sábado, 24 de janeiro de 2009

Ramakrishna - Vijnana

Jnana é a realização do Ser por meio do processo “Neti, Neti” - "Nem isso, nem aquilo." A pessoa entra em samadhi por esse processo de eliminação e realiza o Atman (alma). Mas vijnana significa o conhecimento com maior plenitude.
Algumas pessoas já ouviram falar a respeito do leite, outras beberam o leite. Aquele que apenas ouviu falar é "ignorante". Quem já viu é um jnani. Mas aquele que bebeu tem vijnana, ou seja, o conhecimento pleno do leite. Após ter tido a visão de Deus, Ele lhe fala como se fosse um parente próximo. Isso é vijnana. Primeiro você tem que discernir, utilizando o método 'Nem isso, nem aquilo': 'Ele não é os cinco elementos, nem os órgão dos sentidos, nem a mente, nem a inteligência e nem o ego. Está mais além de todos estes princípios cósmicos.
Você quer subir no telhado? Deve então remover e deixar para trás uma a uma todas as escadas. As escadas não são de modo algum o telhado. Mas, depois de atingir o telhado, percebe-se que as escadas são feitas do mesmo material que o telhado, tijolos, cal e poeira de tijolo; percebe-se que é o Supremo Brahman que se tornou o universo, as coisas vivas e os vinte e quatro princípios cósmicos. Aquele que é Atman (a alma) tornou-se os cinco elementos.
Você poderá perguntar, por que a terra é tão dura se saiu do Atman? Tudo é possível através da vontade de Deus. Não vê que a carne e os ossos são feitos de sangue e sêmen? Que dura se torna "a espuma do mar"! Depois de ter atingido vijnana, é possível viver no mundo. Em seguida, entende-se intimamente e de maneira muito clara que o próprio Deus tornou-se o universo e todas as coisas vivas; que Ele não está fora do mundo. O fato é que temos que ter o 'olho espiritual'. Você desenvolverá o olho logo que a sua mente se tornar pura. De um lado está a esposa, de outro o filho. A pessoa ama ambos, mas de maneira diferente. Portanto, a verdade é que tudo depende da mente. A mente pura adquire uma nova atitude. Através de tal mente, vemos Deus neste mundo. Para isso é necessário uma disciplina espiritual.

Rodney Collin - Lembrança de Si (Self-remembering)

Quando começamos a ver que podemos começar a lembrar de nós mesmos apenas por alguns segundos por vez, parece insignificante. Mas o que se deve compreender é que é difícil exatamente porque é o começo de um estado novo para nós, a chave para um mundo novo. Se fosse fácil e se os resultados viessem mais rapidamente poderia não ter a importância que tem. Exatamente por esta razão é impossível dizer quanto tempo levará para alcançar a lembrança de si. Quanto tempo levará para chegar ao México? Algumas pessoas podem ir para lá em um dia, outras em um mês, outras em um ano, algumas em dez anos, mas a maioria das pessoas nunca irá, porque não há nenhuma razão para elas irem. É assim também com a lembrança de si. Somente é possível para aqueles que querem muito e tentam muito; tempo é necessário - anos, muitos anos. E mesmo se conseguirem atingir o que compreendem por lembrança de si, verão que além daquilo, infinitas novas distâncias e novos significados se abrem, e que a realização de um estágio dela é somente o começo de outro.
Quando a lembrança de si verdadeira vem, a pessoa não quer alterar a si mesma, ou os outros; de algum modo ela se eleva acima das fraquezas dos outros e de suas próprias. Não pode haver nenhuma culpa em lugar algum. A pessoa engole aquilo que É, e torna-se livre.
Nós não devemos deixar o esforço da lembrança de si deslizar para a introspecção. Se nos sentirmos um ser intensamente vivo vivendo em um mundo intensamente vivo, tudo penetrado pela Divindade viva, sentiremos o que significa dar, sentir e coletar, simultaneamente, gradualmente, o gosto disso penetrará profundamente em nós e criará um anseio constante por isso.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Upasni Maharaj - Parabrahma


As pessoas dizem que eu sou o perfeito Parabrahma. Quanto mais se está apto a apreciar e experimentar o estado de Parabrahma da mente, mais se está apto a perder o orgulho (Abmana). Eu alcancei esse estado principalmente devido a ter sido desprovido de todo o orgulho.
O que é Parabrahama? Todos vocês e toda a criação são Parabrahma. Mas você não está apto a experimentar, a estar consciente deste estado por causa do orgulho de todas as máscaras que você possui.
Se você perder todo o orgulho, neste momento você experimentará o estado de Parabrahma de uma vez.
Alguns vêm aqui e dizem: “torne-nos como você”, ninguém pode transformar nenhuma pessoa assim. Quem quer que se livre totalmente dos sentimentos de vergonha, medo, dúvida e orgulho automaticamente torna-se assim.
De alguma maneira eu consegui descartar minha culpa e me tornei nu, fui chamado de louco, muitos me perguntavam: “se nos tornarmos assim nus e loucos, vamos nos tornar como você?” Eu respondo: é porque vocês sentem que se fizerem igual a mim não se tornarão como eu que vocês não estão prontos para se tornarem como eu. Isso é tudo.
Se você largar tudo e sentar em algum lugar com determinação total permanentemente, você estará confinado a tornar-se como eu. Porque fazer isso, é um dos métodos principais de perder todo o orgulho.
Não quer dizer que eu apenas estou no estado de Parabrahma, todas as coisas desse mundo, toda a criação estão num estado de Parabrahma. O único ponto é que muito poucos seres humanos estão aptos a experimentar seu estado original, quase todos os seres estão envolvidos com os assuntos do mundo e amam ficar envolvidos nisso, eles nunca tentam adaptar ou mesmo olhar para os métodos que nos fazem nos tornarmos conscientes do nosso estado original de Brahma. Aqueles que não se sentem interessados pelos assuntos do mundo, aqueles que sentem que deveriam sair dos assuntos do mundo, aqueles que se sentem desapontados com o mundo, bem, são eles que adaptam vários métodos para escapar disso ao longo do tempo. São eles que são qualificados para atingir Brahma.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Bhagavan Ramana Maharshi - 1938

Discípulo: (Fala sobre uma visão de Shiva )
Bhagavan: Você fala de uma visão de Shiva. A visão é sempre de um objeto. Isso implica a existência de um sujeito. O valor da visão é o mesmo que o valor daquele que vê (isto é, a natureza da visão está no mesmo plano que a daquele que vê). Aparecimento implica desaparecimento também. O que quer que apareça deve igualmente desaparecer. Uma visão nunca pode ser eterna. Mas Shiva é eterno. A Visão (Pratyaksha) de Shiva significa a existência dos olhos para ver; do intelecto (buddhi) que encontra-se atrás da visão; do sujeito que vê atrás do buddhi e da visão; e finalmente da consciência que é a base do sujeito que vê. Esta Pratyaksha (visão) não é tão real como se imagina ser, porque não é íntima e inerente; não é de primeira mão. É o resultado de diversas fases sucessivas da consciência. Dessas, apenas a consciência não varia. É eterna. É Shiva. É o Ser.
A visão implica na pessoa que vê. Esse que vê não pode negar a existência do Ser (self). Não há nenhum momento em que o Ser como consciência não exista; nem pode esse que vê permanecer separado da consciência. Essa consciência é o Ser eterno e o único Ser. Esse que vê não pode ver a si mesmo.
Quer dizer então, que ele nega sua existência porque não pode ver-se com os olhos como na visão (Pratyaksha)? Não! Assim, Pratyaksha não significa ver, mas sim ser. “SER” é realizar que - EU SOU AQUELE EU SOU. EU SOU é Shiva. Nada mais pode ser sem ele. Tudo tem seu ser em Shiva e por causa de Shiva. Portanto, questione “quem sou eu?” Mergulhe profundamente dentro de si e permaneça como o Ser. Aquele é Shiva - o Ser. Não espere ter visões repetidas dele .
Qual é a diferença entre os objetos que você vê e Shiva? Ele é tanto o sujeito quanto o objeto. Você não pode ser sem Shiva. Shiva é realizado sempre aqui e agora. Se você pensa que você não o realizou isso está errado. Esse é o obstáculo para realizar Shiva. Abandone esse pensamento também e a realização estará lá.
Discípulo: Sim. Mas como ter efetividade o mais rápido possível?
Bhagavan: Esse é o obstáculo para a realização. Pode haver o indivíduo sem Shiva? Mesmo agora Ele é você. Não há nenhuma questão de tempo. Se houvesse um momento de não-realização, a questão da realização poderia surgir. Mas sendo como é, você não pode ser sem Ele. Ele já está realizado, sempre realizado e nunca não-realizado. Renda-se a Ele e habite na vontade Dele; espere Seu prazer. Se você pede que Ele faça como lhe agrada, isso não é rendição mas sim, comando. Você não pode mandá-lo obedecer-lhe e ainda pensar que você se rendeu. Ele sabe o que é melhor e quando e como fazer. Deixe tudo inteiramente para Ele.
Dele é o fardo: você já não tem mais nenhuma preocupação. Todas as suas preocupções são Dele. Tal é a rendição. Isso é Bhakti. Ou, questione para quem essas perguntas surgem. Mergulhe fundo no coração e permaneça como o Ser. Um desses dois caminhos está aberto ao aspirante.
Não há nenhum ser que não esteja consciente e, portanto, que não seja Shiva. Não apenas ele é Shiva, mas também todas as coisas de que ele está ciente e das que ele não está. Contudo, em completa ignorância ele pensa que vê o universo de diversas formas. Mas se ele ver o seu Ser ele não estará ciente de estar apartado do universo; dessa forma, de fato, sua individualidade e as outras entidades desaparecem, embora persistam em todas as suas formas. Shiva é visto como o universo. Mas aquele que vê, não vê o próprio pano de fundo. Pense no homem que vê somente o pano e não o algodão do qual ele é feito; ou do homem que vê os filmes movendo-se sobre a tela num cinema e não vê a própria tela como o pano de fundo; ou outra vez, o homem que vê as letras que lê mas não o papel em que estão escritas. Os objetos são, portanto, consciência e formas.
Mas a pessoa ordinária vê os objetos no universo e não Shiva nestas formas. Shiva é o Ser assumindo estas formas e a consciência que as vê. Isso é dizer, Shiva é o pano de fundo que é a base tanto do sujeito quanto do objeto, e, outra vez, Shiva em Repouso e Shiva em Ação, ou Shiva e Shakti, ou o Senhor e o Universo. O que quer que digamos que exista, é somente a consciência em repouso ou em ação. Quem é que não está consciente? Então, quem não é realizado? Como então podem as perguntas surgirem duvidando da realização ou desejando-a? Se 'eu' não sou Pratyaksha para mim, então posso dizer que Shiva não é Pratyaksha.

Meher Baba - 1956

O silêncio que venho observando pelos últimos 31 anos não pretende velar a minha verdade, mas sim manifestá-la. Quando você realizar a verdade como sendo o núcleo do seu próprio Ser, você estará livre de todo medo e desamparo, e todas as rivalidades e conflitos revelar-se-ão serem sem sentido, pois você se conhecerá como sendo inviolavelmente um com tudo o que tem vida.
Para as lutas, faltas e falhas da humanidade Eu digo, “tenham fé”. Voltem-se para Deus em completa rendição e recebam o amor divino. Vocês são igualmente uma parte da vida divina una e indivisível. Não há um só átomo que não vibre com esta vida divina.
Não há mais necessidade de ninguém se desesperar. O maior dos pecadores bem como o maior dos santos têm a mesma infalível garantia divina.

Jalaluddin Rumi - “Por que fizeste os homens para depois destruí-los?”

Moisés disse: “Ó senhor do dia do ajuste de contas,
Tu fazes as formas; por que, então, as destróis?
Fazes formas encantadoras, tanto homens como mulheres;
Por que, então, Tu as devastas?”
Deus respondeu: “Sei que tua pergunta
Não procede de negação nem de curiosidade vã.
Senão te puniria e castigaria;
Sim, eu te censuraria por essa pergunta.
Mas procura descobrir em minhas ações
O princípio diretor e o mistério eterno,
Para informar teu povo a esse respeito
E tornar “madura” toda pessoa verde.
Sim oh mensageiro, tu me questionastes para que Eu possa revelar
Meus caminhos ao povo, embora tu os conheças.

Ó Moisés, vai e semeia a semente no solo
Para fazer justiça a essa pergunta”.
Quando Moisés havia semeado e sua semente crescera,
Ele tomou uma foice e ceifou o trigo;
Então uma voz divina chegou aos seus ouvidos:
“Por que semeaste e nutriste o trigo e
então o cortaste quando estava maduro?”
Moisés respondeu: “Senhor, eu o cortei e abati
Porque aqui tenho grão e palha.
O grão está fora de lugar no palheiro,
E a palha é inútil no celeiro.
É errado misturar esses dois,
É preciso peneirá-los para separar um do outro”.
Deus disse: “ De quem aprendeste esse conhecimento
Pelo qual instruíste uma eira?”
Moisés disse: “Ó senhor, deste-me o discernimento”.
Deus disse: “Então não tenho discernimento eu também?
Entre minhas criaturas há espíritos puros,
E também espíritos escuros e impuros.
As ostras não são todas do mesmo valor;
Algumas contém pérolas, outras pedras negras.
É preciso discernir as más das boas,
Tanto quanto separar o grão da palha.
A gente deste mundo existe para manifestar
E revelar o 'tesouro escondido'.
Lê: 'Eu era um tesouro escondido e queria ser conhecido';
Não escondas o tesouro escondido, mas revela-o
Teu verdadeiro tesouro está escondido debaixo de outro falso,
Assim como a manteiga está escondida na substância do leite.
O falso é esse seu corpo transitório,
O verdadeiro, tua alma divina.
Muito tempo esse leite fica exposto à vista,
E a manteiga da alma está oculta e não percebida.

Bate teu leite assiduamente misturando-o com o conhecimento,
Para que o que está oculto nele possa ser revelado;
Porque este mortal é o guia para a imortalidade,
Como os gritos dos ébrios indicam a taberna”.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Hazrat Inayat Khan - A Eterna Música

Música, a palavra que usamos em nossa língua diária, não é nada menos que o retrato do Amado. É porque a música é o retrato do nosso Amado que amamos música. Mas a pergunta é: O que é nosso Amado, ou onde está nosso Amado? Nosso Amado é aquele que é nossa fonte e nosso objetivo. O que nós vemos do nosso Amado diante dos nossos olhos físicos é a beleza que está diante de nós. Essa parte do nosso Amado que não está manifesta aos nossos olhos é aquela forma interior de beleza da qual nosso Amado nos fala. Se somente escutássemos a voz de toda a beleza que nos atrai em todo o tipo de formas, nós descobriríamos que em cada aspecto Ele nos diz que atrás de toda a manifestação está o Espírito perfeito, o Espírito da sabedoria.
O que vemos como a principal expressão da vida na beleza visível diante de nós? É o movimento. Na linha, na cor, nas mudanças das estações, na formação e na quebra das ondas, no vento, na tempestade, em toda a beleza da natureza há um movimento constante. É esse movimento que causou o dia e a noite, e mudança nas estações. Esse movimento deu-nos a compreensão do que chamamos de tempo. Senão, não haveria nenhum tempo, pois Ele é a eternidade.
Isso nos ensina que tudo que amamos e admiramos, observamos e compreendemos, é a vida escondida por trás, e esta vida é o nosso Ser.
É devido a nossa limitação que não podemos ver todo o ser de Deus, mas tudo o que amamos na cor, na linha e na forma, ou na personalidade - tudo que é amado por nós - pertence à beleza real que é o Amado de tudo.
Quando tentamos descobrir o que nos atrai nesta beleza que vemos em todas as formas, descobrimos que é o movimento da beleza: a música. Todas as formas da natureza, as flores tão perfeitamente formadas e coloridas, os planetas e as estrelas, a terra - todos dão a idéia de harmonia, de música.
O todo da natureza está respirando, não somente as criaturas vivas, mas toda a natureza. É somente nossa tendência de comparar aquilo que parece estar mais vivo com aquilo que nos parece não tão vivo, que nos faz esquecer que todas as coisas e todos os seres estão vivendo uma vida perfeita. E o sinal de vida que essa beleza viva dá é a música. O que faz a alma do poeta dançar? Música. O que faz o pintor pintar lindos quadros, o músico cantar lindas canções? É a inspiração que a beleza dá. Os Sufis chamaram esta beleza de Saqi, o doador divino, que dá o vinho da vida a tudo. O que é o vinho do Sufi? Toda a beleza: na forma, na linha e na cor, na imaginação, no sentimento, nas maneiras – em tudo isso ele vê a beleza única. Todas essas formas diferentes são parte do espírito da beleza que é a vida por trás, abençoando sempre.
Igualmente ao que chamamos de música na linguagem diária, para mim arquitetura é música, jardinagem é música, o cultivo da terra é música, a pintura é música, poesia é música. Em todas as ocupações da vida onde a beleza é a inspiração, onde o vinho divino foi derramado, existe música. Mas entre todas as artes diferentes, a arte da música foi considerada especialmente divina, porque é a miniatura exata da lei que trabalha através do universo inteiro.
Por exemplo, se estudarmos a nós mesmos perceberemos que as batidas do pulso e do coração, a inalação e a exalação da respiração, são todos trabalho do ritmo. A vida depende do funcionamento rítmico do mecanismo inteiro do corpo. A respiração manifestada como a voz, como a palavra, como o som. O som é continuamente audível, o som fora e o som dentro de nós: isso é música. Isso mostra que há uma música fora e dentro de nós. A música inspira não somente a alma do grande músico, mas cada criança, no instante que vem ao mundo, começa a mover seus pequenos braços e pernas com o ritmo da música. Conseqüentemente, não é nenhum exagero dizer que a música é a linguagem da beleza, a linguagem Daquele a quem cada alma viva tem amado. E podemos compreender que, se realizarmos e reconhecermos a perfeição de toda esta beleza como sendo Deus, nosso Amado, então é natural que essa música que vemos na arte e no universo inteiro, deva ser chamada a Arte Divina.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Siddharameshwar Maharaj - Paramatma

Brahman é como o vazio, como o céu - sem medida, sem qualidade, sem impureza, estável e eterno. Ele é chamado Paramatma, e existem muitos nomes para ele. Não obstante, Ele não tem nenhum nome. Mas você sabe que Ele é eternamente o mesmo. Brahman é vazio como o céu, como se não houvesse nada em absoluto. Conseqüentemente, parece vazio, puro e sempre eterno. Está lá sempre. A esse chamamos Paramatman. Está presente no começo e no final, antes que se formem os conceitos e mesmo quando eles aparecem. Estejamos dormindo ou despertos, a ‘presenciação’ do próprio ‘Si mesmo’ está sempre lá. Ela é natural. Não é sentida nem vista, mas está lá. Está presente antes, durante e depois que apareça qualquer conceito. É imutável e permanente. Nessa natureza imutável, sente-se como se houvesse movimento. Isso é chamado Ilusão, Presenciação ou Maya. Quando se sente o transitório, isso é chamado Ishwara (Deus) ou Maya. Há incontáveis nomes - masculinos, femininos e neutros que se dão ao Uno. Ele não é visto nem sentido, contudo, dão-Lhe muitos nomes.
Um símbolo é usado a fim de identificar um objeto ou uma idéia que não possam ser vistos diretamente. São usados também diferentes nomes para indicar este Paramatman “sem nome”. Os nomes são só indicadores, não os próprios objetos. Similarmente, nomes têm sido dados a
Brahman com o objetivo de identificação. Esses nomes são somente para compreender a “presenciação” ou o impulso de “eu”.
O que somos nós? Somos sempre a encarnação da existência, do conhecimento e da graça(Satchidananda) - é daqui que conhecemos a existência, portanto, há a Consciência seguida de alegria ou de contentamento também. Somente há um impulso de “eu”. Os nomes de “Presenciacão”, “Mula Maya”, etc., existem somente por causa desse “eu”.
A existência é somente Parabrahman - então por que os nomes Satchiananda, Presenciação, Mula Maya, ou Consciência para aquele “eu sou”? Somente para nos ajudar a “conhecer” a realidade. Você existe incondicionalmente, sem esforço. Em você aparece a Presenciação.
Essa é Mula Maya (ou a Ilusão primordial) ou todos aqueles nomes que foram mencionados antes. Nesta Presenciação aparecem as letras, as palavras, os pensamentos, a mente, o intelecto e etc. As letras e as palavras são juntadas, causando a aparência do discurso. A isso dá-se o nome de Vidyadevi (a Deusa do conhecimento) ou Shiva. A Ele se dão tais nomes variados. Conseqüentemente, tudo o que é necessário é reconhecê-Lo. “Purushartha” indica o processo de reconhecê-Lo. O que é a Presenciação? É a consciência. Uma vez que você sabe quem “eu sou”, então você pode descrevê-lo. Qual é a utilidade dessa porção de nomes sem conhecer o ‘si mesmo’, o Ser? Trate, portanto, de examinar tudo isso dentro de você mesmo. Confirma o que as escrituras e o Guru têm dito com a prova da sua própria experiência. A pessoa progredirá se compreender o que é grosseiro e o que é sutil. Tudo o que é visível é grosseiro. Então aparecem os dez sentidos, os cinco pranas (prana, aprana, vyana, udana e samana), a mente, o intelecto, etc.
Se você prosseguir sem compreensão, então não compreenderá durante milhões de nascimentos. No espaço permanente e sem movimento existe ar, mas há uma diferença sutil entre o ar e o espaço. Ela não é detectada pelo olho, mas há uma diferença entre ambos - o ar pode ser sentido, mas o espaço é somente um vazio. Similarmente, há uma diferença sutil entre o ‘si mesmo’ e a Presenciação, exatamente como há uma diferença entre o bronze e o ouro. No 'si mesmo' (o Ser) não há nenhuma modificação de nenhum tipo, isso é porque ele é incondicionado. A isso dá-se o nome - permanência. Assim, Chaitanya (a força vital) ou Maya é somente ilusão e há somente o Brahman no ‘Si mesmo’. Da mesma maneira que há ar ou brisa no céu, há o impulso “eu sou” na ‘Presenciação’, que também é chamado de poder ou força. É chamado também de “desejação”.
O impulso “eu sou” é chamado de Mula Prakriti. Também é chamado de Mahakarana Deha -o corpo supra-causal. Então aparecem os quatro corpos, e esse que está sentado nesta mesa de quatro pés é Satyanarayana, Parabrahman, Parameshwara. É constante, permanente, como o espaço. Um outro nome para Mula Prakriti é Mahamaya. A “Presenciação” penetra tudo. O corpo sutil é chamado Hiranyagarbha (poder invisível), o corpo grosseiro é chamado Virat. O poder invisível indica o corpo causal, que é como o espaço, isto é, invisível. Conseqüentemente, o Atman tem mil caras, formas e figuras. Isto deve ser compreendido. A compreensão de que só há “unidade” neste panorama da existência aparente chama-se “Adhyatma Vidya” ou conhecimento espiritual.

Nisargadatta Maharaj - A manifestação total

O que faz você considerar-se uma pessoa? Sua identificação com o corpo. Esta personalidade individual irá durar? Ela durará apenas enquanto a identificação com o corpo permanecer. Mas uma vez que haja uma convicção firme de que você não é o corpo, essa individualidade é perdida. É a coisa mais simples, assim que você tem essa convicção que você não é o corpo, automaticamente, instantaneamente, você se torna o total manifesto. Assim que você abandona sua individualidade, você se torna a totalidade manifesta. Mas seu verdadeiro ser está além até mesmo disso que é a manifestação total. E você assume esta individualidade dentro desta manifestação total enquanto você está identificado com o corpo.
Quando não houver individualidade, o que você irá considerar ser esse que senta para meditar e o que irá considerar a meditação? Quando essa individualidade não está lá, quem medita e sobre o que? As pessoas falam muito livremente sobre meditação, mas o que realmente elas fazem? Elas usam a consciência para concentrarem-se em algo. Dhyana é quando este conhecimento, esta consciência de que eu sou, medita sobre si mesma e não em algo além de si mesma.
Quando você diz que precisa sentar para meditação, a primeira coisa a ser feita é entender é que não é a identificação com o corpo que está sentando para meditação, mas esse conhecimento “eu sou”, esta consciência, que está sentando em meditação e está meditando sobre si mesma. Quando isso for firmemente entendido, então torna-se fácil. Quando esta consciência, esta presença consciente, mergulha em si mesma, o estado de Samadhi surge. Quando esse Mana (o entendimento), Buddhi (inteligência), Chitta (Consciência individual), ou qualquer nome que seja usado, emerge nesse estado, então mesmo o conhecimento “eu estou meditando” se perde, ele também mergulha nesse estado. Esse sentimento conceitual de que eu existo é que desaparece e submerge no próprio Ser. Então essa presença consciente também se funde naquele conhecimento, naquela existência – isso é Samadhi.
Aquele conhecimento revela-se e começa a ter conhecimento sobre tudo móvel e imóvel. E esse conhecimento começa a conhecer a si mesmo. E finalmente o que acontece? A presença consciente apenas permanece. Isto é, há apenas a presença consciente, não “eu” ou “você”, ou qualquer coisa. Eu repito: é a presença total; ou seja, a manifestação total – não eu, você ou nenhum indivíduo.
Esta consciência, que está dentro do corpo e que, portanto, enganosamente assumiu que ela é o corpo, gradualmente realiza sua natureza real, realiza que ela é apenas presença consciente sem nenhum aspecto individual inerente. Finalmente, ela considera-se a presença consciente da manifestação total, e toda individualidade é perdida.
Portanto, o que começa como egoísmo (no sentido individual, como identificação com o indivíduo) finalmente torna-se conhecimento do Ser, como sendo a Presença Consciente.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Jalaluddin Rumi - O louvor assemelha-se ao vapor


Embora a água seja contida num reservatório,
Ainda assim o ar a absorverá, pois é o seu recipiente;
Ele a liberta e a leva até a sua fonte,
Pouco a pouco, sem que vejas o processo.
Da mesma maneira, nossa respiração, pouco a pouco,
Leva nossas almas de sua prisão na terra.
A boa palavra a Ele ascende(Alcorão)
Elevando-se de nós até onde Ele sabe.
Nossa respiração se eleva em temor a Deus,
São oferendas nossas ao trono da eternidade.
Depois descem até nós recompensas por nossos louvores,
Em dobro até, misericórdia do rei da glória.
Portanto, somos compelidos a proferir louvores,
Para que escravos possam atingir a altura das dádivas de Deus.
E assim, esse subir e descer prossegue eternamente,
E não cessa por todo o sempre ou mais.
Falando claramente, esta atração
Vem do mesmo lugar que este doce sabor.

Hazrat Inayat Khan - Raga


Ganhaste meu coração mais de mil vezes;
Vens velado sob muitas aparências, e em todas elas és único.
Quem não é atraído pelo esplendor por Ti produzido tão habilidosamente na face da terra?
Nesta feira da beleza brilhas adornado em inumeráveis vestes.
A Ti próprio pertence toda a beleza, e és tu que brilhas nela, e, no entanto, não és atraído por ela.
Neste palco da vida atuas como amigo e inimigo,
e sozinho vês a peça sendo atuada tão maravilhosamente.
Eu te procurei por tanto tempo, meu amado, e finalmente Te encontrei, oh conquistador do meu coração; e ao encontrar-Te eu me perdi.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Upasni Maharaj - O Escultor

Veja as variadas formas maravilhosas que Deus tem assumido. As diferentes qualidades mostradas por diferentes formas têm dado tantos nomes para Deus. É por isso que existem inumeráveis nomes para Deus. Ele atua em tantos papéis, toma tantas formas! Quem pode compreender o Leela (Jogo) de Deus? Seus Leelas são infinitos, tudo o que você vê é a forma Dele, todas as formas animadas e inanimadas dentro e fora desta criação foram assumidas por Ele. É como milhares de imagens e de formas feitas do mesmo barro e nomeadas de maneiras diferentes e usadas para propósitos diferentes.

Se uma imagem de Ganapati é feita de barro, então aquela massa de barro é chamada de Ganapati. E no momento apropriado, as qualidades de Ganapati aparecem naquela imagem. Se uma forma de uma serpente é dada ao mesmo barro, todos que a vêem realmente sentem a presença de uma serpente. Se o mesmo barro é transformado na imagem de um tigre e colocado na floresta num lugar apropriado, então os viajantes certamente acreditarão ser um tigre real, e se sentirão amedrontados. Portanto, o barro transformado numa forma particular e mantido num determinado lugar está destinado a criar um efeito particular na pessoa que o vê. Mas a pessoa que fez essas formas ou que sabe que todas essas formas são feitas apenas de barro, tem a mente nunca afetada por nenhuma dessas formas.

Kabir - Há uma lua dentro de meu corpo

A Lua brilha no meu corpo,
mas meus olhos cegos não podem vê-la.
A Lua está dentro de mim,
e também está o Sol.
O imutável tambor da eternidade é soado dentro de mim;
mas meus ouvidos surdos não podem ouvi-lo.
Enquanto o homem clamar por ‘eu’ e ‘meu’,
seus trabalhos serão vazios:
Quando todo o amor do ‘eu’ e do ‘meu’ for morto,
então o trabalho do Senhor estará feito.
Pois o trabalho não tem outro objetivo além de adquirir o conhecimento:
quando Ele chega, o trabalho é deixado de lado.

A flor desabrocha pelo fruto:
quando o fruto vem, a flor murcha.
O almíscar está no cervo,
mas ele não procura dentro de si mesmo:
ele vagueia em busca de relva.

Rodney Collin - Corpo, Alma e Espírito


Do que trata nosso trabalho?
Nosso trabalho visa permitir que o homem viva conscientemente em três corpos, em três mundos, e assim, que perceba o plano divino. Um corpo físico foi dado a ele pela Natureza no nascimento. Existe em algum lugar a faísca divina original lançada por Deus e que, quando reencontrada, será seu espírito consciente. Mas o homem ordinário não tem nenhum sentimento por aquele corpo que foi criado para conectar os dois - a alma.
A alma é a ponte entre o corpo e o espírito, entre a terra e o céu. Ela está lá, mas você tem que tornar-se ciente dela, tem que senti-la, tem que viver nela. Você sente a alma abrindo seu coração às pessoas, aceitando aquilo que É. A alma cresce através do coração. O coração é a porta da alma. Mas em todos os homens comuns, esta porta está obstruída pelo medo, pelo preconceito, pela dúvida. Seu coração não está aberto para o mundo. O homem apenas toma do mundo aquilo que quer e da maneira que quer. Se ele pudesse apenas ser ele mesmo, ser seu ‘Ser’ (Self) inteiro, sem medo e sem auto-proteção, ele já viveria da alma. Portanto, aprenda simplesmente a ser, ser seu inteiro ‘si mesmo’ (Self). Primeiramente, você deve viver ciente do seu corpo físico. Então, ciente de sua alma. E depois, ciente de seu espírito.
A alma é a ponte, a conexão, entre o corpo e o espírito. Aqueles que vivem completamente dos impulsos dos corpos e da vaidade - você pode dizer que não têm nenhuma alma, ou que sua alma está adormecida; você sente isso. Aqueles que vivem buscando a verdade, tentando obedecer a consciência - suas almas estão crescendo, suas almas estão despertando; você sente isso também. Realmente todos têm uma alma, mas temos que tornarmos-nos cientes dela, viver nela, fazê-la vibrar. Quando ela vibra realmente, a conexão entre o corpo e o espírito é completa. O que faz a alma vibrar, e assim, permitir que todas as partes do homem atuem como um? Luta, fé, esforço, vontade, dor e alegria, memória, piedade e sacrifício. Todos esses pertencem à vinda da alma à vida.
Nós reconhecemos o espírito pela consciência, que é sua voz; nós reconhecemos o corpo prestando atenção nele; reconhecemos a alma através da vontade; vontade através da qual o homem faz seu corpo obedecer seu espírito, e assim unifica-o. O corpo tem suas emanações e o espírito tem suas emanações. Cada esforço da vontade, pela qual um homem torna sua ação física de acordo com sua consciência, funde um átomo do corpo com um átomo do espírito para dar forma a uma molécula da alma. E da mesma maneira que os átomos de hidrogênio e os átomos do oxigênio podem existir lado a lado para sempre, sem dar forma à água até que sejam fundidos pelo choque da eletrólise, assim, o espírito e o corpo podem existir indefinidamente lado a lado até que o choque da vontade faça da fusão de ambos a nova substância: alma.
O corpo vive no espaço e no tempo, sujeito à matéria, à ilusão e aos sentidos. O espírito vive na eternidade e na verdade. A alma deve unir os dois. Portanto, tudo que é certeza pertence ao espírito, tudo que é esforço pertence à alma. O espírito conhece Deus, a alma tem a fé; o espírito conhece Deus, a alma tem a esperança; o espírito conhece Deus, a alma tem a caridade. É assim que se faz a alma vibrar, e o homem transforma-se em um, torna-se ele mesmo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Meher Baba - Manonash

Deus está em toda parte e faz tudo.
Deus está dentro de nós e sabe tudo.
Deus é sem nós e vê tudo.
Deus está além de nós e É tudo.

Este Todo-penetrante, Todo-compreendedor, Deus todo-poderoso, que é o Ser dentro de nosso próprio ser e sem o qual nada é real, ajudou-me e guiou-me durante este período de Manonash de meu trabalho, e faz-me agora ditar a vocês o seguinte: Tentar compreender com a mente aquilo que a mente jamais pode compreender é inútil. Tentar expressar pelos sons da linguagem e sob a forma de palavras o estado transcendental da alma é ainda mais inútil. Tudo que pode ser dito e que tem sido dito e que será dito por aqueles que vivem e experimentam esse estado, é que quando o falso ser é perdido, o Ser real é encontrado; que o nascimento do real pode somente seguir a morte do falso; e que morrendo para nós mesmos -a morte verdadeira que termina com todo o morrer- é o único caminho para a vida perpétua. Isso significa que quando a mente com seus satélites - desejos, ânsias, vontades - é consumida completamente pelo fogo do amor divino, o Ser infinito, indestrutível, indivisível e eterno é manifestado.
Isso é Manonash, a aniquilação do falso, limitado, miserável, ignorante e destrutível “eu” para ser substituído pelo "Eu” real, o possuidor eterno do conhecimento, do amor, do poder, da paz, da felicidade e da glória infinitos em sua existência imutável. Manonash está destinado a conduzir a esse estado glorioso no qual a pluralidade vai e a unidade vem, a ignorância vai e o conhecimento vem, o aprisionamento vai e a liberdade vem. Nós estamos todos alojados permanentemente neste oceano sem fronteiras do conhecimento infinito, no entanto, somos infinitamente ignorantes dele até que a mente - que é a fonte dessa ignorância - desapareça para sempre; a ignorância cessa de existir quando a mente cessa de existir! A menos, e até que a ignorância seja removida e o conhecimento for ganhado - o conhecimento por meio do qual a vida divina é experimentada e vivida - tudo que pertence ao espiritual parece paradoxal. Deus, o qual não vemos, dizemos que é real; e o mundo, que nós vemos, dizemos que é falso.
Na experiência, o que existe para nós não existe realmente, e o que não existe para nós existe realmente. Nós devemos perder a nós mesmos a fim de encontrar a nós mesmos. Assim, a própria perda é ganho. Devemos morrer para nós mesmos para viver em Deus. Desse modo, morte significa vida. Devemos nos tornar completamente vazios internamente para sermos possuídos completamente por Deus. Assim, o vazio completo significa a totalidade absoluta. Nós devemos nos tornar despidos do sentido de nós mesmos, não possuindo nada, para sermos absorvidos na infinidade de Deus. Assim, nada significa tudo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Nisargadatta Maharaj - Mahadakash, Chidakash e Paramakash

Maharaj: Mahadakash é a natureza, o oceano das existências, o espaço físico com tudo o que pode ser descrito com os sentidos. Chidakash é a extensão da consciência, o espaço mental do tempo, da percepção e da cognição. Paramakash é realidade sem tempo e sem espaço, sem mente, indiferenciada; é a potencialidade infinita, a fonte e a origem, a substância e a essência, a matéria e a consciência, e, contudo, está além de ambos. Não pode ser percebida, mas pode ser experimentada como sempre testemunhando a testemunha, percebendo o percebedor; a origem e o fim de toda a manifestação, a raiz do tempo e o espaço, a causa principal em toda corrente de causas.
Pegunta: Qual é a diferença entre o Vyakta (o manifesto) e o Avyakta (o não manifesto)?
Maharaj: Não há nenhuma diferença. É como a luz e a luz do dia. O Universo está cheio de luz que você não vê; mas a mesma luz você vê na forma de luz do dia. E o que a luz do dia revela é o Vyakti.
A pessoa é sempre o objeto, a testemunha é o sujeito, e sua relação de dependência mútua é um reflexo da identidade absoluta deles. Você imagina que são estados distintos e separados. Não são. São a mesma consciência - em repouso e em movimento, cada estado consciente um do outro. Em Chit (consciência universal) o homem conhece Deus e Deus conhece o homem. Em Chit o homem dá forma ao mundo e o mundo dá forma ao homem. Chit é a ligação, a ponte entre extremos, o fator de equilíbrio e de união em cada experiência. A totalidade de tudo o que é percebido é o que você chama de matéria. A totalidade de todos os percebedores é o que você chama de mente universal. A identidade dos dois, manifestando-se como a perceptibilidade e percepção, harmonia e inteligência, amorosidade e amor, reafirma-se eternamente.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Farid ud-Din Attar


No começo dos séculos Deus usou as montanhas como pregos para fixar a terra; depois lavou-lhe a face com as águas dos oceanos. Colocou a terra sobre o dorso de um touro; o touro sobre um peixe, e o peixe está no ar. Mas sobre o que repousa o ar? Sobre nada. Mas nada é nada, e tudo isso é nada. Admira, pois, a obra desse Rei, ainda que ele mesmo não a considere mais do que puro nada. Visto que existe unicamente a essência Dele, certamente não há nada fora ela. Seu trono está sobre a água, e o mundo está no ar; mas deixa água e ar, pois tudo é Deus: o Trono celeste e o mundo não são mais que um talismã. Deus é tudo, e as coisas têm somente um valor nominal. Saiba que o mundo visível e o mundo invisível são Ele mesmo. Não há nada além Dele, e o que é, é Ele. Porém, ai! Ninguém tem a possibilidade de vê-Lo. Os olhos são cegos, ainda que o mundo esteja iluminado por um sol brilhante. Se chegas a percebê-lo, perdes o juízo; se o vires completamente, perdes a ti mesmo. Coisa admirável !

Gurdjieff - Cristianismo

Pergunta: O senhor é cristão? O que pensa disso? Deveríamos amar o próximo? E quem pode amar como um cristão?
Gurdjieff: O cristianismo implica muitas coisas. Tomemos apenas uma como exemplo: Quem pode amar ou detestar quando quer? Entretanto, o ensinamento cristão diz claramente que se deve amar os homens. Mas é impossível.
Contudo, é uma verdade absoluta que é necessário amar. Primeiro, é preciso ser capaz, só então se pode amar. Infelizmente, com o tempo, os cristãos de hoje só retiveram desse ensinamento a segunda metade, que é: amar, e perderam de vista a primeira - a religião que deveria tê-la precedido. Mas seria totalmente absurdo que Deus exigisse do homem aquilo que ele não tem condições de dar.
A metade do mundo é cristã, a outra metade segue outras religiões. Para mim, que sou um homem sensato, não há nenhuma diferença: elas se assemelham à religião cristã. É possível dizer que o mundo inteiro é cristão. Só diferem os nomes. O mundo foi cristão não desde ontem, mas desde milhares de anos. Havia cristãos bem antes do advento do cristianismo. Assim, o bom senso me faz dizer: há tantos anos que os homens são cristãos! como podem ser tão insensatos para exigir o impossível?
Mas a realidade é completamente diferente. As coisas nem sempre foram como são agora. Foi só há pouco tempo que os homens esqueceram a primeira parte desse ensinamento. Tendo esquecido, eles perderam o meio que tinham de se tornarem capazes. E, na verdade, isso se tornou impossível para eles.
Cada um de vocês se pergunte simplesmente, com franqueza, se pode amar todos os homens. Se bebeu uma xícara de café, ele ama; do contrário, ele não ama. Como se pode chamar isso de cristianismo?
No passado, todos os homens não eram chamados indistintamente de cristãos. Numa mesma família, uns eram chamados de cristãos, outros de pré-cristãos e outros ainda de não-cristãos. Desse modo, no seio de uma só e mesma família, poderia haver membros pertencentes à primeira, segunda e terceira categoria. Hoje, porém, todos se dizem cristãos. É ingênuo, desonesto, irrefletido e mesmo desprezível usar esse nome quando ele não é justificado. Um cristão é um homem capaz de observar os Mandamentos.
Um homem que é capaz de cumprir simultaneamente, com seu pensamento e sua essência, tudo que é pedido de um cristão, é chamado cristão sem aspas. Um homem que em pensamento, tem o desejo de cumprir o que se pede a um cristão, mas que só pode fazê-lo com seu pensamento, e não com sua essência, chama-se pré-cristão. O homem que não pode fazer nada, nem sequer com seu pensamento, chama-se não-cristão.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Meher Baba - Perfeição

A perfeição é alcançada quando o homem se torna Deus ou quando Deus se torna homem. O Ser finito que está consciente de seu ser finito é obviamente desprovido de perfeição; mas quando ele é consciente de ser um com o infinito, ele é perfeito. É isso o que acontece quando o homem abandona a ilusão de ser finito e alcança a Divindade realizando seu aspecto divino. Se por infinito queremos dizer isso que é oposto ao finito ou que está separado do finito e necessariamente oposto do finito, esse infinito já é limitado por ser incapaz de afirmar-se no finito e através do finito. Ou seja, a perfeição não pode pertencer a tal infinito. O infinito tem que, conseqüentemente, descobrir sua vida ilimitada dentro e com o finito sem ser limitado por este processo. A perfeição de Deus é revelada somente quando Ele se manifesta como homem. A descida consciente de Deus na forma limitada de homem é o Avatar. Esse novamente é um caso de perfeição. Assim, temos a perfeição quando o finito transcende seus limites e realiza sua infinidade, ou quando o infinito abandona seu suposto afastamento e torna-se homem. Em ambos os casos o finito e o infinito não estão fora um do outro. Quando há uma mistura feliz e consciente do finito e do infinito, temos a perfeição. Então temos o infinito revelando-se através do finito sem ficar limitado desse modo, e o finito transcendendo seu sentido de limitação no total conhecimento de que ele realmente é a revelação do infinito.

Siddharameshwar Maharaj - Como pode Deus ocupar esse lugar onde está o “eu”?



Sua mente está cativada pelos objetos criados pela ilusão (Maya). Isso inclui também o corpo. Quando sua mente está imersa em Maya, você tem os conceitos de “você” e de “eu”. Todas as lutas devem-se porque você quer que o corpo tenha tudo de melhor. É porque você dedica sua mente a esta luta, que o mundo existe. É porque existem estudantes que existem os professores. Se os estudantes desaparecerem, para quem os professores serão? É porque existe o conhecimento objetivo, que “você” existe. Como o Senhor penetrará o corpo em que você (o ego) estabeleceu sua residência? Como pode uma bainha conter duas espadas? Como pode Deus ocupar esse lugar onde está o “eu”? Podem ser úteis estes objetos sem valor para aquele que aspira alcançar Brahman? Conseqüentemente, você deve sentir que tudo isto não é verdadeiro. Aqueles que querem a ‘Brahmanidade’ devem ter uma dose de Deus (ou seja, devem meditar no Ser-o si mesmo real). De um lado há o ‘Ser’ e do outro, há este exército, este mundo e a regência dos quatorze reinos. Existem duas “realidades" alternas: A Ilusão e Brahman. Não se deve pensar em Maya nem mesmo como sendo boa ou má. Isso se chama “desapego”. Quando, desde o átomo até Brahmadeva, toda esta riqueza e prosperidade são falsas, como podem ser de alguma utilidade? Quando a inclinação mental se separa dos desejos mundanos, de maneira natural ela se volta para 'o Si mesmo real' (o Ser). Mas como pode obter o conhecimento de Brahman aquele que pensa constantemente sobre os objetos do mundo?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ramana Maharshi - Self-enquiry (Atma-Vichara)


O primeiro pensamento a surgir na mente é o pensamento "eu". Todos os outros inumeráveis pensamentos surgem apenas depois do pensamento "eu" e têm nele sua origem. Em outras palavras, apenas depois do pronome de primeira pessoa “eu” surgir, é que os pronomes de segunda e terceira pessoa, “tu” e “ele”, ocorrem para a mente; estes não subsistem sem aquele.
Como todos os outros pensamentos só podem surgir depois do aparecimento do pensamento "eu", e como a mente nada mais é do que um conglomerado de pensamentos, é apenas voltando a atenção para o pensamento "eu", através da inquirição “Quem sou eu?”, que a mente será extinta. Além disso, o pensamento "eu", implícito na investigação “Quem sou eu?”, destruirá todos os outros pensamentos, como uma vareta que quando usada para avivar uma fogueira, é também consumida no final.
Você não precisa eliminar nenhum falso “eu”. Como pode o “eu” eliminar a si mesmo? Tudo o que você precisa fazer é encontrar a Fonte do “eu”, e permanecer lá. O seu esforço só pode levá-lo até esse ponto. A partir daí o Transcendental vai tomar conta de si mesmo. Você não pode fazer mais nada então. Nenhum esforço pode chegar até Ele.
O pensamento “eu” é como um fantasma que, apesar de ser impalpável, surge simultaneamente com o corpo, vive e desaparece junto com ele. A consciência “eu sou o corpo/este é meu corpo” é o falso eu. Abandone-a. Você pode fazer isso buscando a fonte do sentimento “eu”. O corpo não diz “eu sou”. É você que diz “eu sou o corpo”. Descubra o que é esse “eu”; busque sua fonte e ele desaparecerá.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Ramana Maharshi - Um verso


Pode haver espaço, pode haver tempo, exceto para mim mesmo?
O espaço e o tempo me atam apenas se sou o corpo.
Eu não estou em nenhuma parte, eu sou sem tempo.
Eu existo em toda parte e sempre.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Nisargadatta Maharaj - Dia 8 de Novembro de 1980


Pergunta: Por que é que nós naturalmente parecemos pensar em nós mesmos como indivíduos separados?
Maharaj: Seus pensamentos sobre individualidade não são realmente seus próprios pensamentos, são todos pensamentos coletivos. Você pensa que você é a pessoa que tem os pensamentos, mas de fato os pensamentos surgem dentro da consciência. Conforme nosso conhecimento espiritual cresce, nossa identificação com um corpo-mente individual diminui, e nossa consciência expande-se na consciência universal. A força da vida continua a atuar, mas seus pensamentos e ações já não são limitados a um indivíduo. Transformam-se na manifestação total. É como a ação do vento - o vento não sopra para nenhum indivíduo em particular, mas para a manifestação total.
Q: Como um indivíduo, é possível retornar à fonte?
M: Não como um indivíduo, o conhecimento “eu sou” deve retornar à sua própria fonte. Agora, a consciência identificou-se com uma forma. Mais tarde, ela compreende que não é essa forma e segue adiante. Em alguns casos ela pode alcançar o espaço, e muito frequentemente, pára ali. Em pouquíssimos casos ela alcança sua fonte real, além de todo condicionamento.
É difícil abandonar essa inclinação de identificar o corpo como sendo o 'Ser' (Self). Eu não estou falando com um indivíduo, estou falando para a consciência. É a consciência que deve procurar sua fonte. Daquele estado de não-ser surge o sentido de existência. Ele surge tão quietamente quanto o crepúsculo, com apenas uma sensação de “eu sou” e então de repente o espaço está lá. No espaço, o movimento começa com o ar, o fogo, a água, e a terra. Todos estes cinco elementos são justamente você. De sua consciência tudo isto aconteceu. Não há nenhum indivíduo. Há somente você, o funcionamento total é você, a consciência é você. Você é a consciência, todos os títulos dos deuses são os seus nomes, mas identificado ao corpo você se entrega ao tempo e à morte - você está impondo isso a você mesmo. Eu sou o universo total. Quando eu sou o universo total não tenho necessidade de nada porque eu sou todas as coisas. Mas abarrotei eu mesmo em uma coisa pequena, um corpo; fiz de mim um fragmento e tornei-me necessitado de coisas. Eu preciso de tantas coisas sendo um corpo. Na ausência de um corpo, você existe; quando não tinha um corpo você existia? Você estava lá ou não? Alcance esse estado que é e era anterior ao corpo. Sua natureza verdadeira está aberta e livre, mas você a encobre, você dá a ela várias formatações.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Sr. Ouspensky - Cada coisa é atravessada por todas as matérias que existem no universo


Toda a matéria do mundo que nos rodeia, o alimento que comemos, a água que bebemos, o ar que respiramos, as pedras de que são construídas as nossas casas, nossos próprios corpos – cada coisa é atravessada por todas as matérias que existem no universo. Não é necessário estudar cientificamente o Sol para descobrir a matéria do mundo solar, essa matéria existe em nós mesmos e é o resultado da divisão de nossos átomos, do mesmo modo temos em nós mesmos as matérias de todos os mundos. O homem é no sentido pleno dessa palavra, um universo em miniatura. Todas as matérias de que é constituído o Universo estão nele. As mesmas forças, as mesmas leis que governam a vida do universo, agem nele. É por isso que ao estudarmos o homem, podemos estudar o universo inteiro, exatamente do mesmo modo que, estudando o mundo, podemos estudar o homem.

Al Ghazali - O peregrino e a caravana

A alma deveria tomar conta do corpo, assim como o peregrino no seu caminho para Meca toma conta do seu camelo, mas se o peregrino passa todo seu tempo alimentando e adornando seu camelo, a caravana o deixará para trás e ele irá perecer no deserto.

Sr. Ouspensky - Record of meetings

Pergunta: A lembrança de si era uma característica do antigo conhecimento esotérico?
Ouspensky: Sempre, em toda a parte. Apenas algumas vezes, nas escolas religiosas, por exemplo, foi designada por um nome diferente. Isso não é arbitrário. É uma etapa necessária em nosso desenvolvimento, não uma tarefa imposta arbitrariamente. É preciso passar por ela e só se pode passar de uma forma.
Pergunta: Cristo alguma vez falou sobre ela – com quais palavras?
Ouspensky: Em cada página. Palavras diferentes. Por exemplo, ‘Não durmai’, ‘Vigiai’ – todo o tempo.
Pergunta: Se a identificação é uma perturbação emocional, o que causa esta perturbação. Por que é assim?
Ouspensky: Qualquer coisa, qualquer coisa no mundo pode causá-la. É difícil dizer o por quê. Pode ser um número excessivo de ‘eus’, falta de controle se quiser. Mas ‘o por quê’ não é tão interessante. Não estudamos o por quê. Estudamos o 'como'. Não podemos saber por que, ou sabemos apenas algumas vezes. Não temos controle; não sabemos que não temos controle e muitas outras coisas. Isso causa identificação. Nascemos rodeados de pessoas que sempre estão identificadas e por imitação inconsciente, nos tornamos iguais a elas.
Pergunta: Você disse que a Natureza era contrária ao desenvolvimento do homem. O desenvolvimento do homem é antinatural, não é?
Ouspensky: Sim, de certo modo. Os níveis são diferentes. A natureza criou o homem parcialmente desenvolvido, e por assim dizer, o deixou aí. Isso significa que a Natureza, a Natureza mais próxima, por assim dizer, necessita dele como ele é. Ao mesmo tempo a Natureza o criou com uma possibilidade de desenvolvimento, isto significa que ela pode usar o homem desenvolvido para algum propósito. As duas coisas são naturais – o fato de que o homem é parcialmente desenvolvido e o fato de que ele pode se desenvolver.
Pergunta: Você disse há um tempo atrás que vivemos sob 48 leis. Quais são elas?
Ouspensky: A Terra está sob 48 leis. Gravidade, coisas assim. Muitas, muitas leis sob as quais vive a Terra – movimento, leis físicas, leis químicas.
Pergunta: Você disse que à medida que progredimos podemos eliminar algumas delas.
Ouspensky: Eu disse que a Terra vive sob 48 leis. O homem vive sob muito, muito mais do que 48. Algumas conhecemos – leis físicas, biológicas. Depois vêm as leis muito simples – a ignorância, por exemplo. Não conhecemos a nós mesmos, isso é uma lei. Se começamos a conhecer a nós mesmos, ficamos livres de uma lei. Não podemos aprender ‘esta é uma lei, esta outra lei, esta uma terceira lei’. Para muitas delas não temos nomes. Todas as pessoas vivem sob a lei da identificação. Essa é uma lei. Aqueles que começam a lembrar de si mesmos podem se livrar da lei da identificação. Dessa forma podemos conhecer essas leis.

Siddharameshwar Maharaj - Toda aparência é ilusão


Toda a aparência é ilusão (Maya) e o “presenciador” é Brahman. O que é visto, ou seja, a aparência, é falso, e o que vê é Brahman. Há uma declaração nos Vedas que diz que existem somente duas entidades, aquilo é visto e Aquele que vê. O Vedanta declara isso de maneira contundente. Neste mundo não há nada além do observador e do observado. Aquele que reside no coração de cada um é Brahman, e Ele é “Real”.
Quem se refugia no que é visto, perece; e quem se refugia em Brahman, alcança o estado Dele. Se você concentrar a atenção no visto (no mundo objetivo), você será destruído assim como aquilo que é visto (o mundo objetivo). A pergunta é, se aquilo que é visto não é verdadeiro, por que é visível, então? O que é visto é falso, porque tudo o que é visto é a magia criada pelo olho. É por isso que não é verdadeiro. No espelho vemos um rosto, isso implica que parecem existir dois rostos; significa então, que hajam dois “você”? O fato é que “você” é somente um, mas, entretanto, parecem existir dois. Um pintor pinta quadros com tinta e diz: “esta é uma montanha, este é o Sr. Vishnu, esta é a Deusa Laskmi”. Você aceita isso como real? Você é o criador. O que na realidade é madeira (a tela), aceitamos como se fosse carne. É o milagre do olho. Aquele que adorar o ‘Si mesmo Real’ desvendará o próprio ‘Si mesmo Real’. Este mundo mortal é feito de terra e será reduzido a poeira apenas. O corpo humano vem da maternidade e vai para o túmulo. Devemos comer o interior do côco e jogar a casca. Aquele que come a casca, consegue só quebrar os dentes.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Jalaluddin Rumi - Pegue a pérola da concha

Saiba que a forma exterior passa, mas o
Mundo do Significado permanece para sempre.
Quanto tempo te enamorarás do formato do jarro?
Deixe de lado o formato do jarro: Vá buscar água!
Tendo visto a forma, não percebes o significado.
Se és sábio, pega a pérola da concha.

Site - Philosophia Perennis

Site com muitos textos relacionados à verdadeira espiritualidade - Philokalia, Sufismo, Vedanta, Quarto Caminho - em Português e Espanhol

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

La Tzu - Tao Te Ching

O Tao de que se pode falar não é o verdadeiro e eterno Tao.
O nome que pode ser dito não é o verdadeiro nome.
O que não tem nome é a origem do Céu e da Terra
E o nomear é a mãe de todas as coisas.
Sem a intenção de o considerar,
Podemos apreender o mistério e suas sutilezas
Através da sua ausência de forma.
Tentando considerá-lo, só podemos ver sua manifestação
Nas formas que definem o limite das coisas.
Ambos provêm da mesma fonte e são o mesmo.
Diferem devido apenas ao aparecimento dos nomes.
São o mistério mais profundo, a porta para todos os mistérios.

Nisargadatta Maharaj - O Ser permanece além da mente

Pergunta: Quando era criança, com muita frequência eu experimentava estados de felicidade completa, próximos ao êxtase. Mais tarde, esses estados acabaram mas, desde que vim para a Índia, eles reapareceram, particularmente desde que encontrei você. Ainda assim, apesar de serem maravilhosos, esses estados não duram. Chegam e se vão, e não se sabe quando voltarão.

Maharaj: Como pode haver algo estável em uma mente que em si mesma não é estável?

P: Como podemos estabilizar a mente?

M: Como poderia uma mente inconstante fazer-se estável? Certamente não é possível. A natureza da mente é vagar. Tudo o que você pode fazer é colocar o foco da consciência além da mente.

P: Como isso é feito?

M:Evite todos os pensamentos exceto um: o pensamento “eu sou”. A mente irá rebelar-se a princípio, mas, com paciência e perseverança, ela cederá e permanecerá quieta. Uma vez que você esteja quieto, as coisas começarão a acontecer espontaneamente e de forma muito natural, sem nenhuma interferência de sua parte.

P: Posso evitar essa longa batalha com minha mente?

M: Sim, você pode. Simplesmente viva sua vida como vier, mas sempre alerta, vigilante, permitindo que tudo ocorra da maneira que ocorrer, fazendo as coisas naturais de um modo também natural, sofrendo, gozando, como a vida se apresentar. Essa também é uma maneira de viver.

P: Bom, então posso casar-me, ter filhos, levar um negócio, ser feliz ...

M: Claro que sim. Você pode ser feliz ou não; aceite-a calmamente.

P: Mas eu quero felicidade.

M: Não se pode encontrar a verdadeira felicidade nas coisas que mudam e morrem. O prazer e a dor se alternam inexoravelmente. A felicidade procede do Ser e só pode ser encontrada no Ser. Encontre seu Ser Real (swarupa) e tudo chegará com ele.

P: Se meu Ser real é cheio de paz e de amor por que sou tão inquieto?

M: O seu Ser Real não é inquieto, mas o reflexo dele na mente parece assim, já que a própria mente é inquieta. É como o reflexo da lua na água agitada pelo vento. O vento do desejo move a mente, e o “eu”, que não é senão um reflexo do Ser na mente, parece mutável. Mas essas idéias de movimento, de inquietude, de prazer e dor, estão todas na mente. O Ser está além da mente, consciente, mas desapegado.

P: Como alcançá-lo?

M: Você é o Ser, aqui e agora. Deixe a mente em paz, seja consciente e despreocupado e você compreenderá que permanecer alerta, mas desapegado, observando como os fatos vão e vêm, é um aspecto de sua verdadeira natureza.

P: Quais são os outros aspectos?

M: Os aspectos são infinitos em número. Compreenda um e você compreenderá todos.

P: Diga-me algo que possa ajudar-me.

M: Você sabe melhor o que precisa!

P: Estou inquieto. Como posso obter paz?

M: Para que você necessita de paz?

P: Para ser feliz.

M: Você não é feliz agora?

P: Não, não sou.

M: O que o torna infeliz?

P: Tenho o que não quero e quero o que não tenho.

M: Por que não inverter? Queira o que você tem e não se preocupe com o que não tem.

P: Eu quero o que é agradável e não quero o que é doloroso.

M: Como é que você sabe o que é agradável e o que não é?

P: Através de experiências passadas, certamente.

M: Guiado pela memória, você tem perseguido o agradável e tentado escapar do desagradável. Você tem tido êxito?

P: Não, não tenho tido. O agradável não dura. A dor sempre volta.

M: Que dor?

P: O desejo de prazer, o medo da dor, ambos são estados de sofrimento. Existe um estado de puro prazer?

M: Cada prazer, físico ou mental, necessita um instrumento. Os instrumentos físicos e mentais são materiais, portanto, se desgastam e se esgotam. O prazer que proporcionam é, necessariamente, limitado em intensidade e duração. A dor é o pano de fundo de todos os prazeres. Você os deseja porque sofre. Por outro lado, a própria busca do prazer é a causa da dor. É um circulo vicioso.

P: Posso ver o mecanismo de minha confusão, mas não vejo a saída.

M: O próprio exame do mecanismo mostra a saída. Afinal de contas, a confusão está só na mente, a qual nunca se rebelou totalmente contra a confusão nem chegou a combatê-la. Ela só se rebelou contra a dor.

P: Então, tudo o que posso fazer é permanecer confuso?

M: Esteja alerta. Investigue, observe, pergunte, aprenda tudo quanto possa sobre a confusão, como funciona, qual é o seu efeito em você e nos demais. Ao ver claramente a confusão, você se libertará dela.

P: Quando olho para mim mesmo, vejo que meu desejo mais forte é criar um monumento, construir algo que dure mais que eu. Inclusive quando penso em um lar – esposa e filhos – é porque ele é sólido, duradouro, uma prova para mim mesmo.

M: Certo, construa um monumento para si. Como quer fazer isso?

P: Não importa o que eu construa, desde que seja permanente.

M: Certamente, você pode ver por si mesmo que nada dura. Tudo fica gasto, quebra e se dissolve. O próprio alicerce sobre o qual você constrói irá ceder um dia. O que você pode construir que sobreviva a tudo?

P: Intelectualmente, verbalmente, estou ciente de que tudo é transitório. Ainda assim, meu coração quer permanência. Quero criar algo duradouro.

M: Então você deve construir sobre algo duradouro. O que você tem que seja duradouro? Nem seu corpo nem sua mente durarão. Você tem que buscar em outra parte.

P: Desejo permanência, mas não a encontro em nenhum lugar.

M: Não é você mesmo permanente?

P: Eu nasci e morrerei.

M: Você pode dizer verdadeiramente que você não existia antes de nascer, e poderá dizer depois da morte: 'agora já não existo?' Você não pode dizer, pela sua própria experiência, que você não existe. Só pode dizer: “eu sou” (eu existo). Os outros também não podem dizer-lhe que “você não é”.

P: Não há “eu sou” no sono.

M: Antes de fazer afirmações tão incisivas, examine cuidadosamente seu estado desperto. Cedo você descobrirá que ele está cheio de intervalos onde a mente fica em branco. Perceba o quão pouco você se lembra, mesmo quando está totalmente desperto. Você não pode dizer que não estava consciente durante o sono. Você apenas não se lembra. Uma lacuna na memória não é necessariamente uma lacuna na consciência.

P: Posso chegar a recordar meu estado no sono profundo?

M: Certamente! Ao eliminar os intervalos de inadvertência durante as horas de vigília, gradualmente você eliminará o grande intervalo de inadvertência mental que você chama sono. Você estará ciente de estar dormindo.

P: Mas o problema da permanência, da continuidade do ser, não é resolvido.

M: A permanência é uma mera idéia, nascida da ação do tempo. Por sua vez, o tempo depende da memória. Você chama de permanência uma memória contínua através do tempo ilimitado. Você quer eternizar a mente, o que não é possível.

P: Então, que é o eterno?

M: Aquilo que não muda com o tempo. Você não pode eternizar algo transitório, apenas o imutável é eterno.

P: Estou familiarizado com o sentido geral do que você diz. Não anseio mais conhecimento, tudo o que quero é paz.

M: Você pode ter toda a paz que quiser, basta pedir.

P: Estou pedindo.

M: Você deve pedir com um coração não dividido e deve viver uma vida íntegra.

P: Como?

M: Desapegue-se de tudo aquilo que deixa sua mente inquieta. Renuncie tudo que perturbe a paz dela. Se você quer paz, mereça-a.

P: Certamente, todo mundo merece paz.

M: Só a merecem aqueles que não a perturbam.

P: De que modo eu perturbo a paz?

M: Sendo escravo de seus desejos e temores.

P: Inclusive quando são justificados?

M: As reações emocionais nascidas da ignorância ou da inadvertência nunca são justificadas. Busque uma mente clara e um coração limpo. Tudo o que você necessita é permanecer tranqüilamente alerta, investigando a natureza real de si mesmo. Esse é o único caminho para a paz.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Meher Baba - Sparks of the Truth


Deus é a eterna fonte da vida e do poder. As diferentes almas no mundo compartilham dessa vida e poder em vários níveis de acordo com sua proximidade espiritual a Deus. Quanto mais próximos estamos de Deus ou da verdade, menos separados nos sentimos e maior é nossa vida e nosso poder. Aqueles que se tornam um com Deus são o infinito reservatório de todo o poder, vida, sabedoria e felicidade. Mas os outros compartilham igualmente tudo isso em um grau limitado, de acordo com sua estação no universo. Se o mestre que realizou Deus for comparado a uma central de energia elétrica principal onde a eletricidade é gerada, as outras almas podem ser comparadas a centrais secundárias ou a baterias de armazenamento que recebem e conservam um grau limitado de eletricidade e também podem usá-la dentro dos limites de suas respectivas capacidades .

Meher Baba - O começo e o fim da criação

Enquanto a mente humana não experimenta diretamente a realidade final assim como ela é, a mente é frustrada em toda tentativa de explicar a origem do propósito da criação. O passado remoto parece ser carregado de insondável mistério e o futuro parece ser um livro completamente lacrado. A mente humana pode no máximo fazer conjecturas brilhantes sobre o passado e o futuro do universo, pois ela está limitada pelo feitiço de Maya. Ela não pode nem chegar ao conhecimento final desses pontos e nem permanecer satisfeita com a ignorância sobre eles.
“De onde?” e “Para onde?” são os dois questionamentos perpétuos e pungentes que tornam a mente humana divinamente inquieta. A mente humana não pode reconciliar-se ao infinito regresso na sua busca pela origem do mundo, nem pode reconciliar-se às infindáveis mudanças sem objetivo. A evolução é ininteligível se não tem uma causa inicial e é desprovida de qualquer significado se ela como um todo não levar a algum fim.
As próprias questões “De onde?” e “Para onde?” pressupõem o começo e o fim desta criação evolutiva. O começo da evolução é o começo do tempo e o fim da evolução é o fim do tempo. A evolução tem tanto começo quanto fim, porque o tempo também os têm. Entre o começo e o fim deste mundo mutável existem muitos ciclos, mas há, dentro e através desses ciclos, uma continuidade da evolução cósmica. O término real do processo evolucionário é chamado Mahapralaya, ou a grande aniquilação do mundo, quando o mundo torna-se o que ele era no início, digamos, Nada. O Mahapralaya do mundo pode ser comparado ao sono de uma pessoa. Assim como o variado mundo das experiências desaparece completamente para o indivíduo que está em sono profundo, o cosmos objetivo inteiro, que é a criação de Maya, se esvai dentro do nada na hora do Mahapralaya. É como se o universo realmente nunca tivesse existido.
Mesmo durante seu período evolucionário o universo é em si mesmo nada além de imaginação. De fato, há apenas uma realidade indivisível e eterna, e ela não tem começo e nem fim. Está além do tempo. Do ponto de vista dessa realidade atemporal, todo o processo do tempo é puramente imaginário. E os bilhões de anos que passaram e os bilhões que vão passar não tem o valor de nem mesmo um segundo. É como se eles nunca tivessem existido.
Portanto, o múltiplo universo evolutivo não pode ser entendido como sendo um resultado real desta Realidade única. Se ele fosse um resultado dessa realidade única, a Realidade seria ou um termo relativo ou um ser composto, o que ela não é. A realidade única é absoluta.
A Realidade única inclui em si mesma toda a existência. Ela é tudo, mas não tem nada como sua sombra. A idéia da existência que tudo inclui implica que ela não deixa nada fora do seu ser. Quando você analisa a idéia do Ser (da existência), você chega por implicação à idéia do que não existe. Essa idéia da não existência, ou do Nada ajuda você a definir claramente a idéia do Ser. O aspecto complementar do Ser é, portanto o não-ser ou o Nada. Mas o Nada não pode ser olhado como tendo sua própria existência separada e independente. Em si mesmo ele não é nada. Nem pode, em si mesmo, ser a causa de algo. O universo múltiplo e evolutivo não pode ser o resultado do nada tomado por si mesmo, e temos visto que ele também não pode ser o resultado da Realidade Una.
Como, então, o universo múltiplo e evolutivo surge?
O múltiplo e evolutivo universo surge da mistura da Realidade Una e do Nada. Ele brota do Nada, quando esse Nada é colocado contra o plano de fundo da Realidade Una. Mas isso não deve ser considerado como significando que o universo é parcialmente o resultado da Realidade Una, ou que ele tem um elemento de Realidade.
É um resultado do Nada e é nada. Ele só parece ter existência. Sua existência aparente é devido à Realidade Una, que está, nesse caso, atrás do Nada. Quando o Nada é adicionado à Realidade Una, o resultado é o múltiplo e evolutivo universo. A Realidade Una que é infinita é absoluta, não sofre nenhuma modificação, portanto. É absoluta e como tal não é afetada de forma alguma por nenhuma adição ou subtração. A Realidade Una permanece o que ela era, completa e absoluta em si mesma, não preocupada e não conectada com o panorama da criação que brota do Nada. Esse Nada pode ser comparado com o valor do zero na matemática. Em si mesmo não tem valor positivo, mas quando é adicionado aos outros números dá origem a outros valores. Da mesma maneira o múltiplo e evolutivo universo brota do Nada quando ele é combinado com a Realidade Una.
Todo o processo evolucionário está dentro do domínio da imaginação. Quando em imaginação o oceano uno da realidade fica aparentemente perturbado, surge o múltiplo mundo dos centros separados de consciência. Isso implica na divisão básica da vida - no ser e no não-ser, ou no “eu” e seu ambiente. Devido ao falso caráter incompleto desse ser limitado (que é apenas uma parte imaginada de uma totalidade realmente indivisível), a consciência não pode permanecer contente com a identificação eterna com ele. Portanto, a consciência fica presa na armadilha numa inquietude incessante, forçando-se a tentar a identificação com o não-ser. Essa porção de não-ser, ou o meio, com o qual a consciência identifica-se, torna-se afiliada ao ser na forma de “meu”. E essa porção do não-ser com a qual ela não identifica-se, torna-se o meio irredutível que inevitavelmente cria um limite e uma oposição ao ser. Portanto, a consciência não chega ao término da sua dualidade limitante, mas em sua transformação. Enquanto a consciência está sujeita ao trabalho da contaminada imaginação, ela não pode ter sucesso em dar um fim a essa dualidade. Todas as tentativas variadas que ela faz para a assimilação do não-ser (ou dos arredores, ou do meio) resultam meramente na substituição da dualidade inicial por outras inumeráveis formas novas da mesma dualidade. A aceitação e a rejeição de certas porções do meio expressam a si mesmas respectivamente como “querer” e “não querer”, dando assim origem aos opostos do prazer e da dor, do bem e do mal e assim por diante. Mas nem aceitação nem rejeição podem levar à libertação da dualidade, e a consciência encontra-se, portanto, engajada numa oscilação incessante de um oposto ao outro. O processo inteiro da evolução do individuo é caracterizado por essa oscilação entre os opostos.
A evolução do indivíduo limitado está completamente determinada pelos sanskaras acumulados por ele através das eras e embora seja tudo parte da imaginação, o determinismo é completo e automático.
Toda ação e experiência, não importa o quão efêmera, deixa para trás uma impressão no corpo mental. Essa impressão é uma modificação objetiva do corpo mental; e como o corpo mental permanece o mesmo, as impressões acumuladas pelo indivíduo são capazes de persistir por várias vidas.
Quando os sanskaras acumulados começam então a se expressar (em vez de meramente permanecerem latentes no corpo mental), eles são experimentados como desejos, isto é, eles são tomados como sendo subjetivos.
O objetivo e o subjetivo são os dois aspectos dos sanskaras: o primeiro é o estado passivo de latência, e o segundo é um estado ativo de manifestação.
Através da fase ativa, os sanskaras acumulados determinam cada experiência e ação do ser limitado. Assim como vários metros de filme têm de passar no projetor do cinema para mostrar uma ação breve na tela, muitos sanskaras estão frequentemente envolvidos em determinar uma única ação do ser limitado. Através de tais expressões e satsfação em experiências, os sanskaras são gastos. Os sanskaras fracos são gastos mentalmente e os mais fortes são gastos sutilmente na forma de desejos e experiência imaginativa; aqueles sanskaras que são poderosos são gastos fisicamente ao expressarem-se através de ações corporais. Embora esse consumo dos sanskaras prossiga continuamente, ele não resulta na libertação dos sanskaras, porque novos sanskaras estão inevitavelmente sendo criados - não apenas através das ações das pessoas, mas até mesmo pelo próprio processo de consumo. Então, a carga de sanskaras segue aumentando, e o indivíduo encontra-se indefeso diante do problema de se livrar do fardo. Os sanskaras depositados por experiências e ações específicas, tornam a mente suscetível a experiências e ações similares. Porém, depois de alcançado um certo ponto, essa tendência é contraposta e impedida por uma reação natural que consiste numa completa comutação para seu oposto direto, abrindo espaço para a operação dos sanskaras opostos.
Muito frequentemente, os dois opostos formam partes da mesma e única corrente de imaginação. Por exemplo, uma pessoa pode primeiro experimentar que é um escritor famoso – com riqueza, fama, família e todas a coisas agradáveis da vida – e depois na mesma vida, pode experimentar que perdeu sua fortuna, fama, família e todas as coisas agradáveis da vida. As vezes parece que uma corrente de imaginação não contém os dois opostos na mesma vida. Por exemplo, um homem pode experimentar durante sua vida que é um poderoso rei sempre vitorioso nas batalhas. Nesse caso ele tem que balancear essa experiência experimentando derrotas ou algo parecido na próxima vida, vivendo mais uma vida para completar sua corrente de imaginação. A compulsão puramente psicológica dos sanskaras está assim sujeita à necessidade mais profunda da alma em conhecer a si mesma.
Suponha que uma pessoa matou alguém nesta vida. Isso deposita no seu corpo mental os sanskaras de assassinato. Se a consciência viesse a ser determinada simplesmente e apenas por essa tendência inicial criada por esses sanskaras, ele seguiria matando os outros indefinidamente ad infinitum, cada vez reunindo momentuns seguintes dos atos subseqüentes do mesmo tipo. Não haveria escape desse determinismo recorrente, se não fosse pelo fato de que a lógica da experiência provê um impedimento necessário para isso. A pessoa logo percebe o caráter incompleto da experiência de um oposto, e, inconscientemente, busca restaurar o equilíbrio perdido indo para o outro oposto.
Assim, o individuo que teve a experiência de matar desenvolve uma necessidade psicológica e uma susceptibilidade por ser morto. Ao matar outra pessoa ele apreciou apenas uma porção da situação total na qual ele é um partido, ou seja, a parte do matador. A parte complementar da situação total (isto é, o papel de ser morto) permanece para ele não entendida e estranha, embora, tenha se introduzido na sua experiência. Surge assim, a necessidade de completar a experiência atraindo para si mesmo o oposto daquilo que ele experimentou pessoalmente e a consciência tem uma tendência de atender essa nova necessidade urgente. Uma pessoa que matou logo desenvolverá uma tendência a ser morto para cobrir a situação inteira através de experiência pessoal.
A pergunta que surge aqui é: quem aparecerá para matá-lo na próxima vida? Pode ser a mesma pessoa que foi morta na vida anterior, ou pode ser alguma outra pessoa com sanskaras similares. Em conseqüência da ação e da interação entre os indivíduos, entram em ação as ligações ou os laços “sanskaricos” e quando o indivíduo adota um novo corpo físico, pode ser entre aqueles que têm laços sanskaricos anteriores ou entre aqueles que têm sanskaras similares.
Mas o ajuste da vida é tal, que torna possível o jogo livre da dualidade evolutiva. Como o fio do tear do tecelão, a mente humana move-se dentro de dois extremos, desenvolvendo a trama e o tecido do pano da vida. O desenvolvimento da vida espiritual é melhor representado não como uma linha reta, mas como um curso em zigue-zague. Considere a função das duas margens de um rio. Se não houvesse nenhuma margem, as águas do rio iriam se dispersar, tornando impossível que o rio alcançasse seu destino. Da mesma maneira, a força-vida dissipar-se-ia de inumeráveis e infinitas maneiras, se não estivesse confinada entre os dois pólos dos opostos. Essas margens do rio da vida são melhor observadas não como duas linhas paralelas, mas como duas linhas convergentes que se encontram no ponto da Liberação. A quantidade de oscilação torna-se cada vez menor conforme o indivíduo aproxima-se do objetivo e cede completamente quando realiza o objetivo. É como o movimento de uma boneca que tem seu centro de gravidade na base, fazendo com que ela tenha a tendência de ficar parada quando sentada. Se for agitada, ela continua a balançar de um lado para o outro por algum tempo, mas a cada movimento ela cobre uma extensão mais curta, e por fim, a boneca estaciona. No caso da evolução cósmica, tal parada da alternação entre os opostos significa Mahapralaya, e na evolução espiritual do indivíduo, significa a Libertação.
O degrau da dualidade para a não dualidade não é meramente um caso de diferença no estado de consciência. Quando os dois são qualitativamente diferentes, a diferença entre eles é infinita. O primeiro é um estado de não-Deus e o segundo é um estado de Deus. Essa infinita diferença constitui o abismo entre o sexto plano de consciência e o sétimo. Os seis planos inferiores de involução da consciência* estão separados uns dos outros por um tipo de vale. Mas embora a diferença entre eles seja grande, não é infinita pois todos estão igualmente sujeitos à bipolaridade da experiência limitada, consistindo na alternância entre os opostos. A diferença entre o primeiro plano e o segundo, o segundo e o terceiro e assim por diante até o sexto plano, é grande mas não infinita. Segue-se que, estreitamente falando, nenhum dos seis planos da dualidade pode ser entendido como estando realmente mais perto do sétimo plano do que qualquer outro. A diferença entre qualquer um dos seis planos e o sétimo plano é infinita, assim como a diferença entre o sexto e o sétimo plano é infinita. O progresso através dos seis planos é o progresso na imaginação, mas a realização do sétimo plano é a cessação da imaginação e, portanto, o despertar do indivíduo na Consciência-Verdade. O progresso ilusório através dos seis planos não pode, entretanto, ser totalmente evitado. A imaginação tem que ser completamente exaurida antes que uma pessoa possa realizar a Verdade. Quando um discípulo tem um mestre perfeito, ele tem que atravessar todos os seis planos. O mestre pode levar o discípulo através dos planos interiores tanto com os olhos abertos ou sob um véu. Se o discípulo é levado sob a ação de uma venda e não está consciente dos planos que está passando, os desejos persistem até o sétimo plano; mas se é levado com os olhos abertos e está consciente dos planos que está passando, nenhum desejo resta a partir do quinto plano.
Se o mestre vem para trabalhar, ele frequentemente escolhe levar seus discípulos vendados, pois eles tenderão a ser mais ativamente úteis para o trabalho do mestre quando levados vendados do que com os olhos abertos.
O cruzamento através dos planos é caracterizado pelo desembaraçar dos sanskaras. Esse processo deve ser cuidadosamente distinguido daquele do despendimento. No processo de despendimento, os sanskaras tornam-se dinâmicos e liberam-se em ação ou experiência. Isso não leva à emancipação final dos sanskaras, sendo que as incessantes novas acumulações de sanskaras mais do que substituem os que foram despendidos, e o próprio despendimento é responssável pelos sanskaras seguintes. No processo de desembaraçamento, entretanto, os sanskaras são enfraquecidos e aniquilados pela chama do anseio pelo infinito.
O anseio pelo Infinito pode ser a causa de muito sofrimento espiritual. Não há comparação entre a agudez do sofrimento ordinário e a agudez do sofrimento espiritual que uma pessoa tem que passar enquanto cruza os planos. O primeiro é o efeito dos Sanskaras, e o segundo é o efeito do desembaraçamento. Quando o sofrimento físico chega ao seu clímax, a pessoa fica inconsciente e então tem alívio dele, mas não há tal alívio mecânico para o sofrimento espiritual. Sofrimento espiritual, entretanto, não se torna entediante, pois também é misturado com um tipo de prazer. O anseio pelo infinito fica acentuado e agudo até que chega em seu clímax, então gradualmente começa a esfriar. Enquanto esfria, a consciência não desiste de maneira nenhuma do anseio pelo infinito, mas continua buscando seu objetivo de realizar o Infinito. Esse estado de anseio esfriado, porém latente, é preliminar à realização do Infinito. O anseio nesse estágio é o instrumento para aniquilar todos os outros desejos e está pronto para ser minado pela insondável quietude do contentamento infinito. Antes do anseio pelo Infinito ser suprido pela realização do Infinito, a consciência tem que passar do sexto para o sétimo plano. Tem que passar da dualidade para a não-dualidade. Ao invés de vagar em imaginação, ela tem de chegar ao fim da imaginação.
O Mestre entende a realidade una como sendo a única Realidade e o Nada como sendo meramente sua sombra. Para ele, o tempo é engolido na eternidade. Como ele percebeu o aspecto atemporal da Realidade, ele está além do tempo e carrega no seu ser tanto o início como o fim do tempo. Ele permanece não mobilizado pelo processo temporal que consiste na ação e na interação dos muitos. A pessoa ordinária não conhece nem o começo nem o fim da criação. Assim, ela é derrotada pela marcha dos eventos, os quais parecem grandes por causa da falta de perspectiva apropriada enquanto ele está capturado pelo tempo. Ela olha para todas as coisas em termos da possível satisfação ou insatisfação dos seus sanskaras. Ela fica, portanto, profundamente perturbada pelos acontecimentos deste mundo. Todo universo objetivo aparece para ela como sendo uma limitação que não é bem-vinda e que tem que ser superada ou tolerada.
O Mestre, por outro lado, está livre da dualidade e dos sanskaras característicos da dualidade. Ele está livre de toda limitação. A tempestade e stress do universo não afetam o seu Ser. Todo o alvoroço do mundo, com seus processos construtivos e destrutivos, não pode ter importância especial para ele. Ele adentrou no santuário da verdade, que é a morada daquele significado eterno que é refletido apenas fraca e parcialmente nos valores transitórios da criação sempre em mudança. Ele compreende dentro de seu Ser toda existência, e olha para toda a peça da manifestação como meramente um jogo.