terça-feira, 15 de junho de 2010

Ramesh S. Balsekar - Entrando em Casa


Ramesh: Meu único ponto a respeito da maioria dos sadhanas (práticas espirituais) é que há um ego ciente o tempo todo - “eu” estou fazendo este sadhana, “eu” estou fazendo este esforço, “eu” tenho de receber uma recompensa. Então, depois de vinte anos o buscador honesto diz: “Eu tenho meditado por vinte anos e não consegui nada. Esse sadhana é inútil. Tenho de procurar outro sadhana. Tenho de ir para outro ashram. Tenho de encontrar outro Guru.”


Meu ponto é que a maioria dos sadhanas baseia-se num fazedor individual, o buscador, o ego fazendo algo com a expectativa de obter algo. Portanto, é pedido que você medite. Certamente. Mas enquanto houver um meditador esperando conseguir algo da meditação, essa meditação, segundo meu conceito, é inútil. A verdadeira meditação é quando, através graça de Deus e do destino do indivíduo, gradualmente o “meditador” desaparece na meditação de modo que no fim da meditação não sobra nenhum traço de algum ego fazendo meditação com expectativas. Então a meditação acontece de maneira totalmente diferente. De acordo com o meu conceito, só é meditação verdadeira aquela na qual não há meditador individual esperando conseguir algo dela.


Todo propósito desse sadhana que eu recomendo é se livrar do ego. Infelizmente, na maioria dos casos de sadhana de meditação, o meditador está convencido em pensar que “ele” conseguirá algo. E o ego é feito para esperar por algo. Essa é a parte lamentável.


Tim: Você disse que poderíamos fazer essa prática de analisar as ações, para descobrirmos que não podemos fazer. Você disse que ao fazermos isso o ego poderia ser enfraquecido.


Ramesh: É o ego que começa fazendo essa análise e durante esse processo o ego fica mais fraco.


Tim: Depois você disse que após algum tempo a questão é perguntada diretamente pela fonte.


Ramesh: A questão surge! Isso significa que o ego está tão fraco que ele não pode nem mesmo colocar essa questão. Pode ocorrer em certas práticas que o ego fique cada vez mas forte. Neste processo que eu sugiro, o ego, de acordo com meu conceito, ficará cada vez mais fraco conforme houver uma percepção cada vez maior, vinda da experiência pessoal, de que o ego não está fazendo nada – que o ego não pode fazer nada – o fazer acontece. Então, o ego fica cada vez mais fraco e por fim morre.


Gary: Tenho dificuldade quando você nos pede para analisar essas ações. O problema é que eu não confio mais nem no meu sentido intelectual nem no emocional, penso que eles não estão aptos a determinar isso. Eu observo minha mente ou meu sentimento e num determinado momento eu pareço sentir fortemente essa direção, e depois eu percebo que não, que meu sentimento na verdade era bem diferente. Tudo parece tão confuso dentro de mim! Não penso que é possível determinar se somos o fazedor das ações ou se não somos.


Ramesh: Gary, não estou dizendo para observar seu sentimento. Não estou dizendo para observar seus pensamentos. Tudo o que estou dizendo é que algumas ações acontecem durante o dia, não é?


Gary: Mas como posso determinar ...


Ramesh: É fácil. Tome uma ação simples. Você sai daqui e acaba indo a um restaurante desconhecido. No fim do dia, se você analisar como toda essa ação aconteceu, você vai descobrir que muitos pensamentos apareceram que você não teve controle. O que eram eles? “Estou com fome. Quero comer algo. Não tenho muito dinheiro comigo então preciso achar um restaurante limpo onde eu possa encontrar uma comida razoavelmente boa por um preço bom”. Então você pergunta para alguém: “Você conhece um lugar...” “Claro, logo ali na esquina”.


Então o que aconteceu? Houve uma série de pensamentos. O cérebro respondeu àqueles pensamentos de acordo com as circunstâncias sobre as quais você não teve controle – a fome apareceu, você gosta de comida limpa e boa devido ao seu condicionamento, você descobriu que tinha deixado quase todo seu dinheiro no seu quarto... Dessa maneira, o cérebro reagiu à situação existente e pediu as sugestões de alguém: “Há um lugar aqui onde eu possa ir?” Então, o quanto isso foi ação “sua” e o quanto foi uma cadeia de circunstâncias e o condicionamento que o levaram a ir ao restaurante? E você chega à conclusão: “Não foram 'minhas' ações. 'Eu' fiquei com fome e fui levado a um restaurante por algumas circunstâncias sobre as quais 'eu' não tive controle.”


Gary: Minha percepção é que isso muda com o tempo. É por isso que eu digo que não confio nos meus sentidos. Quando algo está ocorrendo ou vai ocorrer, parece a mim que tenho controle. Quando algo já ocorreu, parece que não tinha o controle. Não importa o que seja. Então é uma questão de tempo – como eu vejo isso através do tempo.


Ramesh: É por isso que eu digo, 'no final do dia...'


Gary: Então sempre parece que eu não tive controle.


Ramesh: Esse é precisamente meu ponto.


Gary: Mas se estou olhando para frente sempre parece que tenho controle.


Ramesh: Sim, 'sempre parece”. Você está cem por cento correto. “Sempre parece” que “você” tem controle.


Gary: Em ambos os casos “parece”.


Ramesh: Não. No final do dia quando você analisa, você chega à conclusão que você não teve nenhum controle. Um pensamento ocorreu ou você ouviu algo, uma sugestão, ou você viu algo. O cérebro reagiu ao que foi visto, escutado ou pensado. Você pode usar essa análise para qualquer ação e no final do dia você vai descobrir através de experiência pessoal que não foram “suas” ações.


Esse processo de analisar a ação, qualquer ação, para mim é o único sadhana ou prática que você precisa fazer. Esse é o meu conceito. Faça esse sadhana na medida que for possível para você fazer – e isso depende da vontade de Deus e do destino do organismo corpo-mente. Assim, na medida que for possível para você fazer esse sadhana, você chega à conclusão que nenhuma ação é “sua” ação. E se isso acontece dia após dia, em algum ponto – novamente, se for a vontade de Deus e o destino do organismo corpo-mente – a questão vai surgir das profundezas do seu ser: “Se o Gary não faz coisa alguma, quem é o Gary?” Como disse o Senhor Buda: “Não há fazedor disso.” Essa é a conclusão a que você chega por experiência pessoal – se Gary não faz coisa alguma, Quem é o Gary? Quem sou eu?


Essa é a questão do Ramana Maharshi, “quem sou eu?” É muito importante entender que não é o intelecto que questiona. Se o intelecto pergunta, então o intelecto traz a resposta. E a resposta que o intelecto fornece, o intelecto novamente questiona. Você fica indo em círculos.


Mas quando a questão surge da Fonte, se essa for a vontade da Fonte e o destino do organismo corpo-mente, então a resposta não vem do intelecto – a resposta vem da Fonte. Nunca existiu um Gary além de um nome dado a um organismo corpo-mente. Portanto nunca houve um fazedor. Gary, o ego, não existe. Se o Gary não existe, então o que existe? Apenas a Fonte. A Fonte é tudo o que há.


Gary, meu conceito básico é que cada ser humano é um instrumento programado ou um computador que a Fonte usa, e cada computador humano é único. Não há dois iguais devido ao DNA e ao condicionamento que cada um recebe e sobre os quais não há controle. Juntos, o DNA e o condicionamento são o que eu chamo de programação. E o que faz a Fonte para trazer uma ação que a Fonte deseja? Ela coloca um estímulo. O que é um estímulo? A fonte manda um pensamento para você, o cérebro reage àquele pensamento e traz uma resposta de acordo com a programação. O Gary diz que essa resposta é “sua” ação. Mas quando você analisa cada ação você chega à conclusão que nenhuma ação é “sua” ação.


Gary: Mas não estou convencido de que seja impossível para uma pessoa ganhar mais controle sobre si mesma.


Ramesh: Para “quem” ganhar mais controle?


Gary: Eu não sei.


Ramesh: Para quem? Esse é ponto fundamental. A questão é: Quem é Gary? A resposta é: Não há Gary!


Gary: Você diz que o ego não existe.


Ramesh: Sim.


Gary: O ego afeta o corpo, o corpo existe de um certo ponto de vista. Se o ego está preocupado e chateado a respeito do que ele vai fazer, o corpo pode ficar doente. Então, se o que existe é afetado por algo que não existe, isso é ilógico.


Ramesh: E é por isso que enquanto o ego estiver ali, ele pode afetar o copo e se preocupar a respeito do corpo estar doente, por exemplo.


Gary: Desse modo o ego existe.


Ramesh: O ego existe. Agora, você sai no sol, Gary. Há uma sombra. Existe uma sombra ou não existe sombra?


Gary: Os dois. Sim e não.


Ramesh: É isso! Portanto, o ego existe? Sim e não. É isso que você descobre. Se o ego não faz coisa alguma, o ego não existe. “Gary” existe porque o ego existe. Se o “Gary” não faz coisa alguma, o “Gary” não existe. Desse modo, a aniquilação do ego significa que não existe “Gary” para dizer: “Estou feliz agora. Estou infeliz agora.”


Felicidade e tristeza existem por causa do ego. Portanto, a total e final compreensão intuitiva no coração é que – não há ego – nunca houve um ego. A felicidade e a tristeza são meramente algo criado pelo ego. O ego na verdade nunca existe de fato, assim como uma sombra na realidade nunca existe – quando você entra em casa cadê a sombra? Dessa forma, com esse entendimento de que “Gary” nunca faz coisa alguma, você entra em casa!


Gary: Eu sinto esse ego, esse sentido de “mim” - quase como algo físico.


Ramesh: Ele é. Portanto o ego causa danos consideráveis. Por que Gary está infeliz? Porque o Gary pensa que o “Gary” existe. Por que ele pensa que o “Gary” existe? Porque ele pensa que realiza ações. Se o “Gary” não faz nada – quem é o Gary?


Gary: Mesmo que eu não possa fazer nada, me parece que eu existo.


Ramesh: Oh sim. Mas o que é Aquilo que existe sem fazer coisa alguma? A fonte, o “eu sou”, eu sou Aquele eu sou. Aquilo é o que existe quando Gary não é o fazedor. E quando você está no “eu sou” não há felicidade ou tristeza – o que significa paz.



Ramesh: Uma vez que realizarmos que o Ser, o “eu sou”, a Consciência – que é o que realmente somos – é o fazedor e a testemunha, veremos que não só não é necessário renunciar as nossas atividades diárias, mas que é desejável continuar nossa vida normal. Continuamos com a profunda compreensão de que nós (como objetos fenomenais) estamos “sendo vividos” na totalidade do funcionamento da manifestação. A suposta autoria das ações do “eu” não é nada além de uma ilusão. As atividades diárias normais, continuadas sem o senso de autoria das ações, são a melhor preparação possível para que a iluminação repentina aconteça .


Meister Eckhart colocou lindamente: “Tudo o que o ser humano pode fazer é admirar e maravilhar-se perante a magnificência da criação de Deus” - milhares e milhares de variedades de objetos, cada um com uma programação diferente. Em outras palavras o que ele diz é, a criação do Senhor é um mistério e tudo o que o objeto humano pode fazer é render-se ao mistério e não tentar resolvê-lo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Bhagavan Ramana Maharshi - A Graça do Ser




Pergunta: O que é a graça do Guru? Como ela conduz à realização do Ser?



Bhagavan: O Guru é o Ser. Às vezes em sua vida um homem fica insatisfeito, e não estando contente com o que tem, busca a satisfação de seus desejos através de preces a Deus. Sua mente gradualmente é purificada até que ele anseie por conhecer a Deus, anseie mais por obter a Sua graça do que por satisfazer os seus desejos mundanos. Então, a graça de Deus começa a se manifestar. Deus assume a forma de um Guru e aparece ao devoto, ensina a ele a verdade e, acima de tudo, purifica a sua mente através de sua associação com ele. A mente do devoto ganha força e então fica apta a voltar-se para dentro. Através de meditação ela é ainda mais purificada e permanece quieta sem o menor movimento. Aquela calma vastidão é o Ser.



O Guru é tanto interno quanto externo. A partir do exterior ele dá um empurrão para a mente voltar-se para dentro. A partir de dentro ele puxa a mente na direção do Ser e ajuda no aquietamento da mente. Essa é a graça do Guru. Não há diferença entre o Guru, Deus e o Ser.



P: Na sociedade teosófica eles meditam na busca por mestres que possam guiá-los.



B: O mestre está dentro; a meditação tem o objetivo de remover a idéia ignorante de que ele está fora. Se ele é um estranho por quem você espera, ele está fadado a desaparecer também. Qual é a utilidade de um ser transitório como esse? Mas enquanto você pensa que está separado ou que você é o corpo, um mestre externo também é necessário e ele parecerá ter um corpo. Quando a identificação errada da pessoa com o corpo acaba, ela vai descobrir que o mestre não é nenhum outro além do Ser.



P: Como decidimos se o Guru é apropriado? Qual é a natureza real do Guru?



B: O guru apropriado é aquele com quem sua mente está sintonizada. Se você perguntar: “Como decidir quem é o Guru e qual é sua natureza (swarupa)?” A resposta é: Ele deveria ser dotado de tranquilidade, paciência, perdão e outras virtudes; ele deveria ser capaz de atrair os outros, mesmo que apenas com seus olhos, assim como o imã atrai o ferro; ele deveria ter um sentimento de igualdade para com todos. Aquele que tem essas virtudes é o verdadeiro Guru, mas se você quer saber a verdadeira natureza do Guru (swarupa), você deve conhecer a sua verdadeira natureza primeiro. Como pode alguém conhecer a natureza real do Guru se não conhecer em primeiro lugar sua própria natureza real? Se você quer perceber a natureza ou a forma real do Guru você deve primeiro aprender a olhar para todo o universo como sendo a forma do Guru (Guru rupam). Você deve ver o Guru em todos os seres vivos. É o mesmo com Deus. Você deve olhar para todos os objetos como sendo a forma de Deus. Como pode aquele que não conhece o seu próprio Ser perceber a forma real de Deus ou a forma real do Guru? Como ele pode determiná-los? Portanto, primeiro de tudo conheça a sua própria forma e natureza reais.



P: Algumas pessoas dizem que não houve necessidade de um Guru para você. O que você diz a esse respeito?



B: Depende do que você chama de um Guru. Ele não precisa estar numa forma humana. Dattatreya tinha vinte e quatro Gurus incluindo os cinco elementos – terra, água, fogo, ar e espaço. Cada objeto neste mundo era seu Guru.


O Guru é absolutamente necessário. Os Upanishads dizem que ninguém além do Guru pode tirar um homem da selva do intelecto e das percepções sensoriais. Portanto deve haver um Guru.



P: Eu me refiro a um Guru humano, você não teve um.



B: Posso ter tido um num momento ou em outro. Mas eu não tenho cantado hinos para Arunachala*? O que é um Guru? O Guru é Deus ou o Ser. Primeiramente o homem reza para Deus com vistas a satisfazer os seus desejos. Chegará um momento em que ele não rezará mais pela realização de desejos materiais mas sim por Deus mesmo. Deus então aparecerá para ele numa forma ou outra, humana ou não-humana, para guiá-lo para si mesmo em resposta à sua oração e de acordo com suas necessidades.



P: Alguns discípulos do Sai Baba de Shirdi (1838-1918) adoram um retrato dele e dizem que esse é o seu Guru. Como pode ser? Qual é o benefício de adorarem um retrato como seu Guru?



B: Eles obtêm concentração através disso.



P: Sim. Pode ser um exercício de concentração até certo ponto, mas um Guru não é necessário para essa concentração?



B: Certamente, mas afinal, Guru significa apenas Guri – concentração.



P: Como pode uma foto sem vida ajudar a desenvolver concentração profunda? É necessário um Guru vivo que mostre isso na prática. Talvez fosse possível para você atingir a perfeição sem um Guru vivo, mas é possível para pessoas como eu?



B: É verdade. Mesmo assim, ao adorar um retrato sem vida, a mente fica concentrada até um certo grau. Essa concentração não vai permanecer constante a menos que a pessoa conheça seu verdadeiro Ser através da auto-investigação (vichara). Para essa auto-investigação é preciso um Guru.



P: É absolutamente necessário ter um Guru se estamos buscando a realização do Ser (Auto-realização)?



B: Se você buscar a realização do Ser o Guru é necessário. Ele é o Ser. Tome o Guru como sendo o Ser real e o seu ser como sendo o ser individual. O desaparecimento do sentido de dualidade é a remoção da ignorância. Enquanto a dualidade persistir em você, o Guru é necessário. Porque você se identifica com o corpo você pensa que o Guru também é o corpo. Você não é o corpo e nem o Guru. Você é o Ser e também é o Guru. Esse conhecimento é obtido através disso que você chama de auto-realização.


Apenas aquele que confere o supremo conhecimento do Ser à alma ao fazê-la voltar-se para o Ser, é o supremo Guru, o qual é louvado pelos sábios como sendo a forma de Deus, que é o Ser. Mantenha-se fiel a ele. Ao aproximar-se do Guru e serví-lo devotamente a pessoa deveria aprender através da graça dele a causa de seu nascimento e de seu sofrimento. Sabendo então que são devidos ao seu afastamento do Ser, é melhor residir firme como Ser.



P: Existem discípulos do Bhagavan que obtiveram sua graça e realizaram sem qualquer dificuldade. Eu também gostaria de receber essa graça. Sendo uma mulher e vivendo longe eu não posso vir desfrutar de sua sagrada companhia o tanto quanto eu gostaria. Talvez eu não consiga retornar aqui novamente. Eu peço a graça de Bhagavan. Quando eu voltar para minha casa, quero lembrar de Bhagavan. Por favor conceda-me o que rogo.



B: Aonde você está indo? Você não vai a lugar nenhum. Mesmo supondo que você seja o corpo, foi seu corpo que veio de sua casa até Tiruvannamalia? Você simplesmente sentou num carro ou em alguma outra condução e ela se moveu. E finalmente você diz que veio aqui. O fato é que você não é o corpo. O Ser não se move, o mundo é que se move nele. Você é apenas o que você é. Não há mudança em você. Portanto, mesmo após o que parecerá como sua partida daqui, você estará aqui, lá e em toda parte. Essas cenas mudam.


Quanto à graça, ela está dentro de você. Se for externa ela é inútil. A graça é o Ser. Você nunca está fora de sua operação. A graça está sempre aí.



P: Quero dizer que quando eu me lembrar de sua forma, gostaria que minha mente se fortalecesse e uma resposta viesse de você também. Eu não queria ser deixada apenas com meus esforços individuais, que na verdade são muito fracos.



B: A graça é o Ser. Eu já disse, se você lembrar do Bhagavan, você foi levada a fazer isso pelo Ser. A graça já não está aí? Há algum momento que a graça não está operando em você? Sua lembrança é mensageira da graça. Isso é a resposta, isso é o estímulo, isso é o Ser e isso é a graça. Não há motivo para ansiedade.



P: Posso dispensar a ajuda externa e por mim mesmo chegar à verdade mais profunda sozinho?



B: O próprio fato de você estar empreendendo a busca pelo Ser é uma manifestação da graça divina. Ela está radiante no Coração, o ser interior, o Ser real. Ela puxa você de dentro. Você tem de tentar entrar de fora. Sua tentativa é a busca mais sincera, o profundo movimento interior é a graça. É por isso que digo que não há busca real sem a graça e nem há graça ativa para aquele que não busca o Ser.


A graça divina é essencial para a realização. Ela leva a pessoa à realização de Deus. Mas tal graça é outorgada apenas àquele que é um verdadeiro devoto ou yogi. É dada apenas para aqueles que lutaram duro e incessantemente no caminho para a liberdade.



P: Bhagavan poderia ter piedade de nós e nos mostrar a graça?



B: Você está com água até o pescoço e ainda clama por água. É como dizer que alguém com água até o pescoço sente sede ou que o peixe na água sente sede ou que a água sente sede.


Mas a prática também é necessária. Permanecer no Ser por seus próprios esforços é como treinar um touro bravo confinado-o em seu estábulo, dando-lhe capim suculento e impedindo-o de fugir.


*Arunachala - montanha sagrada localizada em Tiruvannamalaia na India

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Nisargadatta Maharaj - A Grande Descoberta



Pergunta: Eu estive aqui no ano passado. Agora estou novamente diante de você. O que me faz vir realmente não sei, mas de alguma forma não consigo lhe esquecer.
Maharaj: Alguns esquecem, outros não, de acordo com os seus destinos, o qual você pode chamar de acaso, se preferir.
P: Entre o acaso e o destino há uma diferença básica.
M: Só na sua mente. Na verdade, você não sabe o quê causa o quê. Destino é apenas uma palavra que funciona como um cobertor para cobrir a sua ignorância. Acaso é uma outra palavra.
P: Sem conhecimento das causas e dos seus resultados pode haver liberdade?
M: As causas e os resultados são infinitos em número e variedade. Tudo afeta tudo. Neste universo, quando uma coisa muda, tudo muda. Daí o grande poder do homem em mudar o mundo ao mudar a si mesmo.
P: De acordo com suas próprias palavras, você, pela graça de seu Guru, mudou radicalmente cerca de quarenta anos atrás. No entanto, o mundo permanece tal como era antes.
M: Meu mundo mudou completamente. O seu permanece o mesmo porque você não mudou.
P: Como é que a sua mudança não afetou a mim?
M: Porque não havia comunhão entre nós. Não considere a si mesmo como separado de mim e de imediato partilharemos de um estado comum.

P: Tenho uma propriedade nos Estados Unidos que eu pretendo vender e comprar um terreno no Himalaia. Vou construir uma casa, arrumar um jardim, conseguir duas ou três vacas e viver tranquilamente. As pessoas me dizem que propriedade e tranquilidade não são compatíveis, que logo eu terei problemas com oficiais, vizinhos e ladrões. Isso é inevitável?
M: O mínimo que você pode esperar é uma sucessão interminável de visitantes que irão fazer de sua moradia uma casa de hóspedes livre e aberta. É melhor aceitar a sua vida como ela se molda, vá para casa e cuide de sua esposa com amor e carinho. Ninguém mais precisa de você. Seus sonhos de glória irão lhe colocar em mais problemas.
P: Não é glória que eu busco. Eu busco a Realidade.
M: Para isso você precisa de uma vida bem ordenada e calma, paz de espírito e uma sinceridade imensa. A cada momento, o que quer que venha a você espontaneamente vem de Deus e certamente irá lhe ajudar, se você tirar o máximo proveito disso. É apenas aquilo pelo qual você se esforça, que vem de sua própria imaginação e desejo o que lhe dá problemas.
P: O destino é o mesmo que a graça?
M: Com certeza. Aceite a vida como ela vier e você vai descobrí-la ser uma bênção.
P: Eu posso aceitar minha própria vida. Mas como aceitar o tipo de vida que os outros são obrigados a viver?
M: Você está aceitando isso de qualquer maneira. As tristezas dos outros não interferem com os seus prazeres. Se você fosse realmente compassivo, teria abandonado há muito tempo toda a preocupação consigo mesmo e teria entrado no estado a partir do qual e somente do qual você realmente pode ajudar.
P: Se eu tiver uma casa grande e terreno bastante, posso criar um Ashram, com quartos individuais, uma sala comum para meditação, cantina, biblioteca, escritório, etc.
M: Ashrams não são feitos, eles acontecem. Você não pode nem começar a fazê-los nem impedi-los de serem feitos, do mesmo modo que você não pode iniciar ou terminar um rio. Muitos fatores estão envolvidos na criação de um Ashram de sucesso e sua maturidade interior é apenas um deles. Claro, se você é ignorante de seu verdadeiro ser, o que quer que você faça se tornará cinzas. Você não pode imitar um Guru e se dar bem com isso. Toda a hipocrisia vai terminar em desastre.
P: Qual é o mal em se comportar como um santo, mesmo antes de ser um?
M: Ensaiar a santidade é um sadhana. Está perfeitamente correto, desde que nenhum mérito seja reivindicado.
P: Como posso saber se sou capaz de iniciar um Ashram se eu não tentar?
M: Enquanto você se considera uma pessoa, um corpo e uma mente, separado do rio da vida, tendo uma vontade própria, perseguindo seus próprios objetivos, você estará vivendo apenas na superfície e tudo o que você fizer será de curta duração e de pouco valor, mera palha para alimentar as chamas da vaidade. Você deve agregar valor verdadeiro antes que possa esperar algo real. Qual é o seu valor?

P: Baseado em que medida posso avaliar isso?
M: Olhe para o conteúdo de sua mente. Você é o que você pensa. Você não está na maioria do tempo ocupado com a sua própria pequena pessoa e as necessidades diárias dela?
O valor da meditação regular é que ela leva você para longe da monotonia da rotina diária, fazendo-o lembrar que você não é o que você acredita ser. Mas mesmo lembrar não é suficiente - ação deve vir depois da convicção. Não seja como o homem rico que fez um testamento detalhado mas se recusou a morrer.
P: A gradualidade não é uma lei da vida?
M: Oh, não. Apenas a preparação é gradual, a mudança em si é súbita e completa. A mudança gradual não o leva a um novo nível de ser consciente. É preciso coragem para abrir mão.
P: Eu admito que é coragem que me falta.
M: É porque você não está totalmente convencido. Convicção total gera desejo e coragem. E a meditação é a arte de alcançar a fé por meio do entendimento. Na meditação você considera os ensinamentos recebidos em todos os seus aspectos e repetidamente, até que da clareza nasça a confiança e da confiança nasça a ação. Convicção e ação são inseparáveis. Se a ação não segue a convicção, examine suas convicções, não se acuse de ter falta de coragem. A auto-depreciação não o levará a lugar algum. Sem clareza e consentimento emocional de que serve a vontade?

P: O que você quer dizer com consentimento emocional? Não devo agir contra meus desejos?
M: Você não vai agir contra os seus desejos. Clareza não é suficiente. A energia vem do amor - você deve amar para agir - seja qual for a forma e o objeto de seu amor. Sem clareza e caridade a coragem é destrutiva. Pessoas em guerra muitas vezes são maravilhosamente corajosas, mas e daí?
P: Eu vejo claramente que tudo o que eu quero é uma casa em um jardim, onde eu possa viver em paz. Por que eu não deveria agir de acordo com meu desejo?
M: De qualquer maneira, aja. Mas não se esqueça do inevitável, do inesperado. Sem chuva o seu jardim não florescerá. Você precisa de coragem para se aventurar.
P: Eu preciso de tempo para coletar minha coragem, não me apresse. Deixe-me amadurecer para a ação.
M: Toda a maneira de se aproximar da questão está errada. Ação postergada significa ação abandonada. Pode haver outras chances para outras ações, mas o momento presente é perdido - irremediavelmente perdido. Toda a preparação é para o futuro - você não pode preparar para o presente.

P: O que há de errado em preparar para o futuro?
M: Atuar no agora não é muito ajudado pelas suas preparações. Clareza é agora, ação é agora. Pensar em se preparar impede a ação. E a ação é o critério da realidade.
P: Mesmo quando agimos sem convicção?
M: Você não pode viver sem ação, e por trás de cada ação há algum medo ou desejo. Em última análise, tudo o que você faz está baseado em sua convicção de que o mundo é real e independente de você mesmo. Se estivesse convencido do contrário, seu comportamento teria sido completamente diferente.
P: Não há nada de errado com minhas convicções, minhas ações são moldadas pelas circunstâncias.
M: Em outras palavras, você está convencido da realidade de suas circunstâncias, do mundo em que você vive. Trace o mundo de volta para sua fonte e você vai descobrir que antes do mundo existir, você existia e quando o mundo já não existir, você permanecerá. Encontre o seu ser atemporal e sua ação será testemunhada por ele. Você o encontrou?

P: Não, não encontrei.
M: Então o que mais você tem de fazer? Certamente, essa é a tarefa mais urgente. Você não pode ver a si mesmo como independente de todas as coisas, a menos que largue tudo e fique sem suporte e indefinido. Uma vez que você conhece a si mesmo, é irrelevante o que você faz, mas para perceber a sua independência, você deve testá-la ao abandonar tudo do qual você era dependente. O homem realizado vive no nível dos absolutos; sua sabedoria, seu amor e sua coragem são completos, não há nada relativo a seu respeito. Portanto, ele deve provar-se através dos testes mais rigorosos, passar por provações mais exigentes. O testador, o testado e o local do teste estão todos dentro, é um drama interior no qual nenhum deles pode ser um partido.
P: Crucificação, morte e ressurreição – estamos em terrenos familiares! Tenho lido, ouvido e falado sobre isso incessantemente, mas para fazer isso eu me acho incapaz.
M: Fique quieto, imperturbável e a sabedoria e o poder virão por conta própria. Você não precisa ansiar. Espere no silêncio do coração e da mente. É muito fácil ficar quieto, mas ter uma vontade sincera é raro. Vocês querem se tornar super-homens da noite para o dia. Fique sem ambição, sem o menor desejo, exposto, vulnerável, desprotegido, incerto e sozinho, completamente aberto e acolhedor para a vida de acordo como ela acontece, sem a convicção egoísta de que todos devem conceder-lhe prazer ou benefício, material ou supostamente espiritual.

P: Sinto ressonância com o que você diz, mas não vejo como isso pode ser feito.
M: Se você soubesse como fazer, você não faria. Abandone todas as a tentativas, apenas seja; não se esforce, não lute, desprovenha-se de todos os apoios, segure no secreto sentido de ser, varrendo todo o resto. Isso é o suficiente.
P: Como esse varrer é feito? Quanto mais eu varro, mais coisa vem para a superfície.
M: Recuse a atenção a elas, deixe as coisas virem e irem. Desejos e pensamentos também são coisas. Ignore-os. Desde tempos imemoriais a poeira dos eventos esteve cobrindo o espelho claro de sua mente, de modo que você podia ver apenas memórias. Varra a poeira antes que ela tenha tempo de cair, isso irá desnudar as antigas camadas até que a verdadeira natureza de sua mente seja descoberta. É tudo muito simples e relativamente fácil, seja sincero e paciente, isso é tudo. Desapego, desprendimento, liberdade dos desejos e medos, de toda preocupação consigo mesmo; simplesmente esteja ciente - livre de memória e expectativa - esse é o estado da mente para o qual a descoberta pode acontecer. Afinal, a libertação não é nada além de liberdade para descobrir.



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Pergunta: Sou americano de nascimento e durante o último ano estive hospedado em um Ashram em Madhya Pradesh, estudando Yoga em seus múltiplos aspectos. Tivemos um professor, cujo guru é um discípulo do grande Sivananda Saraswati. Eu fiquei no Ramanashram também. Quando estive em Mumbai fiz um curso intensivo de meditação birmanesa ministrado por um Goenka. Ainda assim, não encontrei paz. Houve uma melhora no auto-controle e na disciplina no dia-a-dia, mas isso é tudo. Eu não posso dizer exatamente o quê causou o quê. Visitei muitos lugares sagrados. Como cada um agiu em mim, não posso dizer.
Maharaj: Bons resultados virão, mais cedo ou mais tarde. No Sri Ramanashram você recebeu algumas instruções?
P: Sim, algumas pessoas inglesas estavam ensinando e também um indiano seguidor do Jnana Yoga que reside lá permanentemente, me deu aulas.
M: Quais são seus planos?
P: Tenho de voltar para os Estados Unidos por causa de problemas com o visto de permanência. Pretendo completar o meu bacharelado no estudo da Cura Natural e fazer disso minha profissão.
M: É uma boa profissão, sem dúvida.
P: Existe algum perigo em buscar o caminho do Yoga a todo o custo?
M: Um palito de fósforo é perigoso quando a casa está pegando fogo? A busca pela realidade é a mais perigosa de todas as empreitadas, pois ela irá destruir o mundo em que você vive. Mas se a sua motivação é o amor pela verdade e pela vida, você não precisa ter medo.
P: Eu tenho medo da minha própria mente. Ela é tão instável!
M: No espelho de sua mente as imagens aparecem e desaparecem. O espelho permanece. Aprenda a distinguir o imóvel no móvel, o imutável na mudança, até que você perceba que todas as diferenças são só na aparência e que a unidade é um fato. Esta identidade básica - você pode chamar de Deus, ou Brahman, ou a matriz (Prakriti); as palavras pouco importam - é apenas a compreensão de que tudo é um. Uma vez que você puder dizer com confiança nascida de experiência direta: "Eu sou o mundo, o mundo é eu”, você de um lado estará livre do desejo e do medo e do outro se tornará totalmente responsável pelo mundo. A tristeza sem sentido da humanidade será a sua única preocupação.
P: Então até mesmo um Jnani tem seus problemas!?
M: Sim, mas eles já não são criação dele. Seu sofrimento não é contaminado por um sentimento de culpa. Não há nada de errado com o sofrimento pelos pecados dos outros. Seu cristianismo está baseado nisso.
P: Não é todo sofrimento auto-criado?
M: Sim, desde que haja um 'eu' separado para criá-lo. No final, você descobre que não há nenhum pecado, nem culpa, nem castigo, há apenas a vida em suas transformações infinitas. Com a dissolução do 'eu' pessoal o sofrimento desaparece. O que resta é a grande tristeza da compaixão, o horror da dor desnecessária.
P: Existe alguma coisa desnecessária no esquema das coisas?
M: Nada é necessário, nada é inevitável. Os hábitos e as paixões cegam e induzem ao erro. Consciência (awareness) compassiva, cura e redime. Não há nada que possamos fazer, só podemos deixar as coisas acontecerem de acordo com sua natureza.
P: Você defende uma completa passividade?
M: Clareza e caridade são ação. O amor não é preguiçoso e a clareza direciona. Você não precisa se preocupar com a ação, cuide de sua mente e de seu coração. A estupidez e o egoísmo são o único mal.
P: Qual é melhor - a repetição do nome de Deus ou a meditação?
M: A repetição vai estabilizar sua respiração. Com respiração profunda e tranquila a vitalidade vai melhorar e ela irá influenciar o cérebro e ajudará a mente a ficar pura, estável e apta para meditar. Sem vitalidade pouco pode ser feito; daí a importância de protegê-la e aumentá-la. Postura e respiração são uma parte do Yoga, pois o corpo deve estar saudável e sob controle, mas concentração demasiada no corpo derrota sua própria finalidade, pois é a mente que é fundamental afinal. Quando a mente é colocada em repouso e não perturba mais o espaço interior (chidakash), o corpo adquire um novo significado e sua transformação torna-se necessária e possível.
P: Eu estive vagando por toda a Índia, encontrando muitos gurus e aprendendo partes de vários Yogas. Está correto experimentar um pouco de tudo?
M: Não, isso é apenas uma introdução. Você vai encontrar um homem que irá ajudá-lo a encontrar o seu próprio caminho.


P: Sinto que um Guru que seja de minha escolha, não pode ser meu verdadeiro Guru. Para ser real, ele deve vir inesperadamente e ser irresistível.
M: O melhor é não antecipar. A maneira como você responde é que é decisiva.
P: Eu sou o mestre de minhas respostas?
M: Discriminação e desapego praticados agora renderão seus frutos na hora certa. Se as raízes estão saudáveis e bem regadas, os frutos certamente serão doces. Seja puro, esteja alerta, mantenha-se pronto.
P: As austeridades e penitências são de alguma utilidade?
M: Enfrentar todas as vicissitudes da vida já é penitência o bastante! Você não precisa inventar problemas. Receber com alegria o que a vida traz é tudo o que você precisa de austeridade.
P: E com relação ao sacrifício?
M: Compartilhe de bom grado e alegremente tudo o que você tem com quem precisa - não invente crueldades auto-infligidas.
P: O que é a auto-entrega?
M: Aceite o que vier.
P: Sinto que estou fraco demais para me apoiar em minhas próprias pernas. Preciso da companhia santa de um Guru e de pessoas boas. A equanimidade está além de mim. Aceitar o que vem como vem, me assusta. Penso no meu retorno aos Estados Unidos com horror.
M: Volte e faça o melhor uso de suas oportunidades. Obtenha o seu bacharelado primeiro. Você sempre pode voltar para a Índia para seus estudos de Cura Natural.
P: Eu estou completamente ciente das oportunidades nos Estados Unidos. É a solidão que me assusta.
M: Você tem sempre a companhia de seu próprio Ser - você não precisa se sentir sozinho. Apartado dele, mesmo na Índia você vai se sentir solitário. Toda a felicidade vem de agradar o Ser. Agrade-o, depois de retornar para os Estados Unidos, não faça nada que possa ser indigno da gloriosa realidade dentro do seu coração e você será feliz e permanecerá feliz. Mas você deve procurar o Ser e, tendo encontrado, deve ficar com ele.
P: A solidão é de algum benefício?
M: Depende do seu temperamento. Você pode trabalhar com os outros e para os outros de maneira alerta e amigavel e crescer mais plenamente do que em solidão, a qual pode torná-lo aborrecido ou deixá-lo à mercê das intermináveis conversas de sua mente. Não pense que você pode mudar através de tal esforço. Violência, mesmo se voltada contra si mesmo, como nas austeridades e penitências, permanecerá infrutífera.
P: Há alguma maneira de descobrir quem é realizado e quem não é?
M: A única prova está em você mesmo. Se você descobrir que transformou-se em ouro, será um sinal de que você tocou a pedra filosofal. Fique com a pessoa e veja o que acontece com você. Não pergunte aos outros. O homem deles pode não ser o seu Guru. O Guru pode ser universal em sua essência, mas não em suas expressões. Ele pode parecer ser bravo ou ganancioso ou ansioso demais em relação a seu Ashram ou sua família, e você pode ser enganado pelas aparências, enquanto os outros não são.
P: Não tenho o direito de esperar a perfeição total, tanto interna quanto externa?
M: Interna - sim. Mas a perfeição exterior depende das circunstâncias, do estado do corpo, do estado pessoal, social e outros inúmeros fatores.
P: Foi-me dito para encontrar um Jnani para que eu pudesse aprender com ele a arte de alcançar o Jnana e agora me é dito que toda essa abordagem é falsa, que eu não posso reconhecer um Jnani e nem pode o Jnana ser conquistado pelos meios adequados. É tudo tão confuso!
M: É tudo devido à sua completa incompreensão da realidade. Sua mente está mergulhada em hábitos de avaliação e aquisição e não vai admitir que o incomparável e inalcançável está
esperando eternamente dentro do seu coração para ser reconhecido. Tudo o que você tem a fazer é abandonar todas as memórias e expectativas. Apenas mantenha-se pronto em total nudez e nulidade.
P: Quem irá realizar o ato de abandonar?
M: Deus o fará. Apenas veja a necessidade de ser abandonado. Não resista, não se segure à pessoa que você se considera ser. Porque você imagina ser uma pessoa você considera o Jnani ser uma pessoa também, apenas um pouco diferente, mais bem informado e mais poderoso. Você pode dizer que ele é eternamente consciente e feliz, mas isso está longe de expressar toda a verdade. Não confie em definições e descrições - elas são grosseiramente enganosas.
P: Se não me é dito o que fazer e como fazê-lo, me sinto perdido.
M: De todo jeito, sinta-se perdido mesmo! Enquanto você se sente competente e confiante, a realidade está além de seu alcance. A menos que você aceite a aventura interior como um modo de vida, a descoberta não virá para você.
P: A descoberta do que?
M: Do centro de seu Ser, que é livre de todas as direções, de todos os meios e fins.
P: Ser tudo, saber tudo, ter tudo?
M: Ser nada, saber nada, não ter nada. Essa é a única vida que vale a pena viver, a única felicidade que vale a pena ter.
P: Posso admitir que o objetivo está além da minha compreensão. Deixe-me saber pelo menos o caminho.
M: Você deve encontrar seu próprio caminho. A menos que você o descubra por si mesmo ele não será o seu próprio caminho e levará você a lugar nenhum. Ardentemente viva a sua verdade, da maneira como você a encontrou - aja de acordo com o pouco que você entendeu. É a seriedade e a sinceridade que irão levá-lo do princípio ao fim, não a astúcia - a sua própria ou a de outra pessoa.
P: Tenho medo de cometer erros. Tantas coisas eu tentei - nada resultou delas.
M: Você deu muito pouco de si mesmo, você estava apenas curioso, não sério.
P: Eu não conheço nenhum jeito melhor.
M: Ao menos esse tanto você conhece. Saber que suas experiências são superficiais não dá valor a elas, esqueça-as assim que tiverem terminado. Viva uma vida limpa, abnegada, isso é tudo.
P: A moralidade é tão importante?
M: Não trair, não ferir - não é importante? Acima de tudo você precisa de paz interior - o que exige harmonia entre o interior e o exterior. Faça o que você acredita e acredite no que você faz. Tudo o mais é desperdício de energia e de tempo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Philokalia - Nikitas Stithatos - Sobre o Conhecimento Espiritual (parte3)



Primeiramente, devemos nos remover da materialidade viciosa incitada em nós pelos demônios – esse é o estágio de purificação; depois, através do estágio de iluminação, devemos tornar lúcidos nossos olhos espirituais sempre preenchidos de luz e isso é realizado por meio da sabedoria mística oculta em Deus. Dessa forma, ascendemos à cognição do conhecimento sagrado, o qual através da inteligência transmite coisas novas e velhas àqueles que têm ouvidos para ouvir. Então, de nossa parte, temos de passar adiante para os outros, imagens e indicações desse conhecimento, transferindo seu significado oculto para os purificados, guardando-o dos profanos, para que coisas sagradas não sejam dadas aos cães, ou que pérolas do Logos sejam jogadas para almas suínas que as sujarão. (Mat.7:6)



Quando você se tornar ciente de uma ardência crescente em sua fé interior e amor por Deus, deveria então saber que você está dando à luz o Cristo dentro de você mesmo, e que é Ele que exalta a sua alma acima das coisas terrestres e visíveis, preparando uma morada para ela nos céus. Quando você percebe que seu coração está repleto de alegria e pungentemente anseia pelas indizíveis bênçãos de Deus, deveria perceber que está sendo ativado pelo divino Espírito. E quando você sente que seu intelecto está repleto de luz inefável e de intelecções da Sabedoria celestial, deveria reconhecer que o Paráclitos (o Espírito Santo) está presente em sua alma, revelando os tesouros do reino dos céus ocultos em você. Você deveria guardar-se rigorosamente como um palácio de Deus e uma morada do Espírito.



Vigilância do tesouro oculto do Espírito consiste naquele estado de desapego dos assuntos humanos que apropriadamente é chamado de quietude. Quando, através da pureza do coração e compunção alegre essa quietude estimula um anseio ainda mais ardente pelo amor de Deus, ela liberta a alma das amarras dos sentidos impelindo-a a abraçar a vida da liberdade. Relembrada de seu estado natural, a alma reorienta seus poderes, restaurando-os à sua condição original. Desse modo é evidente que nada do mal que nos aflige, como resultado de nosso afastamento e lapso da imagem divina, pode ser imputado a Deus, o qual cria apenas o que é bom.



É a quietude, repleta de sabedoria e bênção, o que nos leva a este estado sagrado e divino de perfeição – isto é, quando ela é praticada e perseguida genuinamente. Se um aparente buscador ainda não atingiu essa elevação e perfeição, sua quietude ainda não é essa quietude noética e perfeita. De fato, até que ele tenha atingido essa elevação, ele não terá nem mesmo aquietado a turbulência interior das paixões anárquicas. Tudo o que ele terá é um corpo consistindo de tecidos, aberturas e cavidades e assolado por uma mente desordenada e iludida.



Almas que atingiram pureza total e alcançaram os cumes da sabedoria e do conhecimento espiritual, assemelham-se ao Querubim. Pela virtude de sua cognição imediata eles se aproximam da fonte de toda a beleza e bondade e dessa forma são iniciados direta e plenamente na visão das coisas secretas. Dentre os poderes espirituais é dito que apenas os Querubins são iluminados dessa maneira direta pela própria fonte da divindade, e, portanto, possuem essa visão no mais alto grau.



Dentre os mais elevados poderes angélicos, alguns são mais ardentes e perspicazes em sua devoção às realidades divinas ao redor das quais eles circulam incessantemente; outros são mais contemplativos, gnósticos e imbuídos de sabedoria, esse sendo o estado divino que os impele a circular incessantemente ao redor dessas realidades. Similarmente, almas angelicais são ardentes e perspicazes em sua devoção às realidades divinas, bem como sábias, gnósticas e exaltadas na contemplação mística. Potencialmente e de fato, elas também circulam ao redor das coisas divinas, firmemente enraizadas nelas apenas. Imutavelmente receptivas às iluminações divinas, e, portanto, participando Naquele que realmente é, elas também irrestritamente comunicam Seu esplendor e graça aos outros, através de seus ensinamentos.



Deus é o Intelecto e o agente ativador de tudo. Todos os intelectos têm sua morada permanente e sua mobilidade eterna nesse Intelecto primário. Tal é a experiência de todos aqueles cuja atividade não é adulterada pela materialidade e que são puros e sem mácula devido ao resultado de seus sagrados trabalhos ascéticos. Eles experimentam isso quando, ardendo com o amor divino, comunicam uns aos outros e a si mesmos a iluminação outorgada sobre eles pela Divindade, generosamente transmitindo aos outros a sabedoria dos mistérios de Deus escondida dentro deles, enaltecendo dessa maneira, o amor divino que os inspira.


As almas cuja inteligência foi libertada da preocupação material e nas quais os aspectos apetitivos e inflamatórios auto-guerreadores foram restaurados à harmonia e atrelados à bem governada carruagem celestial, tanto revolvem ao redor de Deus como permanecem fixamente paradas. Elas revolvem incessantemente ao redor de Deus como seu centro e causa de seu movimento circular. Elas permanecem firmes e constantes como pontos na circunferência do círculo, não podendo ser desviadas dessa posição fixa pelo mundo dos sentidos e pelas distrações dos assuntos humanos. Essa é, portanto, a consumação da quietude e é a isso a que a quietude conduz aquele que verdadeiramente a alcança, de modo que enquanto se movem estão parados e enquanto firmes e imóveis, movem-se ao redor das realidades divinas. Enquanto não experimentarmos isso podemos dizer que praticamos apenas uma quietude aparente e nosso intelecto não está livre da materialidade e da distração.



Quando através de grande diligência e esforço recobrarmos a beleza original da inteligência e através da presença residente do Espírito Santo participarmos na sabedoria e conhecimento celestiais, poderemos então perceber as coisas como elas são por natureza e a partir daí podemos reconhecer que a fonte e a causa de todas as coisas é ela mesma sábia e linda. Vemos que não podemos de maneira nenhuma responsabilizá-la pelo mal que destrói as coisas criadas quando elas se desviam para o que é baixo. Quando somos defletidos e arrastados para baixo, somos separados da beleza primal do Logos, temos assim confiscada nossa deificação, enquanto que o mal que nos invadiu nos desfigura em sua própria forma obtusa e imbecil.



Quando através da prática das virtudes alcançarmos um conhecimento espiritual das coisas criadas, atingiremos o primeiro estágio no caminho da deificação. Alcançamos o segundo estágio quando – iniciados através da contemplação das essências espirituais das coisas criadas – percebemos os mistérios ocultos de Deus. Atingimos o terceiro estágio quando somos unidos e misturados à luz primordial. É aí que chegamos ao objetivo de toda atividade ascética e contemplativa.



Por meio desses três estágios todos os intelectos são unidos, de um jeito que está de acordo com sua própria natureza, consigo mesmos e com Aquele que verdadeiramente é. Desse modo eles podem iluminar os intelectos seus semelhantes, iniciando-os nas realidades divinas, através da sabedoria celestial aperfeiçoando-os como espíritos já purificados, e unindo-os consigo mesmos e com o Um.



A deificação nesta vida presente é o rito espiritual e verdadeiramente sagrado no qual o Logos de sabedoria indescritível faz de Si mesmo uma oferenda sagrada e dá a Si mesmo, até onde é possível, para aqueles que se prepararam. Deus, como condiz com Sua bondade, tem outorgado essa deificação sobre seres adornados com inteligência para que eles possam alcançar a união da fé. Aqueles que como resultado de sua pureza e seu conhecimento das coisas divinas participam nessa dignidade são assimilados à Deus, 'conformados à imagem de Seu filho” (Rom.8:29) através de suas concentrações exaltadas e espirituais sobre o divino. Dessa forma eles se tornam como deuses para os outros homens na Terra. Esses outros por sua vez, aperfeiçoados na virtude pela purificação através de sua inteligência divina e através de relação direta com Deus, participam de acordo com sua capacidade e grau de sua purificação na mesma deificação que seus irmãos, e comungam com eles no Deus da unidade. Dessa maneira, todos eles, unificados na união do amor, são incessantemente unidos com o Deus um; e Deus, a fonte de todos os santos trabalhos e totalmente livre de qualquer acusação por causa de Seu trabalho da criação, reside no meio de deuses (Sal. 82:1), Deus por natureza, entre os deuses por adoção.


Você não pode ser assimilado por Deus e participar nas Suas bênçãos inefáveis – na medida do possível - a menos que primeiro, através de lágrimas ferventes e da prática dos sagrados mandamentos de Cristo, você estirpe a imundice e o desfiguramento interpostos do pecado. Se você quer saborear espiritualmente a doçura e o deleite das coisas espirituais você deve renunciar a todas as experiências sensoriais mundanas, e em sua aspiração pelas bênçãos armazenadas pelos santos, você deve devotar-se à contemplação da realidade interna dos seres criados.



A assimilação por Deus, conferida a nós através de purificação intensa e profundo amor por Deus, pode ser mantida apenas por uma incessante aspiração por Ele por parte do intelecto contemplativo. Tal aspiração é nascida dentro da alma através da quietude persistente produzida pela aquisição das virtudes, pela prece espiritual incessante e não distraída, por total auto-controle e pela leitura intensiva das Escrituras.


Devemos lutar não apenas para trazer os poderes da alma para um estado de paz, mas também para adquirir um anseio pela serenidade espiritual. Pois através do apaziguamento de nossos pensamentos cada aspiração pelo o que é bom é fortalecida, enquanto que o orvalho enviado do céu cura e reaviva o coração ferido pelo fogo celestial ateado pelo Espírito.



Uma vez que uma alma ferida profundamente pelo anseio divino experimentou o bálsamo dos dons noéticos de Deus, ela não pode permanecer estática ou fixada em si mesma, mas irá aspirar elevar-se cada vez mais na direção dos céus. Quanto mais alto eleva-se através do Espírito e quanto mais penetra nas profundezas de Deus, mais ela é consumida pelo fogo do desejo e explora em toda sua imensidão os mistérios ainda mais profundos de Deus, ansiosa para atingir a luz abençoada na qual cada intelecto é arrebatado para fora de si mesmo e onde – com seu objetivo alcançado – ela repousa em sincera alegria.



O Espirito é luz, vida e paz. Consequentemente, se você é iluminado pelo Espírito, sua própria vida é imbuída com paz e serenidade. Por causa disso você é preenchido com conhecimento espiritual dos seres criados e sabedoria do Logos; é garantido a você o intelecto de Cristo (1cor.2:16) e você vem a conhecer os mistérios do reino de Deus (Luc.8:10). Dessa forma você penetra nas profundezas do Divino e diariamente com um coração calmo e iluminado profere palavras de vida para o benefício dos outros; pois você próprio está cheio de bênçãos, uma vez que tem dentro de si a própria Bondade que pronuncia coisas novas e velhas. (Mat.13:52)



Deus é Sabedoria, e ao deificar através do conhecimento espiritual dos seres criados aqueles que vivem no Logos e na Sabedoria, Ele une-os a Si mesmo através da luz, tornando-os deuses por adoção. Sendo que Deus criou todas as coisas a partir do nada através da Sabedoria, Ele dirige e administra tudo o que está no mundo através da Sabedoria, e do mesmo modo, na Sabedoria traz a salvação de todos que se voltam na Sua direção e se aproximam Dele. Similarmente, aquele que através de sua pureza foi capacitado a participar na mais alta Sabedoria, sempre como uma imagem de Deus agindo na Sabedoria, e na Sabedoria levando a cabo a vontade divina. Afastando-se do que é externo e múltiplo, a cada dia ele eleva sua inteligência de maneira mística através do conhecimento das coisas indizíveis até uma vida que seja realmente angélica. Tendo unificado sua vida o tanto quanto possível, ele se une aos poderes angélicos que se movem de uma maneira unificada ao redor de Deus, sendo sob sua direção, elevado ao Princípio e à Causa primais.





Uma vez que você uniu-se através da Sabedoria superior com os poderes angélicos e dessa forma uniu-se com Deus através do amor da Sabedoria, você entra em comunhão com todos os homens, já que você atingiu a semelhança de Deus. Através do poder divino você separa aqueles que abandonaram seu apego ao que é externo e múltiplo, e como um imitador de Deus você os concentra em espírito, elevando-os, assim como você está elevado, a uma vida unificada através da sabedoria, do conhecimento espiritual e da iluminação dos mistérios divinos, até que eles venham a contemplar a glória da luz primordial única. Quando você os unifica com as essências e as ordens que circundam a Deus, você os induz – completamente irradiados pelo Espirito – para a própria a unidade de Deus.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

G. I. Gurdjieff - O Arauto do Bem que Virá


O primeiro livro publicado por G. I. Gurdjieff, seu primogênito, como ele o chamou. Uma peça chave para adentrar na estrutura profunda de seus outros escritos.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Hafiz - Não viemos aprisionar / Eu chovo / Por que apenas pedir para o asno




Não viemos aqui para aprisionar,
Mas sim para nos entregarmos cada vez mais profundamente
À liberdade e alegria.

Não viemos a este mundo extraordinário
Para nos mantermos reféns apartados do amor.

Corra, meu querido,
De tudo que possa não fortalecer
As preciosas asas que estão brotando em você!

Corra como louco, meu querido,
De qualquer pessoa disposta
A colocar uma faca afiada
Na visão sagrada e terna
De seu lindo coração!

Temos a tarefa de nos amigarmos
Daqueles aspectos da obediência
Que ficam fora de nossa casa
E gritam à nossa razão:
“Oh, por favor,
Venha brincar aqui fora.”

Pois não viemos aqui para aprisionar
Ou confinar nossos espíritos maravilhosos,

E sim, para experimentarmos cada vez mais profundamente
Nossa coragem, liberdade e Luz divinas.


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Eu chovo
Pois seus prados chamam
Por Deus.
Eu teço luz nas palavras para que
Quando sua mente as capture

Seus olhos abandonem sua tristeza,
Ficando brilhantes, cada vez mais brilhantes, fazendo conosco
Como a vela faz com o escuro.

Eu embrulhei minha risada como um presente de aniversário
E deixei-a ao lado de sua cama.

Eu plantei a sabedoria no meu coração
Perto de todos os postes de sinalização no céu.

Um homem rico
Frequentemente se torna excêntrico.

Uma alma divinamente enlouquecida
Transforma-se numa generosidade infinita.

Amarrando sacos de ouro de gratidão
Aos pés balançantes de luas, planetas,
Dervixes extáticos que pairam no ar e pássaros cantantes.

Eu falo
Porque cada célula no seu corpo
Está tentando se comunicar com Deus.

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Por que apenas pedir para o asno em mim
Falar com o asno em você,

Quando tenho internamente tantos outros
Animais lindos e pássaros coloridos brilhantes
Que estão todos desejando dizer algo maravilhoso
E estimulante para seu coração?

Vamos abrir todas as portas fechadas sobre nossos olhos
Que nos impedem de conhecer a Inteligência
Que gera o amor
E de termos uma conversa mais vívida e satisfatória
Com o Amigo.

Vamos soltar nossos falcões dourados
Para que eles possam se encontrar nos céus
Onde nossos espíritos pertencem -
Brincando como duas crianças felizes.

Vamos dar as mãos e nos embriagarmos perto do sol
E cantar doces canções para Deus
Até que Ele se junte a nós com algumas notas
De Seu alaúde e tambor sublimes.

Se vocês tiverem alguma idéia melhor
De como passar uma noite solitária,
Então falem, amores, falem,
Pois Hafiz e todo o mundo escutarão.

Por que trazer apenas seu asno para mim
Pedindo por feno mofado
E uma conferência entediante com um idiota
No que diz respeito a esse assunto precioso -
Um assunto tão precioso como o amor,

Quando tenho tantos outros animais divinos
e pássaros coloridos brilhantes dentro de mim
que estão desejando saudar você docemente!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Siddharameshwar Maharaj - Você é "Aquilo"

Mumbai, 26 de outubro de 1935



Parabrahman não é perceptível aos sentidos, mas existe. “Aquilo” que não é perceptível é Parabrahman. “Aquilo” é Real, é o que existe, mas não é visível. Se alguém diz que “Aquilo” não existe, mesmo essa pessoa que diz isso é ela mesma Parabrahman. Se há uma forma, esse corpo, esse formato pode ser conhecido, pode ser percebido e compreendido. Entretanto, o formato ou a forma do Ser, o Qual não é de modo algum formato ou forma, não é perceptível. A pessoa termina a inquirição dizendo que “Aquilo” não é conhecível, mas é sempre Um com ela. A tragédia é que você não admite “Sua” existência e que “Aquilo” existe como seu Ser apenas. O entendimento que “eu sou o Entendimento, eu sou Shiva, eu sou Shiva” (Shivoham, Shivoham) é percebido pelo olho da “Visão-Interior do Entendimento”, que é Shiva.


Entendimento é percepção. A terra está dando suporte a todas a criaturas. Ela é chamada de solo ou Bhoomi. Assim como todas as coisas que aparecem aos nossos sentidos estão no solo, nesta terra, também, tudo o que é visível é percebido na existência invisível de Parabrahman. É por causa “Disso” que tudo começa e termina. Não podemos ir a lugar nenhum além “Disso”. Tudo termina, é destruído, mas “Aquilo” que não pode terminar, permanece, e o que permanece é “Aquilo”. “Aquilo” é o mesmo em todas as situações. “Aquilo” que é indescritível e inimaginável. O que não pode ser capturado pela lógica e por conjecturas - é “Aquilo”. “Isso” de fato existe. Se alguém tentar falar “Aquilo se parece com tal coisa” ou “com aquela coisa”, suas afirmações serão falsas. Não é possível falar sobre “Aquilo”. Deixe qualquer pessoa colocar uma proposição de qualquer tipo sobre “Aquilo” e ainda assim, “Aquilo” não é capturado por essa proposição. Portanto, não importa o quê a pessoa fale, mesmo se ela for muito sábia, “Aquilo” não pode ser descrito. Dessa forma, você deveria se aproximar desse assunto de maneira muito sutil e com determinação. Você tem de nulificar a crença na realidade da existência corpórea e da suposta realidade da existência do universo aparente. Apenas então você entenderá “Aquilo”.


É dito que Brahman é “Todo-Permeador”, mas quando o “todo” não é real, como pode Brahman estar permeando-o? O que vemos não é real, então como pode ser permeado por Brahman? No sono profundo não há “nada” que seja percebido ou permeado. Quando você está desperto e está presente, o que você vê é o “visto”, é a forma. A forma é o que é visto. Dizer que é visto significa dizer que é conhecido ou percebido. Apenas assim dizemos: “Eu vejo isso”. Entretanto, o que quer que seja visto é visto pelos órgãos dos sentidos e os órgãos dos sentidos são conhecidos pelo intelecto, bem como pelo Conhecimento. Agora, por favor, preste bastante atenção. Quem vê o Conhecimento? O estado de “conhecer”, o “Conhecimento”, é ele mesmo visto, mas Aquele “que o vê” não pode ser descrito. "Aquele que vê” não pode ser descrito, ainda assim, referência é feita a “Ele”. Portanto, “ver” significa “conhecer”, “perceber”, e aquilo que é percebido, é percebido por, ou permeado por, Brahman. Apenas aquilo que é assim permeado é conhecido ou percebido. Enquanto aquilo que for conhecido estiver no estado de ser visto (visível), ele é permeado. Entretanto, quando as coisas aparentes desaparecem, o que há para ser permeado? “Ser permeado” por Brahman é apenas ser visto ou conhecido. O “Conhecer” termina e então não resta nada para ser permeado.


O leite e o creme estão juntos no leite. Quando o creme é separado, ele perece separado aos nossos sentidos. Ele é o ingrediente importante do leite. Ele torna-se separado se o separarmos, de outro modo ele é um com o leite. A extensão vazia e a qualidade de permear são termos falsos. Aquele que permanece depois que a imaginação desaparece, é o Ser. Ele não estiver no reino da imaginação. Quando os conceitos, a imaginação, a capacidade de mover, o movimento, a compreensão, a consciência, etc., forem vistos, apenas então nos tornaremos cientes dos princípios masculino e feminino (Purusha e Prakruti). Inerente neles estão os três Gunas, os cinco elementos, os estados de consciência e as várias circunstâncias e numerosas propriedades da matéria. “Aquilo” que está ciente de tudo isso é chamado “A Natureza da Existência. O Objetivo Principal, O Poder Além, O Poder do Conhecer, O Lampejo da Totalidade ou do Ser Cósmico, O Lampejo da Imensidão de Brahman ou O Deus Primordial”, etc. Aquela compreensão que surge desse nome e forma é a experiência simples e mais natural de “Ser” que o Purushottama sente, ainda assim, é o tipo de percepção direta que a imaginação não pode compreender.


O esforço espiritual mais puro e simples é escutar (Shravana), e em seguida vem “pensar”, que é superior a ele. Quando não há “conhecedor” seja como um ser, ou como a qualidade de compreensão, a mente é imergida em seu estado mais elevado. Onde o estado de esforço ou Sadhana termina, há “Conhecimento Espiritual” ou Vidnyana. A vida da pessoa é realizada quando o esforço espiritual culmina na “Façanha Final”. Aquilo que está além das qualidades (Gunas) é permanente, não se move, não é perturbado por nada. Não pode ser destruído, é o sólido mais impenetrável, é sem fim e nunca desaparece. Você é “Aquilo”. Essa compreensão garante que “Aquilo” nunca termine. Então o problema da Ilusão é resolvido, é como se ela não fosse vista de modo algum. A ilusão se vai. Por exemplo, no sonho um homem vê que ele é casado e tem mulher e filhos, mas quando ele desperta, onde estão eles? Onde ele irá procurá-los? Onde eles irão encontrá-lo? Quando o homem desperta, o sonho prova-se falso. A percepção das outras coisas estava acontecendo devido à ignorância e essa ignorância era o sonho. O sonho era aquela ignorância e essa era a vida mundana. O vasto céu estava sendo visto, a vasta terra estava lá, muitos homens estavam vivendo na face daquela terra e eles pareciam estar felizes. Muitas famílias estavam vivendo felizmente e minha própria pequena família estava entre elas. Entretanto, aquela família, um pequeno ponto, não estava lá na perspectiva da Consciência Espiritual, ou Ciência (Awareness). Todo aquele cenário era mostrado pela ignorância. A família geralmente não é entendida em sua “Realidade” por pessoa alguma. Aquele que conhece a realidade é muito raro, uma vez que o “Conhecedor” é Paramatman. Ao “Conhecer” a Realidade, você desperta. O sonho termina. O que isso significa? O que é o despertar? Significa que agora há o “Conhecimento da Realidade”. O Despertar é Conhecimento e Conhecimento significa que você está desperto.


Experimentar a vida mundana é em si mesmo experimentar a Ignorância. O homem pode estar desfrutando uma vida luxuriosa muito feliz, mas ele está mergulhado na Ignorância. Ou, por outro lado pode estar levando uma vida cheia de problemas e trabalho duro, mas ainda o que ele aprecia é a Ignorância. A vida mundana, não importa de que nível seja - é apenas Ignorância o que a pessoa está apreciando. A Ignorância apareceu, o que é evidente é a Ignorância. Então, vem uma mudança: o Conhecimento aparece e com isso vem o despertar. O homem desperta e diz: “Oh, que vida mundana era essa, agora tudo aquilo provou ser falso.” Quando a pessoa desperta ela ainda vê, mas tudo é indescritível, impronunciável.


Isso é para ser sentido suave e sutilmente pela discriminação (Viveka). A experiência do despertar deve reconhecer seus próprios sinais, sua própria natureza. O livro “Dasbodh”* foi completado pela “palavra do Ser”. Aquele que medita em Paramatman, conhece esse “Livro da Vida”.




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“Quando o conhecimento objetivo (dos objetos) chega ao fim, o observador não sobrevive como aquele que vê. Nesse momento, o orgulho do “eu” (ego) é derretido". (Dasbodh, Capítulo 6, Verso 16)



Aquele que vê permanece somente enquanto os objetos são vistos como reais. O ego é conceitual e também é o observador. Se você chama esta cidade de 'Mumbai', então ela aparece como Mumbai; se você a chama de Terra, ela irá parecer como Terra. Tudo depende do conceito de quem está vendo. Se você chama uma coisa de 'uma cadeira', ela é percebida como uma cadeira; se você chamá-la de madeira, ela é percebida como madeira. Se você chamar tudo de Brahman, então tudo é percebido como Brahman. Se você chamar isso de mundo, será percebido como o mundo. A percepção dos objetos depende do conceito de quem está vendo. Mas Brahman está além do conceito. Não pode ser capturado por nenhum conceito.


Há uma mulher que um homem chama de “esposa”, o outro a chama de sua “irmã” e um terceiro chama de sua “filha”. Na verdade ela não é nada além de um pedaço de carne e ossos. O que quer que você diga, acontece. Tudo é conceitual e depende do conceito de quem vê (o vedor). O mundo e o ser são conceituais. O “vedor” que chama a manifestação (o mundo) de verdade, é o “ego”. Esse ego tem de ser erradicado. Se o “ego” se esvai, então apenas Brahman permanece.

O rei Dhrutarashtra do Mahabharata era cego. Ele deu nascimento a uma centena de Kauravas (descendentes) e se orgulhou deles. De fato, aquele que toma posse do corpo como sendo ele mesmo é o cego Dhrutarashtra. Ele também é aquele chamado de Ravana no Ramayana. Todos os objetos são demônios e porque você dá a eles esse status, você é rei deles, Ravana. Ravana não é o rei legítimo, ele não é o Senhor. Porque você considera os objetos serem verdadeiros, você se torna Ravana. Você tem de livrar-se desse Ravana. “Eu” não existe. Livrar-se do “eu” pode ser chamado de morte desejada. No Ramayana, é dito que Ravana era um grande devoto do senhor Shiva e a pedido de Ravana, Shiva deu a ele a dádiva da morte desejada. Esse Ravana governa as quatorze regências, isto é, os quatorze sentidos: cinco de conhecimento e cinco de ação, a mente, o intelecto, a consciência e o ego. Quando os Deuses começam a governar a Terra, os demônios vão para o mundo inferior e quando os demônios governam a Terra, os Deuses se retiram para realizar penitência. Se os objetos são tomados como verdadeiros, significa que os demônios estão governando e Deus está ausente. Não há traço Dele. Mas quando os Deuses tornam-se vitoriosos, ou seja, quando a convicção de que todos os objetos são falsos torna-se firme, então o demônio “eu” também desaparece. Quando o ego é destruído, então tudo é Brahman. A comida, o banco de madeira no qual ele senta para se alimentar, a esposa e a água são todos manifestações de Brahman. Todos são Brahman. Você deveria estudar e praticar isso. Então será o governo de Deus. Brahman é sem atributos: não é cor, não é música, não é amarelo ou preto, etc. O ghee que é líquido e o ghee sólido é o mesmo, assim como a água é o mesmo que o gelo. Quando uma semente encontra a terra, há uma eminência de consciência.


Tudo o que você vê ou percebe não é nada além da Realidade (Brahman). Há apenas consciência qualificada assim como braceletes e braçadeiras são ambos feitos de ouro.Você deveria parar de insistir em que apenas o bem deveria acontecer com este corpo. Você concebe que se tornou o corpo grosseiro porque apenas um corpo é objeto de seu conceito. Os servos e os atendentes deveriam ser considerados como sendo Deus. Não há nenhum outro Brahman. “Com ou sem atributos, tudo é Govinda (Deus).” É porque categorizamos os objetos que há Jiva (ego). Você percebe esposa, filha, cavalo ou cachorro como separados. Todos eles não são nada além de Krishna. Não precisamos mudar a forma dos objetos. Apenas a atitude daquele que vê, deve mudar. Brahman é o mesmo até quando está num estado com atributos. Você deveria ver Brahman em qualquer estado que Ele exista. Mesmo os átomos e as moléculas de uma cadeira são todos o Senhor Krishna. Uma vez que essa atitude é adotada pela pessoa, ela mesma torna-se Brahman. Mesmo que ela durma, acorde ou coma, ela nunca comeu uma refeição. Quando tudo é Brahman, quem está comendo e dormindo? Aquele que é sem qualidades e aquele que fala, ou seja, com qualidades - são ambos Deus. Esteja um rei sentado num trono ou numa caçada, ele é sempre rei. Aquele que é animado é o ídolo da consciência. A pessoa é uma devota quando ela dá nomes diferentes a diferentes objetos e a si mesma. A pessoa é um Sadhu (santo) ou Paramatman, quando olha para toda a criação como sendo Brahman. Esquecer Brahman e comer comida é apenas transformá-la em fezes. Os bichos da seda são melhores do que aqueles que esquecem Brahman, pois a seda de seus casulos é usada por sacerdotes enquanto eles adoram a Deus.


Aqueles que desejam o inferno podem digerir o inferno. Os Deuses e os demônios estão bem aqui. Juntos eles bateram o oceano do mundo e obtiveram néctar e vinho. O Senhor Vishnu deu néctar aos Deuses e vinho aos demônios. 'Vishnu fez isso' significa que a consciência interna do sentido fez isso. O néctar e o vinho estão bem aqui. Está em nossas próprias mãos beber o néctar e nos tornarmos imortais. Aquele que 'despertar' atingirá a Realidade. Tudo é Deus. Que todos sejam felizes. Se você praticar isso e levar isso ao coração, então tudo será Brahman. Temos que regar uma planta até que ela crie raiz, depois ela cresce por si mesma. Você deveria persistir na sua prática até que atinja Brahman.




*Livro do Mestre Perfeito - Shri Samartha Ramdas Maharaj (séc. XVII)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Jalaluddin Rumi - O Ser jamais deveria ser esquecido





Há uma coisa neste mundo que nunca deveria ser esquecida. Se você se esquecesse de tudo o mais mas não se esquecesse disso, não teria nenhum motivo para se preocupar. Mas se você executou e lembrou de tudo mas se esqueceu dessa única coisa, é como se você não tivesse feito nada.
É como se um rei lhe mandasse para o país para realizar uma tarefa específica. Se você vai, realiza uma centena de outras tarefas mas não executa aquela tarefa particular, então é como se você não tivesse feito absolutamente nada. Dessa forma, todos vêm a este mundo para uma tarefa específica, e ela é o seu propósito. Se não realizarem essa tarefa, então eles não terão feito nada.
A todas as coisas uma tarefa é atribuída. Os céus enviam chuva e luz para as ervas do campo germinarem e brotarem para a vida. A Terra recebe as sementes e dá frutos, ela aceita e revela centenas de milhares de maravilhas, numerosas demais para que se possa falar a respeito. As montanhas provêm minas de ouro e prata. Todas essas coisas, os céus, a terra e as montanhas, fazem, mas eles não realizam aquela única coisa, aquela tarefa particular que é realizada por nós.



"Oferecemos a Confiança aos céus,
À terra e às montanhas,
Eles se recusaram a sustentá-la e ficaram com medo dela,
Mas os homens carregaram-na.
Certamente eles são tolos e pecadores."




Desse modo, as pessoas recebem uma tarefa e quando ela é realizada todos os seus pecados e suas idiotices são dissolvidos.
Você diz: "Olhe para todo o trabalho que eu realizei, mesmo não tendo executado aquela tarefa." Você não foi criado para essas outras tarefas! É como se lhe fosse dada uma espada de aço indiano de valor inestimável, tal como só se pode encontrar nos tesouros dos reis e você a tratasse como uma faca de açougueiro usada para cortar carne decomposta, dizendo: "Eu não estou deixando esta espada ficar ociosa, faço uso dela de muitas maneiras úteis." Ou seja, é como pegar uma taça de ouro maciço para cozinhar nabos, quando um único grão daquele ouro poderia comprar uma centena de panelas. Ou é como se você pegasse uma adaga feita em Damasco, da melhor qualidade, para pendurar uma cabaça quebrada, dizendo: "Eu estou fazendo um bom uso dela. Estou pendurando uma cabaça nela. Eu não estou deixando esta adaga ir para o lixo." Que tolo isso seria! A cabaça pode perfeitamente ser pendurada com um prego de madeira ou de ferro de valor insignificante; por que usar uma adaga que vale cem libras?
Um poeta disse uma vez:



Você é mais precioso do que o céu e a terra.
O que mais posso dizer?
Você não sabe seu próprio valor.



Deus diz: "Eu vou comprar você ... seus momentos, suas respirações, seus bens, suas vidas. Gastá-los Comigo. Vou transferí-los para Mim e seu preço é a liberdade divina, a graça e a sabedoria. Esse é o seu valor aos Meus olhos." Mas se mantivermos nossa vida para nós mesmos, perderemos os tesouros que foram concedidos. Como a pessoa que martelou a adaga de cem libras na parede para pendurar uma cabaça, a sua grande fortuna foi reduzida a um prego.
Ainda assim, você oferece uma outra desculpa dizendo: "Mas eu me aplico à tarefas nobres. Eu estudo as leis, filosofia, lógica, astronomia, medicina e tudo mais."
Bem, para quem, além de você mesmo, você estuda isso? Se são as leis, é para que ninguém possa roubar-lhe o pão, tirar-lhe as roupas ou matá-lo, em suma, é para sua própria segurança. Se for astronomia, as fases das esferas e sua influência sobre a Terra, sejam elas leves ou pesadas, trazendo tranquilidade ou situações de perigo, todas essas coisas dizem respeito à sua própria situação, servindo a seus fins. Se for medicina, é relacionado com a sua própria saúde e também serve a você. Quando considera bem este assunto, percebe que a raiz de todos os seus estudos é você mesmo. Todas essas tarefas elevadas são apenas ramos de você.
Se esses assuntos estão repletos de tantas maravilhas e mundos de conhecimento sem fim, considere por quais mundos você, que é a raiz, passa!
Se seus ramos têm suas leis, seus remédios, suas histórias, pense sobre o que transparece dentro de você que é a fonte, que leis espirituais e medicamentos afetam o seu futuro e destino interiores e que histórias retratam suas lutas do coração!
Para a Alma existe outro alimento além deste alimento do dormir e do comer, mas você se esqueceu desse outro alimento. Noite e dia você só nutre o seu corpo. Agora, este corpo é como um cavalo, e este mundo inferior é seu estábulo. O alimento que o cavalo come não é o alimento do cavaleiro. Você é o cavaleiro e tem seu próprio alimento e descanso, seu próprio prazer. Mas, uma vez que o animal tem o controle, você fica para trás, no estábulo do cavalo. Você não pode ser encontrado entre as classes de reis e príncipes do mundo eterno. Seu coração está lá, mas sendo seu corpo, o que tem o controle, você está sujeito à suas regras e permanece seu prisioneiro.
Quando Majnun, como conta a história, seguia para a casa de sua amada Laila, enquanto ele estava plenamente consciente, dirigia seu camelo naquela direção desejada. Porém, quando por um momento ele ficou absorvido em pensamentos sobre Laila e esqueceu de seu camelo, o camelo virou-se na direção do vilarejo onde sua cria estava. Quando voltou a si, Majnun descobriu que tinha voltado para trás uma distância de dois dias de viagem. Durante três meses ele continuou dessa forma, sem chegar perto de seu objetivo. Finalmente, ele saltou do camelo dizendo: "Este camelo é minha ruína!" E continuou a pé, cantando:



O desejo de meu camelo ficou para trás agora,
Meu próprio desejo está a frente.
Nossos propósitos se cruzaram,
Não podemos mais concordar.



Certa vez, Burhan al-Din foi saudado por alguém, que disse: "Eu tenho ouvido elogios de você proferidos por amigos." Burhan al-Din respondeu: "Espere até que eu encontre seus amigos para ver se eles me conhecem bem o suficiente para me elogiar. Se eles me conhecem só através do boca a boca, então não me conhecem verdadeiramente. Pois as palavras não duram. As sílabas e os sons não resistem. Este corpo, estes lábios e esta boca não vão resistir. Todas essas coisas são meros acidentes do momento. Mas se eles me conhecem pelas minhas obras e conhecem o meu Ser essencial, então eu sei que eles serão capazes de me elogiar e esse elogio irá para onde ele pertence."
Essa é como a história que se conta de um rei. Esse rei confiou seu filho a uma equipe de sábios acadêmicos. No devido tempo, eles lhe ensinaram as ciências da astrologia, geomancia e da interpretação de sinais, até que ele se tornou um mestre completo, apesar de sua absoluta estupidez e falta de sagacidade.
Um dia o rei segurou um anel em sua mão e fez um teste com seu filho: "Vamos, diga-me o que eu estou segurando em minha mão." "O que você está segurando é redondo, amarelo, tem algo inscrito e é oco", respondeu o príncipe. "Você deu todos os sinais corretamente", disse o rei. "Agora diga o que é." "Deve ser uma peneira." Respondeu o príncipe. "O quê?", clamou o rei. "Você sabe todos os detalhes minuciosos, que confundiriam a cabeça de qualquer um. Como é que com toda sua aprendizagem e conhecimentos poderosos, foi escapar de você o simples fato de que uma peneira não caberia em um punho?"

Dessa mesma forma, os grandes estudiosos das eras procuraram detalhes minuciosos e insignificantes sobre todas as questões. Eles conhecem perfeita e completamente aquelas ciências que não dizem respeito à Alma. Mas quanto ao que é verdadeiramente importante e nos diz respeito mais intimamente do que qualquer outra coisa, ou seja, nosso próprio Ser, isso seus grandes estudiosos não conhecem. Eles fazem declarações sobre tudo dizendo: "Isto é verdadeiro e aquilo não é falso. Isso está certo e aquilo está errado." No entanto, eles não conhecem o seu próprio Ser; se é verdadeiro ou falso, se é puro ou impuro. Ora, sendo oco e amarelo, inscrito e circular, esses traços são acidentais; jogue o anel no fogo e nenhum deles permanecerá. Ele se torna o seu Ser essencial, purificado de todas as aparências. Assim é com o conhecimento dos acadêmicos, o que eles sabem não tem nenhuma conexão com a realidade essencial que só existe quando todos esses “sinais” se vão. Eles falam com sabedoria, fazem longas exposições e, finalmente, anunciam que o que o rei tem na mão é uma peneira. Eles não têm conhecimento sobre a raiz da questão: o objetivo da vida.

Eu sou um pássaro. Sou um rouxinol. Se eles me dizem: "Faça algum outro tipo de som," Eu não posso. Minha língua é o que é. Eu não posso falar de outro modo. No entanto, aqueles que aprendem o canto dos pássaros não são os próprios pássaros, pelo contrário, eles são os inimigos dos pássaros e quem os captura. Eles cantam e assobiam para que os outros os considerem como sendo aves. Peça-lhes para produzir um som diferente e eles podem fazê-lo, porque o som é apenas assumido por eles. Não é próprio deles verdadeiramente. Como os estudiosos, eles são capazes de cantar outras canções, porque aprenderam a roubar essas canções e mostrar uma música diferente roubada de cada peito.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

P. D. Ouspensky - As primeiras tentativas de lembrança de Si e a divisão da atenção



Tudo que Gurdjieff disse, tudo o que eu mesmo pensei e, especialmente, tudo o que minhas tentativas de lembrança de si tinham me mostrado, muito em breve me convenceram que eu estava diante de um problema inteiramente novo com o qual a ciência e a filosofia não tinham se deparado até agora. Mas antes de fazer deduções, vou tentar descrever as minhas tentativas de lembrar de mim. A primeira impressão foi que as tentativas de me lembrar ou de ter consciência de mim mesmo, de dizer para mim mesmo: 'eu estou andando', 'eu estou fazendo' e continuamente sentir esse eu - paravam os pensamentos. Quando eu estava sentindo a mim mesmo, eu não podia pensar nem falar, mesmo as sensações se ofuscavam. Além disso, só era possível lembrar de si dessa forma por um tempo muito curto. Eu já tinha feito anteriormente algumas experiências em parar os pensamentos, que são mencionadas nos livros sobre práticas de Yoga. Por exemplo, há uma descrição desse tipo no livro de Edward Carpenter, 'Do pico de Adão à Elefanta', embora seja de uma forma muito geral. E minhas primeiras tentativas de lembrar de mim mesmo me recordaram exatamente aquelas minhas primeiras experiências. Na verdade, foi quase a mesma coisa, com a diferença que ao parar os pensamentos, a atenção é inteiramente direcionada para o esforço de não admitir pensamentos, enquanto que na lembrança de si a atenção se divide, uma parte é direcionada para o mesmo esforço e a outra parte para o sentimento de si (do Self). Essa última realização permitiu-me chegar a uma certa definição, possivelmente muito incompleta, da "lembrança de si", que, no entanto, provou ser muito útil na prática. Estou falando da divisão da atenção, que é o traço característico da lembrança de si. Eu representava isso para mim da seguinte forma: Quando eu observo algo, a minha atenção é dirigida para o que eu observo, uma linha com uma seta:

.


Eu ----------------> o fenômeno observado.


.

Quando ao mesmo tempo, eu tento lembrar de mim mesmo, a minha atenção é direcionada tanto para o objeto observado quanto para mim mesmo. Uma segunda seta aparece na linha: .

Eu <---------------> o fenômeno observado.


.

Tendo definido isso, eu vi que o problema consistia em direcionar a atenção sobre si mesmo sem comprometer ou obliterar a atenção direcionada para outra coisa. Além disso, essa "outra coisa" poderia tanto estar dentro de mim como fora de mim. As primeiras tentativas de uma tal divisão de atenção me mostraram a sua possibilidade. Ao mesmo tempo, vi duas coisas claramente: Em primeiro lugar vi que a lembrança de si resultante desse método não tinha nada em comum com o "sentir-se", ou com "auto-análise." Era um estado novo e muito interessante, com um gosto estranhamente familiar. E em segundo lugar, percebi que os momentos de lembrança de si, ainda que raramente, podem ocorrer na vida. Apenas a produção intencional desses momentos criava a sensação de novidade. Na verdade eles tinham sido familiares a mim desde a infância. Eles vinham em ambientes novos e inesperados, em um lugar novo, entre pessoas novas durante uma viagem, quando, por exemplo, olhamos de repente ao nosso redor e dizemos: 'Que estranho! Eu e neste lugar', ou em momentos de grande emoção, em momentos de perigo, nos momentos em que é necessário se controlar para não perder a cabeça, quando ouvimos a nossa própria voz e nos vemos e nos observamos de fora. Eu vi muito claramente que minhas primeiras recordações da vida, que no meu caso eram bem prematuras, foram momentos de lembrança de si. Essa última realização revelou muito mais para mim. Ou seja, eu vi que eu só me lembrava realmente desses momentos do passado quando havia lembrado de mim mesmo. Dos outros eu só sabia que haviam ocorrido. Eu não sou capaz de revivê-los inteiramente, de experimentá-los novamente. Mas os momentos em que eu tinha lembrado de mim mesmo estavam vivos e não eram de maneira alguma diferentes do presente. Eu ainda estava receoso de chegar a conclusões. Mas já via que eu estava diante de uma descoberta muito grande. Sempre fiquei espantado com a fraqueza e a insuficiência de nossa memória. Tantas coisas desaparecem. Por algum motivo ou outro o principal absurdo da vida para mim consistia nisso. Por que experimentar tanta coisa para esquecê-las depois? Além disso, havia algo de degradante nisso. Um homem sente algo que lhe parece muito grande, muito importante, ele acha que nunca vai esquecê-lo; um ou dois anos passam e não resta mais nada daquilo. Agora ficava claro para mim porque isso era assim e porque não poderia ser diferente. Se nossa memória realmente mantém vivos apenas os momentos de lembrança de si, fica claro porque ela é tão pobre. Todas essas foram as percepções dos primeiros dias. Mais tarde, quando comecei a aprender a dividir a atenção, vi que a lembrança de si dava sensações maravilhosas que, de uma forma natural, isto é, por si só, vêm a nós só muito raramente e em condições excepcionais. Desse modo, por exemplo, naquele tempo eu costumava gostar muito de passear por São Petersburgo durante a noite e "sentir" as casas e as ruas. São Petersburgo está repleta dessas sensações estranhas. As casas, especialmente as antigas, eram muito vivas, eu não cessava de falar com elas. Não havia nenhuma "imaginação" nisso. Eu não pensava em nada, eu simplesmente caminhava enquanto tentava lembrar de mim e olhava à minha volta, as sensações vinham por si mesmas. Mais tarde vim a descobrir muitas coisas inesperadas da mesma maneira. Mas vou falar sobre isso mais adiante. Às vezes a lembrança de si não era bem sucedida, em outros momentos era acompanhada por observações curiosas.

Certa vez eu estava andando na rua Liteiny na direção da Nevsky, e apesar de todos os meus esforços eu não conseguia manter minha atenção na lembrança de si. O barulho, o movimento, tudo me distraía. A cada minuto eu perdia o fio da atenção, encontrava-o novamente e depois perdia novamente. Finalmente senti uma espécie de irritação ridícula comigo mesmo e virei para a rua à esquerda tendo firmemente decidido manter minha atenção sobre o fato de que eu me lembraria de mim mesmo pelo menos por algum tempo, pelo menos até que eu chegasse à rua seguinte. Cheguei à Nadejdinskaya sem perder o fio da atenção, exceto talvez por breves momentos. Então, eu novamente voltei para a Nevsky percebendo que, em ruas tranquilas, era mais fácil para mim não perder a linha de pensamento, e desejando, desse modo, testar-me nas ruas mais ruidosas. Cheguei à Nevsky ainda me lembrando de mim mesmo, e já estava começando a experimentar o estranho estado emocional de paz interior e confiança que vem depois de grandes esforços desse tipo. Ao virar a esquina na Nevsky havia uma tabacaria onde faziam meus cigarros. Ainda lembrando de mim mesmo pensei em tocar lá e encomendar alguns. Duas horas depois eu acordei na Tavricheskaya, ou seja, muito longe. Eu estava indo de trenó para a gráfica. A sensação de despertar foi extraordinariamente vívida. Posso quase dizer que tinha voltado a mim. Lembrei-me de tudo de imediato. Como eu vinha andando na Nadejdinskaya, como eu tinha lembrado de mim mesmo, como eu havia pensado sobre os cigarros e como durante esse pensamento pareceu-me de repente cair e desaparecer num sono profundo. Ao mesmo tempo, enquanto imerso nesse sono, eu tinha continuado a realizar ações coerentes e convenientes. Saí da tabacaria, telefonei para meu apartamento na Liteiny e depois para a gráfica. Escrevi duas cartas. Então outra vez saí de casa. Andei no lado esquerdo da Nevsky até o Dvor Gostinoy com a intenção de ir para a Offitzerskaya. Então mudei de idéia, pois estava ficando tarde. Eu tinha tomado um trenó e estava seguindo para Kavalergardskaya até a gráfica. E no caminho enquanto seguia pela Tavricheskaya eu comecei a sentir um desconforto estranho, como se eu tivesse esquecido de algo. E de repente, eu lembrei que tinha esquecido de lembrar de mim mesmo.

Falei de minhas observações e deduções para as pessoas no nosso grupo, bem como para vários de meus amigos do círculo literário e outros. Eu lhes disse que este era o centro de gravidade de todo o sistema e de todo o trabalho sobre si mesmo, que agora o trabalho sobre si mesmo não era apenas palavras vazias, mas um fato real cheio de significado, graças ao qual a psicologia se tornara uma ciência exata e ao mesmo tempo prática. Eu disse que a psicologia européia e ocidental, em geral, havia ignorado um fato de enorme importância, ou seja, que não nos lembramos de nós mesmos, que vivemos, agimos e raciocinamos num profundo sono, não metaforicamente, mas na realidade absoluta. E também que, ao mesmo tempo, podemos nos lembrar de nós se fizermos esforços suficientes, que podemos despertar. Fiquei impressionado com a diferença entre a compreensão das pessoas que pertenciam ao nosso grupo e das pessoas fora dele. As pessoas que pertenciam ao nosso grupo entendiam, embora não todos de uma vez, que havíamos entrado em contato com um "milagre", e que era algo "novo", algo que nunca existiu em nenhum lugar antes. As outras pessoas não entendiam isso, elas consideravam tudo de maneira muito leve e, às vezes até começavam a me provar que essas teorias tinham existido antes. A. L. Volinsky, que eu encontrava muitas vezes, com quem eu tinha falado muito desde 1909 e cujas opiniões eu valorizava muito, não achou na idéia da "lembrança de si" nada que não tivesse conhecido antes. "Isso é uma apercepção". Ele me disse: "Você já leu a Lógica de Wundt? Você vai encontrar lá sua mais recente definição de apercepção. É exatamente a mesma coisa que você fala. 'Simples observação', é percepção. Observação com a 'lembrança de si ', como você chama, é apercepção. Claro que Wundt sabia disso." Eu não queria discutir com Volinsky. Eu tinha lido Wundt. E é claro que o que Wundt havia escrito não era nada daquilo que eu tinha dito para Volinsky. Wundt havia chegado perto dessa idéia, mas outros tinham chegado igualmente perto e depois tinham ido em uma direção diferente. Ele não tinha visto a magnitude da idéia que estava escondida por trás de seus pensamentos sobre as diferentes formas de percepção. E não tendo visto a magnitude da idéia ele naturalmente não podia ver a posição central que a idéia da ausência de consciência e a idéia da possibilidade da criação voluntária dessa consciência deveria ocupar em nosso pensamento. Apenas pareceu-me estranho que Volinsky não pôde ver isso mesmo quando apontei para ele. Depois, eu me convenci de que essa idéia estava escondida por um véu impenetrável para muitas pessoas de outra maneira muito inteligentes, e ainda mais tarde, vi porque isso era assim.