quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Nisargadatta Maharaj - Seis Reuniões do Livro "I Am That"


P: O que é felicidade?
M: A harmonia entre o interior e o exterior é felicidade. Por outro lado, a auto-identificação com as causas externas é sofrimento.
P: Como é que a auto-identificação acontece?
M: O Ser por sua natureza conhece a si mesmo apenas. Por falta de experiência, o que quer que ele percebe ele toma como sendo ele mesmo. Maltratado, ele aprende a olhar para fora (viveka) e viver sozinho (vairagya). Quando o comportamento correto (uparati), torna-se normal, um poderoso impulso interno (mukmukshutva) o faz procurar a sua fonte. A vela do corpo é iluminada e tudo se torna claro e brilhante (atmaprakash).
P: Qual é a verdadeira causa do sofrimento?
M: A auto-identificação com o limitado (vyaktitva). As sensações por si mesmas, por mais fortes que sejam, não causam sofrimento. É a mente, confusa com idéias erradas, viciada em pensar: "Eu sou isso". "Eu sou aquilo ", que teme a perda e anseia pelo ganho e sofre quando é frustrada.
P: Um amigo meu costumava ter sonhos horríveis noite após noite. Ir dormir o aterrorizava. Nada podia ajudá-lo.
M: Companhia verdadeiramente boa (satsang) iria ajudá-lo.
P: A própria vida é um pesadelo.
M: Amizade nobre (satsang) é o remédio supremo para todos os males, físicos e mentais.
P: Geralmente não é possível encontrar tal amizade.
M: Procure dentro de si. Seu próprio ser é o seu melhor amigo.
P: Por que a vida é tão cheia de contradições?
M: Isso serve para quebrar o orgulho mental. Devemos perceber o quão pobres e impotentes somos. Enquanto nos iludimos com aquilo que imaginamos ser, saber, ter, fazer, estamos em uma situação realmente triste. Só numa completa auto-negação há uma chance de descobrir o nosso verdadeiro ser.
P: Por que tanta ênfase na negação de si mesmo?
M: Tanto quanto na realização de si (auto-realização). O falso ser deve ser abandonado antes do verdadeiro ser poder ser encontrado.

P: O ser que vcê opta por chamar de falso é para mim angustiantemente muito real. O que você chama de ser real é um mero conceito, uma maneira de falar, uma criação da mente, um fantasma atraente. Meu ser do dia a dia não é uma beleza, eu admito, mas é meu mesmo e é meu único ser. Você diz que eu sou, ou tenho, um outro eu. Você o vê - é uma realidade para você, ou você quer que eu acredite no que o senhor não vê?
M: Não tire conclusões precipitadamente. O concreto não precisa ser real, o concebido não precisa ser falso. Percepções baseadas em sensações e moldadas pela memória implicam um percebedor, cuja natureza você nunca se importou em examinar. Dê-lhe total atenção, examine-o com carinho e você vai descobrir alturas e profundidades do ser que você jamais sonhou absorto como você está na insignificante imagem de si mesmo.
P: Eu devo estar na disposição de ânimo correta para me examinar de modo proveitoso.
M: Você deve ser sério, ter intenção, estar verdadeiramente interessado. Você deve estar cheio de boa vontade por si mesmo.
P: Eu sou egoísta, tudo certo.
M: Você não é. Você está o tempo todo destruindo a si mesmo, a si próprio, servindo a deuses estranhos, hostis e falsos. De todo modo seja egoísta – da maneira certa. Desejo o bem para si mesmo, trabalhe com o que for bom para você. Destrua tudo o que se interpõe entre você e a felicidade. Seja tudo - ame tudo - seja feliz - faça feliz. Nenhuma felicidade é maior.
P: Por que há tanto sofrimento no amor?
M: Todo sofrimento nasce do desejo. O verdadeiro amor nunca é frustrado. Como pode o sentimento de unidade ser frustrado? O que pode ser frustrado é o desejo por expressão. Tal desejo é da mente. Como com todas as coisas mentais, a frustração é inevitável.
P: Qual é o lugar do sexo no amor?
M: O amor é um estado de ser. Sexo é energia. O amor é sábio, o sexo é cego. Uma vez que a verdadeira natureza do amor e do sexo for entendida não haverá conflito ou confusão.
P: Há tanto sexo sem amor.
M: Sem amor tudo é mau. A própria vida sem amor é má.
P: O que pode me fazer amar?
M: Você é o próprio amor - quando você não está com medo.


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Pergunta: Sou um médico por profissão. Comecei com cirurgia, continuei com psiquiatria e também escrevi alguns livros sobre saúde mental e cura pela fé. Vim até você para aprender as leis da saúde espiritual.
Maharaj: Quando você está tentando curar um paciente, o que exatamente você está tentando curar? O que é cura? Quando você pode dizer que um homem está curado?
P: Eu procuro curar o corpo, bem como melhorar a ligação entre o corpo e a mente. Eu também procuro ajustar a mente.
M: Você investigou a relação entre a mente e o corpo? Em que ponto eles estão relacionados?
P: Entre o corpo e a consciência interior encontra-se a mente.
M: O corpo não é feito de alimentos? E pode haver mente sem comida?
P: O corpo é construído e mantido pelos alimentos. Sem comida a mente geralmente enfraquece. Mas a mente não é simplesmente comida. Há um fator de transformação que cria uma mente no corpo. Qual é o fator transformador?
M: Assim como a madeira produz o fogo, o qual não é de madeira, do mesmo modo o corpo produz a mente a qual não é o corpo. Mas para quem a mente aparece? Quem é o percebedor dos pensamentos e dos sentimentos que você chama de mente? Há a madeira, há o fogo e há aquele que desfruta do fogo. Quem desfruta da mente? O desfrutar também é um resultado da comida ou ele é independente?

P: O percebedor é independente.
M: Como você sabe? Fale de sua própria experiência. Você não é o corpo nem a mente. É o que você diz. Como você sabe?
P: Eu realmente não sei. Acho que sim.
M: A verdade é permanente. O real é imutável. O que muda não é real, o que é real não muda. Agora, o que é isso em você que não muda? Enquanto há comida, há o corpo e a mente. Quando o alimento cessa, o corpo morre e a mente se dissolve. Mas o observador perece?
P: Eu acho que não. Mas eu não tenho nenhuma prova.
M: Você mesmo é a prova. Você não tem e nem pode ter qualquer outra prova. Você é você mesmo, você conhece a si mesmo, você ama a si mesmo. O que quer que a mente faça, ela faz pelo amor do seu próprio ser. A própria natureza do ser é o amor. Ele é amado, ama e é amável. É o ser que torna o corpo e a mente tão interessantes, tão queridos. A própria atenção dada a eles vem do ser.
P: Se o ser não é o corpo e nem a mente, ele pode existir sem o corpo e a mente?
M: Sim, pode. É de fato uma questão de experiência que o ser tem sido independente da mente e do corpo. Ele é o ser - a consciência – a graça. O estado de estar ciente de ser é graça.
P: Pode ser uma questão de experiência real para você, mas não é meu caso. Como posso chegar à mesma experiência? Quais são as práticas a serem seguidas, quais os exercícios para fazer?
M: Para saber que você não é nem o corpo e nem a mente, observe-se constantemente e viva sem ser afetado pelo seu corpo e mente, completamente indiferente, como se estivesse morto. Isso significa que você não tem interesses investidos nem no corpo nem na mente.
P: Perigoso!

M: Eu não estou pedindo que você a cometer suicídio. Nem você pode. Você só pode matar o corpo, você não pode parar o processo mental, você nem pode pôr fim na pessoa que você pensa que é. Apenas permaneça não afetado. Este distanciamento completo, uma despreocupação com o corpo e a mente é a melhor prova de que no cerne de seu ser, você não é nem a mente nem o corpo. O que acontece com o corpo e a mente pode não estar dentro de seu poder de mudar, mas você sempre pode colocar um fim à sua imaginação de ser o corpo e a mente. O que quer que aconteça, lembre-se de que só o seu corpo e sua mente são afetados, não você. Quanto mais sério você é em lembrar do que precisa ser lembrado, mais cedo você vai estar consciente de si mesmo como você é, pois a memória vai se tornar experiência. A sinceridade e a seriedade revelam o ser. O que é imaginado e desejado se torna realidade - aqui reside o perigo bem como a saída.
Diga-me, que medidas você tomou para separar o seu verdadeiro ser, isso em você o que é imutável, de seu corpo e mente?
P: Eu sou um médico, tenho estudado muito, impus sobre mim mesmo uma disciplina rigorosa na forma de exercícios e jejuns periódicos e sou vegetariano.
M: Mas no fundo do seu coração o que é que você quer?
P: Eu quero encontrar a realidade.
M: Qual o preço que está disposto a pagar pela realidade? Qualquer preço?
P: Embora em teoria eu esteja pronto para pagar qualquer preço, na vida real repetidaemtne sou solicitado a comportar-me de maneiras que se colocam entre mim e a realidade. Os desejos me levam para longe.
M: Aumente e alargue seus desejos até que nada além da realidade possa atendê-los. Não é o desejo que está errado, mas a sua mesquinhez e pequenez. O desejo é devoção. De toda maneira seja dedicado ao real, ao infinito, ao eterno coração do ser. Transforme o desejo em amor. Tudo o que você quer é ser feliz. Todos os seus desejos, sejam eles quais forem, são expressões do seu desejo por felicidade. Basicamente, você deseja o bem para si mesmo.

P: Eu sei que eu não deveria ...
M: Espere! Quem lhe disse que você não deve? O que está errado em querer ser feliz?
P: O ser precisa ir, eu sei.
M: Mas o ser está lá. Seus desejos estão lá. Seu desejo de ser feliz é lá. Por quê? Porque você ama a si mesmo. Por todos os meios ame a si mesmo - com sabedoria. O que está errado é amar a si mesmo estupidamente, de modo a fazer-se sofrer. Ame-se sabiamente. Tanto a indulgência quanto a austeridade têm o mesmo objetivo em vista - fazer você feliz. Indulgência é a maneira estúpida, a austeridade é a maneira sábia.
P: O que é austeridade?
M: Depois de ter passado por uma experiência, não passar por ela novamente é austeridade. Evitar o desnecessário é austeridade. Não antecipar o prazer ou a dor é austeridade. Ter as coisas sob controle em todos os momentos é austeridade. O desejo por si só não é errado. É a própria vida, o desejo de crescer em conhecimento e experiência.
São as escolhas que você faz que estão erradas. Imaginar que alguma coisa pequena - comida, sexo, poder, fama – irão torná-lo feliz é enganar-se. Somente algo tão vasto e profundo como o seu verdadeiro ser pode torná-lo duradoura e verdadeiramente feliz.
P: Sendo que basicamente não há nada de errado no desejo como uma expressão do amor do ser, como deveríamos lidar com o desejo?
M: Viva sua vida de forma inteligente, com os interesses do seu ser mais profundo sempre em mente. Afinal, o que você realmente quer? Não é perfeição, você já é perfeito. O que você busca é expressar em ação o que você é. Para isso você tem um corpo e uma mente. Assuma o controle e faça-os lhe servir.
P: Quem é o operador aqui? Quem é que tem de controlar o corpo-mente?
M: A mente purificada é o servo fiel do ser. Ela toma cuidado dos instrumentos, interiores e exteriores, e os faz servirem os seus propósitos.

P: E qual é o propósito deles?
M: O Ser é universal e seus objetivos são universais. Não há nada pessoal com relação ao Ser. Viva uma vida regrada, mas não faça disso uma meta por si só. Esse deveria ser o ponto de partida para uma aventura maior.
P: Você me aconselha a vir para a Índia várias vezes?
M: Se você é sério, não precisa ficar se movendo. Você é você mesmo onde quer que você esteja e você cria seu próprio clima. Locomoção e transporte não lhe darão a salvação. Você não é o corpo, e arrastar o corpo de um lugar para o outro não o levará a lugar algum. Sua mente está livre para vagar pelos três mundos - faça pleno uso disso.
P: Se sou livre, porque estou em um corpo?
M: Você não está no corpo, o corpo está em você! A mente está em você. Eles acontecem a você. Eles estão aí porque você os acha interessantes. Sua própria natureza tem a capacidade infinita de desfrutar. É cheia de entusiasmo e afeto. Ela lança sua radiância em tudo o que vem dentro de seu foco de consciência e nada é excluído. Ela não conhece o mal nem a feiúra, ela tem esperança, ela confia, ela ama. Vocês não sabem o quanto perdem por não conhecerem o seu verdadeiro Ser. Você não é nem o corpo nem a mente, nem o combustível nem o fogo. Eles aparecem e desaparecem de acordo com suas próprias leis.
Aquilo que você é, seu verdadeiro Ser, você ama-o e tudo o que você faz, você faz por sua própria felicidade. Encontrá-lo, conhecê-lo, estimá-lo são o seu impulso básico. Desde tempos imemoriais você amou a si mesmo, mas nunca com sabedoria. Use o seu corpo e sua mente com sabedoria, a serviço do Ser, isso é tudo. Seja verdadero com seu próprio Ser, ame-o absolutamente. Não finja que você ama os outros como a si mesmo. A menos que você tenha percebido-os como sendo um com você mesmo, você não poderá amá-los. Não finja ser o que você não é, não se recuse ser o que você é. Seu amor ao próximo é o resultado do auto-conhecimento, não sua causa. Sem a auto-realização, nenhuma virtude é genuína. Quando você souber além de toda dúvida que a mesma vida flui através de tudo o que existe e que você é essa vida, você vai amar a todos de forma natural e espontânea. Quando você perceber a profundidade e a plenitude do seu amor por Si mesmo, você saberá que todos os seres vivos e o universo inteiro estão incluídos na sua afeição. Mas quando olha para alguma coisa como separada de você, você não pode amá-la pois você tem medo dela. A alienação causa o medo e o medo aprofunda a alienação. É um círculo vicioso. Somente a auto-realização pode quebrá-lo. Vá com firmeza em busca disso.

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Pergunta: Em nossa busca pelo essencial, logo percebemos nossa inadequação e a necessidade de um guia ou de um professor. Isso implica uma certa disciplina, pois é esperado que confiemos em nosso guia e sigamos implicitamente seus conselhos e instruções. No entanto, as urgências sociais e as pressões são tão grandes, os desejos e medos pessoais tão poderosos, que a simplicidade de espírito e vontade, essenciais na obediência, ficam distantes. Como encontrar um equilíbrio entre a necessidade de um guru e à dificuldade de obedecê-lo implicitamente?
Maharaj: O que é feito sob a pressão da sociedade e das circunstâncias não importa muito, pois é na maior parte mecânico, apenas reação aos impactos. É o suficiente observar-se desapaixonadamente, se isolar completamente do que está acontecendo. O que foi feito sem se importar, cegamente, pode acrescentar ao karma (destino) da pessoa, caso contrário, isso pouco importa. O Guru exige uma única coisa: clareza e intensidade de propósito, um sentido de responsabilidade por si mesmo. A própria realidade do mundo deve ser questionada. Quem é o Guru, afinal? Aquele que conhece o estado em que não há nem o mundo nem o pensamento dele, ele é o Mestre Supremo. Encontrá-lo significa atingir o estado em que a imaginação não é mais tomada como a realidade. Por favor, entenda que o Guru representa a realidade, a verdade, o que
é
. Ele é um realista no sentido mais elevado do termo. Ele não pode e não deve chegar a termos com a mente e suas ilusões. Ele vem para levá-lo para o real, não espere que ele faça qualquer outra coisa.
O Guru que você tem em mente, aquele que lhe dá informações e instruções, não é o verdadeiro Guru. O verdadeiro Guru é aquele que conhece o real, além do glamour das aparências. Para ele, suas perguntas sobre obediência e disciplina não fazem sentido, pois aos olhos dele a pessoa que você considera-se ser não existe. Suas perguntas são sobre uma pessoa não-existente. O que existe para você não existe para ele. O que você toma por garantido, ele nega absolutamente. Ele quer que você se veja como ele o vê. Então você não vai precisar de um Guru para obedecer e seguir, pois você irá obedecer e seguir sua própria realidade. Perceba que tudo o que você pensa ser é apenas uma corrente de acontecimentos, que enquanto tudo acontece, vai e vem, apenas você é, o imutável entre o mutável, o auto-evidente entre o suposto. Separe o observado do observador e abandone as falsas identificações.

P: A fim de encontrar a realidade, deveríamos rejeitar tudo o que fica no caminho. Por outro lado, a necessidade de sobreviver dentro de uma dada sociedade obriga a pessoa a fazer e a suportar muitas coisas. Será que prisamos abandonar nossa profissão e posição social, para descobrir a realidade?
M: Faça seu trabalho. Quando você tiver um momento livre, olhe para dentro. O importante é não perder a oportunidade quando ela se apresenta. Se você for sério você vai usar plenamente o seu tempo vago. Isso é o suficiente.
P: Em minha busca pelo essencial e tentativa de descartar o supérfluo, há alguma possibilidade de uma vida criativa? Por exemplo, eu adoro pintar. Irá ajudar se eu dedicar minhas horas de lazer à pintura?

M: O que quer que você tenha que fazer, observe a sua mente. Você também deve ter momentos de paz e quietude interior completa, quando sua mente está absolutamente imóvel. Se você perder isso, você perde a coisa toda. Se não perder, o silêncio da mente dissolverá e absorverá tudo mais.
Sua dificuldade reside em seu desejo pela realidade e de ter medo dela ao mesmo tempo. Você tem medo dela porque você não a conhece. As coisas familiares são conhecidas, você se sente seguro com elas. O desconhecido é incerto e, portanto, perigoso. Porém, conhecer a realidade é estar em harmonia com ela. E na harmonia não há lugar para o medo.
Uma criança conhece o seu corpo, mas não as distinções baseadas no corpo. Está apenas consciente e feliz. Afinal, foi esse o propósito pelo qual ela nasceu. O prazer de ser é a forma mais simples de amor-próprio, que mais tarde se transforma em amor do Ser. Seja como uma criança com nada se colocando entre o corpo e o Ser. O constante barulho da vida psíquica está ausente. Em silêncio profundo o Ser contempla o corpo. É como o papel branco no qual nada foi escrito ainda. Seja como aquela criança, ao invés de tentar ser isto ou aquilo, seja feliz por ser (por estar, por existir). Você será uma testemunha completamente desperta do campo da consciência. Mas não deve haver sentimentos e idéias para se interporem entre você e o campo.
P: Estar contente meramente com ser, parece ser uma maneira muito egoísta da passar o tempo.
M: A maneira mais digna de ser egoísta! De qualquer maneira seja egoísta, renunciando tudo menos o Ser. Quando você ama o Ser e nada mais, você vai além do altruísmo e do egoísmo. Todas as distinções perdem o seu significado. O amor de um e o amor de todos se fundem no amor puro e simples, dirigida a nenhuma pessoa, negado a ninguém. Fique nesse amor, vá cada vez mais fundo nele, investigue a si mesmo e ame a investigação e você vai resolver não apenas os seus próprios problemas, mas também os problemas da humanidade. Você saberá o que fazer. Não faça perguntas superficiais; aplique-se aos fundamentos, às próprias raízes do seu ser.

P: Existe alguma maneira para eu acelerar minha auto-realização?
M: Claro que há.
P: Quem vai acelerá-la? Você pode fazer isso por mim?
M: Nem você vai fazer isso, nem eu. Isso simplesmente vai acontecer.
P: Minha própria vinda aqui provou isso. Essa aceleração é devido à companhia santa? Quando eu parti a última vez, eu esperava voltar. E eu fiz! Agora estou desesperado porque em breve tenho que partir para a Inglaterra.
M: Você é como uma criança recém-nascida. Ela estava lá antes, mas não estava consciente do seu ser. No seu nascimento um mundo surgiu nela, e com ele a consciência de ser. Agora você tem apenas de crescer em consciência, isso é tudo. A criança é o rei do mundo, quando crescer, ela assume o cargo de seu reino. Imagine que na sua infância ela ficou seriamente doente e o médico curou-a. Isso significa que o jovem rei deve o seu reino ao médico? Talvez apenas como um dos fatores contribuintes. Haviam tantos outros, todos contribuíram. Mas o fator principal, o mais crucial, foi o fato de ter nascido o filho de um rei. Da mesma forma, o Guru pode ajudar. Mas a principal coisa que ajuda é ter a realidade internamente. Ela vai afirmar-se. Sua vinda aqui definitivamente ajudou-o. Não é a única coisa que vai ajudá-lo. A principal coisa é o seu próprio ser. Sua própria seriedade atesta isso.

P: O fato de eu tentar encontrar uma vocação nega a minha sinceridade?
M: Eu já lhe disse. Contanto que você se permita uma abundância de momentos de paz, com segurança você pode exercer a sua profissão mais honrosa. Esses momentos de silêncio interior irão queimar todos os obstáculos, sem falhar. Não duvide da sua eficácia. Tente fazer isso.
P: Mas, eu tentei!
M: Nunca fielmente, nunca de forma constante. Caso contrário você não estaria fazendo tais perguntas. Você está perguntando porque você não está seguro de si mesmo. E você não está seguro de si mesmo, porque nunca prestou atenção a você mesmo, apenas às suas experiências. Esteja interessado em si mesmo além de todas as experiências, esteja com você mesmo, ame a si mesmo, a segurança máxima é encontrada apenas no auto-conhecimento. A principal coisa é a seriedade e a sinceridade. Seja honesto com você mesmo e nada irá traí-lo. Virtudes e poderes são meros símbolos para as crianças brincarem. Eles são úteis no mundo, mas não se considere a partir deles. Para ir além, você precisa de imobilidade alerta, atenção silenciosa.

P: O que se torna então nosso ser físico?
M: Enquanto você estiver saudável, você viverá.
P: Essa vida de imobilidade interior, não afetará a nossa saúde?
M: Seu corpo é alimento transformado. Conforme for a sua comida, densa e sutil, será a sua saúde.
P: E o que acontece com o instinto sexual? Como ele pode ser controlado?
M: O sexo é um hábito adquirido. Vá além. Enquanto o seu foco estiver sobre o corpo, você permanecerá nas garras da comida e do sexo, do medo e da morte. Encontre a Si mesmo e seja livre.

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Pergunta: Você me disse que posso ser considerado sob três aspectos: o pessoal (vyakti), o supra-pessoal (vyakta) e o impessoal (avyakta). O Avyakta é o Eu universal puro e verdadeiro, o Vyakta é o seu reflexo na consciência na forma de "eu sou", e o Vyakti é a totalidade dos processos físicos e vitais. Dentro dos estreitos limites do momento presente, o supra-pessoal está consciente da pessoa, tanto no espaço e no tempo, não só de uma pessoa, mas de uma longa série de pessoas amarradas no cordão do karma. É essencialmente a testemunha, bem como o resíduo das experiências acumuladas, a sede da memória, o elo de ligação (sutratma). Ele é o caráter do homem que a vida constrói e molda de nascimento em nascimento. O universal está além de todo nome e forma, além da consciência e do caráter, o puro ser sem autoconsciência. Será que coloquei seus pontos de vista corretamente?
Maharaj: No nível da mente - sim. Para além do nível mental nenhuma palavra se aplica.
P: Eu posso entender que a pessoa é uma construção mental, um substantivo coletivo para um conjunto de memórias e hábitos. Mas aquele para quem a pessoa acontece, o centro que testemunha, é mental também?

M: O pessoal precisa de uma base, um corpo com o qual se identificar, assim como uma cor precisa de uma superfície na qual aparecer. A visão da cor é independente da cor - é a mesma qualquer que seja a cor. É preciso de um olho para ver uma cor. As cores são muitas, o olho é único. O pessoal é como a luz na cor e também no olho, contudo é simples, único, indivisível e não-perceptível, exceto em suas manifestações. Não é inconhecível, mas é imperceptível, não-objetivo, inseparável. Nem material nem mental, nem objetivo nem subjetivo, é a raiz da matéria e a fonte da consciência. Além do mero viver e morrer, ele é o todo-inclusivo, todo-exclusivo. A vida, na qual o nascimento é a morte e a morte é o nascimento.
P: O Absoluto ou a vida de que você fala é real ou é uma mera teoria para encobrir a nossa ignorância?
M: Os dois. Para a mente, uma teoria, em si mesmo - uma realidade. É a realidade em sua rejeição total e espontânea do falso. Assim como a luz destrói a escuridão através de sua própria presença, também o absoluto destrói a imaginação. Ver que todo conhecimento é uma forma de ignorância em si é um movimento da realidade. A testemunha não é uma pessoa. A pessoa passa a existir quando existe uma base para ela, um organismo, um corpo. Nele, o absoluto é refletido como a consciência. O estado de estar ciente, de pura consciência se torna auto-consciência (consciência do ser). Quando há um ser, a auto-consciência é a testemunha. Quando não há ser para testemunhar, não há qualquer testemunho também. É tudo muito simples, é a presença da pessoa que complica. Veja que não existe tal coisa como uma pessoa permanentemente separada e tudo se tornará claro. A consciência - a mente – a matéria - são uma realidade em seus dois aspectos, como imóvel e móvel, e os três atributos da energia, inércia e harmonia.

P: O que vem primeiro a ciência (awarenss) o a consciência (conciousness)?

M: A ciência (awareness) se torna a consciência quando se tem um objeto. O objeto muda o tempo todo. Na consciência há movimento, a ciência em si é imóvel e atemporal, aqui e agora.
P: Há sofrimento e derramamento de sangue no leste do Paquistão atualmente. Como você olha para isso? Como isso parece para você, como você reage a isso?
M: Na pura consciência nunca acontece nada.
P: Por favor, desça destas alturas metafísicas! De que serve para um homem que sofre ser dito que ninguém está ciente de seu sofrimento a não ser ele mesmo? Relegar tudo a ilusão é insulto acrescentado à injúria. O bengali do Paquistão Oriental é um fato e seu sofrimento é um fato. Por favor, não analise-os de fora da existência! Você lê jornais, ouve as pessoas falando sobre isso. Você não pode alegar ignorância. Agora, qual é a sua atitude em relação ao que está acontecendo?
M: Nenhuma atitude. Nada está acontecendo.
P: Qualquer dia pode haver um certo tumulto na sua frente, talvez as pessoas matando umas as outras. Certamente você não poderá dizer: não está acontecendo nada e permanecer indiferente.
M: Eu nunca falei de ficar indiferente. Você poderia também me ver entrando numa briga para salvar alguém e ser morto. No entanto, para mim não aconteceu nada.
Imagine um grande prédio em colapso. Alguns quartos estão em ruínas, alguns estão intactos. Mas você pode falar do espaço como arruinado ou intacto? É apenas a estrutura que sofreu e as pessoas que viviam nele. Nada aconteceu com o próprio espaço. Do mesmo modo, nada acontece à vida quando as formas se quebram e nomes são eliminados. O ourives derrete os velhos ornamentos para fazer novos. Às vezes, um bom pedaço vai com um ruim. Ele não liga para isso pois sabe que nenhum ouro é perdido.
P: Não é contra morte que me rebelo. É contra maneira de morrer.

M: A morte é natural, a maneira de morrer é feita pelo homem. A separação provoca medo e agressão, o que novamente causa da violência. Acabe com as separações criadas pelo homem e todo esse horror de pessoas matando uma as outras, certamente terminará. Mas na realidade não há matar e nem morrer. O real não morre, o irreal nunca viveu. Corrija a sua mente e tudo estará certo. Quando você sabe que o mundo é um, que a humanidade é uma, você vai agir em conformidade. Mas antes de tudo você deve cuidar da maneira como você sente, pensa e vive. A menos que haja ordem em você mesmo, não poderá haver ordem no mundo.
Na realidade não acontece nada. Na tela de sua mente o destino incessantemente projeta suas imagens, lembranças de projeções anteriores e, assim, a ilusão se renova constantemente. As imagens vêm e vão - a luz interceptada pela ignorância. Veja a luz e ignore a imagem.
P: Que maneira cruel de olhar as coisas! Pessoas estão matando e sendo mortas e aqui você fala de imagens.
M: De todo jeito vai e seja morto você mesmo - se é isso que você acha que deve fazer. Ou mesmo vá e mate, se você acha que esse é o seu dever. Mas esse não é o caminho para acabar com o mal. O mal é o cheiro fétido de uma mente que está doente. Cure a sua mente e ela deixará de projetar imagens feias e distorcidas.

P: O que você diz eu entendo, mas emocionalmente não posso aceitar isso. Essa visão meramente idealista da vida repele-me profundamente. Eu simplesmente não posso pensar que eu esteja permanentemente num estado de sonho.
M: Como você pode estar permanentemente em um estado causado por um corpo impermanente? O engano é baseado em sua idéia de que você é o corpo. Examine a idéia, veja suas contradições inerentes, perceba que sua existência presente é como uma chuva de faíscas, cada faísca durando um segundo e a chuva, um ou dois minutos. Certamente alguma coisa na qual o começo é o fim, não pode ter meio. Respeite seus tempos. A realidade não pode ser momentânea. Ela é atemporal, mas a intemporalidade não é duração.
P: Eu admito que o mundo em que vivo não é o mundo real. Mas existe um mundo real, do qual eu vejo uma imagem distorcida. A distorção pode dever-se a algum defeito no meu corpo ou mente. Mas quando você diz que não existe um mundo real, apenas um mundo de sonho em minha mente, eu não posso aceitar. Eu queria poder acreditar que todos os horrores da existência são devidos a eu ter um corpo. O suicídio seria a saída.
M: Enquanto você prestar atenção a idéias, suas próprios ou as dos outros, você estará em apuros. Mas se você ignorar todos os ensinamentos, todos os livros, qualquer coisa colocada em palavras e mergulhar profundamente dentro de si e encontrar a Si mesmo, isso somente irá resolver todos seus problemas e deixá-lo em pleno domínio de cada situação, porque você não vai ser dominado por suas idéias sobre a situação. Tomemos um exemplo. Você está na companhia de uma mulher atraente. Você tem idéias sobre ela e isso cria uma situação sexual. Um problema é criado e você começar a procurar livros sobre a continência, ou o desfrute. Quando você era um bebê, ambos poderiam estar nus e juntos, sem que qualquer problema surgisse. Apenas parem de pensar que vocês são corpos e os problemas do amor e do sexo vão perder o seu significado. Com todo o senso de limitação para trás, o medo, a dor e a busca do prazer - tudo cessa. Somente a consciência (awareness) permanece.

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Pergunta: Quem é o Guru e quem é o supremo Guru?
Maharaj: Tudo o que acontece em sua consciência (consciousness) é o seu guru. E pura ciência (awareness) além da consciência é o supremo guru.
P: Meu Guru é Sri Babaji. Qual é a sua opinião sobre ele?
M: Que pergunta para se fazer! O espaço em Mumbai é perguntado qual é sua opinião sobre o espaço em Puna. Os nomes são diferentes mas não o espaço. A palavra "Babaji" é apenas um endereço. Quem vive sob o endereço? Você faz perguntas quando você está em apuros. Investigue quem está causando problema e para quem.
P: Eu entendo que todos têm a obrigação de atingir a realização. É nosso dever ou é o nosso destino?
M: A Realização é o fato de que você não é uma pessoa. Por conseguinte, não pode ser o dever da pessoa cujo destino é desaparecer. O destino dela é o dever daquele que se imagina ser a pessoa. Descubra quem ele é e a pessoa imaginada se dissolverá. A liberdade é de algo. É para você se libertar do que? Obviamente, você deve se libertar da pessoa que você se considera ser, porque é a idéia que você tem de si mesmo que o mantém aprisionado.
P: Como a pessoa é removida?
M: Através de determinação. Entenda que ela deve ir e deseje que ele vá - ela deverá ir se você for sério a esse respeito. Alguém, qualquer pessoa, vai dizer que você é a pura consciência e não um corpo-mente. Aceite isso como uma possibilidade e investigue com seriedade. Você poderá descobrir que não é como você pensa, que você não é uma pessoa limitada no espaço e no tempo. Pense na diferença que faria!
P: Se eu não sou uma pessoa, então o que sou eu?
M: Um pano molhado parece diferente, sentimos ele diferente, ele tem um cheiro diferente, enquanto ele estiver molhado. Quando seca, ele é novamente o pano normal. A água o deixou e quem poderá saber que ele estava molhado? Sua natureza real não é como você parece ser. Abandone a idéia de ser uma pessoa, isso é tudo. De qualquer maneira, você não precisa tornar-se o que você é. Existe a identidade do que você é e há a pessoa sobreposta a ela. Tudo o que você conhece é a pessoa, a identidade - que não é uma pessoa - você não conhece, pois você nunca duvidou, nunca se perguntou a pergunta crucial: "Quem sou eu?". A identidade é a testemunha da pessoa e o sadhana consiste no deslocamento da ênfase da pessoa superficial e mutável para a testemunha imutável e sempre presente.

P: Por que a pergunta "Quem sou eu" me atrai tão pouco? Eu prefiro passar meu tempo na doce companhia dos santos.
M: Permanecer em seu próprio ser é também companhia santa. Se você não tiver nenhum problema de sofrimento e libertação do sofrimento, você não irá encontrar a energia e a persistência necessárias para a auto-investigação. Você não pode fabricar uma crise. Ela deve ser genuína.

P: Como uma crise genuína acontece?
M: Acontece a todo momento, mas você não está suficientemente alerta. Um traço no rosto do seu vizinho, a tristeza imensa e toda-penetrante da existência é um fator constante em sua vida, mas você se recusa a tomar conhecimento. Você sofre e vê os outros sofrerem, mas você não responde.
P: O que você diz é verdade, mas o que posso fazer a esse respeito? De fato essa é a situação. Minha impotência e apatia são uma parte disso.
M: Bom o bastante. Olhe para si mesmo de forma constante - isso é o suficiente. A porta que tranca você dentro, é também a porta que permite que você saia. O "eu sou" é a porta. Fique nela até que ela se abra. Na realidade, ela está aberta, apenas você não está nela. Você está esperando em portas pintadas inexistentes, que jamais se abrirão.
P: Muitos de nós estivemos tomando drogas em algum momento, e em certa medida. As pessoas nos disseram para tomar drogas a fim de atravessar para níveis superiores de consciência. Outros nos aconselharam a praticar sexo em abundância para a mesma finalidade. Qual é a sua opinião sobre o assunto?
M: Sem dúvida, uma droga que pode afetar o seu cérebro também pode afetar a sua mente e dar-lhe todas as estranhas experiências prometidas. Mas o que são todas as drogas comparadas à droga que lhe deu essa experiência mais incomum de ter nascido e de viver na tristeza e no medo, em busca da felicidade que não vem ou que não dura. Você deve investigar a natureza dessa droga e encontrar um antídoto.
Nascimento, vida, morte – são todos um. Descubra o que os causou. Antes de você nascer você já estava drogado. Que tipo de droga era essa? Você pode curar-se de todas as doenças, mas se você ainda estiver sob a influência da droga primordial, para que servem as curas superficiais?
P: Não é o Karma que causa o renascimento?

M: Você pode mudar o nome, mas o fato permanece. O que é a droga que você chama de karma ou de destino? Ela fez-lhe acreditar você ser o que você não é. O que é isso e você pode ser livre disso? Antes de avançar, você deve aceitar, pelo menos como uma teoria de trabalho, que você não é o que você parece ser, que você está sob a influência de uma droga. Só então você terá a vontade e a paciência para analisar os sintomas e procurar a sua causa comum. Tudo o que um guru pode lhe dizer é: "Meu caro senhor, você está muito enganado sobre si mesmo. Você não é a pessoa que você pensa ser." Não confie em ninguém, nem mesmo em si mesmo. Busque, descobra, remova e rejeite qualquer hipótese até que você atina as águas da vida e as rochas de verdade. Até que você esteja livre da droga, todas suas religiões e as ciências, orações e Yogas não são de nenhum utilidade para você, pois com base em um erro, elas o fortalecem. Mas se você ficar com a idéia de que você não é o corpo nem a mente, nem mesmo a testemunha deles, mas completamente além, sua mente irá crescer em clareza, seus desejos - em pureza, suas ações - em caridade e essa destilação interna o levará para outro mundo, um mundo de verdade e de amor sem medo. Resista aos seus velhos hábitos de sentimento e pensamento, continue dizendo a si mesmo: "Não, não é assim, não pode ser assim, eu não sou assim, eu não preciso disso, eu não quero isso ', e um dia certamente virá quando toda a estrutura de erro e desespero entrará em colapso e o solo estará livre para uma nova vida. Afinal, você deve se lembrar, que todas as suas preocupações consigo mesmo são apenas durante as horas de vigília e em parte em seus sonhos, no sono tudo é posto de lado e esquecido. Isso mostra o quão pouco importante é a sua vida de vigília até mesmo para você, que apenas deitar e fechar os olhos pode acabar com ela. Cada vez que você vai dormir você faz isso sem a menor certeza de que irá acordar e ainda assim você aceitar o risco.
P: Quando você dorme, você está consciente ou inconsciente?
M: Eu permaneço consciente, mas não consciente de ser uma pessoa em particular.
P: Você pode nos dar o gosto da experiência da auto-realização?
M: Tome ela toda! Ela está aqui para você pedir. Mas você não pede. Mesmo quando você pede, você não pega. Descubra o que o impede de pegar.
P: Eu sei o que me impede - meu ego.
M: Então se ocupe com o seu ego - deixe-me em paz. Enquanto você estiver trancado dentro de sua mente, meu estado está fora de seu alcance.
P: Eu acho que não tenho mais perguntas a fazer.
M: Se você realmente estivesse em guerra com o seu ego, você teria colocado muito mais questões. Você tem poucas perguntas, porque você não está realmente interessado. Atualmente você é movido pelo princípio prazer-dor, o qual é o ego. Você está indo junto com o ego, você não está lutando contra ele. Você não está nem mesmo ciente de como você é influenciado totalmente por considerações pessoais. Um homem deveria estar sempre em revolta contra si mesmo, pois o ego, como um espelho torto, estreita e distorce. É o pior de todos os tiranos, ele o domina absolutamente.

P: Quando não há 'eu', quem é livre?
M: O mundo está livre de um poderoso incômodo. É bom o bastante.
P: Bom para quem?
M: Bom para todos. É como uma corda esticada atravessando a rua, ela congestiona o tráfego. Enrolada, ela está lá, como mera identidade, útil quando necessária. A liberdade do ser-ego é o fruto de auto-investigação.
P: Houve um tempo em que eu estava muito descontente comigo mesmo.
Agora eu encontrei meu Guru e estou em paz, depois de ter entreguado-me a ele completamente.
M: Se você observar o seu dia a dia você vai ver que você não entregou nada. Você apenas acrescentou a palavra"entrega" ao seu vocabulário e fez do seu Guru um cabide para pendurar os seus problemas. A entrega real significa não fazer nada, a menos que seja solicitado pelo Guru. Você sai da frente, por assim dizer, e deixa o seu Guru viver a sua vida. Você apenas assiste e admira o quão facilmente ele resolve os problemas que lhe pareciam insolúveis.
P: Ao sentar aqui, vejo a sala, as pessoas. Vejo você também. Como é que isso se passa do seu ponto de vista? O que você vê?
M: Nada. Eu olho, mas eu não vejo, no sentido de criar imagens vestidas de julgamentos. Eu não descrevo nem avalio. Eu olho. Eu vejo você, mas nem atitudes, nem opiniões anuviam minha visão. E quando afasto meus olhos, minha mente não permite que a memória se prolongue, mas ao mesmo tempo está livre e fresca para a impressão seguinte.
P: Conforme estou aqui, olhando pra você, eu não consigo localizar o evento no espaço e no tempo. Há algo de eterno e universal sobre a transmissão de sabedoria que está ocorrendo. Dez mil anos antes, ou depois, não fazem diferença - o próprio evento é atemporal.
M: O homem não muda muito ao longo das eras. Os problemas humanos permanecem os mesmos e pedem pelas mesmas respostas. O fato de você estar consciente do que você chama de transmissão de sabedoria mostra que a sabedoria ainda não foi transmitida. Quando a tiver, você não estará mais consciente disso. Daquilo que é realmente seu, você não está consciente. Aquilo do qual você está consciente não é você e nem seu. Seu é o poder de percepção, não o que você percebe. É um erro considerar o consciente como sendo o todo do homem. O homem é o inconsciente, o consciente e o supra-consciente, mas você não é o homem. Sua é a tela de cinema, a luz, bem como o poder de ver, mas a imagem não é você.

P: Devo procurar o Guru, ou devo ficar com quem eu encontrei?
M: A própria pergunta mostra que você ainda não encontrou um. Enquanto você não tiver realizado, você vai passar de Guru em Guru, mas quando você tiver encontrado a Si mesmo, a busca terminará. Um Guru é um marco. Quando você estiver em movimento, você passa por tantos marcos. Quando você tiver chegado ao seu destino, é apenas o último que importava. Na realidade todos tinham importância em seu próprio momento e nenhum importa agora.
P: Você parece não dar importância para o Guru. Ele é apenas um incidente dentre outros.
M: Todos os incidentes contribuem, mas nenhum deles é crucial. Na estrada cada passo o ajuda a chegar ao seu destino, e cada um é tão importante quanto o outro, pois cada passo deve ser dado, você não pode pulá-lo. Se você se recusar a dar aquele passo, você ficará emperrado!
P: Todo mundo canta as glórias do Guru, enquanto você compara-o a um marco. Não precisamos de um Guru?
M: Não precisamos de um marco? Sim e não. Sim, se estamos incertos, não se conhecemos o nosso caminho. Uma vez que estamos certos em nós mesmos, o Guru não é mais necessário, exceto em um sentido técnico. Sua mente é um instrumento afinal, e você deve saber como usá-la. Assim como lhe são ensinado os usos de seu corpo, também você deve saber como usar sua mente.

P: O que eu ganho, aprendendo a usar a minha mente?
M: Você ganha liberdade de desejo e do medo, que são inteiramente devidos ao mau uso da mente. Mero conhecimento mental não é suficiente. O conhecido é acidental, o desconhecido é o lar do real. Viver no conhecido é aprisionamento, viver no desconhecido é libertação.
P: Eu tenho entendido que toda prática espiritual consiste na eliminação do ser pessoal. Tal prática demanda uma determinação de ferro e uma aplicação implacável. Onde encontrar a integridade e a energia para tal trabalho?
M: Você as encontra na companhia dos sábios.
P: Como eu sei quem é sábio e quem é apenas inteligente?
M: Se seus motivos são puros, se você busca a verdade e nada mais, você vai encontrar as pessoas certas. Encontrá-las é fácil, o difícil é confiar nelas e tirar total vantagem de seus conselhos e orientações.
P: O estado de vigília é mais importantes para a prática espiritual do que o sono?
M: Em geral damos muita importância para o estado de vigília. Sem o sono, a vigília seria impossível, sem dormir a pessoa fica louca ou morre, por que dar tanta importância para a consciência no estado de vigília, que é, obviamente, dependente da inconsciência? Não só o consciente mas também o inconsciente deve ser cuidado em nossa prática espiritual.
P: Como é que alguém cuida do inconsciente?

M: Mantenha o "eu sou" no foco da consciência, lembre-se que você é, observe-se incessantemente e o inconsciente fluirá no consciente sem qualquer esforço especial de sua parte. Desejos e medos equivocados, falsas idéias, inibições sociais estão bloqueando e impedindo o inconsciente de uma livre interacção com o consciente. Uma vez que estiverm livres para se misturarem, os dois se tornarão um e o um se tornará tudo. A pessoa se funde com a testemunha, a testemunha na ciência (awareness), a ciência no puro ser, ainda assim a identidade não se perde, apenas as suas limitações são perdidas. Ela se transfigura e se torna o verdadeiro Ser, o Sadguru, o eterno amigo e guia. Você não pode abordá-lo através de adoração. Nenhuma atividade externa pode chegar ao Ser interior, as adorações e as orações permanecem apenas na superfície, para aprofundar a meditação é essencial, o esforço para ir além dos estados de sonho, sono e vigília. No início as tentativas são irregulares, então, elas recorrem mais frequentemente, tornam-se regulares, em seguida, intensas e contínuas, até que todos os obstáculos são vencidos.
P: Obstáculos para o que?
M: Para o auto-esquecimento.
P: Se a adoração e as orações são ineficazes por que você realiza adorações diárias, com canções e música, à imagem de seu Guru!
M: Aqueles que querem fazer, façam. Não vejo nenhum propósito em interferir.
P: Mas você tomar parte nisso.
M: Sim, parece que sim. Mas por ficar tão preocupado comigo? Dê toda a sua atenção para a questão: "O que é isso que me torna consciente?", até que sua mente se torne a própria questão e não possa pensar em outra coisa.
P: Todo mundo está pedindo-me para meditar. Eu não vejo graça na meditação, mas estou interessado em muitas outras coisas, algumas que eu quero muito e minha mente vai para elas, as minhas tentativas de meditação são tão vagas, o que devo fazer?
M: Pergunte a si mesmo: "para quem tudo acontece?" Use tudo como uma oportunidade de ir para dentro. Iluminar seu caminho ao queimar os obstáculos na intensidade da consciência (awareness). Quando acontecer de você desejar ou ter medo, não é o desejo ou o medo que estão errados e que devem ir, mas a pessoa que deseja e que tem medo. Não há nenhum ponto na luta contra os desejos e medos que podem ser perfeitamente naturais e justificados, é a pessoa que é influenciada por eles, que é a causa dos erros do passado e do futuro. Essa pessoa deveria ser cuidadosamente examinada e sua falsidade deveria se vista, então o poder dela sobre você vai acabar. Afinal, ela retrocede toda vez que você vai dormir. No sono profundo você não é uma pessoa auto-consciente e ainda assim você está vivo. Quando você está vivo e consciente, mas não mais auto-consciente, você não é mais uma pessoa. Durante as horas de vigília você está, como se no palco, atuando um papel, mas o que você é quando a peça acaba? Você é o que você é, o que você era antes da peça ter começado você permanecerá quando ela terminar. Olhe para si mesmo como atuando no palco da vida. A performance pode ser esplendida ou desajeitada, mas você não está nela, você simplesmente a assiste, com interesse e simpatia é claro, mas tendo em mente o tempo todo que você está apenas assistindo, enquanto a peça - a vida - está acontecendo.
P: Você está sempre enfatizando o aspecto da cognição da realidade. Você quase nunca menciona a afeição e a vontade?
M: A vontade, a afeição, a alegria, o esforço e desfrute estão tão profundamente contaminados com o pessoal, que não podem ser confiáveis. A clarificação e a purificação necessárias bem no início da viagem, só a consciência (awareness) pode dar. O amor e a vontade terão a sua vez, mas o terreno deve ser preparado. O sol da consciência deve erguer-se em primeiro lugar - todo o resto se seguirá.

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Pergunta: Certo dia estávamos discutindo a pessoa, a testemunha e o absoluto (vyakti, vyakta e avyakta). Até onde me lembro, você disse que apenas o absoluto é real e a testemunha é absoluta apenas num dado ponto no espaço e no tempo. A pessoa é o organismo, grosseiro e sutil, iluminada pela presença da testemunha. Pereço não estar compreendendo a questão claramente, poderíamos discutir novamente? Você também usa os termos Mahadakash, chidakash e paramakash. Como eles se relacionam com a pessoa, a testemunha e o absoluto?

Maharaj: Mahadakash é a natureza, o oceano das existências, o espaço físico com tudo o que pode ser descrito com os sentidos. Chidakash é a extensão da consciência, o espaço mental do tempo, da percepção e da cognição. Paramakash é a realidade sem tempo e sem espaço, sem mente, indiferenciada; é a potencialidade infinita, a fonte e a origem, a substância e a essência, a matéria e a consciência, e, contudo, está além de ambos. Não pode ser percebida, mas pode ser experimentada como sempre testemunhando a testemunha, percebendo o percebedor; a origem e o fim de toda a manifestação, a raiz do tempo e o espaço, a causa principal em toda corrente de causas.
Pegunta: Qual é a diferença entre o Vyakta (o manifesto) e o Avyakta
(o não-manifesto)?
Maharaj: Não há nenhuma diferença. É como a luz e a luz do dia. O Universo está cheio de luz que você não vê; mas a mesma luz você vê na forma de luz do dia. E o que a luz do dia revela é o Vyakti. A pessoa é sempre o objeto, a testemunha é o sujeito, e sua relação de dependência mútua é um reflexo da identidade absoluta deles. Você imagina que são estados distintos e separados. Não são. São a mesma consciência - em repouso e em movimento, cada estado consciente um do outro. Em Chit (consciência universal) o homem conhece Deus e Deus conhece o homem. Em Chit o homem dá forma ao mundo e o mundo dá forma ao homem. Chit é a ligação, a ponte entre extremos, o fator de equilíbrio e de união em cada experiência. A totalidade de tudo o que é percebido é o que você chama de matéria. A totalidade de todos os percebedores é o que você chama de mente universal. A identidade dos dois, manifestando-se como a perceptibilidade e percepção, harmonia e inteligência, amorosidade e amor, reafirma-se eternamente.

P: Os três Gunas (sattva - rajas - tamas) estão apenas na matéria ou também estão na mente?
M: Em ambos, é claro, porque os dois não estão separados. É apenas o absoluto que está além dos gunas. Na verdade, esses são apenas pontos de vista, formas de olhar. Eles só existem na mente. Além da mente todas as distinções cessam.
P: O Universo é um produto dos sentidos?
M: Assim como você recria o mundo ao acordar, também o universo é desenrolado. A mente, com seus cinco órgãos de percepção, cinco órgãos de ação e cinco veículos de consciência aparece como memória, pensamento, razão e sentido de individualidade.
P: As ciências fizeram grandes progressos. Conhecemos o corpo e a mente muito melhor do que nossos antepassados. Sua maneira tradicional de descrever e analisar a mente e a matéria, não é mais válida.
M: Mas onde estão os seus cientistas com suas ciências? Eles não são mais uma vez imagens em sua própria mente?
P: Aqui reside a diferença básica! Para mim, eles não são minhas próprias projeções. Eles existiam antes de eu nascer e estarão aí quando eu morrer.
M: Claro que sim. Uma vez que você aceita o tempo e o espaço como reais, você se considera pequeno e de curta duração. Mas eles são reais? Eles dependem de você ou você deles? Enquanto corpo, você está no espaço. Enquanto mente, você está no tempo. Mas você é meramente um corpo com uma mente nele? Alguma vez você já investigou?
P: Eu não tinha nem o motivo nem o método.
M: Eu estou sugerindo ambos. Mas o trabalho de discernimento e desprendimento (viveka-vairagya) é seu.
P: O único motivo que posso perceber é a minha própria felicidade sem causa e atemporal. E qual é o método?

M: A felicidade é acidental. O motivo verdadeiro e eficaz é o amor. Você vê as pessoas sofrerem e você procura pela melhor maneira de ajudá-las. A resposta é óbvia - em primeiro lugar coloque-se além da necessidade de ajuda. Certifique-se de sua atitude é proveniente de pura boa vontade, livre da expectativa de qualquer tipo.
Aqueles que buscam meramente a felicidade podem acabar numa indiferênça sublime, enquanto que o amor nunca vai descansar.
Quanto ao método, há apenas um - você tem de vir a conhecer a si mesmo - tanto o que você parece ser e o que você é. A clareza e a caridade caminham juntas - uma precisa da outra e reforça a outra.
P: A compaixão implica a existência de um mundo objetivo, cheio de tristezas evitáveis.
M: O mundo não é objetivo e a tristeza dele não é evitável. Compaixão é apenas outra palavra para a recusa de sofrer por razões imaginárias.
P: Se as razões são imaginárias, porque o sofrimento deveria ser inevitável?
M: É sempre o falso que o faz sofrer, os falsos desejos e medos, os falsos valores e idéias, as falsas relações entre as pessoas. Abandone o falso e você estará livre da dor, a verdade faz feliz, a verdade liberta.

P: A verdade é que sou uma mente aprisionada num corpo e essa é uma verdade muito infeliz.
M: Você não é o corpo e nem está no corpo - não há tal coisa como o corpo. Você confundiu-se gravemente; para compreender corretamente - investigue.
P: Mas eu nasci como um corpo, em um corpo e morrerei com o corpo, como um corpo.
M: Este é o seu equívoco. Inquira, investigue, duvide de si mesmo e dos outros. Para encontrar a verdade, você não deve se apegar às suas convicções, se você tem certeza do imediato, você nunca vai chegar ao definitivo. Sua idéia de que você nasceu e que você vai morrer é absurda: tanto a lógica quanto a experiência contradizem-na.
P: Tudo bem, não vou insistir que eu sou o corpo. Você tem um ponto aqui. Mas aqui e agora, conforme falo com você, estou em meu corpo obviamente. O corpo pode não ser eu, mas é meu.
M: O universo inteiro contribui incessantemente para sua existência. Assim, o universo inteiro é o seu corpo. Nesse sentido - eu concordo.
P: Meu corpo me influencia profundamente. Em mais de uma maneira meu corpo é meu destino. Meu caráter, meus humorers, a natureza das minhas reações, meus desejos e medos - inatos ou adquiridos - estão todos baseados no corpo. Um pouco de álcool, alguma droga ou outra e tudo muda. Até que o efeito da droga desapareça torno-me um outro homem.
M: Tudo isso acontece porque você pensa-se ser o corpo. Realize o seu Ser verdadeiro e até mesmo as drogas não terão nenhum poder sobre você.

P: Você fuma?
M: Meu corpo manteve alguns hábitos que podem também continuar até que ele morra. Não há nenhum mal neles.
P: Você come carne?
M: Eu nasci entre pessoas que comem carne e os meus filhos comem carne. Eu como muito pouco - e não faço nenhum alvoroço.
P: Comer carne implica em matar.
M: Claro. Eu não faço nenhuma reivindicação de coerência. Você acha que a coerência absoluta é possível; prove-a pelo exemplo. Não pregue o que você não pratica.
Voltando à idéia de ter nascido. Você está preso ao que seus pais lhe disseram: tudo sobre a concepção, a gravidez e o nascimento, as fases bebê, criança, jovem, adolescente, e assim por diante. Agora, dispa-se da idéia de que você é o corpo com a ajuda da idéia contrária de que você não é o corpo. É também uma idéia, sem dúvida, trate-a como algo a ser abandonado quando o seu trabalho tiver sido feito. A idéia de que eu não sou o corpo dá realidade ao corpo, quando na verdade, não existe tal coisa como o corpo, ele é apenas um estado da mente. Você pode ter tantos corpos e tão diversos quanto você quiser, apenas lembre constantemente o que você quer e rejeite os incompatíveis.
P: Eu sou como uma caixa dentro de uma caixa, dentro de outra caixa, a caixa externa que atua como o corpo e a próxima a ela - como a alma que habita. Ao abstrair da caixa exterior a próxima se torna o corpo e a próxima a ela a alma. É uma série infinita, uma infinita abertura de caixas, a última é a alma definitiva?
M: Se você tem um corpo, você deve ter uma alma; aqui sua metáfora de um ninho de caixas se aplica. Mas aqui e agora, através de todos os seus corpos e almas, brilha a consciência (awareness), a pura luz do chit. Segure-se a ela resolutamente. Sem a consciência, o corpo não duraria um segundo. Há no corpo uma corrente de afeição, energia e inteligência, que orienta, sustenta e energiza o corpo. Descubra essa corrente e fique com ela.
Naturalmente, todas essas são maneiras de falar. As palavras são tanto uma barreira como uma ponte. Encontre a centelha da vida que tece os tecidos de seu corpo e fique com ela. Essa é a única realidade que o corpo tem.
P: O que acontece com essa centelha da vida após a morte?
M: Ela está além do tempo. Nascimento e morte são apenas pontos no tempo. A vida eternamente tece suas muitas teias. A tecelagem é no tempo, mas a própria vida é atemporal. Qualquer que seja o nome e a forma que você dê às suas expressões, ela é como o oceano - nunca muda e está sempre mudando.
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P: Tudo o que você diz soa maravilhosamente convincente, mas a minha sensação de ser apenas uma pessoa em um mundo estranho e estrangeiro, muitas vezes hostil e perigoso, não cessa. Sendo uma pessoa, limitada no espaço e no tempo, como posso realizar-me como o oposto; uma consciência despersonalizada, universalizada de nada em particular?
M: Você afirma-se ser o que não é e nega ser o que você é. Você omite o elemento da pura cognição, da consciência livre de todas as distorções pessoais. A menos que você admita a realidade de chit, você nunca conhecerá a si mesmo.
P: O que devo fazer? Eu não me vejo como você me vê. Talvez você esteja certo e eu errado, mas como posso deixar de ser o que eu sinto que eu sou?
M: Um príncipe que acredita-se ser um mendigo pode ser convencido de forma conclusiva de uma única maneira: ele deve se comportar como um príncipe e ver o que acontece. Comporte-se como se o que eu digo fosse verdade e julgue por aquilo que realmente acontecer. Tudo o que eu peço é a pequena fé necessária para dar o primeiro passo. Com a experiência virá a confiança e você não vai precisar mais de mim. Eu sei o que você é e eu estou lhe dizendo. Confie em mim por um tempo.
P: Para estar aqui e agora, eu preciso do meu corpo e dos seus sentidos. Para compreender, preciso de uma mente.
M: O corpo e a mente são apenas sintomas da ignorância, do mal-entendido. Comporte-se como se você fosse a pura consciência, sem corpo e sem mente, sem espaço e sem tempo, além de 'onde' , 'quando' e 'como'. Resida nela, pense sobre ela, aprenda a aceitar a sua realidade. Não se oponha a ela negando-a o tempo todo. Mantenha a mente aberta, pelo menos. Yoga é dobrar o exterior para o interior. Faça a sua mente e o seu corpo expressarem o real, que é tudo e além de tudo. Ao fazê-lo você tem sucesso, não ao discutir.
P: Por favor, permita-me voltar à minha primeira pergunta. Como o erro de ser uma pessoa se origina?
M: O absoluto precede o tempo. A consciência vem em primeiro lugar. Um feixe de memórias e hábitos mentais atrai a atenção, a consciência fica focalizada e uma pessoa aparece de repente. Remova a luz da consciência, vá dormir ou desmaie – e a pessoa desaparece. A pessoa (vyakti) cintila, a consciência (vyakta) contém todo o espaço e o tempo, o absoluto (avyakta) É.

sábado, 18 de dezembro de 2010

P. D. Ouspensky - Seleção de Reuniões sobre Conhecimento e Ser


Pergunta: Eu gostaria de saber mais exatamente o que se entende por ser. Eu entendi que é algo mais permanente em oposição a uma espécie de coleção de "eu's" cambiantes.
Sr. Ouspensky: Não torne isso tão complicado. Tudo de você é o seu ser. O conhecimento é separado. Você pode visualizar separadamente tudo o que você sabe, mas tudo que você é - é o seu ser. Nesta divisão você consiste em duas coisas: o que você sabe e o que você é. O que você é, é o seu ser e o que você sabe que é o seu conhecimento.
Do ponto de vista do desenvolvimento, a idéia é que o trabalho sobre o conhecimento sem o trabalho sobre o ser não é suficiente. Você não tem apenas de adquirir um certo conhecimento, mas você também deve aprender como trabalhar em seu ser e mudar o seu ser. O conhecimento é limitado pelo ser. No estado em que você está, se você tem mais conhecimento você será capaz de usá-lo, compreendê-lo, conectá-lo. Desenvolvimento do conhecimento não é suficiente, por um determinado momento ele tem de parar, e em vez de levá-lo para a frente vai levar você para trás, porque se sua aquisição de conhecimento não for seguida pela mudança de ser, todo o conhecimento ficará distorcido em você .
P: Que papel o ser desempenha na obtenção do conhecimento?
Sr. O.: O ser é o seu estado. Em um estado você pode adquirir certo conhecimento, mas se um outro estado desenvolve-se você pode adquirir mais conhecimento. Se você está dividido em diferentes "eu's", todos contraditórios entre si, então é muito difícil de adquirir conhecimento, porque cada parte adquire por si mesma e compreende por si mesma, então você não terá muita compreensão. Se você se tornar um, então certamente será mais fácil de adquirir conhecimento, e de recordar e compreender esse conhecimento. Ser significa estado, condições internas, tudo junto, não separado.

P: Nosso ser cresce com o conhecimento?
Sr. O.: Não, o ser não pode crescer por si mesmo. O conhecimento, mesmo um conhecimento muito bom, não pode fazer o ser crescer. Você tem de trabalhar sobre o conhecimento e sobre o ser separadamente, caso contrário, você deixará de compreender o conhecimento que você adquire.
De um modo geral, sabemos mais sobre o nosso conhecimento do que sabemos sobre o nosso ser. Sabemos o quão pouco sabemos sobre nós mesmos, sabemos o quanto, em cada momento, cometemos erros em tudo, sabemos como não podemos prever as coisas, como não podemos entender as pessoas, como não podemos entender as coisas. Nós sabemos tudo isso e percebemos que tudo é resultado do nosso conhecimento insuficiente. Mas, apesar de no pensamento comum entendermos a diferença entre objetos, não entendemos a diferença entre o ser das pessoas. É útil pegar um pedaço de papel e escrever nele o que constitui o nosso ser. Então você vai ver que ele não pode crescer por si só. Por exemplo, uma característica de nosso ser é que somos máquinas, outra, é que vivemos em apenas uma pequena parte de nossa máquina, uma terceira, é essa pluralidade da qual foi falada na primeira palestra*. Nós dizemos 'eu', mas esse "eu" é diferente a cada momento. Num momento eu digo 'eu' e é um 'eu', cinco minutos depois eu digo 'eu' e é outro "eu". Então, nós temos muitos "eus", todos do mesmo nível e não há nenhum “eu” central no controle. Esse é o estado do nosso ser. Nunca somos um e nunca o mesmo. Se você anotar todos esses traços, vai ver o que constituiria uma mudança de ser, e o que pode ser mudado. Em cada traço particular há algo que pode mudar e uma pequena mudança num traço significa também uma mudança em outro.
O ser é o que você é. Quanto mais você se conhece, mais você conhece o seu ser. Se você não conhece a si mesmo, você não conhece o seu ser. E se você ficar no mesmo nível de ser, você não poderá obter conhecimento.

P: Para trabalhar sobre o ser, é necessário ocuparmos todo o nosso tempo durante o dia, não termos nenhum tempo livre?
Sr. O.: Você começa com o impossível. Comece com o possível. Comece com um passo. Tente fazer um pouco e os resultados vão lhe mostrar. Há sempre um limite, você não pode fazer mais do que pode. Se você tentar fazer coisas demais, você não fará nada. Mas, pouco a pouco, você vai ver que o pensar correto e as atitudes corretas são necessários. É preciso tempo, porque por muito tempo as pessoas estiveram no poder das emoções negativas, da imaginação negativa e coisas assim. Mas, pouco a pouco, elas desaparecerão. Você não pode mudar tudo de uma vez.
Devemos sempre pensar no próximo passo, apenas um passo. Podemos compreender o nosso ser como um pouco mais coletado do que é agora: isso podemos compreender. Quando compreendermos isso, podemos pensar nele como ainda um pouco mais coletado, mas não completamente, não definitivamente.
P: Seremos capazes de avaliar a mudança do nosso ser sem enganar a nós mesmos?
Sr. O.: Sim, mas antes que você seja capaz de avaliar a mudança, você deve conhecer o seu ser como ele é agora. Quando você conhecer a maioria das características do seu ser, você será capaz de ver as mudanças.
P: Do que depende a diferença de nível entre as pessoas comuns que estão dormindo?
Sr. O.: Da confiabilidade. Há pessoas mais confiáveis e pessoas menos confiáveis. Isso também é verdade no trabalho. Pessoas não confiáveis não podem conseguir nada.
P: Será que todos começam no mesmo nível?
Sr. O.: Mais ou menos, mas há variações. O mais importante é a confiabilidade.

P: Como desenvolvemos o nosso ser?
Sr. O.: Tudo o que você aprendeu, tudo que já ouviu falar sobre a possibilidade de desenvolvimento, tudo refere-se ao ser. Desenvolvimento do ser significa despertar em primeiro lugar, uma vez que a principal característica do nosso ser é que estamos dormindo. Ao tentar despertar mudamos nosso ser, esse é o primeiro ponto. Depois, há muitas outras coisas: criar unidade, não expressar emoções negativas, a observação, o estudo das emoções negativas, tentar não se identificar, tentar evitar o falar desnecessário, tudo isso é um trabalho sobre o ser. Certamente você adquire certo conhecimento dessa forma, mas ele é colocada em separado, se é simplesmente conhecimento intelectual. O ser é poder, poder de fazer e o poder de fazer é o poder de ser diferente.


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Sr. Ouspensky: De todas as palestras que foram lidas e de tudo o que temos ouvido e que foi dito sobre este sistema, fica muito claro que sem as escolas não há meios de adquirir conhecimento real, conhecimento objetivo, ou seja, conhecimento que vem mente superior.
Tal conhecimento nos mostra como estudar o homem, como estudar o universo e também como estudar a um em relação ao outro. Com o conhecimento objetivo é possível conhecer o mundo real, fazendo uso dos princípios da relatividade e da escala e conhecer as duas leis fundamentais do universo: a Lei de Três e a Lei de Sete. *
A abordagem do conhecimento objetivo é através do estudo de uma linguagem objetiva. Vocês se lembram, eu disse que o estudo deste sistema começa com o estudo de uma língua nova, e dei vários exemplos: os centros, as divisões dos centros, a divisão do homem em n º 1, 2, 3, 4 e assim por diante. Essas são todas as expressões dessa linguagem.
O próximo passo é o estudo de si mesmo, o estudo da máquina humana e a compreensão do lugar do homem no universo. Este conhecimento de si é tanto um objetivo quanto um meio.
Mas se um homem quer se desenvolver, o conhecimento apenas não é suficiente, ele deve trabalhar para alterar o nível de seu ser. Mas, a mudança de ser é tão difícil que seria quase impossível se o conhecimento não estivesse lá para ajudá-lo. Assim, o conhecimento e o ser precisam crescer lado a lado, embora sejam bem separados um do outro.

Nas escolas, as condições são tais que, desde os primeiros passos o trabalho avança simultaneamente em duas linhas, pela linha do conhecimento e a linha do ser. E alguma compreensão dos princípios e métodos de escola é necessária para tornar o trabalho sobre o ser possível.
Nem o conhecimento nem o ser separados podem dar a correta compreensão, porque a compreensão correta é a "resultante" de um crescimento simultâneo do conhecimento e do ser.
O crescimento do conhecimento significa uma transição do particular para o geral, dos detalhes para o todo, do ilusório para o real. O conhecimento comum é sempre um conhecimento dos detalhes sem conhecer o todo, o conhecimento das folhas ou das veias e das serrilhas das folhas, sem conhecer a árvore. O conhecimento real não só mostra o detalhe dado, mas o lugar, a função e o significado deste detalhe em relação ao todo.
P: Se o conhecimento existe em níveis diferentes, então só podemos ter o conhecimento que pertence ao nosso nível?
Sr. O.: Isso mesmo, mas se tivermos todo o conhecimento que podemos adquirir no nosso nível, então o nosso nível mudará. O ponto é que não temos todo o conhecimento que é possível em nosso nível, temos muito pouco.
P: O conhecimento é dado somente em conexão direta com o trabalho?
Sr. O.: Desde o início, lhe foram dadas certas idéias e algumas coisas foram ditas sobre a máquina humana, por exemplo, sobre as quatro funções, sobre os diferentes estados de consciência, sobre o fato de que vivemos em um estado que sobe e desce, às vezes mais próximo da autoconsciência, às vezes mais perto do sono. Quando ouviu isso, você também foi instruído a provar isso para si mesmo. Se você apenas ouve sobre essas coisas ou lê sobre elas, elas permanecem apenas palavras. Mas quando você começa a verificar por si mesmo, quando você entende cada função em você mesmo e descobre o seu próprio sentimento sobre elas, então torna-se conhecimento. E o ser é completamente separado. Em seu estado atual você pode fazer todos os esforços possíveis e ainda sentir que há mais a ser obtido de seu conhecimento, mas o seu ser não é suficiente. Por isso, é necessário trabalhar sobre o ser, torná-lo mais forte, mais definido. Depois, das mesmas palavras você poderá extrair mais conhecimento.

P: Mas uma certa quantidade de conhecimento em um homem aumenta o seu ser?

Sr. O.: Não, ele não pode. Mesmo uma grande quantidade de conhecimento não vai aumentar o ser por si só. O trabalho sobre aumentar o conhecimento e aumentar o ser é um trabalho diferente, esforços diferentes são necessários.

P: Se a compreensão é a resultante do conhecimento e do ser, eu não consigo ver como os dois combinam.
Sr. O.: Qualquer compreensão, em qualquer momento que você compreende alguma coisa, significa uma combinação do conhecimento e do ser.
Compreensão é o resultado da experiência: uma certa experiência em ser e uma certa experiência em conhecimento.
P: Ainda não está claro para mim o que você quer dizer com ser e estado de ser.
Sr. O.: Tudo o que não é adquirido na forma de conhecimento está em seu ser. Muitas coisas entram no ser. Podemos estar mais divididos ou mais inteiros, mais adormecidos ou menos adormecidos. Tudo isso mostra o ser. Podemos mentir mais ou mentir menos, ou não gostar de mentira ou gostar, ter um sentimento da mecanicidade ou não. Geralmente, o estado de ser significa uma consecutividade de ações maior ou menor. Quando uma coisa contradiz muito a outra, isso significa que o ser é fraco. Não percebemos que se um homem é muito inconsequente, isso torna seus conhecimentos muito não confiáveis. O desenvolvimento de uma única linha, seja do conhecimento ou do ser, dá resultados muito ruins. Existem algumas escolas muito insuficientes, controladas por pessoas que não deveriam controlar escolas, que desenvolvem apenas um lado e dão resultados muito ruins.
Os dois lados de um homem devem se desenvolver. O ser inclui toda a nossa força de "fazer". O conhecimento é apenas auxiliar, ele pode ajudar. Mas, para mudar o nosso ser, em primeiro lugar - e aqui é onde o conhecimento entra - temos de perceber e entender o nosso estado. Conforme começamos a entender o estado do nosso ser, ao mesmo tempo, aprendemos o que fazer com nós mesmos, que temos de nos lembrar sobre os diferentes "eu's", da luta com funções inúteis como a mentira, a imaginação, as emoções negativas e assim por diante.

P: O que você quis dizer quando disse que o desenvolvimento apenas do conhecimento ou apenas do ser dá maus resultados?
Sr. O.: Poderá ajudá-lo se eu lhe disser como ouvi pela primeira vez sobre o assunto. No primeiro caso, se o conhecimento se desenvolve além do ser, o resultado é chamado de "Yogi fraco' - um homem que sabe tudo mas não pode fazer nada. No segundo caso, se o ser desenvolve-se além do conhecimento, o resultado é um 'santo estúpido', um homem que pode fazer tudo mas não sabe nada.

P: As influências B* são de alguma ajuda para o crescimento do ser?
Sr. O.: Você já deveria saber que sem absorver uma certa quantidade de influências B você não pode chegar às influências C. Muitas vezes me perguntam porque eu não tenho grupos para as crianças. É porque as pessoas devem ter experiência suficiente, devem primeiro experimentar coisas diferentes e ficarem decepcionadas com elas. Caso contrário, elas vão tomar o sistema no nível das influências B, vão rebaixá-lo, não serão capazes de sentí-lo como diferente de qualquer outra coisa que possam ter lido ou ouvido falar. Devem, primeiro, ter experiência de influências B para saber se o sistema é algo ordinário ou não ordinário. Se você tentar comparar este sistema com os outros, você vai descobrir que é na importância dessa idéia do ser que ele difere de outros sistemas, filosóficos ou de outro tipo. Os outros sistemas estão preocupados com o conhecimento ou com a conduta. Eles assumem que, tal como somos, podemos saber mais ou nos comportar de maneira diferente. Em sistemas religiosos, "fé" e "conduta" são geralmente considerados como sendo voluntários. A pessoa pode ser boa ou má, é arbitrário. Este é o único sistema que tem a idéia de diferentes níveis de ser. Em nosso nível atual de ser há um conhecimento, uma conduta, uma fé, todos determinados pelo ser. Mas primeiro vem o conhecimento, o quão pouco sabemos. Você começa a estudar a si mesmo, você percebe que você é uma máquina, mas que pode tornar-se consciente. A máquina começa em um certo nível de ser. Tudo o que ela pode ou não pode fazer é dependente desse nível. Tente entender o que quero dizer por ser, por níveis de ser, mudança de ser. Outros sistemas consideram o conhecimento ou a conduta moral como independentes do ser. Neste sistema, a idéia mais importante e mais característica é a idéia do ser. Este sistema diz que tudo – as forças, as energias, os diferentes tipos de atividade, todos dependem do nível de ser. Nós não podemos saber mais por causa do nosso nível de ser. Ao mesmo tempo, a menor diferença no nível de ser abre novas possibilidades para o conhecimento e para o fazer. Todos os nossos poderes são determinados pelo nosso nível de ser.

P: Eu entendi que estávamos todos no mesmo nível.
Sr. O: Sim, em comparação com o homem n°. 4. Mas há pessoas que estão mais longe do nível do homem n°. 4 e outros que estão mais próximos dele. Como em tudo, existem graus. Há uma grande distância entre os dois níveis, mas há estados intermediários. É a mesma coisa em nós mesmos: cada um de nós pode ser diferente em diferentes momentos.
P: O senhor poderia explicar mais sobre os graus que existem entre nós e o homem n°. 4. Eu quero entender.
Sr. O.: Esta é uma pergunta correta. E você pode entender através da observação de outras pessoas e de si mesmo. Existem graus. Há homens n°. 1, 2 e 3 que não estão interessados de maneira nenhuma na possibilidade de desenvolvimento ou na aquisição de conhecimento ou qualquer coisa de tipo. Depois há aqueles que têm a possibilidade de uma certa compreensão, mas eles se movem de uma coisa para outra - não é um interesse dirigido. Em seguida, pode haver o interesse direcionado, o início do centro magnético, o crescimento do centro magnético, o encontro com uma escola, podem haver muitas escolas de um ou de outro tipo, e podemos passar por muitas escolas erradas. Então, encontramos o trabalho. Novamente, existem diferentes graus. Muitas coisas foram explicadas sobre isso. Os homens n°. 1, 2 e 3 podem ser bastante diferentes, ele poderá estar perto de possibilidades, mais longe de possibilidades, ou mesmo sem possibilidades.


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Pergunta: Foi-nos dito que o verdadeiro trabalho sobre o ser requer uma percepção de como obter o entendimento correto. Você também disse que é preciso entender o que queremos.
Sr. Ouspensky: Há várias razões para isso. A compreensão é a força mais poderosa que temos que pode nos mudar. Quanto mais compreensão temos, melhores serão os resultados de nossos esforços.
P: Acho totalmente impossível julgar qualquer alteração no meu nível de ser. Eu posso perceber a compreensão, mas não a mudança de ser.
Sr. O.: A comprensão depende do nível de ser. Vejo que você não entende o que significa nível de ser. Como expliquei na primeira palestra, uma das primeiras características do nosso ser é que temos muitos "eus", uma organização de trabalho, uma direção de trabalho. Isso vai significar uma mudança de ser.
P: Qual o nível de ser que você quer de nós?
Sr. O.: Compreensão. É impossível determinar o grau em palavras.
P: Se somos máquinas, como podemos mudar o nosso ser?

Sr. O.: Você não pode esperar até que você mude. Há um princípio muito importante no trabalho: você nunca tem de trabalhar de acordo com suas forças, mas sempre além de suas forças. Este é um princípio permanente. No trabalho você tem sempre que fazer mais do que você pode. Só então você pode mudar. Se fizer apenas o que é possível, você permanecerá onde está. Temos de fazer o impossível. Você não deve tomar a palavra 'impossível' em grande escala. Mas, mesmo um pouco significa muito. Você tem de fazer mais do que pode, ou você nunca irá mudar. É diferente da vida, na vida você só faz o que é possível.
É necessário compreender que o único objetivo é a mudança de ser. O objetivo é chegar a estados superiores de consciência e ser capaz de trabalhar com os centros superiores. Todo o resto é para dar suporte a isso, é feito a fim de conseguir isso. É necessário fazer mil coisas que parecem não ter nenhuma relação com isso, mas todas elas são necessárias, porque vivemos abaixo do nível normal. Primeiro temos de alcançar o nível normal, e em segundo lugar, temos de tentar desenvolver novas coisas e possibilidades.
Então, novamente, as pessoas costumam dizer que têm trabalhado por um longo tempo e não vêem resultados. Mas, para ganhar mesmo que um pouco, o trabalho deve ser de uma intensidade diferente. É como aprender um idioma. Se você aprender dez palavras por dia, em dez ou quinze anos você ainda estará no mesmo lugar, você vai aprender alguma coisa e se esquecer de outra. O trabalho exige esforço permanente, um esforço muito grande e contínuo. Um longo tempo é necessário para a preparação, e certas coisas como o trabalho sobre os obstáculos, precisam de um longo tempo, é um trabalho lento. Porém você não pode pensar só sobre os obstáculos, mas também sobre o objetivo, e isso exige um esforço diferente.

P: O que significa tentar fazer o impossível?

Sr. O.: Mudar o seu estado - lembrança de si. A fim de se mover deste ponto morto você tem que fazer mais, fazer mais esforço do que na vida comum. As pessoas se esquecem disso, ou pensam que podem fazer esse trabalho com o mesmo esforço ou mesmo menor do que na vida. Isso é realmente impossível. O esforço tem vários lados diferentes. Às vezes, o esforço para não fazer algo, ou fazer de maneira diferente, é maior do que o esforço para fazer algo. Os esforços podem ser diferentes, mas no início, podemos ser guiados apenas pela mente e pelo entendimento. Assim, por muito tempo todo o trabalho deve estar concentrado no entendimento. Quando você compreender melhor as coisas, muitas outras coisas se tornarão possíveis.
P: Como podemos fazer o esforço correto em relação à lembrança de si?
Sr. O.: Ao tentar compreender o que ela é, por que você quer fazê-la. Quanto mais você colocar nela, mais você entenderá sobre ela, melhor será o resultado. Quando você perceber o quanto você perde por não lembrar de si mesmo, você terá um forte impulso para lembrar de si mesmo quando puder. Se você perceber que você não lembra de si mesmo e o que isso significa, e se você perceber o que significaria lembrar-se e quando isso está ligado com o que você perde por não se lembrar e o que você ganharia por lembrar-se de si, então quanto mais você compreender, mais esforço você fará.

P: Existe alguma maneira de aumentar a nossa compreensão?
Sr. O.: Não uma maneira, existem milhares de maneiras. Tudo o que temos falado desde o primeiro dia até agora é sobre maneiras de aumentar a compreensão. Mas principalmente, você deve lutar com os obstáculos, com as coisas que o privam da compreensão.
Somente através da remoção desses obstáculos você começará a compreender mais. Mas os obstáculos, com exceção da descrição geral da identificação e assim por diante, são individuais. Você deve encontrar seus próprios. Você deve encontrar o que está em seu caminho. Geralmente, você vai descobrir que é uma ou outra forma de identificação, mas individualmente, para você pessoalmente, pode ter um gosto diferente. A dificuldade de outra pessoa pode parecer muito simples para você, mas suas próprias dificuldades parecem muito difíceis e como se você não pudesse fazer nada, até que você deseje fazer. Mas não é impossível. Nada impossível é exigido de você. Apenas você deve ser persistente e agir de uma determinada maneira, e lembrar-se do que foi dito.

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Pergunta: Antes de entrar no trabalho eu era cheio de pequenos entusiasmos e assim por diante. Vejo que muitos deles estavam baseados em imaginação, mas agora eu não tenho quase nenhum sentimento. Parece um sentimento muito raso, e não posso acreditar que as outras pessoas são assim também.

Sr. Ouspensky: Infelizmente elas são. Este é um dos maiores problemas, como tornar-se mais emocional, pois não podemos ir muito longe com o intelecto. É apenas o esforço, esforço e se lembrar das diferentes linhas de trabalho, tentar não se identificar, tentar lembrar de si, tentar isso e aquilo - esforço, esforço... Ao mesmo tempo, esse é um problema muito grande, porque há tantas coisas contra isso... Mas se você fizer esforço o suficiente, você vai se tornar mais emocional. Quanto mais esforço você fizer, mais emocional você se tornará. Mas o fato dessa ser uma pergunta constante que todo mundo pergunta (ou se não perguntam, sentem esse problema) mostra que as pessoas não fazem esforço suficiente.
P: Você diz que é necessário mais esforço. Você quer dizer esforço para sentir emoção ou esforço para trabalhar?
Sr. O.: Isso não pode ser colocado assim. É o esforço para trabalhar, simplesmente. Você não pode fazer esforço para sentir emoção. Nenhum esforço vai ajudar nisso.
P: O senhor disse que haviam muitas coisas contra nós no esforço de sermos emocionais.
Sr. O.: Você não pode fazer esforços no sentido de ser emocional. Isto é completamente errado. Você não pode fazer esforços no sentido de ser emocional, mas você pode fazer esforços. Se você estiver fazendo algo, você pode fazê-lo sem esforço, tentando fazer o mínimo possível, ou você pode colocar muito esforço naquilo.
A emoção pode aparecer apenas como o resultado de uma certa pressão. Em condições normais, na vida comum, isso apenas acontece; algo acontece e leva-o a um estado emocional. A questão é como produzir emoção, como nos tornar emocionais. E posso dizer que em nosso estado presente, existe apenas uma coisa: esforço. Mas não o esforço para produzir emoção. Não existe tal esforço. Mas, um esforço contínuo muito forte em qualquer trabalho que você fizer irá torná-lo mais emocional após algum tempo, não de imediato, certamente. Mas um certo período de esforço em diferentes linhas, certamente aumentará suas emoções.

P: Por que fazer esforços é tão difícil? Suponho que em parte é porque até que tenhamos algum controle sobre as emoções negativas não temos energia suficiente?
Sr. O.: O controle das emoções negativas é um objetivo distante. Não podemos esperar por isso. Os esforços podem parecer difíceis, porque não estamos preparados em nossa mente. Não pensamos corretamente sobre eles. Nem sequer aceitamos mentalmente que é necessário fazer esforços. Isso cria a maior dificuldade. A necessidade de fazer esforços vem como um choque, como uma coisa nova. Não estamos preparados para isso.
P: Você pode me dizer o que devemos ter por objetivo, quer dizer, o que é possível adquirir através do trabalho?
Sr. O.: Sim, podemos falar de objetivos. Só que, como eu sempre digo, você deve ter seus próprios objetivos. Se você falar quais são eles, então será possível falar com um material muito melhor.
Você vê, a determinação e definição do objetivo é um momento muito importante no trabalho, e geralmente acontece (e é por isso que é impossível falar assim de objetivos em geral), que a pessoa define seu objetivo muito bem, numa direção correta, só que é um objetivo que está muito longe. Então a pessoa começa a aprender e a acumular material, tendo em vista esse objetivo. Na próxima vez que a pessoa tenta definir um objetivo ela define um pouco diferente, um objetivo um pouco mais perto. A próxima vez novamente um pouco mais perto, e assim por diante, até achar um objetivo bem próximo - amanhã ou depois de amanhã. Essa é realmente maneira certa com relação aos objetivos, se falamos sobre eles sem palavras definidas.
Mas então, podemos descobrir que muitos já foram mencionados. Temos que ser um. Muito bem, um objetivo muito bom. Queremos ser livres. Como? Somente quando adquirímos o controle da máquina. Podemos dizer: 'Eu quero ser consciente". Muito bem. Podemos dizer: 'Eu quero ter vontade". Muito bom. "Eu quero despertar.” Também é muito bom. Esses são todos objetivos na mesma linha, apenas, em diferentes distâncias.

P: Cheguei à conclusão de que a maioria dos meus objetivos são muito remotos, quero trabalhar mais no lado prático.
Sr. O.: Sim, porque antes de poder alcançar objetivos remotos, existem muitas coisas que você tem que fazer aqui e agora, e é nisso que este sistema difere de quase todos os outros sistemas. Quase todos os outros sistemas começam pelo menos 10 mil milhas à frente e não tem significado prático, mas este sistema começa nesta sala, essa é a diferença, e é isso que deve ser entendido em primeiro lugar.
P: Eu preciso sempre manter o meu objetivo maior atrás de cada objetivo menor?
Sr. O.: Isso depende para que finalidade. Você nunca é o mesmo por dois dias consecutivos. Em alguns dias você terá mais sucesso, em outros, menos. Tudo o que podemos fazer é controlar o que podemos. Nunca podemos controlar as coisas mais difíceis se não podemos controlar as coisas fáceis. Todo dia e toda hora há coisas que podemos controlar e não controlamos. Portanto, não podemos ter coisas novas para controlar. Estamos rodeados de coisas negligenciadas. Principalmente, nós não controlamos o nosso pensamento. Pensamos de uma maneira vaga sobre o que queremos. Mas se você não formular o que você quer, então nada acontecerá. Esta é a primeira condição. Mas há muitos obstáculos.
P: Eu tentei muitas vezes pensar no que eu quero, mas só encontro um emaranhado de muitas coisas.
Sr. O.: É isso aí. Isso é o que estou dizendo. Quero que você perceba o quanto é difícil definir. Suponha que lhe seja dada total escolha para ter o que você quiser: você não saberá o que dizer. Você deve entender e saber o que quer, você deve ser capaz de formular.

P: Se tento controlar a expressão de emoções negativas, o resultado torna as coisas melhores para mim na vida ordinária. Acho que trabalho para resultados imediatos, não para despertar. Esse é um objetivo errado?
Sr. O.: Não é questão de certo e errado, há apenas a questão de saber o seu objetivo. Pense sobre o objetivo. O objetivo deve ser sempre no presente e referir-se ao futuro.
P: Tentar definir meu objetivo me fez ver que eu não sei qual é ele e que devo descobrí-lo antes que eu possa chegar mais longe.
Sr. O.: Receio que você tem pensado sobre isso apenas de uma forma abstrata. Imagine-se indo a uma loja grande, com muitos departamentos diferentes. Você deve saber o que quer comprar. Como você pode pegar alguma coisa se você não sabe o que quer? Essa é a maneira de abordar este problema. A primeira pergunta é: O que você quer? Depois de saber isso, então a próxima pergunta será: Vale a pena pagar por isso e você tem dinheiro suficiente? Mas a primeira pergunta é: 'O quê?'
O pagamento é um princípio muito importante no trabalho e deve ser entendido que ele é absolutamente necessário. Sem pagamento você não pode obter nada, você pode obter apenas de acordo com quanto você paga, não mais. Pagamento significa esforço, estudo, tempo, muitas coisas.
P: Sinto que sinceramente quero mais conhecimento, mas não quero realmente mudar meu ser atual.
Sr. O.: Sim, essa é uma observação muito boa, porque estamos quase todos na mesma posição. Queremos obter algo por nada e é por isso que não temos nada. Se nós realmente decidirmos ir atrás deste tipo de conhecimento, ou mesmo de uma coisa muito pequena e fossemos atrás disso, independentemente de tudo o mais, então conseguiríamos. Este é um ponto muito importante. Dizemos que queremos conhecimento, mas na verdade não queremos. Não é imaginação, não importa como você chama isso, você pode encontrar outro nome para isso: é uma atitude especial. Você vai pagar por qualquer outra coisa, mas para isso você não está disposto a pagar nada, e assim, como resultado, você não consegue nada.

P: Ao tentar formular claramente o que eu quero, o sentimento mais forte é que o que eu quero não está lá.
Sr. O.: Sim, sempre, mas isso não é uma formulação. Certamente, se estivesse lá você não iria querê-lo, você já o teria. Você vê, isso está relacionado com muitas coisas. Não pense que você pode resolver este problema rapidamente. Estamos tão acostumados a pensar erradamente sobre muitas coisas, não sabemos nem como começar a pensar da maneira correta. É bem verdade que o que queremos não está lá, mas o que é? Isso é o que temos de pensar a respeito e que temos medo de pensar. Nós dizemos: “Se não está nesta sala, não existe ". E é assim que pensamos geralmente. Esta é uma maneira errada de pensar.
P: Tenho tentado pensar o que eu quero tirar do trabalho. Muitos "eu's" em mim gostam do trabalho de uma maneira vaga. Eu sinto que isso está me segurando.
Sr. O.: Muito bem, é muito útil saber mais definidamente. De novo e de novo temos de voltar a essa questão do que queremos do trabalho. Não use a terminologia do sistema, mas descubra o que você mesmo quer. Se você disser que quer ser consciente, isto é realmente muito bom, mas por que? O que você quer conseguir através de estar consciente? Você não deve pensar que pode responder essa pergunta de imediato. É muito difícil. Mas você deve continuar a voltar a ela. E você deve entender que, antes de chegar a hora em que você será capaz de obter o que deseja, você deve saber o que é que deseja. Esta é uma condição muito definida. Você jamais poderá conseguir algo até que você saiba o que é e que possa dizer: 'Eu quero isso'. Então, talvez você poderá obter isso, ou talvez não, mas você nunca poderá obter se você não souber. Além disso, você deve querer as coisas na ordem certa.

P: O que significa isso?
Sr. O.: É preciso estudar e compreender a ordem certa das possibilidades. Este é um assunto muito interessante.
P: Quer dizer no sistema?
Sr. O.: Com a ajuda do sistema. Mas você pode formular isso da sua própria meneira. Você deve ser sincero consigo mesmo. Deve saber exatamente o que você quer e então, irá perguntar a si mesmo: "Será que o sistema é capaz de me ajudar a obter isso” e assim por diante. Mas é necessário saber o que você quer.
Falei sobre essa questão do objetivo, porque aconselho que vocês pensem sobre isso, revisem o que vocês já pensaram a respeito do objetivo e pensem como vocês definiriam o seu objetivo agora, depois de um estudo dessas idéias. É inútil definir um objetivo que não possa ser alcançado. Mas se você definir um objetivo que se pode esperar alcançar, então seu trabalho será consciente, sério.
Se eu fosse perguntado sobre isso, eu responderia que o que um homem pode ter, o que pode ser prometido para ele com a condição de que ele trabalhe, é que após algum tempo de trabalho ele vai se ver. Outras coisas que ele pode obter, como a consciência, a unidade, a conexão com os centros superiores, vêm depois disso; e não sabemos em que ordem virão. Mas devemos nos lembrar de uma coisa, até que cheguemos a isso – até que vejamos a nós mesmos, não podemos conseguir nada mais. E até que começemos a trabalhar com esse objetivo em vista, não podemos dizer que começamos a trabalhar. Então, depois de algum tempo, devemos ser capazes de formular o nosso objetivo imediato como sendo o de ver a nós mesmos. Nem mesmo conhecer a nós mesmos (isso vem depois), mas ver a nós mesmos.


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Pergunta: Quando você usa a palavra ser você quer dizer a consciência?

Sr. Ouspensky: Não, quero dizer tudo, esta mesa tem um ser. É a combinação de todas as características ou qualidades do meu ser ou do ser da mesa, é simplesmente certo nível (se você se lembrar do homem na Tabela de hidrogênios, se encontramos o hidrogênio médio desta mesa e o hidrogênio médio do homem, então podemos dizer, por exemplo, que lugar na tabela dos hidrogênios o homem ocupa e que lugar a mesa ocupa, isso será o nível de ser em uma escala grande, mas como homens estamos todos no mesmo nível desse ponto de vista, ao mesmo tempo, ao estudar-nos individualmente, nós estabelecemos nosso próprio nível de ser. Percebemos que somos assim e assado, gostamos disso e daquilo e temos imaginação sobre isto e aquilo, e isso define nosso ser) significa pluralidade, não unidade. No que diz respeito a todos nós significa que não somos um, somos muitos, não podemos "fazer", estamos dormindo, nós não lembramos de nós mesmos, essas são características do nosso estado de ser. Mesmo se quisermos fazê-lo, não podemos despertar porque temos tantos sonhos prediletos que imediatamente nos colocam para dormir novamente, mesmo se despertamos por um segundo, e é um trabalho muito difícil e necessita de muitos esforços para começar a despertar. Este é o nosso nível atual de ser; não estamos coletados, sempre perdemos a nós mesmos em tudo, o que significa que estamos identificados com tudo.

P: Voce disse que precisamos mudar nosso conhecimento para vermos as coisas como elas realmente são; você considera que com isso poderemos chegar à verdade, à realidade?
Sr. O.: Não, não, eu quero dizer de forma muito limitada, não podemos chegar às coisas como elas são neste estado de consciência, mas podemos tirar algumas camadas de mentira. As coisas estão rodeadas por mentira, nós podemos remover uma, duas ou três cascas, podemos chegar mais perto de coisas reais. As pessoas podem passar a vida estudando os sistemas e as palavras existentes e nunca chegarem a coisas reais; três quartos ou nove décimos de nosso conhecimento comum não existe na realidade, existe apenas na imaginação. Por exemplo, houve pergunta sobre psicanálise, eu a comparei com a Demôniologia Medieval, era um sistema elaborado de todas as classes de demônios com seus nomes, e foi calculado definitivamente que para cada homem existem 27 milhões de demônios ou algo assim, de qualquer forma, isso explicava totalmente porque o homem é impotente perante os demônios e cada um desses 27 milhões eles classificavam e tinham nomes definidos e assim por diante; era muito interessante e exatamente como a psicanálise moderna, só que eles falam de complexos e os outros falavam de demônios.
P: Porque é que as pessoas não são sinceras? Tenho notado falta de sinceridade, especialmente em pessoas Inglêsas, é devido à educação?
Sr. O.: Não, eu não acho que haja qualquer diferença relacionada à nação, penso que todas as pessoas não são sinceras. Há muitas razões para isso, primeiro é por ser mecânico e segundo, você não pode ser sincero. Você acha que é uma questão de educação ou de decisão, mas é uma coisa muito maior. A pessoa deve ser consciente para ser sincera. Se o homem está dormindo, como ele poderá ter certeza de que ele é sincero? As palavras simplesmente acontecem. Ele não fala da maneira que deseja, ele não tem controle e ele não conhece - ambas as coisas são necessárias - conhecimento e ser. É uma coisa muito séria aprender a ser sincero, mesmo nas pequenas coisas.

P: Se tento não identificar-me com um 'eu', então, não tendo nenhum "eu" permanente, acabo me identificando com outro.
Sr. O.: Quando falamos do homem fora do trabalho, dizemos que ele não tem "eu". Se o homem começa a estudar, isso já significa um determinado estado. Ele tem um centro magnético. O centro magnético é o começo do 'eu'. Ele já não tem direito de dizer que não tem "eu". Um homem na rua não tem "eu". No estudo, ele certamente não pode dizer que possui um “eu” completo e permanente, mas já deve ter uma linha de ação. Isso deve significar um "eu". Ainda não está totalmente consciente, mas ele cresce. Essa é a diferença entre conhecimento e ser. O 'eu' pertence ao ser.

P: Há uma grande parte de mim que não quer se desenvolver. Como posso fazer a parte que não quer desenvolver ficar mais forte?

Sr. O.: Você deve fazer o que puder e, além disso, você não pode fazer nada. Esse "eu" que quer crescer vai crescer, mas ele pode crescer somente por causa dos seus esforços, assim ele irá de alguma forma fazer os outros “eu's” não interferirem.
P: Como posso tentar construir uma direção real, um objetivo mais forte?
Sr. O.: Mais uma vez a mesma coisa, ao construir a si mesmo, você poderá ser mais forte do que você é.
P: Nós somos uma soma de diferentes "eu's". Como saber em qual "eu" confiar? Como é possível saber se o "eu" que tomou a decisão é o certo?
Sr. O.: Não se pode saber, esse é o nosso estado. Temos de lidar com o que somos até que mudemos, mas trabalhamos com a idéia de uma possível mudança e quanto mais percebermos o estado desesperado em que nos encontramos mais energia teremos.
P: É algo que está em nós mesmos que faz não desejarmos o suficiente para mudar? Se desejássemos o suficiente conseguiríamos ajuda?
Sr. O.: Sim, sem dúvida, mas eu não colocaria assim. Você tem toda a ajuda que é possível, é a sua vez agora de trabalhar, a sua vez de fazer alguma coisa. Certamente, com condições diferentes, preparação diferente e também em diferentes circunstâncias, as coisas poderiam ser melhor organizadas, ou mais ainda poderia ser dado. Mas a questão não é o quanto é dado, mas o quanto é tirado, pois geralmente apenas uma pequena parte é tirada daquilo que é dado.

P: Se sou todo fraqueza e não tenho força, de que fonte poderei extrair a força que é necessária até mesmo para começar a trabalhar sobre mim mesmo?
Sr. O.: Temos que ter certa força. Se fôssemos apenas fraquezas então não poderímos fazer nada. Mas, ao mesmo tempo, se não tivéssemos força nenhuma não nos interessaríamos por isso. Se percebemos nossa situação, já temos certa força e um novo conhecimento aumenta essa força. Portanto, temos o bastante. Mais tarde, a força vem de novos conhecimentos, novos esforços.

Sr. O.: Se não houvessem possibilidades, então não haveria nenhuma conversa, mas há possibilidades, essa é a diferença, este é o ponto onde este sistema difere de outros sistemas existentes, pois os sistemas existentes dizem: "Faça isto" ou "Faça aquilo" ou "não faça", mas neste sistema sabemos que é impossível fazer, tudo acontece, mas sabemos que há possibilidades, não um poder definido de fazer ou não fazer, mas a possibilidade de desenvolver esse poder, portanto eu nunca neguei a possibilidade, mas disse que nós não temos o pleno poder. A possibilidade pode ser desenvolvida em determinadas circunstâncias, certas condições, mas para aproximar-se do assunto, duas coisas podem se desenvolver, o conhecimento e o ser. Primeiro o nosso conhecimento deve mudar, temos de mudar nossos pontos de vista, devemos ver as coisas como elas realmente são, não como imaginamos que elas são e ao mesmo tempo temos de trabalhar sobre nosso ser, que começa ao tentar lembrar de nós mesmos, pois esta é a primeira característica de nosso ser que encontramos, que não nos lembramos de nós mesmos. Se descobrimos que não lembramos de nós mesmos, é a partir deste ponto que começa a possibilidade de mudança de ser e assim por diante, mas é necessário distinguir entre ter algo e ter a possibilidade de ter algo, essa é a diferença.

P: O que você quis dizer quando disse que tudo na vida pode ser uma possibilidade de trabalhar?
Sr. O.: Eu quis dizer (fora em sitações extremas) as ocupações comuns, toda ocupação ordinária na vida pode se tornar o trabalho. Se tentamos não nos identificar e lembrar de nós mesmos, pouco a pouco, (não significa que podemos fazê-lo de imediato) se observarmos a nós mesmos no que quer façamos aquilo
se tornará trabalho.

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*Para a melhor compreensão da terminologia empregada por Ouspensky, é recomendada a leitura do livro: 'A Psicologia da Evolução Possível ao Homem' que encontra-se no início do blog.