segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Shri Siddharameshwar Maharaj - O Prana do Prana


"Os aspirantes tinham feito anteriormente a seguinte objeção: Como poderia aquele que é sem forma se transformar naquilo que é móvel e imóvel? Isto deve ser explicado agora." (Dasabodh, capítulo 8, seção 2, versículo 1).


Na mitologia hindu, Chitragupta é aquele que toma nota dos pecados e dos méritos de todos para o posterior julgamento de Deus. Chitragupta na verdade significa aquele que encontra-se secretamente (Gupta) residindo no coração de todos, isto é, a consciência interior.
Anteriormente alguns de vocês tinham dúvidas de como Brahman sem forma e sem atributos tornou-se a ilusão. Qual é o significado de "anteriormente"? Na verdade, o próprio tempo é uma ilusão. Devido a essa ilusão, sentimos que este é um dia ou um determinado mês. A luz e a escuridão sucedem uma a outra na terra. Os dias, meses, etc, são definidos por conveniência. Existem milhares ondas desse tipo que aparecem no Ser. O primeiro é o Parabrahman natural e a ilusão aparece sobre Ele. Parabrahman é livre e não faz nada, e no Seu pano de fundo aparece a ilusão inexistente. Na realidade, para Parabrahman é como se o mundo não existisse, Ele não sente o peso dele nunca. Da mesma forma, surge em nós um conceito e, porque o conceito é estabelecido, acreditamos ser verdadeiro.
Um objeto visto em um sonho não é real, mas parece real. Similarmente ao nosso reflexo no espelho, Maya (a ilusão) parece ser verdade. Pratique o pensamento "tudo aparece no meu Ser." Se você fizer isso com sinceridade por oito dias, você irá experimentar a Realidade. Brahman é a corporificação do Conhecimento. Os Vedas dizem que o Verdadeiro Conhecimento é Brahman. A grande afirmação de outro Veda é: "Eu sou Brahman”. Você se torna de acordo com como você se concebe.
Você, o Ser, é o Rei e a Ilusão (Maya) é o seu servo. A Ilusão é devida à sua percepção. O rei experimenta de acordo com como ele imagina. Ilusão significa nossa idéia. A Ilusão limita uma pessoa de acordo com como são os conceitos dela. Alguém pode perguntar: se a ilusão não é verdade, porque é visível? A resposta é, tudo o que você vê é verdadeiro? Onde estão os objetos vistos em um sonho? Se você dispuser muitos espelhos em um só lugar, a mesma cena será visível em todos os espelhos. São todas verdadeiras? O Sábio não considera tudo como verdadeiro. Consequentemente, os Vedas dizem que tudo o que é visto é destrutível e será destruído. Tudo o que é visto são apenas as distorções da mente.

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A natureza do Ser é sempre a Graça, na qual não há nunca doença alguma. O Ser está sempre seguro, nunca se quebra e nada entra nele. Todas as coisas materiais estão sujeitas a serem danificadas ou aumentadas. Quando você experimenta qualquer coisa material sendo danificada, você pensa que você é responsável por esse dano. O indivíduo imagina que ele mesmo sofreu o dano de alguma forma. O Ser não tem coisa alguma em Si. Não há nada nele que possa ser danificado ou que irá degradar. Ele não possui nenhuma sujeira, isso significa que nenhuma coisa material articula nele. É por isso que ele é chamado de limpo e como não há nenhuma sujeira, ele é indestrutível. A decadência é a qualidade da sujeira. Ela está fadada a decair e a ser destruída, retornando de volta para a terra. Entretanto, o Ser imaculado é indestrutível. Embora Ele esteja no corpo e nos órgãos dos sentidos, Ele não é afetado por eles. O Ser não tem nem nascimento e nem morte. Ele jamais é corrompido e não possui partes. Ele não é constituído de várias partes, não é a soma de partes. Se você deseja saber quem é Ele, esse Ser é Aquele que vive no seu corpo e que conhece o corpo.

Quando dizemos que o conhecimento é temporário, queremos dizer que o conhecimento na mente é temporário. A fala chega ao fim mas a Consciência permanece. Se um homem não tivesse estado ciente de si mesmo ele jamais retornaria para casa quando tivesse saído para fazer algum trabalho. Os desejos pertencentes aos órgãos sensoriais eventualmente morrem, mas a natureza essencial do Conhecimento, a Consciência, permanece.

A infância, a juventude, a velhice, etc. são estados do corpo. Essas são fases naturais de toda coisa material. Por meio da energia vital, ou o Prana, esses estados são entendidos quando eles vêm. Entretanto, o próprio Prana não se torna jovem ou velho. Sua qualidade de energia permanece a mesma. Uma vez que o Prana não tem mudança em seu estado, como pode o Ser que é o “Prana do Prana”, a “A Energia da Vida da energia vital”, ter esses estados?

Os ovos, a fermentação da combinação do calor com a umidade da placenta e as sementes, são as quatro fontes de criação de todos os seres. Em todos os seres o Prana funciona apenas através do Poder do Ser. Os estados como a infância, etc., não tem nenhum efeito sobre o Prana, então como podem afetar o Ser? O indivíduo, por meio de seu próprio conceito errôneo, se limita. Nos desejos há aprisionamento. Isso pode ser explicado da seguinte maneira: o que quer que você deseje está num certo lugar, se você deseja aquilo você deve ir lá onde isso está. Você tem de esperar lá até que consiga o que quer, e aquilo não pode ser levado embora de seu local, você tem que permanecer lá. Apenas ali você pode desfrutar do objeto ou usá-lo. Sendo que ele não pode ir conosco para onde vamos, temos de viver próximos do objeto porque estamos necessitados dele. Esse é o aprisionamento devido aos desejos. Se não quiser ficar aprisionado, você tem de abandonar os seus desejos. Apenas dessa forma você poderá viver livre. Onde há desejo há detenção, que significa ter uma residência, viver no mundo. O desejo implica em estar nas proximidades do objeto. Quando o desejo morre, a detenção se vai. Ao abandonar o desejo a Liberação é certa. Entretanto, abrigar desejos é em si aprisionamento. Quando todos os desejos são abandonados para sempre o homem se torna a “Realidade”, enquanto que o indivíduo que tem todos os seus desejos prendendo-o apertado, descende em direção à destruição.

O Ser é intocado por todas as qualidades ou modificações. Alguns dizem que no estado desperto, o Ser é limitado pelos limites desse estado. Entretanto, se esse fosse o caso, Ele não teria conhecimento do estado de sonhos e ficaria atado a um estado apenas. Ele teria continuado a comer apenas coisas doces ou apenas coisas amargas, mas Ele não é assim. Isso significa que Ele não é afetado, embora esteja no corpo. No estado de sonhos, Ele opera através da mente apenas, sem a ajuda do corpo físico e dos órgãos sensoriais. Quando Ele vai além do sonho, no sono profundo, Ele permanece sozinho sem nenhum revestimento ou corpo. Não há nenhuma ondulação de nenhum tipo. Você pode dizer: “Onde está o Ser? Não há nada ali”, mas esse não é realmente o caso. Quem é esse que pode dizer que estava dormindo gostoso? Quem é esse que responde ao chamado feito para ele pelo nome dado ao seu corpo? Isso não seria possível sem o Ser. Os estados de sono profundo e de vigília são apenas do corpo físico e não do Ser. Ele, sendo a testemunha de todos os três estados não pode ser “nada”. Ele é o Ser Supremo, Paramatman. Você pode perguntar como é que quando Ele acorda do sono, Ele se lembra novamente de todos os arredores do estado desperto. Escute atentamente a explicação: as “circunstancias circundantes” estão relacionadas ao intelecto ou ao cérebro e não ao Ser. Se o intelecto é transformado, toda a vida se torna irreal. Então não há aprisionamento ou liberdade de algo.

A vida mundana existe porque você diz que sim. Você a concebe assim. Ela é real apenas por causa de seus conceitos. Se você dissesse: “Eu abandonei-a”, então a vida mundana, o aprisionamento, terminaria. Se você aumentá-la, ela aumenta e se você a destruir ela é destruída.

A mente é a fonte da vida mundana bem como da vida espiritual. Ao ir dormir, você remove as vestimentas externas, quando você acorda você as coloca novamente. No sono profundo você não está ciente do corpo encobrindo o Ser. Quando você desperta, você vê e através de sua atenção você se lembra de tudo. Para aquele cuja ignorância e o egoismo se foram, tudo é somente Brahman, até mesmo o estado desperto. O indivíduo dissolve-se e torna-se Paramatman. Então não há desejo de nenhum tipo. Não há nenhuma comparação a ser utilizada. O significado de comparação nesse caso é no sentido de mostrar que o “Conhecimento da Natureza da Verdade” é parecido com alguma coisa. Não há nada igual a ele ou nada similar a ele que possa ser apresentado. Nem existe palavra que possa ser usada para descrever esse estado ou o seu significado de maneira plena e adequada. Não há nenhuma forma, objeto ou palavra que possam ser comparados a esse estado. Portanto, o estado é chamado de além de comparação, ou é dito que não há nenhuma comparação ou alegoria disponível que possa explicá-lo. Para “Ele” não há nenhuma outra coisa. O mundo inteiro é apenas Parabrahman ou Paramatman.

Quando o Conhecimento do Ser está evidente, há somente a própria felicidade, feliz por existir. A própria Graça revela-se na Graça. Aquele que for um devoto abnegado terá essa experiência quando a Ilusão for descartada. É por isso que a devoção deveria ser contínua. Não deveríamos nunca esquecer do nos devotar. Não deveria haver Esquecimento. Quando algum outro objeto ou realização se torna atrativo para o indivíduo e ele pensa sobre esse objeto, ele esquece sua Devoção a Deus. Portanto, os Santos insistem na devoção incessante. Quando o devoto descarta o desejo por dinheiro, filhos, riquezas materiais e fama na sociedade e dedica-se totalmente à Devoção a Deus, a sujeira na Consciência é limpada e ela se torna unida a Deus, residindo em sua Verdadeira Natureza (Swaroopa). Quando o Amor e a Devoção por Deus aumentam, os ditos dos Vedas são subservientes ao Devoto. “Aquilo” que os Vedas declararam ser a mais Elevada Verdade, é proferido por ele muito naturalmente. É então que a Existência é experimentada como “Um Todo Completo”. Essa é a Devoção do mais alto grau. Essa devoção liberta a todos, incluindo as mulheres, os homens, os mais baixos e os Sacerdotes (Brahmins), sem nenhuma discriminação. Entretanto, se a mente não estiver pura, não haverá a luz do Ser. Aquele que possui a Devoção imparcial atinge a Realidade. O véu sobre seus olhos desaparece. O Sol e uma multidão de coisas são vistos de imediato. Quando a pessoa abandona todo o orgulho e a mente torna-se livre de dúvidas, tudo é visto como Brahman.

O Rei Janaka perguntou: “Após a Realização, como a pessoa vai desempenhar suas tarefas? E como o aprisionamento das ações, ou o karma, é quebrado? Como ficarmos livres de todas as máculas, mesmo quando fazemos nossas tarefas? Através de qual remédio as amarras do karma são rompidas ou afrouxadas? Como podemos atingir o estado de inação, apesar de realizar ações, e como podemos encontrar o Ser Supremo, Deus? Por favor, diga por que o Sábio Sanaka e outros não deram respostas às perguntas de suas crianças?”

Essas perguntas são difíceis de responder. O Sábio Awirhotra Narayana disse naquela ocasião: “o problema da ação, da ação errada e da não-ação não é um problema ordinário. Os legisladores que pensaram a respeito dessas questões se fatigaram, e grandes sábios ficaram confusos em como explicar essas coisas. Milhares de visionários exauriram seus cérebros e no final discutiram entre si por orgulho. Não foi fácil nem mesmo para Brahma, o Criador, e outros darem divisões apropriadas às ações e fazerem analises das ações. Ação está na raiz do Veda e o Veda é Narayana (Deus) apenas. É nesse ponto que os Vedas silenciam-se. Ação, não-ação e ação errada são de certa forma todas a mesma coisa. Como no caso do açúcar, onde você tem o açúcar refinado, o branco e o mascavo, o “açúcar” é o mesmo. Similarmente, a ação é “Uma”, ainda assim aquele que é atraído para a ação encontra várias diferenças. Na ação a não-ação é inerente. Na ação errada, novamente estão inerentes a ação e a não-ação. Se alguma ação é iniciada, ela é chamada de ação ou karma. Isso quer dizer ação do ponto de partida. Ela é chamada ou de boa ou de má, isso é chamado Vikarma. Deixar as ações para trás é chamado de não-ação, Akarma, que significa que é como se a ação não tivesse acontecido. Aquele que sabe que o não-fazedor é o verdadeiro fazedor tornou-se um Sábio. Ele atingiu o “estado de ausência de ação”. Ó Rei, se você perceber que o autor e aquele que causa a ação são apenas “Um” neste corpo, então você será “Sem ação”. Aquele que é o fazedor no início da ação é ele mesmo o recebedor dos resultados. Apenas através da Bênção do Sadguru, o estado de liberdade das ações é alcançado. Existem muitas ações surgindo de uma ação e elas são chamadas de boas e más ações. Entretanto, através dos ensinamentos do Sadguru, todas as ações (karmas) são cortadas. O canto da ação é assim.

Essa questão é muito grande. É por isso que o Sábio Sanaka e outros não ministraram esse conhecimento para crianças que não estavam maduras. Essas diferenças de ação, não-ação, não deveriam ser faladas para aqueles que não estão maduros o bastante para compreender.

Paramatman é, em todos os momenetos, sem nenhuma peturbação e sem impedimentos. Ele é permanentemente indestrutível e perfeitamente limpo. Esteja certo de que você é “Isso”.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Bhagavan Ramana Maharshi - A Guirlanda de Letras



Invocação


Gracioso Ganapati (Ganesha), abençoe-me com Sua mão amorosa para que eu possa tonar esta guirlanda marital digna de Sri Arunachala, o noivo!


Refrão:


Arunachala Shiva! Arunachala Shiva!
Arunachala Shiva! Arunachala!
Arunachala Shiva! Arunachala Shiva!
Arunachala Shiva! Arunachala!


1. (a) Você desenraiza o ego daqueles que meditam em Você no Coração, Ó Arunachala! (b) Arunachala! Você desenraiza o ego dos que habitam em sua identidade espiritual com Você, Ó Arunachala!
2. Que Você e eu sejamos um e sejamos indivisíveis como Alagu e Sundara*, Ó Arunachala! (* alagu - palavra em tamil e Sundara - palavra em sânscrito, têm um único e mesmo significado: "beleza". Alagu e Sundara também eram os nomes da mãe e do pai de Sri Ramana .)
3. Ao entrar em minha casa e atrair-me para a Sua, por que Você manteve-me prisioneiro na caverna de Seu Coração, Ó Arunachala?

4. Foi por Sua vontade ou por meu amor que Você me conquistou? Se agora Você me afastar, o mundo vai Lhe culpar, Ó Arunachala!
5. Fuja dessa culpa! Por que, então, me fez lembrar de Você? Como posso deixar-Lhe agora, Ó Arunachala?
6. (a) Você é muito mais amável do que nossa própria mãe. É essa, então, Sua bondade plena, Ó Arunachala? (b) De fato, você é mais amavel que nossas mães, tal é o Seu amor, Ó Arunachala!
7. (a) Sente-se firme em minha mente para que ela não escape de Você, Ó Arunachala!
(b) Não altere a Sua natureza e não fuja, segure-se firme em minha mente, Ó Arunachala!
(c) Seja vigilante em minha mente, para que ela não troque Você por mim e corra para longe, Ó Arunachala!
8. (a) Mostre a Sua beleza para que a mente inconstante possa ver-Lhe para sempre e descansar em paz, Ó Arunachala!
(b) A mente prostituta vai deixar de andar nas ruas apenas se encontrar-Lhe. Portanto, revele Sua beleza e mantenha-na cativada, Ó Arunachala!
(c) A mente, por sua instabilidade, impede minha busca por Você e impede que eu encontre a paz; contenha-a e conceda-me a visão da Sua beleza, Ó Arunachala!
9. Depois de ter me raptado, se agora Você não me abraçar, onde estará o Seu cavalheirismo, Ó Arunachala?
10. Será que Você dorme quando eu fico indignado com os outros, Ó Arunachala?
11. Mesmo quando os ladrões dos cinco sentidos me assolam, mesmo assim Você não está em meu coração, Ó Arunachala?
12. Você é um sem um segundo, quem então poderia ousar lhe enganar e entrar? Esse é apenas o seu malabarismo, Ó Arunachala!
13. Significado do Om, inigualável - insuperável! Quem pode compreender-Lhe, Ó Arunachala?
14. Como a Mãe Universal é Seu dever distribuir a Sua graça e salvar-me, Ó Arunachala!
15. (a) Quem jamais poderá encontrar-Lhe? O Olho do olho é Você e sem olhos Você vê, Ó Arunachala!
(b) Sendo a visão do olho, mesmo sem olhos encontre-me. Quem além de Você pode descobrir Você, Ó Arunachala?
16. Faça comigo como o ímã faz com o ferro, magnetizando-me e prendendo-me, Ó Arunachala!
17. Montanhan imóvel derretendo-se em um Mar de Graça, tende piedade de mim, eu rogo, Ó Arunachala!
18. Joía ardente, brilhando em todas as direções, queima minhas impurezas, Ó Arunachala!
19. Brilhe como meu Guru, livrando-me das falhas e tornando-me digno de Sua graça, Ó Arunachala!
20. Salve-me das armadilhas cruéis das mulheres fascinantes e honre-me com a união com Você, Ó Arunachala!
21. Embora eu implore, Você fica indiferente e não é condescendente. Eu Lhe rogo! Diga para mim: 'Não tema', Ó Arunachala!
22. Espontaneamente Você dá, essa é a Sua fama imperecível. Não desminta o Seu nome, Ó Arunachala!
23. Doce fruto em minhas mãos, deixe-me enlouquecer de êxtase, embriagado com a bem-aventurança de Sua essência, Ó Arunachala!
24. Sendo proclamado como o devorador de Seus adeptos, como podem sobreviver os que Lhe abraçam, Ó Arunachala?
25. (a) Você que é imperturbável pela raiva! Qual crime condenou-me à Sua ira, Ó Arunachala?
(b) Você que é imperturbável pela raiva! Que austeridades ficaram incompletas nos nascimentos anteriores e me trouxeram o Seu favor especial, Ó Arunachala?
26. Gloriosa Montanha do Amor, celebrada por Gautama, governe-me com o Seu olhar misericordioso, Ó Arunachala!
27. Sol deslumbrante que engoliu todo o universo em Seus raios, abra o lótus do meu Coração, eu rogo, Ó Arunachala!
28. (a) Permita que eu, a sua presa, me renda a Ti e seja consumido, e assim obtenha paz, Ó Arunachala! (b) Eu vim para me alimentar de Você, mas Você alimentou-se de mim; agora há paz, Ó Arunachala!
29. Lua de Graça, com Seus raios frescos como mãos, abra dentro de mim o orifício de ambrosia e deixe meu coração se alegrar, Ó Arunachala!
30. Rasgue essas vestes, deixe-me nu e vista-me com o Seu amor, Ó Arunachala!
31. Lá no Coração repouse tranquilo! Deixe o mar de alegria agitar-se, a fala e o sentido cessar, Ó Arunachala!
32. Não continue a me enganar e me prove; revele o Seu Ser transcendente, Ó Arunachala!
33. Conceda o conhecimento da vida eterna para que eu possa aprender a gloriosa sabedoria primordial e afaste a ilusão do mundo, Ó Arunachala!
34. A menos que Você me abrace, derreterei em lágrimas de angústia, Ó Arunachala!
35. Se for repelido por Você, ai de mim! O que restará para mim senão o tormento de minha prarabdha?* Que esperança restará para mim, Ó Arunachala?
36. Em silêncio Você disse: "Fique em silêncio” e Você permaneceu silenciosa, Ó Arunachala! *
37. A felicidade consiste em um repouso pacífico desfrutado quando repousamos no Ser. De fato, além da fala a sua proeza repousa no Ser. Verdadeiramente além da fala, é Este o meu estado, Ó Arunachala!
38. (a) Você mostrou Sua valentia uma vez e os perigos terminaram, volte ao Seu repouso, Ó Arunachala! (b) Sol! Você resplandeceu e o cerco da ilusão terminou. Então Você brilhou sozinha, imóvel, Ó Arunachala!
39. (a) Um cão pode farejar seu amo, sou então pior que um cão? Firmemente buscarei e recuperarei Você, Ó Arunachala!
(b) Sendo pior do que um cão (por falta de olfato), como posso seguir-Lhe até a Sua casa, Ó Arunachala?
40. Conceda-me sabedoria, eu Lhe suplico, de modo que não fique ansiando por Seu amor na ignorância, Ó Arunachala!
41. (a) Não encontrando a flor aberta, Você ficou como uma abelha frustrada, Ó Arunachala!
(b) Na luz do sol o lótus floresce, como pode então Você, o Sol de todos os sóis, pairando sobre mim como uma abelha de flor, dizer: "Você ainda não desabrochou em flor', Ó Arunachala?
42. (a) Você Realizou o Ser mesmo sem saber que essa era a verdade. O Ser é a própria verdade! Portanto, fale, se é assim, Ó Arunachala!
(b) Você é o tema da maioria dos diversos pontos de vista, ainda assim Você não é apenas isso, Ó Arunachala!
(c) Não é conhecido pelos tattvas, embora Você seja o ser deles! O que isso significa, Ó Arunachala!
43. (a) Que cada um é a própria Realidade, você mostrará através de Sua natureza, Ó Arunachala!
(b) Revele a Si mesmo! Apenas Você é a Realidade, Ó Arunachala! (c) A realidade não é nada além do Ser; não é essa toda a Sua mensagem, Ó Arunachala?
44. "Olhe para dentro, sempre buscando o Ser com o olho interior, então ele será encontrado." Assim dirija-me, Arunachala amado!
45. (a) Tendo buscado dentro apenas de maneira fraca, voltei sem recompensa. Ajude-me, Ó Arunachala!
(b) Embora meus esforços tenham sido fracos, através de Sua graça eu obtive o Ser, Ó Arunachala!
(c) Ao buscar-Lhe no Ser Infinito, recuperei meu próprio Ser, Ó Arunachala!
46. Que valor tem este de nascimento sem o conhecimento nascido da Realização? Ele não é digno nem de se falar a respeito, Ó Arunachala?
47. (a) Deixe-me mergulhar no Ser verdadeiro, onde imergem somente os puros de mente e de fala, Ó Arunachala! (b) Por Sua graça, estou afundado em Seu Ser, no qual imergem apenas os que estão despojados de suas mentes e, portanto, se tornaram puros, Ó Arunachala!
48. Quando tomei abrigo em Você como meu Deus Uno, Você me destruiu completamente, Ó Arunachala!
49. O tesouro da Graça santa e benigna, encontrada sem procurar, estabilizou minha mente errante, Ó Arunachala!
50. Ao buscar Seu Ser Real com coragem, o meu bote naufragou e as águas vieram sobre mim. Tenha piedade de mim, Ó Arunachala!
51. (a) A menos que Você estender a Sua mão cheia da graça em misericórdia e abraçar-me, estarei perdido, Ó Arunachala!
(b) Envolva-me corpo a corpo, membro a membro, ou estarei perdido, Ó Arunachala!
52. Ó imaculado, habite em meu Coração para que possa haver alegria eterna, Ó Arunachala!
53. (a) Não faça pouco de mim, que busco Sua proteção! Adorne-me com a Sua graça e, então, considere-me, Ó Arunachala! (b) Sorria com graça e não com desprezo para mim, que venho a Você pedir refúgio, Ó Arunachala!
54. (a) Quando me aproximei, Você não se curvou; permaneceu imóvel, unido a mim, Ó Arunachala! (b) Não Lhe envergonha ficar ali parado como um poste, deixando que eu tenha que encontrar-Lhe sozinho, Ó Arunachala?
55. Chove Sua Misericórdia sobre mim antes que o Seu conhecimento me queime às cinzas, Ó Arunachala!
56. Una-se a mim para destruir nossas identidades separadas na forma de Você e eu, e me abençoe com o estado de alegria sempre vibrante, Ó Arunachala!
57. (a) Quando irei tornar-me como o éter e chegar a Você, sutileza do ser, de modo que a tempestade de pensamentos possa acabar, Ó Arunachala?
(b) Quando as ondas de pensamentos deixarão de emergir? Quando é que chegarei a Você, mais sutil do que o éter sutil, Ó Arunachala?
58. (a) Sou um tolo desprovido de aprendizagem. Dissipa minha ilusão, Ó Arunachala! (b) Destrua meu conhecimento errado, eu Lhe suplico, pois falta a mim o conhecimento ao qual as escrituras conduzem, Ó Arunachala!
59. Quando eu derreti e entrei em Ti, meu Refúgio, encontrei-a nua como a famosa Digambara*, Ó Arunachala!
60. Em meu ser sem amor Você criou uma paixão por Ti, por isso não me abandone, Ó Arunachala!
61. (a) Um fruto murcho e estragado é inútil; colha e desfrute-se com ele maduro, Ó Arunachala!
(b) Eu não sou como uma fruta passada e podre; chama-me, então, ao recuo mais íntimo do coração e fixe-me na eternidade, Ó Arunachala!
62. (a) Porventura Você já trocou astuciosamente Você por mim? Pois minha individualidade se perdeu. Ah, Você é a morte para mim, Ó Arunachala! (b) Você já trocou astuciosamente Você por mim dando tudo sem tomar nada? Você não está cego, Ó Arunachala?
63. Considere-me! Pense em mim! Toque-me! Amadureça-me! Torne-me um com Você, Ó Arunachala!
64. Conceda-me a Sua graça, antes que o veneno da ilusão me agarre e, subindo à minha cabeça, me mate, Ó Arunachala!
65. Considere-me e dissipe a ilusão! A menos que Você faça isso, quem poderá interceder junto à própria Graça tornada manifesta, Ó Arunachala?
66. Com loucura por Ti, Você me libertou da loucura pelo mundo, dai-me agora a cura de toda loucura, Ó Arunachala!
67. Destemido eu busco a Ti, o próprio destemor! Como pode Você temer levar-me, Ó Arunachala?
68. Onde está a minha ignorância de Sua sabedoria, se fui abençoado com a união com Você, Ó Arunachala?
69. (a) Minha mente floresceu, então perfume-a com Sua fragrância e aperfeiçoe-a, Ó Arunachala! (b) Espose-me, eu Lhe suplico, e faça com que essa mente que agora é casada com o mundo se case com a perfeição, Ó Arunachala!
70. Um mero pensamento em Você me atraiu para Você, e quem pode medir Sua Glória em si mesma, Ó Arunachala?
71. Você possuiu-me, Espírito inexorcizável, e me deixou louco por Ti, para que eu possa deixar de ser um fantasma vagando pelo mundo, Ó Arunachala!
72. Seja minha estadia e meu apoio para que eu não tombe indefeso como uma trepadeira frágil, Ó Arunachala!
73. Você paralisou minhas faculdades com pó entorpecente, em seguida, roubou-me de minha compreensão e revelou o Conhecimento do Seu Ser, Ó Arunachala!
74. Mostre-me a campanha de Sua Graça no campo aberto onde não há ida nem vinda, Ó Arunachala!
75. Desapegado da estrutura física composta dos cinco elementos, deixa-me repousar feliz para sempre na visão do Seu esplendor, Ó Arunachala!
76. Você administrou o medicamento da confusão em mim, portanto devo estar confuso! Resplandeça como graça, a cura de toda a confusão, Ó Arunachala!
77. Resplandeça abnegado, minando o orgulho daqueles que se gabam de seu livre arbítrio, Ó Arunachala!
78. Sou um tolo que só reza quando está sobrecarregado de miséria, ainda assim não me decepcione, Ó Arunachala!
79. Guarde-me para que eu não erre pela tempestade como um navio sem timoneiro, Ó Arunachala!
80. Você cortou o nó que escondia a visão da Sua cabeça e Seu pé (o Ser ilimitado). Você não completaria a Sua tarefa como uma mãe, Ó Arunachala?
81. Não seja como um espelho segurado para um homem sem nariz, eleve-me de minha baixeza e abraçe-me, Ó Arunachala!
82. Abracemo-nos sobre a cama de flores macias, que é a mente, dentro da sala do corpo (ou da Verdade Suprema), Ó Arunachala!
83. Como é que Você ficou famoso por Sua constante união com os pobres e humildes, Ó Arunachala?
84. Você removeu a cegueira da ignorância com o unguento de Sua graça e fez-me realmente Seu, Ó Arunachala!
85. Você raspou minha cabeça deixando-a limpa (e eu estava perdido no mundo), então Você mostrou a Si mesmo dançando no espaço transcendente, Ó Arunachala!
86. (a) Ainda que tenha me soltado das brumas do erro e me deixado louco por Ti, por que Você ainda não me libertou da ilusão, Ó Arunachala? (b) Ainda que tenha me separado do mundo e me unido a Ti, Sua paixão por mim não esfriou, Ó Arunachala!
87. É o verdadeiro silêncio descansar como uma pedra inerte e incomunicável, Ó Arunachala?
88. Quem foi que atirou lama para mim como comida e roubou-me de minha vida, Ó Arunachala?
89. Quem foi que encantou minha alma entorpecendo-me, sem que ninguém soubesse, Ó Arunachala?
90. Falei assim, porque Você é o meu Senhor, não se ofenda, venha e me oferte a felicidade, Ó Arunachala!
91. Vamos apreciar um ao outro na casa do espaço aberto onde não é nem dia nem noite, Ó Arunachala!
92. Você mirou em mim com dardos de amor e depois devorou-me vivo, Ó Arunachala!
93. Você é o ser primordial, enquanto que eu não conto nem neste mundo nem no outro. O que Você ganhou então com o meu ser sem valor, Ó Arunachala?
94. Você não me convidou para entrar? Eu entrei. Agora regule para mim, minha manutenção é agora o Seu fardo. Difícil é o Seu fardo, Ó Arunachala! No momento em que me recebeu, Você entrou em mim e concedeu-me Sua vida divina, eu perdi a minha individualidade, Ó Arunachala!
96. Abençoe-me para que eu possa morrer sem me desgarrar de Você, ou meu destino será miserável, Ó Arunachala!
97. Da minha casa Você me seduziu, então moveu-se em segredo para meu coração e atraiu-me delicadamente para a Sua morada, tal é a Sua Graça, Ó Arunachala!
98. Eu traí Seus trabalhos secretos. Não fique ofendido. Mostre-me Sua Graça agora abertamente e salve-me, Ó Arunachala!
99. Conceda-me a essência dos Vedas que brilha no Vedanta, una e única, Ó Arunachala!
100. (a) Até mesmo minhas calúnias, trate como louvores e guarde-me para sempre como sendo Seu, eu rogo, Ó Arunachala!
(b) Faça com que até as difamações sejam como elogios para mim, e guarde-me para sempre como Seu, eu rogo, Ó Arunachala!
(c) Coloque Sua mão sobre minha cabeça! Faça-me participante de Sua Graça! Não me abandone, eu rogo, Ó Arunachala!
101. Como a neve na água, deixe-me derreter como o amor em Você, que é o próprio amor, Ó Arunachala!
102. Eu tinha apenas pensado em Você como sendo Aruna, e eis que fui apanhado na armadilha da Sua graça! Pode jamais falhar a rede da Sua graça, Ó Arunachala?
103. Observando-me como uma aranha para prender-me na teia de Sua graça, Você me enrolou e quando me prendeu se alimentou de mim, Ó Arunachala!
104. Deixe-me ser o devoto dos devotos daqueles que ouvem o Seu nome com amor, Ó Arunachala!
105. Resplandeça para sempre como o amoroso salvador dos suplicantes desamparados como eu, Ó Arunachala!
106. Familiares aos Seus ouvidos são as doces canções dos devotos que derretem até os ossos de amor por Ti, ainda assim deixe meus pobres esforços também serem aceitáveis, Ó Arunachala!
107. Montanha de Paciência, tolere minhas palavras tolas, considerando-nas como hinos de alegria ou como Você preferir, Ó Arunachala!
108. Ó Arunachala! Meu amado Senhor! Jogue a Sua guirlanda nos meus ombros e vista esta aqui encordoada por mim, Ó Arunachala!
Bendito seja Arunachala! Bendito sejam os Seus devotos!
Bendita seja esta Guirlanda Marital de Letras!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Kabir - Oito Poemas



Conte para mim, Cisne, seu antigo conto.
De que terra você vem, Cisne? Para que costa você vai voar?
Em que lugar você gostaria de descansar, Cisne, e o que você procura?
Ainda esta manhã, Cisne, desperta, levanta e siga-me!
Há uma terra onde nem a dúvida e nem a tristeza governam:
onde o terror da morte não existe mais.
Lá os bosques da primavera são floridos e o aroma perfumado

"Ele sou Eu" é trazido pelo vento:
Lá a abelha do coração está profundamente imersa

e não deseja nenhuma outra alegria.


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Ó meu coração! o Espírito Supremo, o grande Mestre, está perto de você:
despete, desperte!
Corra para os pés de seu Amado: pois o seu Senhor está perto de sua
cabeça.
Você tem dormido por incontáveis séculos, nesta manhã você não vai
acordar?


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Para qual margem você haveria de atravessar, meu coração?

Nunca houve um viajante antes de você, não existe estrada:
Onde está o movimento, onde está o repouso nessa margem?
Não há água ali, não há barco e nem barqueiro;
Nem mesmo uma corda para prender o barco, nem um homem para puxá-lo.
Não há terra, nem céu, nem tempo, nem coisa alguma lá:

não há praia e nem banco de areia!
Lá não há nem corpo nem mente: e onde fica o lugar
que poderá saciar a sede da alma? Você não encontrará nada
nesse vazio.
Seja forte e entre em seu próprio corpo: pois aí o seu chão é firme.

Pense bem, ó meu coração! não vá para outro lugar,
Kabir diz: "Afaste todas as imaginações e permaneça firme nisso que
que você é. "


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Ó irmão, meu coração anseia por aquele Guru real que preenche o copo
do amor verdadeiro e bebe-o ele próprio e então oferece-o para mim.
Ele remove o véu dos olhos e dá a verdadeira Visão de Brahma:
Ele revela os mundos Nele e faz-me ouvir a Música não tocada:
Ele mostra a alegria e a tristeza como sendo uma:
Ele preenche toda a palavra com amor.
Kabir diz: "Na verdade aquele que tem tal guru para condizí-lo

ao abrigo da segurança, não tem medo! "


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As sombras da noite caem de maneira espessa e profunda,

e a escuridão do amor envolve o corpo e a mente.
Abra a janela para o oeste e perca-se no céu do amor;
Beba o doce mel que embebe as pétalas da flor de lótus do coração.
Receba as ondas em seu corpo: que esplendorosa é essa região do mar!
Hark! os sons dos búzios e dos sinos estão surgindo.
Kabir diz: "Ó irmão, eis que o Senhor está nesta embarcação do meu corpo. "


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Mais do que todas as coisas, eu guardo no coração esse amor que me faz
viver uma vida sem limites neste mundo.
Ele é como o lótus que vive na água e floresce na água

e ainda assim a água não pode tocar suas pétalas,

elas abrem além de seu alcance.
É como uma mulher que entra no fogo sob as ordens do amor.
Ela queima e deixa os outros sofrerem, mas nunca desonra o amor.
Este oceano do mundo é difícil de atravessar: suas águas são muito
profundas. Kabir diz: "Ouça-me, ó Sadhu, poucos são os que
chegaram ao fim dele. "


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Ó amigo, acorde e não durma mais!
A noite acabou e se foi, você vai perder o seu dia também?
Aqueles que despertaram receberam jóias;
Ó mulher tola! você perdeu tudo enquanto dormia.
Seu amante é sábio e você é tola mulher!
Você nunca preparou a cama de seu marido:
Ó louca! você passou o seu tempo num jogo bobo.
Sua juventude foi passada em vão, pois você não conheceu o seu Senhor;
Acorde, acorde! Veja! sua cama está vazia: Ele a deixou durante a noite.
Kabir diz: "Só acorda aquela cujo coração é perfurado com a flecha
da música Dele. "


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Para onde a noite vai quando o sol está brilhando?

Se é noite, o sol retira sua luz. Onde o conhecimento está,


pode a ignorância durar?
Se há ignorância, o conhecimento deve morrer.
Se há luxúria, como o amor pode estar presente?


Onde há amor, não há luxúria.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

São Teófanes o Recluso - O Trabalho Interno (parte 2)


“E tudo o que fizerdes de palavra ou de ação, fazei-o em nome do senhor Jesus, por ele dando graças a Deus, o Pai.” (Col.iii.17)


Aqui São Paulo fala da terceira maneira pela qual nós provamos que nossa morada oculta é em Deus – e é ao fazermos tudo em nome do Senhor. Quanto aos outros dois métodos, através do primeiro – a leitura das Escrituras e a assimilação das verdades reveladas que elas contêm – nós banimos as imaginações vãs e impuras e preenchemos a nossa mente com bons pensamentos, totalmente concernidos com as coisas divinas; e por meio do segundo – a oração – nós estabelecemos em nós mesmos o hábito de lembrar de Deus sempre e de caminhar continuamente em Sua presença. Ambos os métodos mantêm nossa atenção e nossos sentimentos absorvidos em Deus. Parece, talvez, que isso deveria ser o bastante? Parece que sim mas não é. Se apenas esses dois métodos forem usados eles não nos levarão ao objetivo que desejamos. O homem não é apenas pensamento e sentimento, mas acima de tudo ele é ação. Ele está sempre se movendo, constantemente ativo. Mas toda a ação envolve atenção e sentimento. O homem que age fica totalmente envolvido em sua ação. Consequentemente, o homem que busca a Deus descobrirá que por causa de certas coisas ele não pode evitar de fazer, ele inevitavelmente irá desviar-se de Deus em seu pensamento e depois do pensamento em seu sentimento. As ocupações baixam-no do céu para a terra, ou levam-no de sua reclusão em Deus para os relacionamentos externos com outros seres humanos. Pois nossas ocupações são quase todas visíveis, uma vez que são desempenhadas entre nossos semelhantes e entre as coisas dos sentidos. Segue-se disso que se as ocupações de um homem não são dirigidas de maneira que permitam-no manter sua vida reclusa em Deus, os dois primeiros métodos permanecerão infrutíferos e se tornará até mesmo impossível para ele praticá-los como deveria. As ocupações continuam nos distraindo – mesmo a prática de estudar as Escrituras Sagradas e a prática da oração. E assim o Apóstolo, na passagem que foi citada, nos ensina como transformar todas as nossas ações num meio de preservar nossa vida secreta em Deus: isso pode ser alcançado ao “fazer tudo em nome do Senhor”. Se conseguirmos nos sintonizar dessa maneira, não nos afastaremos do Senhor nem em pensamento nem em sentimento. Pois fazer tudo em nome do Senhor significa fazer todas as coisas em Sua glória, desejando agradá-Lo, tendo entendido a Sua vontade corretamente até mesmo em algum assunto trivial. Nisso os membros do corpo, como ferramentas, irão fazer o trabalho e os pensamentos e sentimentos serão voltados na direção do Senhor, ansiosos para executar sua tarefa de uma maneira que agrade a Deus e que seja obediente à Sua glória.

Esse método é mais efetivo do que os outros dois para assegurar nosso propósito, o sucesso nos dois primeiros depende do sucesso no último. Pois os dois primeiros são mentais em caráter e o que é da mente entra em nosso ser todo através da ação. Quando nossa ação é santificada por sua dedicação a Deus, então no processo de desempenhá-la, um certo elemento divino entra em todos os órgãos e poderes que participam do trabalho. Quanto maior o número de tais ações, mais serão os elementos divinos entrando no ser de um homem. E, posteriormente, eles preenchem-no completamente de modo que toda sua natureza é imersa no divino e passa a habitar em Deus. Gradualmente, conforme essa orientação vinda de Deus é estabelecida, a oração e a adoração de Deus, acompanhadas por pensamentos do que é bom, tornam-se mais firmemente estabelecidos também. A oração e a adoração influenciam o trabalho sendo feito pela glória de Deus e por estarmos residindo no divino, como recompensa nossas próprias ações são adornadas com maior força e efetividade.

São Paulo abarcou todas as nossas atividades em dois termos: palavra e ação. As palavras são proferidas pela boca, as ações são realizadas por outros membros. Desde o momento que acordamos até o momento que adormecemos estamos continuamente engajados em ambos. Nossa fala prossegue quase sem parar, enquanto que os vários movimentos do corpo continuam incessantemente. Que oferenda rica para Deus seria se tudo isso pudesse ser dirigido à Sua glória! Ao fazermos nossa fala servir a glória de Deus, não apenas o falar maligno é banido mas também o falar desnecessário e a conversa fiada; apenas um tipo de fala permanece – aquele que serve para edificar nossos irmãos ou que pelo menos não lhes traz nenhum dano. Deveríamos também consagrar nosso discurso a Deus ao recitar orações. Ademais, ao voltar nossas ações para a glória de Deus, não apenas podemos nos livrar das más ações provenientes da luxúria ou da irritação, mas também somos capacitados a ver em que espírito deveríamos realizar tais ações conforme sejam permissíveis, necessárias e úteis. Isso livra nossas ações de toda aliciação do ser para fins desonestos e de toda servidão ao mundo e seus maus caminhos.

Fazer tudo em nome do Senhor significa voltar tudo para Sua glória, tentar realizar tudo de tal maneira a agradá-Lo, consciente de que é Sua vontade. Significa também circundar toda a ação de orações a Ele, começar a ação com oração e terminá-la com oração; quando começarmos, pedir Sua bênção, conforme prosseguirmos, rogar por Sua ajuda e quando terminarmos, dar graças a Ele por completar Seu trabalho em nós e através de nós.


Aprenda a desempenhar tudo o que você faz de tal maneira que isso aqueça o coração em vez de esfriá-lo. Seja lendo ou orando, trabalhando ou falando com os outros, você deveria firmar-se à esta meta – não deixar o seu coração esfriar. Mantenha o seu forno interno sempre quente recitando uma prece curta e vigie seus sentimentos caso eles dissipem esse calor. As impressões externas muito raramente estão em harmonia com o trabalho interno.


Algumas vezes as paixões são destruídas dentro de nós através de nossos próprios esforços mentais e ativos, algumas vezes por nosso diretor espiritual e às vezes pelo próprio Senhor. Já foi dito que sem a luta mental interna nossos esforços externos não podem ter êxito. O mesmo é verdade com relação aos esforços que fazemos sob a orientação de um diretor e também da purificação operada pela Providência. A luta interna deveria portanto ser contínua e incessante. Por si mesma ela não é muito forte, mas quando está ausente, todos os outros meios são ineficazes e sem utilidade. Aqueles que trabalham ativamente e aqueles que sofrem, aqueles que choram e aqueles que obedecem as regras imposta a eles – em todos os grupos igualmente, muitos pereceram e estão perecendo agora porque não se engajaram na batalha interna, guardando suas mentes e corações.

Lembre-se do que dissemos sobre o valor positivo do trabalho interno – que é o trabalho interno que dá a todas as nossas atividades externas o seu propósito e sua eficácia. Isso nos mostra o quanto o trabalho interno é importante: tornar-se-á claro para todos que ele constitui o ponto de partida, a base e a meta de todos os tipos de esforços espirituais e ascéticos.

Toda a nossa tarefa pode ser reduzida à regra seguinte: coletando a si mesmo em seu interior, recobre sua consciência de si espiritual, ponha-se a trabalhar internamente, e, preparado dessa maneira, pratique as tarefas externas impostas a você seja pelo seu diretor espiritual ou pela Providência. Mas enquanto fizer isso você deve observar e notar com uma atenção rigorosa e inabalável tudo o que surgir dentro de você. Assim que alguma paixão for despertada, cace-a e golpeie-a, tanto mental como ativamente, não esquecendo de reacender dentro de si e aumentar o calor do espírito da contrição e do pesar por seus pecados.

É sobre isso que toda a atenção do gladiador espiritual deveria ser dirigida. Dessa forma, através de contínua concentração ele irá impedir-se de ser distraído e irá como que montar no lombo de sua mente. Conforme seguir esse caminho interno sempre vigilante com relação a si mesmo, ele aprenderá a virtude da sobriedade.

Agora você pode entender por que os gladiadores espirituais sempre consideraram a sobriedade como a principal virtude em todo o trabalho espiritual e por que eles consideram aqueles que carecem dela como estéreis.


Cada homem, portanto, deve treinar a si mesmo e instilar em si mesmo as verdades contidas nas palavras de Cristo, de modo que elas possam entrar e habitar dentro dele. Com esse propósito em vista ele deveria ler e refletir sobre elas e consigná-las à memória, ele deveria aprender a estar internamente em simpatia com elas, sentindo um profundo amor por elas e então deveria colocá-las em prática. Essa última ação é toda a meta da auto-educação. Enquanto isso estiver faltando não podemos dizer de um homem que ele instruiu-se, mesmo que ele saiba as palavras de Cristo de cor e tenha um bom raciocínio. É precisamente por carecerem disso que São Paulo censurou os Judeus em sua Epístola aos Romanos: “ora tu, que ensinais aos outros, não ensinas a ti mesmo?” (Rom.ii.21). Se um homem prega Cristo mas não vive ele mesmo Nele, então a palavra de Cristo não entrou nele.


É claro que qualquer tipo de educação vinda dos outros apenas traz frutos quando é combinada com o ensinamento do próprio homem a si mesmo. Cada um deve fazer-se perceber o sentido daquilo que lhe é ensinado, de modo que após ouvir ou ler algo ele se persuada não apenas a pensar exatamente daquela maneira, mas também a sentir e a agir. Pois a palavra de Cristo entra num homem para habitar nele apenas se ele tem êxito em persuadir-se a acreditar e a viver de acordo com ela.


De fato, um homem é insensato se ele lê diligentemente as palavras de Deus mas falha em ponderar sobre elas, não fazendo-se sentir o seu significado e não praticando-nas em sua própria vida. Pois assim a palavra de Deus flui por ele como a água numa sarjeta, sem entrar nele e não deixando nenhuma marca. Podemos conhecer todo o Evangelho e todas as Epístolas de cor e ainda assim não ter a palavra de Deus habitando internamente, porque não as estudamos da maneira correta. Portanto, um homem age tolamente se alimenta apenas a sua mente com a palavra de Cristo e não se preocupa em trazer seu coração e sua vida em correspondência com ela. Então ela fica nele como areia jogada em sua cabeça e memória, que fica lá morta em vez de viva. A palavra de Cristo vive apenas quando passa para o sentimento e para a vida, mas em tal homem isso não ocorre e portanto não podemos dizer que a palavra de Cristo habita nele.


Apenas Deus e a alma: isso é ser verdadeiramente um monge. Mas como podemos atingir isso? Através de qualquer maneira que você prefira, contanto que você de fato alcance isso, pois enquanto um homem não atingiu esse estado, ele ainda não é um monge.


O que realmente significa ser um recluso? Significa que a sua mente, encerrada no coração, coloca-se diante de Deus com reverência e não sente nenhum desejo de deixar o coração ou de ocupar-se com qualquer outra coisa. Busque esse tipo de reclusão e não se preocupe com o outro. Mesmo atrás de portas fechadas podemos vagar pelo mundo ou deixar o mundo inteiro invadir nosso aposento.


Como você poderia ordenar-se internamente de modo a desfrutar da paz da alma? Assegure para si mesmo a solidão interior. Mas tal solidão não é um mero vácuo, nem pode ser adquirida simplesmente ao criarmos um vazio completo em nós mesmos. Quando você se retirar para dentro de si mesmo, você deveria ficar diante do Senhor e permanecer em Sua presença, não deixando os olhos da mente se desviarem do Senhor. Essa é a verdadeira solidão – ficar face a face com o Senhor. Esse estado de estar diante do Senhor é algo que dá suporte e que mantém a si mesmo. Estar com o Senhor é a meta de nossa existência e quando estamos com Ele não podemos deixar de experimentar um sentimento de bem estar, esse sentimento naturalmente atrai a nossa atenção para si e através disso para o Senhor, de quem o sentimento vem.


O residir de nossa alma com o Senhor, que é toda a essência do trabalho interno, não é algo que depende de nós. O Senhor visita a alma e a alma habita com Ele. A alma regozija-se com Ele e Ele preenche-na com calor espiritual. Então o Senhor se afasta e de imediato a alma fica vazia, não está de modo algum em seu poder fazer o Bom Visitante das almas retornar. O Senhor se afasta para colocar a alma em teste, ou algumas vezes para puni-la, não tanto pelas transgressões externas mas por algum mal interior ao qual a alma garantiu admissão. Quando o Senhor se afasta para colocar a alma em teste, Ele prontamente retorna outra vez quando ela começa a chamar por Ele. Mas quando se afasta como uma punição, Ele não retorna logo – não até que a alma tenha percebido o pecado que cometeu, tenha se arrependido, tenha chorado por isso e feito penitência.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Meher Baba - O Egoísmo, O Problema do Sexo, A Santificação da Vida Conjugal


O Egoísmo


O egoísmo vem à existência devido à tendência dos desejos de encontrarem satisfação na ação e na experiência. É nascido da ignorância fundamental a respeito de nossa natureza verdadeira. A consciência humana está obscurecida pelo acúmulo dos vários tipos de impressões depositadas pelo longo curso da evolução da consciência. Essas impressões expressam-se como desejos e o alcance de operação da consciência está estritamente limitado por esses desejos. Os Sanskaras, ou impressões, formam um invólucro em torno do possível campo da consciência. O círculo de sanskaras constitui aquela área limitada na qual a consciência individual pode ser focalizada.
Com alguns dos desejos a ação é apenas latente, mas outros podem realmente traduzirem-se em ação. A capacidade de um desejo de encontrar expressão no comportamento depende da intensidade e da quantidade de sanskaras ligados a ele. Usando uma metáfora geométrica, podemos dizer que quando um desejo passa para ação, ele percorre uma distância que é igual ao raio de um círculo que descreve o limite de sanskaras ligados a ele. Quando um desejo reúne força suficiente, ele projeta-se em ação a fim de obter satisfação. A extensão do egoísmo é igual à extensão dos desejos. Devido ao impedimento dos desejos múltiplos, torna-se impossível para a alma encontrar a expressão livre e plena de seu verdadeiro ser, e a vida se torna auto-centrada e estreita. A vida inteira do ego pessoal está constantemente sob o domínio do querer, ou seja, uma tentativa de buscar a satisfação dos desejos através de coisas que mudam e desaparecem. Mas não pode haver verdadeira satisfação através de coisas transitórias. A satisfação derivada de coisas passageiras da vida não é duradoura e as necessidades do homem continuam não atendidas. Há, portanto, um sentimento geral de insatisfação acompanhado de todos os tipos de preocupações.

As formas principais em que o ego frustrado encontra expressão são a cobiça, luxúria e a raiva. A luxúria é muito parecida com a cobiça em muitos aspectos, mas difere na forma de sua realização, que está diretamente relacionada à esfera grosseira. A luxúria encontra a sua expressão por meio do corpo físico e está preocupada com a carne. É uma forma de se enredar com a esfera grosseira.* A cobiça é um estado de inquietação do coração e consiste principalmente no desejo por poder e posses. Posses e poder são procurados para poderem satisfazer os desejos. O homem fica só parcialmente satisfeito em sua tentativa de ter a satisfação de seus desejos, e essa satisfação parcial ventila e aumenta a chama do desejo, em vez de extingui-la. Assim, a cobiça sempre encontra um campo infinito de conquista e deixa o indivíduo eternamente insatisfeito. As principais expressões da cobiça estão relacionadas com a parte emocional do homem. É uma forma de se enredar com a esfera sutil.

A raiva é a emanação de uma mente irritada. É causada pela frustração dos desejos. Ela alimenta o ego limitado e é utilizada para a dominação e a agressão. Destina-se a remover os obstáculos existentes na realização dos desejos. O frenesi da raiva alimenta o egoísmo e a vaidade, e é o maior benfeitor do ego limitado. A mente é a sede da raiva e suas manifestações são principalmente através das atividades da mente. A raiva é uma forma de se enredar com a esfera mental. Luxúria, ganância e raiva, respectivamente, tem o corpo, o coração e a mente como seus veículos de expressão. O homem experimenta desapontamento através da luxúria, da cobiça e da raiva; e o ego frustrado, por sua vez, busca a gratificação adicional através da luxúria, da cobiça e da raiva. A consciência é, assim, apanhada num círculo vicioso de decepção sem fim. A decepção vem à existência quando, ou a luxúria, ou a ganância ou a raiva são frustradas em sua expressão. É, portanto, uma reação geral de aprisionamento grosseiro, sutil e mental. É uma depressão causada pelo não satisfação da luxúria, da cobiça e da raiva, que, juntos, são co-extensivos com o egoísmo. O egoísmo, que é a base comum desses três vícios ingredientes, é, portanto, a causa final das decepções e preocupações. Ele derrota a si mesmo. Busca satisfação através de desejos, mas só consegue chegar numa insatisfação interminável.

O egoísmo leva inevitavelmente à insatisfação e à decepção, pois os desejos são infinitos. O problema da felicidade é, portanto, o problema de abandonar nossos desejos. Os desejos, porém, não podem ser efetivamente superados através da repressão mecânica. Eles podem ser aniquilados somente através do Conhecimento. Se você mergulhar profundamente no reino dos pensamentos e pensar seriamente por poucos minutos, você vai perceber o vazio dos desejos. Pense no que você tem desfrutado todos esses anos e o que você sofreu. Tudo que você desfrutou durante a vida é hoje nulo. Tudo o que você sofreu ao longo da vida também não é nada no presente. Tudo era ilusório. É o seu direito ser feliz, e ainda, você cria sua própria infelicidade por querer as coisas. Querer é a fonte da inquietação permanente. Se você não consegue a coisa que quer, você fica decepcionado. E se consegue, você quer mais e mais daquilo e se torna infeliz. Diga "eu não quero nada" e seja feliz. A realização contínua da futilidade dos desejos eventualmente o levará ao Conhecimento. Este Auto-conhecimento dará a você a liberdade dos desejos que leva ao caminho da felicidade permanente. Os desejos devem ser cuidadosamente distinguidos das necessidades. O orgulho e a ira, a cobiça e a luxúria, são todos diferentes das necessidades. Você pode pensar: "eu preciso de tudo que eu quero", mas isso é um erro. Se estiver com sede em um deserto, o que você precisa é de água de boa qualidade e não de limonada.

Enquanto a pessoa tiver um corpo, haverá algumas necessidades e é necessário atender essas necessidades. Mas os desejos são um resultado da imaginação apaixonada. Eles devem ser escrupulosamente mortos para poder haver alguma felicidade. Como a própria essência do egoísmo consiste de desejos, a renúncia dos desejos torna-se um processo de morte. Morrer no sentido comum significa romper com o corpo físico, mas morrer no verdadeiro sentido significa a renúncia dos desejos baixos. Os sacerdotes preparam as pessoas para a falsa morte pintando retratos sombrios do inferno e do céu, mas sua morte é ilusória, pois a vida é uma continuidade ininterrupta. A morte real consiste na cessação dos desejos e ela vem por etapas graduais. O alvorecer do amor facilita a morte do egoísmo. Ser é morrer através do amor. Se você não pode amar ao próximo, como poderá amar até mesmo quem lhe tortura? Os limites do egoísmo são criados pela ignorância. Quando uma pessoa percebe que pode ter a satisfação mais gloriosa alargando a esfera de seus interesses e atividades, ele se encaminha para uma vida de serviço. Nesta fase ela entretém muitos bons desejos. Quer fazer os outros felizes ao aliviar seu sofrimento e ao ajudá-los. E embora mesmo em tais bons desejos muitas vezes haja uma referência indireta e latente à própria pessoa, o egoísmo estreito não tem controle sobre as boas ações. Mesmo bons desejos podem, em certo sentido, serem considerados uma forma de egoísmo esclarecido e estendido, pois, como os desejos ruins, eles também se movem dentro do domínio da dualidade. Mas conforme a pessoa entretém bons desejos, seu egoísmo abraça uma concepção maior que eventualmente traz sua própria extinção. Em vez de apenas tentar ser ilustre, aprisionador e possessivo, ele aprende a ser útil aos outros.

Os desejos que entram na constituição do ego pessoal não são nem bons nem ruins. Os maus desejos são normalmente referidos como formas de egoísmo e bons desejos são referidos como formas de altruísmo.
No entanto, não há uma linha precisa dividindo o egoísmo do altruísmo. Ambos se movem no domínio da dualidade, e do ponto de vista final que transcende os opostos do bem e do mal, a distinção entre egoísmo e altruísmo é principalmente uma diferença de alcance. O egoísmo e o altruísmo são duas fases da vida do ego pessoal e essas duas fases são contínuas uma com a outra. O egoísmo surge quando todos os desejos estão centrados em torno da individualidade estreita. O altruísmo surge quando esta organização bruta dos desejos sofre uma desintegração criando uma dispersão geral dos desejos, com o resultado que eles abrangem um domínio muito mais amplo.
O egoísmo é o estreitamento dos interesses a um campo limitado; o altruísmo é a extensão de interesses ao longo de um vasto campo. Colocando paradoxalmente, o egoísmo é uma forma limitada de altruísmo e o altruísmo é a expansão do egoísmo em uma ampla esfera de atividade.
O egoísmo deve ser transmutado em altruísmo antes do domínio da dualidade poder ser completamente ultrapassado. O desempenho persistente e contínuo do de boas ações desgasta o egoísmo. O egoísmo expandido e expressado na forma de boas obras passa a ser o instrumento de sua própria destruição. O bom é o principal elo entre o egoísmo prósperar e morrer. O egoísmo, que no início é o pai de más tendências, torna-se através das boas ações, o herói de sua própria derrota. Quando as más tendências são completamente substituídas por boas tendências, o egoísmo é transformado em altruísmo, isto é, o egoísmo individual perde-se num interesse universal. Embora essa vida abnegada e boa esteja também vinculada aos opostos, a bondade é um passo necessário em direção à liberdade dos opostos. A bondade é o meio pelo qual a alma aniquila a sua própria ignorância. Do bom a alma passa para Deus. O altruísmo funde-se na individualidade universal, que é além do bem e do mal, da virtude e do vício e todos os outros aspectos duais de Maya (a ilusão ou a ignorância).

O cúme do altruísmo é o início do sentimento de unidade com todos. No estado de Libertação não há nem o egoísmo nem o altruísmo no sentido comum, mas ambos são tomados e fundiram-se na sensação do 'Sentido de Ser' (Selfness) por todos. A Realização da unidade de tudo é acompanhada de paz e de alegria insondável. Ela não leva de maneira alguma nem à estagnação espiritual ou à obliteração de valores relativos. Esse (Selfness) 'sentido de Ser' para com todos traz uma harmonia imperturbável sem perda de discriminação, e uma paz inabalável sem indiferença para com o meio que nos cerca. Este (Selfness) 'Sentido de Ser' para com todos não é um resultado de mera síntese subjetiva. É resultado de uma real conquista da união com a Realidade última, que inclui tudo. Abra seu coração, desenraizando todos os desejos e abrigando um único anseio, o anseio pela união com a Realidade última.

A Realidade última não deve ser procurada nas coisas mutáveis do meio externo, mas no nosso próprio ser. Toda vez que sua alma tem a intenção de entrar no seu coração humano, ela encontra a porta fechada e o interior demasiadamente cheio de desejos. Não mantenham as portas dos seus corações fechadas. Em toda parte existe a fonte da felicidade duradoura e ainda assim, todos são infelizes por causa de desejos nascidos da ignorância. O objetivo da felicidade duradoura brilha plenamente apenas quando o ego limitado, com todos os seus desejos, encontra a sua extinção completa e definitiva.

A renúncia dos desejos não significa o ascetismo ou uma atitude meramente negativa para com a vida. Qualquer negação da vida desse tipo tornaria o homem desumano. A divindade não é desprovida de humanidade. A espiritualidade deve tornar o homem mais humano. É uma atitude positiva de liberar tudo que é bom, nobre e belo no homem. Também contribui para tudo o que é gracioso e amável no meio ambiente.
A espiritualidade não exige a renúncia externa das atividades mundanas ou o evitar de deveres e responsabilidades. É necessário apenas que, durante a realização das atividades mundanas ou o cumprimento das responsabilidades decorrentes do lugar específico e da posição do indivíduo, o espírito interior deve permanecer livre do fardo dos desejos.

A perfeição consiste em manter-se livre dos embaraços da dualidade. Essa liberdade dos embaraços é o requisito mais essencial da livre criatividade. Mas essa liberdade não pode ser alcançada ao fugirmos da vida por medo de nos embaraçarmos. Isso significaria a negação da vida. A perfeição não consiste na diminuição das expressões duais da natureza. A tentativa de escapar do emaranhamento implica medo da vida. A espiritualidade consiste em enfrentar a vida de forma adequada e plena, sem ser dominado por opostos. É preciso afirmar a sua soberania sobre todas as ilusões, não importa o quão atraentas ou potentes. Sem evitar o contato com as diferentes formas de vida, um Homem Perfeito funciona com desprendimento completo no meio de intensa atividade.




O Problema do Sexo


O sexo é decididamente um dos problemas mais importantes com o qual a mente humana é confrontada no domínio da dualidade. É um dos elementos na composição da natureza humana com o qual temos de lidar. Como tudo na vida humana, o sexo passa a ser julgado através de opostos, que são necessariamente criações da mente limitada.
Assim como a mente tenta ajustar a vida em um esquema de alternativas, tal como alegria ou dor, bom ou ruim, solidão ou companhia, atração ou repulsão, em relação ao sexo ela tende a pensar em indulgência e repressão como alternativas das quais não há escapatória para ela. Parece como se a mente tivesse de aceitar uma alternativa ou a outra. Contudo, ela não pode aceitar sem restrições nenhuma delas. Quando tenta a repressão, ela fica insatisfeita com sua situação e com saudade pensa na indulgência.Quando tenta a indulgência, torna-se consciente de sua escravidão aos sentidos e busca a liberdade, voltando à repressão mecânica. A mente continua insatisfeita com as duas alternativas, e assim, surge um dos problemas mais importantes e complicados da vida humana. Para resolver o problema do sexo, a mente precisa primeiro entender que ambas as alternativas são igualmente criação da imaginação que trabalha sob a influência ilusória do desejo. O desejo está implicitamente presente na repressão do sexo, bem como na sua gratificação. Ambos resultam em viciar a consciência através da concupiscência (luxúria) ou pelo desejo de sensações. A mente fica, portanto, inevitavelmente inquieta em qualquer das alternativas. Assim como quando há nuvens no céu, há escuridão e falta de sol esteja chovendo ou não, também quando a mente humana está envolta pelo desejo há uma diminuição de ser e uma falta de felicidade verdadeira, seja esse desejo satisfeito ou não.
A mente, quando agitada com o desejo, cria uma idéia ilusória de felicidade na satisfação do desejo e, em seguida, sabendo que a alma continua insatisfeita mesmo após a satisfação do desejo, busca a liberdade através da repressão. Assim, em busca da felicidade e da liberdade, a mente fica presa nos opostos da indulgência e da repressão, os quais ela acha igualmente decepcionantes. Uma vez que ela não tente ir além destes opostos, seu movimento é sempre de um oposto para o outro e, consequentemente, de uma decepção para outra.

Assim, o desejo falsifica o funcionamento da imaginação e apresenta a mente a opção entre as alternativas de indulgência e repressão, que se revelam igualmente decepcionantes em sua promessa de trazer felicidade. No entanto, apesar das decepções repetidas e alternadas na indulgência bem como na repressão, a mente normalmente não renuncia a causa da infelicidade, a qual é o desejo. Desse modo, enquanto experimenta a decepção na repressão, ela é facilmente suscetível à falsa promessa de gratificação e enquanto experimenta a decepção na gratificação, fica facilmente suscetível à falsa promessa de repressão puramente mecânica. Isso é como mover-se dentro de uma gaiola. A porta de entrada para o caminho espiritual da renúncia interna e espontânea do desejo permanece fechada para aqueles que não têm a sorte de serem despertados por um Mestre Perfeito. O verdadeiro despertar é a entrada no caminho da sabedoria, que, no decorrer do tempo, certamente leva à liberdade e à felicidade duradoura da vida eterna.
A renúncia interna e espontânea do desejo é tão diferente da repressão mecânica quanto é diferente da indulgência. A mente se volta para a repressão mecânica do desejo por causa da decepção, mas ela se volta para a renúncia interna e espontânea do desejo por causa do desiludimento ou do despertar. A necessidade de indulgência ou de repressão mecânica surge apenas quando a natureza do desejo não é claramente compreendida. Quando os aspirantes despertam totalmente para escravidão e o sofrimento inevitáveis decorrentes de desejo, eles começam voluntariamente a se livrar do fardo do desejo através da compreensão inteligente. A questão de indulgência ou repressão só surge quando há desejo. A necessidade de ambos desaparece com o completo desaparecimento do desejo. Quando a mente está livre do desejo, ela já não pode ser movida pelas falsas promessas de indulgência ou repressão mecânica. No entanto, deve-se ter em mente que a vida de liberdade está mais perto da vida de contenção do que da vida de indulgência (embora em termos de qualidade seja essencialmente diferente de ambas). Dessa forma, para os aspirantes uma vida de celibato rigoroso é preferível à vida de casado, se a retenção chega a eles facilmente sem um sentido indevido de auto-repressão. Tal restrição é difícil para a maioria das pessoas e às vezes impossível, e para eles a vida conjugal é, decididamente, mais útil do que uma vida de celibato. Para as pessoas comuns, a vida conjugal é sem dúvida aconselhável a menos que eles tenham uma aptidão especial para o celibato.

Assim como a vida de celibato exige e suscita o desenvolvimento de muitas virtudes, a vida conjugal por sua vez também alimenta o crescimento de muitas qualidades espirituais de extrema importância. O valor do celibato está no hábito de contenção e do sentido de desprendimento e independência que ela dá. Mas, enquanto a mente não está totalmente livre do desejo, não há verdadeira liberdade. Da mesma forma, o valor do casamento está nas lições de ajustamento mútuo e no sentido de unidade com o outro. A verdadeira união ou dissolução da dualidade é possível, entretanto, somente através do amor divino, que nunca pode alvorecer enquanto houver a menor sombra de luxúria ou de desejo na mente. Somente ao trilhar o caminho da renúncia interior e espontânea do desejo é que é possível alcançar a verdadeira liberdade e unidade.
Para aqueles que são celibatários, bem como para as pessoas casadas, o caminho da vida interior é o mesmo. Quando os aspirantes são atraídos pela Verdade, não anseiam por mais nada e conforme a Verdade chega cada vez mais dentro do seu alcance, eles gradualmente se livram do desejo. Seja no celibato ou no casamento, eles não são mais seduzidos pelas promessas enganosas de indulgência ou repressão mecânica e praticam a renúncia interna e espontânea do desejo até que sejam libertados dos opostos enganosos. O caminho da perfeição está aberto aos aspirantes tanto no celibato quanto no casamento, e se eles começam a partir do casamento ou do celibato vai depender de seus sanskaras e dos laços karmicos do passado. Eles alegremente aceitam as condições que suas vidas passadas determinaram para eles e utilizam essas condições para o avanço espiritual à luz do ideal que vieram a perceber.

Os aspirantes devem escolher um dos dois cursos que estão abertos para eles. Devem levar a uma vida de celibato ou a uma vida de casado e devem evitar a todo custo uma conciliação barata entre os dois. Promiscuidade na gratificação sexual está fadada a aportar os aspirantes no caos mais lastimável e perigoso da luxúria ingovernável. Dessa forma, a luxúria difusa e desgovernada vela os valores mais elevados, perpetua o enredamento e cria no caminho espiritual dificuldades inultrapassáveis à renúncia interna e espontânea do desejo. O sexo no casamento é totalmente diferente do sexo fora do casamento. No casamento, os sanskaras de luxúria são muito mais leves e capazes de serem removidos mais facilmente. Quando um relacionamento sexual é acompanhado por um senso de responsabilidade, amor e idealismo espiritual, as condições para a sublimação do sexo são muito mais favoráveis do que quando ele é mais barato e promíscuo. Na promiscuidade a tentação de explorar as possibilidades de mero contato sexual é formidável. É somente pela restrição máxima do âmbito do mero sexo que os aspirantes podem chegar a qualquer compreensão real dos valores atingíveis através da transformação gradual do sexo em amor. Se a mente tenta entender o sexo com a ampliação do escopo do sexo, não há fim para as ilusões para as quais ela torna-se presa, pois não há fim para a ampliação de seu escopo. Na promiscuidade as sugestões da luxúria são necessariamente as primeiras a se apresentarem à mente e os indivíduos ficam condenados a reagirem às pessoas dentro das limitações dessa perversão inicial e, assim, fecham a porta para experiências mais profundas.
A verdade não pode ser compreendida ao saltarmos sobre a superfície da vida e multiplicarmos os contatos superficiais. É necessária a preparação da mente, que pode centrar suas capacidades sobre experiências selecionadas e livrar-se de suas características limitantes. Esse processo de discriminação entre o superior e o inferior e da transcendência do inferior em favor do superior, torna-se possível através de uma concentração plena e de um interesse real e sério na vida. Essa concentração plena e interesse real é necessariamente excluída quando a mente se torna escrava do hábito de correr pela tangente e vagar entre muitos possíveis objetos de experiência semelhante.
Na vida conjugal o alcance da experiência a ser experimentada em companhia do parceiro é tão grande que as sugestões da luxúria não são necessariamente as primeiras a se apresentar à mente. Há, portanto, uma real oportunidade para os aspirantes de reconhecer e anular os fatores limitantes na experiência. Através da eliminação gradual da luxúria e da progressão através de uma série de experiências cada vez mais ricas de amor e sacrifício, eles podem finalmente chegar à Infinidade.




A Santificação da Vida Conjugal


A maioria das pessoas entra na vida conjugal como uma coisa natural, mas o casamento vai se tornar uma ajuda ou um obstáculo de acordo com a maneira pela qual ele é tratado. Não há dúvida de que algumas possibilidades espirituais imensas são acessíveis através de vida conjugal, mas tudo isso depende de ter a atitude certa. Do ponto de vista espiritual, a vida conjugal será um sucesso somente se for completamente determinada pela visão da Verdade. Ela não poderá oferecer muito se basear-se em nada aléms do que os motivos limitados de mero sexo, ou se for inspirada por considerações que normalmente prevalecem em uma parceria de negócios. Ela tem de ser assumida como uma empreitada realmente espiritual, que está destinada a descobrir o que a vida pode ser no seu melhor. Quando os dois parceiros lançam-se juntos na aventura espiritual de explorar as possibilidades mais elevadas do espírito, eles não podem começar por limitar a sua experiência por nenhum cálculo interessante relativo à natureza e à quantidade de ganho individual.
A vida de casado quase sempre faz muitas exigências aos dois parceiros de adaptação e compreensão mútua e cria muitos problemas que não eram originalmente esperados. Embora isso possa ser verdadeiro em um sentido na vida em geral, é particularmente verdadeiro na vida conjugal. Na vida de casado as duas almas ficam ligadas de muitas maneiras, com o resultado que elas são chamadas a resolver todo o problema complexo da personalidade em vez de qualquer problema simples criado por algum desejo isolado. É precisamente por isso que a vida conjugal é totalmente diferente das relações sexuais promíscuas.

O sexo promíscuo tenta separar o problema do sexo das outras necessidades da personalidade em desenvolvimento e procura resolvê-lo de uma forma isolada delas. Embora este tipo de solução possa parecer fácil, acaba por ser muito superficial e tem a desvantagem adicional de desviar o aspirante de tentar a solução real. Os valores relativos das várias facetas da personalidade limitada podem ser melhor apreciados quando se entrelaçam e aparecem em variadas situações e perspectivas. É difícil discriminar entre elas se aparecem intermitentemente em uma série desconexa. Na vida conjugal existe um amplo espaço para a experiência variada, com o resultado de que as diferentes tendências latentes na mente começam a se organizar em torno do esquema cristalizado da vida de casado.
Essa organização de fins diversos, não só oferece um campo ilimitado para a discriminação entre os valores superiores e inferiores, mas também cria entre eles uma tensão necessária, que requer e exige a sublimação eficaz e inteligente.

Em certo sentido, a vida conjugal pode ser encarada como a intensificação da maioria dos problemas humanos. Como tal, torna-se o terreno para mobilizar as forças de escravidão, bem como as forças da liberdade, os fatores de ignorância, bem como os fatores de luz. Como a vida de casado de pessoas comuns é determinada por diversas motivações e considerações, ela inevitavelmente convida uma intransigente oposição entre o ser superior e o ser inferior. Essa oposição é necessária para o desgaste do ser inferior e o alvorecer do verdadeiro Ser Divino. A vida de casado desenvolve tantos pontos de contato entre duas almas que o rompimento de toda a conexão significaria o desajuste e o desarranjo de praticamente todo o curso da vida. Uma vez que essa dificuldade de rompimento um do outro convida e precipita um reajuste interior, o casamento é realmente uma oportunidade disfarçada para as almas estabelecerem um entendimento real e duradouro que pode lidar com as situações mais complexas e delicadas. O valor espiritual da vida de casado está diretamente relacionado com a natureza dos fatores preponderantes que determinam a sua conduta diária. Se estiver baseado em considerações superficiais, pode deteriorar-se em uma parceria no egoísmo dirigida contra o resto do mundo. Se é inspirado pelo idealismo elevado, pode elevar-se para uma fraternidade que não apenas exige e requer sacrifícios cada vez maiores um pelo outro, mas na verdade se torna um meio através do qual as duas almas podem oferecer o seu amor unificado e seus serviços para toda a família da humanidade. Quando a vida de casado é assim alinhada diretamente com o plano divino para a evolução dos indivíduos, torna-se uma bênção pura para as crianças que são o fruto do casamento. Pois elas têm a vantagem de absorver uma atmosfera espiritual desde o início da sua carreira terrena. Embora as crianças sejam, portanto, os beneficiários da vida conjugal dos pais, a vida conjugal dos pais é por sua vez enriquecida pela presença dos filhos. As crianças dão aos pais uma oportunidade para expressarem e desenvolverem um amor verdadeiro e espontâneo no qual o sacrifício torna-se fácil e delicioso. E o papel desempenhado pelas crianças na vida dos pais é de grande importância para o progresso espiritual dos próprios pais. Desa forma, quando as crianças fazem sua aparição na vida conjugal, devem ser recebidas calorosamente pelos pais.

Tendo em vista as reivindicações que as crianças têm sobre a vida de casado, o controle de natalidade merece uma atenção cuidadosa e um exame crítico. A questão não deve ser considerada do ponto de vista de nenhum interesse especial ou limitado, mas do ponto de vista do máximo bem-estar dos indivíduos e da sociedade. O parecer correto a esse respeito, como a respeito de todas as coisas, deve acima de tudo basear-se em considerações espirituais. A atitude que a maioria das pessoas tem em relação ao controle de natalidade é oscilante e confuso, pois contém uma mistura de bons e maus elementos. Enquanto o controle de natalidade está certo no seu objetivo de garantir a regulação da população, é desastrosamente infeliz na escolha dos seus meios.
Não há dúvida de que a regulação da gravidez é sempre desejável por razões pessoais e sociais. A reprodução descontrolada intensifica a luta pela existência e pode levar a uma ordem social em que a concorrência impiedosa torne-se inevitável. Além de criar uma responsabilidade para os pais, que podem ser incapazes de cumprí-las adequadamente, torna-se uma causa indireta e contributiva de crime, guerra e pobreza. Embora considerações humanitárias e racionais demandem e justifiquem todas as tentativas sérias para regular o nascimento dos filhos, o uso de meios físicos para a obtenção deste objetivo continua a ser fundamentalmente insustentável e injustificável. Os meios puramente físicos, geralmente defendidos pelos defensores do controle de natalidade são mais censuráveis do ponto de vista espiritual.

Embora os meios físicos de controle de natalidade sejam defendidos por razões humanitárias, eles são quase sempre utilizados pela generalidade das pessoas para servir a seus próprios fins egoístas e evitar a responsabilidade de sustentar e educar os filhos. Uma vez que as consequências físicas de ceder à luxúria pode de maneira efetiva ser evitada através da utilização desses meios, aqueles que não começaram a despertar para os valores mais elevados não têm qualquer incentivo para a moderação na gratificação das paixões. Eles tornam-se vítimas da indulgência excessiva e trazem ruína a sua própria integridade física, espiritual e moral por negligenciarem o controle mental e se tornarem escravos da paixão animal. A facilidade de uso de meios físicos obscurece o lado espiritual da questão e está longe de ser positivo para o despertar dos indivíduos para a sua verdadeira dignidade e liberdade como seres espirituais.

A indulgência desmedida e descontrolada levará inevitavelmente à reação e à escravidão espiritual. Para os aspirantes espirituais em particular, mas também para todos os seres humanos (porque todos são potenciais aspirantes espirituais), é extremamente inoportuno contar com meios físicos para a regulação da procriação. Para tal regulação os indivíduos devem confiar em nada além do controle mental. O controle mental garante os fins humanitários que inspiram o controle da natalidade, mas se mantém limpo dos desastres espirituais decorrentes da utilização de meios físicos. O controle mental não só é útil para a regulação do número de filhos, mas é também indispensável para restaurar a humanidade a sua dignidade divina e bem-estar espiritual. Somente através do exercício sábio de controle mental é possível para a humanidade elevar-se da paixão para a paz, da escravidão para a liberdade e da animalidade para a pureza. Nas mentes de pessoas ponderadas o lado espiritual muito ignorado dessa questão deve assumir a importância que merece.

Sendo que a mulher tem de assumir o trabalho e a responsabilidade de sustentar e criar os filhos, ela pode parecer ser afetada mais seriamente por qualquer possível falha no controle mental do que o homem. Na verdade, isso não significa qualquer injustiça real para a mulher. Embora seja verdade que a mulher tem de realizar o trabalho e a responsabilidade de sustentar e criar os filhos, ela também tem a alegria recompensante de alimentá-los e aconchegá-los. Assim, a alegria da maternidade é muito maior do que a alegria da paternidade. Além disso, o homem também deve enfrentar e assumir as responsabilidades econômicas e educacionais para as crianças. Em um casamento devidamente ajustado não é preciso haver nenhuma injustiça na distribuição das responsabilidades dos pais a serem divididas entre o homem e a mulher. Se ambos estiverem verdadeiramente conscientes da sua responsabilidade mútua, a desconsideração dará lugar a um esforço ativo e cooperativo para atingir o controle mental completo. Em caso de haver alguma falha no controle mental, eles vão com alegria e boa vontade cumprir a responsabilidade conjunta da paternidade. Para aqueles que não estão preparados para assumir a responsabilidade das crianças, existe apenas uma direção que lhes resta.

Eles devem permanecer celibatários e praticar controle mental rigoroso, embora tal controle mental seja extremamente difícil de atingir, não é impossível. Do ponto de vista puramente espiritual, o celibato estrito é o melhor, mas já que é tão difícil, poucos podem praticá-lo. Para aqueles que não podem praticá-lo, o caminho mais próximo é o de se casar, em vez de tornar-se presa da promiscuidade. Dentro de uma vida de casado pode-se aprender a controlar a paixão animal. Esse obrigatóriamente será um processo gradual, e em caso de falha ao praticar o controle, o casal deve permitir que a natureza siga seu próprio curso, em vez de interferir com ela através de meios artificiais. Eles devem alegremente dar boas-vindas às consequências e estarem preparados para assumir a responsabilidade de educar os filhos. Do ponto de vista espiritual, o controle da natalidade deve ser essencialmente efetuado através do controle mental e nada mais. Os meios físicos não são aconselháveis em nenhuma circunstância, mesmo quando os parceiros recorrem a eles para usá-los apenas como uma ajuda provisória e secundária, sem a intenção de ignorar o ideal de desenvolver o controle mental. Utilizando os meios físicos eles não poderão nunca chegar a um controle mental real, mesmo que realmente queriram sinceramente alcançá-lo. Pelo contrário, eles se tornam dependentes do uso de meios físicos e até começam a justificá-los.

Para explicar mais claramente o que acontece no uso de meios físicos é que, enquanto os indivíduos pensam que estão usando-os apenas como um passo preliminar antes que o controle mental seja plenamente desenvolvido, eles realmente ficam viciados em seu uso e tornam-se escravos do hábito. Embora possam permanecer por algum tempo sob a ilusão de que estão tentando desenvolver um controle mental (lado a lado com o uso de meios físicos), eles estão realmente perdendo-o gradualmente. Em suma, o poder mental é necessariamente neutralizado por meio desse apoio nos meios físicos. Assim, o uso de meios físicos é prejudicial ao desenvolvimento do autocontrole e é positivamente desastroso para o avanço espiritual. É, portanto, totalmente desaconselhável, mesmo pelos melhores dos motivos.
No início da vida conjugal os parceiros são atraídos um pelo outro pela luxúria e bem como pelo amor, mas com a cooperação consciente e deliberada, eles podem diminuir gradualmente o elemento de luxúria e aumentar o elemento do amor. Através desse processo de sublimação, por fim a luxúria dá lugar ao amor profundo. Pela partilha mútua de alegrias e tristezas os parceiros marcham de um triunfo espiritual para outro, do profundo amor para um amor sempre mais profundo - até que o amor possessivo e ciumento do período inicial é totalmente substituído por um amor expansivo e auto-doador. Na verdade, ao lidar de maneira inteligente com o casamento eles podem atravessar tanto do caminho espiritual que será preciso apenas um toque de um Mestre Perfeito para elevá-los para dentro do santuário da Vida Eterna.

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