sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Phiokalia - São Gregório do Sinai (séc. XIII)

Os Discursos são proferidos a todos os seres sencientes para serem usados, e assim como o valor derivado de diferentes tipos de alimentos varia, o mesmo acontece com o lucro do discurso à alma e à satisfação dele derivada. A palavra de um ensinamento atua como um professor que molda a disposição da alma e as palavras derivadas da leitura são como 'águas tranquilas', que alimentam-na; a palavra que vem da prática é como as "verdes pastagens"(salmo 23-2,5), tornando-a mais fértil; a palavra da graça é como uma taça que transbordou matando a sede da alma e tornando-a feliz e a alegria indescritível da graça é como "fazer o rosto brilhar com o óleo"(salmo 104-15), que alegra o coração e preenche-o de luz.

Na verdade, a alma não só contém-no em si mesma como a própria vida, mas quando ela escuta este tipo de ensinamento de outros, entende imediatamente, uma vez que ambos são guiados pelo amor e pela fé - quando um escuta com fé e o outro ensina com amor, falando das virtudes, sem arrogância ou vaidade. Então, a alma aceita a palavra do ensinamento como um professor, a palavra da leitura como um nutridor, a palavra derivada da prática (a palavra mais íntima), como o mais belo adorno da noiva, a palavra iluminadora do Espírito como a palavra do noivo, unindo-se à noiva e fazendo-a feliz. Cada palavra, proveniente dos lábios de Deus, ou é uma palavra da boca dos santos tornada ativa pelo Espírito, ou a mais deleitável inspiração do Espírito que não todos, mas apenas alguns, são dados a desfrutar. Pois, embora todos os seres inteligentes desfrutem das palavras, há muito poucos neste mundo que se alegram com as palavras do Espírito. A maior parte sabe apenas pela memória as diversas formas de palavras espirituais; eles só podem participar das mesmas dessa forma, uma vez que não podem ainda apreender diretamente a Palavra de Deus, aquele verdadeiro pão da vida por vir. Pois, apenas lá esse pão é oferecido em abundância para aqueles que são dignos de todo o tipo de apreciamento, pois nunca é consumido, gasto e nem roubado.

Se um homem não tem sensibilidade espiritual, seus sentidos não podem saborear a doçura das coisas divinas. Pois, assim como um homem cujos sentidos estão apagados não pode perceber as coisas sensoriais, não vê, não escuta, não sente cheiro, sendo bastante fraco ou semi-morto; um homem, que através de paixões tem mortificado os poderes naturais de sua alma, torna-os insensíveis para a ação dos, e a comunhão com, os mistérios do Espírito. Pois aquele que é espiritualmente cego, surdo e insensível, está morto no Espírito, uma vez que Cristo não habita nele e ele próprio não age e se desloca em Cristo.

Igualmente aos poderes da alma, esses sentidos têm uma semelhante, se não idêntica ação, especialmente quando são saudáveis. Então os sentidos vêem as coisas sensoriais claramente, ao passo que os poderes da alma discernem coisas mentais, especialmente quando eles estão livres das investidas de Satanás, o qual declara guerra contra a lei mental e espiritual. Mas quando eles são transformados em um pelo Espírito, e têm apenas uma perspectiva, então sabem direta e essencialmente o que é divino e o que é humano, claramente discernindo a sua natureza e seu significado, e vêem, tão claro quanto possível, a única causa de tudo - a Trindade.

Sri Nisargadatta Maharaj - "I-am-ness" ...

Estou te perguntando: sem o corpo, como passar o tempo? Para um sábio, é esse princípio que é anterior ao corpo, atemporal. Como ele passou o tempo quando o corpo não estava lá? Isto é, quando a consciência não estava lá, quantos anos se passaram sem o conhecimento da existência? É um estado atemporal. Apenas quando você testemunha, existe o tempo. O tempo e a consciência aparecem juntos. Sem consciência não existe tempo. E não existe consciência antes do corpo.
Para a paz eterna você deve residir no seu próprio Ser. Conheça como esse toque de 'eu sou' apareceu. Todos os outros conhecimentos são inúteis.
Eu estou tentando dizer: abandone todo esse lixo, o que quer que esteja estudando em nome da religião, em nome da espiritualidade. Entenda apenas uma coisa: Aquele princípio divino está lá – aquele 'sentido de que eu sou” (I-am-ness) ou consciência – esse é o mais divino de todos os princípios. Ele está lá enquanto a respiração vital está lá. A respiração vital tem cinco aspectos e é chamada panchaprana. É a força motriz de todas as atividades. Quando a força vital de cinco aspectos está lá, então, apenas assim, essa qualidade do sentido de ser (beingness) está lá, que é chamada Guna. Esse sentido de ser (beingness) no momento é sua natureza – você é isso apenas. Portanto, adore esse princípio. Essa qualidade, esse toque de 'eu-sou-ência' (I-am-ness) ou consciência, é algo como a doçura da cana de açúcar.
A cana de açúcar está lá, o caldo está lá, e a doçura é o final. Similarmente neste caso, a coisa final, é aquela qualidade, aquele toque de sentido de ser – aquele é o princípio Ishwara (Deus). Você é isso, resida ali e adore isso apenas. Então, apenas assim você irá alcançar e residir na paz eterna e não ao discutir nenhum outro preceito relacionado à espiritualidade.
Uma pessoa teve um bebê, o bebê foi entregue para a mãe. Infelizmente, a força vital havia abandonado o corpo, a criança estava morta e o corpo foi levado. A pergunta agora é: o que exatamente abandonou o corpo? A respiração vital. Mas suponha que a respiração vital estivesse lá; então o toque do sentido de 'eu sou' (I-am-ness) teria estado presente na criança; e aquela consciência teria estado lá. Os pais teriam acariciado aquele corpo, um bebê vivo. Mas como a respiração vital tinha ido, aquela vida se foi, o sentido de ser (Beingness) não estava mais lá. Portanto era só um corpo morto.
Onde há respiração vital, o conhecimento 'eu sou' está presente. Não havendo a respiração vital, o conhecimento do 'sentido de eu-sou' (I am ness) está ausente. Tome vantagem total deste capital naturalmente disponível a você, isto é, a sua força da vida e o conhecimento 'eu sou'; eles sempre vão de mãos dadas. Agora mesmo, explore isso no seu máximo. Todas as atividades do mundo estão acontecendo apenas por causa do conhecimento 'eu sou' junto com a força motriz, que é a força da vida, a respiração vital (prana). E isso não é algo separado de você; você é isso apenas. Investigue e estude isso apenas.
Praneshwar significa “o Deus da respiração vital”. Agora, esta respiração ou força da vida e o conhecimento, a qualidade do sentido de ser (beingness) – ambos são eu mesmo. Afortunadamente, você tem ambos os aspectos juntos dentro de você. Você é isso apenas. Investigue e estude isso apenas.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Shri Siddharameshwar Maharaj - O sonho dentro do sonho

O Ser (Atman), que é sem nascimento e sem morte, dormiu; e em seu sonho, ele teve um sonho. Que tipo de sonho era esse? A aparição do mundo foi o sonho, e nesse sonho, ele sonhou que se tornou um indivíduo (Jiva). Então, a ilusão só aumentou. A aparência desta vida como sendo real, é um sonho. Aquele que era Deus, se tornou um servo. Conceber como reais todas as pessoas, como a mãe, o pai, o irmão, os outros e o mundo todo, é o sonho. Todos os seres do mundo estão se revelando neste sonho. É muito raro e muito importante que uma dentre todas as pessoas deva pensar bastante à frente.
Ter confiança em um santo é uma coisa muito rara. Um aspirante assim, age de uma forma não egoísta. Aquele que está cheio de ego não vai nem mesmo jogar um pedaço de pão para um cachorro. Depois de realizar alguma caridade com a ausência do ego, há muitas vezes a experiência de altruísmo ou de pura inteligência que surge. É uma grande coisa sentir respeito pelo Santos. Grande é o fruto das bênçãos de nossos antepassados, os Santos que vieram antes.
Discernimento (Viveka) entre o essencial e o não essencial durante esta vida-sonho é raro.
A riqueza é uma espécie de narcótico como o vinho.
Por causa dos méritos do último nascimento, a pessoa volta-se para o Guru, e fica curiosa a seu respeito. É ela que pode verdadeiramente utilizar o poder de discernimento. Essa pessoa vai até o guru e pensa sobre o que é essencial e o que não é essencial, e chega ao entendimento de que, "eu sou Brahman". Só então ela pode perceber que o mundo é ilusão, e se tornar desperta daquele sonho. Ela experimenta a pura essência do Ensinamento, e entende que o mundo todo é uma ilusão, e que "O Ser Supremo (Paramatman) é a única verdade." Torna-se então aquela "Existência, Consciência e Graça(SatChitAnanda) encarnadas", tornando-se um com Brahman.
Quando você vem a conhecer o significado, e, quando pensa sobre isso, dizendo "Agora, eu tive a experiência, e, agora estou acordado." Quem é esse ‘eu’ que adquiriu a experiência? Quando você diz que você experimentou alguma coisa, existe o ego ou o "eu sou" (Aham). A coisa que diz "eu", ou "Você" não é nada.

Você diz que sabe, mas isso é apenas ego. É engano na ilusão. Por exemplo, você pode pensar que, "ele é", ou "você é" a mesma entidade antiga a quem as pessoas chamavam de Sr. Smith, mas agora "Sr. Smith" tornou-se Brahman. Se você decidir que o antigo Sr. Smith era só ilusão e que aquela "não-entidade" agora se tornou realidade, então a sua ilusão ainda não foi dissipada. O que é naturalmente o seu Ser, é a realidade como ela é. Não existe "eu" ali, mesmo na forma mais sutil. Enquanto for sentido mesmo que no mínimo, que há qualquer necessidade de proteger o corpo, o "eu" não desapareceu. Deveria haver o próprio sentimento efetivo, a experiência, que o universo inteiro está dentro de você. Este é o entendimento de que "Tudo é Ele", e "Eu sou Ele".

O bicho da seda constrói a sua própria casa, um casulo, e depois morre nela. Você também está se atando similarmente. Você se considera ser o corpo físico. Isto em si é o cativeiro. Você tem se tornado como o casulo do bicho da seda. Água morna é derramada sobre o casulo, o bicho da seda é morto e, em seguida, a seda é colhida. Se você mantiver o sentimento que o universo inteiro, bem como o vento e o espaço que estão contidos dentro dele, é o seu corpo, então você automaticamente é Brahman. Existe apenas Brahman, que é apenas Um. Aquele que sabe que não há mais nada, é ele próprio Brahman. Aquele cujos anseios pelos objetos dos sentidos se foram, cujo sentido de "eu", como separado de tudo o resto se foi, e cujo orgulho se foi, é aquele que realmente realizou Brahman.

Shri Sadguru Upasni Maharaj - 'Sat-Chit-Ananda' (existência-consciência-graça)

Todos os objetos que são vistos no mundo, falando realmente, são não-existentes. Eles são transformações da própria mente da pessoa. Isso é o siddhanta. Quando podem os objetos do mundo não serem experimentados? Eles não serão experimentados apenas quando a própria mente da pessoa, que transforma a si mesma naqueles objetos, tornar-se não–existente. No caso da pessoa que atinge esse estado de não-mente, a mente não se transforma em objetos, para tal pessoa o mundo torna-se não-existente.
Se todas as pessoas do mundo atingissem esse estado, então o mundo todo se tornaria completamente não-existente. Todos então permaneceriam num estado de graça infinita e se fundiriam naquele Um sem forma. Eu mesmo estou neste estado. Quando estou neste estado, oposto àquele do mundo, eu me torno um e sigo apreciando aquela pura, singular e infinita graça. Experimento a mim mesmo como permeando tudo, formando tudo. Quando nenhum objeto é visto, então em frente aos olhos outra escuridão é experimentada.
É essa escuridão que traz à tona toda a criação. Essa escuridão que foi chamada de Adi Maya, Adi Shakti, ou o Prakriti primordial.
Quando a mente se torna completamente estável então o mundo não é visto; todos os pensamentos sobre qualquer coisa no mundo e do mundo automaticamente cessam.
Naturalmente o prazer e a dor provenientes das coisas do mundo, e consequentemente o corpo que os sofre, tornam-se não-existentes. Isso significa que a causa raiz de tudo isso se funde no próprio ser da pessoa, e com isso o que permanece é o Ser apenas, nosso Ser sem nenhuma forma ou sentimento.
É para experimentar nosso próprio estado real que temos de nos evoluir na forma do mundo e experimentar o mundo. E, portanto, torna-se essencial experimentar o mundo primeiro e depois experimentar nosso próprio estado real. Nosso Ser original não tinha nenhuma experiência de nós mesmos, mesmo sendo Sat-chit-ananda (existência-consciência-graça). Nós mesmos somos auto-iluminados e nossa natureza real é de infinita graça sem limites. E é isso que experimentamos, é isso o que nos tornamos.
No sono profundo o mundo todo submerge no próprio Ser, e ao acordar podemos novamente ver nosso corpo e o mundo. O estado de graça sem fim lembra o sono profundo, mas difere em um ponto; durante o sono profundo o homem não está consciente de nada, enquanto que nesse estado ele está consciente daquela graça infinita.
Estou explicando para vocês o que estou realmente experimentando. Aqueles que estão qualificados ao escutarem esse discurso irão se beneficiar. Eles experimentarão que suas mentes estão sendo purificadas gradualmente, permitindo assim que se qualifiquem para aquela graça infinita.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Shankara (Santo Indiano - séc. IX) - Aparokshanubhuti (Realização do Ser)

*Assim como não é possível que um objeto seja visto sem o auxílio da luz (embora tenhamos outros auxílios), para chegar ao conhecimento não nos serve nenhum método além do discernimento.

*Quem sou eu? Como foi criado este mundo? Quem foi o Criador? De que matéria é feito o mundo? - Esse é o caminho para analisar.

*Eu não sou o corpo, nem a combinação dos cinco elementos materiais, nem o conjunto dos sentidos. Sou algo diferente disso. - Essa é a maneira de fazer a introspecção.

*Tudo isto é um produto de avidya (a não-verdade), e desaparece completamente com o despertar do conhecimento. Os diversos pensamentos (modificações do Antahkarana, a mente) devem ser o criador. - Essa é a maneira de fazer a introspecção.

*A causa material da ignorância e do pensamento é a existência única, sutil e imutável, da mesma maneira que a argila é a única causa material de várias vasilhas feitas de argila. - Esse é o caminho para a introspecção.

*Como eu também sou aquele único, sutil, conhecedor, testemunha, sempre existente e Imutável, não posso duvidar de que eu sou 'Aquele' (Brahman). - Essa é a forma de fazer a introspecção.
*Atman é na verdade aquele sem componentes, enquanto que o corpo é constituído por várias partes; a maioria das pessoas confundem os dois considerando-os idênticos. A que pode-se chamar de ignorância senão isso?

*Atman é o interior e o governador do corpo, e o corpo é o governado e o exterior. Considerar ambos idênticos é o cúmulo da ignorância.

*Atman é todo consciência e todo santidade, e o corpo é todo carne e impureza. Considerar os dois como sendo idênticos é o cúmulo da ignorância.

*Atman é o iluminador supremo e a própria pureza, e o corpo é dito ser opaco e ter natureza densa e escura. Considerar os dois idênticos é o cúmulo da ignorância.

*Atman é eterno porque é a própria existência, o corpo é transitório, porque é essencialmente inexistente. Considerar ambos idênticos é o cúmulo da ignorância.

*Atman é auto-luminoso (pois não necessita nem de sol nem luz alguma para sua iluminação), sua luminosidade é o conhecimento e se manifesta igualmente através de todos os objetos; e não é o oposto da escuridão. Entretanto, até mesmo o próprio sol, como todos os corpos incandescentes, depende de certas combinações para se iluminar, e enquanto combate a escuridão, não consegue removê-la completamente.

*Que estranho que uma pessoa, sabendo perfeitamente que o seu corpo lhe pertence, como qualquer mobília, ainda prossiga com a idéia de que ela seja o corpo!

*Eu sou, na verdade, Brahman, sendo justo e imperturbável, minha natureza é Existência-Conhecimento-Graça (Sat-Chit-Ananda). Eu não sou o corpo (em nenhuma forma, seja grosseiro, sutil ou causal), que é a própria inexistência. A isso os sábios chamam de Verdadeiro Conhecimento.

*Eu sou invariável, sem forma, imaculado e eterno. Não sou o corpo que é a própria inexistência. A isso os sábios chamam de Verdadeiro Conhecimento.

*Eu sou imune a toda doença, estou além de toda compreensão, livre de todas alternativas e sou aquele que dá sentido a tudo, que penetra tudo. Não sou o corpo que é a própria inexistência. A isso os sábios chamam de Verdadeiro Conhecimento.

*Sem atributos ou atividades, eu sou eterno, sempre livre e imperecível. Eu não sou o corpo que é a própria inexistência. A isso os sábios chamam de Verdadeiro Conhecimento.

*Estou livre de qualquer impureza, sou ilimitado, sagrado, sem velhice e imortal. Não sou o corpo que é a própria inexistência. A isso os sábios chamam de Verdadeiro Conhecimento.

*Oh você, ignorante! Por que afirma que o sempre existente e feliz Atman, que reside em seu próprio corpo, é absolutamente inexistente? E que seu corpo por sua vez, é diferente daquele que os Vedas estabelecem e chamam de idêntico à Brahman?

*Oh você, ignorante! Trata de compreender, com a ajuda das Escrituras Sagradas e do discernimento, que o seu próprio Ser, o Purusha, que é diferente do corpo, não é a inexistência (mesmo que seja vazio), e sim a própria existência, mas é muito difícil de ser percebido por pessoas como você.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Meher Baba - O Eterno Agora




Não existe tempo, só a eternidade. Como você pode agarrar a eternidade? Aquele que realizou Deus, percebe que não existem tais coisas como o tempo, o espaço ou qualquer coisa; não há nada além de Deus. Deus é Todo-Conhecimento; Ele é Todo-Sozinho; Ele é Um. Mas o estado infinito de Deus se perde no infinito emaranhado de contradições infinitas. Então Deus, apesar de Todo-Sabedor, pergunta: "Quem sou eu?" através de cada um de vocês - isso também é uma contradição.
Quando ele alcança aquele estado-Cristo, ele diz: "Ah, eu sou Deus!" Leva muitos, muitos nascimentos para alguém chegar a essa resposta pelo questionamento "Quem sou eu?" Entre a resposta final e a pergunta original, existem infinitas contradições, muitas respostas falsas, tais como: "Eu sou fulano, eu sou homem, sou mulher, sou grande, eu sou pequena, sou rico, eu sou pobre, sou branco, sou colorido." E assim por diante.

Ontem já passou, hoje é hoje, e amanhã hoje terá se tornado ontem, e novamente vem outro hoje. Por isso, é eternamente HOJE, AGORA. Não existe ontem, não há amanhã. Existe apenas agora - o momento, o instante - e eternamente é só este Agora. Não há tempo. Novamente, o tempo é o intervalo entre sua primeira imaginação de todas e sua última imaginação. Para estar sempre presente com Deus, nunca esteja ausente Dele.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Jalaluddin Rumi (séc. XIII) - FIHI MA FIHI (discursos do Rumi)

Alguém perguntou: "O que é superior à oração?" Rumi disse: Uma resposta é que a alma da oração é superior à oração, como já expliquei. Uma segunda resposta é que a fé é maior. A oração consiste em uma série de ações diárias, enquanto que a fé é contínua. A oração pode ser abandonada por uma razão válida ou pode ser adiada, mas é impossível abandonar ou adiar a fé por qualquer desculpa. E enquanto a oração sem fé não ganha nada, como no caso dos hipócritas, a fé sem oração é valiosa. Outro ponto: enquanto a oração de cada religião é bem diferente uma da outra, ainda assim, a fé não muda de religião para religião. Os estados que ela produz, o seu lugar na vida e seus efeitos, são os mesmos em toda a parte. Há outras vantagens da fé, mas sua descoberta depende da consciência interior do ouvinte. Cada ouvinte é como farinha nas mãos de um padeiro. As palavras são como água derramada sobre a farinha de acordo com a umidade necessária. Mas a menos que a água seja absorvida, não se pode fazer a massa.

Um poeta disse:
"Meu olho está fixo em outra pessoa, o que devo fazer?
Olhe para si mesmo, pois aquela luz do olho é você.”

"Meu olho está fixo em outra pessoa." Isso significa que você está procurando algo fora de si mesmo, como a secura da farinha que anseia por água das mãos do padeiro. "O que devo fazer?" Saiba que você procura apenas a si próprio, aquele seu anseio é por você. A luz que você procura é a sua própria luz refletida, mas você não vai escapar desta cegueira dos reflexos das luzes externas até que sua própria luz interior torne-se cem mil vezes maior.

Era uma vez um homem muito magro, frágil como um pardal, e muito feio. Era tão feio que até mesmo as outras pessoas feias olhavam para ele com contentamento e davam graças a Deus, embora antes costumassem se queixar da sua própria feiúra. No entanto, por tudo isso, ele era muito grosseiro em sua maneira de falar e esbravejava enormemente. Ele estava no tribunal do rei, e seu comportamento magoava o Vizir, mas o Vizir engolia aquilo. Então um dia o Vizir perdeu seu temperamento. "Pessoas da corte", ele gritou. "Eu tirei esta criatura da sarjeta e o nutri. Ao comer o meu pão e sentar à minha mesa, ao gozar a caridade e a riqueza provenientes de mim e de meus antepassados, ele se tornou alguém. Agora ele chegou ao ponto de dizer tais coisas para mim! "
"Pessoas da corte," clamou o homem, voltando-se face ao Vizir, “nobres e pilares do Estado! O que ele diz é bem verdade. Fui alimentado pela riqueza e caridade dele e dos seus ancestrais até que eu cresci, desprezível e bruto como vocês me vêem. Se eu tivesse sido alimentado do pão e da riqueza de outra pessoa, certamente minha aparência, minha educação e meu valor teriam sido melhores do que isto. Ele me pegou da sarjeta, mas tudo o que posso dizer é: Oh, desejaria que eu fosse poeira. Se outra pessoa tivesse me tirado da sarjeta, eu não teria virado essa chacota."

O discípulo que é alimentado à mesa de um amante de Deus, tem um espírito limpo e verdadeiro. Mas aqueles que são alimentados pelas mãos de um impostor e um fanfarrão, aprendendo a ciência a partir deles, tornam-se assim como seu professor, desprezíveis e frágeis, fracos e incapazes de conformarem suas mentes a qualquer coisa.
Dentro de nosso ser todas as ciências eram originalmente unidas como uma, de forma que nosso espírito exibia todas as coisas escondidas, como a água clara que mostra tudo dentro dela - seixos, cacos e coisas desse tipo - e reflete o céu em sua superfície como um espelho. Essa é a verdadeira natureza da alma, sem tratamento ou treinamento. Mas uma vez que a alma tenha se misturado com a terra e seus elementos terrenos, essa clareza a deixa e ela é esquecida. Então, Deus envia os profetas e santos, como um grande oceano translúcido que aceita todas as águas e, no entanto, não importa o quão escuros ou sujos sejam os rios que desaguam nele, aquele oceano permanece sempre puro. Então a alma lembra. Quando vê o seu reflexo na água que é sem mácula, ela sabe com certeza que no início ela também era pura e essas sombras e cores são meros acidentes.
Os profetas e os santos, portanto, lembram-nos do nosso estado original, eles não implantam nada de novo. Agora, toda água, não importa o quão escura, que reconhece aquela grande água, dizendo: "Eu venho disto e pertenço à isto," é realmente uma parte desse oceano. Mas os elementos escuros que não reconhecem aquele oceano e acreditam que são parentes de outro tipo, fazem suas casas com as cores e as sombras da Terra. Foi por essa razão que o Profeta disse: "Agora, vem a vocês um mensageiro do vosso meio." Em outras palavras, o grande oceano é daquela mesma substância que a sua própria água, é tudo vindo de um Ser e uma fonte. Mas para aqueles elementos que não sentem a atração de familiaridade, esse fracasso não provém da água em si, mas da poluição na água. Essa poluição está misturada tão intimamente que a água não sabe se esse afastamento do oceano vem de si mesmo ou da essência daquela poluição. E assim, os homens maus não sabem se sua atração pelo mal vem da sua própria natureza ou de algum elemento escuro misturado.

Cada linha de poesia que os santos e profetas trazem, cada tradição, cada verso que escrevem, é como uma testemunha que presta testemunho. Eles prestam testemunho a cada situação, de acordo com sua natureza. Da mesma forma, temos duas testemunhas na herança de uma casa, duas testemunhas na venda de uma loja e duas testemunhas em um casamento. Assim também, os santos testemunham. A forma interior de seu testemunho é sempre a mesma, é a forma exterior que difere. Rezo para que Deus possa fazer com que estas palavras prestem testemunho a Ele e a você do mesmo modo.

Bernard de Clairvaux (São Bernardo-séc.XII) - As obras feitas nesta vida são como as sementes de recompensa eterna


Embora o mundo pareça agora dar para aqueles que o amam coisas grandes e honrosas, todos sabem que ele é infiel. Certamente estas coisas não duram e é incerto até quando irão durar. Muitas vezes elas são perdidas pelo homem enquanto ele ainda está vivo. E é certo que irá perdê-las quando ele morrer. E o que na vida humana é mais certo do que a morte e mais incerto do que a hora da morte? A morte não é misericordiosa com a pobreza. Ela não é respeitadora de riquezas. Ela não poupa ninguém por causa de seu nascimento nobre, de seu comportamento, até mesmo de sua idade; ela aguarda na porta pelos velhos e arma emboscadas para os jovens. Infeliz é aquele que, no escuro e nos lugares escorregadios de sua vida, dá suas energias para o trabalho que não pode durar e não reconhece que é vapor que aparece por um instante e vaidade das vaidades.
Homem ambicioso, você obteve alguma dignidade, essa que há muito deseja? Segure-se ao que você tem. Senhor, você já encheu seus cofres? Tem cuidado para não perder tudo. Suas terras têm sido frutíferas? Derrube os celeiros e construa maiores. Torne quadrados os edifícios redondos. Diga a sua alma: "Deves ter bens guardados para muitos anos". Haverá alguém para dizer: "Tolo, esta noite sua alma será exigida de si. A quem vai pertencer tudo o que você tem armazenado?"(Lucas 12:18) E será que somente essa coleção de coisas perecerá e não o seu colecionador também!? Ele irá perecer mais terrivelmente ainda.
Será melhor suar por um trabalho que não se esvairá, que não tennha um resultado fatal. Mas aqui o salário do pecado é a morte, e quem semeia na carne colherá corrupção da carne. Pois nossos atos não passam como parecem passar. Pelo contrário, cada ato realizado nesta vida é a semente da colheita a ser feita na eternidade. Você, tolo, ficará espantado quando ver o enorme rendimento das sementes de sentimento que semeou, boas ou más, de acordo com a qualidade da semente. Aquele que tem isso em mente, nunca pensa que o pecado é uma ninharia, porque ele vai olhar para a colheita futura em vez de olhar o que semeia. Homens semeiam inconscientemente, eles semeiam, escondendo os mistérios da iniquidade e disfarçando as notas da vaidade; o negócio das trevas é feito no escuro.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Hazrat Inayat Khan - A Música das Esferas

Por este título: 'A Música das Esferas' não quero encorajar qualquer superstição, ou qualquer idéia que possa atrair as pessoas para os campos da curiosidade. Através deste assunto gostaria de dirigir a atenção das pessoas que buscam a verdade, para a lei da música, que está trabalhando por todo o universo e que, em outras palavras, pode ser chamada de lei da vida, o sentido de proporção, a lei da harmonia, a lei que traz equilíbrio, a lei que está escondida atrás de todos os aspectos da vida, que mantém este universo intacto e trabalha seu destino ao longo de todo o universo, cumprindo seu propósito.
Música, como conhecemos na nossa linguagem cotidiana, é apenas uma miniatura: aquilo que nossa inteligência tem apreendido desta música ou harmonia de todo o universo e que está trabalhando por trás de nós. A música do universo é o pano de fundo da pequena imagem daquilo que nós chamamos música. Nosso senso de música, a nossa atração por música mostra que a música está nas profundezas do nosso ser. Música está por trás do trabalho de todo o universo. Música não é só o maior objeto da vida, mas música é a própria vida.
Hafiz, nosso grande e maravilhoso poeta da Pérsia, diz: "Muitos dizem que a vida entrou no corpo humano através da ajuda da música, mas a verdade é que a própria vida é música'. Gostaria de lhe dizer o que o fez dizer isso. Existe uma lenda no Oriente, que relata que Deus fez uma estátua de argila à Sua própria imagem, e pediu à alma para entrar nela. Mas a alma se recusou a entrar naquela prisão, pois sua natureza é voar livremente e não ser limitada ou estar vinculada a qualquer espécie de cativeiro. A alma não desejava de forma nenhuma entrar naquela prisão. Então, Deus pediu aos anjos para que tocassem sua música e, conforme os anjos tocaram, a alma foi movida para o êxtase. Sob o efeito daquele êxtase, a fim de tornar mais clara aquela música para si própria, ela entrou neste corpo. É uma bela lenda, e muito mais belo é o seu mistério. A interpretação dessa lenda explica-nos duas grandes leis. Uma delas é que a liberdade é a natureza da alma, e para a alma todo o drama da vida é a ausência de liberdade, que é pertencente à sua natureza original. O próximo mistério que essa lenda nos revela, é que a única razão pela qual a alma entrou no corpo de argila ou na matéria, foi a de experimentar a música da vida e tornar esta música clara para si mesma. E quando somamos esses dois grandes mistérios, um terceiro mistério, que é o mistério de todos os mistérios, vem à nossa mente: que a ilimitada parte de nós mesmos se torna limitada e presa à terra com o objetivo de tornar esta vida, que é a vida exterior, mais inteligível. Portanto, há uma perda e um ganho. A perda é a perda da liberdade e o ganho, é a experiência da vida que é totalmente adquirida pela vinda a esta limitação da vida que chamamos a vida de um indivíduo.
O que nos faz sentir atraídos por música é que todo o nosso ser é música: a nossa mente, nosso corpo, a natureza em que vivemos, a natureza que nos fez, tudo o que está por baixo e em torno de nós, tudo é música. Sendo que estamos perto de toda esta música e vivemos, nos movemos e temos nosso ser na música, por isso ela nos interessa. Ela atrai a nossa atenção e nos dá prazer, pois corresponde ao ritmo e ao tom que estão mantendo o mecanismo de todo o nosso ser intacto. O que nos agrada em qualquer uma das nossas artes, seja desenho, pintura, arquitetura ou escultura, e o que nos interessa na poesia, é a harmonia que está por detrás deles, que é a música. É música que a poesia sugere para nós: o ritmo da poesia ou a harmonia de idéias e frases. Além disso, na pintura e no desenho é o nosso senso de proporção e nosso senso de harmonia o que nos dá todo o prazer que obtemos ao admirar arte. O que nos compele a estar perto da natureza é a música da natureza e a música da natureza é mais perfeita do que a da arte. Temos uma sensação de exaltação ao nos deslocarmos por um bosque, olhar para o verde, estar perto da água corrente que têm o seu ritmo, seu tom e harmonia. O movimento pendular dos ramos na floresta, o surgimento e a queda das ondas - tudo tem a sua música. Depois de contemplarmos e nos tornarmos um com a natureza, nossos corações abrem-se para sua música. Nós dizemos: 'Gosto da natureza', e o que é que desfrutamos na natureza? É a sua música. Algo em nós foi tocado pelo movimento rítmico, pela harmonia perfeita que é tão raramente encontrada nesta nossa vida artificial. Ela nos eleva e nos faz sentir que é este o verdadeiro templo, a verdadeira religião. Um momento passado no meio da natureza com o coração aberto é toda uma vida, se estamos em sintonia com a natureza.
Quando olhamos para o cosmos, os movimentos das estrelas e dos planetas, as leis da vibração e ritmo - tudo perfeito e imutável - isso nos mostra que o sistema cósmico está trabalhando pela lei da música, a lei da harmonia. Sempre que há falta de harmonia de qualquer tipo no sistema cósmico, de maneira proporcional, catástrofes acontecem no mundo e sua influência é vista em muitas forças destrutivas que manifestadas no mundo. Se há algum princípio sobre o qual toda a lei astrológica está baseada - e as ciências da magia e misticismo por trás dela - é o da música. Portanto, tanto no caso das almas mais iluminadas que já viveram neste mundo, como no dos maiores de todos os profetas da Índia - suas vidas foram música. A partir da miniatura de música que entendemos, eles se expandiram para todo o universo da música e dessa forma foram capazes de inspirar. Aquele que encontra a chave para a música de todo o trabalho da vida é aquele que passa a ser intuitivo, que tem inspiração; é ele a quem as revelações se manifestam, para, em seguida, sua linguagem tornar-se música.
Cada objeto que vemos é revelador. De que forma? Ele nos diz o seu caráter, sua natureza e seu segredo. Toda pessoa que vem até nós nos conta seu passado, presente e futuro. De que maneira? Cada presença explica-nos tudo o que contém. Como? Sob a forma de música - se apenas pudermos ouvi-la. Não existe nenhuma outra língua: é ritmo, é tom. Nós a escutamos, mas não com nossos ouvidos. Uma pessoa amigável mostra harmonia em sua voz, suas palavras, seus movimentos e forma. Uma pessoa não amigável, em todos os seus movimentos, no seu olhar e expressão, em sua caminhada, em tudo, vai mostrar desarmonia - apenas quando podemos ver. Eu costumava me divertir na Índia com um amigo que ficava contrariado muito facilmente. Às vezes, quando ele me visitava eu dizia: "Você está contrariado hoje?" Ele perguntava: "Agora, como você sabe que estou contrariado hoje?" Eu respondia: "Seu turbante me diz. A maneira que você prendeu seu turbante não mostra harmonia".
Cada ação nossa mostra uma atitude harmônica ou desarmônica. Há muitas coisas que você pode perceber na caligrafia, mas a principal coisa na leitura da escrita manual são as curvas harmoniosas e desarmoniosas. Elas quase falam com você, e dizem o humor em que a pessoa escreveu. A escrita à mão diz muitas coisas: o grau de evolução do escritor, a sua atitude perante a vida, o seu carácter. Você não precisa ler a carta, você só tem de ver a sua caligrafia, pois as linhas e curvas mostrarão se ele é harmonioso ou não - isso se você puder ver.
Mas em cada ser vivo você pode ver isso, e se você olhar com uma visão aberta para a natureza das coisas, irá ler até mesmo na árvore - a árvore que dá frutos ou flores - que música que ela expressa. Você pode ver a partir da atitude de uma pessoa se essa pessoa será seu amigo ou vai acabar sendo seu inimigo. Você não precisa esperar até o fim, você pode ver à primeira vista se ele está inclinado amigavelmente ou não, porque cada pessoa é música, música perpétua, continuamente tocando dia e noite. Sua faculdade intuitiva pode ouvir essa música e essa é a razão pela qual uma pessoa é repelente e a outra tão atraente: trata-se da música que elas exprimem. Suas atmosferas estão carregadas dela.
Existe uma história de Umar, o conhecido califa da Arábia. Alguém que queria prejudicar Umar estava procurando por ele, e ele soube que Umar não vivia em palácios - embora fosse um rei - mas que ele passava a maior parte do seu tempo com a natureza. Esse homem ficou muito feliz ao pensar que agora ele teria todas as oportunidades para realizar seu objetivo. Conforme ele se aproximou do local onde estava sentado Umar, quanto mais perto que ele chegava, mais sua atitude mudava, até que ao final ele deixou cair o punhal que estava em sua mão, e disse: "Eu não posso prejudicar-te. Diga-me, qual é o poder em você que me priva de conseguir o objetivo que vim levar a cabo?" Umar respondeu: "Meu 'em-um-mento' (at-one-ment -"união") com Deus". Sem dúvida este é um termo religioso, mas o que significa - "em-um-mento" (at-one-ment) com Deus? É estar em sintonia com o Infinito, em harmonia com todo o universo. Em palavras simples, Umar foi o receptáculo da música de todo o universo.
O grande encanto que a personalidade dos santos tem mostrado em todos os tempos foi sua resposta à música de todo o Ser. Esse tem sido o segredo de como eles se tornaram os amigos dos seus piores inimigos. Mas este não é unicamente um poder dos santos, ele é manifesto em toda pessoa em maior ou menor grau. Todos mostram harmonia ou desarmonia de acordo com o quanto estão abertos para a música do universo. Quanto mais estamos abertos a tudo o que é belo e harmonioso, mais nossa vida está sintonizada com essa harmonia universal, e quanto mais você mostrar uma atitude amigável para com todos que encontra, sua própria atmosfera criará música em torno de si.
A diferença entre o ponto de vista material e o espiritual é que o ponto de vista material vê a matéria como a primeira coisa, a partir da qual a inteligência, a beleza e tudo o mais evoluem posteriormente. Do ponto de vista espiritual, vemos a inteligência e a beleza em primeiro lugar e com elas vem tudo o que existe. De um ponto de vista espiritual, vemos que o que consideramos por último é o mesmo que o primeiro. Portanto, na essência de todo este Ser - como sua base - há música, da mesma forma que podemos ver que, na essência da semente da rosa existe a rosa, a sua fragrância, forma e beleza. Apesar da semente não estar manifesta, ao mesmo tempo isso está lá na sua essência. Aquele que se sintoniza não apenas com o Ser exterior, mas também com o interior e com a essência de todas as coisas, recebe um insight sobre a essência de todo o Ser, e, portanto, pode encontrar e apreciar o aroma e flor que ele vê na rosa, na mesma medida, mesmo sendo na semente.
O grande erro desta era é que a atividade tem aumentado tanto, que há pouca margem deixada para o descanso da vida cotidiana. Repouso é o segredo de toda a contemplação e meditação, o segredo de ficar em sintonia com esse aspecto da vida que é a essência de todas as coisas. Quando não se está acostumado a ter descanso, não se sabe o que está por detrás do seu ser. Essa condição é experimentada primeiro ao preparar o corpo e também a mente, por meio da purificação. E, tornando os sentidos mais refinados, tornamos-nos capazes de sintonizar nossa alma com todo o Ser. Parece complexo, e ainda é tão simples. Quando estamos abertos a um velho amigo na vida, sabemos muito sobre ele. É apenas a abertura do coração, é o 'em-um-mento' com nosso amigo; sabemos seus defeitos e os seus méritos. Sabemos como experimentar e desfrutar da amizade. Onde há ódio, preconceito e amargura, existe perda de compreensão. Quanto mais profunda é a pessoa, mais amigos ela tem. É pequenez, estreiteza, falta de desenvolvimento espiritual, o que torna uma pessoa exclusivista, distante e diferente dos outros. Ela sente-se superior, maior e melhor do que os outros; sua atitude amiga parece ter sido perdida. Dessa forma ele se aparta dos outros, e nisso reside a sua tragédia. Essa pessoa nunca é feliz. Aquele que é feliz é o que está pronto para ser amigo de todos. Sua visão sobre a vida é amigável. Ele não é amigável apenas com as pessoas, mas também com objetos e condições. É por essa atitude de amizade que o homem se expande e quebra aqueles muros que o mantém na prisão. E, é ao quebrar os muros que ele experimenta o 'em-um-mento' com o Absoluto. Este 'em-um-mento' com o Absoluto manifesta-se como a música das esferas, e isso ele experimenta de todos os lados: a belezas da natureza, a cor das flores, tudo o que vê, todos que encontra. Nas horas de contemplação e solidão e nas horas em que está no mundo, a música sempre está ali e ele está sempre desfrutando da harmonia.

Bhagavan Sri Ramana Maharshi - Nan Yar? (Quem sou eu?)

1. Quem sou eu?
O corpo grosseiro, que é composto dos sete humores (dhatus), não sou eu; os cinco órgãos de cognição sensitiva, ou seja: os sentidos de ouvir, tocar, ver, saborear, e cheirar, que apreendem seus respectivos objetos, ou seja: som, toque, cor, sabor, e odor, não sou eu; os cinco órgãos sensoriais cognitivos, ou seja: os órgãos da fala, locomoção, compreensão, excreção e procriação, que têm como suas respectivas funções aquelas de falar, movimentar, compreender, excretar, e desfrutar, não sou eu; as cinco respirações vitais, prana, aprana, vyana, udana e samana; que atuam respectivamente nas cinco funções do inspirar, expirar, etc... não sou eu; mesmo a mente que pensa, não sou eu; e também a ignorância, que é provida apenas com as impressões residuais dos objetos e nas quais não há objetos e nenhuma função, não sou eu.
2. Se não sou eu nenhum desses, então quem sou eu?
Depois de negar tudo mencionado acima por meio do ‘não sou isto’, ‘não sou aquilo’, aquela Consciência que permanece sozinha – isso sou Eu.
3. Qual é a natureza da Consciência?
A natureza da Consciência é Satchiananda (existência/consciência/graça).
4. Quando a realização do Ser será obtida?
Quando o mundo, que é aquilo que é visto for removido, haverá realização do Ser, o qual é o observador.
5. Não haverá realização do Ser enquanto o mundo estiver lá (sendo tomado como real)?
Não
6. Por quê?
O observador e o objeto visto são como a corda e a cobra. Assim como o conhecimento da corda, que é o substrato, não surgirá a menos que o falso conhecimento da ilusória serpente saia; assim a realização do Ser, que é o substrato, não será obtida a menos que a crença de que o mundo é real seja removida.
7. Quando o mundo, que é o objeto visto, será removido?
Quando a mente, que é a causa de todas as cognições e de todas as ações tornar-se quieta, o mundo desaparecerá.
8. Qual é a natureza da mente?
Aquilo que é chamado de ‘mente’ é um notável poder que reside no Ser. Ele causa o surgimento de todos os pensamentos. Sem os pensamentos não existe tal coisa como a mente. Portanto, o pensamento é a natureza da mente. Sem os pensamentos não há uma entidade independente chamada mundo. No sono profundo não existem pensamentos e também não há mundo. Assim como uma aranha emite o fio (da teia) para fora e de novo o recolhe para dentro de si, da mesma forma a mente projeta o mundo fora dela e de novo o analisa dentro de si mesma. Quando alguém persistentemente investiga a natureza da mente, a mente termina por deixar o Ser (como o resíduo).
O que é referido como o Ser é o Atman. A mente existe apenas em dependência de algo denso; ela não pode permanecer sozinha. É a mente que é chamada de corpo sutil ou de alma individual (jiva).
9. Qual é o caminho de investigação para compreender a natureza da mente?
Aquilo que surge como ‘eu’ neste corpo é a mente. Se alguém perguntasse qual é o primeiro lugar no corpo em que o pensamento ‘eu’ surge, ele descobriria que ele surge no coração. Esse é o lugar da origem da mente.
Mesmo se alguém pensasse constantemente em ‘eu’ ‘eu’, ele seria conduzido àquele lugar. De todos os pensamentos que surgem na mente, o pensamento ‘eu’ é o primeiro. É somente depois de seu surgimento que outros pensamentos surgem. É depois do aparecimento do pronome de primeira pessoa que os de segunda e terceira pessoa aparecem; sem o pronome de primeira pessoa não haveria os de segunda e terceira.
10.Como a mente se tornará quieta?
Pela investigação ‘Quem sou eu?’. O pensamento ‘quem sou eu?’ irá destruir todos os outros pensamentos, e como a vareta usada para avivar uma fogueira, será ele próprio destruído no final. Então, surgirá a realização do Ser (Auto-realização).
11. Quais são os meios para manter-se constantemente no pensamento ‘Quem sou eu?’?
Quando outros pensamentos surgem, não devemos segui-los, mas sim perguntar: “Para quem eles surgem?” Não importa quantos pensamentos surjam. Para cada pensamento que surgisse, deveria ser questionado com diligência: “Para quem este pensamento surgiu?”. A resposta que emergiria seria “Para mim”. Logo em seguida se perguntássemos “Quem sou eu?”, a mente irá retornaria para sua fonte; e o pensamento surgido ficaria quieto. Com repetida prática, dessa maneira, a mente desenvolverá o conhecimento para permanecer em sua fonte. Quando a mente que é sutil, passa através do cérebro e dos órgãos sensitivos, os nomes densos e as formas aparecem, quando ela fica no coração, os nomes e as formas desaparecem.
Não deixar a mente fugir, mas mantê-la no Coração é o que é chamado “intimidade” (antarmukha).
Deixar a mente fugir do Coração é conhecido como “exteriorização” (bahir-mukha). Portanto, quando a mente fica no Coração, o ‘eu’ que é a fonte de todos os pensamentos passará, e o Ser que sempre existiu brilhará. Qualquer coisa que se faça deve ser feita sem o “eu” egoísta. Se alguém age deste modo, tudo se mostrará ser da natureza de Shiva (Deus).
12. Não existem outros meios para fazer a mente aquietar-se?
Além da investigação de si, não existem meios adequados. Se através de outros meios pudéssemos buscar o controle da mente, a mente pareceria estar controlada, mas de novo seguiria adiante. Também, através do controle da respiração, a mente se tornará quieta; mas ela estará quieta somente durante o tempo que a respiração permanecer controlada; e quando a respiração retomar seu fluxo, a mente também começará a mover-se de novo e irá vagar impelida por impressões residuais.
A fonte é a mesma tanto para a mente como para a respiração. Pensamento, de fato, é a natureza da mente. O pensamento ‘eu’ é o primeiro pensamento da mente; e isso é egoísmo. É dali que se origina o egoísmo e também a respiração. Portanto, quando a mente torna-se quieta, a respiração é controlada, e quando a respiração é controlada a mente torna-se quieta. Mas, em sono profundo, embora a mente torne-se quieta, a respiração não pára. Isso ocorre pela vontade de Deus, de modo que o corpo possa ser preservado e outras pessoas possam não estar sob a impressão de que ele está morto. No estado desperto e no samadhi, quando a mente torna-se quieta, a respiração é controlada. Respiração é a forma densa da mente. Até o momento da morte, a mente mantém a respiração no corpo; e quando o corpo morre a mente leva a respiração junto com ela. Portanto, o exercício de controle respiratório é somente um auxílio para deixar a mente quieta (manonigraha); ele não destruirá a mente (manonash).
Assim como a prática do controle respiratório, meditar sobre as formas de Deus, repetir mantras, restringir a alimentação, etc são apenas auxiliares para render a mente quieta.
Através da meditação nas formas de Deus e através da repetição de mantras, a mente torna-se focada. A mente sempre está vagando. Assim como quando uma corrente é dada a um elefante para que ele a segure em sua tromba, ele segue agarrado à corrente e nada mais, do mesmo modo, quando a mente está ocupada com um nome ou uma forma, ela apenas se agarrará àquilo. Quando a mente se expande na forma de incontáveis pensamentos, cada pensamento torna-se fraco; mas assim que os pensamentos conseguem poder de decisão, a mente torna-se focada e forte: para uma mente assim a Auto-investigação torna-se fácil. De todas as regras restritivas, aquela relacionada a comer alimentos ‘sattvicos’ em quantidades moderadas é a melhor; através da observação desta regra, a qualidade ‘sattvica’ da mente crescerá, e isso será útil para a Auto-investigação.
13. As impressões residuais (pensamentos) de objetos parecem ir como as ondas de um oceano. Quando todas elas serão destruídas?
Quando a meditação no Ser elevar-se mais e mais alto, os pensamentos serão destruídos.
14. É possível que as impressões residuais de objetos que vêm de tempos imemoriais, por assim dizer, sejam dissolvidas e que uma pessoa permaneça como o puro Ser?
Sem submeter-se à dúvida “É possível, ou não?”, uma pessoa deve persistentemente manter-se na meditação do Ser. Mesmo que seja uma grande pecadora, ela não deveria nem se preocupar e nem chorar: “Oh! Eu sou um pecador, como posso ser salvo?" Ela deveria renunciar completamente ao pensamento “Eu sou um pecador” e concentrar-se agudamente na meditação do Ser; então, ela certamente será bem sucedida. Não há duas mentes – uma boa e outra má; a mente é apenas uma. São as impressões residuais que são de dois tipos – favoráveis ou desfavoráveis. Quando a mente está sob a influência de impressões favoráveis ela é chamada boa e quando está sob a influência de impressões desfavoráveis é considerada má.
Não deveríamos permitir que a mente vagasse na direção de objetos mundanos e nem na direção daquilo que concerne às outras pessoas. Não importa quão ruins as outras pessoas possam ser, não deveríamos sustentar nenhuma aversão para com elas. Tanto o desejo quanto a aversão deveriam ser evitados. Tudo aquilo que damos aos outros damos a nós mesmos. Se essa verdade é compreendida, quem não irá dar aos outros? Quando alguém se eleva tudo se eleva; quando alguém torna-se quieto, tudo torna-se quieto. Na medida em que nos comportarmos com humildade, haverá proporcionalmente bom resultado. Se a mente torna-se quieta, a pessoa pode viver em qualquer lugar.
15. Por quanto tempo a investigação deve ser praticada?
Enquanto existirem impressões de objetos na mente, a investigação “Quem sou eu?” é necessária. Assim que surgem os pensamentos, eles devem ser destruídos ali mesmo no exato lugar de sua origem através da investigação. Se alguém faz uso da contemplação do Ser ininterruptamente, até que o Ser seja obtido, isso por si só já é suficiente. Enquanto houverem inimigos dentro da fortaleza, eles continuarão atacando; se forem destruídos assim que emergirem, a fortaleza cairá em nossas mãos.
16. Qual é a natureza do Ser?
O que existe na verdade é somente o Ser. O mundo, a alma individual e Deus são aparências, aspectos dele. Como a prata na madrepérola, esses três aspectos aparecem ao mesmo tempo e desaparecem ao mesmo tempo. O Ser é o lugar onde não há absolutamente nenhum pensamento de ‘eu’. Isso é chamado “silêncio”. O próprio Ser é o mundo; o próprio Ser é o ‘Eu’; o próprio Ser é Deus; tudo é Shiva, o Ser.
17. Não são todas as coisas o trabalho de Deus?
Sem desejo, decisão ou esforço, o sol surge; e em sua mera presença, a pedra-sol emite fogo, o lótus floresce, a água evapora, as pessoas executam suas várias funções e então descansam. Assim como só pela presença do magneto a agulha já se move, é pela virtude da mera presença de Deus que as almas, governadas pelas três funções cósmicas ou pelas cinco atividades divinas, executam suas ações e então descansam, de acordo com seus respectivos karmas. Deus não tem intenção; nenhum karma vincula-se a Ele. São como ações mundanas que não afetam o sol, ou como os méritos e desméritos dos quatro elementos que não afetam o espaço todo-abrangente que eles ocupam.
18. Dos devotos, quem é o maior?
Aquele que entrega a si mesmo ao Ser o qual é Deus, é o mais excelente dos devotos. Entregar-se a Deus significa permanecer constantemente no Ser sem dar espaço para o surgimento de quaisquer pensamentos além daquele do Ser. Quaisquer que sejam os fardos, são descarregados em Deus, Ele os carrega. Já que o supremo poder de Deus faz todas as coisas se moverem, porque deveríamos, sem que nos submetermos a Ele, constantemente nos preocupar com pensamentos sobre aquilo que deveria ser feito e como deveria ser feito, e aquilo que não deveria ser feito e como não deveria? Nós sabemos que o trem carrega todas as cargas, e assim, depois de pegá-lo, por que deveríamos carregar nossa pequena bagagem na cabeça para nosso desconforto ao invés de colocá-la no chão do trem e nos sentirmos aliviados?
19. O que é o não-apego?
Assim que os pensamentos surgem, destruí-los sem deixar qualquer resíduo no exato lugar de sua origem, é o não-apego. Assim como um catador de pérolas amarra uma pedra na sua cintura, submerge para o fundo do mar e lá pega as pérolas, de mesmo modo, cada um de nós deveria ser dotado com o não-apego e mergulhar dentro de si para obter o Ser-Pérola.
20. É possível para Deus e para o Guru efetuar a libertação de uma alma?
Somente Deus e o Guru mostrarão o caminho para a libertação; por si mesmos eles não levarão a alma ao estado de libertação. Na verdade, Deus e o Guru não são diferentes. Assim como a presa que caiu na jaula de um tigre não tem escapatória, aqueles que chegaram dentro do âmbito do gracioso olhar do Guru serão salvos pelo Guru e não ficarão perdidos; ainda assim, cada um deve por seu próprio esforço percorrer o caminho mostrado por Deus ou pelo Guru e obter a libertação. Uma pessoa pode conhecer a si mesma somente com o próprio olho do conhecimento e não com o de outra pessoa. Aquele que é Rama precisa da ajuda de um espelho para saber que ele é Rama?
21. É necessário para aquele que anseia pela libertação investigar sobre a natureza das categorias (tattvas)?
Assim como alguém que quer jogar o lixo fora não precisa analisá-lo e ver o que ele é, do mesmo modo, aquele que quer conhecer o Ser não tem que contar o número de categorias ou investigar sobre suas características; o que ele tem de fazer é rejeitar todas as categorias que escondem o Ser. O mundo deveria ser considerado como um sonho.
22. Não há diferenças entre a vigília e o sonho?
A vigília é longa e o sonho é curto, além dessa não há outra diferença. Assim como os acontecimentos da vigília parecem ser reais enquanto estamos despertos, do mesmo modo nos parecem os de um sonho enquanto sonhamos.
No sonho a mente toma outro corpo. Tanto no estado de sonho como no de vigília, os pensamentos, nomes e formas ocorrem simultaneamente.
23. Ler livros é de alguma utilidade para aqueles que desejam a libertação?
Todos os textos dizem que para obter a libertação uma pessoa deve tornar a mente quieta; portanto, o ensinamento conclusivo é de que a mente deve se fazer quieta; uma vez que isso tenha sido entendido, não há necessidade de intermináveis leituras. Para aquietar a mente, uma pessoa tem somente que investigar dentro de si aquilo que é o Ser; como essa busca poderia ser feita em livros? A pessoa deve conhecer o seu Ser com o seu próprio olho da sabedoria. O Ser está dentro dos cinco invólucros; enquanto que os livros estão fora deles. Já que o Ser tem de ser investigado através do descarte dos cinco invólucros, é fútil procurar por ele em livros. Chegará um momento em que a pessoa terá de esquecer tudo aquilo que aprendeu.
24. O que é felicidade?
Felicidade é a real natureza do Ser; felicidade e o Ser não são diferentes. Não há felicidade em qualquer objeto do mundo. Nós imaginamos através da nossa ignorância que recebemos felicidade dos objetos. Quando a mente vai para fora, ela experimenta miséria. Na verdade, quando seus desejos são satisfeitos, ela retorna ao seu próprio lugar e desfruta da felicidade que é o Ser. Do mesmo modo, nos estados de sono profundo, samadhi e desfalecimento, e quando o objeto desejado é obtido ou quando o objeto indesejado é removido, a mente torna-se direcionada para o interior e desfruta a pura felicidade do Ser. Assim, a mente move-se alternadamente sem descanso indo para fora do Ser e retornando a ele. Debaixo da árvore a sombra é agradável; fora dela, em área aberta, o calor é escaldante. Uma pessoa que esteve sob o sol, sente-se refrescada quando chega na sombra. Alguém que insiste em ir da sombra ao sol e logo volta à sombra é um tolo. Um homem sábio fica permanentemente na sombra. Similarmente, a mente de alguém que conhece a verdade não abandona Brahma. A mente do ignorante, ao contrário, revolve-se no mundo sentindo-se miserável, retornando por um breve tempo a Brahma para experimentar felicidade. De fato, aquilo que é chamado mundo é somente pensamento. Quando o mundo desaparece, isto é, quando não há pensamento, a mente experimenta felicidade; e quando o mundo aparece, ela experimenta miséria.
25. O que é sabedoria-intuitiva (jnana-drishti)?
Permanecer quieto é chamado de sabedoria-intuitiva. Permanecer quieto é dissolver a mente no Ser. Telepatia, saber dos acontecimentos passados, presentes e futuros, assim como a clarividência, não constituem sabedoria-intuitiva.
26. Qual é a relação entre ausência de desejo e sabedoria?
Ausência de desejo é sabedoria. Os dois não são diferentes; eles são o mesmo. Ausência de desejo é evitar voltar a mente em direção a qualquer objeto. Sabedoria significa a aparição de nenhum objeto. Em outras palavras, não buscar qualquer outra coisa além do Ser é desapego ou ausência de desejo; não deixar o Ser é sabedoria.
27. Qual é a diferença entre investigação e meditação?
Investigação consiste em reter a mente no Ser. Meditação consiste em pensar que o próprio Ser é Brahma, existência-consciência-graça.
28. O que é libertação?
Investigar sobre a natureza do seu Ser que está escravizado e perceber sua verdadeira natureza é libertação.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Nisargadatta Maharaj - O transitório não pode ser real


Pergunta: Meu amigo é alemão e eu nasci na Inglaterra de pais franceses. Estou na Índia há mais de um ano indo de Ashram em Ashram.
Maharaj: Você realiza alguma prática espiritual (sadhana)?
Pergunta: Estudos e meditação.
Maharaj: Sobre o que você medita?
Pergunta: Sobre o que leio.
Maharaj: Ótimo.
Pergunta: O que você está fazendo, senhor?
Maharaj: Sentado.
Pergunta: E o que mais?
Maharaj: Falando.
Pergunta: Sobre o que você está falando?
Maharaj: Você quer uma palestra? É melhor você perguntar algo que realmente te toca, com o qual você se sinta fortemente relacionado. A menos que você esteja emocionalmente envolvido, você pode argumentar comigo mas não haverá um verdadeiro entendimento entre nós. Se você disser: 'Nada me preocupa, eu não tenho problemas’, está tudo bem comigo, podemos nos manter quietos. Mas, se algo realmente toca você, então há propósito em falar.
Posso perguntar-lhe? Qual é o propósito da sua ida de um lugar para o outro?
Pergunta: Para encontrar as pessoas, para tentar entendê-las.
Maharaj : Que pessoas você está tentando entender? O que exatamente você está procurando?
Pergunta: A integração.
Maharaj: Se você deseja integração, é necessário saber a quem você quer integrar.
Pergunta: Ao conhecer as pessoas e observá-las, acabamos conhecendo a nós mesmos também. Ambos caminham juntos.
Maharaj: Não necessariamente caminham juntos.
Pergunta: Um melhora o outro.
Maharaj: Não funciona dessa forma. O espelho reflete a imagem, mas a imagem não melhora o espelho. Você não é nem o espelho nem a imagem no espelho. Tendo aperfeiçoado o espelho para que ele reflita corretamente, você pode realmente virar o espelho e ver nele um verdadeiro reflexo de si mesmo — verdadeiro, tanto quanto o espelho possa refletir. Mas o reflexo não está sozinho — você é aquele que vê o reflexo. Entenda claramente — o que quer que você possa perceber não é você, o que você percebe não é você.
Pergunta: Eu sou o espelho e o mundo é a imagem?
Maharaj : Você pode ver tanto a imagem quanto o espelho. Você não é nenhum dos dois. Quem é você? Não vá por fórmulas. A resposta não está em palavras. O mais próximo que você pode dizer em palavras é o seguinte: eu sou o que torna a percepção possível — a vida além do experimentador e de suas experiências. Agora, você pode separar-se tanto do espelho quanto da imagem no espelho e ficar completamente sozinho, totalmente só?
Pergunta: Não, eu não posso.
Maharaj : Como você sabe que não pode? Há tantas coisas que você está fazendo sem saber como fazê-las. Você digere, você circula seu sangue e sua linfa, você move seus músculos — tudo sem saber como. Da mesma maneira, você percebe, você sente, você pensa sem saber como acontece e o por quê disso. Do mesmo modo, você é você mesmo sem saber. Não há nada de errado com você como Ser (Self). Ele é aquilo que é até a perfeição. É o espelho que não é claro e verdadeiro, e, portanto, dá falsas imagens a você. Você não precisa corrigir a Si mesmo — só precisa configurar direito sua idéia de si mesmo. Aprenda a separar-se da imagem e do espelho, mantenha-se lembrando: eu não sou nem a mente nem suas idéias; faça isso pacientemente e com convicção e você certamente vai chegar à visão direta de você como sendo a fonte do ser — da sabedoria — e do amor; eterno, permeando tudo, abarcando todas as coisas. Você é o infinito focado em um corpo. Agora, você vê apenas o corpo. Experimente de maneira séria e sincera e chegará a ver apenas o infinito.
Pergunta: A experiência da realidade, quando vem, é duradoura?
Maharaj: Toda experiência é necessariamente transitória. Mas a plataforma de todas as experiências é imutável. Nada que possa ser chamado de "um evento" irá durar. Mas alguns eventos purificam a mente, e outros a mancham. Momentos de insight profundo e de amor abrangente purificam a mente, enquanto que desejos e lágrimas, invejas e raiva, crenças cegas e arrogância intelectual poluem e entorpecem a psique.
Pergunta: A realização de si é tão importante?
Maharaj: Sem ela você será consumido por desejos e medos que se repetem insensatamente num interminável sofrimento. A maioria das pessoas não sabe que pode haver um fim para a dor. Mas uma vez que escutarem a boa notícia, ir além de todas as lutas e batalhas é a tarefa mais urgente que pode existir, obviamente. Você sabe que pode ser livre e agora cabe a você. Ou você permanece para sempre com fome e sede, anseios, buscando, segurando, tentando reter, e sempre perdendo e se entristecendo; ou sai totalmente em busca do estado de perfeição atemporal ao qual nada pode ser acrescentado, do qual nada é retirado. Nele, todos os desejos e medos estão ausentes, não porque foram abandonados, mas porque perderam o seu significado.
Pergunta: Até agora tenho acompanhado o que você fala. Agora, o que devo fazer?
Maharaj: Não há nada a fazer. Apenas seja. Não faça nada. Seja. Sem escalar montanhas e sentar em cavernas. Eu nem mesmo digo: “seja você mesmo”, um vez que você não se conhece. Simplesmente seja. Tendo visto que você não é nem o mundo “externo” das percepções, nem o mundo interno dos pensamentos, que você não é nem corpo nem mente — simplesmente seja.
Pergunta: Certamente, existem níveis de realização.
Maharaj: Não existem degraus para a auto-realização. Não há nada gradual a esse respeito. Acontece de repente e é irreversível. Você muda para uma nova dimensão, e as dimensões anteriores são meras abstrações vistas a partir dessa nova. Assim como no amanhecer você vê as coisas como elas são, é da mesma forma com a auto-realização, você vê tudo como é. O mundo de ilusões é deixado para trás.
Pergunta: No estado de realização as coisas mudam? Tornam-se coloridas e cheias de significado?
Maharaj: A experiência é certa, mas não é a experiência da realidade (sadanubhav), e sim da harmonia do universo (satvanubhav).
Pergunta: Não obstante, há progresso.
Maharaj: Pode haver progresso apenas na preparação (sadhana). A realização é súbita. O fruto amadurece lentamente, mas cai de repente e sem retorno.
Pergunta: Eu estou física e mentalmente em paz. Que mais eu preciso?
Maharaj: Seu estado pode não ser o estado último. Você vai reconhecer que você retornou ao seu estado natural por uma completa ausência de qualquer desejo e medo. Afinal, na raiz de todo desejo e medo está o sentimento de não ser o que você é. Assim como uma articulação do corpo provoca dores somente enquanto está fora de lugar, e é esquecida logo que é colocada de volta, também é toda a auto-preocupação um sintoma de uma distorção mental que desaparece logo que estamos no estado normal.
Pergunta: Sim, mas qual é o sadhana (prática espiritual) para alcançar o estado natural?
Maharaj: Segure-se no sentido de "eu sou" até a exclusão de todo o resto. Quando a mente se torna assim, completamente silenciosa, ela brilha com uma nova luz e vibra com novo conhecimento. Tudo vem espontaneamente, você só precisa se segurar no 'eu sou'. Assim como quando emergindo do sono ou de um estado de êxtase você se sente descansado e ainda não pode explicar o porquê e como você chegou a se sentir tão bem, da mesma forma, com a realização você se sente completo, preenchido, isento do complexo prazer-dor, e ainda assim nem sempre é capaz de explicar o que aconteceu, por quê e como. Você pode colocar isso apenas em termos negativos: “Nada mais está errado comigo." É apenas através da comparação com o passado que você sabe que você está fora disso. No mais — você é apenas você mesmo. Não tenta transmitir isso aos outros. Se você puder transmitir, então não é a coisa real. Você fica em silêncio e assiste isso se manifestar em ação.
Pergunta: Se você pudesse me dizer o que irei me tornar, poderia ajudar-me a cuidar do meu desenvolvimento.
Maharaj: Como alguém pode dizer o que você irá tornar-se, quando não há nenhum tornar-se? Você simplesmente descobre o que você é. Moldar-se de acordo com um padrão é um doloroso desperdício de tempo. Não pense nem no passado e nem do futuro, apenas seja.
Pergunta: Como posso apenas ser? As mudanças são inevitáveis.
Maharaj: As mudanças são inevitáveis no inconstante, mas você não está sujeito a elas. Você é o imutável pano de fundo, contra o qual as mudanças são perceptíveis.
Pergunta: Tudo muda, o pano de fundo também muda. Não há necessidade de um fundo imutável para notar as mudanças. O Ser é momentâneo - é apenas o ponto onde o passado encontra o futuro.
Maharaj: Claro que o ‘si mesmo’ (Self) que está baseado em memória é momentâneo. Mas tal Ser demanda uma continuidade ininterrupta atrás dele. Você sabe por experiência que existem lacunas quando seu si mesmo é esquecido. O que o traz de volta à vida? O que o acorda de manhã? Deve haver algum fator constante ultrapassando as lacunas na consciência. Se você olhar atentamente verá que até mesmo sua consciência é em flashes diários, com lacunas intervindo o tempo todo. O que está nas lacunas? O que pode haver, além do seu verdadeiro Ser, que é atemporal; a mente e a ausência de mente são a mesma coisa para ele.
Pergunta: Existe algum lugar que você me aconselharia visitar, a fim de atingir a realização espiritual?
Maharaj: O único lugar apropriado é dentro. O mundo exterior não pode nem ajudar nem prejudicar. Nenhum sistema, nenhum padrão de ação irá levá-lo ao seu objetivo. Abandone todo trabalho para um futuro, concentre-se totalmente sobre o agora, preocupe-se apenas com sua resposta a cada movimento da vida conforme ela acontece.
Pergunta: Qual é a causa do desejo de vagar por ai?
Maharaj: Não existe um motivo. Você simplesmente sonha que vagueia. Em uns poucos anos a sua estadia na Índia vai aparecer como um sonho para você. Você sonhará algum outro sonho naquele momento. Perceba que não é você quem se desloca de sonho em sonho, mas sim os sonhos fluem diante de você e você é a testemunha imutável. Nenhum acontecimento afeta o seu verdadeiro Ser — essa é a Verdade Absoluta.
Pergunta: Não é possível me movimentar por ai fisicamente e manter-me estável interiormente?
Maharaj: Você pode, mas a que propósito isso serve? Se você é sincero e sério você verá que no final vai ficar farto de perambular e lamentará o desperdício de energia e tempo. Para encontrar o seu Ser, você não precisa dar nenhum passo.
Pergunta: Existe alguma diferença entre a experiência do Ser (Atman) e do Absoluto (Brahman)?
Maharaj: Não pode haver experiência do Absoluto, pois ele está além de todas as experiências. Por outro lado, o Ser é o fator experimentador ocorrendo em todas as experiências e, assim, de certa forma, valida a multiplicidade de experiências. O mundo pode estar cheio de coisas de grande valor, mas se não há ninguém para comprá-las, elas não têm preço. O Absoluto contém tudo que é experimentável, mas sem um experimentador isso é como nada. Isto que torna a experiência possível é o Absoluto. Isto que as torna real é o Ser (Self).
Pergunta: Não chegamos ao Absoluto através de uma gradação de experiências? Começando com o mais grosseiro, e terminando com o mais sublime.
Maharaj: Não pode haver nenhuma experiência sem um desejo por ela. Pode haver gradação entre desejos, mas entre o mais sublime desejo e a libertação de todo desejo, há um abismo que deve ser atravessado. O irreal pode parecer real, mas é transitório. O real não tem medo do tempo.
Pergunta: O irreal não é a expressão do real?
Maharaj: Como é possível? É como dizer que a verdade se expressa em sonhos. Para o real o irreal não existe. Parece ser verdadeiro só porque você acredita nele. Duvide dele, e ele cessa. Quando você está apaixonado por alguém, você dá realidade a isso — você imagina o seu amor ser todo-poderoso e eterno. Quando termina, você diz: "Eu pensei que fosse verdadeiro, mas não era”. Transitoriedade é a melhor prova da irrealidade. O que está limitado no tempo e no espaço e é aplicável a uma pessoa só, não é real. O verdadeiro é para todos e para sempre. Acima de tudo você acaricia a si mesmo. Você não aceitaria nada em troca da sua existência. O desejo de ser é o mais forte de todos os desejos e irá embora apenas em face à realização de sua verdadeira natureza.
Pergunta: Mesmo no irreal existe um toque de realidade.
Maharaj: Sim, a realidade que você confere ao irreal, ao tomá-lo como sendo real. Tendo convencido a si mesmo, você está limitado por sua convicção. Quando o sol brilha, as cores aparecem. Quando ele se põe, elas desaparecem. Onde estão as cores, sem a luz?
Pergunta: Isso é pensar em termos de dualidade.
Maharaj: Todo pensamento está na dualidade. Na identidade nenhum pensamento sobrevive.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Hafiz (mestre Sufi - séc. XIV) - Este trabalho de ensinar não é fácil

A tarefa mais difícil
ao caçar-te, Deus,
É usar aquele arco e aquelas flechas
que destes ao meu coração.
Eles são feitos de simples água.
Eu miro de uma longa distância
para o Sol.
Hafiz, quem pode entender
o profundo absurdo de todo
o esforço neste caminho?
Por que não colocar esse antigo dilema
de outra maneira?
Escute:
Não foi apenas uma vez em nossa história
que uma formiga saiu e capturou
um elefante com apenas uma mão.
Isso não te diz alguma coisa nova?
Talvez não.
Este trabalho de ensinar
não
é
fácil.

Philokalia - São Simeão o Novo Teólogo (séc. X)

Nenhum homem que se considere sábio, por ter estudado todas as ciências e ser letrado em sabedoria externa, jamais penetrará os mistérios de Deus ou os verá, a menos que primeiro se torne humilde e tolo em seu coração, repudiando a sua própria opinião juntamente com o que adquiriu em sua aprendizagem. Um homem que age assim, e segue com destemida fé aqueles que são sábios nas coisas divinas, é guiado por eles e com eles entra na cidade do Deus vivo, e, ensinado e iluminado pelo Espírito Santo, vê e sabe coisas que nenhuma outra pessoa pode ver ou saber. Assim, ele passa a ser ensinado de Deus.

Os alunos de sábios deste mundo consideram aqueles ensinados de Deus tolos, enquanto que são eles que são verdadeiramente insensatos, uma vez que são formados apenas em sabedoria externa e distorcida; são aqueles que, de acordo com o divino apóstolo, "Deus fez insensatos" (Cor. I-20), e sobre os quais é dito: "Sua sabedoria não descendeu do alto, mas é terrena, sensual e diabólica"(III-15). Estando fora do compasso da luz divina, essas pessoas não podem ver os milagres que ela contém, e consideram como iludidos aqueles que, residindo nesta luz, vêem e ensinam o que vêem. Mas, na realidade, são eles os iludidos, que nunca experimentaram as bênçãos divinas.

Mesmo agora, vivem entre nós homens que estão livres das paixões, santificados e preenchidos com a Luz Divina. Pessoas que têm mortificado seus membros terrenos, limpamdo-os de todas as impurezas e luxúrias apaixonadas, nelas não apenas os pensamentos de más ações nunca entram em sua mente, como também não permitem interferências no seu estado “sem paixões” quando os outros incitam-lhes ao mal. Mesmo aqueles que os tratam com desprezo, e que se recusam a acreditar quando os escutam ensinar sobre as coisas divinas na sabedoria do Espírito, teriam-nos reconhecido, se tivessem entendido as palavras divinas que estudam e cantam diariamente. Pois, se eles conhecessem perfeitamente as Divinas escrituras, acreditariam nas bênçãos prometidas e concedidas por Deus. Mas uma vez que eles não participam dessas bênçãos, devido à sua opinião própria e auto-negligência, eles condenam e desconfiam daqueles a quem têm sido concedidas participação nas bênçãos e ensinam-lhes a respeito delas.

A única razão pela qual os homens repletos da graça divina e perfeitos em conhecimento e sabedoria superior, desejam sair para o mundo afim de conhecer pessoas que ali vivem, é direcionar os homens para as boas obras, lembrando-lhes os mandamentos divinos, dando-lhes assim, uma oportunidade de ganhar uma certa recompensa; se, naturalmente, eles escutarem, ouvirem e se convencerem.

Não sendo guiados pelo Espírito de Deus, caminham no escuro, não sabendo para onde vão, ou se vão ou não vão progredir em praticar um ou outro mandamento, portanto, os homens que vivem em graça vêm a eles com lembretes, desejando ajudá-los e esperando que um dia eles aceitem o verdadeiro ensinamento do Espírito Santo, que irá erguê-los da opinião própria que os possui, e, ouvindo sinceramente a vontade de Deus, sem hipocrisia ou orgulho próprio, irão se arrepender, a fim de obedece-Lo e, desta forma, tornando-se participantes em alguns dons espirituais. Se um homem santo, falha em obter resultados com os leigos que ele visita, então, lamentando sobre a cegueira e dureza de seus corações, ele volta para sua cela e reza dia e noite para salvação deles. Para o homem que está constantemente com Deus, e está preenchido com todas as bênçãos, não pode haver outra preocupação.

Shri Siddharameshwar Maharaj - Junho de 1933

Os desejos mundanos penetraram e se entrelaçaram com os pensamentos. É na companhia do corpo que o pensamento deu forma a si mesmo com o molde dos desejos. Então, surge uma pergunta: "Como é que eles podem ser separados"?
O "conhecimento de Brahman" nunca pode ser adquirido a menos que os desejos sejam abandonados. Devido ao conceito habitual de "fazer alguma coisa" e colher os seus frutos, nossa "consciência-interior" (Antahkarana) está inclinada na direção da satisfação dos desejos, e isso tem dado origem ao ego. Ao esquecer a "verdadeira natureza" (Swaroopa), a pessoa agarra-se ao conceito "eu sou o corpo", e a mente torna-se identificada com a consciência individual (Jiva). Essa é a razão pela qual ela se torna fascinada com desejos mundanos, e amante de prazeres sensuais. Se alguma vez os pensamentos tivessem sido a verdadeira natureza do indivíduo, eles teriam gravitado apenas na direção da consciência individual, e nunca teriam se envolvido com os desejos.
A consciência individual, enquanto esquece seu "verdadeiro ser", se esforça para satisfazer o pensamento. Como o pensamento tornou-se apaixonado pelos desejos, a consciência individual, em conformidade, torna-se obsecada por eles também. A consciência individual, de fato, é eternamente livre, e está apenas na forma de energia-vida. O orgulho pelo corpo, e o orgulho da mente, juntamente com o orgulho pela sua forma de pensar, cristalizaram-se em um rígido, porém falso, orgulho. É devido a esse orgulho que a consciência individual parece ter-se tornado o corpo, e em sua companhia constante, tem se rendido aos desejos.
Aquele que abandona todo o orgulho atinge a liberdade da prisão e sai do oceano da existência mundana. Como todos os objetos são apenas Paramatman, nada pode ser alegado. Deve-se ter a atitude de que "Tudo isto pertence a Paramatman, deixe que as coisas tomem seu próprio rumo. O que cabe a mim? Aconteça o que acontecer, o que quer que for perdido, não é assunto meu." Aquele que se comporta dessa maneira é transformado em Paramatman.
É dito que "desapego intenso" é a renúncia total; que "desapego puro" é viver neste mundo como se estivéssemos numa casa de hóspedes; enquanto que o "desapego moderado" consiste em gradualmente se retirar das coisas mundanas. Quando nenhum desses três é possível, servir os santos e os sábios com uma total dedicação do nosso corpo, mente e riqueza pode ajudar a gerar desapego.
A fortuna do Yogi é verdadeiramente grande, quando o desapego do corpo é estabelecido. Deve-se renunciar a todos os desejos. O orgulho está associado à casa, à esposa, aos filhos, à riqueza e deve ser abandonado. Isso ajuda a nos livrar da escravidão. A fim de abandonar o orgulho, é preciso praticar a adoração. Deveríamos saber e dizer: "Eu não sou o corpo, eu sou o Ser (Self)". Devemos dizer: "Eu sou Ele, O que está em todos". Após a expulsão dos desejos, passamos a saber que todos os seres são Paramatman. É assim, quando a consciência individual atinge o estado de Paramatman. Uma vez que os desejos e os pensamentos são falsos, como é possível que alguma vez realmente afetem a consciência individual?
A consciência individual, com a ajuda do corpo tem satisfeito muitos desejos neste mundo transitório. Os pensamentos, na companhia dos desejos tornaram-se passionais. Dia e noite, o intelecto (Buddhi) pensa em desejos sensuais que lhe são queridos. Essa é a razão pela qual o orgulho associado aos desejos veio a existir. Laços fortes têm sido desenvolvidos com desejos mundanos, e seus conceitos tornaram-se uma obstrução. Devido ao orgulho associado com o corpo, a consciência individual considera todas as coisas relacionadas com o corpo, sejam boas ou ruins, como sendo dela própria. O indivíduo tem, portanto, esquecido sua própria "natureza real" (Swaroopa) e em vez disso, concentrou-se em desejos.
"Conhecimento" não é nada além de uma mudança radical no intelecto. No momento em que a pessoa for verdadeiramente iniciada, ou começar a comportar-se de acordo com o conselho do Mestre, pode imediatamente atingir a libertação. Escutar e refletir sobre o discurso espiritual é o único método para se chegar à "verdade última" (Paramartha).

sábado, 31 de janeiro de 2009

Shri Samartha Ramdas Maharaj (santo hindú-séc XVII) - Diferença entre Ilusão (Maya) e Brahman

* Brahman é sem atributos e é sem forma. A ilusão tem atributos e formas. Brahman não tem fronteiras nem limites, a ilusão sim.
* Brahman é puro e imutável. A ilusão é ativa e agitada. Brahman apenas é incorruptível por qualquer cor ou forma, enquanto a ilusão é cor e forma.
* A ilusão é vista, Brahman não pode ser visto. A ilusão é perceptível, Brahman não pode ser percebido. A ilusão é destruída, Brahman é indestrutível mesmo com a dissolução final de toda a criação.
* A ilusão é criada, Brahman não pode ser criado. A ilusão pode deteriorar-se, Brahman não pode. A ilusão pode ser acumulada pelo ignorante, Brahman não pode.
* A ilusão é nascida, Brahman não é nascido. A ilusão morre, Brahman não morre. A ilusão pode ser concebida, Brahman não pode ser compreendido pelo intelecto.
* Ilusão se quebra, Brahman não pode quebrar. A ilusão pode ser cortada, Brahman não pode ser cortado. A ilusão fica velha e esfarrapada, Brahman não fica velho e esfarrapado, uma vez que é indestrutível.
* A ilusão está sujeita a modificação, Brahman é imutável. A ilusão faz tudo, Brahman não faz nada. A ilusão assume muitas formas, Brahman é sem forma.
* A ilusão é da natureza temporária dos Cinco Elementos e é muitos, Brahman é eterno e é uno. A diferença entre ilusão e Brahman é entendida por aqueles que utilizam o poder de discriminação.
* A ilusão é inferior, Brahman é superior. A ilusão é o não-essencial, Brahman é a essência. A ilusão está do lado do mundo, Brahman não tem lados.
* A ilusão dilata-se cobrindo Brahman. No entanto, os sábios tem peneirado Brahman através da discriminação.
* Ao limpar o musgo de uma superfície, devemos usar água. Ao jogar fora a água da mistura do leite com água, devemos ficar com o leite. Da mesma forma, abandonando a ilusão, sua experiência deveria ser de Brahman.
* Brahman é limpo como o céu, a ilusão é enlameada como a terra. Brahman apenas é sutil, enquanto a ilusão é a forma grosseira.
* Brahman não é visível, enquanto que a ilusão é visível e vista. Brahman é uniforme e invariável, a ilusão é, por natureza, diferentes formas.
* A ilusão é um objeto visível, Brahman não é. A ilusão é testemunhada, Brahman não pode ser testemunhado. Na ilusão, existem dois lados (a dualidade), Brahman não tem lados.
* A ilusão é a afirmação de um argumento, Brahman é a declaração final. A ilusão é efêmera, Brahman é eterno. Brahman não tem uma causa ou finalidade de sua existência, a ilusão sim.
* Brahman é homogêneo e sólido, a ilusão é constituída pelos cinco elementos e é oca. Brahman é sempre impecável, a ilusão é velha e esfarrapada.
* A ilusão é tornada, Brahman se tornou. A ilusão cai, Brahman não pode cair. A ilusão se estraga, Brahman não pode ficar estragado, é apenas como é.
* Brahman sempre existe, a ilusão desaparece após a dissolução. Não há fim para Brahman, mesmo após a dissolução final, enquanto que a ilusão termina.
* Ilusão é dura, Brahman é sutil. A ilusão é muito pequena, Brahman é vasto. A ilusão pode ser destruída, Brahman permanece sempre.
* Brahman não pode realmente ser descrito, ou ser dito como sendo algo. A ilusão parece ser como descrita. O tempo não pode consumir Brahman, enquanto que ele consome a ilusão.
* Uma multiplicidade de formas e cores são a ocorrência da ilusão. A ilusão se quebra, mas Brahman é inquebrável, é para sempre tal como é.
* Agora chega desta longa narração. Toda a criação animada e inanimada é toda ilusão. O Deus Supremo Uno (Parameshwara) impregna tudo por dentro e por fora.
* Este Ser Supremo, Paramatman, é diferente de todos os rótulos e atributos. Assim como o reflexo do céu está na água, mas o céu em si não é encontrado na água, tal é Parabrahman.
* Por meio de explicação, e do inquérito sobre a ilusão e Brahman, podemos escapar do nascimento e da morte. Quando nos rendermos aos santos, poderemos atingir a liberação.
* Não há limite para falar da grandeza dos santos. Por causa deles, percebemos o "Ser Universal".

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A arte da divina presença

No site http://www.beingpresent.org/ há informações sobre a Fellowship of Friends - uma escola prática para o desenvolvimento espiritual .

Meher Baba - O longo sonho ...

...
Agora, estamos falando sobre tais coisas elevadas. Estou explicando todas estas coisas elevadas a vocês, mas é tudo superficial. Por quê? Porque o que eu digo, sou eu mesmo que escuto através de suas orelhas. Eu estou eternamente livre em mim; Eu estou eternamente limitado em vocês. Existe somente “Eu”, não existe nenhum “você”. Sou somente “EU” em toda parte. Em você, eu sou limitado. Vocês estão sentados diante de mim, vocês me vêem com seus olhos, vocês vêem a paisagem ao redor, os campos, os montes. Eu digo que vocês estão todos sonhando. Mas vocês não acreditam!
Suponha que o Sarosh vai dormir a noite e sonha sobre todas as coisas que eu estou dizendo. Mas, apesar de eu dizer-lhe em seu sonho que é um sonho, ele não pode acreditar nisso e toma o sonho como sendo real! Tão logo acorda, ele sabe automaticamente que, na realidade, era tudo um sonho. Similarmente, vocês estão todos sonhando agora - um longo sonho mundano. Pelas eras, vocês têm sonhado este sonho e, nele, vocês tiveram inúmeros nascimentos, famílias e mortes. Mas vocês assumem este sonho como sendo real! Quando tiverem despertado deste sonho, isto é, quando realizarem Deus, vocês saberão espontaneamente que estiveram sonhando o tempo todo e que tudo o que eu estou dizendo agora é verdadeiro.

Sheikh Saadi (poeta persa - séc.XII) - Humildade

Deus todo poderoso criou-te do pó.
Então criação - Sê humilde como pó!
Não sejas cheio de orgulho, um incendiário e refratário;
Ele te criou do pó - não sejas como o fogo!
Onde quer que o terrível fogo tenha mostrado sua arrogância
O pó deixou cair seu corpo de forma submissa.
Um mostrou desdenho e o outro humildade.
Do primeiro Satã foi criado e do último os seres humanos.

_______________________________________________
Uma gota de chuva escorrendo das nuvens
Sentiu-se envergonhada quando viu a vastidão do oceano
"Quando existe o oceano, o que sou eu?
Se ele está lá, então não estou em lugar algum."
Quando a gota viu-se com humildade
Uma ostra adotou-a e nutriu-a com o coração:
O Destino prosseguiu seu trabalho de tal forma
Que ela tornou-se uma célebre pérola,
Como um rei, atingiu o caráter mais sublime.
Quando ela se tornou humilde;
Batendo na porta da não-existência, tornou-se existente.

_______________________________________________

Um rapaz inteligente de hábitos castos,
Desembarcou no porto do Rum.
Viram nele exaltação, a vocação de um Dervixe,
E um comportamento correto.
Seus pertences foram colocados num lugar honroso.
Um dia o líder dos virtuosos lhe disse
Para tirar o pó e varrer a mesquita.
Logo que o rapaz ouviu isto ele saiu e
Ninguém o viu lá novamente.
Os outros colegas e o líder pensaram
Que o dervixe não tinha inclinação para servir.

Um servo da mesquita encontrou-o no caminho:
"Com tua ação desprovida de julgamento
fizestes uma coisa sem graça, Ó jovem vaidoso.
Não entendes que as pessoas atingem um grau
de honra através do serviço?"
Com paixão e probidade o jovem exclamou:
"Ó amigo que inflama corações e nutre a vida,
Eu não vi nenhuma poeira ou qualquer necessidade
de varrer a mesquita. Era eu que estava cheio de poeira
nesse lugar sagrado! Eu me retirei deliberadamente ,
Pois a mesquita fica melhor sem pó e palha".

Não há caminho para o dervixe além do manter
o seu corpo pisado sob o pé. Se procuras exaltação,
pratica a humildade, porque não há outra escada para
aquele pavimento superior.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Hakim Sanai (Sufi do século XII) - Orientação da minhoca


Deus sabe o quão profundo ou raso cada alma pode navegar,
Ele conhece a imagem de cada criatura. Deus cria a tua sabedoria
como parte da sabedoria Dele, não há mente nisso.
A mente é feita dos elementos, assim como os desejos vem ao corpo.

Outro conhecimento vive fora do tempo.
Silêncio diante disso é a maior eloquência, a sua melhor vida.
Você não tem nenhum desejo capaz de desejar por aquilo
que Deus já fez para você. Conecte o amanhã com hoje e,
entre numa nova alegria.

Deus fala! Isso é o bastante! Deus está procurando por você!
Seja como um aleijado. Permaneça calmo, e em um lugar;
a ignorância está justamente com aquela inteligência.
Aquele que transforma o existente em não-existente,
Pára o ritmo menstrual para construir uma criança.

A tua forma contém o mistério de Deus nela.
Deus te conhece muito melhor do que conheces a ti mesmo.
Não chora teus pesares. Deus já o está fazendo.
Ele ouve os passos das formigas no chão, a pedra à noite,
a pedra deslocando-se no rio e ouve as minhocas
cantando em louvor no interior da terra.

Assim como a minhoca recebe substância da terra na qual ela se move,
orientação nos é dada. Segue o que vives internamente, o que te foi dado;
ou chegarás ao final nadando num oceano da tua própria vergonha.