quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

P. D. Ouspensky - Lembrança de si

Lembrar de si mesmo significa a mesma coisa que estar ciente de si - significa “eu sou”. Às vezes vem por si mesmo; é um sentimento muito estranho. Não é uma função, não é pensamento, não é sentimento; é um estado diferente de consciência. Por si mesmo ele vem apenas por momentos muito curtos, geralmente em arredores completamente novos, e dizemos para nós mesmos: 'Que estranho. Eu estou aqui'. Isso é lembrança de si, neste momento você lembra de si mesmo. Mais tarde quando você começa a distinguir estes momentos, você chega a uma outra conclusão interessante: você percebe que o que você se lembra da infância são somente os lampejos de lembrança de si, pois tudo o que você sabe de momentos ordinários é que as coisas aconteceram. Você sabe que você esteve lá, mas não se lembra de nada de maneira exata; mas se este flash acontece, então você recorda de tudo o que circundava aquele momento.

Para mim, pessoalmente, no início, a idéia mais interessante foi aquela da lembrança de si. Eu simplesmente não podia compreender como as pessoas puderam perder uma coisa dessas. Toda filosofia e psicologia européia simplesmente perderam este ponto. Existem vestígios disso nos antigos ensinamentos, mas eles estão tão bem disfarçados e colocados entre as coisas menos importantes que você não pode ver a importância da idéia. Quando tentamos manter todas essas coisas em mente e observarmos a nós mesmos, chegamos à conclusão muita definida de que no estado de consciência em que estamos, com toda essa identificação, consideração, emoções negativas e ausência de lembrança de si, nós estamos realmente adormecidos. Nós só imaginamos que estamos acordados. Por isso, quando tentamos lembrar de nós, isso significa somente uma coisa, nós tentamos acordar. E conseguimos despertar por um segundo, mas em seguida dormimos novamente. Este é o nosso estado de ser, então realmente estamos dormindo. Podemos acordar apenas se corrigirmos muitas coisas na máquina (corpo/mente/sentimento), e se trabalharmos muito persistentemente sobre esta idéia de despertar, e por um longo tempo.

A expressão, "lembrar de si mesmo” é usada especialmente, intencionalmente, porque em conversas comuns muito frequentemente dizemos: 'Ele esqueceu de si mesmo', ‘ele não lembrou dele mesmo', ou ‘ele lembrou de si mesmo à tempo’. Na realidade, nós nunca lembramos totalmente de nós mesmos. Nós nunca lembramos no momento. Nós nunca percebemos que estamos presentes, que estamos conscientes, que estamos aqui. Isto deve ser entendido, e, ao mesmo tempo, é preciso entender que, se fizermos esforços suficientes e por um período suficientemente longo, podemos aumentar a nossa capacidade para lembrar de nós mesmos, começamos a nos lembrar com mais frequência, começamos a nos lembrar com mais profundidade.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Nisargadatta Maharaj - O Supremo está acima de tudo


Maharaj: A pessoa nunca é o sujeito. Você pode ver uma pessoa, mas você não é a pessoa. Você é sempre o Supremo que aparece em um dado ponto do tempo e do espaço como a testemunha, uma ponte entre a pura consciência do Supremo e a multifacetada consciência da pessoa.
Pergunta: Quando eu olho para mim, descubro que eu sou várias pessoas lutando entre si para a utilização do corpo.
M: Elas correspondem às diversas tendências (sanskaras) da mente.
P: Eu posso criar a paz entre elas?
M: Como poderia? Elas são tão contraditórias! Veja-as como são - simples hábitos de pensamentos e sentimentos, leques de memórias e anseios.
P: No entanto, todas dizem 'eu sou'.
M: Apenas porque você se identifica com elas. Uma vez que você percebe que o que quer que apareça diante de você não pode ser você mesmo, e não pode dizer 'eu sou', você fica livre de todas as "pessoas" e de suas exigências. O senso de 'eu sou' é próprio de você. Não é possível separar-se dele, mas você pode conectá-lo a qualquer coisa, como ao dizer: “eu sou jovem”, “eu sou rico” etc. Mas tais auto-identificações são manifestamente falsas e causa de escravidão.
P: Eu posso agora entender que não sou a pessoa, mas aquele, que quando refletido na pessoa, lhe dá um senso de ser. Agora, e a respeito do Supremo? De que forma me conhecer como sendo o Supremo?
M: A fonte da consciência não pode ser um objeto na consciência. Conhecer a fonte é Ser a fonte. Quando você percebe que você não é a pessoa, mas a pura e calma testemunha, e que aquela consciência sem medo é o seu próprio Ser, você É o Ser. É a fonte, a inesgotável possibilidade.
P: Existem muitas fontes ou uma para todos?
M: Isso depende de como você olha para isso, a partir de que ponta. Os objetos do mundo são muitos, mas o olho que os vê é um. Aquilo que é mais alto sempre aparece como um para o que é mais baixo e o mais baixo como muitos para o mais alto.
P: As formas e todos os nomes são todos de um e mesmo Deus?
M: Mais uma vez, tudo depende de como você olha para isso. No nível verbal tudo é relativo. Absolutos deveriam ser experimentados, não discutidos.
P: Como o Absoluto é experimentado?
M: Não é um objeto a ser reconhecido e armazenado na memória. Em vez disso, está no presente e no sentimento. Tem mais a ver com o 'como' do que com o "o quê". Está na qualidade, no valor; sendo a fonte de tudo, está em tudo.
P: Se é a fonte, por que e como é que ela se manifesta?
M: Ela dá a luz à consciência. Todo o resto está na consciência.
P: Por que existem tantos centros de consciência?
M: O universo objetivo (mahadakash) está em constante movimento, projetando e dissolvendo inúmeras formas. Sempre que uma forma é infundida com a vida (Prana), a consciência (chetana) aparece através do reflexo da consciência na matéria.
P: Como é o Supremo afetado?
M: O que poderia afetá-lo, e como? A fonte não é afetada pelos caprichos do rio, nem é o metal afetado pela forma da jóia. A luz é afetada pela imagem na tela? O Supremo torna tudo possível, isso é tudo.

Gurdjieff - Paris - 1938


Gurdjieff: Eu me interessaria muito em saber algo sobre a sua lembrança de si. Como vai esse trabalho? Você esquece frequentemente? É fácil? Difícil, ou qualquer outra coisa? Quando você está na vida, faz isso muitas vezes? Ou não muitas? Quem faz isso? Como? Qual valor você dá para a lembrança de si? Gostaria que alguém me falasse como é que se comporta em relação a isso.
Pergunta: Tenho a impressão de que a minha lembrança de si não é voluntária. Ela me é dada em certos momentos. Gostaria de fazê-la nos momentos em que é difícil e quando sou incapaz de fazê-la.
Gurdjieff: Não é uma questão disso. Você tem a tarefa de lembrar de si mesmo. Fazemos isso como uma tarefa. Você entende?
Pergunta: Não muito bem.
Gurdjieff: Você se esquece?
Pergunta: Às vezes eu estou em um bom estado e eu faço bem.
Gurdjieff: O estado é uma coisa e a lembrança de si é outra coisa. É assunto da cabeça. Você lembra de si mesmo muitas vezes, ou esquece muitas vezes?
Pergunta: Os dois. Faço isso muitas vezes durante o dia. Às vezes eu decido fazê-la adequadamente descansado, e eu esqueço. E também muitas vezes, eu faço sem ter decidido de antemão.
Gurdjieff: Em outras palavras você esquece de lembrar de si quando é necessário, mas quando é inútil você se lembra automaticamente. Definitivamente, esse não é o nosso objetivo. É necessário habituar-se à lembrança de si conscientemente. Você não terá sucesso a menos que assuma a tarefa de lembrar-se com toda a sua presença, por exemplo, às quatro horas, às cinco e às seis, diga "eu sou".
Pergunta: Não entendo como é possível lembrar de si na vida diária. Já lembrança de si em melhores condições, quando paro e me acalmo, com muita dificuldade chego a algo pequeno, eu posso dizer que nunca tenho lembrança de si na vida.
Gurdjieff: Então você não faz nada conscientemente. Você faz automaticamente tudo o que faz.
Pergunta: Então o que fazer, senhor?
Gurdjieff: Dê a si mesmo uma tarefa "Tudo ou Nada". Se você não pode fazer isso, você é um nada. Você deve conseguir.
Pergunta: Eu tenho feito isso.
Gurdjieff: É preciso tomar como uma tarefa o lembrar de si mesmo.
Pergunta: Mas como lembrar de mim, uma vez que mesmo nas melhores condições eu não consigo?
Gurdjieff: Quanto piores as condições, melhor o resultado. É por isso que é preciso fazer. Não considere as condições, considere o momento da decisão. Em cada uma das três horas, você precisa absolutamente lembrar de si. Você entra em si mesmo, você sente que você existe com toda a sua presença - essa é a sua tarefa. Depois você termina. Não se pode sempre lembrar de si. O que conta é a fazê-lo conscientemente. Com uma decisão automática não vale nada.
Pergunta: Eu não entendo, senhor, como deseja que eu perceba conscientemente sendo que nunca ...
Mme de Salzmann: Porque você decidiu intencionalmente antecipadamente - você sente que ela é consciente.
Pergunta: A sensação não é forte. Tenho feito dessa maneira.
Gurdjieff: Sua decisão não é forte. Você deve decidir muitas coisas. Você deve colocar-se em um estado quieto e relaxado e nesse estado propor sua tarefa. Tente. Dez vezes, cem vezes, você falha. Você continua. Você tem problemas. Pouco a pouco você se treina e consegue. Mas não em um único esforço. Isso é uma coisa muito pequena, e é o mais importante. Lembre-se de si conscientemente. Conscientemente. Ou seja, por sua própria decisão. Lembrar de si mesmo e ao mesmo tempo, coletar a si mesmo, reunir-se, penetrar profundamente no seu próprio ser - essas então são as condições. Se você não pode continuar por muito tempo, tente por um período de tempo menor.
Pergunta: Eu nunca entro profundamente em mim mesmo.
Gurdjieff: Nem no início, nunca?
Pergunta: Eu não tive êxito.
Gurdjieff: Você não faz. Já que você não entendeu "conscientemente", você mesmo disse isso. Então faça.
Pergunta: Por quê? Eu não tive êxito, Sr. Gurdjieff.
Mme de Sazlmann: No início você deve fazê-lo por sua própria decisão, não por acaso, não porque aconteceu de chegar à sua mente. Mas você tomou a decisão de fazê-lo em um determinado momento, e você faz.
Pergunta: Mas eu faço dessa maneira.
Gurdjieff: Você faz mal. Faça-a da mesma maneira que você deu sua promessa de estar aqui às sete. Esse é um exemplo. Se não fizer dessa forma não tem valor nenhum. Dê a si mesmo a sua promessa e faça. Você faz essa promessa para você mesmo dessa maneira para lembrar-se de si em um determinado momento.
Pergunta: Eu faço assim, mas ajo automaticamente. Minha decisão é automática. Eu não consigo sentir.
Gurdjieff: Você tem que fazer um exercício para ficar mais 'coletado'. Aprenda a coletar a si mesmo. Escolha um bom momento que pareça propício. Sente-se. Sem que ninguém o perturbe. Relaxe. Toda a sua atenção está concentrada no seu relaxamento. Você acalma suas associações. Apenas e somente depois, você começa a pensar.
Pergunta: Sim. Eu tento assim e não tenho êxito.
Gurdjieff: Espere. Não me incomode, não me interrompa. Você nunca fez da maneira como falo. Suas explicações provam para mim. Depois, quando você tiver aquietado suas associações, só então, comece o exercício - conscientemente, com toda sua atenção, todas as suas faculdades. Você representa para si mesmo que você está circundado por uma atmosfera. Como a terra, o homem também tem uma atmosfera, que o circunda de todos os lados, com um metro mais ou menos - até um certo limite. Na atmosfera, as associações - na vida ordinária os pensamentos - produzem ondas. Elas concentram-se em certos locais, elas recuam e têm movimentos de acordo com a direção que você as trasmite. Isso depende do movimento do seu pensamento. Sua atmosfera é deslocada na direção que seu pensamento vai. Se você pensa na sua mãe, que está longe, sua atmosfera move-se na direção do lugar que sua mãe está. Quando você faz esse exercício, você representa para si mesmo que essa atmosfera tem limites. Por exemplo, um metro e meio. Então, você concentra toda a sua atenção em impedir que sua atmosfera escape além desse limite. Você não permite que ela vá mais longe do que um metro ou um metro e meio. Quando você sentir sua atmosfera aquietada, sem ondas, sem movimento, então com toda a sua vontade você a suga para dentro de si, você se conserva nessa atmosfera. Você a atrai conscientemente para dentro de você. Quanto mais você puder, melhor é. No início é muito cansativo.
É assim que se deve fazer o exercício. Depois você descansa do exercício, manda ele para o diabo. Repita-o novamente à noite. Esse exercício é feito especialmente para permitir que obtenhamos um estado recolhido. É o primeiro exercício. É difícil penetrar em si mesmo nesse primeiro esforço. É preciso obrigar a atmosfera a se manter dentro dos seus limites, e não lhe permitir ir mais longe do que deveria. É o primeiro exercício para adquirir um estado recolhido. Esse exercício é feito por todos, eu dei para todas as pessoas. Ninguém compreendeu o que é esse recolher-se, coletar-se, nem deu atenção a isso. Tenho visto isso pela maneira como falam. Quando você conseguir de fato fazê-lo, você será capaz de verdadeiramente ter um bom estado, e será capaz, por sua vontade, de reentrar completamente em si mesmo. Quando você disser "eu sou" irá sentir que você está em você, você sentirá no todo do corpo o eco do "eu" e quando você disser "sou", você terá a sensação, total, que você é você. Mas se você fizer por dez anos "Eu-Sou Eu-Sou Eu-sou" isso irá levá-lo a nada além do que ser um candidato para o hospício. Faça isso ou nada. Comece tudo de novo com esse exercício. É o primeiro exercício para lembrar de si mesmo.
Pergunta: A intensidade da lembrança em mim diminui muito rapidamente.
Gurdjieff: Você tem realmente feito isso por um longo tempo, regularmente?
Pergunta: Tenho feito não faz muito tempo.
Gurdjieff: Você tem feito isso apenas por alguns dias?
Pergunta: Não mais que isso.
Gurdjieff: Eu não entendo como pode diminuir. Quando você está no estado de lembrança de si, metade de sua atenção deve estar concentrada no "eu sou" e a outra metade deve controlar a manutenção do estado. Sua cabeça desempenha o papel de policial. Vigia por você, para guardar o seu estado. "Eu sou", com a outra metade da atenção. A outra parte supervisiona.
Pergunta: Mas o poder de controle vem e, em seguida, declina.
Gurdjieff: Você não fez como eu lhe disse. Metade de sua atenção deve fiscalizar, mas você deixa as associações prosseguirem. Seu pensamento desfila na sala em Paris. Vai para outro país. Sua atmosfera, a sua imaginação deixa você, e você permanece com a sua atenção automática. Feito dessa forma, é normal que ela diminua. É preciso fazer milhares e milhares de vezes o que eu lhe falo.
Pergunta: Por outro lado, tenho notado que a minha lembrança é melhor se é menos freqüente.
Gurdjieff: Isso é algo pequeno. Primeiro de tudo acostume-se a ficar por um longo tempo num estado recolhido. É isso que está ausente em você. O que você diz é uma coisa pequena. Quando tiver feito o que eu lhe digo, você será capaz de fazer milhares de vezes mais.
Pergunta: Sr. Gurdjieff, tenho notado que se eu consigo uma lembrança intensa quando faço os exercícios, o oposto acontece na vida ordinária: se eu tentar atuar um papel ou lembrar de mim quando estou com outras pessoas, o resultado é muito mais superficial.
Gurdjieff: Já expliquei isso mil vezes. Você nunca deve usar os resultados do trabalho na vida, desde que esses resultados não estejam fixos em você. Não use nada, não espere por nada. [Sr. Gurdjieff fala em russo com Mme de Salzmann.]
Pergunta: Devemos nos limitar ao exercício ou devemos também desempenhar um papel?
Gurdjieff: Também. Um homem que trabalha sobre si mesmo, está sempre buscando meios para fazê-lo. Se você encontrar um grande número de pessoas, você pode fazer uso disso. Isso irá fazer crescer algo em você, se você fize-lo bem.
Pergunta: O que significa desempenhar um papel? Significa comportar-se na frente de outras pessoas como se não estivéssemos fazendo o trabalho?
Mme de Sazlmann: Sr. Gurdjieff disse isso uma centena de vezes: internamente não se identificar, externamente fazer tudo como antes, como se nada tivesse mudado, mas conscientemente, em vez de deixar-se ser arrastado para longe.
Gurdjieff: E fazer de maneira que ninguém note qualquer mudança em você, nem que está fazendo algum trabalho interno especial. O trabalho importante para você é tentar não se identificar. Externamente, você continua a fazer tudo que a vida exige. Mas desempenha um papel. O que ocupa a totalidade de você mesmo é o seu trabalho interno. Para poder trabalhar, não se deve estar identificado internamente. Externamente faça tudo o que for obrigatório fazer em público. Mas não saia de dentro de si, desempenhe um papel. Conscientemente, faça tudo o que você tem que fazer.
Gurdjieff: Faça tudo pouco a pouco. Quando você trabalha conscientemente, e mesmo semi-conscientemente, isso come a sua energia. Você tem apenas um acumulador, não dez. Ele é recarregado quando você dorme, e então você consome a energia. Ela se vai toda. Não se deve deixar as luzes queimando por muito tempo.
Pergunta: Deveríamos gastar menos energia na vida exterior para que sobre mais para o trabalho?
Gurdjieff: Não tem nada a ver com isso. Não se preocupe com isso. O trabalho externo prossegue bastante automaticamente e requer muito pouca energia. Deixe a vida ir por si só. Mantenha a sua energia para o trabalho. Trabalho necessita de muita energia.
Mme de Sazlmann: Se você divide sua atenção corretamente, uma parte para relaxar, uma outra parte para se concentrar, você não poderia dormir. O sono vem se toda a sua atenção vai apenas para relaxar.
Gurdjieff: Você ainda não fez esse exercício. Faça-o. Só que não é possível avaliar os resultados em si mesmo.
Pergunta: Sr. Gurdjieff, às vezes eu fico entediado com a lembrança de si. Espero com impaciência o fim do tempo que estabeleci para o exercício. É monstruoso. Mas eu não posso mudar. Às vezes me sinto numa maravilhosa plenitude, mas em outros momentos absolutamente nada. Não posso mudar isso e quando este estado vem eu não sei a que se deve.
Gurdjieff: Isso prova que o automatismo é muito forte em você, que você tem muitas fraquezas, muitos cães, muitos "resultados de sal". Você deve matá-los. Como pode alguém ficar entediado com uma coisa divina?
Pergunta: Alguma coisa está faltando na minha lembrança de si.
Gurdjieff: É um sintoma do fato que há coisas desprezíveis em você. Tudo isto tem que ser limpo para se tornar digno de fazer este exercício. Coloque dez vezes mais atenção em limpar seu interior e torná-lo digno. Você não é digno. Existem muitos cães. Você entende o que eu chamo de cães? Coisas diferentes cristalizadas em você pela vida, pela educação. Todos estes resultados atuam como fatores criando associações que surgem continuamente e nos levam com elas. Esses fatores são muitos. É impossível matá-los de imediato. Mas temos de transformá-los em funções. Atualmente, um desses fatores muitas vezes se torna o seu "eu" e orienta-o. Até que o “eu” real venha. O seu lugar deve ser assumido pela cabeça, a cabeça deve desempenhar o papel de "eu".
Pergunta: Sr. Gurdjieff, como reconhecer estes cães, como saber quais são os piores? E depois, temos que atacá-los, e como? Ou devo continuar com o procedimento geral?
Gurdjieff: Geralmente, em todas as pessoas esses cães estão acostumados a viver em torno dos centros. É o lugar deles. Fatores tornam-se cristalizados de acordo com o centro predominante. Temos quatro centros, quatro localidades, quatro aldeias onde esses cães vivem. Em uma aldeia são muitos, em outra aldeia menos, na outra eles ainda são muito poucos. Em pessoas diferentes, há um maior ou menor número de cães em cada aldeia. Estas aldeias são: pensamento, sentimento, sensação e sexo, que é uma vila muito importante. Uma pessoa tem mais cães em uma vila, outro em outra. Depende de qual aldeia tem mais habitantes. O meu conselho, uma vez que você me pediu .... Repita a sua pergunta. [O aluno repete a sua pergunta.]
Em geral, matar os cães para que não lhe incomodem mais, e para que não tenham mais o poder de se apoderar do seu "eu", meu conselho é o seguinte (isso vale para todos): A primeira coisa é livrar-se dos cães na aldeia do sexo. Em seguida, nas outras. Mas primeiro você tem que liquidar este animal íntimo. Mais tarde você transfere sua atenção para as outras aldeias. Se você conhece essa regra, você vai procurar encontrar em qual aldeia continuar. Mas como amarra-los? Primeiro de tudo você se propõe a tarefa de nunca deixar os cães como antes. Bata neles de uma vez na cabeça! Uma vez que você reconheceu seu inimigo a sua tarefa é lutar contra ele. Talvez seja o seu verdadeiro inimigo. Um após o outro você doma todos esses cães. E, depois, passe para a outra aldeia. Desta forma você irá gradualmente superar todos os seus inimigos. Repito, não é uma questão de matá-los. Se algo está cristalizado, é para sempre. Pode até revelar ser algo benéfico se você usá-los como material, como função. Mas eles nunca devem assumir o comando, eles nunca podem ser autorizados a se fixar no seu "eu" e obter a posse dele. Esta deveria ser a sua tarefa. E isto aplica-se a todos vocês aqui.
Pergunta: Sr. Gurdjieff, esta função do sexo é uma função? Não é uma coisa que deveríamos reduzir e enfraquecer tanto quanto possível?
Gurdjieff: Não estamos falando das funções que são parte de nós, mas sim de cães, ou seja, de fraquezas em torno das nossas funções. As funções são as aldeias, não se pode alterá-las. Quanto aos cães, sim, deve-se mudar a sua raça.
Pergunta: Eu suponho que haja mais cães numa aldeia mais fraca. É assim?
Gurdjieff: Talvez a aldeia torna-se fraca, pois tem muitos cães para enfraquecê-la. Cada cachorro tem um nome nas aldeias. Eu conheço todos.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Ramakrishna - Vijnana

Jnana é a realização do Ser por meio do processo “Neti, Neti” - "Nem isso, nem aquilo." A pessoa entra em samadhi por esse processo de eliminação e realiza o Atman (alma). Mas vijnana significa o conhecimento com maior plenitude.
Algumas pessoas já ouviram falar a respeito do leite, outras beberam o leite. Aquele que apenas ouviu falar é "ignorante". Quem já viu é um jnani. Mas aquele que bebeu tem vijnana, ou seja, o conhecimento pleno do leite. Após ter tido a visão de Deus, Ele lhe fala como se fosse um parente próximo. Isso é vijnana. Primeiro você tem que discernir, utilizando o método 'Nem isso, nem aquilo': 'Ele não é os cinco elementos, nem os órgão dos sentidos, nem a mente, nem a inteligência e nem o ego. Está mais além de todos estes princípios cósmicos.
Você quer subir no telhado? Deve então remover e deixar para trás uma a uma todas as escadas. As escadas não são de modo algum o telhado. Mas, depois de atingir o telhado, percebe-se que as escadas são feitas do mesmo material que o telhado, tijolos, cal e poeira de tijolo; percebe-se que é o Supremo Brahman que se tornou o universo, as coisas vivas e os vinte e quatro princípios cósmicos. Aquele que é Atman (a alma) tornou-se os cinco elementos.
Você poderá perguntar, por que a terra é tão dura se saiu do Atman? Tudo é possível através da vontade de Deus. Não vê que a carne e os ossos são feitos de sangue e sêmen? Que dura se torna "a espuma do mar"! Depois de ter atingido vijnana, é possível viver no mundo. Em seguida, entende-se intimamente e de maneira muito clara que o próprio Deus tornou-se o universo e todas as coisas vivas; que Ele não está fora do mundo. O fato é que temos que ter o 'olho espiritual'. Você desenvolverá o olho logo que a sua mente se tornar pura. De um lado está a esposa, de outro o filho. A pessoa ama ambos, mas de maneira diferente. Portanto, a verdade é que tudo depende da mente. A mente pura adquire uma nova atitude. Através de tal mente, vemos Deus neste mundo. Para isso é necessário uma disciplina espiritual.

Rodney Collin - Lembrança de Si (Self-remembering)

Quando começamos a ver que podemos começar a lembrar de nós mesmos apenas por alguns segundos por vez, parece insignificante. Mas o que se deve compreender é que é difícil exatamente porque é o começo de um estado novo para nós, a chave para um mundo novo. Se fosse fácil e se os resultados viessem mais rapidamente poderia não ter a importância que tem. Exatamente por esta razão é impossível dizer quanto tempo levará para alcançar a lembrança de si. Quanto tempo levará para chegar ao México? Algumas pessoas podem ir para lá em um dia, outras em um mês, outras em um ano, algumas em dez anos, mas a maioria das pessoas nunca irá, porque não há nenhuma razão para elas irem. É assim também com a lembrança de si. Somente é possível para aqueles que querem muito e tentam muito; tempo é necessário - anos, muitos anos. E mesmo se conseguirem atingir o que compreendem por lembrança de si, verão que além daquilo, infinitas novas distâncias e novos significados se abrem, e que a realização de um estágio dela é somente o começo de outro.
Quando a lembrança de si verdadeira vem, a pessoa não quer alterar a si mesma, ou os outros; de algum modo ela se eleva acima das fraquezas dos outros e de suas próprias. Não pode haver nenhuma culpa em lugar algum. A pessoa engole aquilo que É, e torna-se livre.
Nós não devemos deixar o esforço da lembrança de si deslizar para a introspecção. Se nos sentirmos um ser intensamente vivo vivendo em um mundo intensamente vivo, tudo penetrado pela Divindade viva, sentiremos o que significa dar, sentir e coletar, simultaneamente, gradualmente, o gosto disso penetrará profundamente em nós e criará um anseio constante por isso.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Upasni Maharaj - Parabrahma


As pessoas dizem que eu sou o perfeito Parabrahma. Quanto mais se está apto a apreciar e experimentar o estado de Parabrahma da mente, mais se está apto a perder o orgulho (Abmana). Eu alcancei esse estado principalmente devido a ter sido desprovido de todo o orgulho.
O que é Parabrahama? Todos vocês e toda a criação são Parabrahma. Mas você não está apto a experimentar, a estar consciente deste estado por causa do orgulho de todas as máscaras que você possui.
Se você perder todo o orgulho, neste momento você experimentará o estado de Parabrahma de uma vez.
Alguns vêm aqui e dizem: “torne-nos como você”, ninguém pode transformar nenhuma pessoa assim. Quem quer que se livre totalmente dos sentimentos de vergonha, medo, dúvida e orgulho automaticamente torna-se assim.
De alguma maneira eu consegui descartar minha culpa e me tornei nu, fui chamado de louco, muitos me perguntavam: “se nos tornarmos assim nus e loucos, vamos nos tornar como você?” Eu respondo: é porque vocês sentem que se fizerem igual a mim não se tornarão como eu que vocês não estão prontos para se tornarem como eu. Isso é tudo.
Se você largar tudo e sentar em algum lugar com determinação total permanentemente, você estará confinado a tornar-se como eu. Porque fazer isso, é um dos métodos principais de perder todo o orgulho.
Não quer dizer que eu apenas estou no estado de Parabrahma, todas as coisas desse mundo, toda a criação estão num estado de Parabrahma. O único ponto é que muito poucos seres humanos estão aptos a experimentar seu estado original, quase todos os seres estão envolvidos com os assuntos do mundo e amam ficar envolvidos nisso, eles nunca tentam adaptar ou mesmo olhar para os métodos que nos fazem nos tornarmos conscientes do nosso estado original de Brahma. Aqueles que não se sentem interessados pelos assuntos do mundo, aqueles que sentem que deveriam sair dos assuntos do mundo, aqueles que se sentem desapontados com o mundo, bem, são eles que adaptam vários métodos para escapar disso ao longo do tempo. São eles que são qualificados para atingir Brahma.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Bhagavan Ramana Maharshi - 1938

Discípulo: (Fala sobre uma visão de Shiva )
Bhagavan: Você fala de uma visão de Shiva. A visão é sempre de um objeto. Isso implica a existência de um sujeito. O valor da visão é o mesmo que o valor daquele que vê (isto é, a natureza da visão está no mesmo plano que a daquele que vê). Aparecimento implica desaparecimento também. O que quer que apareça deve igualmente desaparecer. Uma visão nunca pode ser eterna. Mas Shiva é eterno. A Visão (Pratyaksha) de Shiva significa a existência dos olhos para ver; do intelecto (buddhi) que encontra-se atrás da visão; do sujeito que vê atrás do buddhi e da visão; e finalmente da consciência que é a base do sujeito que vê. Esta Pratyaksha (visão) não é tão real como se imagina ser, porque não é íntima e inerente; não é de primeira mão. É o resultado de diversas fases sucessivas da consciência. Dessas, apenas a consciência não varia. É eterna. É Shiva. É o Ser.
A visão implica na pessoa que vê. Esse que vê não pode negar a existência do Ser (self). Não há nenhum momento em que o Ser como consciência não exista; nem pode esse que vê permanecer separado da consciência. Essa consciência é o Ser eterno e o único Ser. Esse que vê não pode ver a si mesmo.
Quer dizer então, que ele nega sua existência porque não pode ver-se com os olhos como na visão (Pratyaksha)? Não! Assim, Pratyaksha não significa ver, mas sim ser. “SER” é realizar que - EU SOU AQUELE EU SOU. EU SOU é Shiva. Nada mais pode ser sem ele. Tudo tem seu ser em Shiva e por causa de Shiva. Portanto, questione “quem sou eu?” Mergulhe profundamente dentro de si e permaneça como o Ser. Aquele é Shiva - o Ser. Não espere ter visões repetidas dele .
Qual é a diferença entre os objetos que você vê e Shiva? Ele é tanto o sujeito quanto o objeto. Você não pode ser sem Shiva. Shiva é realizado sempre aqui e agora. Se você pensa que você não o realizou isso está errado. Esse é o obstáculo para realizar Shiva. Abandone esse pensamento também e a realização estará lá.
Discípulo: Sim. Mas como ter efetividade o mais rápido possível?
Bhagavan: Esse é o obstáculo para a realização. Pode haver o indivíduo sem Shiva? Mesmo agora Ele é você. Não há nenhuma questão de tempo. Se houvesse um momento de não-realização, a questão da realização poderia surgir. Mas sendo como é, você não pode ser sem Ele. Ele já está realizado, sempre realizado e nunca não-realizado. Renda-se a Ele e habite na vontade Dele; espere Seu prazer. Se você pede que Ele faça como lhe agrada, isso não é rendição mas sim, comando. Você não pode mandá-lo obedecer-lhe e ainda pensar que você se rendeu. Ele sabe o que é melhor e quando e como fazer. Deixe tudo inteiramente para Ele.
Dele é o fardo: você já não tem mais nenhuma preocupação. Todas as suas preocupções são Dele. Tal é a rendição. Isso é Bhakti. Ou, questione para quem essas perguntas surgem. Mergulhe fundo no coração e permaneça como o Ser. Um desses dois caminhos está aberto ao aspirante.
Não há nenhum ser que não esteja consciente e, portanto, que não seja Shiva. Não apenas ele é Shiva, mas também todas as coisas de que ele está ciente e das que ele não está. Contudo, em completa ignorância ele pensa que vê o universo de diversas formas. Mas se ele ver o seu Ser ele não estará ciente de estar apartado do universo; dessa forma, de fato, sua individualidade e as outras entidades desaparecem, embora persistam em todas as suas formas. Shiva é visto como o universo. Mas aquele que vê, não vê o próprio pano de fundo. Pense no homem que vê somente o pano e não o algodão do qual ele é feito; ou do homem que vê os filmes movendo-se sobre a tela num cinema e não vê a própria tela como o pano de fundo; ou outra vez, o homem que vê as letras que lê mas não o papel em que estão escritas. Os objetos são, portanto, consciência e formas.
Mas a pessoa ordinária vê os objetos no universo e não Shiva nestas formas. Shiva é o Ser assumindo estas formas e a consciência que as vê. Isso é dizer, Shiva é o pano de fundo que é a base tanto do sujeito quanto do objeto, e, outra vez, Shiva em Repouso e Shiva em Ação, ou Shiva e Shakti, ou o Senhor e o Universo. O que quer que digamos que exista, é somente a consciência em repouso ou em ação. Quem é que não está consciente? Então, quem não é realizado? Como então podem as perguntas surgirem duvidando da realização ou desejando-a? Se 'eu' não sou Pratyaksha para mim, então posso dizer que Shiva não é Pratyaksha.

Meher Baba - 1956

O silêncio que venho observando pelos últimos 31 anos não pretende velar a minha verdade, mas sim manifestá-la. Quando você realizar a verdade como sendo o núcleo do seu próprio Ser, você estará livre de todo medo e desamparo, e todas as rivalidades e conflitos revelar-se-ão serem sem sentido, pois você se conhecerá como sendo inviolavelmente um com tudo o que tem vida.
Para as lutas, faltas e falhas da humanidade Eu digo, “tenham fé”. Voltem-se para Deus em completa rendição e recebam o amor divino. Vocês são igualmente uma parte da vida divina una e indivisível. Não há um só átomo que não vibre com esta vida divina.
Não há mais necessidade de ninguém se desesperar. O maior dos pecadores bem como o maior dos santos têm a mesma infalível garantia divina.

Jalaluddin Rumi - “Por que fizeste os homens para depois destruí-los?”

Moisés disse: “Ó senhor do dia do ajuste de contas,
Tu fazes as formas; por que, então, as destróis?
Fazes formas encantadoras, tanto homens como mulheres;
Por que, então, Tu as devastas?”
Deus respondeu: “Sei que tua pergunta
Não procede de negação nem de curiosidade vã.
Senão te puniria e castigaria;
Sim, eu te censuraria por essa pergunta.
Mas procura descobrir em minhas ações
O princípio diretor e o mistério eterno,
Para informar teu povo a esse respeito
E tornar “madura” toda pessoa verde.
Sim oh mensageiro, tu me questionastes para que Eu possa revelar
Meus caminhos ao povo, embora tu os conheças.

Ó Moisés, vai e semeia a semente no solo
Para fazer justiça a essa pergunta”.
Quando Moisés havia semeado e sua semente crescera,
Ele tomou uma foice e ceifou o trigo;
Então uma voz divina chegou aos seus ouvidos:
“Por que semeaste e nutriste o trigo e
então o cortaste quando estava maduro?”
Moisés respondeu: “Senhor, eu o cortei e abati
Porque aqui tenho grão e palha.
O grão está fora de lugar no palheiro,
E a palha é inútil no celeiro.
É errado misturar esses dois,
É preciso peneirá-los para separar um do outro”.
Deus disse: “ De quem aprendeste esse conhecimento
Pelo qual instruíste uma eira?”
Moisés disse: “Ó senhor, deste-me o discernimento”.
Deus disse: “Então não tenho discernimento eu também?
Entre minhas criaturas há espíritos puros,
E também espíritos escuros e impuros.
As ostras não são todas do mesmo valor;
Algumas contém pérolas, outras pedras negras.
É preciso discernir as más das boas,
Tanto quanto separar o grão da palha.
A gente deste mundo existe para manifestar
E revelar o 'tesouro escondido'.
Lê: 'Eu era um tesouro escondido e queria ser conhecido';
Não escondas o tesouro escondido, mas revela-o
Teu verdadeiro tesouro está escondido debaixo de outro falso,
Assim como a manteiga está escondida na substância do leite.
O falso é esse seu corpo transitório,
O verdadeiro, tua alma divina.
Muito tempo esse leite fica exposto à vista,
E a manteiga da alma está oculta e não percebida.

Bate teu leite assiduamente misturando-o com o conhecimento,
Para que o que está oculto nele possa ser revelado;
Porque este mortal é o guia para a imortalidade,
Como os gritos dos ébrios indicam a taberna”.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Hazrat Inayat Khan - A Eterna Música

Música, a palavra que usamos em nossa língua diária, não é nada menos que o retrato do Amado. É porque a música é o retrato do nosso Amado que amamos música. Mas a pergunta é: O que é nosso Amado, ou onde está nosso Amado? Nosso Amado é aquele que é nossa fonte e nosso objetivo. O que nós vemos do nosso Amado diante dos nossos olhos físicos é a beleza que está diante de nós. Essa parte do nosso Amado que não está manifesta aos nossos olhos é aquela forma interior de beleza da qual nosso Amado nos fala. Se somente escutássemos a voz de toda a beleza que nos atrai em todo o tipo de formas, nós descobriríamos que em cada aspecto Ele nos diz que atrás de toda a manifestação está o Espírito perfeito, o Espírito da sabedoria.
O que vemos como a principal expressão da vida na beleza visível diante de nós? É o movimento. Na linha, na cor, nas mudanças das estações, na formação e na quebra das ondas, no vento, na tempestade, em toda a beleza da natureza há um movimento constante. É esse movimento que causou o dia e a noite, e mudança nas estações. Esse movimento deu-nos a compreensão do que chamamos de tempo. Senão, não haveria nenhum tempo, pois Ele é a eternidade.
Isso nos ensina que tudo que amamos e admiramos, observamos e compreendemos, é a vida escondida por trás, e esta vida é o nosso Ser.
É devido a nossa limitação que não podemos ver todo o ser de Deus, mas tudo o que amamos na cor, na linha e na forma, ou na personalidade - tudo que é amado por nós - pertence à beleza real que é o Amado de tudo.
Quando tentamos descobrir o que nos atrai nesta beleza que vemos em todas as formas, descobrimos que é o movimento da beleza: a música. Todas as formas da natureza, as flores tão perfeitamente formadas e coloridas, os planetas e as estrelas, a terra - todos dão a idéia de harmonia, de música.
O todo da natureza está respirando, não somente as criaturas vivas, mas toda a natureza. É somente nossa tendência de comparar aquilo que parece estar mais vivo com aquilo que nos parece não tão vivo, que nos faz esquecer que todas as coisas e todos os seres estão vivendo uma vida perfeita. E o sinal de vida que essa beleza viva dá é a música. O que faz a alma do poeta dançar? Música. O que faz o pintor pintar lindos quadros, o músico cantar lindas canções? É a inspiração que a beleza dá. Os Sufis chamaram esta beleza de Saqi, o doador divino, que dá o vinho da vida a tudo. O que é o vinho do Sufi? Toda a beleza: na forma, na linha e na cor, na imaginação, no sentimento, nas maneiras – em tudo isso ele vê a beleza única. Todas essas formas diferentes são parte do espírito da beleza que é a vida por trás, abençoando sempre.
Igualmente ao que chamamos de música na linguagem diária, para mim arquitetura é música, jardinagem é música, o cultivo da terra é música, a pintura é música, poesia é música. Em todas as ocupações da vida onde a beleza é a inspiração, onde o vinho divino foi derramado, existe música. Mas entre todas as artes diferentes, a arte da música foi considerada especialmente divina, porque é a miniatura exata da lei que trabalha através do universo inteiro.
Por exemplo, se estudarmos a nós mesmos perceberemos que as batidas do pulso e do coração, a inalação e a exalação da respiração, são todos trabalho do ritmo. A vida depende do funcionamento rítmico do mecanismo inteiro do corpo. A respiração manifestada como a voz, como a palavra, como o som. O som é continuamente audível, o som fora e o som dentro de nós: isso é música. Isso mostra que há uma música fora e dentro de nós. A música inspira não somente a alma do grande músico, mas cada criança, no instante que vem ao mundo, começa a mover seus pequenos braços e pernas com o ritmo da música. Conseqüentemente, não é nenhum exagero dizer que a música é a linguagem da beleza, a linguagem Daquele a quem cada alma viva tem amado. E podemos compreender que, se realizarmos e reconhecermos a perfeição de toda esta beleza como sendo Deus, nosso Amado, então é natural que essa música que vemos na arte e no universo inteiro, deva ser chamada a Arte Divina.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Siddharameshwar Maharaj - Paramatma

Brahman é como o vazio, como o céu - sem medida, sem qualidade, sem impureza, estável e eterno. Ele é chamado Paramatma, e existem muitos nomes para ele. Não obstante, Ele não tem nenhum nome. Mas você sabe que Ele é eternamente o mesmo. Brahman é vazio como o céu, como se não houvesse nada em absoluto. Conseqüentemente, parece vazio, puro e sempre eterno. Está lá sempre. A esse chamamos Paramatman. Está presente no começo e no final, antes que se formem os conceitos e mesmo quando eles aparecem. Estejamos dormindo ou despertos, a ‘presenciação’ do próprio ‘Si mesmo’ está sempre lá. Ela é natural. Não é sentida nem vista, mas está lá. Está presente antes, durante e depois que apareça qualquer conceito. É imutável e permanente. Nessa natureza imutável, sente-se como se houvesse movimento. Isso é chamado Ilusão, Presenciação ou Maya. Quando se sente o transitório, isso é chamado Ishwara (Deus) ou Maya. Há incontáveis nomes - masculinos, femininos e neutros que se dão ao Uno. Ele não é visto nem sentido, contudo, dão-Lhe muitos nomes.
Um símbolo é usado a fim de identificar um objeto ou uma idéia que não possam ser vistos diretamente. São usados também diferentes nomes para indicar este Paramatman “sem nome”. Os nomes são só indicadores, não os próprios objetos. Similarmente, nomes têm sido dados a
Brahman com o objetivo de identificação. Esses nomes são somente para compreender a “presenciação” ou o impulso de “eu”.
O que somos nós? Somos sempre a encarnação da existência, do conhecimento e da graça(Satchidananda) - é daqui que conhecemos a existência, portanto, há a Consciência seguida de alegria ou de contentamento também. Somente há um impulso de “eu”. Os nomes de “Presenciacão”, “Mula Maya”, etc., existem somente por causa desse “eu”.
A existência é somente Parabrahman - então por que os nomes Satchiananda, Presenciação, Mula Maya, ou Consciência para aquele “eu sou”? Somente para nos ajudar a “conhecer” a realidade. Você existe incondicionalmente, sem esforço. Em você aparece a Presenciação.
Essa é Mula Maya (ou a Ilusão primordial) ou todos aqueles nomes que foram mencionados antes. Nesta Presenciação aparecem as letras, as palavras, os pensamentos, a mente, o intelecto e etc. As letras e as palavras são juntadas, causando a aparência do discurso. A isso dá-se o nome de Vidyadevi (a Deusa do conhecimento) ou Shiva. A Ele se dão tais nomes variados. Conseqüentemente, tudo o que é necessário é reconhecê-Lo. “Purushartha” indica o processo de reconhecê-Lo. O que é a Presenciação? É a consciência. Uma vez que você sabe quem “eu sou”, então você pode descrevê-lo. Qual é a utilidade dessa porção de nomes sem conhecer o ‘si mesmo’, o Ser? Trate, portanto, de examinar tudo isso dentro de você mesmo. Confirma o que as escrituras e o Guru têm dito com a prova da sua própria experiência. A pessoa progredirá se compreender o que é grosseiro e o que é sutil. Tudo o que é visível é grosseiro. Então aparecem os dez sentidos, os cinco pranas (prana, aprana, vyana, udana e samana), a mente, o intelecto, etc.
Se você prosseguir sem compreensão, então não compreenderá durante milhões de nascimentos. No espaço permanente e sem movimento existe ar, mas há uma diferença sutil entre o ar e o espaço. Ela não é detectada pelo olho, mas há uma diferença entre ambos - o ar pode ser sentido, mas o espaço é somente um vazio. Similarmente, há uma diferença sutil entre o ‘si mesmo’ e a Presenciação, exatamente como há uma diferença entre o bronze e o ouro. No 'si mesmo' (o Ser) não há nenhuma modificação de nenhum tipo, isso é porque ele é incondicionado. A isso dá-se o nome - permanência. Assim, Chaitanya (a força vital) ou Maya é somente ilusão e há somente o Brahman no ‘Si mesmo’. Da mesma maneira que há ar ou brisa no céu, há o impulso “eu sou” na ‘Presenciação’, que também é chamado de poder ou força. É chamado também de “desejação”.
O impulso “eu sou” é chamado de Mula Prakriti. Também é chamado de Mahakarana Deha -o corpo supra-causal. Então aparecem os quatro corpos, e esse que está sentado nesta mesa de quatro pés é Satyanarayana, Parabrahman, Parameshwara. É constante, permanente, como o espaço. Um outro nome para Mula Prakriti é Mahamaya. A “Presenciação” penetra tudo. O corpo sutil é chamado Hiranyagarbha (poder invisível), o corpo grosseiro é chamado Virat. O poder invisível indica o corpo causal, que é como o espaço, isto é, invisível. Conseqüentemente, o Atman tem mil caras, formas e figuras. Isto deve ser compreendido. A compreensão de que só há “unidade” neste panorama da existência aparente chama-se “Adhyatma Vidya” ou conhecimento espiritual.

Nisargadatta Maharaj - A manifestação total

O que faz você considerar-se uma pessoa? Sua identificação com o corpo. Esta personalidade individual irá durar? Ela durará apenas enquanto a identificação com o corpo permanecer. Mas uma vez que haja uma convicção firme de que você não é o corpo, essa individualidade é perdida. É a coisa mais simples, assim que você tem essa convicção que você não é o corpo, automaticamente, instantaneamente, você se torna o total manifesto. Assim que você abandona sua individualidade, você se torna a totalidade manifesta. Mas seu verdadeiro ser está além até mesmo disso que é a manifestação total. E você assume esta individualidade dentro desta manifestação total enquanto você está identificado com o corpo.
Quando não houver individualidade, o que você irá considerar ser esse que senta para meditar e o que irá considerar a meditação? Quando essa individualidade não está lá, quem medita e sobre o que? As pessoas falam muito livremente sobre meditação, mas o que realmente elas fazem? Elas usam a consciência para concentrarem-se em algo. Dhyana é quando este conhecimento, esta consciência de que eu sou, medita sobre si mesma e não em algo além de si mesma.
Quando você diz que precisa sentar para meditação, a primeira coisa a ser feita é entender é que não é a identificação com o corpo que está sentando para meditação, mas esse conhecimento “eu sou”, esta consciência, que está sentando em meditação e está meditando sobre si mesma. Quando isso for firmemente entendido, então torna-se fácil. Quando esta consciência, esta presença consciente, mergulha em si mesma, o estado de Samadhi surge. Quando esse Mana (o entendimento), Buddhi (inteligência), Chitta (Consciência individual), ou qualquer nome que seja usado, emerge nesse estado, então mesmo o conhecimento “eu estou meditando” se perde, ele também mergulha nesse estado. Esse sentimento conceitual de que eu existo é que desaparece e submerge no próprio Ser. Então essa presença consciente também se funde naquele conhecimento, naquela existência – isso é Samadhi.
Aquele conhecimento revela-se e começa a ter conhecimento sobre tudo móvel e imóvel. E esse conhecimento começa a conhecer a si mesmo. E finalmente o que acontece? A presença consciente apenas permanece. Isto é, há apenas a presença consciente, não “eu” ou “você”, ou qualquer coisa. Eu repito: é a presença total; ou seja, a manifestação total – não eu, você ou nenhum indivíduo.
Esta consciência, que está dentro do corpo e que, portanto, enganosamente assumiu que ela é o corpo, gradualmente realiza sua natureza real, realiza que ela é apenas presença consciente sem nenhum aspecto individual inerente. Finalmente, ela considera-se a presença consciente da manifestação total, e toda individualidade é perdida.
Portanto, o que começa como egoísmo (no sentido individual, como identificação com o indivíduo) finalmente torna-se conhecimento do Ser, como sendo a Presença Consciente.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Jalaluddin Rumi - O louvor assemelha-se ao vapor


Embora a água seja contida num reservatório,
Ainda assim o ar a absorverá, pois é o seu recipiente;
Ele a liberta e a leva até a sua fonte,
Pouco a pouco, sem que vejas o processo.
Da mesma maneira, nossa respiração, pouco a pouco,
Leva nossas almas de sua prisão na terra.
A boa palavra a Ele ascende(Alcorão)
Elevando-se de nós até onde Ele sabe.
Nossa respiração se eleva em temor a Deus,
São oferendas nossas ao trono da eternidade.
Depois descem até nós recompensas por nossos louvores,
Em dobro até, misericórdia do rei da glória.
Portanto, somos compelidos a proferir louvores,
Para que escravos possam atingir a altura das dádivas de Deus.
E assim, esse subir e descer prossegue eternamente,
E não cessa por todo o sempre ou mais.
Falando claramente, esta atração
Vem do mesmo lugar que este doce sabor.

Hazrat Inayat Khan - Raga


Ganhaste meu coração mais de mil vezes;
Vens velado sob muitas aparências, e em todas elas és único.
Quem não é atraído pelo esplendor por Ti produzido tão habilidosamente na face da terra?
Nesta feira da beleza brilhas adornado em inumeráveis vestes.
A Ti próprio pertence toda a beleza, e és tu que brilhas nela, e, no entanto, não és atraído por ela.
Neste palco da vida atuas como amigo e inimigo,
e sozinho vês a peça sendo atuada tão maravilhosamente.
Eu te procurei por tanto tempo, meu amado, e finalmente Te encontrei, oh conquistador do meu coração; e ao encontrar-Te eu me perdi.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Upasni Maharaj - O Escultor

Veja as variadas formas maravilhosas que Deus tem assumido. As diferentes qualidades mostradas por diferentes formas têm dado tantos nomes para Deus. É por isso que existem inumeráveis nomes para Deus. Ele atua em tantos papéis, toma tantas formas! Quem pode compreender o Leela (Jogo) de Deus? Seus Leelas são infinitos, tudo o que você vê é a forma Dele, todas as formas animadas e inanimadas dentro e fora desta criação foram assumidas por Ele. É como milhares de imagens e de formas feitas do mesmo barro e nomeadas de maneiras diferentes e usadas para propósitos diferentes.

Se uma imagem de Ganapati é feita de barro, então aquela massa de barro é chamada de Ganapati. E no momento apropriado, as qualidades de Ganapati aparecem naquela imagem. Se uma forma de uma serpente é dada ao mesmo barro, todos que a vêem realmente sentem a presença de uma serpente. Se o mesmo barro é transformado na imagem de um tigre e colocado na floresta num lugar apropriado, então os viajantes certamente acreditarão ser um tigre real, e se sentirão amedrontados. Portanto, o barro transformado numa forma particular e mantido num determinado lugar está destinado a criar um efeito particular na pessoa que o vê. Mas a pessoa que fez essas formas ou que sabe que todas essas formas são feitas apenas de barro, tem a mente nunca afetada por nenhuma dessas formas.

Kabir - Há uma lua dentro de meu corpo

A Lua brilha no meu corpo,
mas meus olhos cegos não podem vê-la.
A Lua está dentro de mim,
e também está o Sol.
O imutável tambor da eternidade é soado dentro de mim;
mas meus ouvidos surdos não podem ouvi-lo.
Enquanto o homem clamar por ‘eu’ e ‘meu’,
seus trabalhos serão vazios:
Quando todo o amor do ‘eu’ e do ‘meu’ for morto,
então o trabalho do Senhor estará feito.
Pois o trabalho não tem outro objetivo além de adquirir o conhecimento:
quando Ele chega, o trabalho é deixado de lado.

A flor desabrocha pelo fruto:
quando o fruto vem, a flor murcha.
O almíscar está no cervo,
mas ele não procura dentro de si mesmo:
ele vagueia em busca de relva.

Rodney Collin - Corpo, Alma e Espírito


Do que trata nosso trabalho?
Nosso trabalho visa permitir que o homem viva conscientemente em três corpos, em três mundos, e assim, que perceba o plano divino. Um corpo físico foi dado a ele pela Natureza no nascimento. Existe em algum lugar a faísca divina original lançada por Deus e que, quando reencontrada, será seu espírito consciente. Mas o homem ordinário não tem nenhum sentimento por aquele corpo que foi criado para conectar os dois - a alma.
A alma é a ponte entre o corpo e o espírito, entre a terra e o céu. Ela está lá, mas você tem que tornar-se ciente dela, tem que senti-la, tem que viver nela. Você sente a alma abrindo seu coração às pessoas, aceitando aquilo que É. A alma cresce através do coração. O coração é a porta da alma. Mas em todos os homens comuns, esta porta está obstruída pelo medo, pelo preconceito, pela dúvida. Seu coração não está aberto para o mundo. O homem apenas toma do mundo aquilo que quer e da maneira que quer. Se ele pudesse apenas ser ele mesmo, ser seu ‘Ser’ (Self) inteiro, sem medo e sem auto-proteção, ele já viveria da alma. Portanto, aprenda simplesmente a ser, ser seu inteiro ‘si mesmo’ (Self). Primeiramente, você deve viver ciente do seu corpo físico. Então, ciente de sua alma. E depois, ciente de seu espírito.
A alma é a ponte, a conexão, entre o corpo e o espírito. Aqueles que vivem completamente dos impulsos dos corpos e da vaidade - você pode dizer que não têm nenhuma alma, ou que sua alma está adormecida; você sente isso. Aqueles que vivem buscando a verdade, tentando obedecer a consciência - suas almas estão crescendo, suas almas estão despertando; você sente isso também. Realmente todos têm uma alma, mas temos que tornarmos-nos cientes dela, viver nela, fazê-la vibrar. Quando ela vibra realmente, a conexão entre o corpo e o espírito é completa. O que faz a alma vibrar, e assim, permitir que todas as partes do homem atuem como um? Luta, fé, esforço, vontade, dor e alegria, memória, piedade e sacrifício. Todos esses pertencem à vinda da alma à vida.
Nós reconhecemos o espírito pela consciência, que é sua voz; nós reconhecemos o corpo prestando atenção nele; reconhecemos a alma através da vontade; vontade através da qual o homem faz seu corpo obedecer seu espírito, e assim unifica-o. O corpo tem suas emanações e o espírito tem suas emanações. Cada esforço da vontade, pela qual um homem torna sua ação física de acordo com sua consciência, funde um átomo do corpo com um átomo do espírito para dar forma a uma molécula da alma. E da mesma maneira que os átomos de hidrogênio e os átomos do oxigênio podem existir lado a lado para sempre, sem dar forma à água até que sejam fundidos pelo choque da eletrólise, assim, o espírito e o corpo podem existir indefinidamente lado a lado até que o choque da vontade faça da fusão de ambos a nova substância: alma.
O corpo vive no espaço e no tempo, sujeito à matéria, à ilusão e aos sentidos. O espírito vive na eternidade e na verdade. A alma deve unir os dois. Portanto, tudo que é certeza pertence ao espírito, tudo que é esforço pertence à alma. O espírito conhece Deus, a alma tem a fé; o espírito conhece Deus, a alma tem a esperança; o espírito conhece Deus, a alma tem a caridade. É assim que se faz a alma vibrar, e o homem transforma-se em um, torna-se ele mesmo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Meher Baba - Manonash

Deus está em toda parte e faz tudo.
Deus está dentro de nós e sabe tudo.
Deus é sem nós e vê tudo.
Deus está além de nós e É tudo.

Este Todo-penetrante, Todo-compreendedor, Deus todo-poderoso, que é o Ser dentro de nosso próprio ser e sem o qual nada é real, ajudou-me e guiou-me durante este período de Manonash de meu trabalho, e faz-me agora ditar a vocês o seguinte: Tentar compreender com a mente aquilo que a mente jamais pode compreender é inútil. Tentar expressar pelos sons da linguagem e sob a forma de palavras o estado transcendental da alma é ainda mais inútil. Tudo que pode ser dito e que tem sido dito e que será dito por aqueles que vivem e experimentam esse estado, é que quando o falso ser é perdido, o Ser real é encontrado; que o nascimento do real pode somente seguir a morte do falso; e que morrendo para nós mesmos -a morte verdadeira que termina com todo o morrer- é o único caminho para a vida perpétua. Isso significa que quando a mente com seus satélites - desejos, ânsias, vontades - é consumida completamente pelo fogo do amor divino, o Ser infinito, indestrutível, indivisível e eterno é manifestado.
Isso é Manonash, a aniquilação do falso, limitado, miserável, ignorante e destrutível “eu” para ser substituído pelo "Eu” real, o possuidor eterno do conhecimento, do amor, do poder, da paz, da felicidade e da glória infinitos em sua existência imutável. Manonash está destinado a conduzir a esse estado glorioso no qual a pluralidade vai e a unidade vem, a ignorância vai e o conhecimento vem, o aprisionamento vai e a liberdade vem. Nós estamos todos alojados permanentemente neste oceano sem fronteiras do conhecimento infinito, no entanto, somos infinitamente ignorantes dele até que a mente - que é a fonte dessa ignorância - desapareça para sempre; a ignorância cessa de existir quando a mente cessa de existir! A menos, e até que a ignorância seja removida e o conhecimento for ganhado - o conhecimento por meio do qual a vida divina é experimentada e vivida - tudo que pertence ao espiritual parece paradoxal. Deus, o qual não vemos, dizemos que é real; e o mundo, que nós vemos, dizemos que é falso.
Na experiência, o que existe para nós não existe realmente, e o que não existe para nós existe realmente. Nós devemos perder a nós mesmos a fim de encontrar a nós mesmos. Assim, a própria perda é ganho. Devemos morrer para nós mesmos para viver em Deus. Desse modo, morte significa vida. Devemos nos tornar completamente vazios internamente para sermos possuídos completamente por Deus. Assim, o vazio completo significa a totalidade absoluta. Nós devemos nos tornar despidos do sentido de nós mesmos, não possuindo nada, para sermos absorvidos na infinidade de Deus. Assim, nada significa tudo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Nisargadatta Maharaj - Mahadakash, Chidakash e Paramakash

Maharaj: Mahadakash é a natureza, o oceano das existências, o espaço físico com tudo o que pode ser descrito com os sentidos. Chidakash é a extensão da consciência, o espaço mental do tempo, da percepção e da cognição. Paramakash é realidade sem tempo e sem espaço, sem mente, indiferenciada; é a potencialidade infinita, a fonte e a origem, a substância e a essência, a matéria e a consciência, e, contudo, está além de ambos. Não pode ser percebida, mas pode ser experimentada como sempre testemunhando a testemunha, percebendo o percebedor; a origem e o fim de toda a manifestação, a raiz do tempo e o espaço, a causa principal em toda corrente de causas.
Pegunta: Qual é a diferença entre o Vyakta (o manifesto) e o Avyakta (o não manifesto)?
Maharaj: Não há nenhuma diferença. É como a luz e a luz do dia. O Universo está cheio de luz que você não vê; mas a mesma luz você vê na forma de luz do dia. E o que a luz do dia revela é o Vyakti.
A pessoa é sempre o objeto, a testemunha é o sujeito, e sua relação de dependência mútua é um reflexo da identidade absoluta deles. Você imagina que são estados distintos e separados. Não são. São a mesma consciência - em repouso e em movimento, cada estado consciente um do outro. Em Chit (consciência universal) o homem conhece Deus e Deus conhece o homem. Em Chit o homem dá forma ao mundo e o mundo dá forma ao homem. Chit é a ligação, a ponte entre extremos, o fator de equilíbrio e de união em cada experiência. A totalidade de tudo o que é percebido é o que você chama de matéria. A totalidade de todos os percebedores é o que você chama de mente universal. A identidade dos dois, manifestando-se como a perceptibilidade e percepção, harmonia e inteligência, amorosidade e amor, reafirma-se eternamente.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Farid ud-Din Attar


No começo dos séculos Deus usou as montanhas como pregos para fixar a terra; depois lavou-lhe a face com as águas dos oceanos. Colocou a terra sobre o dorso de um touro; o touro sobre um peixe, e o peixe está no ar. Mas sobre o que repousa o ar? Sobre nada. Mas nada é nada, e tudo isso é nada. Admira, pois, a obra desse Rei, ainda que ele mesmo não a considere mais do que puro nada. Visto que existe unicamente a essência Dele, certamente não há nada fora ela. Seu trono está sobre a água, e o mundo está no ar; mas deixa água e ar, pois tudo é Deus: o Trono celeste e o mundo não são mais que um talismã. Deus é tudo, e as coisas têm somente um valor nominal. Saiba que o mundo visível e o mundo invisível são Ele mesmo. Não há nada além Dele, e o que é, é Ele. Porém, ai! Ninguém tem a possibilidade de vê-Lo. Os olhos são cegos, ainda que o mundo esteja iluminado por um sol brilhante. Se chegas a percebê-lo, perdes o juízo; se o vires completamente, perdes a ti mesmo. Coisa admirável !

Gurdjieff - Cristianismo

Pergunta: O senhor é cristão? O que pensa disso? Deveríamos amar o próximo? E quem pode amar como um cristão?
Gurdjieff: O cristianismo implica muitas coisas. Tomemos apenas uma como exemplo: Quem pode amar ou detestar quando quer? Entretanto, o ensinamento cristão diz claramente que se deve amar os homens. Mas é impossível.
Contudo, é uma verdade absoluta que é necessário amar. Primeiro, é preciso ser capaz, só então se pode amar. Infelizmente, com o tempo, os cristãos de hoje só retiveram desse ensinamento a segunda metade, que é: amar, e perderam de vista a primeira - a religião que deveria tê-la precedido. Mas seria totalmente absurdo que Deus exigisse do homem aquilo que ele não tem condições de dar.
A metade do mundo é cristã, a outra metade segue outras religiões. Para mim, que sou um homem sensato, não há nenhuma diferença: elas se assemelham à religião cristã. É possível dizer que o mundo inteiro é cristão. Só diferem os nomes. O mundo foi cristão não desde ontem, mas desde milhares de anos. Havia cristãos bem antes do advento do cristianismo. Assim, o bom senso me faz dizer: há tantos anos que os homens são cristãos! como podem ser tão insensatos para exigir o impossível?
Mas a realidade é completamente diferente. As coisas nem sempre foram como são agora. Foi só há pouco tempo que os homens esqueceram a primeira parte desse ensinamento. Tendo esquecido, eles perderam o meio que tinham de se tornarem capazes. E, na verdade, isso se tornou impossível para eles.
Cada um de vocês se pergunte simplesmente, com franqueza, se pode amar todos os homens. Se bebeu uma xícara de café, ele ama; do contrário, ele não ama. Como se pode chamar isso de cristianismo?
No passado, todos os homens não eram chamados indistintamente de cristãos. Numa mesma família, uns eram chamados de cristãos, outros de pré-cristãos e outros ainda de não-cristãos. Desse modo, no seio de uma só e mesma família, poderia haver membros pertencentes à primeira, segunda e terceira categoria. Hoje, porém, todos se dizem cristãos. É ingênuo, desonesto, irrefletido e mesmo desprezível usar esse nome quando ele não é justificado. Um cristão é um homem capaz de observar os Mandamentos.
Um homem que é capaz de cumprir simultaneamente, com seu pensamento e sua essência, tudo que é pedido de um cristão, é chamado cristão sem aspas. Um homem que em pensamento, tem o desejo de cumprir o que se pede a um cristão, mas que só pode fazê-lo com seu pensamento, e não com sua essência, chama-se pré-cristão. O homem que não pode fazer nada, nem sequer com seu pensamento, chama-se não-cristão.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Meher Baba - Perfeição

A perfeição é alcançada quando o homem se torna Deus ou quando Deus se torna homem. O Ser finito que está consciente de seu ser finito é obviamente desprovido de perfeição; mas quando ele é consciente de ser um com o infinito, ele é perfeito. É isso o que acontece quando o homem abandona a ilusão de ser finito e alcança a Divindade realizando seu aspecto divino. Se por infinito queremos dizer isso que é oposto ao finito ou que está separado do finito e necessariamente oposto do finito, esse infinito já é limitado por ser incapaz de afirmar-se no finito e através do finito. Ou seja, a perfeição não pode pertencer a tal infinito. O infinito tem que, conseqüentemente, descobrir sua vida ilimitada dentro e com o finito sem ser limitado por este processo. A perfeição de Deus é revelada somente quando Ele se manifesta como homem. A descida consciente de Deus na forma limitada de homem é o Avatar. Esse novamente é um caso de perfeição. Assim, temos a perfeição quando o finito transcende seus limites e realiza sua infinidade, ou quando o infinito abandona seu suposto afastamento e torna-se homem. Em ambos os casos o finito e o infinito não estão fora um do outro. Quando há uma mistura feliz e consciente do finito e do infinito, temos a perfeição. Então temos o infinito revelando-se através do finito sem ficar limitado desse modo, e o finito transcendendo seu sentido de limitação no total conhecimento de que ele realmente é a revelação do infinito.

Siddharameshwar Maharaj - Como pode Deus ocupar esse lugar onde está o “eu”?



Sua mente está cativada pelos objetos criados pela ilusão (Maya). Isso inclui também o corpo. Quando sua mente está imersa em Maya, você tem os conceitos de “você” e de “eu”. Todas as lutas devem-se porque você quer que o corpo tenha tudo de melhor. É porque você dedica sua mente a esta luta, que o mundo existe. É porque existem estudantes que existem os professores. Se os estudantes desaparecerem, para quem os professores serão? É porque existe o conhecimento objetivo, que “você” existe. Como o Senhor penetrará o corpo em que você (o ego) estabeleceu sua residência? Como pode uma bainha conter duas espadas? Como pode Deus ocupar esse lugar onde está o “eu”? Podem ser úteis estes objetos sem valor para aquele que aspira alcançar Brahman? Conseqüentemente, você deve sentir que tudo isto não é verdadeiro. Aqueles que querem a ‘Brahmanidade’ devem ter uma dose de Deus (ou seja, devem meditar no Ser-o si mesmo real). De um lado há o ‘Ser’ e do outro, há este exército, este mundo e a regência dos quatorze reinos. Existem duas “realidades" alternas: A Ilusão e Brahman. Não se deve pensar em Maya nem mesmo como sendo boa ou má. Isso se chama “desapego”. Quando, desde o átomo até Brahmadeva, toda esta riqueza e prosperidade são falsas, como podem ser de alguma utilidade? Quando a inclinação mental se separa dos desejos mundanos, de maneira natural ela se volta para 'o Si mesmo real' (o Ser). Mas como pode obter o conhecimento de Brahman aquele que pensa constantemente sobre os objetos do mundo?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ramana Maharshi - Self-enquiry (Atma-Vichara)


O primeiro pensamento a surgir na mente é o pensamento "eu". Todos os outros inumeráveis pensamentos surgem apenas depois do pensamento "eu" e têm nele sua origem. Em outras palavras, apenas depois do pronome de primeira pessoa “eu” surgir, é que os pronomes de segunda e terceira pessoa, “tu” e “ele”, ocorrem para a mente; estes não subsistem sem aquele.
Como todos os outros pensamentos só podem surgir depois do aparecimento do pensamento "eu", e como a mente nada mais é do que um conglomerado de pensamentos, é apenas voltando a atenção para o pensamento "eu", através da inquirição “Quem sou eu?”, que a mente será extinta. Além disso, o pensamento "eu", implícito na investigação “Quem sou eu?”, destruirá todos os outros pensamentos, como uma vareta que quando usada para avivar uma fogueira, é também consumida no final.
Você não precisa eliminar nenhum falso “eu”. Como pode o “eu” eliminar a si mesmo? Tudo o que você precisa fazer é encontrar a Fonte do “eu”, e permanecer lá. O seu esforço só pode levá-lo até esse ponto. A partir daí o Transcendental vai tomar conta de si mesmo. Você não pode fazer mais nada então. Nenhum esforço pode chegar até Ele.
O pensamento “eu” é como um fantasma que, apesar de ser impalpável, surge simultaneamente com o corpo, vive e desaparece junto com ele. A consciência “eu sou o corpo/este é meu corpo” é o falso eu. Abandone-a. Você pode fazer isso buscando a fonte do sentimento “eu”. O corpo não diz “eu sou”. É você que diz “eu sou o corpo”. Descubra o que é esse “eu”; busque sua fonte e ele desaparecerá.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Ramana Maharshi - Um verso


Pode haver espaço, pode haver tempo, exceto para mim mesmo?
O espaço e o tempo me atam apenas se sou o corpo.
Eu não estou em nenhuma parte, eu sou sem tempo.
Eu existo em toda parte e sempre.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Nisargadatta Maharaj - Dia 8 de Novembro de 1980


Pergunta: Por que é que nós naturalmente parecemos pensar em nós mesmos como indivíduos separados?
Maharaj: Seus pensamentos sobre individualidade não são realmente seus próprios pensamentos, são todos pensamentos coletivos. Você pensa que você é a pessoa que tem os pensamentos, mas de fato os pensamentos surgem dentro da consciência. Conforme nosso conhecimento espiritual cresce, nossa identificação com um corpo-mente individual diminui, e nossa consciência expande-se na consciência universal. A força da vida continua a atuar, mas seus pensamentos e ações já não são limitados a um indivíduo. Transformam-se na manifestação total. É como a ação do vento - o vento não sopra para nenhum indivíduo em particular, mas para a manifestação total.
Q: Como um indivíduo, é possível retornar à fonte?
M: Não como um indivíduo, o conhecimento “eu sou” deve retornar à sua própria fonte. Agora, a consciência identificou-se com uma forma. Mais tarde, ela compreende que não é essa forma e segue adiante. Em alguns casos ela pode alcançar o espaço, e muito frequentemente, pára ali. Em pouquíssimos casos ela alcança sua fonte real, além de todo condicionamento.
É difícil abandonar essa inclinação de identificar o corpo como sendo o 'Ser' (Self). Eu não estou falando com um indivíduo, estou falando para a consciência. É a consciência que deve procurar sua fonte. Daquele estado de não-ser surge o sentido de existência. Ele surge tão quietamente quanto o crepúsculo, com apenas uma sensação de “eu sou” e então de repente o espaço está lá. No espaço, o movimento começa com o ar, o fogo, a água, e a terra. Todos estes cinco elementos são justamente você. De sua consciência tudo isto aconteceu. Não há nenhum indivíduo. Há somente você, o funcionamento total é você, a consciência é você. Você é a consciência, todos os títulos dos deuses são os seus nomes, mas identificado ao corpo você se entrega ao tempo e à morte - você está impondo isso a você mesmo. Eu sou o universo total. Quando eu sou o universo total não tenho necessidade de nada porque eu sou todas as coisas. Mas abarrotei eu mesmo em uma coisa pequena, um corpo; fiz de mim um fragmento e tornei-me necessitado de coisas. Eu preciso de tantas coisas sendo um corpo. Na ausência de um corpo, você existe; quando não tinha um corpo você existia? Você estava lá ou não? Alcance esse estado que é e era anterior ao corpo. Sua natureza verdadeira está aberta e livre, mas você a encobre, você dá a ela várias formatações.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Sr. Ouspensky - Cada coisa é atravessada por todas as matérias que existem no universo


Toda a matéria do mundo que nos rodeia, o alimento que comemos, a água que bebemos, o ar que respiramos, as pedras de que são construídas as nossas casas, nossos próprios corpos – cada coisa é atravessada por todas as matérias que existem no universo. Não é necessário estudar cientificamente o Sol para descobrir a matéria do mundo solar, essa matéria existe em nós mesmos e é o resultado da divisão de nossos átomos, do mesmo modo temos em nós mesmos as matérias de todos os mundos. O homem é no sentido pleno dessa palavra, um universo em miniatura. Todas as matérias de que é constituído o Universo estão nele. As mesmas forças, as mesmas leis que governam a vida do universo, agem nele. É por isso que ao estudarmos o homem, podemos estudar o universo inteiro, exatamente do mesmo modo que, estudando o mundo, podemos estudar o homem.

Al Ghazali - O peregrino e a caravana

A alma deveria tomar conta do corpo, assim como o peregrino no seu caminho para Meca toma conta do seu camelo, mas se o peregrino passa todo seu tempo alimentando e adornando seu camelo, a caravana o deixará para trás e ele irá perecer no deserto.

Sr. Ouspensky - Record of meetings

Pergunta: A lembrança de si era uma característica do antigo conhecimento esotérico?
Ouspensky: Sempre, em toda a parte. Apenas algumas vezes, nas escolas religiosas, por exemplo, foi designada por um nome diferente. Isso não é arbitrário. É uma etapa necessária em nosso desenvolvimento, não uma tarefa imposta arbitrariamente. É preciso passar por ela e só se pode passar de uma forma.
Pergunta: Cristo alguma vez falou sobre ela – com quais palavras?
Ouspensky: Em cada página. Palavras diferentes. Por exemplo, ‘Não durmai’, ‘Vigiai’ – todo o tempo.
Pergunta: Se a identificação é uma perturbação emocional, o que causa esta perturbação. Por que é assim?
Ouspensky: Qualquer coisa, qualquer coisa no mundo pode causá-la. É difícil dizer o por quê. Pode ser um número excessivo de ‘eus’, falta de controle se quiser. Mas ‘o por quê’ não é tão interessante. Não estudamos o por quê. Estudamos o 'como'. Não podemos saber por que, ou sabemos apenas algumas vezes. Não temos controle; não sabemos que não temos controle e muitas outras coisas. Isso causa identificação. Nascemos rodeados de pessoas que sempre estão identificadas e por imitação inconsciente, nos tornamos iguais a elas.
Pergunta: Você disse que a Natureza era contrária ao desenvolvimento do homem. O desenvolvimento do homem é antinatural, não é?
Ouspensky: Sim, de certo modo. Os níveis são diferentes. A natureza criou o homem parcialmente desenvolvido, e por assim dizer, o deixou aí. Isso significa que a Natureza, a Natureza mais próxima, por assim dizer, necessita dele como ele é. Ao mesmo tempo a Natureza o criou com uma possibilidade de desenvolvimento, isto significa que ela pode usar o homem desenvolvido para algum propósito. As duas coisas são naturais – o fato de que o homem é parcialmente desenvolvido e o fato de que ele pode se desenvolver.
Pergunta: Você disse há um tempo atrás que vivemos sob 48 leis. Quais são elas?
Ouspensky: A Terra está sob 48 leis. Gravidade, coisas assim. Muitas, muitas leis sob as quais vive a Terra – movimento, leis físicas, leis químicas.
Pergunta: Você disse que à medida que progredimos podemos eliminar algumas delas.
Ouspensky: Eu disse que a Terra vive sob 48 leis. O homem vive sob muito, muito mais do que 48. Algumas conhecemos – leis físicas, biológicas. Depois vêm as leis muito simples – a ignorância, por exemplo. Não conhecemos a nós mesmos, isso é uma lei. Se começamos a conhecer a nós mesmos, ficamos livres de uma lei. Não podemos aprender ‘esta é uma lei, esta outra lei, esta uma terceira lei’. Para muitas delas não temos nomes. Todas as pessoas vivem sob a lei da identificação. Essa é uma lei. Aqueles que começam a lembrar de si mesmos podem se livrar da lei da identificação. Dessa forma podemos conhecer essas leis.

Siddharameshwar Maharaj - Toda aparência é ilusão


Toda a aparência é ilusão (Maya) e o “presenciador” é Brahman. O que é visto, ou seja, a aparência, é falso, e o que vê é Brahman. Há uma declaração nos Vedas que diz que existem somente duas entidades, aquilo é visto e Aquele que vê. O Vedanta declara isso de maneira contundente. Neste mundo não há nada além do observador e do observado. Aquele que reside no coração de cada um é Brahman, e Ele é “Real”.
Quem se refugia no que é visto, perece; e quem se refugia em Brahman, alcança o estado Dele. Se você concentrar a atenção no visto (no mundo objetivo), você será destruído assim como aquilo que é visto (o mundo objetivo). A pergunta é, se aquilo que é visto não é verdadeiro, por que é visível, então? O que é visto é falso, porque tudo o que é visto é a magia criada pelo olho. É por isso que não é verdadeiro. No espelho vemos um rosto, isso implica que parecem existir dois rostos; significa então, que hajam dois “você”? O fato é que “você” é somente um, mas, entretanto, parecem existir dois. Um pintor pinta quadros com tinta e diz: “esta é uma montanha, este é o Sr. Vishnu, esta é a Deusa Laskmi”. Você aceita isso como real? Você é o criador. O que na realidade é madeira (a tela), aceitamos como se fosse carne. É o milagre do olho. Aquele que adorar o ‘Si mesmo Real’ desvendará o próprio ‘Si mesmo Real’. Este mundo mortal é feito de terra e será reduzido a poeira apenas. O corpo humano vem da maternidade e vai para o túmulo. Devemos comer o interior do côco e jogar a casca. Aquele que come a casca, consegue só quebrar os dentes.