
Maharaj: Você realiza alguma prática espiritual (sadhana)?
Pergunta: Estudos e meditação.
Maharaj: Sobre o que você medita?
Pergunta: Sobre o que leio.
Maharaj: Ótimo.
Pergunta: O que você está fazendo, senhor?
Maharaj: Sentado.
Pergunta: E o que mais?
Maharaj: Falando.
Pergunta: Sobre o que você está falando?
Maharaj: Você quer uma palestra? É melhor você perguntar algo que realmente te toca, com o qual você se sinta fortemente relacionado. A menos que você esteja emocionalmente envolvido, você pode argumentar comigo mas não haverá um verdadeiro entendimento entre nós. Se você disser: 'Nada me preocupa, eu não tenho problemas’, está tudo bem comigo, podemos nos manter quietos. Mas, se algo realmente toca você, então há propósito em falar.
Posso perguntar-lhe? Qual é o propósito da sua ida de um lugar para o outro?
Pergunta: Para encontrar as pessoas, para tentar entendê-las.
Maharaj : Que pessoas você está tentando entender? O que exatamente você está procurando?
Pergunta: A integração.
Maharaj: Se você deseja integração, é necessário saber a quem você quer integrar.
Pergunta: Ao conhecer as pessoas e observá-las, acabamos conhecendo a nós mesmos também. Ambos caminham juntos.
Maharaj: Não necessariamente caminham juntos.
Pergunta: Um melhora o outro.
Maharaj: Não funciona dessa forma. O espelho reflete a imagem, mas a imagem não melhora o espelho. Você não é nem o espelho nem a imagem no espelho. Tendo aperfeiçoado o espelho para que ele reflita corretamente, você pode realmente virar o espelho e ver nele um verdadeiro reflexo de si mesmo — verdadeiro, tanto quanto o espelho possa refletir. Mas o reflexo não está sozinho — você é aquele que vê o reflexo. Entenda claramente — o que quer que você possa perceber não é você, o que você percebe não é você.
Pergunta: Eu sou o espelho e o mundo é a imagem?
Maharaj : Você pode ver tanto a imagem quanto o espelho. Você não é nenhum dos dois. Quem é você? Não vá por fórmulas. A resposta não está em palavras. O mais próximo que você pode dizer em palavras é o seguinte: eu sou o que torna a percepção possível — a vida além do experimentador e de suas experiências. Agora, você pode separar-se tanto do espelho quanto da imagem no espelho e ficar completamente sozinho, totalmente só?
Pergunta: Não, eu não posso.
Maharaj : Como você sabe que não pode? Há tantas coisas que você está fazendo sem saber como fazê-las. Você digere, você circula seu sangue e sua linfa, você move seus músculos — tudo sem saber como. Da mesma maneira, você percebe, você sente, você pensa sem saber como acontece e o por quê disso. Do mesmo modo, você é você mesmo sem saber. Não há nada de errado com você como Ser (Self). Ele é aquilo que é até a perfeição. É o espelho que não é claro e verdadeiro, e, portanto, dá falsas imagens a você. Você não precisa corrigir a Si mesmo — só precisa configurar direito sua idéia de si mesmo. Aprenda a separar-se da imagem e do espelho, mantenha-se lembrando: eu não sou nem a mente nem suas idéias; faça isso pacientemente e com convicção e você certamente vai chegar à visão direta de você como sendo a fonte do ser — da sabedoria — e do amor; eterno, permeando tudo, abarcando todas as coisas. Você é o infinito focado em um corpo. Agora, você vê apenas o corpo. Experimente de maneira séria e sincera e chegará a ver apenas o infinito.
Pergunta: A experiência da realidade, quando vem, é duradoura?
Maharaj: Toda experiência é necessariamente transitória. Mas a plataforma de todas as experiências é imutável. Nada que possa ser chamado de "um evento" irá durar. Mas alguns eventos purificam a mente, e outros a mancham. Momentos de insight profundo e de amor abrangente purificam a mente, enquanto que desejos e lágrimas, invejas e raiva, crenças cegas e arrogância intelectual poluem e entorpecem a psique.
Pergunta: A realização de si é tão importante?
Maharaj: Sem ela você será consumido por desejos e medos que se repetem insensatamente num interminável sofrimento. A maioria das pessoas não sabe que pode haver um fim para a dor. Mas uma vez que escutarem a boa notícia, ir além de todas as lutas e batalhas é a tarefa mais urgente que pode existir, obviamente. Você sabe que pode ser livre e agora cabe a você. Ou você permanece para sempre com fome e sede, anseios, buscando, segurando, tentando reter, e sempre perdendo e se entristecendo; ou sai totalmente em busca do estado de perfeição atemporal ao qual nada pode ser acrescentado, do qual nada é retirado. Nele, todos os desejos e medos estão ausentes, não porque foram abandonados, mas porque perderam o seu significado.
Pergunta: Até agora tenho acompanhado o que você fala. Agora, o que devo fazer?
Maharaj: Não há nada a fazer. Apenas seja. Não faça nada. Seja. Sem escalar montanhas e sentar em cavernas. Eu nem mesmo digo: “seja você mesmo”, um vez que você não se conhece. Simplesmente seja. Tendo visto que você não é nem o mundo “externo” das percepções, nem o mundo interno dos pensamentos, que você não é nem corpo nem mente — simplesmente seja.
Pergunta: Certamente, existem níveis de realização.
Maharaj: Não existem degraus para a auto-realização. Não há nada gradual a esse respeito. Acontece de repente e é irreversível. Você muda para uma nova dimensão, e as dimensões anteriores são meras abstrações vistas a partir dessa nova. Assim como no amanhecer você vê as coisas como elas são, é da mesma forma com a auto-realização, você vê tudo como é. O mundo de ilusões é deixado para trás.
Pergunta: No estado de realização as coisas mudam? Tornam-se coloridas e cheias de significado?
Maharaj: A experiência é certa, mas não é a experiência da realidade (sadanubhav), e sim da harmonia do universo (satvanubhav).
Pergunta: Não obstante, há progresso.
Maharaj: Pode haver progresso apenas na preparação (sadhana). A realização é súbita. O fruto amadurece lentamente, mas cai de repente e sem retorno.
Pergunta: Eu estou física e mentalmente em paz. Que mais eu preciso?
Maharaj: Seu estado pode não ser o estado último. Você vai reconhecer que você retornou ao seu estado natural por uma completa ausência de qualquer desejo e medo. Afinal, na raiz de todo desejo e medo está o sentimento de não ser o que você é. Assim como uma articulação do corpo provoca dores somente enquanto está fora de lugar, e é esquecida logo que é colocada de volta, também é toda a auto-preocupação um sintoma de uma distorção mental que desaparece logo que estamos no estado normal.
Pergunta: Sim, mas qual é o sadhana (prática espiritual) para alcançar o estado natural?
Pergunta: Se você pudesse me dizer o que irei me tornar, poderia ajudar-me a cuidar do meu desenvolvimento.
Maharaj: Como alguém pode dizer o que você irá tornar-se, quando não há nenhum tornar-se? Você simplesmente descobre o que você é. Moldar-se de acordo com um padrão é um doloroso desperdício de tempo. Não pense nem no passado e nem do futuro, apenas seja.
Pergunta: Como posso apenas ser? As mudanças são inevitáveis.
Maharaj: As mudanças são inevitáveis no inconstante, mas você não está sujeito a elas. Você é o imutável pano de fundo, contra o qual as mudanças são perceptíveis.
Pergunta: Tudo muda, o pano de fundo também muda. Não há necessidade de um fundo imutável para notar as mudanças. O Ser é momentâneo - é apenas o ponto onde o passado encontra o futuro.
Maharaj: Claro que o ‘si mesmo’ (Self) que está baseado em memória é momentâneo. Mas tal Ser demanda uma continuidade ininterrupta atrás dele. Você sabe por experiência que existem lacunas quando seu si mesmo é esquecido. O que o traz de volta à vida? O que o acorda de manhã? Deve haver algum fator constante ultrapassando as lacunas na consciência. Se você olhar atentamente verá que até mesmo sua consciência é em flashes diários, com lacunas intervindo o tempo todo. O que está nas lacunas? O que pode haver, além do seu verdadeiro Ser, que é atemporal; a mente e a ausência de mente são a mesma coisa para ele.
Pergunta: Existe algum lugar que você me aconselharia visitar, a fim de atingir a realização espiritual?
Maharaj: O único lugar apropriado é dentro. O mundo exterior não pode nem ajudar nem prejudicar. Nenhum sistema, nenhum padrão de ação irá levá-lo ao seu objetivo. Abandone todo trabalho para um futuro, concentre-se totalmente sobre o agora, preocupe-se apenas com sua resposta a cada movimento da vida conforme ela acontece.
Pergunta: Qual é a causa do desejo de vagar por ai?
Maharaj: Não existe um motivo. Você simplesmente sonha que vagueia. Em uns poucos anos a sua estadia na Índia vai aparecer como um sonho para você. Você sonhará algum outro sonho naquele momento. Perceba que não é você quem se desloca de sonho em sonho, mas sim os sonhos fluem diante de você e você é a testemunha imutável. Nenhum acontecimento afeta o seu verdadeiro Ser — essa é a Verdade Absoluta.
Pergunta: Não é possível me movimentar por ai fisicamente e manter-me estável interiormente?
Maharaj: Você pode, mas a que propósito isso serve? Se você é sincero e sério você verá que no final vai ficar farto de perambular e lamentará o desperdício de energia e tempo. Para encontrar o seu Ser, você não precisa dar nenhum passo.
Pergunta: Existe alguma diferença entre a experiência do Ser (Atman) e do Absoluto (Brahman)?
Maharaj: Não pode haver experiência do Absoluto, pois ele está além de todas as experiências. Por outro lado, o Ser é o fator experimentador ocorrendo em todas as experiências e, assim, de certa forma, valida a multiplicidade de experiências. O mundo pode estar cheio de coisas de grande valor, mas se não há ninguém para comprá-las, elas não têm preço. O Absoluto contém tudo que é experimentável, mas sem um experimentador isso é como nada. Isto que torna a experiência possível é o Absoluto. Isto que as torna real é o Ser (Self).
Pergunta: Não chegamos ao Absoluto através de uma gradação de experiências? Começando com o mais grosseiro, e terminando com o mais sublime.
Maharaj: Não pode haver nenhuma experiência sem um desejo por ela. Pode haver gradação entre desejos, mas entre o mais sublime desejo e a libertação de todo desejo, há um abismo que deve ser atravessado. O irreal pode parecer real, mas é transitório. O real não tem medo do tempo.
Pergunta: O irreal não é a expressão do real?
Maharaj: Como é possível? É como dizer que a verdade se expressa em sonhos. Para o real o irreal não existe. Parece ser verdadeiro só porque você acredita nele. Duvide dele, e ele cessa. Quando você está apaixonado por alguém, você dá realidade a isso — você imagina o seu amor ser todo-poderoso e eterno. Quando termina, você diz: "Eu pensei que fosse verdadeiro, mas não era”. Transitoriedade é a melhor prova da irrealidade. O que está limitado no tempo e no espaço e é aplicável a uma pessoa só, não é real. O verdadeiro é para todos e para sempre. Acima de tudo você acaricia a si mesmo. Você não aceitaria nada em troca da sua existência. O desejo de ser é o mais forte de todos os desejos e irá embora apenas em face à realização de sua verdadeira natureza.
Pergunta: Mesmo no irreal existe um toque de realidade.
Maharaj: Todo pensamento está na dualidade. Na identidade nenhum pensamento sobrevive.




















