”.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Jalaluddin Rumi - A confiança em Deus contraposta aos esforços humanos

Os animais disseram: “Ó sábio iluminado,
Põe de lado a cautela; ela não pode lhe ajudar contra o destino;
Afligir-se com a precaução é trabalho e dor;
Vai, confia na Providência, confiar é a melhor parte.
Não combate o decreto divino, ó cabeça quente,
Para que esse decreto não entre em conflito consigo.
O homem deveria ser como um morto perante os comandos de Deus,
Para evitar que um golpe lhe viesse do Senhor de todas as criaturas”.


Ele disse:
“Verdade, mas, embora a confiança seja nosso principal apoio,
Ainda assim o Profeta nos ensina a considerar os meios.
O Profeta bradou em alta voz:
'Confia em Deus, mas amarra a pata do camelo.'
Ouça o ditado:'O trabalhador é o amigo de Deus'.
Por confiança na Providência não negligencie os recursos.
Ide, ó quietistas*, praticai a confiança com auto-empenho,
Esforçai-vos por atingir vossos objetivos pouco a pouco.
A fim de obter sucesso, lutai e esforçai-vos;
Se não vos esforçais por vossos objetivos, sois tolos”.


Eles disseram: “O que for obtido do pobre através de esforço
É porção espúria que trará má sorte.
De novo, saiba que o auto-empenho vem da fraqueza;
Confiar em outros meios macularia a confiança perfeita.
O auto-empenho não é mais nobre que a confiança em Deus.
O que é mais belo que se entregar a Ele?
Muitos são os que fogem de um perigo para outro pior;
Muitos fogem de uma cobra e encontram um dragão.
O homem planeja um estratagema e nele é apanhado;
O que ele toma por vida se revela destruição.
Ele fecha a porta depois que o inimigo já está dentro de casa.
Desse tipo eram as tramas do Faraó.
Esse rei invejoso matou dez mil recém-nascidos,
Enquanto Moisés, a quem buscava, estava em sua casa.


“Nossos olhos estão sujeitos a muitas enfermidades;
Vai! Cega sua visão na visão de Deus.
Pela nossa previdência, a previdência Dele é uma boa troca;
Na visão Dele está tudo o que podemos desejar.
Enquanto o bebê não consegue apoiar-se nem correr,
Ele usa as costas de seu pai como veículo.
Mas quando se torna independente ele usa suas próprias mãos,
Cai em sérios dissabores e desgraças.
As almas de nossos primeiros pais, antes mesmo de suas mãos,
Fugiram da fidelidade em busca de prazeres vãos.
Feitos cativos pela ordem “Descei daqui”**,
Tornaram-se escravos da inimizade, da luxúria e da vaidade.
Somos a família do Senhor e Seus bebês de peito.
O Profeta disse: 'Os homens são a família de Deus',
Aquele que manda chuva do céu
Não poderá também nos dar o pão de cada dia?”
O leão disse: “Verdade, ainda assim, o Senhor das criaturas
coloca uma escada diante de nossos pés.
Degrau por degrau, devemos subir até o telhado!
A noção de fatalismo não tem sentido neste lugar.
Vós tendes pés – por que então fingir que sois aleijados?
Vós tendes mãos – por que então esconder vossas garras?
Quando um senhor coloca uma pá na mão de um escravo,
O escravo sabe o que isso quer dizer sem que lhe digam.
Como essa pá, nossas mãos são sinais de nosso Mestre para nós;
Sim, se pensardes bem, elas são as instruções que Ele nos dá.
Quando houverdes levado a sério Seus sinais,
Modelareis vossas vidas confiando em Sua indicação;
Portanto, estes sinais revelam Sua intenção,
Tiram de vós o fardo e estipulam vosso trabalho.
Aquele que o suporta, torna-o suportável para vós,
Aquele que é capaz, coloca-o dentro de vossa capacidade.
Aceitai seu comando e sereis capazes de executá-lo.
Buscai a união com Ele e vos vereis unidos.
Esforço é dar graças pelas bênçãos de Deus;
Pensais que vosso fatalismo vos dá essas graças?
Dar graças pelas bênçãos aumenta as bênçãos,
Mas o fatalismo arranca essas bênçãos de vossas mãos.
Vosso fatalismo é dormir no caminho;
Não durmais até divisardes as portas do palácio do Rei.
Ah! Não durmais, ó fatalistas irrefletidos,
Até que tenhais alcançado aquela Árvore da Vida carregada de frutos,
Cujos galhos são sempre sacudidos pelo vento,
E cujos frutos chovem na cabeça dos adormecidos.
Fatalismo significa dormir entre salteadores.
Pode um galo que canta cedo demais ter esperança de paz?


“Se elaborais desculpas e não aceitais os sinais de Deus,
Embora vos considereis homens, vede, sois mulheres.
A razão que possuíeis se perdeu,
E a cabeça cuja razão se foi é um rabo.
Já que os ingratos são desprezíveis,
Eles são ao final lançados ao poço do fogo.
Se realmente tendes confiança em Deus, esforçai-vos
E lutai, em constante confiança no Todo-Poderoso.


* quietistas – Seguidores da doutrina mística segundo a qual a perfeição moral consiste na anulação da vontade, na indiferença absoluta e na união contemplativa com Deus.

** Alcorão II – 36. Expulsão do paraíso.

Ramesh S. Balsekar - Jnana e Bhakti

O ponto principal do ensinamento de Nisargadatta Maharaj, é que neste sonho vivo da vida nós não somos os personagens sonhados que pensamos que somos, mas que somos o sonhador (quem está sonhando), e é a nossa identificação equivocada com o personagem sonhado, como uma entidade separada sendo o 'fazedor', o que causa a ilusão do 'aprisionamento'. Nesse mesmo sentido, então, não pode ser o personagem sonhado, uma mera aparência, que pode ser 'despertado' ou 'liberado'. De fato, o despertar consiste em aniquilar totalmente a falsa entidade com a qual nós temos erroneamente nos identificado. Nessa mesma linha, ademais, o 'despertar' ou a 'liberação' não pode ser 'atingido' através de nenhum esforço. Quem irá fazer os esforços – um fenômeno, uma mera aparência? O despertar pode apenas acontecer quando há uma absoluta convicção, através de uma apercepção intuitiva, que nós somos o sujeito que sonha e não os objetos sonhados que desaparecem com o fim do sonho. Para levar esse tema para sua conclusão lógica, a questão final seria: Como essa apercepção intuitiva surge ou acontece? Mas então, esse é exatamente o ponto. Se o processo estivesse dentro dos parâmetros da compreensão intelectual, como poderia ser 'intuitivo'? O intelecto é muito necessário para entender certos fundamentos, mas existe um limite restrito de até onde o intelecto pode ir, e depois, é apenas quando o intelecto abandona todos os esforços e se rende completamente que a intuição assume.


Deveria ficar claro, portanto, que a identificação com uma entidade separada, imaginária, independente, deve desaparecer antes que possa haver o despertar, a iluminação ou a liberação. A identidade equivocada deve ser abandonada antes que a verdadeira identidade possa ser assumida. O que é falso deve ir, antes que o que é verdadeiro possa vir. Isso pode acontecer, diz o Maharaj, de muitas formas. A profunda concentração intelectual do Jnani na fonte da consciência que nós somos chega a um ponto onde a dualidade, a base do intelecto, desaparece repentinamente e a unicidade intuitiva toma a frente. Também, a profunda devoção do Bhakta por seu Deus pode alcançar uma intensidade onde, novamente, a dualidade entre o Bhakta e Deus desaparece de repente e há a realização de que ele, o Bhakta e Ele, o Deus são um, não dois. O mesmo resultado poderia seguir através de um longo e árduo processo de prática Yogi, ou mesmo através de um genuíno serviço social altruísta. Entretanto, o ponto de decolagem final, em todos os casos, é a aniquilação total da identidade individual equivocada. E nesse estágio final o milagre acontece. No momento em que a falsa identidade é liquidada, não sobra nada com o que se identificar, exceto a totalidade! E essa é a experiência do Jnani, do Bhakta bem como a do Yogi.


Um visitante europeu perguntou uma vez para Maharaj: “O mais importante dos mandamentos é: 'Deveis amar o Senhor teu Deus'. Mas eu acho muito frustrante, na verdade, porque esse mandamento fica difícil de ser obedecido pela adição das palavras 'com todo seu coração e toda sua alma e toda sua mente'. Significa claramente que uma mera atitude religiosa bem intencionada não é o suficiente, uma vez que as palavras adicionadas enfatizam que o amor que é mostrado não deve meramente parecer ser amor, mas deve de fato ser amor. A pessoa pode agir como se realmente amasse, mas como assegurar que realmente se ama de verdade? Como assegurar espontaneidade?” A resposta do Maharaj foi simples e linda: 'Sem a auto-realização, nenhuma virtude é genuína; é apenas quando você chega na mais profunda convicção de que a mesma vida flui através de tudo, e que você é essa vida, que você começa a amar tudo natural e espontaneamente.' Tal convicção, é claro, só pode vir através de uma apercepção intuitiva, e a Natureza (Nisarga) terá o seu próprio curso para esse processo intuitivo.


No que diz respeito à identidade do Ser e Deus, é interessante notar a similaridade muito próxima entre o ensinamento dos grandes místicos de várias fés em diferentes épocas.

Nos é dito por São João da Cruz, em seus cânticos que “A corda do amor ata tão próximos Deus e a alma, e os une de tal maneira, que ela os transforma e os torna um através do amor; de modo que, embora em essência eles sejam diferentes, ainda assim, na glória e aparência a alma parece Deus e Deus parece a alma”. (cântico, xxxi) E, em seguida: “Deixe-me ser transformado de tal maneira em Tua beleza, que, sendo iguais em beleza, nós possamos nos ver ambos em Vossa beleza; de maneira que um se segurando ao outro, possamos cada um ver sua beleza refletida no outro, a beleza de ambos sendo a Tua apenas, e a minha absorvida Nela". (cântico xxxvi)


Também o grande Plotino nos fala: “Se um homem vê a ele mesmo tornar-se um com o Um, ele tem em si mesmo a semelhança do Um, e se ele passar por si mesmo como uma imagem por seu arquétipo, ele chegou no fim da sua jornada. Isso pode ser chamado de o vôo do solitário para o Solitário.” (Eneadas, VI 9.911) Os místicos vêem a relação do ser e Deus como algo parecido com a relação entre uma imagem e seu protótipo, mas nunca mais do que uma semelhança, nunca representada no total, mas próxima o bastante para provocar expressão.


Bakti e Jnana na verdade não são diferentes. Nos estágios finais, no caso de ambos, a identidade com a entidade individual desaparece de fato, e o Maharaj, em sua usual abordagem direta e imediata, nos pede para aceitarmos essa base verdadeira de imediato e rejeitar totalmente a falsa. Ele não diz que é fácil, mas ao mesmo tempo nos estimula a não continuar perseguindo uma mera sombra como o ideal. Ele quer que aceitemos nossa verdadeira posição agora, firmemente, com convicção e deixemos a sombra se fundir na coisa essencial! Se você continuar perseguindo a sombra como o ideal, o ideal estará sempre se recuando de você, ele diz.


O Senhor Krishna aponta no Bhagavad Gita, sholoka 10, capítulo 10: "Eu dou Bhudi Yoga, a Yoga da discriminação, para aqueles sempre devotados que Me adoram com amor, por meio do qual eles chegam à Mim.” Conforme a glória de Deus começa a alvorecer na mente do adorador e ele fica cada vez mais envolvido em seu amor por Deus, a Natureza o conduz para o que quer que seja necessário para o progresso seguinte. Maharaj diz que o Guru está sempre lá pronto com sua graça. Tudo o que é requerido é a capacidade, um tipo de receptividade requerida para aceitá-la. Tudo o que é necessário é sinceridade e determinação. A Natureza faz o resto de acordo com a necessidade e as circunstâncias de cada caso.


Seria interessante examinar nesse contexto o que dois dos grandes místicos indianos – Jnaneshvara, fundamentalmente um Jnani, e Tukaram, reconhecido como um dos maiores Bhaktas – tem a dizer sobre esse assunto.

Em seu Jnaneshvari, e especialmente em seu Amritanubhava, vemos a grandeza de Jnaneshvara como um filósofo. Mas é realmente em sua literatura Abhanga que o encontramos despejando seu coração em Bhakti. Geralmente, acredita-se que Jnaneshvara, também conhecido como Jnanadeva, sendo um Jnani, não sofreu as aflições da separação de Deus que o Bhakta sofre. Mas existe um certo número de seus primeiros Abhangas que mostram que, como Tukaram e outros Bhaktas, Jnaneshvara também penou por seu amado Deus. Ele lamenta que a despeito de ser um com Deus, ele não está apto a vê-Lo. “Eu me consumo atrás de Ti”, ele diz, “como um homem com sede anseia por água”. Então, em frustração ele diz: “Que Vossa vontade seja feita, pois todas minhas súplicas foram em vão”.”


Jnaneshvara segue para uma luta poética quando ele descreve a obtenção da bênção consequente da comunhão com Deus: “Conforme aproximei-me de Deus, meu intelecto ficou imóvel e quando O vi me tornei Ele próprio...” (Abhanga 79). E, novamente: “Em todas as minhas experiências fui aplacado pelo silêncio. O que devo fazer se não posso dizer nenhuma palavra? Nivriti mostrou-me Deus em meu coração e eu tenho apreciado a cada dia um novo aspecto Dele.” (Abhanga 76) E mais, “Preenchido com Deus, por dentro e por fora, quando vamos abraçá-Lo, nos tornamos identificados com Ele. Deus não pode ser repelido mesmo se o desejarmos. A individualidade chega a um fim. Quando o desejo persegue Deus, Ele se esconde, num lampejo, entretanto, Deus se mostra quando todos os desejos se aquietam”.


Jnaneshvara simboliza dentro de si mesmo uma unidade não apenas do Jnana e do Bhakti mas também do Yoga em seus vários aspectos. Estando totalmente ciente de que é impossível no nível intelectual entender a natureza de Deus, ou a nossa própria natureza verdadeira, ele diz: “A brisa fresca do sul não pode ser feita cair como água de um pedaço de pano; a fragrância das flores não pode ser amarrada por uma corda … não se pode encher um jarro com o brilho das pérolas, o céu não pode ser fechado”. (Abhanga 93) Para ele o divino aparece como a unidade do homem e da mulher; Shiva e Shakti estão ambos fundidos Nele. A verdadeira bênção, diz Jnaneshvara, é para ser encontrada apenas na Auto-visão, e ele a descreve da seguinte maneira: “Ele vê sua própria forma presente em toda parte. Ele vê o reflexo da forma sem forma. A pessoa que vê se esvai, em toda parte Deus está presente. Não há nem o emergir nem o submergir de Deus. Deus apenas é, e Ele aprecia sua própria felicidade em Sua experiência unitiva. O marido invisível mantém-se desperto em sua cama sozinho”. (Abhanga 91)


Em contraste com Jnaneshvara, a carreira mística de Tukaram fornece um exemplo típico de Bhakti puro. Ele passa por inacreditáveis sofrimentos e angústias até que, finalmente e de repente, ele tem uma visão de Deus, ou uma Auto-visão, que transforma sua vida penosa numa vida de luz, liberdade e harmonia total. Ele descreve sua experiência mais íntima num verso lírico: “O mundo todo tornou-se agora iluminado e a escuridão chegou ao fim… É impossível descrever a bênção da iluminação incessante… Deus e o Ser estão agora deitados na mesma cama… o mundo todo está preenchido com música divina… Tanto meu interior quanto meu exterior estão repletos de bênção divina...” E finalmente, a mais elevada experiência do místico: “Dei a luz a mim mesmo, e saí do meu próprio útero; todos os meus desejos chegaram ao fim e meu objetivo foi alcançado… todas as coisas desapareceram e se fundiram na unicidade… Eu não vejo nada, e ainda vejo tudo. O 'eu' e 'meu' foram removidos de mim, eu falo sem falar. Eu como sem comer… Não preciso nascer e morrer. Eu sou como sou. Não há nem nome nem forma para mim e estou além da ação e da inação… Adorar a Ti torna-se impossível uma vez que És idêntico à todos os meios de adoração. Se eu quero cantar uma música (em Teu louvor) Tu és aquela música. Se eu toco o címbalo Tu és o címbalo.”


Os Abhangas de Tukaram são repletos de misticismo. Ele diz que gostaria que Deus não fosse sem forma: “Seja sem forma para aqueles que querem que sejas assim, mas para mim assuma uma forma e um nome que eu possa amar...” Mais tarde, entretanto, Tukaram estabelece uma identidade entre Deus e o devoto: “Viemos a conhecer agora Tua natureza real. Não há nem santo nem Deus. Não há semente, como pode haver fruto? Tudo é uma ilusão.”


Vimos tanto Bhakti quanto Jnana em ação, e fica claro que eles não são caminhos separados para 'atingir' o Definitivo. Realmente, não há a questão de 'selecionar' um ou o outro. Na experiência mística o 'indivíduo' é totalmente aniquilado, quaisquer que sejam as circunstâncias – ou seja, se o ponto de decolagem foi alcançado através da devoção ou através do conhecimento ou através da combinação dos dois. A conclusão clara é que enquanto a idéia de uma entidade separada com um sentido de ser o fazedor permanece, a experiência mística do universo ser uma ilusão não pode ocorrer. Portanto, devemos aceitar o fato de que nunca houve, nunca pôde haver uma entidade separada nem para estar aprisionada ou para ser liberada.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Kabir - Poemas Extáticos


Dou risada quando escuto que o peixe na água está com sede.

Você não percebe o fato de que a coisa que está mais viva de todas

está dentro de sua própria casa;

e assim você caminha de um lugar sagrado para outro com um

olhar confuso!


Kabir vai lhe contar a verdade: vai onde quer que você queira,

para Calcutá ou para o Tibete;

se você não puder encontrar aonde sua alma está escondida,

para você o mundo nunca será real!
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Ó amigo, eu lhe amo, pense sobre isso cuidadosamente!

Se você está apaixonado, então por que está adormecido?


Se você O encontrou,

Dê a si mesmo para Ele, tome-O para si.


Por que é que repetidamente você O perde de vista ?


Se de qualquer forma você está quase para cair num sono pesado,

por que perder tempo amaciando a cama e arrumando os travesseiros?


Kabir vai lhe contar a verdade: é assim que o amor se parece:

suponha que você tivesse que cortar a sua cabeça

e dá-la para alguém,

que diferença isso faria?

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Estudante, faça a simples purificação.


Você sabe que a semente está dentro da castanheira

e dentro da semente estão as flores, as castanhas, e a sombra da árvore.


Desse modo, dentro do corpo humano existe a semente

e dentro da semente existe um corpo humano novamente.


Fogo, ar, terra, água e espaço – se você não quer o secreto,

você não pode ter esses também.


Pensadores, escutem, digam-me o que vocês sabem daquilo que não está dentro da alma!


Pegue um jarro cheio de água e coloque-o dentro da água -

agora ela tem água dentro e água fora.

Não devemos dar nome a isso,

para que as pessoas tolas não comecem a falar novamente sobre o corpo e a alma.

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Se você quer a verdade, direi-lhe a verdade:


Escute o som secreto, o som real, que está dentro de você.

Aquele a respeito do qual ninguém fala, diz o som secreto para Si mesmo

e foi Ele quem fez tudo isso.

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Converso com meu amante interior e digo: por que tanta pressa?

Sentimos que há algum tipo de espírito que ama os

pássaros, os animais e as formigas -

talvez o mesmo que deu uma radiância a você

no útero de sua mãe.



É lógico você estar andando completamente

órfão agora?


A verdade é que você afastou-se de si mesmo,

e decidiu ir para o escuro sozinho.

Agora está enroscado e esqueceu

o que um dia você soube,

e é por isso que tudo o que você faz tem em si uma estranha falha.

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Amigo, espere pelo Convidado enquanto você está vivo.

Mergulhe na experiência enquanto você está vivo!

Pense … e pense … enquanto você está vivo.


O que você chama de “salvação” pertence ao tempo antes da morte.
.
Se você não romper as cordas enquanto estiver vivo,

está pensando que fantasmas vão fazer isso depois?


A idéia de que a alma irá se unir aos extáticos

apenas pelo corpo estar apodrecido

é fantasia total.


O que se encontra agora é encontrado depois.

Se não encontra nada agora,

você simplesmente terminará num apartamento na cidade da morte.

Se fizer amor com o divino agora,
.
na próxima vida você terá a face do desejo saciado.

Tukaram - A Onipotência de Deus

Todas as coisas dependem de Deus. Com Seu grande poder, o que Ele não pode fazer? De fato, Deus é o movedor Universal. Ele move o corpo e também o universo. Quem faz esse corpo mover-se? Quem pode nos fazer falar exceto o próprio Deus? É apenas Deus que pode nos fazer ouvir ou ver. Apenas Ele pode manter a mente em seu egoismo. Ele é quem pode fazer até mesmo a folha de uma árvore mover-se. Deus preencheu o Todo por dentro e por fora. O que pode estar faltando a Ele em Sua presença universal?

A tarefa do homem é apenas repousar em Deus e levar a cabo seu trabalho sem pedir nada Dele. Deixe o corpo ser entregue a Deus e Ele fará como deseja. Ele é o suporte do mundo todo e trará a coisa apropriada no momento apropriado. Nessa fé devemos nos fortalecer. Não deveríamos ter nenhuma outra crença além dessa. Deus é todo poderoso e pode realmente alcançar qualquer coisa. Por que deveria um homem se importar com qualquer coisa que seja? Aquele que permeia o universo e dirige a vontade, o que Ele não pode realizar?

O pouco poder que Tukaram tem deve-se a Deus. Não me louvem por achar que possuo poder, não é meu poder mas o poder de Deus. Por que me fadar atribuindo poder a mim? O boneco não pode agir na ausência do bonequeiro. Poderiam os macacos terem feito as pedras nadarem no oceano, na ausência de Deus? É Deus que é o único movedor. Todo resto é inanimado em comparação, e Deus usa-o para Seus propósitos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Farid ud-Din Attar - A linguagem dos pássaros

Palavras de Deus a David

Deus Altíssimo disse uma vez ao íntegro Davi: “Anuncia a Meus servidores as palavras que agora direi: 'Ó punhado de terra! Se eu não vos oferecesse recompensa ou castigo, Céu ou Inferno, Meu serviço seria agradável para vós? Se não houvesse nem luz nem fogo, vos ocuparíeis de Mim? A Mim é devido o respeito supremo; deveis agora adorar-Me sem esperança nem temor, e, no entanto, se não estivésseis entretidos pela esperança e pelo temor, pensaríeis em Mim? Sou vosso Senhor, e convém, de todas as formas, que Me adoreis do fundo de vosso coração!' Dize, pois, a Meus servidores que retirem a mão de qualquer outro que não Eu, e que Me adorem como mereço”.

Rejeita completamente tudo o que não é Ele, queima e depois reúne as cinzas. Espalha, então, essas cinzas, a fim de que, dispersadas pelo vento da excelência, não fique nem o seu rastro. Quando fizeres isso, o que buscas manifestar-se-á então dessas cinzas. Se Deus permite que te ocupes da eternidade e da luxúria, sabe com toda segurança que Ele te afastou d'Ele mesmo.

Se é pelo Paraíso que rezas, esteja certo que perdeste teu caminho.

História sobre Mahmud e Ayaz

Mahmud chamou um dia seu favorito Ayaz; colocou-lhe sua coroa e fê-lo sentar-se no trono, dizendo: “Eu te dou meu reino e meu exército. Reina! Pois este país é teu: desejo que exerças a realeza; tira o anel de tua orelha e prende-o à lua e ao peixe em sinal de escravidão”. Quando os que integravam o exército de Mahmud, cavaleiros e infantes, ouviram essas palavras, tiveram seus olhos obscurecidos pelo ciúme. “Jamais no mundo”, disseram, “um rei conferiu tal honra a um escravo”. De sua parte, o inteligente Ayaz, ao inteirar-se da vontade do sultão, pôs-se a chorar. Porém, todos lhe disseram: “Estás louco! Não sabes o que fazes! Já que chegaste à realeza, tu que nunca foste mais que um escravo, por que chorar? Abraça a compensação!” Ayaz respondeu sem hesitar: “Estais longe do caminho da verdade, pois não compreendeis que o rei da grande assembléia quer enviar-me para longe de sua presença. Deu-me uma ocupação para manter-me separado dele. Ele quer que eu governe seu reino; quanto a mim, não quero afastar-me dele um só instante. Quero obedecê-lo, porém não quero deixá-lo. Que tenho eu que ver com seu reino e com seu governo? A minha felicidade é ver seu rosto”.

Se estudas as coisas espirituais e conheces a verdade, aprende de Ayaz a maneira de servir. Ó tu que permaneceste ocioso dia e noite, ocupado somente de teus desejos primários e vulgares, enquanto a cada noite, como para servir-te de exemplo, ó ambicioso, Ayaz desce do vértice do poder. Quanto a ti, não experimentas o desejo espiritual nem de dia e nem de noite, e, como um ignorante, não te moves de teu lugar. Ayaz desce do alto da excelência e tu vens pretender seu lugar. Tu não és homem o bastante! A quem poderás enfim contar a tua dor? Enquanto o Paraíso e o Inferno estiverem em teu caminho, como teu espírito conhecerá o segredo que te anuncio? Porém, quando abandonares essas duas coisas, a aurora desse mistério se elevará da noite. O jardim do Paraíso não é para os indiferentes, pois o divino está destinado aos homens de coração. Quanto a ti, renuncia, como as pessoas da via espiritual, a um e a outro; vai mais além sem prender teu coração. Quando renunciares e viveres separado disso, ainda que sejas mulher, tornar-te-ás homem do caminho espiritual.

Oração de Rabi'ah

Rabi'ah disse um dia a Deus: “Ó Tu, que conheces o segredo de todas as coisas realiza os desejos mundanos de meus inimigos e dá a meus amigos a eternidade da vida futura. Quanto a mim, estou livre das duas coisas e não anseio por este mundo ou pelo próximo. Se possuísse este mundo ou o futuro, eu teria pouca intimidade Contigo. Porém é de Ti somente, ó meu Deus, que tenho necessidade, Tu me bastas. Se voltasse meu olhar para os dois mundos ou se desejasse outro senão Tu, eu me consideraria infiel”.


Aquele que tem Deus tem tudo, para ele é lançada uma ponte sobre os sete oceanos. Tudo o que é e tudo o que será é alegórico se não for o Senhor excelente. Encontrarás um equivalente a tudo o que buscas, à exceção d'Ele somente, Ele é sem igual, absoluto e necessariamente existente.


Outras palavras de Deus a Davi

O criador do mundo falou a Davi com estas palavras por detrás do véu do mistério: “Tudo o que existe no mundo, bom ou mau, visível ou invisível, tudo isso não existe senão como substituição de Minha presença, para a qual não encontrarás sucedâneo ou equivalente. Uma vez que nada pode substituir-Me, não deixas de estar comigo. Eu sou tua alma, não te separes de Mim; Eu te sou necessário, estás sob minha dependência. Não sejas nem por um momento, negligente a respeito dessa necessidade. Não busques existir separado de Mim; não desejes o que te é oferecido se não for Eu”.

Ó tu, que vives cheio de desejos do mundo! Estás dia e noite mergulhado nas preocupações a que te arrastam esses desejos; porém não esqueças que Aquele que reconheces como digno de teu culto deve ser tua única meta nos dois mundos. O mundo visível te vende seu nada, porém de tua parte, cuida de não vender Deus por nada no mundo. Tudo o que prefiras em detrimento Dele é um ídolo que te torna infiel e tu és igualmente culpável se preferes a ti mesmo que a Ele.


O sultão Mahmud e o ídolo de Somnat


Quando o exército de Mahmud atacou Somnat, encontrou lá o ídolo que os homens chamavam Lat. Seus adoradores apressaram-se a oferecer, para resgatá-lo, dez vezes o seu peso em ouro; porém, Mahmud recusou-se firmemente vendê-lo e fez acender um grande fogo para queimá-lo. Um de seus oficiais permitiu-se então dizer: “Não convém destruir este ídolo. Seria melhor aceitar o que propõem e tomar o ouro que oferecem” - “Eu temo”, respondeu Mahmud, “que no dia do supremo julgamento o Criador diga, diante do universo reunido: 'Escutai o que fizeram Azur* e Mahmud: o primeiro esculpiu ídolos e o segundo os vendeu'”.


Conta-se que assim que Mahmud lançou às chamas o ídolo desses adoradores do fogo, caíram do interior da estátua cem cestos de pedras preciosas e Mahmud obteve assim gratuitamente o que era desejado. Mahmud disse então: “Lat teve seu prêmio e aqui está o meu, ambos providos por Deus”.


Ah! Destrói tu mesmo os ídolos aos quais rendes culto, para que não pereças miseravelmente como esse ídolo. Consome tua alma pelo amor de teu Divino Amigo, como Mahmud consumiu aquele ídolo, a fim de que faças sair as pedras preciosas de sob a face exterior. Quando o grito de alast** ressoar em teus ouvidos, não te demores em responder 'sim'. Antes mesmo de existires já estavas ligado a este compromisso; não deixes agora de cumpri-lo. Uma vez que assumiste perante Deus esse compromisso, como será possível agora renegá-lo? No princípio, aceitaste o compromisso de alast, já que o tomaste positivamente àquela época, como o desobedecerias hoje? Não podes desviar-te de cumprir tua promessa; comporta-te então de acordo, executa fielmente o que aceitaste e não ajas por subterfúgios.


*Azur – nome dado pelos muçulmanos a Taré, pai idólatra de Abraão.

** Alast – refere-se à célebre passagem do Corão: “Alastu birabbikum? Qalu: Bala, shahidné!” - “Não sou vosso Senhor? As criaturas responderam: Sim, somos testemunhas!” (Corão, VII, 172). Deus faz essa pergunta às almas quando elas ainda se encontravam unificadas em Adão.

Philokalia - Nicephorus o solitário - Atenção

Pergunta: Sabemos por meio de provas anteriores, dos esforços praticados pelos padres queridos de Deus, de que existe um certo fazer que aceleradamente liberta a alma das paixões e através do amor, une-a a Deus; tal obra é necessária para todos que guerreiam por Cristo. Todas nossas dúvidas estão sanadas a esse respeito e estamos firmemente convencidos disso. Mas pedimos que nos ensine o que é atenção da mente e como nos tornarmos dignos de adquiri-la, pois esse trabalho é totalmente desconhecido por nós.


Nicephorus: Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo que disse: “Sem mim, nada podeis fazer.” (João xv. 5) Tendo chamado-O para me ajudar e auxiliar, tentarei até onde posso mostrar-lhe o que é atenção e como, com a vontade de Deus, conseguimos adquiri-la.

Alguns dos santos nomearam a atenção como guardar a mente, outros, guardar o coração, outros ainda, de sobriedade, outros, silêncio mental e outros novamente, com nomes diferentes. Mas todos esses nomes significam a mesma coisa. Assim como podemos dizer do pão: um pedaço, uma fatia, uma parte, também é assim nesse caso. Quanto ao que a atenção é, e quais são seus traços característicos, você aprenderá imediatamente.

Atenção é um sinal de sincero arrependimento. Atenção é o apelo da alma para si mesma, aversão pelo mundo e ascensão na direção de Deus. Atenção é renúncia do pecado e aquisição de virtude. Atenção é uma indubitável certeza da remissão dos pecados. Atenção é o começo da contemplação, ou melhor, sua condição necessária: pois, através da atenção, Deus aproxima-Se e revela-Se à mente. Atenção é serenidade da mente, ou melhor, é ela permanecer firmemente plantada e não vagar, através do presente da misericórdia de Deus. Atenção significa cortar os pensamentos, ela é a morada da lembrança de Deus e a tesouraria do poder para aguentar tudo o que possa vir. Portanto, a atenção é a origem da fé, da esperança e do amor, uma vez que aquele que não tem fé não pode suportar as aflições vindas de fora e aquele que não as sofre de bom grado, não pode dizer: 'Ele é meu refúgio e minha fortaleza' (Salmo xci 2) e aquele que não tem o Todo Poderoso como seu refúgio não pode ser realmente sincero em seu amor por Ele.

Essa mais grandiosa de todas as obras pode ser obtida por muitos, ou mesmo por todos, principalmente se forem ensinados, trabalhando em coação interna e no calor de sua fé. Mas o que é raro não é a lei. Portanto, é necessário buscar um professor que não esteja no erro, para seguir suas instruções e assim aprender a distinguir, na questão da atenção, defeitos e excessos da direita e da esquerda, encorajados através da sugestão diabólica. Dos próprios sofrimentos da tentação dele ele explicará para nós o que for necessário e irá nos mostrar corretamente aquele caminho mental que podemos então seguir com menos impedimentos. Se não há nenhum professor do tipo em vista, deve-se procurar por um, com todo esforço. Mas se, mesmo após tal procura, ele não for encontrado, então, com um espírito contrito, clamando a Deus com lágrimas e orando para Ele assiduamente e com humildade, faça o que eu lhe digo.

Você sabe que nossa respiração consiste na inspiração e expiração do ar. O orgão que serve para isso são os pulmões, que ficam em volta do coração, de modo que o ar passando através deles envolve o coração. Portanto, a respiração é um caminho natural para o coração. E então, tendo coletado sua mente dentro de você, conduza-a para o canal da respiração através do qual o ar atinge o coração e, junto com esse ar inalado, force sua mente a descer no coração e permanecer ali. Acostume-a, irmão, a não sair do coração tão logo, pois no início, ela se sente muito sozinha naquela reclusão e aprisionamento internos. Mas quando se acostuma com isso, ela começa, pelo contrário, a não gostar de suas voltas sem rumo para fora, pois não é mais desagradável e aborrecido para ela ficar dentro. Assim como um homem que esteve longe de casa, quando retorna fica repleto de alegria ao ver novamente seus filhos e sua esposa, abraça-os e não pode falar muito com eles, pois a mente, quando se une ao coração, é preenchida com deleite e alegria indizíveis. Do mesmo modo, um homem vê que o reino de Deus está realmente dentro de nós; e vendo-o agora em si mesmo, luta com prece pura para manter a mente e fortalecê-la ali, e considera todo o externo como indigno de atenção e totalmente não atraente.

Quando então você entrar no lugar do coração, como eu lhe mostrei, dê graças a Deus e, glorifique Sua piedade, mantenha-se sempre nesse esforço e ele irá lhe ensinar coisas que de nenhuma outra maneira você jamais aprenderia. Ademais, você deveria saber que quando sua mente torna-se firmemente estabelecida no coração, ela não deve ficar lá indolente e silenciosa, mas ela deve constantemente repetir a oração: 'Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tenha piedade de mim!' e nunca parar. Essa prática, guardando a mente de sonhos, torna-a elusiva e impenetrável às sugestões do inimigo e todos os dias conduz-lhe cada vez mais ao amor e ao anseio por Deus.

Se, entretanto, a despeito de seus esforços, você não tiver êxito em entrar no reino do coração como descrevi, faça o que agora eu lhe digo e, com a ajuda de Deus, você encontrará o que busca. Você sabe que em todo homem a conversa interna está no peito. Pois, quando nossos lábios estão silenciosos, é no peito que falamos e discursamos com nós mesmos, rezamos, cantamos salmos e fazemos outras coisas. Assim, tendo banido todos os pensamentos dessa conversa interior (pois você pode fazer isso se quiser), dê a ele a seguinte oração: 'Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tenha piedade de mim!' - e force, ao invés de todos os outros pensamentos, ter apenas esse constante clamor internamente. Se você continuar a fazer isso constantemente, com toda a sua atenção, então com o tempo isso irá abrir para você o caminho para o coração que eu descrevi. Não há dúvida a esse respeito, pois nós mesmos provamos isso por experiência.

Se você fizer isso com forte desejo e atenção, cheio de doçura, toda uma tropa de virtudes virá a você: o amor, a alegria, a paz e outras, através das quais, depois, cada petição sua será atendida em nome de Jesus Cristo, Nosso Senhor, com quem, com o Pai e o Espírito Santo, estão a glória e o poder, a honra e a adoração, agora e para sempre. Amém.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Rodney Collin - Lembrança de Si, Consciênia e Memória

Se a lembrança de si é tão desejável, por que é tão difícil alcançá-la? Para responder essa questão, devemos retornar em maiores detalhes à questão da atenção. A possibilidade de estados superiores de consciência no homem depende precisamente de que certas matérias refinadas produzidas pelo corpo estejam submetidas à sua atenção.
O processo de digestão no homem consiste da rarefação progressiva de alimento, ar e percepções que ele recebe; e a matéria fina da qual falamos pode ser considerada como o produto final dessa rarefação em condições usuais. Diferente dos músculos ou do sangue, que são constituídos por células, essa matéria pode ser visualizada num estado molecular – ou seja, num estado semelhante aos gazes ou perfumes. É assim extraordinariamente volátil, instável e difícil de conter.
No caso do homem, contudo, está sujeita ao controle psicológico, e esse controle psicológico é atenção. Controlada pela atenção, essa matéria torna-se o veículo potencial da autoconsciência.
No estado comum do homem – ou seja, ao atuar como uma máquina, quando seus processos internos operam independentemente de sua vontade ou desejo – essa matéria fina segue as leis que governam todas as matérias livres em estado molecular. Difunde-se a partir do homem em todas as direções ou nas direções que ‘chamam sua atenção’. Tão logo seja produzida, ou com breve retardo, essa matéria fina sai através dele de uma forma ou de outra. Contê-la ou acumulá-la requer vontade, que ele normalmente não possui e produz uma tensão interna que só pode ser mantida com muito autoconhecimento e autocontrole.
Essa difusão da energia mais refinada do homem toma várias formas. Pode sair dele normalmente como energia sexual, verter dele nocivamente como rancor ou irritação e filtrar-se a partir dele como inveja ou autopiedade. Mais comumente, difunde-se simplesmente a partir dele para criar o curioso estado de ‘fascinação’, no qual o homem perde completamente sua identidade, seja numa conversa, numa tarefa, com um amigo, um inimigo, um livro, um objeto, um pensamento ou uma sensação. Essa ‘fascinação’ é simplesmente o efeito da matéria fina fluindo do homem numa direção determinada por seu tipo e personalidade, arrastando com ela sua atenção. Em casos extremos, essa sucção de atenção pode ser tão completa, que o corpo do homem fica então como um ser vazio até mesmo dos rudimentos de uma individualidade psíquica. Essa fascinação é o modo mais usual de gastar a matéria fina da energia criativa do homem. Constitui de fato o estado usual do homem e, por essa mesma razão, é completamente irreconhecível e comumente invisível.
Pelas classes mais refinadas e produtivas de trabalho humano, pelo uso da atenção, um homem aprende a manter essa ‘fascinação’ numa certa direção. Um bom sapateiro, por exemplo, permanece por uma hora ‘fascinado’ pela confecção de um par de sapatos, um político ‘fascinado’ pela elocução de seu discurso e uma mulher ‘fascinada’ pela carta que escreve a um amigo. Sem essa retenção mais elementar da atenção numa determinada direção, nenhum bom trabalho, seja de que espécie for, poderá ser produzido.
Existem assim três categorias no gasto comum ou difusão de matéria fina. O fluxo exterior pode vagar de objeto em objeto, da visão para a audição e desta para o pensamento à medida que um ou outro fenômeno chame sua atenção. Novamente, o fluxo para o exterior pode ser atraído por algo que exerça forte impressão na atenção – uma pessoa da qual gostamos, outra que nos irrita, um livro interessante, um som agradável, etc. Ou, finalmente, por um simples esforço de atenção, o fluxo pode ser mantido por certo tempo numa direção desejada.
Como dissemos, esses diferentes modos nos quais a matéria fina é normalmente consumida representam diferentes aspectos da função particular em atividade – um aspecto puramente automático, um aspecto emocional ou um aspecto intencional. Além do mais, elas são características de três processos distintos e produzem três grupos de resultados diferentes.
Ao mesmo tempo, todos eles são mecânicos e sua principal característica é que sua atenção só é suficiente para tornar possível que a matéria fina que traz o estado de alerta aplique-se a uma coisa de cada vez. Este é o estado ordinário do homem. Ele pode dar-se conta somente de uma coisa por vez. Pode dar-se conta ou da pessoa com quem está falando ou de suas próprias palavras, pode estar atento à indisposição de alguém ou à dor em seu próprio corpo, pode dar-se conta de uma cena ou de seus próprios pensamentos. Mas, exceto em ocasiões muito raras, não pode estar atento simultaneamente a suas próprias palavras e à pessoa a quem as está dirigindo, à sua própria dor e à dor de alguma outra pessoa, a uma cena e a seus próprios pensamentos. Assim, todos os ‘dar-se conta’ do homem em seu estado ordinário podem ser classificados como ‘fascinação’, pois, dando-se conta de algum fenômeno exterior, perde o dar-se conta de si mesmo, ou dando-se conta de algo nele mesmo, perde o dar-se conta do mundo exterior – ou seja, torna-se ‘fascinado’ por algo interno ou externo, com exclusão de todo o resto.
Certamente, a experiência de todo homem contém casos de atenção dividida e, não fosse assim, não teríamos indício algum de como proceder. Uma das razões para o extraordinário poder que as sensações do amor e do sexo têm sobre os homens, por exemplo, é que, em determinadas circunstâncias, elas trazem um intenso estado de alerta de si mesmo e do outro ao mesmo tempo. Essa é uma verdadeira degustação do estado seguinte de consciência. Mas, se essa sensação chega a homens completamente despreparados, ela é acidental e está além de seu controle.
Uma das principais coisas ensinadas nas escolas do quarto caminho é a divisão intencional da atenção entre si mesmo e o mundo exterior. Mediante longa prática e constante exercício da vontade, a matéria fina do estado de alerta não é permissivamente fluída numa só direção, mas dividida, uma parte sendo retida em si mesmo enquanto a outra é dirigida ao exterior em direção ao que quer que se esteja estudando ou fazendo. Pela divisão da atenção, o estudante aprende a dar-se conta de si mesmo enquanto fala com outro, de si mesmo enquanto permanece em determinado cenário, de si mesmo agindo, sentindo ou pensando em relação ao mundo exterior. Desse modo, aprende a lembrar-se de si, primeiro por alguns momentos e, logo, com frequência crescente. E em proporção a seu aprendizado de lembrança de si, suas ações adquirem consistência e significação que eram impossíveis enquanto sua atenção movia-se unicamente de uma fascinação a outra.
A característica desse segundo estado, de lembrança de si, é a divisão da atenção. Existem várias coisas estranhas a respeito desse estado. Primeiro, por certas razões cósmicas, ninguém pode empreendê-la ou praticá-la até que lhe tenham falado dela ou explicado. Segundo, quando explicada, toda pessoa normal tem vontade e energia suficientes para captar um vislumbre momentâneo do que pode significar. Se ele deseja, pode, no momento em que ouve a respeito, tornar-se alerta de si mesmo e de seu meio ambiente, de si mesmo sentado numa cadeira lendo sobre uma nova idéia.
Mas essa lembrança de si não pode ser repetida ou mantida, exceto por esforço consciente, não pode acontecer por si mesma. Nunca se converte em hábito. E, no momento em que a idéia da lembrança de si ou da divisão da atenção é esquecida, todos os esforços, não importa o quanto sejam sinceros, degeneram-se mais uma vez em ‘fascinação’, isto é, no dar-se conta de uma coisa de cada vez.
Assim, é necessário assinalar que a estreita atenção colocada numa tarefa, o dar-se conta do corpo físico, o exercício mental de uma classe ou de outra, visões ou visualizações, mesmo dentro de emoções profundas, não constituem a lembrança de si. Tudo isso pode ser feito sem divisão de atenção, ou seja, podemos nos tornar ‘fascinados’ por uma tarefa, por um dar-se conta físico, por um exercício mental ou por uma emoção e, inevitavelmente, nos tornaremos fascinados no momento em que a atenção deixar de estar dividida entre o ator ou observador em nós mesmos e aquilo que observamos ou sobre o que atuamos.
Outra curiosa artimanha psicológica deve ser mencionada em conexão com o momento em que um homem escuta algo pela primeira vez a respeito da lembrança de si. Se ele a conecta com algo que já ouviu ou leu antes, com algum termo religioso, filosófico ou oriental com o qual já esteja familiarizado, a idéia imediatamente desaparece para ele, perde seu poder. Ela só pode abrir novas possibilidades para ele como uma idéia completamente nova. Se a conectarmos com alguma associação familiar, significa que ela ingressou na parte errada da mente, onde ficará arquivada como qualquer outro fragmento de conhecimento. Um choque foi desperdiçado e somente com grande dificuldade poderemos retornar à mesma oportunidade.
Quando um homem escuta algo pela primeira vez a respeito da lembrança de si, se o toma seriamente, todos os tipos de novas oportunidades imediatamente se abrem para ele. Não pode compreender como nunca pensou nisso antes. Sente que tem apenas que o fazer e todas as suas dúvidas, artificialismos e dificuldades desaparecerão e toda uma série de coisas se tornará possível e fácil para ele, as mesmas que antes considerava completamente fora de seu alcance. Sua vida toda será transformada.
Nesse sentimento, ele está tão certo quanto errado. Está bastante certo na crença de que, se ele pudesse lembrar de si mesmo, tudo seria diferente, tão diferente quanto ele imagina. Só que, a princípio, não vê a enorme resistência que há nele mesmo para dominar esse novo estado. Não percebe que, para alcançar a lembrança de si como um estado permanente ou mesmo para alcançar com frequência momentos recorrentes dela, ele deve reconstruir sua vida completamente. Essa tarefa exigirá uma grande parte da matéria fina que sua máquina pode poupar ou produzir, toda a vontade e atenção que pode desenvolver pelo exercício mais constante. Terá de lutar contra e abandonar eventualmente todas as formas psicopáticas de queimar sua matéria fina, a qual forma agora parte tão familiar e aparentemente necessária da sua vida – rancor, irritação, indignação, autopiedade, todos os tipos de medos, todas as espécies de sonhos, todas as formas pelas quais se hipnotiza no satisfazer-se com as coisas como elas são. Sobretudo, deve querer lembrar de si, constante e permanentemente, não importa quão doloroso e desconfortável possa ser fazê-lo nem quão desagradável possam ser as coisas que ele vê em si mesmo e nas outras pessoas. No momento em que ele cessa de querer lembrar de si, ele perde em algum nível e por certo tempo a possibilidade de fazê-lo.
Ainda que à primeira vista possa parecer extraordinariamente simples, fácil e óbvia, a lembrança de si ou a prática da divisão da atenção requer na realidade uma reconstrução completa da vida de alguém e de pontos de vista tanto em relação a si mesmo quanto em relação aos outros. Enquanto acreditarmos que podemos alterar a nós mesmos ou a outras pessoas, enquanto acreditarmos ter o poder de fazer, ou seja, de tornar as coisas diferentes do que são, seja interna ou externamente, o estado de lembrança de si parece retirar-se de nós quanto mais esforços façamos para alcançá-lo. O que a princípio parecia estar à mão começa a parecer infinitamente distante e impossível de alcançar.
E, ainda assim, muitos anos de conflitos e fracassos podem ser necessários antes que cheguemos a um fato psicológico curioso que, na realidade, está conectado a uma lei muito importante. Esse fato é que, embora seja extraordinariamente difícil dividir nossa atenção em dois, é muito mais possível que ela seja dividida em três: ainda que seja extraordinariamente difícil lembrar-se de si e do meio ambiente simultaneamente, pode ser muito mais possível lembrar-se de si e do meio ambiente que nos cerca na presença de algo mais.
Como vimos, nenhum fenômeno é produzido por duas forças: todo fenômeno e todo resultado real requer três forças. A prática da lembrança de si ou da divisão da atenção está conectada à tentativa de produzir um certo fenômeno: o nascimento da consciência em si mesmo. E, quando isso começa a acontecer, a atenção reconhece com alívio e alegria não dois, mas três fatores – o próprio organismo, sujeito do experimento, a situação na qual esse organismo está exposto no momento e algo permanente situado num nível superior a ambos e que, sozinho, pode resolver a relação entre os dois.
O que é esse terceiro fator que deve ser lembrado? Cada pessoa deve encontrá-lo por si mesma, assim como sua própria forma para ele – seja sua escola, seu professor, seu propósito, os princípios que aprendeu, o Sol, algum poder superior no universo ou Deus. Deve lembrar-se que ele e sua situação estão na presença de poderes superiores, estão ambos banhados pela influência celestial. Fascinado, ele está plenamente absorvido pela árvore que nota. Com a atenção dividida, vê tanto a árvore quanto a si mesmo olhando para ela. Lembrando de si, dá-se conta da árvore, de si mesmo e do Sol brilhando imparcialmente sobre ambos.
Falamos do mundo mineral, do mundo celular, do mundo molecular e do mundo eletrônico. A situação do homem, seus problemas, seu ambiente, dificuldades existentes no mundo material e celular – esta é a força passiva; a energia refinada de consciência dirigida por sua atenção existe no mundo molecular – esta é a força ativa. Aquela que pode resolver o eterno conflito entre esses dois mundos pode derivar-se somente de um mundo ainda mais elevado, o mundo do Sol, o mundo eletrônico. Como a luz do Sol, que une e interpenetra tudo, tanto criando quanto dissolvendo a individualidade, esse terceiro fator deve ser tal que, na lembrança dele, quem lembra está unido a seu meio ambiente, tanto adquire quanto perde a individualidade separada.
Se um homem puder descobrir esse terceiro fator, a lembrança de si torna-se possível para ele, podendo trazer-lhe muito mais do que indicou no início.
Assim, a lembrança de si sempre deverá conter três princípios, três coisas a serem lembradas. E, se uma delas está só e ocupada com alguma tarefa interna, é necessário então lembrar-se de três mundos em si mesmo, três lugares em si mesmo.
Por essa divisão da atenção em três, a matéria fina que é a condutora da força criativa do homem está dividida em três correntes – uma dirigida à ação direta no mundo exterior, outra dirigida no sentido de criar uma conexão com forças superiores e a outra retida em si mesmo. Aquela que é retida em si mesmo, ao longo do tempo seria cristalizada num veículo permanente de autoconsciência, ou seja, numa alma.
Ao mesmo tempo, deve ser lembrado que, onde quer que três forças atuem juntas, seis ordens e seis processos serão possíveis. Assim, pode haver uma lembrança de si para destruição, uma lembrança de si para cura e uma lembrança de si para crime. E, além dessas, a única e verdadeira lembrança de si: a lembrança de si para regeneração. Disso, concluímos que o homem deve priorizar aquelas forças ocultas e superiores e colocar a si mesmo e a sua alma passivamente a serviço delas, invocando como resultado aquela plenitude de vida e luz à qual apenas esse processo aspira.
Podemos tratar agora da relação entre consciência e memória.
A memória comum é um impulso que se move ao redor do círculo da vida do homem apenas na direção do tempo. Surge de um momento de grande conscientização; se não há consciência moral, nenhuma memória é criada. Memória é o traço potencial da lembrança de si. Aqui é possível uma analogia muito exata. Em relação à linha unidimensional da vida corpórea do homem, sua essência é bidimensional, conecta simultaneamente todos os pontos da linha, criando uma superfície. Em relação à superfície da essência do homem, a alma seria um sólido tridimensional, pois não apenas conectaria todos os diferentes pontos da sua vida e toda a superfície de sua essência, como também uniria estes a outras possibilidades e forças existentes em outra dimensão. Imaginemos que o círculo corpóreo do homem seja um fio, que a superfície conectiva de sua essência seja um disco metálico e a alma potencial seja um prisma sólido do qual a essência é como que uma seção isolada. O fenômeno da consciência será agora exatamente análogo ao calor.
Nossa sensação usual do viver é como se fosse um ponto de rápido calor que avançasse ao redor do círculo. Mas imaginemos um momento de consciência, digamos, aos quinze anos de idade. Nesse ponto, o fio esquenta. Impulsos de calor correm ao longo do fio em ambas as direções a partir desse ponto. Mas, naturalmente, para uma percepção que se move adiante, ao largo do fio a partir do ponto em questão, como estamos acostumados a nos mover no tempo, sempre lhe parecerá que procedem de trás, ou seja, do passado. A condução do calor ou memória para trás, isto é, em direção a uma idade mais precoce, nos será desconhecida por causa do nosso método de percepção. E, novamente, quanto mais nos distanciarmos do momento de consciência, do ponto aquecido, mais fracos parecerão os impulsos. A memória, como todos sabemos, vai-se desvanecendo gradualmente.
Ao mesmo tempo, ainda que a memória dos momentos de consciência apresente uma tendência a desaparecer, é importante compreender que esse desvanecimento não é consequência da passagem do tempo. Nossa principal ilusão sobre a memória é que ela declina com o tempo, como as roupas ou os edifícios. Não é assim. Ela declina pela falta de nutrição. Memória é gerada por consciência moral e deve ser nutrida por consciência moral, isto é, deve ser nutrida conscientemente.
Na verdade, memória é um fenômeno que não está sujeito às leis do tempo. O homem que realmente começa a compreender isso encontrará novos mundos abrindo-se perante ele e verá praticamente como entrar e possuir tais mundos.
Examinemos primeiro como a memória é perdida e então como pode ser cultivada e trazida à vida.
Como dissemos, a razão mais frequente para a perda de memória é unicamente negligência e inanição. O homem comum, em circunstâncias comuns, não faz esforços de nenhuma espécie para manter as memórias vivas, alimentá-las, recordá-las e prestar atenção nelas. A menos que sejam tão agradáveis ou dolorosas que a própria emoção as retenha em sua consciência, elas desaparecem naturalmente. Esta é a perda passiva de memória.
Mas há também uma destruição ativa da memória. Acha-se na substituição da memória pela imaginação ou, mais simplesmente, pela mentira. Dou, por exemplo, um passeio pela rua onde encontro um conhecido. A princípio, o encontro pode ser bastante claro em minha mente – o que eu disse, o que ele disse, como ele parecia e assim por diante. Mas, quando chego em casa, recapitulo o incidente para minha família. Ao fazê-lo, torno o incidente todo mais divertido e dramático do que realmente foi – faço minhas próprias observações mais engenhosas e as dele mais estúpidas, sugiro algo acerca de seus hábitos, talvez introduzindo outro caráter, ou adapto a conversa de modo a poder inserir uma piada que ouvi ontem. Depois não recordarei mais do fato como realmente foi, mas somente como o recontei. A imaginação e a mentira destruíram a memória.
E, se passo toda minha vida desse modo, certamente após alguns anos será totalmente impossível para mim, distinguir o que realmente me aconteceu do que eu queria que tivesse me acontecido ou temesse que pudesse me acontecer. Ou ainda do que aconteceu a outros ou que eu meramente tenha lido a respeito. Dessa forma, a memória é ativamente destruída. A diferença está no fato de que, enquanto a memória que se perde por negligência ainda permanece intacta, embora enterrada, e, com duros esforços, possa ser recuperada, a memória destruída por mentira é danificada para sempre, quando não absolutamente aniquilada.
Da mesma maneira que a plena circulação do sangue pelo corpo é necessária à saúde física e ao crescimento, assim também a plena circulação de memória através do longo corpo da vida do homem é necessária à saúde e ao crescimento da essência. Onde a circulação de sangue falta, onde órgãos são bloqueados ou obstruídos de seu fluxo, a enfermidade inevitavelmente se abate. Assim também ocorre na sequência temporal da vida. Aqueles anos, meses, incidentes ou relacionamentos que não desejamos recordar começam a ulcerar-se por falta de compreensão. Um bloqueio se forma, um ‘complexo’ se desenvolve e, sem nosso conhecimento do que está acontecendo, o presente torna-se intoxicado por aquilo que não queremos lembrar.
Vários sistemas psicológicos modernos reconheceram essa conexão entre a livre circulação da memória e a saúde psíquica. Alguns na verdade sustentaram que o fluxo de memória pode ser reportado até mesmo ao período anterior ao nascimento. Pacientes sob hipnose pareciam descrever as sensações do embrião no útero. Um deles, entrevistado pelo Dr. Denys Kelsey, falou até de um estado anterior a esse: “Estava escuro, ainda que repleto de cores de indescritível beleza, havia silêncio completo, ainda que o lugar estivesse preenchido de música celestial, havia quietude, ainda que tudo estivesse vibrando.”
Enquanto isso, o que tem sido negligenciado por tais sistemas é que a perda da memória não pode ser corrigida por qualquer método mecânico ou tratamento, a não ser conscientemente, por vontade e compreensão.
Imaginação, lembrança de si e memória implicam trabalho consciente no futuro, presente e passado, respectivamente.
Como então as memórias podem ser reanimadas e utilizadas? Apenas lhes devolvendo a vida intencional e conscientemente. Suponhamos que eu tenha uma razão particular para querer recordar um encontro com algumas pessoas – parece-me que cometi um erro em relação a elas ou deixei de aproveitar alguma oportunidade que me ofereciam e é muito importante que eu corrija isso. Cuidadosamente, com atenção, começo a desenrolar minha memória. Lembro-me de bater à porta do apartamento em que estavam, sinto que me abrem a porta, vejo-me entrando e sentando. Lembro-me da posição em que estavam sentadas, das cadeiras, dos móveis, dos quadros nas paredes e de como a luz caía sobre a cena vinda da janela. Logo lembro do que disse, da minha voz, de como me senti, de como as outras pessoas reagiram, do que disseram e assim por diante. Gradualmente, se mantenho minha atenção, todos os meus diferentes sentidos – de visão, sons, tato e humor – começarão a contribuir com suas distintas memórias e, pouco a pouco, a cena recuperará seu vigor em meu interior exatamente como foi. De uma vez, meu erro também reordena-se. Vejo-o claramente: tornou-se consciente.
Que eu possa ou não endireitar as coisas no presente ou aproveitar a oportunidade que perdi, são diferentes questões. Tal correção pode precisar de muito pouco tempo e pode até nem ser possível nesta vida. Mas o principal é que a consciência moral foi reportada ao passado. Sou mais consciente agora em relação ao incidente do que o era quando ele efetivamente ocorreu. Nesse sentido, por memória intencional, momentos adicionais de consciência moral podem sempre ser adicionados àqueles que ocorreram naturalmente na sequência do tempo. E, para esse processo de tornar o passado mais consciente, não há limite.
Se esses pontos de aumento de consciência no círculo da vida são multiplicados suficientemente, podemos imaginar que seria gerado calor bastante para afetar a essência do homem e, com o tempo, até mesmo o sólido de sua alma, embora a tarefa de aquecer algo de maiores dimensões a partir de alguma coisa menor – um disco a partir de um fio ou a essência a partir da personalidade, por exemplo – deva ser algo certamente imenso. A exemplo disso, se o calor tivesse de ser transferido da superfície da essência para o sólido da alma, a mesma desproporção seria aparente.
De fato, tal método de aquecimento é manifestamente pouco prático. E, da mesma forma, a idéia de criar consciência na alma exclusivamente a partir de baixo, por assim dizer, vai contra toda a crença e experiência humanas. Temos de supor que seus esforços por se tornar consciente podem mais cedo ou mais tarde levar o homem ao contato com uma fonte de calor ou consciência moral acima dele. A fonte de consciência deve ser considerada a favor de um mundo de mais dimensões.
Num sentido prático, na verdade, é claro que, mesmo a idéia de consciência penetrando profundamente dentro da essência de um homem fará com que ele procure por homens mais conscientes que ele e por ‘escolas’ dirigidas por tais homens. Portanto, seu interesse especial atuará magneticamente como que o atraindo para aqueles em cuja presença ele possa realmente adquirir mais consciência. E, se for um interesse verdadeiramente essencial, não lhe dará descanso até que os encontre.
Além disso, se um homem começa realmente a adquirir os rudimentos de um princípio permanente de consciência ou alma, é certo que essa alma, em virtude de sua penetração dentro de outra dimensão, pode conectá-lo a algum nível de universo em que a energia cósmica criativa seja ilimitada, podendo ser empregada para intensificar a consciência até o limite da resistência. Voltando à nossa explicação anterior, podemos supor que a alma pode relacionar diretamente um homem de matéria em estado molecular ao mundo infinito da energia molecular.
Então, na busca da consciência, precisa-se primeiro compreender que o homem deve fazer tudo por si mesmo – isto é, ele deve penetrar em outro nível somente por seus próprios esforços – e, segundo, que ele não pode fazer nada por si mesmo – ou seja, todo seu empenho deve ser contatar fontes e níveis de energia superiores, pois, a menos que tenha êxito ao fazê-lo, não poderia e nem pode conseguir nada.
Em todo caso, agora é possível começar a apreciar o efeito dos diferentes níveis ou graus de consciência moral. Momentos de consciência moral no círculo da vida corpórea produzirão memórias intensas para os outros momentos da vida e deveriam teoricamente produzir impulsos que retrocedessem em direção ao nascimento. Pudessem, todavia, os efeitos da consciência moral começar a penetrar a essência, mudanças muito maiores teriam lugar. Muito embora um fio perca calor quase que instantaneamente, um disco pode reter calor por um tempo muito maior. Em lugar de ser momentânea, como deve ser no círculo da existência corpórea, a consciência que penetrou na essência já tem certa duração, certa garantia. Não pode ser perdida subitamente. Além do mais, irradiará calor em todas as direções, aquecendo o entrelaçamento de círculos paralelos e cruzados da inter-relação de vidas humanas que, sabemos, estão tecidos numa massa sólida e inextricável. Assim, o contato ou presença de um homem com tal essência pode realmente aumentar a perspicácia daqueles que chegam dentro de sua esfera de radiação ou influência.
Pudesse o sólido interno tornar-se quente, isto é, tivesse um homem criado nele uma alma consciente a partir do material de conscientização acumulado, uma mudança enorme teria resultado. Em primeiro lugar, um sólido aquecido pode na verdade reter calor por um tempo muito maior. Para tal homem, a consciência moral se terá tornado permanente, o fogo central de seu ser. Mais ainda, irradiar-se-á sobre uma área extensivamente maior, talvez cem vezes maior que aquela aquecida só pela irradiação da essência.
Temos assim uma base para classificar os homens de acordo com seu grau de consciência moral. Primeiro há a enorme massa de homens comuns nos quais a consciência, se realmente existe, ocorre apenas momentaneamente e por acidente no curso da vida corpórea. Segundo, existem aqueles para quem a idéia de consciência penetrou na essência e assim adquiriu duração e confiabilidade. E, finalmente, existe um punhado de homens espalhados pela história e pelo mundo que criaram almas conscientes para si mesmos e para quem a autoconsciência é permanente e por cujo intermédio têm o poder de influenciar milhares ou mesmo milhões de homens.
Finalmente, e invisivelmente, podem existir homens de espírito consciente.
A verdadeira história da humanidade é a história da influência desses homens conscientes.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Meher Baba - Entrando nas realidades da vida interior

Embora a realização da Verdade seja o destino final de todas as pessoas, existem muito poucos que têm a preparação necessária para realização inicial desse glorioso destino. A mente do indivíduo mundano está obscurecida por uma espessa camada de sanskaras* acumulados, que deve ser consideravelmente enfraquecida até mesmo para que o aspirante possa entrar no caminho espiritual. O método usual para dissipar gradualmente a carga de sanskaras é seguir com o maior rigor possível, o código externo de rituais e cerimônias religiosas. Essa fase de conformidade externa às injunções ou tradições religiosas é conhecida como a busca do Shariat, ou karma-kanda. Ela abrange ações como oferecer orações diárias, visitar lugares sagrados, cumprir os deveres prescritos pelas escrituras e observar as regras bem estabelecidas dos códigos éticos geralmente aceitos pela consciência moral da época. A fase de conformidade externa é útil à sua maneira como uma disciplina espiritual, embora não esteja de forma alguma livre de efeitos maléficos. Pois ela não apenas tende a tornar a pessoa seca, rígida e mecânica, mas, muitas vezes, nutre algum tipo sutil de egoísmo. No entanto, a maioria das pessoas está ligada à vida de conformidade externa porque elas acham que essa é a maneira mais fácil de aplacar suas consciências inquietas. A alma, muitas vezes, gasta várias vidas acumulando as lições da conformidade externa, mas sempre chega um momento em que ela se cansa da conformidade externa e torna-se mais interessada nas realidades da vida interior. Quando uma pessoa mundana parte para esse tipo superior de busca, pode ser dito que ela tenha se tornado um aspirante. Como o inseto que passa por uma metamorfose para o próximo estágio de existência, o aspirante transcende a fase de conformidade externa (Shariat, ou karma-kanda) e entra no caminho da emancipação espiritual, conhecido como tariqat ou Adhyatma-marga. Nesta fase superior o aspirante já não está satisfeito com a conformidade externa de determinadas regras, mas quer adquirir aquelas qualificações que tornariam sua vida interior espiritualmente bela. Do ponto de vista das realidades da vida interior, a vida de conformidade externa pode muitas vezes ser espiritualmente estéril e uma vida que se desvia de tal conformidade rígida pode muitas vezes ser espiritualmente rica. Ao buscar conformidade com as convenções e as formalidades estabelecidas, há quase sempre uma tendência de se escorregar para uma vida de valores falsos ou ilusórios em vez de uma vida baseada em valores verdadeiros e duradouros. O que é convencionalmente reconhecido nem sempre precisa ser espiritualmente sadio. Pelo contrário, muitas convenções expressam e incorporam valores ilusórios uma vez que têm surgido como resultado do funcionamento de mentes medianas espiritualmente ignorantes. Os valores ilusórios são em sua maioria convencionais porque transformam-se naquela matriz de mentalidade que é mais comum. Isso não significa necessariamente que as convenções não incorporem nada além de valores ilusórios. Às vezes as pessoas se voltam para as coisas não-convencionais unicamente para estarem fora do que é ordinário. A natureza incomum de suas atividades ou interesses lhes permite sentir a sua separação e diferença de outros e terem prazer nisso. As coisas não-convencionais, muitas vezes também suscitam o interesse apenas por causa de sua novidade, em contraste com aquelas que são convencionais. Os valores ilusórios daquilo que é habitual tornam-se insípidos através da familiaridade e a mente então tem uma tendência de transferir a ilusão de valores para aquelas coisas que não são usuais, em vez de tentar descobrir valores verdadeiros e duradouros. Transcender o estágio de conformidade externa não implica numa mudança meramente mecânica e impensada da convencionalidade para a inconvencionalidade. Tal mudança seria fundamentalmente de natureza reativa e não poderia de modo algum contribuir para uma vida de liberdade e de verdade. A liberdade da convencionalidade que aparece na vida do aspirante não é devida a uma reação acrítica, mas deve-se ao exercício do pensamento crítico. Aqueles que transcendem o estágio de conformidade externa e entram na vida superior das realidades internas devem desenvolver a capacidade de distinguir entre os valores falsos e verdadeiros, independentemente da convencionalidade ou da inconvencionalidade. A ascensão do Shariat (karma-kanda) para o tariqat (Adhyatma-marga) não deve ser interpretada, portanto, como sendo apenas um abandono da conformidade externa. Não é uma mudança da convencionalidade para a idiossincrasia, do habitual para o incomum. É uma mudança de uma vida de aceitação irrefletida das tradições estabelecidas para um modo de ser que é baseado na apreciação ponderada da diferença entre o que é importante do que é sem importância. É uma mudança de um estado de ignorância implícita para um estado de reflexão crítica. Na fase da mera conformidade externa, a ignorância espiritual do indivíduo é muitas vezes tão completa que ele nem percebe que ele é ignorante. Mas quando a pessoa está sendo despertada e entra no caminho, ela começa a perceber a necessidade de uma verdadeira luz. As fases iniciais do esforço para atingir essa luz têm a forma de discriminação intelectual entre o duradouro e o transitório, entre o verdadeiro e o falso, o real e o irreal, o importante e o sem importância.
Para o aspirante espiritual, no entanto, não é suficiente meramente exercer a discriminação intelectual entre o falso e o verdadeiro. Embora a discriminação intelectual seja, sem dúvida, a base para todas as preparações seguintes, ela dá frutos apenas quando os novos valores percebidos são trazidos na relação com a vida prática. Do ponto de vista espiritual, o que importa não é teoria mas sim a prática. As idéias, opiniões, crenças, pontos de vista ou doutrinas que uma pessoa pode manter intelectualmente constituem uma camada superficial da personalidade humana. Muitas vezes, a pessoa acredita em uma coisa e faz exatamente o oposto. A falência das crenças estéreis é ainda mais lamentável, porque a pessoa que se alimenta delas, muitas vezes sofre com a ilusão de que ela é espiritualmente avançada, quando na verdade ela nem sequer deu início à vida espiritual.
Às vezes até mesmo uma visão errada, que é mantida com fervor, indiretamente, pode convidar uma experiência que abre as portas para a vida espiritual. Mesmo na fase de Shariat, ou karma-kanda, não é raro que a fidelidade às religiões seja uma fonte de inspiração para muitos atos altruístas e nobres. Por enquanto, os dogmas ou credos são aceitos cegamente, eles são muitas vezes realizados com um fervor e entusiasmo que suprem um elemento dinâmico para a ideologia que foi aceita pela pessoa naquele momento. Os dogmas e credos, em comparação com visões e doutrinas estéreis, têm a vantagem de ser adotados não somente pelo intelecto, mas também pelo coração. Eles cobrem e afetam uma parte mais ampla da personalidade do que as opiniões puramente teóricas. No entanto, os dogmas e credos geralmente são tanto uma fonte de mal como de bem, porque neles a visão orientadora está nublada devido à degeneração ou à suspensão do pensamento crítico. Se a fidelidade aos credos e dogmas por vezes tem sido boa para o indivíduo ou para a comunidade a que ele pertence, eles têm mais frequentemente feito mal. Embora a mente e o coração estejam envolvidos na obediência aos dogmas e credos, ambos funcionam nesses casos sob a séria desvantagem da suspensão do pensamento crítico. Assim, os dogmas e credos não contribuem puramente para o bem. Quando uma pessoa abandona os dogmas e credos aceitos acriticamente, em favor de pontos de vista e doutrinas aos quais ela dedicou seu pensamento, há um certo avanço, uma vez que sua mente já começou a pensar e analisar criticamente as suas crenças. Muitas vezes, porém, as crenças recentemente assumidas mostram-se carentes do fervor e do entusiasmo que caracteriza essa fidelidade aos dogmas e credos. Se essas crenças recentemente adotadas carecem de força motivadora, elas pertencem apenas aos aspectos superficiais da vida e ficam frouxas sobre a pessoa como um casaco largo. A mente foi emancipada do domínio da emoção inculta, mas, muitas vezes, isso é alcançado ao sacrificarmos a cooperação do coração. Se os resultados do pensamento crítico forem espiritualmente frutíferos, esses resultados devem novamente invadir e reconquistar o coração de modo a mobilizar o seu funcionamento cooperativo. Em outras palavras, as idéias que forem aceitas após a análise crítica devem ser liberadas novamente na vida ativa para produzir os seus totais benefícios. No processo da vida prática, frequentemente elas passam por uma transformação saudável e tornam-se mais profundamente entrelaçadas com o próprio tecido da vida.
A transição da conformidade externa (Shariat, ou karma-kanda) para a vida das realidades interiores (tariqat, ou Adhyatma-marga) envolve duas etapas: (1) libertar a mente da inércia da aceitação acrítica baseada em imitação cega e ativando-a para um pensamento crítico, e (2) trazer os resultados do pensamento crítico e discriminativo para a vida prática. A fim de ser espiritualmente fecundo, o pensamento não deve ser apenas crítico, mas criativo. O pensamento crítico e criativo conduz à preparação espiritual ao cultivar essas qualidades que contribuem para a perfeição e o equilíbrio da mente e do coração e para a liberação irrestrita da Vida Divina.


* pesquizar no blog as explicações referentes ao termo Sanskaras