quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Bhagavan Sri Ramana Maharshi - Nan Yar? (Quem sou eu?)

1. Quem sou eu?
O corpo grosseiro, que é composto dos sete humores (dhatus), não sou eu; os cinco órgãos de cognição sensitiva, ou seja: os sentidos de ouvir, tocar, ver, saborear, e cheirar, que apreendem seus respectivos objetos, ou seja: som, toque, cor, sabor, e odor, não sou eu; os cinco órgãos sensoriais cognitivos, ou seja: os órgãos da fala, locomoção, compreensão, excreção e procriação, que têm como suas respectivas funções aquelas de falar, movimentar, compreender, excretar, e desfrutar, não sou eu; as cinco respirações vitais, prana, aprana, vyana, udana e samana; que atuam respectivamente nas cinco funções do inspirar, expirar, etc... não sou eu; mesmo a mente que pensa, não sou eu; e também a ignorância, que é provida apenas com as impressões residuais dos objetos e nas quais não há objetos e nenhuma função, não sou eu.
2. Se não sou eu nenhum desses, então quem sou eu?
Depois de negar tudo mencionado acima por meio do ‘não sou isto’, ‘não sou aquilo’, aquela Consciência que permanece sozinha – isso sou Eu.
3. Qual é a natureza da Consciência?
A natureza da Consciência é Satchiananda (existência/consciência/graça).
4. Quando a realização do Ser será obtida?
Quando o mundo, que é aquilo que é visto for removido, haverá realização do Ser, o qual é o observador.
5. Não haverá realização do Ser enquanto o mundo estiver lá (sendo tomado como real)?
Não
6. Por quê?
O observador e o objeto visto são como a corda e a cobra. Assim como o conhecimento da corda, que é o substrato, não surgirá a menos que o falso conhecimento da ilusória serpente saia; assim a realização do Ser, que é o substrato, não será obtida a menos que a crença de que o mundo é real seja removida.
7. Quando o mundo, que é o objeto visto, será removido?
Quando a mente, que é a causa de todas as cognições e de todas as ações tornar-se quieta, o mundo desaparecerá.
8. Qual é a natureza da mente?
Aquilo que é chamado de ‘mente’ é um notável poder que reside no Ser. Ele causa o surgimento de todos os pensamentos. Sem os pensamentos não existe tal coisa como a mente. Portanto, o pensamento é a natureza da mente. Sem os pensamentos não há uma entidade independente chamada mundo. No sono profundo não existem pensamentos e também não há mundo. Assim como uma aranha emite o fio (da teia) para fora e de novo o recolhe para dentro de si, da mesma forma a mente projeta o mundo fora dela e de novo o analisa dentro de si mesma. Quando alguém persistentemente investiga a natureza da mente, a mente termina por deixar o Ser (como o resíduo).
O que é referido como o Ser é o Atman. A mente existe apenas em dependência de algo denso; ela não pode permanecer sozinha. É a mente que é chamada de corpo sutil ou de alma individual (jiva).
9. Qual é o caminho de investigação para compreender a natureza da mente?
Aquilo que surge como ‘eu’ neste corpo é a mente. Se alguém perguntasse qual é o primeiro lugar no corpo em que o pensamento ‘eu’ surge, ele descobriria que ele surge no coração. Esse é o lugar da origem da mente.
Mesmo se alguém pensasse constantemente em ‘eu’ ‘eu’, ele seria conduzido àquele lugar. De todos os pensamentos que surgem na mente, o pensamento ‘eu’ é o primeiro. É somente depois de seu surgimento que outros pensamentos surgem. É depois do aparecimento do pronome de primeira pessoa que os de segunda e terceira pessoa aparecem; sem o pronome de primeira pessoa não haveria os de segunda e terceira.
10.Como a mente se tornará quieta?
Pela investigação ‘Quem sou eu?’. O pensamento ‘quem sou eu?’ irá destruir todos os outros pensamentos, e como a vareta usada para avivar uma fogueira, será ele próprio destruído no final. Então, surgirá a realização do Ser (Auto-realização).
11. Quais são os meios para manter-se constantemente no pensamento ‘Quem sou eu?’?
Quando outros pensamentos surgem, não devemos segui-los, mas sim perguntar: “Para quem eles surgem?” Não importa quantos pensamentos surjam. Para cada pensamento que surgisse, deveria ser questionado com diligência: “Para quem este pensamento surgiu?”. A resposta que emergiria seria “Para mim”. Logo em seguida se perguntássemos “Quem sou eu?”, a mente irá retornaria para sua fonte; e o pensamento surgido ficaria quieto. Com repetida prática, dessa maneira, a mente desenvolverá o conhecimento para permanecer em sua fonte. Quando a mente que é sutil, passa através do cérebro e dos órgãos sensitivos, os nomes densos e as formas aparecem, quando ela fica no coração, os nomes e as formas desaparecem.
Não deixar a mente fugir, mas mantê-la no Coração é o que é chamado “intimidade” (antarmukha).
Deixar a mente fugir do Coração é conhecido como “exteriorização” (bahir-mukha). Portanto, quando a mente fica no Coração, o ‘eu’ que é a fonte de todos os pensamentos passará, e o Ser que sempre existiu brilhará. Qualquer coisa que se faça deve ser feita sem o “eu” egoísta. Se alguém age deste modo, tudo se mostrará ser da natureza de Shiva (Deus).
12. Não existem outros meios para fazer a mente aquietar-se?
Além da investigação de si, não existem meios adequados. Se através de outros meios pudéssemos buscar o controle da mente, a mente pareceria estar controlada, mas de novo seguiria adiante. Também, através do controle da respiração, a mente se tornará quieta; mas ela estará quieta somente durante o tempo que a respiração permanecer controlada; e quando a respiração retomar seu fluxo, a mente também começará a mover-se de novo e irá vagar impelida por impressões residuais.
A fonte é a mesma tanto para a mente como para a respiração. Pensamento, de fato, é a natureza da mente. O pensamento ‘eu’ é o primeiro pensamento da mente; e isso é egoísmo. É dali que se origina o egoísmo e também a respiração. Portanto, quando a mente torna-se quieta, a respiração é controlada, e quando a respiração é controlada a mente torna-se quieta. Mas, em sono profundo, embora a mente torne-se quieta, a respiração não pára. Isso ocorre pela vontade de Deus, de modo que o corpo possa ser preservado e outras pessoas possam não estar sob a impressão de que ele está morto. No estado desperto e no samadhi, quando a mente torna-se quieta, a respiração é controlada. Respiração é a forma densa da mente. Até o momento da morte, a mente mantém a respiração no corpo; e quando o corpo morre a mente leva a respiração junto com ela. Portanto, o exercício de controle respiratório é somente um auxílio para deixar a mente quieta (manonigraha); ele não destruirá a mente (manonash).
Assim como a prática do controle respiratório, meditar sobre as formas de Deus, repetir mantras, restringir a alimentação, etc são apenas auxiliares para render a mente quieta.
Através da meditação nas formas de Deus e através da repetição de mantras, a mente torna-se focada. A mente sempre está vagando. Assim como quando uma corrente é dada a um elefante para que ele a segure em sua tromba, ele segue agarrado à corrente e nada mais, do mesmo modo, quando a mente está ocupada com um nome ou uma forma, ela apenas se agarrará àquilo. Quando a mente se expande na forma de incontáveis pensamentos, cada pensamento torna-se fraco; mas assim que os pensamentos conseguem poder de decisão, a mente torna-se focada e forte: para uma mente assim a Auto-investigação torna-se fácil. De todas as regras restritivas, aquela relacionada a comer alimentos ‘sattvicos’ em quantidades moderadas é a melhor; através da observação desta regra, a qualidade ‘sattvica’ da mente crescerá, e isso será útil para a Auto-investigação.
13. As impressões residuais (pensamentos) de objetos parecem ir como as ondas de um oceano. Quando todas elas serão destruídas?
Quando a meditação no Ser elevar-se mais e mais alto, os pensamentos serão destruídos.
14. É possível que as impressões residuais de objetos que vêm de tempos imemoriais, por assim dizer, sejam dissolvidas e que uma pessoa permaneça como o puro Ser?
Sem submeter-se à dúvida “É possível, ou não?”, uma pessoa deve persistentemente manter-se na meditação do Ser. Mesmo que seja uma grande pecadora, ela não deveria nem se preocupar e nem chorar: “Oh! Eu sou um pecador, como posso ser salvo?" Ela deveria renunciar completamente ao pensamento “Eu sou um pecador” e concentrar-se agudamente na meditação do Ser; então, ela certamente será bem sucedida. Não há duas mentes – uma boa e outra má; a mente é apenas uma. São as impressões residuais que são de dois tipos – favoráveis ou desfavoráveis. Quando a mente está sob a influência de impressões favoráveis ela é chamada boa e quando está sob a influência de impressões desfavoráveis é considerada má.
Não deveríamos permitir que a mente vagasse na direção de objetos mundanos e nem na direção daquilo que concerne às outras pessoas. Não importa quão ruins as outras pessoas possam ser, não deveríamos sustentar nenhuma aversão para com elas. Tanto o desejo quanto a aversão deveriam ser evitados. Tudo aquilo que damos aos outros damos a nós mesmos. Se essa verdade é compreendida, quem não irá dar aos outros? Quando alguém se eleva tudo se eleva; quando alguém torna-se quieto, tudo torna-se quieto. Na medida em que nos comportarmos com humildade, haverá proporcionalmente bom resultado. Se a mente torna-se quieta, a pessoa pode viver em qualquer lugar.
15. Por quanto tempo a investigação deve ser praticada?
Enquanto existirem impressões de objetos na mente, a investigação “Quem sou eu?” é necessária. Assim que surgem os pensamentos, eles devem ser destruídos ali mesmo no exato lugar de sua origem através da investigação. Se alguém faz uso da contemplação do Ser ininterruptamente, até que o Ser seja obtido, isso por si só já é suficiente. Enquanto houverem inimigos dentro da fortaleza, eles continuarão atacando; se forem destruídos assim que emergirem, a fortaleza cairá em nossas mãos.
16. Qual é a natureza do Ser?
O que existe na verdade é somente o Ser. O mundo, a alma individual e Deus são aparências, aspectos dele. Como a prata na madrepérola, esses três aspectos aparecem ao mesmo tempo e desaparecem ao mesmo tempo. O Ser é o lugar onde não há absolutamente nenhum pensamento de ‘eu’. Isso é chamado “silêncio”. O próprio Ser é o mundo; o próprio Ser é o ‘Eu’; o próprio Ser é Deus; tudo é Shiva, o Ser.
17. Não são todas as coisas o trabalho de Deus?
Sem desejo, decisão ou esforço, o sol surge; e em sua mera presença, a pedra-sol emite fogo, o lótus floresce, a água evapora, as pessoas executam suas várias funções e então descansam. Assim como só pela presença do magneto a agulha já se move, é pela virtude da mera presença de Deus que as almas, governadas pelas três funções cósmicas ou pelas cinco atividades divinas, executam suas ações e então descansam, de acordo com seus respectivos karmas. Deus não tem intenção; nenhum karma vincula-se a Ele. São como ações mundanas que não afetam o sol, ou como os méritos e desméritos dos quatro elementos que não afetam o espaço todo-abrangente que eles ocupam.
18. Dos devotos, quem é o maior?
Aquele que entrega a si mesmo ao Ser o qual é Deus, é o mais excelente dos devotos. Entregar-se a Deus significa permanecer constantemente no Ser sem dar espaço para o surgimento de quaisquer pensamentos além daquele do Ser. Quaisquer que sejam os fardos, são descarregados em Deus, Ele os carrega. Já que o supremo poder de Deus faz todas as coisas se moverem, porque deveríamos, sem que nos submetermos a Ele, constantemente nos preocupar com pensamentos sobre aquilo que deveria ser feito e como deveria ser feito, e aquilo que não deveria ser feito e como não deveria? Nós sabemos que o trem carrega todas as cargas, e assim, depois de pegá-lo, por que deveríamos carregar nossa pequena bagagem na cabeça para nosso desconforto ao invés de colocá-la no chão do trem e nos sentirmos aliviados?
19. O que é o não-apego?
Assim que os pensamentos surgem, destruí-los sem deixar qualquer resíduo no exato lugar de sua origem, é o não-apego. Assim como um catador de pérolas amarra uma pedra na sua cintura, submerge para o fundo do mar e lá pega as pérolas, de mesmo modo, cada um de nós deveria ser dotado com o não-apego e mergulhar dentro de si para obter o Ser-Pérola.
20. É possível para Deus e para o Guru efetuar a libertação de uma alma?
Somente Deus e o Guru mostrarão o caminho para a libertação; por si mesmos eles não levarão a alma ao estado de libertação. Na verdade, Deus e o Guru não são diferentes. Assim como a presa que caiu na jaula de um tigre não tem escapatória, aqueles que chegaram dentro do âmbito do gracioso olhar do Guru serão salvos pelo Guru e não ficarão perdidos; ainda assim, cada um deve por seu próprio esforço percorrer o caminho mostrado por Deus ou pelo Guru e obter a libertação. Uma pessoa pode conhecer a si mesma somente com o próprio olho do conhecimento e não com o de outra pessoa. Aquele que é Rama precisa da ajuda de um espelho para saber que ele é Rama?
21. É necessário para aquele que anseia pela libertação investigar sobre a natureza das categorias (tattvas)?
Assim como alguém que quer jogar o lixo fora não precisa analisá-lo e ver o que ele é, do mesmo modo, aquele que quer conhecer o Ser não tem que contar o número de categorias ou investigar sobre suas características; o que ele tem de fazer é rejeitar todas as categorias que escondem o Ser. O mundo deveria ser considerado como um sonho.
22. Não há diferenças entre a vigília e o sonho?
A vigília é longa e o sonho é curto, além dessa não há outra diferença. Assim como os acontecimentos da vigília parecem ser reais enquanto estamos despertos, do mesmo modo nos parecem os de um sonho enquanto sonhamos.
No sonho a mente toma outro corpo. Tanto no estado de sonho como no de vigília, os pensamentos, nomes e formas ocorrem simultaneamente.
23. Ler livros é de alguma utilidade para aqueles que desejam a libertação?
Todos os textos dizem que para obter a libertação uma pessoa deve tornar a mente quieta; portanto, o ensinamento conclusivo é de que a mente deve se fazer quieta; uma vez que isso tenha sido entendido, não há necessidade de intermináveis leituras. Para aquietar a mente, uma pessoa tem somente que investigar dentro de si aquilo que é o Ser; como essa busca poderia ser feita em livros? A pessoa deve conhecer o seu Ser com o seu próprio olho da sabedoria. O Ser está dentro dos cinco invólucros; enquanto que os livros estão fora deles. Já que o Ser tem de ser investigado através do descarte dos cinco invólucros, é fútil procurar por ele em livros. Chegará um momento em que a pessoa terá de esquecer tudo aquilo que aprendeu.
24. O que é felicidade?
Felicidade é a real natureza do Ser; felicidade e o Ser não são diferentes. Não há felicidade em qualquer objeto do mundo. Nós imaginamos através da nossa ignorância que recebemos felicidade dos objetos. Quando a mente vai para fora, ela experimenta miséria. Na verdade, quando seus desejos são satisfeitos, ela retorna ao seu próprio lugar e desfruta da felicidade que é o Ser. Do mesmo modo, nos estados de sono profundo, samadhi e desfalecimento, e quando o objeto desejado é obtido ou quando o objeto indesejado é removido, a mente torna-se direcionada para o interior e desfruta a pura felicidade do Ser. Assim, a mente move-se alternadamente sem descanso indo para fora do Ser e retornando a ele. Debaixo da árvore a sombra é agradável; fora dela, em área aberta, o calor é escaldante. Uma pessoa que esteve sob o sol, sente-se refrescada quando chega na sombra. Alguém que insiste em ir da sombra ao sol e logo volta à sombra é um tolo. Um homem sábio fica permanentemente na sombra. Similarmente, a mente de alguém que conhece a verdade não abandona Brahma. A mente do ignorante, ao contrário, revolve-se no mundo sentindo-se miserável, retornando por um breve tempo a Brahma para experimentar felicidade. De fato, aquilo que é chamado mundo é somente pensamento. Quando o mundo desaparece, isto é, quando não há pensamento, a mente experimenta felicidade; e quando o mundo aparece, ela experimenta miséria.
25. O que é sabedoria-intuitiva (jnana-drishti)?
Permanecer quieto é chamado de sabedoria-intuitiva. Permanecer quieto é dissolver a mente no Ser. Telepatia, saber dos acontecimentos passados, presentes e futuros, assim como a clarividência, não constituem sabedoria-intuitiva.
26. Qual é a relação entre ausência de desejo e sabedoria?
Ausência de desejo é sabedoria. Os dois não são diferentes; eles são o mesmo. Ausência de desejo é evitar voltar a mente em direção a qualquer objeto. Sabedoria significa a aparição de nenhum objeto. Em outras palavras, não buscar qualquer outra coisa além do Ser é desapego ou ausência de desejo; não deixar o Ser é sabedoria.
27. Qual é a diferença entre investigação e meditação?
Investigação consiste em reter a mente no Ser. Meditação consiste em pensar que o próprio Ser é Brahma, existência-consciência-graça.
28. O que é libertação?
Investigar sobre a natureza do seu Ser que está escravizado e perceber sua verdadeira natureza é libertação.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Nisargadatta Maharaj - O transitório não pode ser real


Pergunta: Meu amigo é alemão e eu nasci na Inglaterra de pais franceses. Estou na Índia há mais de um ano indo de Ashram em Ashram.
Maharaj: Você realiza alguma prática espiritual (sadhana)?
Pergunta: Estudos e meditação.
Maharaj: Sobre o que você medita?
Pergunta: Sobre o que leio.
Maharaj: Ótimo.
Pergunta: O que você está fazendo, senhor?
Maharaj: Sentado.
Pergunta: E o que mais?
Maharaj: Falando.
Pergunta: Sobre o que você está falando?
Maharaj: Você quer uma palestra? É melhor você perguntar algo que realmente te toca, com o qual você se sinta fortemente relacionado. A menos que você esteja emocionalmente envolvido, você pode argumentar comigo mas não haverá um verdadeiro entendimento entre nós. Se você disser: 'Nada me preocupa, eu não tenho problemas’, está tudo bem comigo, podemos nos manter quietos. Mas, se algo realmente toca você, então há propósito em falar.
Posso perguntar-lhe? Qual é o propósito da sua ida de um lugar para o outro?
Pergunta: Para encontrar as pessoas, para tentar entendê-las.
Maharaj : Que pessoas você está tentando entender? O que exatamente você está procurando?
Pergunta: A integração.
Maharaj: Se você deseja integração, é necessário saber a quem você quer integrar.
Pergunta: Ao conhecer as pessoas e observá-las, acabamos conhecendo a nós mesmos também. Ambos caminham juntos.
Maharaj: Não necessariamente caminham juntos.
Pergunta: Um melhora o outro.
Maharaj: Não funciona dessa forma. O espelho reflete a imagem, mas a imagem não melhora o espelho. Você não é nem o espelho nem a imagem no espelho. Tendo aperfeiçoado o espelho para que ele reflita corretamente, você pode realmente virar o espelho e ver nele um verdadeiro reflexo de si mesmo — verdadeiro, tanto quanto o espelho possa refletir. Mas o reflexo não está sozinho — você é aquele que vê o reflexo. Entenda claramente — o que quer que você possa perceber não é você, o que você percebe não é você.
Pergunta: Eu sou o espelho e o mundo é a imagem?
Maharaj : Você pode ver tanto a imagem quanto o espelho. Você não é nenhum dos dois. Quem é você? Não vá por fórmulas. A resposta não está em palavras. O mais próximo que você pode dizer em palavras é o seguinte: eu sou o que torna a percepção possível — a vida além do experimentador e de suas experiências. Agora, você pode separar-se tanto do espelho quanto da imagem no espelho e ficar completamente sozinho, totalmente só?
Pergunta: Não, eu não posso.
Maharaj : Como você sabe que não pode? Há tantas coisas que você está fazendo sem saber como fazê-las. Você digere, você circula seu sangue e sua linfa, você move seus músculos — tudo sem saber como. Da mesma maneira, você percebe, você sente, você pensa sem saber como acontece e o por quê disso. Do mesmo modo, você é você mesmo sem saber. Não há nada de errado com você como Ser (Self). Ele é aquilo que é até a perfeição. É o espelho que não é claro e verdadeiro, e, portanto, dá falsas imagens a você. Você não precisa corrigir a Si mesmo — só precisa configurar direito sua idéia de si mesmo. Aprenda a separar-se da imagem e do espelho, mantenha-se lembrando: eu não sou nem a mente nem suas idéias; faça isso pacientemente e com convicção e você certamente vai chegar à visão direta de você como sendo a fonte do ser — da sabedoria — e do amor; eterno, permeando tudo, abarcando todas as coisas. Você é o infinito focado em um corpo. Agora, você vê apenas o corpo. Experimente de maneira séria e sincera e chegará a ver apenas o infinito.
Pergunta: A experiência da realidade, quando vem, é duradoura?
Maharaj: Toda experiência é necessariamente transitória. Mas a plataforma de todas as experiências é imutável. Nada que possa ser chamado de "um evento" irá durar. Mas alguns eventos purificam a mente, e outros a mancham. Momentos de insight profundo e de amor abrangente purificam a mente, enquanto que desejos e lágrimas, invejas e raiva, crenças cegas e arrogância intelectual poluem e entorpecem a psique.
Pergunta: A realização de si é tão importante?
Maharaj: Sem ela você será consumido por desejos e medos que se repetem insensatamente num interminável sofrimento. A maioria das pessoas não sabe que pode haver um fim para a dor. Mas uma vez que escutarem a boa notícia, ir além de todas as lutas e batalhas é a tarefa mais urgente que pode existir, obviamente. Você sabe que pode ser livre e agora cabe a você. Ou você permanece para sempre com fome e sede, anseios, buscando, segurando, tentando reter, e sempre perdendo e se entristecendo; ou sai totalmente em busca do estado de perfeição atemporal ao qual nada pode ser acrescentado, do qual nada é retirado. Nele, todos os desejos e medos estão ausentes, não porque foram abandonados, mas porque perderam o seu significado.
Pergunta: Até agora tenho acompanhado o que você fala. Agora, o que devo fazer?
Maharaj: Não há nada a fazer. Apenas seja. Não faça nada. Seja. Sem escalar montanhas e sentar em cavernas. Eu nem mesmo digo: “seja você mesmo”, um vez que você não se conhece. Simplesmente seja. Tendo visto que você não é nem o mundo “externo” das percepções, nem o mundo interno dos pensamentos, que você não é nem corpo nem mente — simplesmente seja.
Pergunta: Certamente, existem níveis de realização.
Maharaj: Não existem degraus para a auto-realização. Não há nada gradual a esse respeito. Acontece de repente e é irreversível. Você muda para uma nova dimensão, e as dimensões anteriores são meras abstrações vistas a partir dessa nova. Assim como no amanhecer você vê as coisas como elas são, é da mesma forma com a auto-realização, você vê tudo como é. O mundo de ilusões é deixado para trás.
Pergunta: No estado de realização as coisas mudam? Tornam-se coloridas e cheias de significado?
Maharaj: A experiência é certa, mas não é a experiência da realidade (sadanubhav), e sim da harmonia do universo (satvanubhav).
Pergunta: Não obstante, há progresso.
Maharaj: Pode haver progresso apenas na preparação (sadhana). A realização é súbita. O fruto amadurece lentamente, mas cai de repente e sem retorno.
Pergunta: Eu estou física e mentalmente em paz. Que mais eu preciso?
Maharaj: Seu estado pode não ser o estado último. Você vai reconhecer que você retornou ao seu estado natural por uma completa ausência de qualquer desejo e medo. Afinal, na raiz de todo desejo e medo está o sentimento de não ser o que você é. Assim como uma articulação do corpo provoca dores somente enquanto está fora de lugar, e é esquecida logo que é colocada de volta, também é toda a auto-preocupação um sintoma de uma distorção mental que desaparece logo que estamos no estado normal.
Pergunta: Sim, mas qual é o sadhana (prática espiritual) para alcançar o estado natural?
Maharaj: Segure-se no sentido de "eu sou" até a exclusão de todo o resto. Quando a mente se torna assim, completamente silenciosa, ela brilha com uma nova luz e vibra com novo conhecimento. Tudo vem espontaneamente, você só precisa se segurar no 'eu sou'. Assim como quando emergindo do sono ou de um estado de êxtase você se sente descansado e ainda não pode explicar o porquê e como você chegou a se sentir tão bem, da mesma forma, com a realização você se sente completo, preenchido, isento do complexo prazer-dor, e ainda assim nem sempre é capaz de explicar o que aconteceu, por quê e como. Você pode colocar isso apenas em termos negativos: “Nada mais está errado comigo." É apenas através da comparação com o passado que você sabe que você está fora disso. No mais — você é apenas você mesmo. Não tenta transmitir isso aos outros. Se você puder transmitir, então não é a coisa real. Você fica em silêncio e assiste isso se manifestar em ação.
Pergunta: Se você pudesse me dizer o que irei me tornar, poderia ajudar-me a cuidar do meu desenvolvimento.
Maharaj: Como alguém pode dizer o que você irá tornar-se, quando não há nenhum tornar-se? Você simplesmente descobre o que você é. Moldar-se de acordo com um padrão é um doloroso desperdício de tempo. Não pense nem no passado e nem do futuro, apenas seja.
Pergunta: Como posso apenas ser? As mudanças são inevitáveis.
Maharaj: As mudanças são inevitáveis no inconstante, mas você não está sujeito a elas. Você é o imutável pano de fundo, contra o qual as mudanças são perceptíveis.
Pergunta: Tudo muda, o pano de fundo também muda. Não há necessidade de um fundo imutável para notar as mudanças. O Ser é momentâneo - é apenas o ponto onde o passado encontra o futuro.
Maharaj: Claro que o ‘si mesmo’ (Self) que está baseado em memória é momentâneo. Mas tal Ser demanda uma continuidade ininterrupta atrás dele. Você sabe por experiência que existem lacunas quando seu si mesmo é esquecido. O que o traz de volta à vida? O que o acorda de manhã? Deve haver algum fator constante ultrapassando as lacunas na consciência. Se você olhar atentamente verá que até mesmo sua consciência é em flashes diários, com lacunas intervindo o tempo todo. O que está nas lacunas? O que pode haver, além do seu verdadeiro Ser, que é atemporal; a mente e a ausência de mente são a mesma coisa para ele.
Pergunta: Existe algum lugar que você me aconselharia visitar, a fim de atingir a realização espiritual?
Maharaj: O único lugar apropriado é dentro. O mundo exterior não pode nem ajudar nem prejudicar. Nenhum sistema, nenhum padrão de ação irá levá-lo ao seu objetivo. Abandone todo trabalho para um futuro, concentre-se totalmente sobre o agora, preocupe-se apenas com sua resposta a cada movimento da vida conforme ela acontece.
Pergunta: Qual é a causa do desejo de vagar por ai?
Maharaj: Não existe um motivo. Você simplesmente sonha que vagueia. Em uns poucos anos a sua estadia na Índia vai aparecer como um sonho para você. Você sonhará algum outro sonho naquele momento. Perceba que não é você quem se desloca de sonho em sonho, mas sim os sonhos fluem diante de você e você é a testemunha imutável. Nenhum acontecimento afeta o seu verdadeiro Ser — essa é a Verdade Absoluta.
Pergunta: Não é possível me movimentar por ai fisicamente e manter-me estável interiormente?
Maharaj: Você pode, mas a que propósito isso serve? Se você é sincero e sério você verá que no final vai ficar farto de perambular e lamentará o desperdício de energia e tempo. Para encontrar o seu Ser, você não precisa dar nenhum passo.
Pergunta: Existe alguma diferença entre a experiência do Ser (Atman) e do Absoluto (Brahman)?
Maharaj: Não pode haver experiência do Absoluto, pois ele está além de todas as experiências. Por outro lado, o Ser é o fator experimentador ocorrendo em todas as experiências e, assim, de certa forma, valida a multiplicidade de experiências. O mundo pode estar cheio de coisas de grande valor, mas se não há ninguém para comprá-las, elas não têm preço. O Absoluto contém tudo que é experimentável, mas sem um experimentador isso é como nada. Isto que torna a experiência possível é o Absoluto. Isto que as torna real é o Ser (Self).
Pergunta: Não chegamos ao Absoluto através de uma gradação de experiências? Começando com o mais grosseiro, e terminando com o mais sublime.
Maharaj: Não pode haver nenhuma experiência sem um desejo por ela. Pode haver gradação entre desejos, mas entre o mais sublime desejo e a libertação de todo desejo, há um abismo que deve ser atravessado. O irreal pode parecer real, mas é transitório. O real não tem medo do tempo.
Pergunta: O irreal não é a expressão do real?
Maharaj: Como é possível? É como dizer que a verdade se expressa em sonhos. Para o real o irreal não existe. Parece ser verdadeiro só porque você acredita nele. Duvide dele, e ele cessa. Quando você está apaixonado por alguém, você dá realidade a isso — você imagina o seu amor ser todo-poderoso e eterno. Quando termina, você diz: "Eu pensei que fosse verdadeiro, mas não era”. Transitoriedade é a melhor prova da irrealidade. O que está limitado no tempo e no espaço e é aplicável a uma pessoa só, não é real. O verdadeiro é para todos e para sempre. Acima de tudo você acaricia a si mesmo. Você não aceitaria nada em troca da sua existência. O desejo de ser é o mais forte de todos os desejos e irá embora apenas em face à realização de sua verdadeira natureza.
Pergunta: Mesmo no irreal existe um toque de realidade.
Maharaj: Sim, a realidade que você confere ao irreal, ao tomá-lo como sendo real. Tendo convencido a si mesmo, você está limitado por sua convicção. Quando o sol brilha, as cores aparecem. Quando ele se põe, elas desaparecem. Onde estão as cores, sem a luz?
Pergunta: Isso é pensar em termos de dualidade.
Maharaj: Todo pensamento está na dualidade. Na identidade nenhum pensamento sobrevive.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Hafiz (mestre Sufi - séc. XIV) - Este trabalho de ensinar não é fácil

A tarefa mais difícil
ao caçar-te, Deus,
É usar aquele arco e aquelas flechas
que destes ao meu coração.
Eles são feitos de simples água.
Eu miro de uma longa distância
para o Sol.
Hafiz, quem pode entender
o profundo absurdo de todo
o esforço neste caminho?
Por que não colocar esse antigo dilema
de outra maneira?
Escute:
Não foi apenas uma vez em nossa história
que uma formiga saiu e capturou
um elefante com apenas uma mão.
Isso não te diz alguma coisa nova?
Talvez não.
Este trabalho de ensinar
não
é
fácil.

Philokalia - São Simeão o Novo Teólogo (séc. X)

Nenhum homem que se considere sábio, por ter estudado todas as ciências e ser letrado em sabedoria externa, jamais penetrará os mistérios de Deus ou os verá, a menos que primeiro se torne humilde e tolo em seu coração, repudiando a sua própria opinião juntamente com o que adquiriu em sua aprendizagem. Um homem que age assim, e segue com destemida fé aqueles que são sábios nas coisas divinas, é guiado por eles e com eles entra na cidade do Deus vivo, e, ensinado e iluminado pelo Espírito Santo, vê e sabe coisas que nenhuma outra pessoa pode ver ou saber. Assim, ele passa a ser ensinado de Deus.

Os alunos de sábios deste mundo consideram aqueles ensinados de Deus tolos, enquanto que são eles que são verdadeiramente insensatos, uma vez que são formados apenas em sabedoria externa e distorcida; são aqueles que, de acordo com o divino apóstolo, "Deus fez insensatos" (Cor. I-20), e sobre os quais é dito: "Sua sabedoria não descendeu do alto, mas é terrena, sensual e diabólica"(III-15). Estando fora do compasso da luz divina, essas pessoas não podem ver os milagres que ela contém, e consideram como iludidos aqueles que, residindo nesta luz, vêem e ensinam o que vêem. Mas, na realidade, são eles os iludidos, que nunca experimentaram as bênçãos divinas.

Mesmo agora, vivem entre nós homens que estão livres das paixões, santificados e preenchidos com a Luz Divina. Pessoas que têm mortificado seus membros terrenos, limpamdo-os de todas as impurezas e luxúrias apaixonadas, nelas não apenas os pensamentos de más ações nunca entram em sua mente, como também não permitem interferências no seu estado “sem paixões” quando os outros incitam-lhes ao mal. Mesmo aqueles que os tratam com desprezo, e que se recusam a acreditar quando os escutam ensinar sobre as coisas divinas na sabedoria do Espírito, teriam-nos reconhecido, se tivessem entendido as palavras divinas que estudam e cantam diariamente. Pois, se eles conhecessem perfeitamente as Divinas escrituras, acreditariam nas bênçãos prometidas e concedidas por Deus. Mas uma vez que eles não participam dessas bênçãos, devido à sua opinião própria e auto-negligência, eles condenam e desconfiam daqueles a quem têm sido concedidas participação nas bênçãos e ensinam-lhes a respeito delas.

A única razão pela qual os homens repletos da graça divina e perfeitos em conhecimento e sabedoria superior, desejam sair para o mundo afim de conhecer pessoas que ali vivem, é direcionar os homens para as boas obras, lembrando-lhes os mandamentos divinos, dando-lhes assim, uma oportunidade de ganhar uma certa recompensa; se, naturalmente, eles escutarem, ouvirem e se convencerem.

Não sendo guiados pelo Espírito de Deus, caminham no escuro, não sabendo para onde vão, ou se vão ou não vão progredir em praticar um ou outro mandamento, portanto, os homens que vivem em graça vêm a eles com lembretes, desejando ajudá-los e esperando que um dia eles aceitem o verdadeiro ensinamento do Espírito Santo, que irá erguê-los da opinião própria que os possui, e, ouvindo sinceramente a vontade de Deus, sem hipocrisia ou orgulho próprio, irão se arrepender, a fim de obedece-Lo e, desta forma, tornando-se participantes em alguns dons espirituais. Se um homem santo, falha em obter resultados com os leigos que ele visita, então, lamentando sobre a cegueira e dureza de seus corações, ele volta para sua cela e reza dia e noite para salvação deles. Para o homem que está constantemente com Deus, e está preenchido com todas as bênçãos, não pode haver outra preocupação.

Shri Siddharameshwar Maharaj - Junho de 1933

Os desejos mundanos penetraram e se entrelaçaram com os pensamentos. É na companhia do corpo que o pensamento deu forma a si mesmo com o molde dos desejos. Então, surge uma pergunta: "Como é que eles podem ser separados"?
O "conhecimento de Brahman" nunca pode ser adquirido a menos que os desejos sejam abandonados. Devido ao conceito habitual de "fazer alguma coisa" e colher os seus frutos, nossa "consciência-interior" (Antahkarana) está inclinada na direção da satisfação dos desejos, e isso tem dado origem ao ego. Ao esquecer a "verdadeira natureza" (Swaroopa), a pessoa agarra-se ao conceito "eu sou o corpo", e a mente torna-se identificada com a consciência individual (Jiva). Essa é a razão pela qual ela se torna fascinada com desejos mundanos, e amante de prazeres sensuais. Se alguma vez os pensamentos tivessem sido a verdadeira natureza do indivíduo, eles teriam gravitado apenas na direção da consciência individual, e nunca teriam se envolvido com os desejos.
A consciência individual, enquanto esquece seu "verdadeiro ser", se esforça para satisfazer o pensamento. Como o pensamento tornou-se apaixonado pelos desejos, a consciência individual, em conformidade, torna-se obsecada por eles também. A consciência individual, de fato, é eternamente livre, e está apenas na forma de energia-vida. O orgulho pelo corpo, e o orgulho da mente, juntamente com o orgulho pela sua forma de pensar, cristalizaram-se em um rígido, porém falso, orgulho. É devido a esse orgulho que a consciência individual parece ter-se tornado o corpo, e em sua companhia constante, tem se rendido aos desejos.
Aquele que abandona todo o orgulho atinge a liberdade da prisão e sai do oceano da existência mundana. Como todos os objetos são apenas Paramatman, nada pode ser alegado. Deve-se ter a atitude de que "Tudo isto pertence a Paramatman, deixe que as coisas tomem seu próprio rumo. O que cabe a mim? Aconteça o que acontecer, o que quer que for perdido, não é assunto meu." Aquele que se comporta dessa maneira é transformado em Paramatman.
É dito que "desapego intenso" é a renúncia total; que "desapego puro" é viver neste mundo como se estivéssemos numa casa de hóspedes; enquanto que o "desapego moderado" consiste em gradualmente se retirar das coisas mundanas. Quando nenhum desses três é possível, servir os santos e os sábios com uma total dedicação do nosso corpo, mente e riqueza pode ajudar a gerar desapego.
A fortuna do Yogi é verdadeiramente grande, quando o desapego do corpo é estabelecido. Deve-se renunciar a todos os desejos. O orgulho está associado à casa, à esposa, aos filhos, à riqueza e deve ser abandonado. Isso ajuda a nos livrar da escravidão. A fim de abandonar o orgulho, é preciso praticar a adoração. Deveríamos saber e dizer: "Eu não sou o corpo, eu sou o Ser (Self)". Devemos dizer: "Eu sou Ele, O que está em todos". Após a expulsão dos desejos, passamos a saber que todos os seres são Paramatman. É assim, quando a consciência individual atinge o estado de Paramatman. Uma vez que os desejos e os pensamentos são falsos, como é possível que alguma vez realmente afetem a consciência individual?
A consciência individual, com a ajuda do corpo tem satisfeito muitos desejos neste mundo transitório. Os pensamentos, na companhia dos desejos tornaram-se passionais. Dia e noite, o intelecto (Buddhi) pensa em desejos sensuais que lhe são queridos. Essa é a razão pela qual o orgulho associado aos desejos veio a existir. Laços fortes têm sido desenvolvidos com desejos mundanos, e seus conceitos tornaram-se uma obstrução. Devido ao orgulho associado com o corpo, a consciência individual considera todas as coisas relacionadas com o corpo, sejam boas ou ruins, como sendo dela própria. O indivíduo tem, portanto, esquecido sua própria "natureza real" (Swaroopa) e em vez disso, concentrou-se em desejos.
"Conhecimento" não é nada além de uma mudança radical no intelecto. No momento em que a pessoa for verdadeiramente iniciada, ou começar a comportar-se de acordo com o conselho do Mestre, pode imediatamente atingir a libertação. Escutar e refletir sobre o discurso espiritual é o único método para se chegar à "verdade última" (Paramartha).

sábado, 31 de janeiro de 2009

Shri Samartha Ramdas Maharaj (santo hindú-séc XVII) - Diferença entre Ilusão (Maya) e Brahman

* Brahman é sem atributos e é sem forma. A ilusão tem atributos e formas. Brahman não tem fronteiras nem limites, a ilusão sim.
* Brahman é puro e imutável. A ilusão é ativa e agitada. Brahman apenas é incorruptível por qualquer cor ou forma, enquanto a ilusão é cor e forma.
* A ilusão é vista, Brahman não pode ser visto. A ilusão é perceptível, Brahman não pode ser percebido. A ilusão é destruída, Brahman é indestrutível mesmo com a dissolução final de toda a criação.
* A ilusão é criada, Brahman não pode ser criado. A ilusão pode deteriorar-se, Brahman não pode. A ilusão pode ser acumulada pelo ignorante, Brahman não pode.
* A ilusão é nascida, Brahman não é nascido. A ilusão morre, Brahman não morre. A ilusão pode ser concebida, Brahman não pode ser compreendido pelo intelecto.
* Ilusão se quebra, Brahman não pode quebrar. A ilusão pode ser cortada, Brahman não pode ser cortado. A ilusão fica velha e esfarrapada, Brahman não fica velho e esfarrapado, uma vez que é indestrutível.
* A ilusão está sujeita a modificação, Brahman é imutável. A ilusão faz tudo, Brahman não faz nada. A ilusão assume muitas formas, Brahman é sem forma.
* A ilusão é da natureza temporária dos Cinco Elementos e é muitos, Brahman é eterno e é uno. A diferença entre ilusão e Brahman é entendida por aqueles que utilizam o poder de discriminação.
* A ilusão é inferior, Brahman é superior. A ilusão é o não-essencial, Brahman é a essência. A ilusão está do lado do mundo, Brahman não tem lados.
* A ilusão dilata-se cobrindo Brahman. No entanto, os sábios tem peneirado Brahman através da discriminação.
* Ao limpar o musgo de uma superfície, devemos usar água. Ao jogar fora a água da mistura do leite com água, devemos ficar com o leite. Da mesma forma, abandonando a ilusão, sua experiência deveria ser de Brahman.
* Brahman é limpo como o céu, a ilusão é enlameada como a terra. Brahman apenas é sutil, enquanto a ilusão é a forma grosseira.
* Brahman não é visível, enquanto que a ilusão é visível e vista. Brahman é uniforme e invariável, a ilusão é, por natureza, diferentes formas.
* A ilusão é um objeto visível, Brahman não é. A ilusão é testemunhada, Brahman não pode ser testemunhado. Na ilusão, existem dois lados (a dualidade), Brahman não tem lados.
* A ilusão é a afirmação de um argumento, Brahman é a declaração final. A ilusão é efêmera, Brahman é eterno. Brahman não tem uma causa ou finalidade de sua existência, a ilusão sim.
* Brahman é homogêneo e sólido, a ilusão é constituída pelos cinco elementos e é oca. Brahman é sempre impecável, a ilusão é velha e esfarrapada.
* A ilusão é tornada, Brahman se tornou. A ilusão cai, Brahman não pode cair. A ilusão se estraga, Brahman não pode ficar estragado, é apenas como é.
* Brahman sempre existe, a ilusão desaparece após a dissolução. Não há fim para Brahman, mesmo após a dissolução final, enquanto que a ilusão termina.
* Ilusão é dura, Brahman é sutil. A ilusão é muito pequena, Brahman é vasto. A ilusão pode ser destruída, Brahman permanece sempre.
* Brahman não pode realmente ser descrito, ou ser dito como sendo algo. A ilusão parece ser como descrita. O tempo não pode consumir Brahman, enquanto que ele consome a ilusão.
* Uma multiplicidade de formas e cores são a ocorrência da ilusão. A ilusão se quebra, mas Brahman é inquebrável, é para sempre tal como é.
* Agora chega desta longa narração. Toda a criação animada e inanimada é toda ilusão. O Deus Supremo Uno (Parameshwara) impregna tudo por dentro e por fora.
* Este Ser Supremo, Paramatman, é diferente de todos os rótulos e atributos. Assim como o reflexo do céu está na água, mas o céu em si não é encontrado na água, tal é Parabrahman.
* Por meio de explicação, e do inquérito sobre a ilusão e Brahman, podemos escapar do nascimento e da morte. Quando nos rendermos aos santos, poderemos atingir a liberação.
* Não há limite para falar da grandeza dos santos. Por causa deles, percebemos o "Ser Universal".

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A arte da divina presença

No site http://www.beingpresent.org/ há informações sobre a Fellowship of Friends - uma escola prática para o desenvolvimento espiritual .

Meher Baba - O longo sonho ...

...
Agora, estamos falando sobre tais coisas elevadas. Estou explicando todas estas coisas elevadas a vocês, mas é tudo superficial. Por quê? Porque o que eu digo, sou eu mesmo que escuto através de suas orelhas. Eu estou eternamente livre em mim; Eu estou eternamente limitado em vocês. Existe somente “Eu”, não existe nenhum “você”. Sou somente “EU” em toda parte. Em você, eu sou limitado. Vocês estão sentados diante de mim, vocês me vêem com seus olhos, vocês vêem a paisagem ao redor, os campos, os montes. Eu digo que vocês estão todos sonhando. Mas vocês não acreditam!
Suponha que o Sarosh vai dormir a noite e sonha sobre todas as coisas que eu estou dizendo. Mas, apesar de eu dizer-lhe em seu sonho que é um sonho, ele não pode acreditar nisso e toma o sonho como sendo real! Tão logo acorda, ele sabe automaticamente que, na realidade, era tudo um sonho. Similarmente, vocês estão todos sonhando agora - um longo sonho mundano. Pelas eras, vocês têm sonhado este sonho e, nele, vocês tiveram inúmeros nascimentos, famílias e mortes. Mas vocês assumem este sonho como sendo real! Quando tiverem despertado deste sonho, isto é, quando realizarem Deus, vocês saberão espontaneamente que estiveram sonhando o tempo todo e que tudo o que eu estou dizendo agora é verdadeiro.

Sheikh Saadi (poeta persa - séc.XII) - Humildade

Deus todo poderoso criou-te do pó.
Então criação - Sê humilde como pó!
Não sejas cheio de orgulho, um incendiário e refratário;
Ele te criou do pó - não sejas como o fogo!
Onde quer que o terrível fogo tenha mostrado sua arrogância
O pó deixou cair seu corpo de forma submissa.
Um mostrou desdenho e o outro humildade.
Do primeiro Satã foi criado e do último os seres humanos.

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Uma gota de chuva escorrendo das nuvens
Sentiu-se envergonhada quando viu a vastidão do oceano
"Quando existe o oceano, o que sou eu?
Se ele está lá, então não estou em lugar algum."
Quando a gota viu-se com humildade
Uma ostra adotou-a e nutriu-a com o coração:
O Destino prosseguiu seu trabalho de tal forma
Que ela tornou-se uma célebre pérola,
Como um rei, atingiu o caráter mais sublime.
Quando ela se tornou humilde;
Batendo na porta da não-existência, tornou-se existente.

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Um rapaz inteligente de hábitos castos,
Desembarcou no porto do Rum.
Viram nele exaltação, a vocação de um Dervixe,
E um comportamento correto.
Seus pertences foram colocados num lugar honroso.
Um dia o líder dos virtuosos lhe disse
Para tirar o pó e varrer a mesquita.
Logo que o rapaz ouviu isto ele saiu e
Ninguém o viu lá novamente.
Os outros colegas e o líder pensaram
Que o dervixe não tinha inclinação para servir.

Um servo da mesquita encontrou-o no caminho:
"Com tua ação desprovida de julgamento
fizestes uma coisa sem graça, Ó jovem vaidoso.
Não entendes que as pessoas atingem um grau
de honra através do serviço?"
Com paixão e probidade o jovem exclamou:
"Ó amigo que inflama corações e nutre a vida,
Eu não vi nenhuma poeira ou qualquer necessidade
de varrer a mesquita. Era eu que estava cheio de poeira
nesse lugar sagrado! Eu me retirei deliberadamente ,
Pois a mesquita fica melhor sem pó e palha".

Não há caminho para o dervixe além do manter
o seu corpo pisado sob o pé. Se procuras exaltação,
pratica a humildade, porque não há outra escada para
aquele pavimento superior.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Hakim Sanai (Sufi do século XII) - Orientação da minhoca


Deus sabe o quão profundo ou raso cada alma pode navegar,
Ele conhece a imagem de cada criatura. Deus cria a tua sabedoria
como parte da sabedoria Dele, não há mente nisso.
A mente é feita dos elementos, assim como os desejos vem ao corpo.

Outro conhecimento vive fora do tempo.
Silêncio diante disso é a maior eloquência, a sua melhor vida.
Você não tem nenhum desejo capaz de desejar por aquilo
que Deus já fez para você. Conecte o amanhã com hoje e,
entre numa nova alegria.

Deus fala! Isso é o bastante! Deus está procurando por você!
Seja como um aleijado. Permaneça calmo, e em um lugar;
a ignorância está justamente com aquela inteligência.
Aquele que transforma o existente em não-existente,
Pára o ritmo menstrual para construir uma criança.

A tua forma contém o mistério de Deus nela.
Deus te conhece muito melhor do que conheces a ti mesmo.
Não chora teus pesares. Deus já o está fazendo.
Ele ouve os passos das formigas no chão, a pedra à noite,
a pedra deslocando-se no rio e ouve as minhocas
cantando em louvor no interior da terra.

Assim como a minhoca recebe substância da terra na qual ela se move,
orientação nos é dada. Segue o que vives internamente, o que te foi dado;
ou chegarás ao final nadando num oceano da tua própria vergonha.

P. D. Ouspensky - Lembrança de si

Lembrar de si mesmo significa a mesma coisa que estar ciente de si - significa “eu sou”. Às vezes vem por si mesmo; é um sentimento muito estranho. Não é uma função, não é pensamento, não é sentimento; é um estado diferente de consciência. Por si mesmo ele vem apenas por momentos muito curtos, geralmente em arredores completamente novos, e dizemos para nós mesmos: 'Que estranho. Eu estou aqui'. Isso é lembrança de si, neste momento você lembra de si mesmo. Mais tarde quando você começa a distinguir estes momentos, você chega a uma outra conclusão interessante: você percebe que o que você se lembra da infância são somente os lampejos de lembrança de si, pois tudo o que você sabe de momentos ordinários é que as coisas aconteceram. Você sabe que você esteve lá, mas não se lembra de nada de maneira exata; mas se este flash acontece, então você recorda de tudo o que circundava aquele momento.

Para mim, pessoalmente, no início, a idéia mais interessante foi aquela da lembrança de si. Eu simplesmente não podia compreender como as pessoas puderam perder uma coisa dessas. Toda filosofia e psicologia européia simplesmente perderam este ponto. Existem vestígios disso nos antigos ensinamentos, mas eles estão tão bem disfarçados e colocados entre as coisas menos importantes que você não pode ver a importância da idéia. Quando tentamos manter todas essas coisas em mente e observarmos a nós mesmos, chegamos à conclusão muita definida de que no estado de consciência em que estamos, com toda essa identificação, consideração, emoções negativas e ausência de lembrança de si, nós estamos realmente adormecidos. Nós só imaginamos que estamos acordados. Por isso, quando tentamos lembrar de nós, isso significa somente uma coisa, nós tentamos acordar. E conseguimos despertar por um segundo, mas em seguida dormimos novamente. Este é o nosso estado de ser, então realmente estamos dormindo. Podemos acordar apenas se corrigirmos muitas coisas na máquina (corpo/mente/sentimento), e se trabalharmos muito persistentemente sobre esta idéia de despertar, e por um longo tempo.

A expressão, "lembrar de si mesmo” é usada especialmente, intencionalmente, porque em conversas comuns muito frequentemente dizemos: 'Ele esqueceu de si mesmo', ‘ele não lembrou dele mesmo', ou ‘ele lembrou de si mesmo à tempo’. Na realidade, nós nunca lembramos totalmente de nós mesmos. Nós nunca lembramos no momento. Nós nunca percebemos que estamos presentes, que estamos conscientes, que estamos aqui. Isto deve ser entendido, e, ao mesmo tempo, é preciso entender que, se fizermos esforços suficientes e por um período suficientemente longo, podemos aumentar a nossa capacidade para lembrar de nós mesmos, começamos a nos lembrar com mais frequência, começamos a nos lembrar com mais profundidade.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Nisargadatta Maharaj - O Supremo está acima de tudo


Maharaj: A pessoa nunca é o sujeito. Você pode ver uma pessoa, mas você não é a pessoa. Você é sempre o Supremo que aparece em um dado ponto do tempo e do espaço como a testemunha, uma ponte entre a pura consciência do Supremo e a multifacetada consciência da pessoa.
Pergunta: Quando eu olho para mim, descubro que eu sou várias pessoas lutando entre si para a utilização do corpo.
M: Elas correspondem às diversas tendências (sanskaras) da mente.
P: Eu posso criar a paz entre elas?
M: Como poderia? Elas são tão contraditórias! Veja-as como são - simples hábitos de pensamentos e sentimentos, leques de memórias e anseios.
P: No entanto, todas dizem 'eu sou'.
M: Apenas porque você se identifica com elas. Uma vez que você percebe que o que quer que apareça diante de você não pode ser você mesmo, e não pode dizer 'eu sou', você fica livre de todas as "pessoas" e de suas exigências. O senso de 'eu sou' é próprio de você. Não é possível separar-se dele, mas você pode conectá-lo a qualquer coisa, como ao dizer: “eu sou jovem”, “eu sou rico” etc. Mas tais auto-identificações são manifestamente falsas e causa de escravidão.
P: Eu posso agora entender que não sou a pessoa, mas aquele, que quando refletido na pessoa, lhe dá um senso de ser. Agora, e a respeito do Supremo? De que forma me conhecer como sendo o Supremo?
M: A fonte da consciência não pode ser um objeto na consciência. Conhecer a fonte é Ser a fonte. Quando você percebe que você não é a pessoa, mas a pura e calma testemunha, e que aquela consciência sem medo é o seu próprio Ser, você É o Ser. É a fonte, a inesgotável possibilidade.
P: Existem muitas fontes ou uma para todos?
M: Isso depende de como você olha para isso, a partir de que ponta. Os objetos do mundo são muitos, mas o olho que os vê é um. Aquilo que é mais alto sempre aparece como um para o que é mais baixo e o mais baixo como muitos para o mais alto.
P: As formas e todos os nomes são todos de um e mesmo Deus?
M: Mais uma vez, tudo depende de como você olha para isso. No nível verbal tudo é relativo. Absolutos deveriam ser experimentados, não discutidos.
P: Como o Absoluto é experimentado?
M: Não é um objeto a ser reconhecido e armazenado na memória. Em vez disso, está no presente e no sentimento. Tem mais a ver com o 'como' do que com o "o quê". Está na qualidade, no valor; sendo a fonte de tudo, está em tudo.
P: Se é a fonte, por que e como é que ela se manifesta?
M: Ela dá a luz à consciência. Todo o resto está na consciência.
P: Por que existem tantos centros de consciência?
M: O universo objetivo (mahadakash) está em constante movimento, projetando e dissolvendo inúmeras formas. Sempre que uma forma é infundida com a vida (Prana), a consciência (chetana) aparece através do reflexo da consciência na matéria.
P: Como é o Supremo afetado?
M: O que poderia afetá-lo, e como? A fonte não é afetada pelos caprichos do rio, nem é o metal afetado pela forma da jóia. A luz é afetada pela imagem na tela? O Supremo torna tudo possível, isso é tudo.

Gurdjieff - Paris - 1938


Gurdjieff: Eu me interessaria muito em saber algo sobre a sua lembrança de si. Como vai esse trabalho? Você esquece frequentemente? É fácil? Difícil, ou qualquer outra coisa? Quando você está na vida, faz isso muitas vezes? Ou não muitas? Quem faz isso? Como? Qual valor você dá para a lembrança de si? Gostaria que alguém me falasse como é que se comporta em relação a isso.
Pergunta: Tenho a impressão de que a minha lembrança de si não é voluntária. Ela me é dada em certos momentos. Gostaria de fazê-la nos momentos em que é difícil e quando sou incapaz de fazê-la.
Gurdjieff: Não é uma questão disso. Você tem a tarefa de lembrar de si mesmo. Fazemos isso como uma tarefa. Você entende?
Pergunta: Não muito bem.
Gurdjieff: Você se esquece?
Pergunta: Às vezes eu estou em um bom estado e eu faço bem.
Gurdjieff: O estado é uma coisa e a lembrança de si é outra coisa. É assunto da cabeça. Você lembra de si mesmo muitas vezes, ou esquece muitas vezes?
Pergunta: Os dois. Faço isso muitas vezes durante o dia. Às vezes eu decido fazê-la adequadamente descansado, e eu esqueço. E também muitas vezes, eu faço sem ter decidido de antemão.
Gurdjieff: Em outras palavras você esquece de lembrar de si quando é necessário, mas quando é inútil você se lembra automaticamente. Definitivamente, esse não é o nosso objetivo. É necessário habituar-se à lembrança de si conscientemente. Você não terá sucesso a menos que assuma a tarefa de lembrar-se com toda a sua presença, por exemplo, às quatro horas, às cinco e às seis, diga "eu sou".
Pergunta: Não entendo como é possível lembrar de si na vida diária. Já lembrança de si em melhores condições, quando paro e me acalmo, com muita dificuldade chego a algo pequeno, eu posso dizer que nunca tenho lembrança de si na vida.
Gurdjieff: Então você não faz nada conscientemente. Você faz automaticamente tudo o que faz.
Pergunta: Então o que fazer, senhor?
Gurdjieff: Dê a si mesmo uma tarefa "Tudo ou Nada". Se você não pode fazer isso, você é um nada. Você deve conseguir.
Pergunta: Eu tenho feito isso.
Gurdjieff: É preciso tomar como uma tarefa o lembrar de si mesmo.
Pergunta: Mas como lembrar de mim, uma vez que mesmo nas melhores condições eu não consigo?
Gurdjieff: Quanto piores as condições, melhor o resultado. É por isso que é preciso fazer. Não considere as condições, considere o momento da decisão. Em cada uma das três horas, você precisa absolutamente lembrar de si. Você entra em si mesmo, você sente que você existe com toda a sua presença - essa é a sua tarefa. Depois você termina. Não se pode sempre lembrar de si. O que conta é a fazê-lo conscientemente. Com uma decisão automática não vale nada.
Pergunta: Eu não entendo, senhor, como deseja que eu perceba conscientemente sendo que nunca ...
Mme de Salzmann: Porque você decidiu intencionalmente antecipadamente - você sente que ela é consciente.
Pergunta: A sensação não é forte. Tenho feito dessa maneira.
Gurdjieff: Sua decisão não é forte. Você deve decidir muitas coisas. Você deve colocar-se em um estado quieto e relaxado e nesse estado propor sua tarefa. Tente. Dez vezes, cem vezes, você falha. Você continua. Você tem problemas. Pouco a pouco você se treina e consegue. Mas não em um único esforço. Isso é uma coisa muito pequena, e é o mais importante. Lembre-se de si conscientemente. Conscientemente. Ou seja, por sua própria decisão. Lembrar de si mesmo e ao mesmo tempo, coletar a si mesmo, reunir-se, penetrar profundamente no seu próprio ser - essas então são as condições. Se você não pode continuar por muito tempo, tente por um período de tempo menor.
Pergunta: Eu nunca entro profundamente em mim mesmo.
Gurdjieff: Nem no início, nunca?
Pergunta: Eu não tive êxito.
Gurdjieff: Você não faz. Já que você não entendeu "conscientemente", você mesmo disse isso. Então faça.
Pergunta: Por quê? Eu não tive êxito, Sr. Gurdjieff.
Mme de Sazlmann: No início você deve fazê-lo por sua própria decisão, não por acaso, não porque aconteceu de chegar à sua mente. Mas você tomou a decisão de fazê-lo em um determinado momento, e você faz.
Pergunta: Mas eu faço dessa maneira.
Gurdjieff: Você faz mal. Faça-a da mesma maneira que você deu sua promessa de estar aqui às sete. Esse é um exemplo. Se não fizer dessa forma não tem valor nenhum. Dê a si mesmo a sua promessa e faça. Você faz essa promessa para você mesmo dessa maneira para lembrar-se de si em um determinado momento.
Pergunta: Eu faço assim, mas ajo automaticamente. Minha decisão é automática. Eu não consigo sentir.
Gurdjieff: Você tem que fazer um exercício para ficar mais 'coletado'. Aprenda a coletar a si mesmo. Escolha um bom momento que pareça propício. Sente-se. Sem que ninguém o perturbe. Relaxe. Toda a sua atenção está concentrada no seu relaxamento. Você acalma suas associações. Apenas e somente depois, você começa a pensar.
Pergunta: Sim. Eu tento assim e não tenho êxito.
Gurdjieff: Espere. Não me incomode, não me interrompa. Você nunca fez da maneira como falo. Suas explicações provam para mim. Depois, quando você tiver aquietado suas associações, só então, comece o exercício - conscientemente, com toda sua atenção, todas as suas faculdades. Você representa para si mesmo que você está circundado por uma atmosfera. Como a terra, o homem também tem uma atmosfera, que o circunda de todos os lados, com um metro mais ou menos - até um certo limite. Na atmosfera, as associações - na vida ordinária os pensamentos - produzem ondas. Elas concentram-se em certos locais, elas recuam e têm movimentos de acordo com a direção que você as trasmite. Isso depende do movimento do seu pensamento. Sua atmosfera é deslocada na direção que seu pensamento vai. Se você pensa na sua mãe, que está longe, sua atmosfera move-se na direção do lugar que sua mãe está. Quando você faz esse exercício, você representa para si mesmo que essa atmosfera tem limites. Por exemplo, um metro e meio. Então, você concentra toda a sua atenção em impedir que sua atmosfera escape além desse limite. Você não permite que ela vá mais longe do que um metro ou um metro e meio. Quando você sentir sua atmosfera aquietada, sem ondas, sem movimento, então com toda a sua vontade você a suga para dentro de si, você se conserva nessa atmosfera. Você a atrai conscientemente para dentro de você. Quanto mais você puder, melhor é. No início é muito cansativo.
É assim que se deve fazer o exercício. Depois você descansa do exercício, manda ele para o diabo. Repita-o novamente à noite. Esse exercício é feito especialmente para permitir que obtenhamos um estado recolhido. É o primeiro exercício. É difícil penetrar em si mesmo nesse primeiro esforço. É preciso obrigar a atmosfera a se manter dentro dos seus limites, e não lhe permitir ir mais longe do que deveria. É o primeiro exercício para adquirir um estado recolhido. Esse exercício é feito por todos, eu dei para todas as pessoas. Ninguém compreendeu o que é esse recolher-se, coletar-se, nem deu atenção a isso. Tenho visto isso pela maneira como falam. Quando você conseguir de fato fazê-lo, você será capaz de verdadeiramente ter um bom estado, e será capaz, por sua vontade, de reentrar completamente em si mesmo. Quando você disser "eu sou" irá sentir que você está em você, você sentirá no todo do corpo o eco do "eu" e quando você disser "sou", você terá a sensação, total, que você é você. Mas se você fizer por dez anos "Eu-Sou Eu-Sou Eu-sou" isso irá levá-lo a nada além do que ser um candidato para o hospício. Faça isso ou nada. Comece tudo de novo com esse exercício. É o primeiro exercício para lembrar de si mesmo.
Pergunta: A intensidade da lembrança em mim diminui muito rapidamente.
Gurdjieff: Você tem realmente feito isso por um longo tempo, regularmente?
Pergunta: Tenho feito não faz muito tempo.
Gurdjieff: Você tem feito isso apenas por alguns dias?
Pergunta: Não mais que isso.
Gurdjieff: Eu não entendo como pode diminuir. Quando você está no estado de lembrança de si, metade de sua atenção deve estar concentrada no "eu sou" e a outra metade deve controlar a manutenção do estado. Sua cabeça desempenha o papel de policial. Vigia por você, para guardar o seu estado. "Eu sou", com a outra metade da atenção. A outra parte supervisiona.
Pergunta: Mas o poder de controle vem e, em seguida, declina.
Gurdjieff: Você não fez como eu lhe disse. Metade de sua atenção deve fiscalizar, mas você deixa as associações prosseguirem. Seu pensamento desfila na sala em Paris. Vai para outro país. Sua atmosfera, a sua imaginação deixa você, e você permanece com a sua atenção automática. Feito dessa forma, é normal que ela diminua. É preciso fazer milhares e milhares de vezes o que eu lhe falo.
Pergunta: Por outro lado, tenho notado que a minha lembrança é melhor se é menos freqüente.
Gurdjieff: Isso é algo pequeno. Primeiro de tudo acostume-se a ficar por um longo tempo num estado recolhido. É isso que está ausente em você. O que você diz é uma coisa pequena. Quando tiver feito o que eu lhe digo, você será capaz de fazer milhares de vezes mais.
Pergunta: Sr. Gurdjieff, tenho notado que se eu consigo uma lembrança intensa quando faço os exercícios, o oposto acontece na vida ordinária: se eu tentar atuar um papel ou lembrar de mim quando estou com outras pessoas, o resultado é muito mais superficial.
Gurdjieff: Já expliquei isso mil vezes. Você nunca deve usar os resultados do trabalho na vida, desde que esses resultados não estejam fixos em você. Não use nada, não espere por nada. [Sr. Gurdjieff fala em russo com Mme de Salzmann.]
Pergunta: Devemos nos limitar ao exercício ou devemos também desempenhar um papel?
Gurdjieff: Também. Um homem que trabalha sobre si mesmo, está sempre buscando meios para fazê-lo. Se você encontrar um grande número de pessoas, você pode fazer uso disso. Isso irá fazer crescer algo em você, se você fize-lo bem.
Pergunta: O que significa desempenhar um papel? Significa comportar-se na frente de outras pessoas como se não estivéssemos fazendo o trabalho?
Mme de Sazlmann: Sr. Gurdjieff disse isso uma centena de vezes: internamente não se identificar, externamente fazer tudo como antes, como se nada tivesse mudado, mas conscientemente, em vez de deixar-se ser arrastado para longe.
Gurdjieff: E fazer de maneira que ninguém note qualquer mudança em você, nem que está fazendo algum trabalho interno especial. O trabalho importante para você é tentar não se identificar. Externamente, você continua a fazer tudo que a vida exige. Mas desempenha um papel. O que ocupa a totalidade de você mesmo é o seu trabalho interno. Para poder trabalhar, não se deve estar identificado internamente. Externamente faça tudo o que for obrigatório fazer em público. Mas não saia de dentro de si, desempenhe um papel. Conscientemente, faça tudo o que você tem que fazer.
Gurdjieff: Faça tudo pouco a pouco. Quando você trabalha conscientemente, e mesmo semi-conscientemente, isso come a sua energia. Você tem apenas um acumulador, não dez. Ele é recarregado quando você dorme, e então você consome a energia. Ela se vai toda. Não se deve deixar as luzes queimando por muito tempo.
Pergunta: Deveríamos gastar menos energia na vida exterior para que sobre mais para o trabalho?
Gurdjieff: Não tem nada a ver com isso. Não se preocupe com isso. O trabalho externo prossegue bastante automaticamente e requer muito pouca energia. Deixe a vida ir por si só. Mantenha a sua energia para o trabalho. Trabalho necessita de muita energia.
Mme de Sazlmann: Se você divide sua atenção corretamente, uma parte para relaxar, uma outra parte para se concentrar, você não poderia dormir. O sono vem se toda a sua atenção vai apenas para relaxar.
Gurdjieff: Você ainda não fez esse exercício. Faça-o. Só que não é possível avaliar os resultados em si mesmo.
Pergunta: Sr. Gurdjieff, às vezes eu fico entediado com a lembrança de si. Espero com impaciência o fim do tempo que estabeleci para o exercício. É monstruoso. Mas eu não posso mudar. Às vezes me sinto numa maravilhosa plenitude, mas em outros momentos absolutamente nada. Não posso mudar isso e quando este estado vem eu não sei a que se deve.
Gurdjieff: Isso prova que o automatismo é muito forte em você, que você tem muitas fraquezas, muitos cães, muitos "resultados de sal". Você deve matá-los. Como pode alguém ficar entediado com uma coisa divina?
Pergunta: Alguma coisa está faltando na minha lembrança de si.
Gurdjieff: É um sintoma do fato que há coisas desprezíveis em você. Tudo isto tem que ser limpo para se tornar digno de fazer este exercício. Coloque dez vezes mais atenção em limpar seu interior e torná-lo digno. Você não é digno. Existem muitos cães. Você entende o que eu chamo de cães? Coisas diferentes cristalizadas em você pela vida, pela educação. Todos estes resultados atuam como fatores criando associações que surgem continuamente e nos levam com elas. Esses fatores são muitos. É impossível matá-los de imediato. Mas temos de transformá-los em funções. Atualmente, um desses fatores muitas vezes se torna o seu "eu" e orienta-o. Até que o “eu” real venha. O seu lugar deve ser assumido pela cabeça, a cabeça deve desempenhar o papel de "eu".
Pergunta: Sr. Gurdjieff, como reconhecer estes cães, como saber quais são os piores? E depois, temos que atacá-los, e como? Ou devo continuar com o procedimento geral?
Gurdjieff: Geralmente, em todas as pessoas esses cães estão acostumados a viver em torno dos centros. É o lugar deles. Fatores tornam-se cristalizados de acordo com o centro predominante. Temos quatro centros, quatro localidades, quatro aldeias onde esses cães vivem. Em uma aldeia são muitos, em outra aldeia menos, na outra eles ainda são muito poucos. Em pessoas diferentes, há um maior ou menor número de cães em cada aldeia. Estas aldeias são: pensamento, sentimento, sensação e sexo, que é uma vila muito importante. Uma pessoa tem mais cães em uma vila, outro em outra. Depende de qual aldeia tem mais habitantes. O meu conselho, uma vez que você me pediu .... Repita a sua pergunta. [O aluno repete a sua pergunta.]
Em geral, matar os cães para que não lhe incomodem mais, e para que não tenham mais o poder de se apoderar do seu "eu", meu conselho é o seguinte (isso vale para todos): A primeira coisa é livrar-se dos cães na aldeia do sexo. Em seguida, nas outras. Mas primeiro você tem que liquidar este animal íntimo. Mais tarde você transfere sua atenção para as outras aldeias. Se você conhece essa regra, você vai procurar encontrar em qual aldeia continuar. Mas como amarra-los? Primeiro de tudo você se propõe a tarefa de nunca deixar os cães como antes. Bata neles de uma vez na cabeça! Uma vez que você reconheceu seu inimigo a sua tarefa é lutar contra ele. Talvez seja o seu verdadeiro inimigo. Um após o outro você doma todos esses cães. E, depois, passe para a outra aldeia. Desta forma você irá gradualmente superar todos os seus inimigos. Repito, não é uma questão de matá-los. Se algo está cristalizado, é para sempre. Pode até revelar ser algo benéfico se você usá-los como material, como função. Mas eles nunca devem assumir o comando, eles nunca podem ser autorizados a se fixar no seu "eu" e obter a posse dele. Esta deveria ser a sua tarefa. E isto aplica-se a todos vocês aqui.
Pergunta: Sr. Gurdjieff, esta função do sexo é uma função? Não é uma coisa que deveríamos reduzir e enfraquecer tanto quanto possível?
Gurdjieff: Não estamos falando das funções que são parte de nós, mas sim de cães, ou seja, de fraquezas em torno das nossas funções. As funções são as aldeias, não se pode alterá-las. Quanto aos cães, sim, deve-se mudar a sua raça.
Pergunta: Eu suponho que haja mais cães numa aldeia mais fraca. É assim?
Gurdjieff: Talvez a aldeia torna-se fraca, pois tem muitos cães para enfraquecê-la. Cada cachorro tem um nome nas aldeias. Eu conheço todos.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Ramakrishna - Vijnana

Jnana é a realização do Ser por meio do processo “Neti, Neti” - "Nem isso, nem aquilo." A pessoa entra em samadhi por esse processo de eliminação e realiza o Atman (alma). Mas vijnana significa o conhecimento com maior plenitude.
Algumas pessoas já ouviram falar a respeito do leite, outras beberam o leite. Aquele que apenas ouviu falar é "ignorante". Quem já viu é um jnani. Mas aquele que bebeu tem vijnana, ou seja, o conhecimento pleno do leite. Após ter tido a visão de Deus, Ele lhe fala como se fosse um parente próximo. Isso é vijnana. Primeiro você tem que discernir, utilizando o método 'Nem isso, nem aquilo': 'Ele não é os cinco elementos, nem os órgão dos sentidos, nem a mente, nem a inteligência e nem o ego. Está mais além de todos estes princípios cósmicos.
Você quer subir no telhado? Deve então remover e deixar para trás uma a uma todas as escadas. As escadas não são de modo algum o telhado. Mas, depois de atingir o telhado, percebe-se que as escadas são feitas do mesmo material que o telhado, tijolos, cal e poeira de tijolo; percebe-se que é o Supremo Brahman que se tornou o universo, as coisas vivas e os vinte e quatro princípios cósmicos. Aquele que é Atman (a alma) tornou-se os cinco elementos.
Você poderá perguntar, por que a terra é tão dura se saiu do Atman? Tudo é possível através da vontade de Deus. Não vê que a carne e os ossos são feitos de sangue e sêmen? Que dura se torna "a espuma do mar"! Depois de ter atingido vijnana, é possível viver no mundo. Em seguida, entende-se intimamente e de maneira muito clara que o próprio Deus tornou-se o universo e todas as coisas vivas; que Ele não está fora do mundo. O fato é que temos que ter o 'olho espiritual'. Você desenvolverá o olho logo que a sua mente se tornar pura. De um lado está a esposa, de outro o filho. A pessoa ama ambos, mas de maneira diferente. Portanto, a verdade é que tudo depende da mente. A mente pura adquire uma nova atitude. Através de tal mente, vemos Deus neste mundo. Para isso é necessário uma disciplina espiritual.

Rodney Collin - Lembrança de Si (Self-remembering)

Quando começamos a ver que podemos começar a lembrar de nós mesmos apenas por alguns segundos por vez, parece insignificante. Mas o que se deve compreender é que é difícil exatamente porque é o começo de um estado novo para nós, a chave para um mundo novo. Se fosse fácil e se os resultados viessem mais rapidamente poderia não ter a importância que tem. Exatamente por esta razão é impossível dizer quanto tempo levará para alcançar a lembrança de si. Quanto tempo levará para chegar ao México? Algumas pessoas podem ir para lá em um dia, outras em um mês, outras em um ano, algumas em dez anos, mas a maioria das pessoas nunca irá, porque não há nenhuma razão para elas irem. É assim também com a lembrança de si. Somente é possível para aqueles que querem muito e tentam muito; tempo é necessário - anos, muitos anos. E mesmo se conseguirem atingir o que compreendem por lembrança de si, verão que além daquilo, infinitas novas distâncias e novos significados se abrem, e que a realização de um estágio dela é somente o começo de outro.
Quando a lembrança de si verdadeira vem, a pessoa não quer alterar a si mesma, ou os outros; de algum modo ela se eleva acima das fraquezas dos outros e de suas próprias. Não pode haver nenhuma culpa em lugar algum. A pessoa engole aquilo que É, e torna-se livre.
Nós não devemos deixar o esforço da lembrança de si deslizar para a introspecção. Se nos sentirmos um ser intensamente vivo vivendo em um mundo intensamente vivo, tudo penetrado pela Divindade viva, sentiremos o que significa dar, sentir e coletar, simultaneamente, gradualmente, o gosto disso penetrará profundamente em nós e criará um anseio constante por isso.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Upasni Maharaj - Parabrahma


As pessoas dizem que eu sou o perfeito Parabrahma. Quanto mais se está apto a apreciar e experimentar o estado de Parabrahma da mente, mais se está apto a perder o orgulho (Abmana). Eu alcancei esse estado principalmente devido a ter sido desprovido de todo o orgulho.
O que é Parabrahama? Todos vocês e toda a criação são Parabrahma. Mas você não está apto a experimentar, a estar consciente deste estado por causa do orgulho de todas as máscaras que você possui.
Se você perder todo o orgulho, neste momento você experimentará o estado de Parabrahma de uma vez.
Alguns vêm aqui e dizem: “torne-nos como você”, ninguém pode transformar nenhuma pessoa assim. Quem quer que se livre totalmente dos sentimentos de vergonha, medo, dúvida e orgulho automaticamente torna-se assim.
De alguma maneira eu consegui descartar minha culpa e me tornei nu, fui chamado de louco, muitos me perguntavam: “se nos tornarmos assim nus e loucos, vamos nos tornar como você?” Eu respondo: é porque vocês sentem que se fizerem igual a mim não se tornarão como eu que vocês não estão prontos para se tornarem como eu. Isso é tudo.
Se você largar tudo e sentar em algum lugar com determinação total permanentemente, você estará confinado a tornar-se como eu. Porque fazer isso, é um dos métodos principais de perder todo o orgulho.
Não quer dizer que eu apenas estou no estado de Parabrahma, todas as coisas desse mundo, toda a criação estão num estado de Parabrahma. O único ponto é que muito poucos seres humanos estão aptos a experimentar seu estado original, quase todos os seres estão envolvidos com os assuntos do mundo e amam ficar envolvidos nisso, eles nunca tentam adaptar ou mesmo olhar para os métodos que nos fazem nos tornarmos conscientes do nosso estado original de Brahma. Aqueles que não se sentem interessados pelos assuntos do mundo, aqueles que sentem que deveriam sair dos assuntos do mundo, aqueles que se sentem desapontados com o mundo, bem, são eles que adaptam vários métodos para escapar disso ao longo do tempo. São eles que são qualificados para atingir Brahma.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Bhagavan Ramana Maharshi - 1938

Discípulo: (Fala sobre uma visão de Shiva )
Bhagavan: Você fala de uma visão de Shiva. A visão é sempre de um objeto. Isso implica a existência de um sujeito. O valor da visão é o mesmo que o valor daquele que vê (isto é, a natureza da visão está no mesmo plano que a daquele que vê). Aparecimento implica desaparecimento também. O que quer que apareça deve igualmente desaparecer. Uma visão nunca pode ser eterna. Mas Shiva é eterno. A Visão (Pratyaksha) de Shiva significa a existência dos olhos para ver; do intelecto (buddhi) que encontra-se atrás da visão; do sujeito que vê atrás do buddhi e da visão; e finalmente da consciência que é a base do sujeito que vê. Esta Pratyaksha (visão) não é tão real como se imagina ser, porque não é íntima e inerente; não é de primeira mão. É o resultado de diversas fases sucessivas da consciência. Dessas, apenas a consciência não varia. É eterna. É Shiva. É o Ser.
A visão implica na pessoa que vê. Esse que vê não pode negar a existência do Ser (self). Não há nenhum momento em que o Ser como consciência não exista; nem pode esse que vê permanecer separado da consciência. Essa consciência é o Ser eterno e o único Ser. Esse que vê não pode ver a si mesmo.
Quer dizer então, que ele nega sua existência porque não pode ver-se com os olhos como na visão (Pratyaksha)? Não! Assim, Pratyaksha não significa ver, mas sim ser. “SER” é realizar que - EU SOU AQUELE EU SOU. EU SOU é Shiva. Nada mais pode ser sem ele. Tudo tem seu ser em Shiva e por causa de Shiva. Portanto, questione “quem sou eu?” Mergulhe profundamente dentro de si e permaneça como o Ser. Aquele é Shiva - o Ser. Não espere ter visões repetidas dele .
Qual é a diferença entre os objetos que você vê e Shiva? Ele é tanto o sujeito quanto o objeto. Você não pode ser sem Shiva. Shiva é realizado sempre aqui e agora. Se você pensa que você não o realizou isso está errado. Esse é o obstáculo para realizar Shiva. Abandone esse pensamento também e a realização estará lá.
Discípulo: Sim. Mas como ter efetividade o mais rápido possível?
Bhagavan: Esse é o obstáculo para a realização. Pode haver o indivíduo sem Shiva? Mesmo agora Ele é você. Não há nenhuma questão de tempo. Se houvesse um momento de não-realização, a questão da realização poderia surgir. Mas sendo como é, você não pode ser sem Ele. Ele já está realizado, sempre realizado e nunca não-realizado. Renda-se a Ele e habite na vontade Dele; espere Seu prazer. Se você pede que Ele faça como lhe agrada, isso não é rendição mas sim, comando. Você não pode mandá-lo obedecer-lhe e ainda pensar que você se rendeu. Ele sabe o que é melhor e quando e como fazer. Deixe tudo inteiramente para Ele.
Dele é o fardo: você já não tem mais nenhuma preocupação. Todas as suas preocupções são Dele. Tal é a rendição. Isso é Bhakti. Ou, questione para quem essas perguntas surgem. Mergulhe fundo no coração e permaneça como o Ser. Um desses dois caminhos está aberto ao aspirante.
Não há nenhum ser que não esteja consciente e, portanto, que não seja Shiva. Não apenas ele é Shiva, mas também todas as coisas de que ele está ciente e das que ele não está. Contudo, em completa ignorância ele pensa que vê o universo de diversas formas. Mas se ele ver o seu Ser ele não estará ciente de estar apartado do universo; dessa forma, de fato, sua individualidade e as outras entidades desaparecem, embora persistam em todas as suas formas. Shiva é visto como o universo. Mas aquele que vê, não vê o próprio pano de fundo. Pense no homem que vê somente o pano e não o algodão do qual ele é feito; ou do homem que vê os filmes movendo-se sobre a tela num cinema e não vê a própria tela como o pano de fundo; ou outra vez, o homem que vê as letras que lê mas não o papel em que estão escritas. Os objetos são, portanto, consciência e formas.
Mas a pessoa ordinária vê os objetos no universo e não Shiva nestas formas. Shiva é o Ser assumindo estas formas e a consciência que as vê. Isso é dizer, Shiva é o pano de fundo que é a base tanto do sujeito quanto do objeto, e, outra vez, Shiva em Repouso e Shiva em Ação, ou Shiva e Shakti, ou o Senhor e o Universo. O que quer que digamos que exista, é somente a consciência em repouso ou em ação. Quem é que não está consciente? Então, quem não é realizado? Como então podem as perguntas surgirem duvidando da realização ou desejando-a? Se 'eu' não sou Pratyaksha para mim, então posso dizer que Shiva não é Pratyaksha.

Meher Baba - 1956

O silêncio que venho observando pelos últimos 31 anos não pretende velar a minha verdade, mas sim manifestá-la. Quando você realizar a verdade como sendo o núcleo do seu próprio Ser, você estará livre de todo medo e desamparo, e todas as rivalidades e conflitos revelar-se-ão serem sem sentido, pois você se conhecerá como sendo inviolavelmente um com tudo o que tem vida.
Para as lutas, faltas e falhas da humanidade Eu digo, “tenham fé”. Voltem-se para Deus em completa rendição e recebam o amor divino. Vocês são igualmente uma parte da vida divina una e indivisível. Não há um só átomo que não vibre com esta vida divina.
Não há mais necessidade de ninguém se desesperar. O maior dos pecadores bem como o maior dos santos têm a mesma infalível garantia divina.

Jalaluddin Rumi - “Por que fizeste os homens para depois destruí-los?”

Moisés disse: “Ó senhor do dia do ajuste de contas,
Tu fazes as formas; por que, então, as destróis?
Fazes formas encantadoras, tanto homens como mulheres;
Por que, então, Tu as devastas?”
Deus respondeu: “Sei que tua pergunta
Não procede de negação nem de curiosidade vã.
Senão te puniria e castigaria;
Sim, eu te censuraria por essa pergunta.
Mas procura descobrir em minhas ações
O princípio diretor e o mistério eterno,
Para informar teu povo a esse respeito
E tornar “madura” toda pessoa verde.
Sim oh mensageiro, tu me questionastes para que Eu possa revelar
Meus caminhos ao povo, embora tu os conheças.

Ó Moisés, vai e semeia a semente no solo
Para fazer justiça a essa pergunta”.
Quando Moisés havia semeado e sua semente crescera,
Ele tomou uma foice e ceifou o trigo;
Então uma voz divina chegou aos seus ouvidos:
“Por que semeaste e nutriste o trigo e
então o cortaste quando estava maduro?”
Moisés respondeu: “Senhor, eu o cortei e abati
Porque aqui tenho grão e palha.
O grão está fora de lugar no palheiro,
E a palha é inútil no celeiro.
É errado misturar esses dois,
É preciso peneirá-los para separar um do outro”.
Deus disse: “ De quem aprendeste esse conhecimento
Pelo qual instruíste uma eira?”
Moisés disse: “Ó senhor, deste-me o discernimento”.
Deus disse: “Então não tenho discernimento eu também?
Entre minhas criaturas há espíritos puros,
E também espíritos escuros e impuros.
As ostras não são todas do mesmo valor;
Algumas contém pérolas, outras pedras negras.
É preciso discernir as más das boas,
Tanto quanto separar o grão da palha.
A gente deste mundo existe para manifestar
E revelar o 'tesouro escondido'.
Lê: 'Eu era um tesouro escondido e queria ser conhecido';
Não escondas o tesouro escondido, mas revela-o
Teu verdadeiro tesouro está escondido debaixo de outro falso,
Assim como a manteiga está escondida na substância do leite.
O falso é esse seu corpo transitório,
O verdadeiro, tua alma divina.
Muito tempo esse leite fica exposto à vista,
E a manteiga da alma está oculta e não percebida.

Bate teu leite assiduamente misturando-o com o conhecimento,
Para que o que está oculto nele possa ser revelado;
Porque este mortal é o guia para a imortalidade,
Como os gritos dos ébrios indicam a taberna”.