sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

G. I. Gurdjieff - Duas reuniões em Paris, 1944


Gilles: Tenho pouco conhecimento de mim mesmo, especialmente de minha essência. Nunca sei como estar certo de mim mesmo. Que meio de investigação posso utilizar para saber se uma coisa vem de mim ou não?

Gurdjieff: Agora você está filosofando. É necessário começar de algo real. Agora isso é vazio para mim porque você é vazio. Você ainda não iniciou no caminho de um homem real. Isso é a edução. Sete fatores estiveram ausentes na sua formação. Posso lhe falar o primeiro. Você não foi ensinado que para você seu pai é seu Deus. Para cada homem, até uma certa idade seu pai deve ser seu Deus. Deus ama aquele que estima seu pai. Quando seu pai morre, então há um lugar no qual Deus pode entrar. Você não tem essa relação com seu pai e sua questão vem disso. Agora assuma como tarefa suprimir todos esses fatores em você que o entravam; estabeleça uma relação real com seu pai.

Sra. Debuau: Mas e se o pai for indigno, baixo?

Gurdjieff: Mesmo se ele for o pior criminoso, se ele for uma merda, o mais baixo dos homens, você deve reconhecer sua obrigação. Você não sabe porque ele se tornou assim. Aqui é uma lei. Ele criou você. Você deve sua existência a ele. E ele é responsável por sua vida em outro mundo. Se ele é o mais baixo dos homens aos olhos de todos, que assim seja, mas internamente você deve sentir sua obrigação. Você tem de restituí-lo por sua existência.

Gilles: Mas para estabelecer uma relação correta com alguém, temos que estar certos do que nós mesmos somos.

Gurdjieff: Você divide a si mesmo em duas partes. Internamente você deve não se identificar, externamente você atua um papel. Tome todas as coisas como seu guia. Sua tarefa agora é adquirir liberdade interior. Esse é o ponto de partida para ir adiante. E para isso você tem que fazer o que eu lhe disse. O que significa atuar um papel? Tente entender isso num sentido mais amplo. Faça tudo que dá prazer a ele. Se ele gosta que você senta à sua direita, sente à sua direta. Se num outro momento ele prefere o oposto, faça assim. Um papel subjetivo. Com cada pessoa o papel é diferente. Você se acostuma a cumprir obrigações. Esse é um dos aspectos do futuro de um homem livre. Não é necessário filosofar. Depois, sim. Primeiro prepare o terreno. O tereno tem sete aspectos. Depois disso, você segue como quiser. No futuro, com cada homem você deve atuar um papel, por seu egoísmo. Para fazer cada pessoa seu escravo. Você não faz o que você gosta, mas o que ela gosta.

Sra. D.: Para com nosso pai, é uma obrigação interna ou externa?

Gurdjieff: Eu disse que internamente você tem obrigações objetivas. Mas ao mesmo tempo você atua um papel com ele externamente, como com todo mundo. Isso é difícil no início, mas posteriormente você verá como tudo muda. Talvez mais tarde seu pai se tornará seu escravo, até mesmo Deus pode se tornar seu escravo.

Denise: Então atualmente não devemos fazer o que gostamos.

Gurdjieff: Você não tem tempo para satisfazer suas fraquezas. Você deve matá-las. Se você trabalhar, você não deve perder tempo com suas fraquezas. Você deve ser impiedosa.

Denise: Mesmo se o objeto for para confortar outra pessoa?

Gurdjieff: Estamos falando de nós mesmo neste momento.

Denise: Por exemplo, vivo com pessoas que falam sempre sobre devoção e ajuda mútua. Essa costumava ser a minha meta também. Agora percebo que podemos fazer muito pouco pelos outros.

Gurdjieff: É verdade, essa é uma idéia fantástica. Antes você não podia fazer nada de bom para ninguém. Agora você dá a sua palavra de não fazer nada exceto para si mesma, para colocar-se sobre suas pernas, preparar seu futuro.

Denise: Agora as pessoas consideram-me indiferente.

Gurdjieff: Então você não atuou um papel. Caso contrário elas não teriam percebido a mudança. Você está aberta. As outras pessoas não podem ver o que está acontecendo dentro de você.

Denise: São pessoas que estão sempre ao meu redor.

Gurdjieff: É exatamente com essas pessoas.

Denise: É difícil.

Gurdjieff: Coisas ruins são fáceis.

Sra. D: Quando conto para alguém algo que aconteceu comigo, sinto que o que eu disse perde a força para mim. Sinto que eu afeto os outros ao tirar coisas ruins do meu peito.

Gurdjieff: Então você atua mal seu papel.

Sra. D.: Sim, mas isso tira a força do que é ruim em mim.

Gurdjieff: Hoje você deve sacrificar tudo em prol do futuro. Todos os seus prazeres atuais. Não podemos entrar no Reino dos Céus e ao mesmo tempo comer bolos. Estabeleça boas relações com todos e aprenda a nunca se identificar. Esse será um bom instrumento para mudar a si mesma. Ao mesmo tempo isso criará em você uma certa energia que lhe permitirá trabalhar melhor. Coisas que são fáceis nunca dão energia.

Pomereu: Gostaria de saber se há alguma maneira melhor de usar a energia física do que ao fazer esportes.

Gurdjieff: Exercícios com números, nomes e assim por diante. Para fazê-los bem é necessário ter cinco vezes mais energia do que você tem.

Pomereu: Mas não fizemos esses ainda.

Gurdjieff: Bem, faça aquele que foi dado no domingo. Em meia hora eu posso bombear em você dez vezes mais energia do que você tem. Se você se sente como diz, isso mostra que você não entendeu.

Sra. D: Por um longo tempo eu não trabalhei porque achava que eu não estava fazendo o exercício de preencher o corpo da maneira correta. Então comecei outra vez.

Gurdjieff: Continue tentando. Isso vem pouco a pouco. Dez vezes pode não vir mas na décima primeira vez … você tem de fazer e fazer todos os exercícios. Primeiro você tem de ter um gosto deles e então se tornam fáceis. Siga as regras cuidadosamente, relaxe-se, e assim por diante, e isso irá ajudá-la. Mais cedo ou mais tarde você vai conseguir. Mas não devemos nos poupar.

Denise: Eu não tive realmente a sensação de preencher o corpo, mas uma sensação geral.

Gurdjieff: No início você pode usar isso.

Gerbeau: Podemos ter um conhecimento mais sutil de nossa essência? Minhas sensações misturam-se com um tipo de imaginação e com sensações muito diferentes, geralmente totalmente opostas. Como posso fazer para realizar isso melhor?

Gurdjieff: Você tem um exercício.

Gerbeau: Não consigo fazê-lo bem de modo algum.

Gurdjieff: Talvez porque você esteja pensando em outras coisas, filosofia, fantasia – você não tem nenhuma essência ainda. Você é um cãozinho, um pedacinho de cocô de um cachorro.

Gerbeau: É porque minha atenção é atraída naturalmente para coisas sutis.

Gurdjieff: Atenha-se ao dois mais dois são quatro. Você vai longe demais. Daí os mal entendidos.

A: Ainda assim de muitas maneiras permaneço no mesmo lugar.

Gurdjieff: É porque você vai à frente.

A: Relacionado ao exercício de domingo, será que não é uma questão relacionada ao sexo que me impede de fazê-lo bem?

Gurdjieff: Não filosofe. Para você especialmente, dou um exercício. Cada vez que você sentir o início de uma fraqueza, relaxe e então pense seriamente: “Desejo que o resultado de minha fraqueza torne-se minha própria força.” Isso irá acumular em você para seu trabalho futuro. Cada homem sabe que fraquezas ele tem em si. Cada vez que essa fraqueza aparecer em você, pare e faça esse exercício. É um exercício muito necessário para você. Você falará sobre isso de maneira sincera com a Madame de Salzmann um dia.

Horande: Tenho uma garotinha de quatro anos. Que papel eu deveria atuar com ela?

Gurdjieff: O papel de pai.

Horande: Mas sinto que não sou um pai real.

Gurdjieff: Seja um bom pai. Não encoraje, critique tudo, de modo que a criança não tenha imaginação. Mas internamente, você ama a criança. Dessa maneira seu amor real virá a ser.

Horande: Há momentos que eu sinto que é necessário ser severo. Em outros momentos deixo minha afeição se mostrar.

Gurdjieff: Não se deve mostra-la. Ela deve ser justa. Se você mostrar sua afeição uma vez, sua autoridade estará acabada. Você nunca deve mostrar para a criança seu ser interior. Sua fraqueza – amar, cuidar e assim por diante – deixe para todas as outras pessoas. Não você. A autoridade de um pai é algo muito importante. E dessa maneira você será um pai real.

Hignette: Não há o risco de deixar a criança muito tímida e sufocar sua personalidade?

Gurdjieff: Se ele fizer como eu expliquei, a criança não ficará assustada. Terá respeito. É uma outra qualidade de medo. Você não deve assustá-la.


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Hignette: Tenho uma turma na escola que trabalho na qual posso acompanhar os alunos bem individualmente. Alguns deles praticam o onanismo (masturbação). Como posso falar de maneira contundente para eles pararem?

Gurdjieff: Existem muitos livros nos quais essa calamidade é explicada. Encontre esses livros e leia-os para eles. Você pode reuni-los fora da sala de aula e dizer que aquele se permite fazer isso jamais será um homem real, nem um marido real. Leia para eles e advirta-os a pensar seriamente sobre isso. Sugira e prove para eles o quanto isso é danoso. Se houverem alguns que já estão habituados a isso, que não puderem ser convencidos, que não podem mais ser parados, traga-os para mim e em duas semanas eu os tiro disso – contanto que eles tenham um talão de cheques gordo.


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Gurdjieff: Quem tem alguma pergunta para fazer sobre o trabalho?

Dr. Blano: Quando faço o trabalho tenho a impressão do completo desaparecimento do meu corpo físico. Sinto duas coisas distintas, uma que é mais vasta do que minhas proporções usuais e da qual eu não conheço limites. A outra mais interna, mais limitada, capaz de me dirigir e que não tem uma forma precisa, embora seja comparável a meu corpo.
Gurdjieff: Isso que você explica agora não se parece com nosso trabalho. Se você continuar, você tem uma boa chance de logo ser um candidato para o asilo de loucos. É um estado que os espiritualistas e os teosofistas conhecem. Pare imediatamente. Você não deve esquecer que você é um corpo. Você deve sempre lembrar do seu corpo. Você ainda não possui um “eu”, nenhum “eu”. Não se esqueça disso. Apenas assim você poderá ter um futuro. Mais tarde seu corpo terá de ter um “eu” real; “eu” como qualquer homem normal deveria ter. Agora você sente a ausência do corpo, não é?
Dr. Blano: Sim.

Gurdjieff: Bem, você deve sentir seu corpo dez vezes mais. Não é necessário deixar o seu corpo. É necesário fortalecê-lo. Muitas pessoas existem como você, elas são psicopatas.
Dr. Blano: Como posso intensificar a sensação do meu corpo quando eu sentir que ele está partindo?
Gurdjieff: Lave a cabeça com água gelada. Faça uma ginástica difícil. Por exemplo, segure os braços esticados paralelos ao chão por quinze, vinte minutos, meia hora, enquanto pensa “eu sou”, “eu quero ser.” Pense isso com o corpo. Sinta o corpo. Mande embora todas as associações psicopáticas, elas são doenças, fraquezas.
Yahne: Parece-me que estou cada vez mais física. Minha única consciência é essa das minhas sensações. Na minha vida ordinária e nos meus exercícios, experimento o desconforto de estar colada às minhas funções e de não conseguir me separar delas. Como posso atingir uma vida mais espiritual?
Gurdjieff: Yahne, o que você pergunta, o que você quer, eu entendo. Você não tem o psiquismo interno do sentimento. Você quer fortalecer isso. Vou dar-lhe dois exercícios que são apenas para você, para ninguém mais. É necessário separar suas funções orgânicas de sua individualidade. Atualmente, quando você está trabalhando, quando você lembra-se de si, você tem um estado diferente do usual. É necessário separar esse dois estados. Para isso há um exercício, até mesmo toda uma série de exercícios. Aqui está o primeiro: você o realiza sentada, recostada confortavelmente numa poltrona ou num sofá. Há um ponto onde os braços estão conectados ao corpo (a região dos ombros), e um ponto onde as pernas estão conectadas ao corpo (a articulação do quadril), sinta e controle esses quatro pontos o tempo todo. Toda a sua atenção deve estar concentrada ali. Mande tudo mais para o diabo. Quando você disser “eu sou” imagine que esses quatro pontos são como quatro pilares sobre os quais está sendo suportado seu “eu sou.” Foque sua atenção, não nas extremidades nem interior do corpo. Toda a sua concentração está fixada nesses quatro locais. Faça isso por seu futuro “eu”. Para começar, aprenda a conhecer esse estado, é como uma medida, uma indicação. Você vai lembrar-se de si quando você puder sentir em esses quatro locais. Abandone todo o resto. Viva sua vida como antes. Esse é o seu único exercício, mas faça-o muito seriamente de modo que todos os momentos mais concentrados do seu trabalho estejam baseados nesses locais. Depois, você será intitulada para uma individualidade real. Essas coisas só poderiam servir de barreira entre a sua individualidade e suas ex-funções. Digo “ex” porque você deve ter uma nova qualidade de funções. O mundo todo deve ter uma nova qualidade de funções – por causa de uma vida anormal no passado. É necessário criar uma barreira. Para você, será o resultado desse exercício. Quando você sentir e estiver consciente dessa barreira, seu terreno estará preparado para um novo exercício; então você estará apta a ter um novo interior, independente, e um novo exterior, independente. Você terá um corpo normal e um psiquismo normal, sem as ex-funções anormais. Isso é apenas para ela e para ninguém mais. Não tentem fazer de curiosidade. É algo muito perigoso.
Hignette: Eu gostaria de perguntar como eu posso ter certeza de que estou lembrando de mim e de que estou trabalhando com meus três centros. Entendi, teoricamente, a necessidade dessa operação, mas gostaria de saber se existe um critério para isso.
[Pausa]
Na verdade não era bem uma questão mas uma dúvida, nem sei se valia perguntar.
Gurdjieff: Você entendeu que foi uma coisa ingênua que você perguntou? Jamais leia livros espiritualistas. Isso leva a psicopatia, a asilos de loucos. Quem tem perguntas?
Sra. Dubeau: Depois de cada vez que eu trabalho, tenho uma grande revolta e ao mesmo tempo fico muito cansada em meu corpo. O físico leva junto o psíquico e eu não consigo emergir disso.
Gurdjieff: Isso é falta de água gelada. Você não gosta de fazer isso. É uma razão importante para trazer um conflito. O organismo não gosta disso. A cabeça apenas, talvez, pede isso. Essa é a verdadeira razão para a sua revolta. Ele não sabia disso talvez, mas é assim. A cabeça procura por explicações, por razões … O corpo é muito mimado, muito indolente. Agora você tem cada dia um estado psíquico diferente. Continue por uma semana e agora com a água mais gelada.
Sra. Dubeau: E abandonei tudo dois dias atrás.
Gurdjieff: Esqueça agora que você não fez nos últimos dois dias. Seu corpo tem de pedir desculpas para seu espírito. Se ele perdoar, eu também perdoarei. Aja como se você tivesse estado doente esses dois dias. Agora eu aconselho uma coisa nova: compre todo dia, por cinco francos, um pouco de gelo e coloque na água.
Sra. Dubeau: Mas, Sr. Gurdjieff, parece-me que tudo isso que estou fazendo, toda a instrução depende da vontade da cabeça. Ela vai ficando fraca e de um momento para o outro tudo se rompe.
Gurdjieff: Sua cabeça não pode querer por muito tempo. Quando o acumulador estiver descarregado, pare. Apenas decida: eu não quero que esse animal me domine. Perdão, é seu animal indolente, é como um gato, um cachorro, um rato. Agora você sabe que você não pode estar em si mesma por um longo tempo. Tudo o que é dignificado no homem é submisso a esse animal.
Sra. Dubeau: Ainda assim, encontro boas razões para me revoltar contra o trabalho. Eu perco todas as minhas ilusões e não tenho nada tangível em troca.
Gurdjieff: O mundo todo se submete a ele. Você é parte do seu banquinho e você ainda não está sentada em outro. Sentimos muito por isso. É um estado muito ruim estar entre duas cadeiras. Confie em mim. Compre um espelho; depois disso, depois dessa, outra vida começará e outra ilusão.
Sra. Dubeau: Na vida, quando as pessoas nos causam danos, devemos dizer para nós mesmos: “eu não ligo, não é prejudicial”, ou devemos nos defender delas?
Gurdjieff: Um bom conselho: olhe para cada uma dessas ocasiões como uma maneira de trabalhar para aumentar a sua vontade. É muito fácil. Você sabe que relações você costumava ter antes, automaticamente. Hoje, responda conscientemente, se imponha conscientemente.
Sra. Dubeau: Mas da mesma maneira?
Gurdjieff: Como quiser. Bom, mau, isso não existe. Isso resultará em carregar o seu acumulador para a próxima demonstração. Quanto mais conscientemente você fizer isso, mais energia você terá e aquilo que parecia impossível para você parecerá melhor do que o esperado.
Boussique: De fato, essas últimas vezes eu tentei isso. Constatei que naquele momento eu não tinha mais identificações ou emoções negativas, que eu tinha fechado impressões de outro tipo e que eu estava me acusando..
Gurdjieff: Primeiro você deve sentir mais claramente e parar sua “idiotice”. Então você aumentará a energia no seu acumulador.
Sra. Dupré: Todos podemos fazer esse exercício?
Gurdjieff: Essa é uma boa questão. Estou feliz que você percebeu. Controle cada ato. Se você conseguir fazer conscientemente e não automaticamente, você terá um resultado bem diferente.
Aboulker: Gostaria de perguntar sobre o remorso. É muito difícil para mim sentir remorso. Por exemplo: agente imagina que ama nossos pais. O trabalho nos mostra nosso egoísmo e isso ajuda a incitar o remorso, mas para mim, não tenho tido ilusões sobre mim mesmo à um longo tempo, talvez desde os quatorze ou quinze anos. O trabalho mostrou-me que haviam coisas que eu acreditava serem totalmente egoísticas, serem algo diferente do egoísmo.
Gurdjieff: Você não pode ter o futuro que você quer sem restaurar o passado. Se você permanecer como você é, você não poderá ter futuro. Por exemplo, você diz que o trabalho mostrou-lhe uma parte em você que não é absolutamente egoística.
Aboulker: Eu não sinto, hoje, um pingo de amor por meus semelhantes.
Gurdjieff: Ah, isso e outra questão. Tome outra coisa diferente do egoísmo.
Abouker: Não tendo tido ilusões sobre os valores de meus sentimentos como filho, como irmão, essas constatações não me dão o impulso para avivar o remorso.
Gurdjieff: Você tem olhado aqui apenas para coisas grandes. É necessário olhar agora para as coisas pequenas. Sua nulidade está ligada a coisas pequenas. Algumas pequenas coisas positivas, por graus. Devemos criar um início, o egoísmo é algo muito grande.
Aboulker: Eu não quero me aventurar de uma maneira banal. É por isso que peço ajuda.
Gurdjieff: Eu entendi, doutor, eu sinceramente entendi sua necessidade. Quando você muda, quando você se torna diferente, você não pode ver isso. Quando você diz 'eu não consegui ver', quem não consegue, qual deles? Você é muitos, em você não há uma mas muitas pessoas. Tente fazer algumas estatísticas. Você é quatro pessoas. Qual pode ver, qual não pode? Quando?
Aboulker: Na grande maioria dos casos, é o eu habitual que vê o eu habitual.
Gurdjieff: O “eu habitual” não é sempre o mesmo; por exemplo, quando você comeu bem... Frequentemente falamos de três funções. Hoje lhe digo que você é quatro. Existem até mesmo sete delas ao todo. Em você, existe uma função: a do sexo. Quando uma é o chefe, quando ela dirige e governa tudo, como ela vê, ou não vê?
Aboulker: Não entendo muito bem ...
Gurdjieff: Reflita por dois dias. Não é necessário responder imediatamente. Até agora tenho falado de suas três funções, hoje falo da quarta que influencia você até mesmo mais do que a comida. A comida tem menos influência para o indivíduo do que essa quarta, do que o sexo. Hoje, seu poder está sob a subordinação dela. Você é uma função dessa coisa.
Aboulker: Como superamos isso? Não é ao “ver a nós mesmos”?
Gurdjieff: Eu lhe dei esse princípio. Talvez você tenha escolhido, para olhar em sua vida passada, uma linha em que essa qualidade de você mesmo ou de ego estava ausente. Agora eu aconselho você a convidá-la a entrar, leve-a em consideração também nas suas observações do passado. Mesmo nas suas relações com o seu pai.
Aboulker: Madame, eu não entendi totalmente o que é esse quarto fator?
Madame de Salzmann: O sexo.
Aboulker: Minha atitude com meus pacientes, a ausência de amor, o sentimento profissional. Uma vez no ano passado eu senti algo mais. Eu gostaria de encontrar isso.
Gurdjieff: Eu lhe dei uma chave para procurar no seu passado Você tem um estado sexual sempre diferente. Que resultados você tem em um estado? Que resultados em outro? Observe desse ponto de vista. Esses resultados lhe darão um valor diferente. Agora você entende?
Aboulker: Sim, senhor.
Gurdjieff: Aquele que tinha a iniciativa no passado era esse senhor. As observações irão revelar um segredo para você e esse segredo abrirá um buraco de onde irá sair o remorso de consciência.
Aboulker: Peço desculpas mas sempre temo de não ser compreendido.
Gurdjieff: Às vezes tenho a aparência de não ter entendido. É porque eu quero levar você a entender algo mais.
Aboulker: Temo que as pessoas estejam rindo de mim.
Gurdjieff: Eu não desferi nem um único golpe no seu corpo com meus pés. Doutor, quero fazê-lo ver na sua vida dois lados: um lado imundo, e o outro mais imundo ainda. O que me interessa é que você veja a si mesmo. Eu não desejo nem mesmo dar-lhe o impulso para isso. Ele deve vir de você, apenas de você. Até a próxima vez você deve pensar sobre essa nova idéia que lhe dei. Você colocará suas questões para mim novamente depois; talvez eu responderei a você à sós.
Sra. De Gaigeron: Eu gostaria de saber de onde vem essa voz interna que dita para nós o que devemos fazer e que é mais segura e estável que o instinto.
Gurdjieff: Philip, como vai? Você cresceu mais um pouco de novo. Três meses de ausência, agora você está totalmente mudado. Quando não vemos nossos filhos por um certo tempo, notamos que eles cresceram. Distinguo muitos filhos que se tornaram jovens mulheres, homens. Há alguns que até envelheceram.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Bernard de Clairvaux (São Bernardo) - Sobre a Conversão


Talvez este texto do Salmo choque algum de vocês: “Aquele que ama a perversidade odeia sua própria alma” (Sal.11:5). Mas digo que ele odeia também seu corpo. Certamente odeia o que ele está guardando para o inferno dia após dia, o que por sua dureza e impenitência do coração ele está entesourando para o dia da ira? Pois esse ódio do corpo e da alma não é muito encontrado na forma de um sentimento, e sim, é revelado por seus efeitos. Desse modo o louco odeia seu corpo quando coloca as mãos em si mesmo uma vez que seus poderes de pensamento racional estão adormecidos. Mas há alguma loucura pior do que a impenitência do coração e um desejo obstinado pelo pecado? Se um homem coloca mãos perversas em si mesmo, não é a sua carne mas é a sua mente que ele rasga e danifica. Se você já viu um homem rasgando suas mãos e depois esfregando-as até sangrarem, você tem nele uma imagem clara da alma de um pecador. O prazer transforma-se em dor e a agonia segue o comichão. Enquanto o homem estava se coçando ele ignorou as consequências, embora soubesse o que iria acontecer.

Da mesma forma nós laceramos a nós mesmos e provocamos úlceras em nossas infelizes almas com nossas próprias mãos – a única diferença é que numa criatura espiritual isso é mais sério porque sua natureza é mais fina e mais difícil de consertar. Não fizemos isso num espírito de inimizade, mas num estupor de insensibilidade interna. A mente ausente não nota o dano interno, pois ela não está olhando para dentro, mas talvez está concentrada no estomago, ou abaixo do estomago. As mentes de alguns homens estão em seus pratos, as de outros em seus bolsos. “Onde está seu tesouro,” ele diz, “ali está seu coração” (Mat.6,21). É surpreendente se uma alma não sente sua ferida quando ela não está notando o que está acontecendo a ela e está em algum lugar distante? Chegará a hora que ela retornará a si mesma e perceberá o quão cruelmente ela tem estripado a si mesma em sua busca perversa. Pois ela não podia sentir isso enquanto estava como uma aranha suja tecendo uma teia de seu próprio corpo com uma avidez insaciável para capturar seu vil espólio de moscas.

Mas esse retorno sem dúvida será após a morte, quando todos os portões do corpo - pelos quais a alma foi usada para vagar por aí e ocupar-se em buscas inúteis e sair para procurar as coisas passageiras deste mundo estarão fechados, e ela será forçada a permanecer dentro de si mesma, pois não terá meios de escapar de si mesma. Verdadeiramente, esse será o retorno mais terrível e uma miséria eterna, quando ela não poderá mais se arrepender ou fazer penitências. Pois onde não há corpo, não há possibilidade de ação. Onde não há ação, nenhuma satisfação pode ser feita. Desse modo, se arrepender é afligir-se, fazer penitências é o remédio para a tristeza. Aquele que não tem mãos não pode levantar seu coração em suas mãos para os céus. Aquele que não veio a si antes da morte da carne deve permanecer preso em si mesmo pela eternidade.

Mas ele mesmo quem? O que quer que ele tenha feito de si mesmo nesta vida, tal ele será encontrado quando abandonar esta vida, ou talvez até pior, pois ele jamais estará melhor. Pois ele tem a si mesmo. Ora ele entrega seu corpo, ora recebe-o de volta outra vez, no entanto, não para a penitência mas para a punição, onde o estado do pecado e da carne serão vistos serem tão parecidos que embora nosso corpo seja punido, seu pecado nunca poderá ser expiado e a tormenta do corpo jamais poderá ser terminada nem o corpo ser morto pela tortura. Na verdade, de fato, a represália se enfurece para sempre, pois ela não poderá jamais fazer desaparecer o pecado. Nem poderá a substância do corpo ser desgastada, pois dessa forma a aflição da carne chegaria ao fim. Irmãos, aquele que teme isso, que tenha cuidado, pois quem não tomar cuidado cairá nisso.

Atualmente devemos sentir e estrangular o verme da consciência, ao invés de alimentá-lo e assim nutri-lo para a eternidade.

Para voltar para aquela voz da qual estivemos falando, seria bom que voltássemos a nossos sentidos enquanto “está aberto o caminho pelo qual ele nos mostra sua salvação” (Sal.50,23), ele que com tal amor zeloso chama de volta aqueles que se perderam.

Enquanto isso não vamos ressentir o corroer desse verme dentro de nós. Nem deixar uma ternura perigosa da mente ou um abrandamento pernicioso nos persuadir que queremos esconder nosso presente problema. É muito melhor que ele corroa agora, quando ele pode ser destruído por corroer a si mesmo até a morte. Por ora, deixe-o corroer o material pútrido, de modo que consuma-o através de seu corroer e seja ele mesmo consumido e dessa maneira ele não começará a ser nutrido para a eternidade. “Seu verme”, é dito, “não morre e seu fogo não é extinguido” (Isa.66,24). Quem suportará o corroer?

Por ora uma consolação múltipla alivia a tortura da consciência acusadora. Deus é gentil e não permite que sejamos tentados além do que podemos suportar e nem que o verme nos cause dano demais. Especialmente no início de nossa conversão, ele unge nossas úlceras com o óleo da misericórdia, de modo que não fiquemos cientes demais da seriedade de nossa enfermidade ou da dificuldade de curá-la. De fato, o conforto de sua cura parece sorrir para o penitente. Mas após um período, isso se esvai, quando seus sentidos foram treinados e a batalha é colocada em suas próprias mãos para que ele vença e aprenda que a Sabedoria é mais forte do que todas as coisas. Entretanto, aquele que ouviu a voz do Senhor: “Voltem a si, malfeitores” (Isa 46,8), e que descobriu as perversidades no fundo de seu coração, está ávido para desenraizá-las uma a uma e está curioso para descobrir como chegaram ali. A entrada, ou as entradas, não são difíceis de encontrar se você olhar. Mas não é pouco pesar que vem dessa examinação, pois ele descobre que a morte entrou através de suas próprias janelas (Jer.9,21). Torna-se claro que os olhos acostumados a perambular, os ouvidos cheios de comichão, os prazeres do olfato, do paladar e do tato deixaram entrar muitas delas. Pois os vícios espirituais dos quais estamos falando ainda são difíceis de ver para um homem carnal . É por isso que ele percebe menos claramente ou não percebe de modo algum aquelas que são as mais sérias e sua consciência não é tão perturbada pela memória do orgulho ou da inveja bem como pela recordação de ações vergonhosas ou pervertidas.

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E eis a voz do céu dizendo: “Fique quieto, você pecou.” E isso é o que ela diz. Uma fossa transbordando contamina a casa toda com uma imundice intolerável. É inútil você esvaziá-la quando a sujeira ainda está inundando, se arrepender enquanto você não cessa de pecar. Pois quem aprova o jejum daqueles que jejuam por conflitar, disputar e punir com o punho da perversidade, que acarinham a si mesmos e fazem o que bem entendem? “Esse não é o jejum que escolhi,” diz o Senhor (Isa.58,6). Feche as janelas, tranque as portas, bloqueie todas as entradas cuidadosamente e quando por fim você não estiver lutando com a entrada de sujeira, você poderá limpar o que já está lá. Se um homem pensa que o que é pedido que ele faça é fácil, é como se ele não tivesse sabido da batalha espiritual. Pois quem pode dizer que eu não sei governar meus próprios membros? Portanto, o jejum põe um fim na glutonia e proíbe a embriaguez, os ouvidos são tapados para impedí-los de ouvir sobre o sangue, os olhos afastados da vaidade, a mão é direcionada não para a ganância mas para a caridade e é colocada para trabalhar para parar de roubar, como está escrito: “Aquele que era um ladrão não é mais, em vez disso ele trabalha com suas mãos para fazer o bem, de modo que ele tenha algo para dar aos necessitados.” (Efé.4,28)

Ao ouvir este discuso o miserável empalidece e é arrebatado pela confusão. Pois seu espirito está perturbado dentro dele. Mas os membros vão sem demora a sua infeliz senhora reclamar amargamente de seu amo e lamentar de seus duros comandos. O ávido sentido do paladar reclama da crueldade do limite imposto a ele e da proibição do prazer da glutonia. O olho reclama que lhe foi falado para chorar em vez de vagar por aí. Enquanto prosseguem essas reclamações, a vontade, agitada e ferozmente irritada, diz: “você está me contando um sonho ou uma história?” Agora a língua, que descobriu seu motivo para reclamar, diz: “É tudo como você escutou mesmo. Pois eu também fui ordenada a não contar histórias ou mentiras e daqui para frente não falar nada além do que seja sério e necessário.”

Enquanto ele promulga lei e faz decretos dessa maneira para seus próprios membros, eles repentinamente interrompem a voz que está lhes dando ordens e gritam com um impulso único: “De onde vem esta nova religião? É fácil para você dar ordens como bem entende. Mas aparecerá alguém que se oporá a elas, que irá criar novas leis para contradizê-las.” “Quem é ela?” ele pergunta. Eles respondem: “É alguém que está deitado em casa paralisado e profundamente atormentado.”


Então a pequena velha mulher pula furiosamente, esquecendo toda sua fadiga. Com os cabelos em pé, suas roupas amassadas, seus seios nus, coçando suas feridas, rangendo os dentes, com a boca seca, infetando o ar com seu hálito podre, ela pergunta por que a razão (se resta ainda alguma razão) não está envergonhada de atacar e invadir a miserável vontade. “É essa sua fidelidade conjugal?” ela questiona. “É dessa maneira que você sente compaixão por mim em meu sofrimento? Até agora você me poupou e não acrescentou dor às minhas feridas. Talvez pareceu a você que algo deve ser subtraído de meu grande dote? Mas quando você tiver levado isso embora, o que sobrará? Você meramente aumentou a miséria desta pobre criatura e sabe o quanto você já respeitou todos os meus desejos.

Mas agora, que essa maldade tripla dessa doença terrível sob a qual eu trabalho, tivesse caído sobre você e não em mim. Sou voluptuosa. Sou curiosa. Sou ambiciosa. Não há nenhuma parte de mim que esteja livre dessa úlcera tripla, das solas dos meus pés ao topo de minha cabeça. Minha garganta e as partes infames de meu corpo estão abandonadas ao prazer, temos de nomeá-las novamente uma a uma. Os pés perambulantes e os olhos indisciplinados são escravos da curiosidade. Os ouvidos e a língua servem à vaidade, enquanto que o óleo do pecador é despejado para deixar minha cabeça oleosa. Com minha língua eu mesmo complemento o que quer que os outros esqueceram de falar em meu louvor. Fico altamente contente tanto de receber louvores dos outros ou pelos outros, pois sempre gosto que falem de mim.

Para essa doença sua maior habilidade está também no hábito de aplicar muitos vestidos. Assim minhas próprias mãos, indo a toda parte não tem nenhuma tarefa particular, elas mostram estarem totalmente escravizadas ora pela vaidade, ora pela curiosidade, ora pelo prazer. Mesmo assim, nada disso jamais conseguiu satisfazer-me, pois os olhos não estão satisfeitos pelo que vêem, nem o ouvido pelo que ouvem. Mas algumas vezes é como se todo o olho ou os membros fossem transformados numa garganta para se comer. Então, de fato eu posso ter essa pequena consolação que, a despeito de minhas súplicas, você está tentando tirar de mim.” Assim ela falou e afastando-se com indignação e fúria, disse: “Eu esperarei; esperarei por um longo tempo.”


Agora a razão entende seu enfado. Agora ela percebe um pouco da dificuldade da empreitada que ela assumiu e a facilidade da qual ela pensava aparece como uma ilusão. Ela vê que a memória está cheia de imundice. Ela vê mais e mais sujeira sendo livremente despejada em si. Vê as janelas abertas para a morte e não pode fechá-las, porque a vontade ainda é fraca, embora ela ainda esteja no comando, e de suas úlceras uma massa de pus sangrenta está vazando por toda parte. Pior de tudo, a alma vê-se contaminada não por outrem, mas por seu próprio corpo, que não é nada além dela mesma. Pois a alma é constituída de tal modo, que assim como ela é a memória que é manchada, é também a vontade que destrói. Pois a alma em si não é nada além da razão, da memória e da vontade. Porém, no momento a razão encontra-se cega, pois ela não via isso até agora, e fraca, pois não pode reparar o que ela reconhece; a memória é encontrada estando podre e fétida; e a débil vontade coberta por feridas que coçam. E, para não omitir nada que pertence ao homem, seu próprio corpo se rebela e cada membro é uma janela pela qual a morte adentra a alma e incessantemente faz a confusão piorar.

Quando estiver nesse estado, deixe a alma ouvir a voz divina, com maravilhamento e surpresa deixa ouví-la dizer: “Abençoados os pobres em espírito, pois deles é o reino dos Céus” (Mat.5,3). Quem é mais pobre em espírito do que aquele que a totalidade de seu próprio espírito não encontra descanso, nenhum lugar para recostar a cabeça? (Mat.8,20) Aqui também é conselho sagrado que quem desagrada a si mesmo agrada a Deus, e aquele que odeia sua própria casa, uma casa cheia de sujeira e infelicidade, é convidado na casa da Glória, uma casa não feita com as mãos, que será eterna nos Céus. Não é surpresa se ele trema diante da grandeza de sua condescendência, que ache difícil de acreditar no que ouviu. Não é surpresa se, arrebatado pela perplexidade, ele clamar: “Então a miséria faz um homem feliz?”

Se você está nesse estado, tenha fé. Não é a miséria mas a piedade que torna um homem feliz, de modo que a humilhação vira humildade e carência vira força. “Deves reservar para tua herança uma chuva generosa, ó Deus, estava falhando, mas Tu a tornaste perfeita.” (Sal.68,9) Essa fraqueza é um benefício que busca a ajuda de um médico e aquele que enfraquece o faz para sua salvação quando Deus o aperfeiçoa.

domingo, 28 de novembro de 2010

Farid-Ud-Din Attar - O cão da alma


História sobre Schabli



Schabli desapareceu de Bagdá e ninguém conhecia seu paradeiro. Procuraram-no por muitos lugares, até que alguém o encontrou numa casa de eunucos. Com os olhos úmidos e os lábios secos, deixava-se fica entre aquela gente grosseira. “Ó tu que estudas os segredos divinos!” disseram-lhe, “é este teu lugar?” Ele respondeu: “Aos olhos do mundo, estes que tu vês não são homens nem mulheres. Eu sou como eles, pois no caminho da fé não há homem ou mulher. Perdi-me em minha inércia, e também a virilidade é para mim motivo de vergonha. Aquele cuja alma tornou-se inteligente faz de sua ferida uma toalha para a mesa do Caminho. Aquele que, como os homens da via espiritual, preferiu a desonra, redimiu e honrou os desgraçados que fraquejaram. Se queres expor-te por menos que seja aos olhos do mundo, não és melhor que um ídolo. Se te importas com louvores ou censuras, não passas de um fabricante de ídolos. Se és um homem de Deus, não sejas como o pai de Abraão. Não há, nem nas classes altas nem nas classes baixas, lugar mais elevado do que o serviço a Deus. Aplica-te a esse dever e não tenhas outra pretensão, seja um homem de Deus e não busques glória em outro lugar. Quando escondes cem ídolos sob teu manto, para que te mostrar sufi ante aos homens? Tu és eunuco, não te vistas como os homens da via espiritual enquanto não abandonares para sempre toda a leviandade.

A disputa de dois Sufis



Dois homens, vestidos com a hirka dos sufis, discutiam e insultavam-se perante o tribunal. O juiz afastou-os, dizendo: “Não é conveniente que dois sufis discutam desta maneira. Desde que levam no peito o manto da resignação, por que então se colocam em litígio? Se sois homens de combate e vingança, atirai longe esse manto. Se, ao contrario, sois dignos dele, renuncia a esta louca discussão. Eu, que sou juiz e não um homem do caminho espiritual, sinto vergonha por causa do hábito que vestis. Seria melhor concordar em divergir do que discutir usando esse manto. Da forma com agis, usar o véu das mulheres seria menos desonesto que vossa atual roupagem.”

Uma vez que, no amor, não és homem ou mulher, como poderias desvendar seus segredos? Se estás submetido a provas na via do amor, garante-te com a armadura conveniente. No entanto, se em teu caminho o amor te força à rendição, então faze-o com alegria, lança fora teu escudo; se resistires, morrerás. Se tens a pretensão de dirigir-te a este lugar, deves entregar tua cabeça ao vento e abandonar tua vida. De agora em diante não levantes a cabeça por pretensão, para que não sejas obrigado a submeter-te ao amente por infâmia.




O veho coveiro


Um coveiro praticou seu ofício até a idade avançada. Um dia alguém lhe perguntou: “Tu que passaste a vida cavando buracos na terra, o que viste de mais notável durante esse tempo?” O coveiro respondeu: “O que mais me admira de tudo o que vi é que meu cão da alma viu-me cavar túmulos durante setenta anos, mas ele próprio não morreu uma única vez nem obedeceu um só momento à lei de Deus, e isto é um prodígio!”



História sobre Abbaçah


Certa noite Abbaçah disse: “Ó vós que estais aqui presentes! Suponhamos que os infiéis que enchem o mundo, até mesmo os loquazes turcomanos, aceitem sinceramente a fé – coisa que poderia acontecer. Porém, cento e vinte mil profetas foram enviados para a alma infiel converter-se de uma vez ou perecer. E isto, embora justo, não pôde ser feito. De onde vem a diferença entre esse esforço e o resultado?”

Todos nós estamos sob o domínio dessa alma infiel e desobediente, e nós mesmos a alimentamos, será fácil então destruí-la? Amparada como está pelos dois lados, seria admirável que ela perecesse. O espírito, como um cavaleiro, percorre com constância o reino espiritual, porém, dia e noite, esta alma vil é sua comensal. Por mais que o cavaleiro faça galopar seu cavalo, esta alma, como um cão, segue-o sempre, sem descanso. Tudo o que o coração recebe do objeto de seu amor, outro tanto é tomado pela alma, do coração. No entanto, aquele que prende vigorosamente este cão colherá em sua rede o leão dos dois mundos. Aquele que subjuga este cão ultrapassa seus rivais até que eles não alcancem sequer a poeira de seu sapato, e se puder aprisioná-lo, o pó de seu sapato terá mais valor que o sangue dos outros.

Pergunta de um rei a um dervixe



Um homem comprometido na vida do espírito e coberto de farrapos ia por seu caminho quando encontrou um rei, que ao vê-lo lhe disse: “Ó tu que estás coberto de farrapos! Qual de nós é o melhor, tu ou eu?” O dervixe respondeu: “Ó ignorante! Golpeia teu peito e guarda silêncio, tuas palavras são vazias como tua cabeça. Embora não me caiba fazer meu próprio elogio, pois aquele que louva a si mesmo não sabe o que diz, devo dizer que não há dúvida de que um homem como eu é mil vezes melhor que um homem como tu. De fato, não conheces o gosto da fé e tua alma luxuriosa reduz-te ao estado de um asno. Esta alma te domina, senhor, estás curvado por seu peso, pois ela fez de ti sua montaria. Dia e noite tua cabeça está envolvida por um cabresto e só ages sob suas ordens. Tudo o que ela te ordena, a ti que não és próprio para nada, ação ou não-ação, deves fazê-lo sem réplica; mas eu, que conheço o segredo do coração, fiz do cão da alma meu asno. Quando esta alma converteu-se em meu asno, eu a montei. Teu cão da alma te governa, mas se fizeres dele tua montaria, serás então como eu e cem vezes melhor que teus semelhantes.”

Ó tu que te contentas com o cão da alma! Tu a quem o fogo da luxúria devora! Sabe que este fogo devora a água de tua honra, apaga a luz de teu coração e tira a força de teu corpo. A escuridão dos olhos e a surdez dos ouvidos, a velhice, o enfraquecimento de teu espírito, o apagar de tua inteligência, tudo isso constitui um exército e seus soldados; e estes são, na realidade, servidores do príncipe da morte. Dia e noite, sem descanso, ele envia seu exército, envia-o pela frente e por trás, e quando o exército chega por todos os lados , tombas com tua alma longe do caminho. Tu te divertes na companhia dos cães e te entregas ao prazer, porém foste convertido em escravo; o cão da alma é teu senhor e estás submetido ao seu poder. Quando o rei da morte e seu cortejo se aproximarem, este cão da alma se separará de ti, e tu dele, mas se decidires separá-los agora um do outro, estarás ainda submetido à está separação? Não te entristeças por não estarem juntos neste mundo, pois certamente ele estará contigo no inferno.

As duas raposas



Duas raposas encontraram-se e passaram a compartir a mesma comida. Juntas experimentavam tal deleite que um forte apego surgiu entre elas. Um rei que caçava na planície com suas panteras e falcões separou essas duas raposas. A fêmea perguntou então ao macho: “Ó caçador de tocas! Quando nos encontraremos de novo?” Ele respondeu enquanto abandonavam seu esconderijo: “Minha cara, se nos encontrarmos novamente será no peleteiro da cidade, pendurados numa estola.”

sábado, 20 de novembro de 2010

Ibn Arabi - O Discurso da Águia Real

Eu sou a águia.

A mim pertencem a mais elevada estação, a beleza e a luz brilhante mais resplandescente.

Carrego tudo de acordo com sua classe determinada nas fronteiras deste mundo, mas meu poder é mais inacessível.

Sou a efusão sublime dele, a luz de sua existência.

Sou aquele que chama a existência e ela obedece.

Sou aquele que nunca cessa de ser o “punhado” de meu criador,

O instrumento de sua generosidade.


As realidades apressam-se em minha direção para buscar sua suficiência.

Eu dou e retiro de quem quer que eu deseje.


Se me aproximo, a beleza do ser dele me aturde.

Se me afasto, seu esplendor me chama.

A aproximação confere sobre mim uma sabedoria amável

mas rasga o coração do elevado.

A distância investe com um comando partilhado cuja luz ilumina suas fronteiras.

Quando estou distante sou o comandante -

Minha miséria está em meu comando e minha felicidade é quando ele é removido.

O mais prazeroso de meus momentos é quando vejo as essências das novas luas emergindo.


Estava ainda não-existente como uma entidade em um dos níveis da criação quando a solicitude divina surgiu e tornou minha existência o início. Tendo se manisfestado para si mesma, minha existência foi prolongada em minha contemplação. Recebi a classificação suprema através da forma e a parte mais secreta do meu ser tornou-se seu Trono. O nome divino todo-abrangente sentou-se sobre mim. Seus dois vizires, Aquele que dá e Aquele que toma e seu dois camareiros, Aquele que confere o dano e Aquele que confere o bem, montaram em seus dois estribos. Após ter sentado e aparecido e os nomes “poderoso” e “sublime” terem sido dados a mim, a corte ficou completa. A subsistência e a aniquilação apareceram, efusão e profusão seguiram uma a outra em curso alternado e a expansão e a contração foram firmemente estabelecidas. Através do reino o rei foi confirmado, através da mensagem o anjo tornou-se manifesto e através das estrelas a esfera foi posta em movimento.


Sou o conhecimento da criação oculto no manto da inviolabilidade divina. Um bando de filósofos inventou mentiras a meu respeito e uma gangue de nobres tentou capturar-me. Eles armaram a rede de caçar aves de seus pensamentos para caçar-me e usaram contra mim os próprios meios que eu mesmo tinha lhes fornecido para ganhar do meu trabalho. E quando suas aspirações espirituais foram suficientes para me compreender em sua rede de passarinheiro de pensamentos, eles capturaram nela uma águia com minha forma do país da ilusão. Eles disseram: “Esta é a clara verdade!” Mal sabiam que a verdade não estava clara para eles e nunca estará. O conhecimento de mim e de minha existência depende do que é ofertado como um presente ou recompensado por mérito. Satã incitou-os a duvidar e eles imaginaram que tinham aterrizado no cume quando na verdade sua estação era os baixos planos. Eles consideraram enganosamente anterioridade como eternidade, declarando-me eterno e que minha existência não vai de encontro à não-existência. Abandonei-os em sua confusão “assim como carne na tábua do açougueiro.” Aqueles que cometem uma injustiça ao comando divino devem ser oprimidos! Estou livre do que eles atribuem a mim, e não acredito no que colocam. Pois Deus, seja Sua glória magnificada, era de toda a eternidade enquanto eu estava sob o decreto da não -existência. Então Ele trouxe-me à existência da não-existência através de uma precedência pré-eterna e minha essência tornou-se manifesta. Ele iluminou minha existência com seu conhecimento e proveu-me de pobreza e fraqueza, afastando-me do poder e da glória. Sou um humilde que não tem glória e o poderoso que não cessa de ser fraco.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Hafiz - Doze Poemas

Eu não quero

passar tão rápido por

essa linda linha da palma da mão de Deus

conforme movo-me pelo mercado da Terra

no dia de hoje.


Não quero tocar nenhum objeto neste mundo

sem que meus olhos prestem testemunho à verdade

de que tudo é

o meu Amado.


Algo aconteceu

com meu entendimento da existência

que agora deixa meu coração sempre cheio de maravilhamento

e benevolência.


Eu não quero

passar tão rápido

por esse lugar sagrado no corpo de Deus

que é bem debaixo de seu

próprio pé


conforme danço

com a preciosa vida

no dia de hoje.


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O amor extirpou-me completamente.

Estou jazendo no mercado como uma

garoupa fatiada,


Sem palavras,

todo desejo e toda força silenciados;

e ainda assim estou tão fresco.


Todas as coisas são agora o mesmo para mim.


Ouça:


O toque de uma linda mulher,

conforme ela me levanta para perto dela

puxando meu aroma para seu corpo,

pensa em me levar para casa.


O toque de uma mosca maravilhosa

bebendo meus fluídos vitais

através de uma flauta de formato estranho,


O sol lançando seu olhar radiante contra minha face,

vozes humanas, a brisa do rabo de um

cavalo que passa,


tudo manda correntes milagrosas

para meu mundo.


A beleza de Deus partiu-me ao meio.

Jogue Hafiz numa balança,

enrole-me num papel,

e me leve para casa.


Traga um pedaço de meu conhecimento a seus lábios

para que eu possa derreter dentro de você

e cantar.


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As estrelas foram despejadas no céu

da cartola do Mágico a noite passada

E todas elas caíram no meu cabelo.

Algumas até mesmo amaranharam meus cílios

em divertidos nós luminosos.


Viajante,

você está convidado a cortar uma mecha radiante

que recai sobre meus ombros.

Enrole-a em volta de seu coração e corpo trêmulos

que anseiam por conforto e aquecimento divinos.


Sou como um jarro de leite

nas mãos de uma mãe que o ama.


Todo o meu conteúdo agora

foi batido e transformado em sois e luas dançantes.


Incline seu pescoço e sua boca doce

para fora desse ninho escuro onde você se esconde,

despejarei esplendor em sua mente.


Venha primavera,

você pode encontrar-me rolando pelos campos

que explodem em batalhas santas

de fragrâncias, de sons – tudo é

uma supernova colorida num cordão.


Os animais da floresta escutam-me gargalhar

e entregam seus medos e instintos mais profundos,

eles vêm investindo pelos prados

para lamber minhas mãos e meu rosto,


Isso me deixa tão feliz,

fico tão feliz


que meu crescente cintilar se transforma numa varinha mágica.

Quando minhas criaturas de olhar terno vêem aquele sinal maravilhoso

todos irrompemos num cantar

e fazemos lindos sons estranhos e primais!


Meu único arrependimento neste mundo torna-se este:


Que sua timidez impede-o de colocar

seu corpo faminto diante de Deus.


E vendo o Amado ficar tão feliz

com sua coragem


que Sua barriga começa a balançar e balançar,

mais planetas começam a pular

no tapete de boas-vindas da existência,

tudo por causa

de seu precioso amor.


O Amigo transformou meu verso num pólen sagrado.

Quando uma brisa vem


falcões e borboletas

e um grupo divertido de jovens anjos

montados em lanças de esmeraldas


Voam de mim como uma grande tempestade de areia

Que pode cegá-lo para tudo menos para a Verdade!


Querido,

mesmo que você não tenha uma rede para capturar Vênus


Minha música

vai girar em torno desta Terra por centenas de anos

e cairá como detritos resplandescentes,

sementes sagradas sobre mulheres férteis.


Pois Hafiz

quer ajudá-lo a rir de todo seu

desejo.


Hafiz quer que você saiba


que sua vida

dentro dos braços de Deus,

sua dança dentro dos braços de Deus


já é Perfeita!

__________________________________

Por algum tempo

a águia voando pode dizer:


“Olhe querido, estou em casa,

o espaço não está mais sendo racionado.”


Por um tempo você pode sentir

que sou completo,


quando o toque de outro sobre certas partes

de seus campos


Tem o poder de dissolver tudo o que

é conhecido.


Penso que a inteireza,

extrai sua vida de algum lugar onde a respiração pára,


algum lugar onde a mente acaricia a luz,

onde os únicos sentidos que sobram


envergonham-se e falham

se tentam falar com nossa linguagem tão nova

que ainda está tentando

Inventar


Ainda dando forma

A seu primeiro som inteligível,

Ainda esculpindo sua primeira imagem verdadeira de Deus.


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Como é que a rosa

uma vez abriu seu coração

e deu ao mundo

toda a sua beleza?


Ela sentiu o encorajamento da luz

batendo contra seu ser.


De outro modo,

nós todos permaneceríamos

assustados de mais.


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O tempo é uma oficina

onde todos trabalham duro


para construir amor o bastante

para quebrar a

algema.



Os homens sábios continuam falando sobre

querer encontrar Ela.

As mulheres às vezes pronunciam a palavra Deus

de um modo um pouco diferente:

Elas podem usar mais sentimento e habilidade

com o coração-alaúde.


Todos os movimentos do mundo,

o aparente caos e sofrimento que conheço agora acontecem

num esplendido uníssono:


Nossos tamborins estão sendo tocados na mesma coxa.


Hafiz está numa junção neste poema.

Há mil novas rodas que eu poderia pôr

num vagão

e colocá-lo dentro

Levando você a um lampejo da cultura e da estação em outra dimensão.


Mas ainda assim Deus novamente

terá de deixar você de volta na oficina

onde você ainda tem de trabalhar com o amor.

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Há tantos presentes do seu aniversário

que ainda não foram abertos,

Há tantos presentes feitos à mão

que foram mandados para você por Deus.


O Amado não se importa de repetir:

“Tudo o que eu tenho também é seu.”


Por favor, perdoe Hafiz e o Amigo

se estouramos numa gargalhada

quando o seu coração reclama de estar com sede

quando eras atrás

cada célula de sua alma

encontrava-se eternamente mergulhada

neste oceano dourado.


De fato,

A dor de um amante é como segurar a respiração

por muito tempo

no meio de uma performance vital,


no meio de uma das músicas favoritas

da criação.


De fato, a dor de um amante é esse sono,

esse sono,

quando Deus acabou de rolar e lhe dar

tamanho beijo de bom dia!


Há tantos presentes, meu querido

que ainda não foram abertos do seu aniversário.

Ah, há tantos presentes feitos à mão

que foram mandados para a sua vida

Por Deus.

______________________________


Uma vez alguém me perguntou:


“Por que os santos buscam a aniquilação

e frequentemente são humildes

e gostam de passar seu tempo livre

sobre seus joelhos?


Eu respondi:


“É uma simples questão de etiqueta.”


Então eles disseram:


“O que você quer dizer com isso, Hafiz?


“Bem”, continuei,

“Quando a pessoa entra num templo ou numa mesquita

não é comum remover o que

calça seus pés?


Da mesma forma também acontece

com toda a mente e o corpo

(que são algo como uma sola de sapato)

quando a pessoa começa a perceber

Sobre Quem ela realmente está.


A pessoa começa

a remover o “sapato” do

Templo.”

_______________________________

O medo é o quarto mais barato da casa.

Eu gostaria de ver você vivendo

em melhores condições,


pois sua mãe e a minha

eram amigas.


Eu conheço o dono da pousada

nesta parte do universo.

Descanse um pouco esta noite,

Venha para meu verso novamente amanhã.

Nós vamos juntos falar com o amigo.


Eu não farei nenhuma promessa agora,

mas eu sei que se você rezar,

em algum lugar neste mundo

algo bom acontecerá.


Deus quer ver

mais amor e divertimento em seus olhos

pois esse é o seu maior testemunho a Ele.


Sua alma e a minha

uma vez sentaram-se juntas no útero do Amado

onde brincávamos com nossos pés.


Seu coração e o meu

são amigos muito

muito antigos.

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Não há conflito

quando a flauta está tocando

pois assim eu sei que cada movimento

emana da dança

sagrada

de Deus.


______________________________


Pense sobre isso por um segundo:


Deus (sendo Deus), tendo Conhecimento Infinito,

não apenas sabia cada pensamento e cada ação que

sua vida iria experimentar


(mesmo antes de você nascer)


mas sendo o Criador Divino, Ele também

gravou cada momento de sua existência

com Suas próprias mãos


com a precisão e o cuidado

que nenhum artista poderia ter.


Pense sobre isso por um momento:


Eu nunca escutei um pássaro ou o sol

dizerem para Deus:

sinto muito.


Parece haver uma grande recompensa

pelo pensar claro:

Toda a criação é um peão nas mãos do Amigo.


Olhe, alguém ganha asas e presentes para a música do mundo

a cada manhã;

outro transforma-se numa luz tão extraordinária

que torna-se o sustentador de um planeta inteiro,


outro faz milhares de luas corarem e enlouquecerem de amor

a noite toda

quando pode renunciar a ilusão, a muleta, do

livre arbítrio,

embora ele ainda viva (para o benefício dos outros)

o mais elevado dos códigos

morais.


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A maré do meu amor

ficou tão alta que fez-me inundar

sobre você.


Feche seus olhos por um instante

e talvez todos os seus medos e fantasias

terminarão.


Se isso acontecer

Deus se tornará uma criança em seus

braços

e então você terá que

embalar nos braços

toda a criação!

domingo, 14 de novembro de 2010

Ramesh S. Balsekar - Trechos do livro: 'Consciousness Speaks'


Pergunta: Existe Consciência no espaço físico entre você e eu?


Ramesh: Tudo o que existe é a Consciência. Você e eu somos meros objetos projetados neste espaço. Tudo o que há é a Consciência. O espaço e o tempo são meros conceitos, um mecanismo para os objetos serem estendidos. Para os objetos tri-dimensionais serem estendidos o espaço é necessário. E o tempo é necessário para os objetos serem observados. A menos que aquele objeto seja observado, ele não existe.

Então o espaço e o tempo são meramente conceitos, um mecanismo, criado para esta manifestação acontecer e ser observada.

É incrível o quanto nos últimos poucos anos, comparativamente, a ciência deslanchou. A ciência diz a mesma coisa. Ela diz que o tempo e o espaço não são reais. Acho que foi o Sr. Fred Hoyle que disse: “Se você pensa que há um passado indo para o futuro ou futuro indo para o passo, você não poderia estar mais errado. Não pode existir tal fluxo. Está tudo aí, agora.”

A metáfora mais próxima que posso sugerir é esta: Se há uma pintura de uma milha de comprimento e dez andares de altura, está tudo lá, mas para você poder vê-la do início até o fim levaria algum tempo. Porque não conseguimos ver a figura toda num relance, a mente humana não é capaz disso, pensamos em termos de tempo. Mas a coisa toda está aí.


P: E como você disse, não vemos a figura toda, estamos vendo apenas uma pequena parte dela.


R: Parte por parte. Então até você chegar ao fim o tempo transcorreu. O conceito de tempo transcorreu.


P: Então, na realidade estamos limitados pelo tempo e o espaço?


R: Correto. Limitados pelo tempo, pelo espaço e pelo intelecto.



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Pergunta: Há um ditado Zen: “Quando você carrega água, carregue água.”


Ramesh: Sim! Assim como um mestre Zen que disse: “Se você quer a iluminação vá lavar os pratos.” O que quer dizer que quando você lavar os pratos, não lave-os com suas mãos enquanto sua mente está vagando por toda parte.


P: Com ressentimento.


R: Isso não é lavar pratos. O sábio, o homem de sabedoria, tem uma atitude básica de trabalho e de vida de uma confiança respeitosa com relação à natureza e à natureza humana, a despeito das guerras, das revoluções, da fome, do aumento da criminalidade e todos os tipos de horrores. Ele não está preocupado com a noção de um pecado original e nem tem o sentimento de que a existência, samsara mesmo, é um desastre. Seu entendimento básico tem a premissa de que se você não pode confiar na natureza e nas outras pessoas, você não pode confiar em você mesmo.

Sem essa confiança como pano de fundo, uma fé no funcionamento da Totalidade, em todo o sistema da natureza, ficamos simplesmente paralisados. Afinal, não é realmente uma questão de você estando de um lado e a confiança na natureza de outro. Na verdade é uma questão de perceber que nós e a natureza somos um e o mesmo processo, não entidades separadas. Você não pode omitir um inteiro sem perturbar o sistema todo.

Em outras palavras, o universo é um processo orgânico e relacional, não um mecanismo. Ele não é de maneira nenhuma análogo a uma hierarquia política ou militar onde há um comandante supremo. Ele é múltiplo, uma rede multi-dimensional de jóias, cada uma contendo o reflexo de todas as outras. É assim que o universo tem sido descrito. Cada jóia é uma coisa-evento e entre uma coisa-evento e outra não há obstrução. A mútua interpenetração e interdependência de tudo no universo. É por isso que o Chinês diz: “Arranque uma folha de grama e você chacoalhará o universo.”

O princípio básico dessa visão orgânica do universo é que o cosmos está implícito em cada membro dele e cada ponto dele pode ser considerado como um centro. A compreensão perfeita é um holofote de luz no universo todo em seu funcionamento, exibindo-o como uma harmonia de padrões intrincados. Enquanto que a visão-lanterna da mente dividida da entidade individual ilusória vê apenas cada padrão por si mesmo, parte por parte, e conclui que o universo é uma massa de conflito. É uma visão-lanterna limitada que daria um senso de horror ao normal fenômeno universal de uma espécie no mundo biológico sendo a comida de outra. A perspectiva mais ampla, a do holofote, é a compreensão perfeita e ela veria as coisas como elas são.

O nascimento e a morte não são nada além de integração e desintegração, o aparecimento e o subsequente desaparecimento dos objetos fenomenais na manifestação. A compreensão verdadeira, a apercepção, inclui a compreensão de que não existe separação entre a compreensão e a ação.

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Pergunta: A utilização do termo “evolução espiritual” pressupõe um envolvimento com o tempo.


Ramesh: De fato, é claro. Todo o processo é na fenomenalidade tempo-espaço.


P: O que é isso que está envolvido com o tempo, é o mecanismo corpo-mente?


R: Não. O que está envolvido no tempo-espaço é a Consciência identificada, a Consciência que deliberadamente identificou-se com um organismo individual.


P: Por que isso ocorreu?


R: Para que esse lila, esse jogo, esse sonho cósmico pudesse acontecer. Esse processo de identificação é contínuo. Novas criaturas, novos seres humanos estão constantemente sendo criados e neles a identificação acontece. Essa identificação prossegue num processo de evolução. Em algum ponto a mente volta-se para dentro e o processo de desidentificação se inicia. Esse processo leva muito tempo e muitos nascimentos. Todo o jogo é identificação, depois a mente volta-se para o interior e então dá-se o processo de desidentificação. Saiba você, tudo isso é um conceito, mas pode ajudar a trazer a compreensão final.


P: Esse voltar-se para dentro é um meio de ignorar o ego?


R: Não. O voltar-se para o interior pode apenas acontecer, você vê. O voltar-se para dentro é esse processo de evolução espiritual. A evolução ocorre em todas as coisas. Há a evolução física, há a evolução na música, na arte, na ciência e há evolução espiritual.

Nessa evolução espiritual, há primeiro a identificação que ocorre através de muitos milhares de organismos corpo-mente. Quero dizer, poderiam ser centenas de milhares ou milhões, esse não é o ponto mas é que ocorre através de diversos organismos corpo-mente. E num certo organismo corpo-mente o voltar-se para dentro irá acontecer. Um pensamento ocorre ou um evento ocorre ou algo acontece, e com isso como uma aparente causa, a mente volta-se para dentro. E em vez da mente ir para fora, querendo mais e mais objetos materiais, a mente volta-se para dentro e quer conhecer sua natureza real: “Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? Qual é o sentido da vida?” Então o processo de desidentificação começa. A busca espiritual nessa evolução começa com a mente voltando-se para dentro e o indivíduo começando a buscar. E essa busca, que na verdade é o processo de desidentificação, continua através de vários processos na evolução. De um tipo de busca você vai para outro tipo de busca e passa por muitas frustrações, até que finalmente há uma compreensão repentina de que nenhum “indivíduo” jamais pode ser iluminado. A iluminação, sendo um acontecimento impessoal, pode acontecer apenas através de um objeto. Para qualquer evento poder acontecer um objeto é necessário. Assim, quando a iluminação está para acontecer um organismo corpo-mente que está pronto para receber essa iluminação é criado nesta evolução. Ele tem as características físicas, mentais, temperamentais, que tornam esse organismo corpo-mente capaz de receber a iluminação. E esse próprio organismo corpo-mente é um processo de evolução.

O início dessa compreensão, na duração, é a aceitação de que a iluminação pode não acontecer através deste organismo corpo-mente. Para um buscador é uma coisa muito difícil de aceitar, para um indivíduo buscador, mas esse é um marco importante nesse processo na dualidade. Então um “abrir mão” acontece e há um tremendo sentido de liberdade. “Se eu não posso ter a iluminação e se um objeto não pode ser iluminado, o que estou buscando?”

De modo que esse “abrir mão” acontece e essa identificação com este corpo-mente, esse “eu”, fica mais fraca. Mas um certo salto quântico acontece no processo. E o salto quântico final, que está logo antes da iluminação, é este: “não há mais busca, não há mais preocupação se a iluminação vai acontecer ou não.” Quando essa aceitação surge, o “eu” praticamente já se foi. Porque é o “eu” que é o buscador, não o organismo corpo-mente. O organismo por si mesmo é apenas um objeto inerte, necessário para a iluminação acontecer.


P: O “eu” é o “eu” enquanto houver o buscador, correto?


R: Sim, correto. Então quando a busca desaparece, o “eu” buscador também desaparece.


P: Então, esse é o ponto final, a evolução de “eu”?


R: Sim. O “eu” evolui, mas não esse “eu”.


P: Sei, quero dizer coletivamente.


R: Sim, como disse, um “eu” chamado Albert Einstein foi evoluído para a teoria da relatividade. Mas apenas para a teoria da relatividade. Para uma subsequente evolução na ciência, outros corpos-mentes foram criados. Einstein não estava pronto para aceitar o desenvolvimento ulterior da teoria quântica. Ele não podia aceitar a teoria da incerteza de Heisenberg. Einstein disse que essa teoria da incerteza significava que “Deus estava jogando dados com o universo.” Ele disse que ele não podia aceitar que Deus estava jogando dados com o universo. Niels Bohr respondeu: “Deus não está jogando dados com o universo. Nós pensamos isso porque não temos todas as informações que Deus tem!”

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Pergunta: Você pergunta frequentemente: “quem está aprisionado?” “Quem está buscando?” Eu gostaria de fazer a mesma pergunta para você.


Ramesh: É a consciência individual ou pessoal que está buscando sua fonte. A consciência, tendo identificado a si mesma num “eu” pessoal, está agora tentando recuperar sua impessoalidade. Isso é tudo que está acontecendo. E o processo torna-se mais rápido quando a mente não interfere, quando o “eu” não está presente, apenas o eu, o Eu Subjetivo está presente. O sábio Ashtavakra nos diz o que é o aprisionamento.

Ele diz: “Significa aprisionamento quando a mente deseja algo ou se aflige por algo. Significa liberação quando a mente não deseja ou se aflige, não aceita ou rejeita, não sente-se feliz ou infeliz.”

Agora, a mente humana treinada e condicionada como é, prontamente diz: “Eu não posso desejar nada, não devo rejeitar nada.” Mas a mente é incapaz de perceber que esse não-desejar algo inclui desejar o conhecimento de sua verdadeira natureza. Desejo não significa apenas desejar algum objeto mas mesmo o desejo pela iluminação. A necessidade de saber, de ter o conhecimento de sua verdadeira natureza, mesmo isso é um desejo e esse desejo acontece através do “eu”.

Significa aprisionamento quando a mente deseja algo ou se aflige por algo. A mente deseja a iluminação e se aflige pelo fato que ela ainda não se iluminou. “Eu” estou nisso a dez, doze, vinte e cinco anos e ainda assim nada está acontecendo!” A mente se aflige por esse “não acontecer”. A mente deseja ou quer algum acontecimento e se aflige pelo não acontecimento desse evento. Significa liberação quando a mente não deseja, quer ou se aflige, quando a mente está vazia, quando a mente está aberta. A mente vazia não é a mente vazia de um idiota, é uma mente aberta, o mais alerta que a mente possa estar, porque ela não está condicionada. Não está querendo nada, não está preenchida de coisa nenhuma. Não há ninguém em casa. A mente está vazia. Ela não rejeita ou aceita, não sente feliz ou infeliz.

Em seguida, Ashtavakra diz: “ Significa aprisionamento quando a mente está apegada a qualquer experiência sensorial. É liberação quando a mente está desapegada de todas as experiências sensoriais.” Novamente ele coloca isso de uma maneira tão breve. Ele não forçou-se a explicar. O sábio quer que o suposto buscador descubra isso por si mesmo. Ele não está dizendo que a experiência sensorial não surgirá. Ele não está dizendo que a iluminação impede o surgimento de qualquer experiência sensorial. O surgimento de uma experiência, de um evento, está totalmente fora do controle de qualquer organismo corpo-mente, tenha a iluminação acontecido ou não. Portanto, não é que o sábio recusa toda experiência sensorial, ela está lá. A experiência sensorial é experimentada mas a mente não está apegada àquela experiência sensorial. Ela acontece e termina. E qualquer experiência é sempre no momento presente. Qualquer experiência boa ou ruim, prazerosa ou não-prazerosa, é sempre no momento presente. Toda experiência é uma experiência impessoal. A experiência impessoal perde sua impessoalidade quando a mente-intelecto aceita essa experiência como sendo dela própria, aceita-a ou rejeita-a como boa ou ruim. Se é prazerosa ela quer que essa experiência venha mais frequentemente. Se for ruim ela rejeita-a, ela não quer. Portanto, o apego a uma experiência acontece sempre no tempo, na duração. A experiência impessoal, que é a experiência do sábio, é sempre no momento presente e quando essa experiência se vai a mente não pensa mais sobre ela. A mente está totalmente desapegada. A experiência é vista como uma experiência impessoal e naquele momento ela é terminada. A liberação é quando a mente está desapegada de todas as experiências sensoriais.

Por último Ashtavakra diz: “Quando o 'eu' está presente é aprisionamento. Quando o 'eu' não está lá é liberação. Sabendo disso o sábio mantém-se aberto para o que quer que a vida possa trazer, sem aceitar e sem rejeitar isso.”

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Pergunta: Esse sentimento íntimo e próximo que tenho de “eu”, ele de fato dissolve?

Ramesh: Ele dissolve, mas quem vai testemunhar essa dissolução? Você vê o que quero dizer? Ele de fato dissolve, portanto o que dissolve é o próprio “eu”. Quem é que sabe que o “eu” dissolveu? É apenas o “eu” que poderia experimentar isso.

P: Então o “eu” vai ir e vir e depois terminará?

R: Sim. E enquanto o “eu” vai e vem, o estado de testemunhar acontece. O “eu” é a mente, portanto, a mente não pode observar a si mesma. Se a mente observar sua própria operação, então sempre haverá comparação e julgamento: “Isso é bom, isso é ruim, isso é tal e tal.” Isso não é testemunhar. Testemunhar é meramente observar um evento ou um pensamento ou uma emoção conforme surjam, sem fazer nenhuma comparação, sem nenhum julgamento, meramente testemunhar. O testemunhar é impessoal e é vertical, portanto ele corta o envolvimento horizontal. Conforme o “eu” diminuir, o testemunhar irá acontecer mais frequentemente e por períodos mais longos. De repente chegará o momento em que as reações não mais acontecerão para um evento ou um pensamento, onde haverá um sentimento de paz, de bem-estar, mas não haverá “alguém” para sentir esse bem-estar. Não é que o “eu” repentinamente dirá: “Ah, eu desapareci!” Quem estará lá para dizer que desapareceu?

P: Mas ele dissolve?

R: Sim, mas não se você quiser que ele dissolva.