terça-feira, 10 de novembro de 2009

G. I. Gurdjieff - Paris, 20 de abril de 1944


Aboulker: Tenho tentado sentir remorso de consciência, mas o remorso me derrota. Não consigo esquecer que foi de remorso que Judas se enforcou.

Gurdjieff: Por que você fala de Judas nesse caso? O que você sabe a respeito de Judas? Ele era um grande iniciado. Ele foi o segundo discípulo depois de São João Batista. Tudo o que é falado sobre ele é falso. Se você quer saber, ele foi até mesmo o mestre de Cristo.


Abouker: A busca por remorso me leva à depressão. Devo estar fazendo o exercício de maneira errada. Como eu deveria tentar encontrar o remorso?


Gurdjieff: Para encontrar remorso é necessário despertar vontade real para lembrar da meta real. Você deve destruir a tranquilidade.


Dr. A.: Senti remorso em flashes duas ou três vezes. Mas não sei como fazê-lo vir. Quando procuro por ele intencionalmente, não recapturo essa qualidade, encontro um tipo que me deprime.


Gurdjieff: Quando o remorso vem sem amor-próprio, ele nos dá o desejo por algo melhor. Mas quando ele é misturado com amor-próprio, ele o puxa para baixo. O efeito do verdadeiro remorso é uma aversão a si mesmo, repugnância perante você mesmo. Essas duas coisas fazem o verdadeiro remorso de consciência.


Dr. A.: Uma vez quando senti isso fiquei com náusea, literalmente.


Gurdjieff: Você tem de sentir um monte disso de modo a matar seu inimigo. Quando você sentir essa depressão você deveria fazer o “eu sou”, então você não precisa ter medo de ficar mais deprimido. Apenas através desse impulso você pode transcender sua nulidade. Você deveria alegrar-se que um impulso despertou em você uma real vontade de mudar. Você não deve ficar fazendo cerimônia com o amor-próprio. O amor-próprio é o seu maior inimigo. A pessoa deve punir-se impiedosamente contra essa criatura imunda. Não apenas você – mas todos. O sentimento de remorso pode fazer uma reparação por todas as coisas, todos os erros de seus parentes, de seus educadores, seus companheiros de infância. Você deve adquirir a liberdade interna que lhe tornará digno de se tornar candidato a futuro homem. Meu querido doutor, isso é o que eu aconselho e é uma coisa muito difícil. Não é prazeroso, mas não é culpa minha. Se você deseja ter um futuro, tente isso no presente. Quanto mais você experimentar disso, mais possibilidade você tem para o futuro. Você deve conseguir trazer remorso de consciência até um ponto em que ele se transforma em aversão de si e aversão pelo seu passado, dos seus pais, da formação que você teve. Amaldiçoe tudo. Invoque o seu ideal para ajudá-lo a sustentar o fardo e para torná-lo digno disso. De um lado você amaldiçoa seu passado, do outro, em nome do seu futuro, você dá a sua palavra – em oposição à maldição – para ajudá-los (os pais) o máximo que você puder. Você deve chegar a um ponto onde a consciência fale impiedosamente em você.


Sra. Etievan: Experimentei a mesma depressão que o doutor, mas não a tenho mais. Encontro-me como antes.


Gurdjieff: Estou desconfiado de algo, talvez você esteja se acostumando a isso automaticamente. Isso também é ruim – uma idéia fixa. A pessoa não pode acostumar-se ao remorso, ele deve penetrar até o ser interior. Se você ficar acostumada, você o fará automaticamente, ele se tornará externo, sem peso, você fará apenas com a cabeça. Você está perdendo seu tempo. Comece novamente de maneira mais impiedosa. Você deve fazer isso com os três centros, não apenas com sua cabeça.


Kahn: Quando examino os poucos anos que estou no trabalho, noto que nunca me faltou força motriz, mas essa parte de mim sempre fugiu do trabalho. Vi isso quando você me disse que me faltava vontade física. Onde posso conseguir a força que me dará vontade física?


Gurdjieff: Apenas uma coisa pode lhe ajudar. Você deve sofrer fisicamente. Por exemplo, não coma o bastante, fique com fome. Ou, se seu organismo não gosta de água gelada, faça-o suportar água fria. O mesmo com água quente. Faça o oposto do que seu corpo está habituado a fazer. Faça-o sofrer. É a única maneira de criar a força que lhe falta. Não um sofrimento mental. Temos sete tipos de sofrimento. Para você, sofrimento corporal é necessário. Com sua mente você pode impiedosamente governar seu corpo, fazê-lo sofrer. Em você duas partes trabalham, mas o corpo não. Entendeu sua emoção? Se você observou isso, se você acredita em mim, faça isso, lute, sofra. Depois você estará apto a trabalhar sobre si mesmo. Estou contente que você chegou à essa questão por si mesmo.


Sra. D.: Não consigo dominar o exercício. Fico identificada. Quando estou quieta consigo melhor.


Gurdjieff: Então é menos útil.



[Sra. D. falando a respeito de um exercício préviamente passado pelo Sr. Gurdjieff]

Sra. D: Outra dificuldade. Quando eu visualizo uma pessoa morta, não tenho nenhum contato com ela, tenho mesmo a impressão que nunca a vi.


Gurdjieff: Muito bom exemplo para você. Talvez você só conheça essa pessoa com uma parte de você – a parte intelectual, por exemplo – e agora você deseja mudar e retratá-la com o sentimento. Você terá o contato com todos os seus centros, mas um por um.


Sra. D.: Devo encontrar alguém que cumpra as condições?


Gurdjieff: Talvez você nunca encontre tal pessoa. Talvez você seja uni-lateralizada. Se você não pode encontrar uma pessoa, pegue duas ou três. Com uma você vai estar na parte do sentimento, com a outra no pensamento e assim por diante.


Pomereu: Tenho notado que quando observo minha respiração fico mais apto a lembrar de mim mesmo, eu deveria fazer isso?


Gurdjieff: Não se você achar que existe o risco de se tornar uma idéia fixa. Se isso o ajuda, continue. Apenas você pode julgar.


Pomereu: Como vou saber se é uma idéia fixa?


Gurdjieff: Agora entendi. Pela sua pergunta. Entendi seu estado interno. Qual é o centro de gravidade do seu trabalho?


Pomereu: O exercício de alimentar o “Eu” e o das sete respirações.


Gurdjieff: Qual é o que lhe interessa mais, que lhe dá mais confiança?


Pomereu: Eu não os faço nas mesmas condições. Ambos são importantes para mim.


Gurdjieff: Mude as condições nas quais você faz os exercícios. Faça o exercício que você tem feito no tempo reservado para o trabalho, na vida e vice e versa. Mude o tempo para vencer o automatismo. Tenho uma suspeita de algo e isso pode tornar-se claro para mim.


[Sra. V.D. pergunta sobre o exercício das sete respirações]


Sra. V. D.: Essa é a maneira certa de continuar ou devo limpar mais?


Gurdjieff: Continue. Talvez você esteja fazendo-o apenas com uma parte de você mesma. Agora você começa a despertar, isso produz um desentendimento. Prossiga até que você tenha um contato objetivo com o seus três centros (pensamento, sentimento, sensação). Contato com um é apenas histeria. Uma pessoa real é ela mesma. Eu sou eu; se eu amo, é com o todo de meu ser; se eu odeio também.


Sra. V. D.: Não quero mais nada disso.


Gurdjieff: Então faça o tempo todo, fixe um novo hábito. Depois disso vou lhe ajudar.


Sra. V. D.: Fiz um grande esforço a semana toda. Senti algo novo.


Gurdjieff: Pela primeira vez algo despertou em você. Mas você não está acostumada a isso ainda, você ainda não tem material suficiente. Você está na estrada certa. Se você estiver apta a amaldiçoar e ficar enojada do seu passado, isso irá lhe ajudar. Perceba quanto tempo você perdeu. Isso é remorso de consciência. Dessa maneira você prepara um bom futuro. Sem as coisas ruins as coisas boas nunca vêm.


Wack: Há uma parte de mim que eu nunca consegui trazer intencionalmente quando tento lembrar de mim mesmo. Essa parte apenas desperta como um resultado de um choque externo. Como posso fazê-la aparecer?


Gurdjieff: Você deve matar algo em você. Você deve abrir espaço para esse novo sentimento. Temos no nosso sistema um número definido de fatores. Em você todos os fatores já estão escritos. Como gravações de um gramofone, e essas inscrições já são falsas. Você tem de destruir uma dessas gravações.


Wack: Como podemos destruí-las?


Gurdjieff: Através de uma força definida. Escolha um ideal externo. A fé religiosa, por exemplo. Algo a respeito do qual você tenha certeza de que está fora de você. Então liquide essa crença, destrua-a. Você não perderá nada, pois ela é falsa. Mais cedo ou mais tarde, tudo deve ser novo em você. Por agora tudo é merda. Crie espaço, de modo a cristalizar um novo fator ou uma nova vida. Aconselho você a pegar a fé; talvez você tenha um outro sentimento do qual esteja certo. De qualquer forma, há um que você tem de conseguir destruir e substituir, de modo que você tenha um contato real com o sentimento.


Wack: Qual será o novo fator?


Gurdjieff: A consciência. Até agora você cristalizou apenas anormalidades vindas de fora.


Sra. D.: O que devemos fazer para seguir o conselho que você dá no seu livro, para persuadir todas as coisas, todas as partes inconscientes de nossa presença, a trabalhar como se fossem conscientes e assim por diante?


Gurdjieff: Não é meu livro, é do Sr. Belzebu e é o conselho que ele está dando para o neto dele.


Sra. D.: Então é só para o neto dele?


Gurdjieff: Belzebu irá explicar isso para você. Quanto a mim, dou-lhe um outro pequeno conselho: acostume-se a chamar Belzebu de: “meu querido avô”. Isso irá ajudá-la. A condição é que você se enderece a ele respeitosamente: “meu querido avô”, com todos os detalhes. Então talvez ele irá responder.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Philokalia - Philotheu do Sinai - Textos sobre a Sobriedade (parte 1)

Temos em nós uma batalha mental mais árdua do que uma batalha física. A meta do realizador da retidão, a qual ele deveria buscar com sua mente e na direção em prol da qual ele deveria lutar, é ter a memória de Deus entesourada em seu coração, como uma pérola sem preço ou alguma outra pedra preciosa. Ele deveria abandonar tudo, até o corpo, e desconsiderar sua própria vida presente, de modo a ter Deus em seu coração. São João Crisóstomo diz que a contemplação mental de Deus é por si mesma suficiente para destruir os espíritos do mal.

.

De acordo com as direções das Escrituras Sagradas, aqueles que praticam a batalha mental devem escolher para si trabalhos espirituais e com todo zelo aplicá-los à suas mentes como um bálsamo curativo. Por isso dizem que de manhã cedo devemos corajosa e inabalavelmente estar em guarda na porta do coração, com uma firme memória de Deus e constante oração a Jesus Cristo na alma. Através dessa vigilância mental deveríamos golpear todos os pecadores da Terra. Em outras palavras, pelo amor ao Senhor devemos cortar as cabeças dos fortes e do primeiro sinal de pensamentos provocadores de conflito, através de uma verdadeira memória intensa de Deus, a qual nos eleva às alturas. Pois sabemos que no trabalho interno da luta espiritual também há uma certa ordem Divina e uma sequência de procedimento. É dessa maneira que um homem forçando a si mesmo (pelo amor do Reino), deveria conduzir-se até a hora marcada para se alimentar. Após isso, tendo dado graças ao Senhor que, somente através de Sua amorosa gentileza, nos provê com alimentos físicos e espirituais, devemos labutar na memória e meditação a respeito da morte. No próximo dia devemos novamente comandar a nós mesmos a cumprir nosso trabalho matutino. Pois mesmo se fizermos isso todos os dias, muito dificilmente escaparemos, sem a ajuda do Senhor, das garras de nosso inimigo mental.

.

Mas quando essa prática torna-se estabelecida em nós, ela dá a luz às três seguintes virtudes: Fé, Esperança e Amor; das quais a Fé nos predispõe a um verdadeiro temor de Deus, e a Esperança, superando o medo desprezível, leva o homem para o Amor de Deus. Se a Esperança não nos envergonha, ela naturalmente dá a luz aos amores gêmeos sob os quais estão a lei e os profetas, então o Amor também não nos abandona, seja nesta vida - já que ele nos faz obedecer as leis Divinas - ou na próxima.

.

Homens com uma mente silenciosa são encontrados muito raramente. Esse é um atributo apenas daqueles que usam todos os meios para atraírem para si a Graça Divina e para serem preenchidos com o conforto espiritual que flui dela. Portanto, se como eles, quisermos praticar o fazer mental, essa filosofia de Cristo, em guardar nossa mente e em sobriedade, comecemos por nos abster de muita comida e resolvamos comer e beber o menos possível. A sobriedade é corretamente chamada de um caminho, pois ela conduz ao Reino – tanto ao Reino dentro de nós quanto àquele do futuro. Ela também é chamada de oficina da mente, pois ela modela e dá polimento a nosso caráter mental e transforma o apegado em desapegado. A sobriedade é também como uma pequena janela através da qual Deus entra e aparece para a mente.

.

Onde há humildade, lembrança de Deus com sobriedade e atenção, e frequente oração dirigida contra os inimigos, existe o lugar de Deus, ou o céu do coração onde as tropas de demônios temem entrar, uma vez que ali é a morada de Deus.

.

Quando tivermos adquirido uma certa habilidade na abstinência e no afastamento dos maus visíveis produzidos pelos cinco sentidos, estaremos aptos também a guardar nosso coração com Jesus, para tê-lo iluminado por Ele e com uma disposição calorosa saborear Suas bênçãos em nossa mente. Pois a única razão pela qual nos foi dada a lei da purificação do coração é para ter as nuvens dos maus pensamentos afastadas da atmosfera do coração e dispersadas pela constante atenção para que possamos ver claramente, como num lindo dia brilhante, o Sol da verdade - Jesus - e possamos ser iluminados em certa medida em nossas mentes pelas palavras de Sua glória. Pois por regra, elas não são reveladas a todos, mas apenas àqueles que purificam sua compreensão.

.

Todos os dias deveríamos nos manter como se fôssemos aparecer diante de Deus. Pois o profeta Oséias disse: 'Guarda misericórdia e discernimento, e espera continuamente em teu Deus” (XII-06). Outra vez, o profeta Malaquias diz do Senhor: 'Um filho honra seu pai, um servo teme seu senhor. Mas se eu sou o pai, onde está minha honra? Se eu sou senhor onde está meu temor? Disse o Senhor dos exércitos a vós.' (I-6). E o Apóstolo escreve o mesmo : 'Purifiquemo-nos de toda imundície da carne e do espírito' (2 Co. Vii I). E a sabedoria ensina: 'Guarda teu coração com toda diligência, porque dele provém a vida' (Prov. Iv 23). E o próprio Senhor ordena: 'Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo' (Mat. Xxiii 26).

.

Se um homem purifica seu coração e desenraíza dele todos os pecados contra o Senhor, se trabalha diligentemente para adquirir conhecimento Divino e consegue ver com sua mente aquilo que é invisível para muitos, ele não deve através disso exaltar a si mesmo acima dos outros. Quem dentre as criaturas é mais puro do que um ser incorpóreo e quem tem mais conhecimento do que um Anjo? Ainda assim, tendo exaltado a si mesmo ele foi expulso do céu como um trovão. Seu orgulho foi considerado por Deus como impureza. Você sabe o que os homens fazem quando escavam ouro da terra; (isto é, assim como eles vão abaixo da terra, você deve ir abaixo de todos os homens para obter o ouro do conhecimento).

.

O Apóstolo diz: 'Todo homem que lutou pela mestria tem temperança em todas as coisas' (1 cor ix 25). Pois é impossível com a barriga cheia ir batalhar com os principados, com poderes hostis, se um homem está atado à carne, que é pesada e está sempre luxuriando contra o espírito. 'Pois o Reino de Deus não é comida ou bebida' (Rom. Xiv 17). 'Pois a mente carnal é inimiga de Deus: pois ela não se submete à lei de Deus e de fato nem o pode' (Rom. Viii 7). É óbvio que não o pode, pois ela é terrosa, composta de sucos, sangue e humores, tem sempre uma predileção por coisas terrenas e retira prazer nos deleites perniciosos da vida presente. 'Pois o carnalmente inclinado está morto' (Rom. Viii 6). 'Os que estão na carne não podem agradar a Deus' (Rom. Viii 8).

.

Se desejarmos sinceramente guardar nossa mente no Senhor, necessitamos de muita humildade, primeiro em relação a Deus, segundo, em relação aos homens. Deveríamos lutar sempre para tornar nosso coração contrito, procurando e colocando em prática todos os meios para torná-lo humilde. É bem sabido que o que torna o coração humilde e contrito é a memória de nossa vida precedente no mundo, se ela é lembrada por nós como deveria ser. Outra coisa é a memória de todos os nossos pecados da juventude em diante, se a mente examina-os em detalhe, essa lembrança habitualmente nos torna humildes, traz lágrimas e nos move para uma completa e total gratidão a Deus, também funciona dessa forma uma memória da morte constante e ativa (sentida profundamente) que dá nascimento à doçura, luto contente e sobriedade à mente. A coisa que preeminentemente humilha nossa mente e nos dispõe a manter nossos olhos abaixados para o chão é a memória da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, se um homem examina-a em sua memória e lembra-se em detalhes dela. Isso também engendra lágrimas. Além disso, nossa alma é tornada verdadeiramente humilde através das grandes piedades de Deus perante nós pessoalmente, se as examinarmos e enumerarmos em detalhe, pois nossa luta é com demônios orgulhosos (que são ingratos a Deus).

.

Não deixe o seu amor-próprio afastá-lo desses remédios salutares da alma, se você necessita deles. Caso contrário você não é mais um discípulo de Cristo nem um imitador de Paulo que disse ele mesmo: 'Eu não sou digno de ser chamado um apóstolo' (I cor. Xv 9). Em outro lugar ele confessa ter sido antes 'um blasfemo, perseguidor e insolente' (I Tim. I-13). Você vê, homem orgulhoso, como até mesmo um santo não esquece sua vida passada? Todos os Santos, do início da criação até nossos tempos, sempre se vestiram nesse último traje sagrado de Deus (isto é, em humildade). Nosso Senhor Jesus Cristo, Ele mesmo vestiu-se em humildade durante Sua vida na carne, a despeito de ser Deus, o incompreensível, o incognoscível e o inefável. Portanto, essa humildade deveria corretamente ser chamada de uma virtude Divina, o mandamento e vestimenta de Deus. Do mesmo modo, os Anjos e todos os poderes Divinos da luz, praticam e guardam essa virtude, conhecendo a terrível queda do arrogante Satã que, por causa de seu orgulho, mostrou-se perante Deus como a mais malvada de todas as criaturas, e que agora permanece no abismo como um exemplo de como todos os anjos e homens deveriam temer serem expulsos (por seus pecados). Sabemos também como Adão caiu através de seu orgulho. Mantendo esses exemplos diante de nossos olhos, lutemos para atingir essa elevada virtude e tornemo-nos humildes por todos os meios que estão em nosso poder, usando os remédios mencionados acima. Sejamos humildes na alma e no corpo, na mente, no desejo, na fala, no pensamento, na aparência externa, humildes dentro e fora. Devemos ter a preocupação especial que Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus, que é por nós, não se torne contra nós. Pois o Senhor 'certamente desdenha os desdenhadores insolentes, mas aos pobres concede Sua Graça' (Prov. Iii 34). 'Todo aquele que é orgulhoso no coração é uma abominação para o Senhor (Prov. Xvi 5). 'Todos que exaltarem a si mesmos serão humilhados' (Luc. Xviii 14). 'Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração' (Mat. Xi 29), diz o Redentor. Portanto, acautelai-vos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Hafiz - O oceano do Amor

O oceano do amor é um mar sem margens

E sem a rendição da alma, não há esperança, não há areia.


Quando vier aqui em peregrinação,

não nos incomode com suas histórias de juízes e de leis humanas,

traga vinho!


Mais uma hora com seu terapeuta não lhe trará contentamento.

Em vez disso,

dê os seus segundos e seu dinheiro da alma ao Amor e às boas ações.


Não coloque a culpa da sua má sorte nas estrelas ou na porta do destino que range.

Olhe no espelho e pergunte aos seus próprios olhos quem é esse que quer você morto.


Como a lua crescente,

o esplendor da lua nova em sua nova face pode ser visto apenas com olhos puros.


Portanto, vá adiante – assuma a louca busca pela embriaguez elusiva,

E finja que está procurando por um tesouro enterrado que lhe porá em liberdade.


Se as lágrimas de Hafiz não o movem,

então por que seu coração ainda não virou pedra?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Nisargadatta Maharaj - 25 de janeiro de 1980 / 28 de janeiro de 1980

Se obtivermos e saborearmos o néctar dos pés do Senhor, o charan-amrita, a mente poderá ser conquistada. Isso significa que a mente não vai mais ter domínio sobre nós. Seu domínio imposto sobre nós desde a infância não irá mais nos oprimir. Isso é chamado de manojaya – vitória sobre a mente. Mas isso torna-se possível apenas através da Graça Dele. Sem a Graça, não podemos saborear o néctar. Entretanto, apenas um devoto verdadeiro, um bhakta, um deus, pode obter o charan-amrita. Mas quem e o que é esse devoto? Ele não é nada além da consciência, o sentido de ser, o conhecimento de que “nós somos”, que apareceu inconsciente e espontaneamente em nós. A consciência é o charan-amrita, o néctar dos pés do Senhor.

O cosmos inteiro em seu vibrante movimento ativo é representado pela consciência, os pés do Senhor, e o universo é o corpo da consciência. Mas qual é sua relação com todos os seres? Ela reside no âmago de todos os seres como o conhecimento “eu sou”, o amor de “ser”, o charan-amrita.

Aquele que bebe o néctar dos pés do Senhor é um verdadeiro devoto. Ele habita no conhecimento “eu sou”. Ele é divino. Então, quando a pessoa saboreia continuamente esse néctar ao testemunhar a consciência ou o sentido de ser, a sua mente - que diferencia e avalia as pessoas observadas como masculinas e femininas, ela gradualmente remove a si mesma do foco de atenção, deixando a consciência em sua glória inata.
Mas como tal estado pode ser alcançado? Apenas se aceitarmos totalmente o conhecimento “eu sou” como sendo nós mesmos com total convicção e fé, e se firmemente acreditarmos no dito: "eu sou aquilo pelo qual eu sei que 'eu sou'”. Esse conhecimento “eu sou” é o charan-amrita. Por que é chamado de Amrita – o néctar? Porque é dito que, ao beber néctar a pessoa torna-se imortal. Portanto, um devoto real, ao habitar neste conhecimento “eu sou” transcende a experiência da morte e atinge a imortalidade. Mas enquanto a mente permanecer não conquistada, a experiência da morte será inevitável.
Embora meus discursos continuem sem parar com os muitos visitantes, meu ponto de vista permanece inalterado. Por que? Porque meu ponto de vista está estabilizado no charan-amrita. Ele permanece fixo na consciência - a fonte dos conceitos e linguagens. Dela emana a linguagem desde sua formação mais sutil até a sua expressão mais grosseira, vocal, como para, pashyanti, madhyama, e vaikhari*.
Se você pudesse apenas abandonar todos os outros esforços espirituais e disciplinas e absorver-se em saborear o charan-amrita, através da permanência na consciência, a mente libertaria você de suas garras. Atualmente, você aceita gentilmente o que quer que a mente dita como sendo de você mesmo. Se a mente for silenciada, onde fica você e o que você é?
Uma vez que você afundar dentro da consciência, o fatual estado da Realidade será revelado a você com o conhecimento que irá emanar intuitivamente de você, como uma fonte de água. Isso irá capacitá-lo a discernir não apenas o que é real e o que é irreal, mas, mais importante, a realizar o que “eu sou”.
O que sou eu para mim apenas? O que é a vida? Uma vez que essas questões são resolvidas intuitivamente e a realidade emerge, a mente não pode mais predominar. Entretanto, o funcionamento da mente continuará, mas a qualidade do funcionamento será totalmente diferente. Alguém que atingiu tal estado, permanece não afetado por qualquer acontecimento, visto que as balbúrdias da mente não podem ter efeito. E quem poderia ser essa pessoa? Certamente não um indivíduo que esteja aprisionado na concha da mente. Mas essa pessoa é o conhecimento “eu sou” - a consciência.
É dito que devemos quebrar as algemas que nos prendem ao corpo e ao mundo. O que isso significa? O que quer que seja visto e percebido está no nível do corpo e do mundo. Um apego é desenvolvido com os objetos percebidos, e então nós nos identificamos com um corpo como sendo nós mesmos e clamamos os objetos como sendo de nossa propriedade. O apego é a natureza da mente, e ela obstinadamente persiste nesses apegos. Mas se você beber o charan-amrita ao se estabilizar na consciência, tudo será resolvido e você será iluminado. Você não precisa ir a ninguém para esclarecer suas dúvidas.
Enquanto faço minhas tarefas e canto bhajans em louvor a Deus e assim por diante, para vocês eu pareço estar profundamente envolvido nessas atividades. Mas na verdade eu permaneço aparte de mim mesmo, desprovido do sentido do corpo e da mente, e assim testemunhando as atividades acontecerem a Mim. Pergunto-me se vocês notaram isso! Muitas pessoas estão relacionadas a mim de uma maneira ou de outra. Embora aparentemente eu tenha intimidade com elas, estou aparte delas. Quanto a mim, eu realizei completamente o que “eu sou”, e agora está absolutamente claro para mim o que e como “eu sou”. Mas o que essas pessoas pensam que “elas são”, apenas elas sabem. Elas presumem terem adquirido conhecimento, terem alcançado algum status espiritual superior ao das outras pessoas … e assim por diante. Isso está fadado a acontecer, pois eles ainda são escravos de suas mentes. No meu caso, isso não pode acontecer. Eu me embebi totalmente do néctar dos pés do Senhor – a consciência.
Atualmente, todas as comunicações e funções acontecem por meio deste néctar – a consciência. E o que é esse meio? É o conhecimento “eu sou”. Ele é representado pelo Senhor Vishnu, o Deus mais elevado que recosta-se cheio de bem-aventurança no corpo da serpente, sheshashayi, e por isso é chamado de Sheshashayi-Bhagavan.
Bem, é bom ter conversas desse tipo, mas embeber e realizar a essência é muito difícil, de fato. Por que? Porque você acredita firmemente que você é o corpo e vive de acordo, enquanto alimenta desejos apaixonados de que você vai conquistar algo bom no mundo, e mais tarde algo ainda melhor. Essas expectativas estão baseadas primeiramente numa noção errônea de que você é o corpo. Essa identificação errada, entretanto, dissolve-se no néctar dos pés do Senhor, quando você se afunda na consciência e perde sua individualidade.
A dissolução da individualidade não é possível sem devoção ao mestre – guru-bhakti – que em outras palavras novamente é a consciência, o guru-charan-amrita. A permanência na consciência remove todos os problemas passados e futuros e estabiliza a pessoa no presente – Aqui e Agora.
A consciência é o sentido de se estar ciente, “eu sou” sem palavras, e ela apareceu inconscientemente e sem ser solicitada. Ela é a força vital universal manifesta e, portanto, não pode ser individualista. Ela se estende dentro e fora, como o brilho de um diamante. Você vê um mundo de sonhos dentro de você e um mundo perceptível fora de você, previsto que a consciência prevalece. Do nível do corpo, você pode dizer dentro e fora do corpo, mas do ponto de vista da consciência, onde e o que é dentro e fora? Apenas no reino do sentido de estar ciente “eu sou” - a consciência – pode o mundo existir, e também uma experiência pode existir.
Segure-se neste sentido de estar ciente “eu sou”, e a fonte do conhecimento irá nascer dentro de você, revelando o mistério do Universo, do seu corpo e psiquê, da interação dos cinco elementos, dos três gunas e prakriti-purusha; e de tudo o mais. No processo dessa revelação, sua personalidade individualista confinada ao corpo se expandirá no universo manifestado e será realizado que você permeia e abarca o cosmos todo como seu “corpo” apenas. Isso é conhecido como o “Puro Super-Conhecimento” - shuddhavijnana.
Não obstante, mesmo no estado sublime shuddhavijnana, a mente se recusa a acreditar que ela é uma não-entidade. Mas conforme afundarmos na consciência, desenvolveremos uma firme convicção de que o conhecimento “eu sou” - o sentido do seu ser – é a própria fonte do mundo. Apenas esse conhecimento faz você sentir que “você é” e que o mundo é. Na verdade, esse conhecimento manifesto, tendo ocupado e permeado o cosmos, reside em você como o conhecimento “você é”. Segure-se a esse conhecimento. Não tente dar-lhe um nome ou um título.
Agora chegando numa situação muito sutil: o que é isso em você que entende esse conhecimento “eu sou” - ou do seu ponto de vista “eu sou”, sem nome, título ou palavra? Afunde-se no centro mais íntimo e testemunhe o conhecimento “eu sou” e apenas Seja. Essa é a “bênção do ser” - o swarupananda.
Você deriva prazer e felicidade através da ajuda de vários auxílios e processos externos. Alguns gostam de apreciar uma boa comida, alguns gostam de ver um filme, alguns ficam absorvidos na música … e assim por diante. Para todas essas apreciações alguns fatores externos são essenciais. Mas para residir na “bênção do ser”, absolutamente nenhuma ajuda externa é requerida. Para entender isso, tome o exemplo do sono profundo. Uma vez que você esteja em sono profundo, nenhuma ajuda ou tratamento serão requeridos e você aprecia uma felicidade silenciosa. Por que? Porque nesse estado a identidade com um corpo masculino ou feminino é esquecida totalmente.
Alguns visitantes me perguntam, “Por favor mostre-nos o caminho que nos levará à Realidade”. Como eu poderia? Todos os caminhos levam à irrealidade. Caminhos são criações dentro do escopo do conhecimento. Portanto, caminhos e movimentos não podem transportá-lo para a Realidade, pois a função deles é enredar você dentro da dimensão do conhecimento, enquanto que a Realidade prevalece antes dessa dimensão. Para compreender isso, você deve fixar-se na fonte da sua criação, no início do conhecimento “eu sou”. Enquanto não atingir isso, você estará enrolado nas correntes forjadas por sua mente e ficará enredado nas correntes das outras pessoas. Portanto, eu repito, você se estabiliza na fonte do seu ser e então todas as correntes irão se romper e você será liberado. Você irá transcender o tempo, estará além dos tentáculos dele e prevalecerá na Eternidade. E esse estado sublime pode ser atingido apenas ao beber incessantemente o néctar dos pés sagrados do guru – o guru-charan-amrita. Esse estado de beatitude extática – o ser afundando-se abençoadamente no Ser. Esse êxtase está além das palavras, ele é também o estado de estar ciente em total quietude.
A quintessência do discurso está clara. Sua posse mais importante é o “conhecimento” que “você é” anterior à emanação da mente. Segure-se a esse “conhecimento” e medite. Nada é superior a isso, nem mesmo a devoção ao guru – guru bakti – ou a devoção a Deus – Iswara bhakti.

_________________________________________________________

28 de janeiro de 1980

Maharaj: Visto da terra, o sol parece nascer e se pôr. Mas do ponto de vista do sol, ele brilha continuamente e não tem conhecimento de nascer e se pôr. Enquanto o sentido de ser e sua manifestação, incluindo-se as atividades dentro dela, são temporárias e limitadas ao tempo, aquilo que é anterior ao sentido de ser é eterno. Você é um estudante do Bhagavad-Gita, o que eu digo está de acordo com o Gita?

Visitante: Após escutar seus discursos pude compreender claramente o décimo quinto capítulo do Gita, onde é feito uma menção ao Purushottama.

M: Purushottama é o Absoluto, o Eterno. Ao mesmo tempo o Absoluto é sem nenhum suporte externo, sendo totalmente auto-suficiente, ele em si é o suporte de todas as coisas manifestas.

V: Krishna disse: “Apenas aqueles que compreendem que Eu, o Absoluto, estou além dos estados de Ser e de não-Ser realizam minha verdadeira natureza, e todos os outros são tolos.”

M: Aqueles que são criados de uma ação estúpida também são estúpidos.

V: O que quer que um Jnani fale, é conhecimento espiritual e mesmo seu comportamento revela conhecimento.

M: Na verdade, todo nosso comportamento é de qualidade sattva-guna, expressado da essência da comida e não é nem seu nem meu. O sattva-guna tem três estados, vigília, sono profundo e sentido de ser (beingness). Quando o conhecimento é entendido corretamente a pessoa é puro Brahman apenas, embora tenha a forma de um corpo. Não tem modificação mental. Isso é o que Krishna disse.

O corpo é um produto da essência da comida. Todas as plantas, raízes, árvores, animais, etc., são criados de sementes, e uma semente (bija) significa recriar uma forma prévia. Uma semente também é um produto do sattva-guna. De uma semente brota uma planta e depois uma grande árvore, mas a fonte é a semente apenas. Também de uma semente humana, a qual é o produto dos três gunas (sattva, rajas e tamas) e a essência da comida, brota o corpo, o sentido de ser e a manifestação. Isso pode ser percebido apenas por um ser humano.

Tendo entendido isso, eu realizei Brahman embora tendo a forma de um corpo. Raramente, alguém se embebe desta sabedoria. Muitos adquirem o assim chamado 'conhecimento', mas o que quer que seja adquirido não é conhecimento verdadeiro.

V: O sentido de ser, ou o conhecimento “eu sou”, é então o verdadeiro conhecimento final?

M: Esse verdadeiro conhecimento, o conhecimento "eu sou", também é rendido ao status de não-conhecimento no estado Absoluto final. Quando a pessoa está estabelecida em seu estado final livre, o conhecimento 'eu sou' torna-se “não-conhecimento”.

Quando você vê uma árvore florida você olha apenas para a folhagem, mas não pensa na raiz e na semente da qual ela brotou. A menos que você entenda a semente também, não haverá compreensão total. No presente momento você entende a si como sendo um corpo, mas você não inclui no entendimento a fonte e a semente da qual este corpo manifestou-se. Uma pontinha de uma caneta tinteiro molhada com tinta escreve volume após volume. A pontinha da caneta é a fonte de todos os escritos. Similarmente, o seu sentido de ser é a fonte e o início do seu mundo inteiro. O material escrito é facilmente observado e lido, mas a fonte dele – a ponta da caneta, que é quase sem dimensão – não é percebida facilmente. Assim também é a “semente-sentido de ser”, que é sem forma, muito elusiva.

Você não se identifica com o seu sentido de ser, mas você é rápido ao identificar-se com a forma visível do seu corpo. Você se refere à forma como “eu” em vez do sentido de ser. Entretanto, para a sustentação do sentido de ser, um corpo é essencial. Mesmo se o Senhor Krishna fosse reincarnar novamente, ele poderia fazer isso apenas pelo intermédio da semente-sentido de ser, que por sua vez seria um produto de um corpo proveniente da essência da comida. (food-essence body) Não apenas Krishna, mas também Cristo e Buda manifestaram-se apenas através do sentido de ser da essência-comida. Mas você sabe o significado de Buda, o bodhisattva?

V: Buda significa a natureza inata de todos nós.

M: E quando você foi iniciado, qual foi a forma da iniciação e no que você foi iniciado?

V: Fui levado para a ordem dos Santos Sangh, como um monge, que trabalhava para a felicidade total...

M: Não me diga tudo isso. Disha (iniciação) significa “apenas seja”, de maneira alerta “Seja o que você é”. Qual conselho foi-lhe dado na época da sua iniciação?

V: Para observar meu corpo-mente.

M: De que ponto de vista ou identidade você observou?

V: Não observei meu corpo de nenhum ponto de vista, havia apenas a observação.

M: Quando você não conhece a si mesmo, então quem está observando? E como isso acontece?

V: O objeto da minha observação surge no observador. Através do objeto constituído pelo pensamento – emoção e corpo, há um sentido de ser. Eu podia observar esse sentido de ser. Vi muito claramente que não há nada de substancial dentro deste processo corpo-mente.

M: Como foi-lhe pedido para estar alerta à época da sua iniciação?

V: O tempo todo.

M: Mas com que identidade você deveria estar alerta?

V: Eles não me falaram a respeito de nenhuma identidade. Falaram para eu ficar apenas alerta.

M: Para quem eles disseram? Eles não deveriam indicar o que a testemunha deveria parecer?

V: Não.

M: Esse é um tipo inferior de iniciação. Primeiro reconheça o princípio residente, o conhecimento “eu sou” ou o “auto-amor real”, que está testemunhando. O testemunhar acontece para esse princípio. Quando existe dor, espontaneamente eu testemunho a dor que estou experimentando.

V: Parece haver um sentido de separação entre eu mesmo e o objeto que está sendo testemunhado. Então quando eu testemunho …

M: Mas quando você testemunha?

V: Quando testemunho o corpo-mente, sinto estar separado do corpo-mente.

M: Para quem o testemunho acontece?

V: Isso eu não sei.

M: Então que tipo de espiritualidade você pratica?

V: Embora eu use um roupão, não sigo nenhuma avenida particular de espiritualidade ou nenhuma ordem. Apenas tento estar ciente de que eu sou.

M: Para todos os seres é a mesma experiência. De manhã cedo, imediatamente após acordar, apenas o sentimento “eu sou” é sentido dentro ou o sentido de ser acontece, e depois acontece o testemunho seguinte de todas as coisas. O primeiro testemunho é aquele do “eu sou “. Esse testemunho primário é o pré-requisito para todos os outros testemunhos. Mas para quem o processo de testemunhar está acontecendo? Para aquele que sempre é, mesmo sem acordar, o testemunho do estado desperto acontece para aquele substrato sempre-presente. O mistério da experiência do mundo está neste ponto. O conhecimento esotérico da 'semente-sentido de ser' também está aqui. Agora você acordou e o testemunho do despertar acontece. O testemunho primário é da minha própria presença, da minha existência. Esse estado desperto ou o sentido de existência, é um estado temporário, sendo um dos três estados – de sono profundo, vigília e sentido de estar ciente que juntos constituem o sentido de ser (beingness). Esse sentido de ser é como aquela qualidade da pontinha molhada da caneta. O agregado desses três é a energia sutil representada pelos princípios masculino e feminino, chamado purushaprakriti. Nesse sentido de ser, o sattva-guna, é o visva-sutra, brahma-sutra, atma-sutra*. Nesse sentido de ser reside a manifestação universal. Esse sattva-guna é o cordão pelo qual Brahman e o universo manifesto estão amarrados.

V: Uma pergunta que eu gostaria de ….

M: Que perguntas você poderia ter sobre esse assunto?

O próprio foco dessa pontinha da caneta molhada assumiu múltiplas formas. Esse sentido de ser é conhecido como sattva-shakti e prakriti-purushashakti. O sattva-guna que deu origem a esse sentido de ser é o produto da essência dos pais que pertence à espécie do vachaspati*. Essa própria essência assumiu forma e o universo é revelado em seu interior e exterior. Entenda claramente a fonte. É como uma pequenina semente de uma árvore banyan crescendo numa magnífica árvore e ocupando um grande espaço; mas quem é esse que ocupa o espaço? É o poder da pequena semente. Similarmente, entenda que é essa emissão quintessencial dos pais que leva o toque do “sentido de eu sou”, que se manifesta num universo. Portanto, vá nessa fonte e entenda-a completamente. Assim como a semente carrega a forma latente da planta, também a semente dos pais carrega a forma latente do masculino ou feminino na imagem dos pais.

Pai e mãe são também uma expressão do sattva-guna, o princípio quintessencial apenas. Como um resultado da fricção, a emissão aconteceu. Essa emissão tendo tirado a foto dos pais, cresce numa criança na imagem dos pais. Antes do seu nascimento, onde estava o seu sentido de ser repousando dormente? Ele não era a quintessência dos pais? Esse não é o eterno drama da reprodução de todas as espécies através do princípio sattva e a energia denotada por purushaprakriti?

V: Esse toque de “sentido de eu sou” em si não é nada pessoal, ele é pessoal apenas quando ligado com o corpo e mente.

M: Esse toque de “sentido de eu sou” é o manifesto apenas e não é individualista.

V: Você falou sobre o estado do “Eu-amor”. Se eu digo que amo alguém, significa realmente o “sentido de eu sou” daqui deste ponto reconhecendo o “sentido de eu sou” naquele outro ponto.

M: Não existe 'outro' de maneira nenhuma com quem fazer amor. Apenas o “amor de ser” brotou. Para sustentar o estado de “amor por ser” você passa por uma porção de dificuldades e adversidades. Apenas para manter o estado feliz e satisfeito você se envolve em tantas atividades.

V: O sofrimento é direcionar a atenção para algo além do estado “Eu-amor”, mas se tudo isso pretende perpetuar o “sentido de eu sou”, não é um desejo?

M: Isso não é desejo, é a própria natureza de ser do “sentido de eu sou”. O sentido de ser quer ser e quer perpetuar-se. Essa é sua própria natureza; isso não é a natureza do indivíduo.

V: Mesmo quando ele está ligado com o corpo-mente?

M: Um número de mentes e corpos são formados desse princípio. Ele é a fonte da criação. Milhões de espécies são criadas desse princípio básico. Ele é moolamaya, a semente-ilusão.

V: O “eu sou” está criando você?

M: Do meu 'sentido de ser' (beinness) são criados os três mundos. No meu mundo de sonho milhões de vermes, seres humanos, etc. são criados. Quando e de onde esse mundo-sonho emergiu? Ele emergiu do aparente despertar no estado de sonho.

V: Se eu fecho meus olhos, isso significa que você não existe?

M: Quem lhe falou que seus olhos estão fechados?

V: Meu “sentido de eu sou”.

M: Quando você fechou seus olhos a consciência também foi fechada?

V: Não.

M: Como um resultado da união do amor dos objetos encarnados chamados pais, você é o lembrete que você é a criação resultante do momento bem-aventurado deles. A memória “eu sou”, lembra do momento bem-aventurado. Esta forma, a pessoa encarnada, é um lembrete da bem-aventurança. Você coletou um monte de conhecimento e se considera pronto para ser um guru e então irá expor o conhecimento – isto é, o conhecimento coletado e não o conhecimento revelado de você mesmo. O conhecimento não foi totalmente revelado a vocês, vocês não realizaram a si mesmos, e portanto, serão pseudo-gurus. Sua existência estava numa condição dormente no seu pai e sua mãe. Agora você quer prosseguir para algum lugar daqui. De onde você surgiu? Vá para a fonte da qual você emergiu. Esteja lá primeiro. Alguém teve a diversão da bem-aventurança e Eu sofro e choro por uma centena de anos.

V: É correto comparar o “sentido de eu sou” (I-am-ness) à uma sala com duas portas? De um lado você vê o mundo, e do outro você percebe Parabrahman.

M: Não existem portas para Parabrahman, filho querido. Olhe para a porta de onde você emergiu. Antes de emergir daquela porta, como e onde estava você? Você pode colocar perguntas relacionadas a esse assunto.

V: Há amor e sofrimento também neste “eu sou”.

M: A causa é a felicidade, e o resultado é o “sentido de eu sou”. A causa é bem-aventurança, mas o resultado tem que sofrer do início até o fim.

V: Naquele momento passageiro há consciência do amor e do sofrimento simultaneamente?

M: Tudo aquilo que prevalece no cosmos no momento do amor é registrado no resultado, e, acidentalmente, o resultado assume uma forma, ele é uma réplica dos pais. Seu nascimento significa um filme do universo naquele período. Não é meramente um nascimento, está carregado com o universo dentro e fora.

V: Uma vez que você nasça, a consciência é contínua, mas na meditação ela vem e vai.

M: O sentido de ser é contínuo e ele conhece a si mesmo apenas com o auxílio de uma forma, do corpo, enquanto que sem isso (ou seja, no estado absoluto), ele não conhece a si mesmo. Quem é a testemunha das idas e vindas da consciência?

V: Apenas a ciência (awareness).

M: O que você diz está correto num sentido, mas na verdade não é assim. É como dizer que eu prometo lhe dar dez mil rúpias, mas … A ciência (estado de estar ciente) é o estado Parabrahman, mas isso é apenas uma palavra; você tem de residir nesse estado. Atualmente, o “eu sou” está no estado do sentido de ser. Mas quando eu não tenho a consciência da ilusão “eu sou”, então o estado Poornabrahman ou Parabrahman prevalece. Na ausênsia do toque do “sentido de eu sou”, sou o total estado completo Poornabrahman, o estado permanente.

A fronteira do sentido de ser e do sentido de não-ser é uma hesitação do intelecto, pois o intelecto afasta-se de vista precisamente naquele ponto. Essa fronteira é o maha-yoga.

Na frase “você e eu”, uma vez que a conjunção 'e' é removida, não existe dualidade – isto é, não há separação de “você” e “eu”. Similarmente, esse sentido de ser é como a conjunção: quando ele é removido, nenhuma dualidade permanece. Você deve ficar naquela fronteira, naquele estado maha-yoga.

sábado, 31 de outubro de 2009

Tukaram - A constante vigília de Deus

Algumas pessoas fazem inutilmente pouco caso do corpo em prol da realização espiritual. Vestem roupas marrons, mas um cão também é marrom; ficam com os cabelos emaranhados, mas um urso também tem seus pelos emaranhados. Eles vivem em cavernas, mas até os ratos vivem em cavernas. Essas pessoas fazem arrelia com o corpo por nada. O corpo é tanto bom quanto ruim. Deveríamos nos elevar acima do corpo e pensar em Deus. Se olharmos de um ponto de vista o corpo é um armazém de misérias, uma mina de doenças, o berço de imundices, o mais ímpio dos ímpios. De outro ponto de vista, o corpo é bom e lindo, uma fonte de felicidade e um meio de realização espiritual. Ainda assim, o corpo é meramente um produto coagulado do sangue menstrual, uma rede de desejos e paixões e uma presa da morte. De outro lado, é algo puro, o tesouro dos tesouros, o templo de Deus, o meio de se livrar da existência mundana. Não deveríamos dar nem alegria e nem tristeza para o corpo. O corpo não é bom nem mau. Deveríamos elevarmo-nos acima dele e pensar em Deus.


Se levarmos a cabo nossa prática espiritual regularmente, o que ela não poderá alcançar? A raiz úmida de uma planta quebra até grandes pedras. A prática pode alcançar toda e qualquer coisa. Nada pode impedir um esforço determinado. Uma corda pode cortar até uma pedra dura. Uma pessoa pode acostumar-se com veneno ao tomar doses gradativamente maiores. Uma criança esculpe um lugar para si no útero da mãe conforme o tempo transcorre. Uma pessoa pode pegar uma cobra venenosa em suas mãos, causando terror no coração daqueles que assistem. Através da prática até o impossível torna-se possível. Portanto, deveríamos ir para a solidão e fixar nossa mente em Deus, não deveríamos permitir que nossa mente ficasse vagando, deveríamos evitar todas as coisas frívolas, deveríamos estabelecer nosso coração na realidade e perfurá-la como uma flecha perfura o alvo. Deveríamos dizer adeus à indolência e ao sono e viver na constante vigília de Deus.

Meher Baba - Karma-Yoga Real

Na verdadeira karma-yoga, ou a vida de perfeita ação, há um ajuste apropriado entre os aspectos materiais e espirituais da vida. Nesse tipo de vida, a consciência não é dominada pelas coisas mundanas e materiais, mas, ao mesmo tempo, não é permitido que ela fuja da existência cotidiana. Não é permitido que a mente fique imersa na vida material das vontades corrosivas e nem que fique fundida em êxtase espiritual. Ela é usada para enfrentar e resolver os problemas da vida do ponto de vista da compreensão espiritual. O ajuste adequado entre os aspectos espirituais e materiais da vida não é garantido dando-se igual importância a eles. Não é garantido ao pegarmos algo de material e algo de espiritual e, em seguida, estabelecer um equilíbrio entre os dois. O espírito tem de ter e sempre terá primazia inviolável sobre a matéria; no entanto, a primazia não é expressada ao evitar ou rejeitar a matéria, mas sim usando-a como um veículo adequado para as manifestações do espírito. No ajuste inteligente a matéria tem de desempenhar o papel de um instrumento flexível para a auto-manifestação do espírito e não deve de modo algum tornar-se inoportuna em seu próprio direito. Assim como um instrumento musical é valioso apenas se dá expressão à música de um músico e se torna um empecilho se não render total subserviência, a matéria é importante se der expressão livre e adequada para o fluxo criativo da vida e torna-se um obstáculo se interferir nele.

Devido à multiplicidade de desejos da mente, a matéria tem uma tendência a assumir importância para si. Para o bêbado o vinho é tudo, para os gananciosos o acúmulo de dinheiro é muito importante e para o fanfarrão a caça por sensações é o fim supremo da vida. Esses são exemplos de como, através de diversos anseios da mente, a matéria torna-se demasiadamente intrusiva e perverte as expressões do espírito. A maneira de restaurar a dignidade do espírito não é rejeitar a matéria, mas usá-la para as reivindicações do espírito. Isso só é possível quando o espírito está livre de todos os anseios e plenamente consciente do seu próprio e verdadeiro status. Quando isso é alcançado, um indivíduo pode ter bens materiais mas não ficará aprisionado neles. Quando necessário, poderá usá-los como meios para a vida do espírito, mas ele não é seduzido por eles nem perde a paz por conta deles. Ele percebe que, por si só, eles não constituem o verdadeiro significado da vida. Ele habita no meio material e social, sem qualquer anseio por eles e, estando desapegado, é capaz de convertê-los para a vida espiritual.
Quando um verdadeiro ajustamento entre espírito e matéria é garantido, não há qualquer fase da vida que não possa ser utilizada para a expressão da divindade. Já não há qualquer necessidade de fugir da vida cotidiana e seus emaranhados. A liberdade do espírito que é procurada ao se evitar o contato com o mundo ou ao nos retirarmos para uma caverna ou para as montanhas é uma liberdade negativa. Quando tal reclusão for temporária e servir para digerir as experiências mundanas e desenvolver o desapego, ela terá suas vantagens. Ela dá um tempo para respirar na corrida da vida. Mas, quando tal reclusão estiver baseada no medo do mundo ou na falta de confiança no espírito, ela está longe de ser útil na realização da liberdade real. A verdadeira liberdade é essencialmente positiva e deve expressar-se através de um domínio sem entraves do espírito sobre a matéria. Esta é a verdadeira vida do espírito.

A vida do espírito é a expressão do Infinito e, como tal, não conhece limites artificiais. A verdadeira espiritualidade não deve ser confundida com um entusiasmo exclusivo por alguns modismos. Ela não está preocupada com qualquer "ismo".
Quando as pessoas buscam a espiritualidade aparte da vida, como se não tivesse nada a ver com o mundo material, sua busca é inútil. Todos os credos e cultos têm uma tendência a enfatizar algum aspecto fragmentário da vida, mas a verdadeira espiritualidade é total no seu panorama. A essência da espiritualidade não consiste num interesse especializado ou restrito em alguma parte imaginada da vida, mas numa certa atitude iluminada em relação a todas as diversas situações com as quais nos defrontamos na vida. Ela cobre e inclui a totalidade da vida. Todas as coisas materiais deste mundo podem ser subservientes para o jogo divino, e quando são dessa maneira subordinadas, tornam-se auxiliares à auto-afirmação do espírito.
O valor das coisas materiais depende do papel que elas desempenham na vida do espírito. Em si mesmas não são nem boas nem más. Elas se tornam boas ou más de acordo com o quanto ajudam ou atrapalham a manifestação da divindade através delas. Tomemos, por exemplo, o lugar do corpo físico na vida do espírito. É um erro criar uma antítese entre "carne" e "espírito". Tal contraste quase inevitavelmente termina numa condenação sem reservas ao corpo. O corpo impede a realização espiritual somente se for mimado ao fazer reivindicações em seu próprio favor. Sua função adequada é justamente entendida como acessório para fins espirituais.
O cavaleiro precisa de um cavalo se ele tem que lutar uma batalha, embora o cavalo possa se tornar um empecilho se ele se recusar a ser totalmente submisso à vontade do cavaleiro. Da mesma forma, o espírito tem de ser revestido com a matéria se quiser adquirir plena posse de suas próprias possibilidades, embora o corpo às vezes possa se tornar um impedimento se recusar-se a ser compatível com as exigências do espírito. Se o corpo rende-se às reivindicações do espírito como deveria, ele é fundamental para trazer o Reino do Céu à terra. Ele se torna um veículo para a liberação da vida divina e quando ele subserve esse fim, pode ser apropriadamente chamado de o templo de Deus na Terra.

Uma vez que o corpo físico e as outras coisas materiais podem ser usados para a vida do espírito, a verdadeira espiritualidade não toma qualquer atitude hostil em relação a elas, mas procura expressão nelas e através delas. Assim, uma pessoa aperfeiçoada não ignora o belo ou as obras de arte, as conquistas da ciência e as realizações da política. O belo pode ser degradado e se tornar objeto de desejo ou de ciúmes e possessividade exclusiva; obras de arte, muitas vezes podem ser usadas para aumentar e explorar o egoísmo e outras fraquezas humanas. As realizações da ciência podem ser usadas para a destruição mútua, como nas guerras modernas; o entusiasmo político sem discernimento espiritual, pode perpetuar o caos social e internacional. Mas tudo isso também pode ser corretamente manuseado e espiritualizado. O belo pode se tornar fonte de pureza, felicidade e inspiração; obras de arte podem enobrecer e elevar a consciência das pessoas. As conquistas da ciência podem redimir a humanidade do sofrimento desnecessário e das desvantagens; a ação política pode ser determinante no estabelecimento de uma fraternidade real na humanidade. A vida do espírito não consiste em afastar-se das esferas mundanas da existência, mas em recuperá-las pelo propósito divino, que é trazer amor, paz, felicidade, beleza e Perfeição espiritual ao alcance de todos. No entanto, aqueles que vivem a vida do espírito devem permanecer desapegados em meio às coisas do mundo, sem se tornarem frios ou indiferentes a elas. Desapego não deve ser entendido como falta de apreço. Não é apenas compatível com a verdadeira avaliação das coisas, mas é a sua própria condição. Os anseios criam ilusão e impedem a percepção correta. Eles nutrem obsessões e sustentam o sentimento de dependência em relação aos objetos externos. O desapego promove a compreensão correta e facilita a percepção do verdadeiro valor das coisas sem tornar a consciência dependente dos objetos externos.

Ver as coisas como elas são, significa capturar sua verdadeira significância como sendo parte da manifestação da Vida Una, e ver através do véu da sua aparente multiplicidade significa estar livre da obsessão insistente por qualquer coisa em seu imaginado isolamento e exclusividade. A vida do espírito pode ser encontrada na compreensão, que é livre de apego e na apreciação, que está livre de aprisionamento. É uma vida de liberdade positiva em que o Espírito infunde-se à matéria e brilha através dela sem submeter-se a qualquer redução das próprias reivindicações dela.
As coisas e os acontecimentos desta vida mundana são vistos como estranhos apenas até serem tragados pelo avanço da maré da espiritualidade compreensiva. Uma vez que encontrem o seu lugar certo no esquema da vida, cada um deles é visto como participando da sinfonia da criação. Então, a espiritualidade não requer uma expressão separada ou exclusiva, ela não se torna degradada ao se estar preocupado com as necessidades ordinárias - físicas, intelectuais e emocionais das pessoas. A vida do espírito é uma existência unificada e integral, que não admite compartimentos exclusivos ou independentes.
A vida do espírito é uma manifestação incessante do amor divino e da compreensão espiritual e esses dois aspectos da divindade são irrestritos em sua universalidade e imutáveis na sua inclusividade. Assim, o amor divino não requer qualquer tipo especial de contexto para se fazer sentir. Não precisa esperar alguns raros momentos para sua expressão, nem está à procura de situações sombrias que mostrem sinais de santidade especial. Ele descobre sua expressão em todos os incidentes e situações que possam passar despercebidos por uma pessoa ignorante como sendo insignificantes demais para merecer atenção.

O amor humano comum é liberado somente sob condições adequadas. É uma resposta a certos tipos de situações e é relativo a elas. Mas o amor divino, que brota da fonte interior, é independente de estímulos. É liberado, portanto, mesmo em circunstâncias que seriam encaradas como desfavoráveis por aqueles que têm provado apenas o amor humano. Se há falta de felicidade, beleza ou bondade naqueles por quem um mestre perfeito é cercado, essas próprias coisas tornam-se para ele a oportunidade de despejar seu amor divino sobre eles e resgatá-los do estado de pobreza material ou espiritual. Suas respostas diárias ao seu ambiente mundano tornam-se expressões da divindade dinâmica e criativa que se espalha e espiritualiza em tudo o que ele coloca a sua mente.
Compreensão espiritual, que é o aspecto complementar da vida do espírito, deve ser distinguida da sabedoria mundana, que é a quintessência das convenções do mundo. Sabedoria espiritual não consiste na aceitação incondicional das condutas do mundo. As condutas do mundo são quase sempre o efeito coletivo das ações de pessoas materialmente inclinadas. Pessoas mundanas consideram algo ser correto e tornam-no assim para pessoas de inclinação semelhante.
Portanto, seguir cegamente as convenções não assegura necessariamente uma ação sábia. A vida do espírito não pode ser uma vida de imitação acrítica; ela deve ter suas bases na sua verdadeira compreensão dos valores.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Rodney Collin - A lembrança de si é estar ciente da presença de Deus

Consciência* e consciência moral* são a mesma coisa. Consciência é estar ciente* do meio que nos cerca e de nós dentro dele. Consciência moral é estar ciente dos efeitos de nossas ações em nosso meio. É um estado de alerta para o certo e o errado. Estado de alerta, estado de estar ciente, ambos significam estar acordado, lembrar de si mesmo. Consciência moral é o estado de alerta da mente, das três partes da mente que se reúnem em nós e formam a consciência. A consciência moral é incorruptível, é o melhor que temos. É a continuidade da vida para a eternidade. Significa pensar, projetar. Não estamos aqui para fazer nada fisicamente, temos de desenvolver nossas mentes. Isso nos faz crescer espiritualmente. Devemos desenvolver nossas mentes, pois quanto mais desenvolvida a mente, mais desenvolvida torna-se a consciência moral. Se usarmos nossas mentes não há nada neste mundo que não possamos compreender, se temos a vontade de descobrí-lo. Temos uma consciência moral e uma vontade. A consciência pode dizer-nos para não fazer isto ou aquilo, mas sem vontade não podemos obedecê-la. A vontade introduz a consciência moral no pensamento.

Como somos, o que fazemos está pré-determinado, mas se adquirirmos vontade, o que fazemos não é predeterminado. Nossos movimentos físicos são predeterminados, se andamos, é predeterminado que movamos primeiro um pé e depois o outro. Se decidirmos sentar, é pré-determinado que dobraremos os joelhos. Se estivermos sujos, é pré-determinado que continuaremos a estar sujos até que façamos um esforço para estarmos limpos e predeterminarmos que limpos ficaremos. Controlamos nossa respiração através de uma mente limpa. Se nossa consciência moral estiver suja estaremos perturbados e nossa respiração ficará perturbada.
A consciência moral é a voz do espírito. O reconhecimento da consciência moral está na alma. O corpo não consegue reconhecer a consciência moral porque ele é físico. A ponte entre a consciência moral e o corpo é o reconhecimento, a alma. A alma aceita, olha. Se vemos algo bonito e percebemo-nos, isso é a operação da alma. Isso é a lembrança de si. É necessário sempre fazer a ligação entre o espírito e o corpo, caso contrário apenas existimos, sem Ser. O primeiro passo é saber que nós somos, que temos uma mente. O segundo é ter uma consciência moral, reconhecer a consciência. O terceiro é saber o nosso objetivo. O quarto é conhecermos a nós mesmos e sermos humildes. Essa é a lembrança de si real. No início, podemos ser guiados, mas depois do primeiro ou do segundo passo nós mesmos temos de decidir se vamos para cima ou para baixo. Pois Deus nos deu o livre-arbítrio e nem mesmo Ele pode nos obrigar a ir em alguma direção. Nós mesmos temos de decidir. Temos de tomar decisões constantemente porque nos falta vontade e um centro de gravidade permanente.

Nossas possibilidades são os maiores bens que temos. A fim de que elas possam ser realizadas não devemos reforçar as nossas fraquezas. Toda a ação sem vontade é negativa. Existe apenas uma vontade; é como uma luz que devemos seguir sempre; ela tem de estar vibrando o tempo todo. Fazemos isso ao querer isso. A vontade é essencial para todos. Sem ela não podemos ir a lugar algum. Com vontade, podemos fazer a nós mesmos Ser. Ninguém além de nós mesmos pode nos dar vontade. Uma vez que Deus nos deu o livre arbítrio, nem mesmo Ele pode tocar nisso. Livre-arbítrio significa a capacidade de escolher se queremos ou não exercer o pouco da vontade que temos. O espírito e corpo não nos pertencem, mas a alma sim, porque ela é vontade. A única coisa que realmente pertence a nós é a nossa vontade.
Todos têm uma vontade, embora pensemos que não temos nenhuma. Uma ação é completada por uma das duas causas seguintes: ou o impulso que a iniciou é forte o suficiente para levá-la até o fim, ou temos força de vontade suficiente para completá-la. Estamos constantemente completando ações por nossa própria vontade, mas elas são tão pequenas e insignificantes comparadas às ações concluídas pela força do impulso original que não as notamos. Além disso, estamos muito mais aptos a perceber as instâncias onde nossa vontade não foi suficientemente forte para concluir uma ação do que aquelas em que ela era forte o suficiente para concluí-la. Vontade é a coisa mais forte que existe - a correta vontade.

Não podemos ser perfeitos, isso é impossível. Mas temos de ser fortes. Temos a chave: honestidade, veracidade e sinceridade. A maneira de estar vivo é ajudar os outros a estarem vivos. Se esquecemos de nós mesmos a fim de ajudar os outros, temos atenção. Atenção exige vontade. Nós mesmos e o objeto de nossa atenção são dois fatores, a vontade é o terceiro. Quando os três fatores se juntam o resultado é que estamos mais vivos, somos nós mesmos, temos ser. Podemos perder nosso ser através do hábito de agir mecanicamente. Se a vontade estiver apegada ao corpo, nosso ser diminui. A vontade tem de obedecer o nosso ser e não o corpo. Se agirmos a partir do ser agiremos corretamente, mas se nossos "eus" ficam no caminho não estaremos corretos. Podemos fazer a nossa essência crescer e desenvolver o nosso ser. Se temos ser temos alma, pois com ser temos vontade. É o trabalho da vontade fazer a essência alcançar o ser. Através da vontade podemos desenvolver um ser maior do que aquele com o qual nascemos.

Temos de aprender a harmonizar o corpo com o espírito. Devemos lembrar do nosso corpo físico, da nossa alma e do nosso espírito; lembrar de nós mesmos. Nós não podemos lembrar de nós mesmos até que esqueçamos de nós mesmos. Se estivermos cientes do meio que nos cerca e cientes dos nossos olhos vendo-o, não estamos pensando em nós mesmos. Os olhos com os quais vemos não são nós mesmos. Há uma enorme diferença entre o pensar sobre nós mesmos e lembrar de nós mesmos. Não esquecemos nosso nome e endereço embora não estejamos pensando neles o tempo todo. O espírito sempre sabe e se lembra que ele está na presença de Deus. Não só o espírito, o corpo também sabe. Embora tome isso como garantido, ele não esquece.

O Espírito é puro - a coisa mais pura que temos. Devemos purificar nossos instintos. Pouco a pouco temos de tirar o que é impuro em nós, a fim de abrir espaço para a pura destilação do espírito. Fazemos isso através da lembrança de si, isto é, ao estarmos atentos e abertos, utilizando o todo de nós mesmos: o instinto, o coração e o intelecto.
Existe hipocrisia em todos nós. Todos nós temos um inimigo em nós mesmos. Mas também temos um anjo do outro lado. Existe uma pessoa que nunca nos faltará, o nosso Anjo da Guarda, se criarmos o hábito de pedir-lhe ajuda. Devemos escolher de que lado queremos ir, a que caminho queremos nos inclinar. Se escolhermos direito, o fazemos através da lembrança de si. É um trabalho muito sábio mas temos de entendê-lo direito. Cada pessoa tem de criar a lembrança de si para si mesma de sua própria maneira, mesmo em sua própria religião. Não importa que religião temos; Alá e Deus são o mesmo. O único Mestre é Deus, o único professor somos nós mesmos. Ninguém pode forçar os outros a acreditar Nele. Todo mundo tem de encontrar sua própria maneira, seu próprio entendimento, sua própria consciência alerta. Temos de aceitar por nós mesmos, para nós mesmos, o que a lembrança de si significa para nós. A lembrança de si é o poço das virtudes, o alimento da alma. A lembrança é tudo. A lembrança de si é a divindade.

É muito importante saber o que é a lembrança de si, o que é a alma, o que é consciência. Cada indivíduo deveria descobrir o que são para ele através do desenvolvimento de sua mente para poder aceitar e reconhecer. É somente através da lembrança de si que podemos dominar todas as circunstâncias necessárias para perfeição total da vida. Podemos fazê-lo se quisermos e objetivarmos isso. Não devemos tirar conclusões precipitadas, mas sim estudar por completo.
Temos de ligar o céu e a terra, viver entre a terra e o céu. Quando oramos, quando ajudamos os outros, ligamos a terra e o céu. Há tanta beleza no mundo. Quando olhamos para toda essa beleza e perfeição, como podemos evitar a lembrança de si? Quando lembramos de nós mesmos lembramos de Deus. Reconhecer a beleza é lembrança de si; comunicar-se com o alto é lembrança de si; sentir a beleza, sentir a verdade, isso é a lembrança de si. A lembrança de si não é imaginação. As pessoas pensam que estão lembrando de si quando controlam seus sentimentos. Isso não é lembrança de si. A lembrança de si é estar ciente da presença de Deus.


* Na língua portuguesa a tradução para as palavras em inglês - 'Conscience', 'consciousness' e 'awareness' é consciência. Essas três palavras são de enorme importância na linguagem espiritual e embora possam ser traduzidas, e até certo ponto significarem consciência, elas não significam realmente a mesma coisa. No texto acima na ausência de melhores termos, 'conscience' foi traduzido como consciência moral, 'conciousness' como consciência, e 'awareness' como estar ciente.

sábado, 24 de outubro de 2009

São Teófanes o Recluso - O Reino do Coração

Quando atingirmos uma interioridade constante, seremos então, capacitados a habitar o mundo de Deus. O reverso é igualmente verdadeiro: apenas quando o habitar no outro mundo tornar-se habitual, a interioridade constante será assegurada.

Se quisermos que nossa mente e coração sejam corretamente guiados no caminho da salvação, existem duas precondições essenciais e inevitáveis – interioridade e visão do mundo espiritual. A primeira condição introduz o homem numa certa atmosfera espiritual e a segunda planta-o mais firme ali, num clima favorável para a chama da vida. Portanto, pode ser dito que temos apenas que produzir esses dois estados preparatórios e o que se segue virá por conta própria. As pessoas frequentemente reclamam que o coração está endurecido e isso não é surpresa. O homem não coleta a si mesmo interiormente e também está desacostumado à auto-consciência interior; ele falha em estabelecer-se onde deveria e não conhece o lugar do coração. Então como podem sua vida e suas atividades serem direcionadas corretamente? É como se alguém removesse o coração de seu lugar e quisesse que a vida continuasse.

.

O propósito do espírito, como mostra sua manifestação, é manter o homem em contato com Deus e com a ordem divina das coisas, independente de todos os fenômenos visíveis que o circundam e fluem por ele. Para estar apto a cumprir tal propósito, o espírito deve estar naturalmente imbuído com o conhecimento de Deus e da ordem divina, juntamente com o sentido de uma forma de existência mais abençoada, que se mostra numa falta de contentamento com todas as coisas materiais. Essa visão espiritual existia no primeiro homem, devemos supor, até sua Queda. Seu espírito via claramente Deus e todas as coisas divinas – tão claramente como com olhos comuns vemos hoje um objeto diante de nós. Mas após a Queda, os olhos do espírito foram fechados e o homem deixou de ver o que era natural que ele visse. O espírito em si permanece e tem olhos – mas eles estão fechados. Sua condição é como a de um homem cujas pálpebras se grudaram. O olho está intacto, ele anseia por luz, ele almeja ver a luz, sentindo que a luz existe, mas as pálpebras, estando grudadas, não permitem que ele se abra e entre em contato direto com a luz. Tal é a condição do espírito no homem desde a Queda, obviamente. O homem tem tentado substituir a visão do espírito pela visão da mente, através de construções mentais abstratas e ideologias, mas isso nunca deu resultados, como podemos ver em todas as teorias metafisicas dos filósofos.

Então você começou a perceber o que a paz real significa. Glória a Deus! Então qual é a questão? Agora você deve prosseguir para o Reino onde essa paz é encontrada. Busque o Paraíso perdido, para cantar o louvor do Paraíso reconquistado. Isso é tudo o que conta. Tudo aparte e fora dessa paz é vazio. E essa paz não está longe, está quase ao seu alcance, embora você tenha de desejá-la, e desejar não é tão fácil. Possam a mãe de Deus e seu Anjo da Guarda ajudá-lo!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Hakim Sanai - A rosa silvestre do louvor / Trabalho energético / O tempo necessário

A rosa silvestre do louvor


Aqueles impossibilitados de lamentar
ou de falar seu amor
ou de estarem gratos, aqueles
que não podem lembrar de Deus
como a fonte de todas as coisas,
podem ser descritos como um vento passageiro
ou uma bigorna gelada ou um grupo
de velhas pessoas assustadas.

Diga o Nome. Umedeça a sua língua
com o louvor e seja o chão da primavera despertando.
Deixe que seja dado à sua boca
seu estame amarelo-ouro como aquele da rosa silvestre.

Quando você se preencher com sabedoria
e seu coração com amor,
não haverá mais sede.

Há apenas uma paciência abnegada
esperando na soleira da porta, um silêncio
que não escuta os conselhos
de pessoas passando na rua.

___________________________________________________

Trabalho energético


Se você quer a pérola,
saia do interior do deserto,
e aventure-se no mar.

Mesmo se você não encontrá-la,
pelo menos você esteve
perto da água.

Seja um guerreiro! Deseje algo
poderosamente! Sele seu cavalo
e apronte-se para a busca.

Não aceite uma coroa
feita deste céu visível.
Espere pela que Gabriel traz.

Seja energético no trabalho
que o leva a Deus!

Os fracos e doentes pensam apenas
sobre a rendição. Deite-se diante
da porta que você anseia atravessar.

Abra o seu amor completamente.
Apenas um cão senta-se ociosamente
lambendo um osso.
________________________________________________
O tempo necessário
.
Anos foram necessários antes que o sol, trabalhando sobre uma
pedra do Iêmen pudesse criar uma hematita.
.
Meses têm de se passar antes que uma semente de algodão
possa prover um sudário sem costura.
.
Dias se passam antes que um punhado de lã
torne-se um cabresto.
.
Leva décadas até que uma criança
torne-se um poeta.

E civilizações caem e são lavradas
para que cresça um jardim nas ruínas
- o verdadeiro místico.

Philokalia - Nikitas Stithatos- Sobre a natureza interior das coisas

O amor por Deus começa com o desapego das coisas humanas e visíveis. A purificação do coração e do intelecto marca o estágio intermediário, pois através de tal purificação o olho do intelecto é espiritualmente desvelado e nós atingimos o conhecimento do reino do céus oculto dentro nós (Luc. 17-21). O estágio final é consumado num anseio irreprimível pelos dons supranaturais de Deus e num desejo natural pela união com Deus e por encontrar nossa morada Nele.
.
'Devotai-vos à quietude e sabei que Eu sou Deus' (Sal. 46:10). Essa é a voz do Logos divino e é experimentada como tal por aqueles que colocam as palavras em prática. Portanto, uma vez que você tenha renunciado a agitação e a vaidade assustadora da vida você deveria, em quietude, examinar minuciosamente você mesmo e a realidade interna das coisas com a máxima atenção e deveria buscar conhecer mais plenamente o Deus dentro de você, pois o reino Dele está dentro de nós (Luc. 17:21). Ainda assim, mesmo se você fizer isso por um longo período de tempo será difícil para você apagar a marca do mal de sua alma e restaurá-la totalmente a Seu Criador em toda sua beleza primordial.

“Conhece-te a ti mesmo”: essa é a verdadeira humildade, a humildade que nos ensina a sermos internamente humildes e que torna nosso coração contrito. Tal humildade você deve cultivar e guardar. Pois se você ainda não conhece a si mesmo você não pode saber o que é humildade e ainda não embarcou verdadeiramente na tarefa de cultivar e guardar. Conhecer a si mesmo é o objetivo da prática das virtudes.

Se tendo atingido o estado de pureza você avançar para o conhecimento das essências dos seres criados, você terá cumprido a injunção: “Conhece-te a ti mesmo”. Se por outro lado você ainda não tiver atingido um conhecimento das essências da criação e das coisas divinas e humanas, você poderá conhecer o que está fora de você e ao seu redor mas ainda assim será totalmente ignorante do seu próprio ser.

O que eu sou não é de maneira nenhuma o mesmo que aquilo que me caracteriza; nem o que me caracteriza é o mesmo que aquilo que se relaciona com minha situação; nem o que se relaciona com a minha situação é o mesmo que aquilo que é externo a mim. Em cada caso um é diferente do outro. O que eu sou é uma imagem de Deus manifesta numa alma espiritual, imortal e inteligente, que possui um intelecto que é o pai da minha consciência e que é consubstancial com a alma e inseparável dela. O que me caracteriza é magnificente e soberano, é o poder da inteligência e do livre arbítrio. O que se relaciona com minha situação é o que eu posso escolher ao exercitar meu livre arbítrio, como por exemplo, se o que vou ser é um fazendeiro, um mercador, um matemático ou um filósofo. O que é externo a mim é o que quer que se relacione com minhas ambições nesta vida presente, ao meu status de classe e riqueza mundana, à glória, honra, prosperidade ou seus opostos: pobreza, infâmia, desonra e infortúnio.

Quando você conhece a si mesmo você cessa de todas as atividades externas empreendidas com o objetivo de servir a Deus e entra no próprio santuário de Deus, na liturgia noética do Espírito, o céu divino da ausência de paixões e da humildade. Mas até que você venha a conhecer a si mesmo através da humildade e do conhecimento espiritual, sua vida é uma vida de trabalho duro e suor. Foi disso que Davi falou criticamente quando disse: 'A labuta está diante de mim até que eu entre no santuário de Deus' (Sal. 73:16-17)

Conhecer a si mesmo significa que você deve guardar a si mesmo diligentemente de tudo o que é externo a você, significa parar as preocupações mundanas e examinar detalhadamente a consciência. Uma vez que você venha a se conhecer, um tipo de humildade divina supra-racional repentinamente descenderá sobre a alma, trazendo contrição e lágrimas de fervente remorso para o coração.

Abençoado é o homem que, transformado pela prática das virtudes, transcende as muralhas do estado enredado pelas paixões que o cerca e se eleva nas asas do desapego - asas prateadas pelo conhecimento divino (Sal. 68:13) – para a esfera espiritual na qual ele contempla as essências das coisas criadas e de lá entra na escuridão divina da teologia onde na vida da beatitude, ele cessa todos os trabalhos externos e repousa em Deus. Pois ele tornou-se um anjo terrestre e um homem celestial, ele glorificou a Deus em si mesmo e Deus irá glorificá-lo (João 13:31-32).

Um intelecto totalmente clarificado das impurezas é como um céu cheio de estrelas que ilumina a alma com lúcidas intelecções, e o sol da retidão brilha dentro dela, iluminando o mundo com conhecimento divino. Purificada dessa maneira, a consciência traz à tona, das profundezas da sabedoria, os princípios criativos das coisas e revelações transparentes do que está oculto e em seu estado perfeito ela os apresenta diante do intelecto, de modo que ele saiba a profundidade, altura e largura do conhecimento de Deus.

Desde que o intelecto interiorizou esses princípios e revelações e tornou-os parte de sua própria natureza, ele irá então elucidar as profundezas do Espírito a todos que possuam o Espírito de Deus dentro de si, expondo a astúcia dos demônios e os mistérios do Reino dos Céus.